terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Critérios para insuficiência hepática aguda pediátrica: Orientações baseadas a partir do painel PODIUM 

A insuficiência hepática aguda é uma síndrome complexa, grave e rara em crianças e apresenta uma série de dificuldades para sua avaliação. As definições e conceitos relacionados a esse quadro são geralmente baseados em opiniões de experts ou adaptadas de consensos de adultos, o que não facilita o manejo baseado em evidências desses quadros. A etiologia, a fisiopatologia, o desenvolvimento da encefalopatia e os desfechos da insuficiência hepática aguda são diferentes em adultos e crianças, o que impossibilita o uso de protocolos baseados em adultos na prática pediátrica. Da mesma forma, os critérios de inclusão para definição da insuficiência hepática aguda podem ser diferentes entre adultos e crianças.

insuficiência hepática aguda

Atualizações sobre insuficiência hepática aguda pediátrica

Em janeiro de 2022, a revista Pediatrics publicou um artigo trazendo atualizações relacionadas ao quadro de insuficiência hepática aguda pediátrica realizadas pela colaboração PODIUM (Pediatric Organ Dysfunction Information Update Mandate), uma iniciativa que busca desenvolver critérios baseados em evidência científica para a disfunção orgânica em pacientes pediátricos críticos. O grupo contou com a participação de pesquisadores de 24 centros de transplante pediátricos dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Foi feita uma revisão sistemática da literatura, com inclusão de 54 estudos publicados no período de 1992 a 2020.

O artigo traz critérios para a inclusão de pacientes no diagnóstico de insuficiência hepática aguda pediátrica. Esses critérios serão abordados a seguir. 
Critério 1: Ausência de evidência de doença hepática crônica: 

Para caracterizarmos a insuficiência hepática aguda pediátrica, inicialmente devemos descartar uma história prévia de doença hepática crônica. A lesão hepática crônica agudizada pode se apresentar de forma muito semelhante à insuficiência hepática aguda, o que nos obriga a determinar, a partir de bases clínicas, as possibilidades de cada caso. Baseados em uma anamnese adequada, podemos avaliar informações como:

  • Presença de episódios de icterícia prévios;
  • Elevação prévia de enzimas hepáticas;
  • Diagnóstico de doença hepática prévia.


Na presença desses fatores, devemos estabelecer o diagnóstico de doença hepática crônica descompensada. Da mesma forma, a presença de alterações no exame físico sugestiva de doença hepática crônica, como baqueteamento digital, padrão de veia em cabeça de medusa e/ou ascite, sugerem um quadro de hipertensão portal crônica devido à uma doença hepática subjacente. Os sintomas também devem ter se iniciado em menos de oito semanas para que possamos classificar como insuficiência hepática aguda.
Critério 2: Aumento das provas de lesão hepática

Com relação aos exames de injúria hepática, alguns pontos de corte são sugeridos pelo artigo como forma de diagnóstico da insuficiência hepática aguda: 

 
  • TGO > 100 UI/mL  
  • TGO > 100 UI/mL  
  • Gama-GT > 100 Ui/mL  
  • Bilirrubina total > 5 mg/dL  
  • Bilirrubina direta > 2 mg/dL 

Apesar disso, é importante lembrar que alguns casos de insuficiência hepática aguda podem se apresentar com aumento leve ou mesmo normalidade desses indicadores, como nos casos de intoxicação por paracetamol ou galactosemia.
Critério 3: Alteração da coagulação

Com relação a coagulação, o estudo utiliza o tempo de protrombina ou o INR como marcadores de lesão dos hepatócitos, uma vez que esses exames são facilmente disponíveis e os resultados são obtidos em horas. O critério utilizado é o tempo de protrombina ≥ 15 segundos ou INR ≥ 1,5 após administração de vitamina K. Se o INR for entre 1,5 a 1,9, a encefalopatia deve estar presente. Se for ≥ 2,0, a encefalopatia não é requerida.

O uso de vitamina K é indicado para descartar a presença de deficiência nutricional ou uso de varfarina. Assim, um paciente que apresenta resposta ao uso endovenoso de vitamina K (de 1 a 10 mg, dependendo da idade do paciente) dentro de 6-8 horas da infusão pode ter descartado a insuficiência hepática aguda.
Critério 4: Encefalopatia hepática

Esse critério é extremamente importante, pois sua presença está relacionada a determinados prognósticos, como necessidade de transplante hepático e morte. Apesar disso, é um critério difícil de avaliação em crianças, principalmente nas pequenas. O artigo sugere a utilização de duas escalas dependendo da idade dos pacientes: 

 

(a) Escala de Whittington – para menores de três anos de idade; 

(b) Critério de West Haven – para maiores de três anos de idade. 

Cada uma dessas escalas leva em consideração a idade do paciente e a facilidade de avaliação de cada uma das escalas. O uso dessas escalas permite a classificação do grau de encefalopatia do paciente, o que também permite a inferência de determinados prognósticos. 

Definição de insuficiência hepática aguda pediátrica: Irá acontecer quando o paciente apresentar todos os critérios acima. 


É importante ressaltar que esses critérios para a definição da insuficiência hepática aguda não permitem determinar qual é o prognóstico da criança. Durante a admissão hospitalar de uma criança, a entrada dela nos critérios para disfunção hepática indica que a criança alcançou um limiar clínico onde três possibilidades podem ocorrer: permanecer viva com o fígado nativo, morte, ou necessidade de transplante hepático. Dessa forma, a criança deverá ser avaliada por um especialista em transplante hepático para avaliação, principalmente quando a insuficiência hepática é a causa principal de disfunção múltipla de órgãos. 





Autor: Isabel Cristina Melo Mendes
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 24/01/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/criterios-para-insuficiencia-hepatica-aguda-pediatrica-orientacoes-baseadas-a-partir-do-painel-podium%e2%80%af/




Como aplicar uma evidência na prática: decisão médica compartilhada

A nova edição da Revista PEBMED trará tudo o que o médico precisa saber sobre a Medicina Baseada em Evidências. Como forma de te deixar por dentro do que ela abordará, estamos trazendo um pouco dos principais temas. Nesse texto, comentamos o artigo sobre como aplicar a evidência na tomada de decisão médica.



Tomada de decisão médica

A tomada de decisão deve ser um processo que envolve tanto o médico quanto o paciente. Os modelos de tomada de decisão compartilhada, que consideram as preferências do paciente nas condutas médicas, diante das melhores evidências disponíveis, vêm ganhando espaço cada vez maior na prática.

Os objetivos do processo de decisão compartilhada incluem melhorar o conhecimento do paciente acerca da direção, magnitude e precisão dos efeitos do tratamento, elevando o envolvimento do paciente e reduzindo o conflito entre as recomendações do médico e as preferências e valores do paciente. Em geral, é melhor aplicada em decisões que envolvem uma avaliação do benefício contra o risco ou nas que exijam motivação e ação do paciente, como as que dependem da adesão a um tratamento específico.

Evidências e comunicação

Para que a tomada de decisão seja realmente compartilhada, o paciente precisa estar informado sobre suas opções e a forma como as informações são apresentadas pode fazer diferença. Outros fatores, como concepções prévias em relação ao risco basal de determinada condição e características pessoais, também podem influenciar a tomada de decisão.

Com isso, é preciso ter em mente que a comunicação de evidências envolve não só a interpretação adequada do significado numérico dos resultados, mas também compreender como sentimentos e emoções podem influenciar a tomada de decisão. Da mesma forma, estilo de vida, profissão e valores individuais podem influenciar na escolha por uma ou outra forma de terapia e estes não podem deixar de ser considerados e valorizados.

As ferramentas de auxílio para tomada de decisão podem ajudar no processo de decisão compartilhada, podendo ser construídas em diversas mídias. Compartilham alguns objetivos, como informar, de forma baseada em evidências, a cerca de opções disponíveis, encorajar os pacientes a participar de forma ativa no processo de tomada de decisão e ajudar os indivíduos a pensar no que eles valorizam para que suas escolhas reflitam seus valores e preferências.

A decisão compartilhada enfatiza o respeito, autonomia e o direito à participação dos pacientes nas decisões clínicas que se referem à sua saúde. A participação ativa dos pacientes na tomada de decisão é um dos pilares do processo e deve ser sempre buscada pelo médico junto ao paciente para aplicação de uma verdadeira prática clínica baseada em evidências.










Autor: Isabel Cristina Melo Mendes
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 24/01/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/como-aplicar-uma-evidencia-na-pratica-decisao-medica-compartilhada/

Mediastinite fibrosante: o que precisamos saber

A mediastinite fibrosante (MF) é uma doença rara, caracterizada pela proliferação de fibrose localmente invasiva no mediastino. Em até 80% dos casos, há relação com a histoplasmose pulmonar. Além das doenças fúngicas, a tuberculose é outra doença bastante associada à MF e pode ter evolução desfavorável a depender do caso.



Mediastinite fibrosante

A incidência da doença aumenta em áreas endêmicas para a histoplasmose. No geral, não há predileção por sexo, a faixa etária varia entre 30 e 50 anos, com uma predominância discretamente maior em negros. Nos Estados Unidos, a incidência é estimada em cerca de 3 casos de MF para cada 100.000 de histoplasma. No Brasil, a histoplasmose pulmonar é uma doença sem notificação compulsória, o que dificulta sua estimativa em nosso meio.

Além das doenças fúngicas, a tuberculose é uma das doenças mais associadas à MF, além de doenças autoimunes como a Doença de Behçet, artrite reumatoide, doença por IgG4, malignidades e procedimentos de radioterapia. A fisiopatologia da MF é incerta, acreditando-se que há uma desregulação imunológica, capaz de ativar processos inflamatórios com deposição de colágeno e formação de fibrose em estruturas mediastinais, sobretudo no mediastino médio, regiões paratraqueais e subcarinais, predominantemente à direita. Alguns autores acreditam que indivíduos predispostos desenvolvem uma resposta imunomediada aos antígenos do histoplasma, semelhante à reações de hipersensibilidade.

Diagnóstico

Os sintomas são decorrentes da compressão de estruturas locais como as vias aéreas, vasos pulmonares e a veia cava superior. Nas séries relatadas, o principal sintoma foi a tosse, seguida de dispneia aos esforços. Infecções de repetição, hemoptise e síndrome da veia cava superior (SVCS) também são relatados, com menos frequência. O exame padrão ouro para o diagnóstico da FM é a tomografia de tórax sem contraste, que demonstra lesão mediastinal com áreas de calcificação que podem comprimir os hilos e os vasos da base. A radiografia de tórax é inespecífica e a ressonância magnética do tórax possui baixa sensibilidade para detecção das calcificações. O PET-CT é um exame de grande utilidade no diagnóstico diferencial e no seguimento dos pacientes como avaliação de resposta ao tratamento. A biópsia cirúrgica é indicada em casos de suspeita de malignidade e é realizada na grande maioria dos pacientes.

Tratamento

O tratamento pode ser dividido em clínico e cirúrgico/intervencionista. O tratamento clínico é feito com antifúngicos quando há a evidência de infecção pelo histoplasma seja pelo escarro, a presença na biópsia, a sorologia positiva ou a presença de antígenos urinários. Além disso, o tratamento com imunossupressores é controverso e pode ser utilizado quando há indícios de lesões inflamatórias no PET. As drogas mais utilizadas são a prednisona, o tamoxifeno, azatioprina e o micofenolato. Atualmente não há a recomendação de prescrição de antifúngicos ou imunossupressores para os pacientes devido a escassez de evidências.

Já o tratamento cirúrgico é reservado para tratamento das consequências da doença como a colocação de stents nos vasos pulmonares e brônquios acometidos pela fibrose. A recorrência de sintomas e a necessidade de diversos procedimentos para obtenção de resultado são relatados em diversos casos. A principal causa de mortalidade é a hipertensão pulmonar secundária à estenose de veias pulmonares.





Autor: Guilherme das Posses Bridi
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 24/01/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/mediastinite-fibrosante-o-que-precisamos-saber/

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

FAPESP esclarece dúvidas sobre Auxílio à Pesquisa Projeto Inicial π

Página no portal da Fundação reúne dúvidas mais frequentes sobre as normas da nova modalidade concebida para consolidação da carreira em pesquisa em ensino, que recebe propostas até março

A FAPESP reuniu em uma nova página (https://fapesp.br/faqappi) de seu portal as dúvidas mais frequentes sobre as normas para o Auxílio à Pesquisa Projeto Inicial π, lançada no último dia 07 de dezembro.

A data também marcou a abertura de inscrições da primeira chamada para apoio a propostas selecionadas nos moldes da nova modalidade – a data limite para submissões é dia 20 de março.

Na nova página de FAQs estão reunidas 10 respostas a dúvidas com a finalidade de esclarecer pesquisadores quanto aos objetivos do Auxílio à Pesquisa Projeto Inicial π e as normas que definem o perfil e o acesso a este instrumento.

São dúvidas relativas a condições de elegibilidade, questões relativas a outorgas de bolsas no projeto, dúvidas sobre o propósito da modalidade π e, mais especificamente, sobre como seu objetivo se diferencia dos de outras modalidades como Jovem Pesquisador e Geração, com as quais possui relações de complementariedade.

O Auxílio à Pesquisa Projeto Inicial π é voltado a pesquisadores recém-contratados com excelente potencial, e tem a finalidade de financiar pesquisas de médio prazo (máximo até 60 meses) para estabelecimento de uma carreira sólida em pesquisa e ensino – por isso a chamada se propõe a contemplar projetos que integrem metas audaciosas de pesquisa com iniciativas de ensino e orientação a estudantes de pós-graduação e de graduação.

Leia a notícia em https://fapesp.br/15244.

A chamada de propostas com as normas para apresentação e seleção de propostas de Auxílio à Pesquisa Projeto Inicial π está publicada em: https://fapesp.br/projetoinicialpi.





Autor: FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 11/01/2022
Publicação Original: https://fapesp.br/15284/fapesp-esclarece-duvidas-sobre-auxilio-a-pesquisa-projeto-inicial-p

Cientistas da USP criam luva que detecta pesticidas em alimentos

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) criaram um dispositivo sensor vestível embutido em uma luva de borracha sintética capaz de detectar resíduos de pesticidas em alimentos. O trabalho, apoiado pela FAPESP, foi idealizado e liderado pelo químico Paulo Augusto Raymundo-Pereira, pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP).

O dispositivo tem três eletrodos, localizados nos dedos indicador, médio e anelar. Eles foram impressos na luva por meio de serigrafia, com uma tinta condutora de carbono, e permitem a detecção das substâncias carbendazim (fungicida da classe dos carbamatos), diuron (herbicida da classe das fenilamidas), paraquate (herbicida incluído no rol dos compostos de bipiridínio) e fenitrotiona (inseticida do grupo dos organofosforados). No Brasil, carbendazim, diuron e fenitrotiona são empregados em cultivos de cereais (trigo, arroz, milho, soja e feijão), frutas cítricas, café, algodão, cacau, banana, abacaxi, maçã e cana-de-açúcar. Já o uso de paraquate foi banido no país pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).



A análise pode ser feita diretamente em líquidos, apenas mergulhando a ponta do dedo contendo o sensor na amostra, e também em frutas, verduras e legumes, bastando tocar na superfície da amostra.

Sergio Antonio Spinola Machado, professor do Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP) e coautor da pesquisa, diz que não há nada semelhante no mercado e que os métodos mais utilizados atualmente para detecção de pesticidas se baseiam em técnicas como cromatografia (técnica analítica de separação de misturas), espectrofotometria (método óptico de análise usado em biologia e físico-química), eletroforese (técnica que utiliza um campo elétrico para separação de moléculas) ou ensaios laboratoriais.

“No entanto, essas metodologias têm custo alto, demandam mão de obra especializada e um tempo longo entre as análises e a obtenção dos resultados. Os sensores são uma alternativa às técnicas convencionais, pois, a partir de análises confiáveis, simples e robustas, fornecem informação analítica rápida, in loco e com baixo custo.”

Na luva criada pelo grupo, cada dedo é responsável pela detecção eletroquímica de uma classe de pesticida. A identificação é feita na superfície do alimento, mas em meio aquoso. “Precisamos da água, pois é necessário um eletrólito [substância capaz de formar íons positivos e negativos em solução aquosa]. Basta pingar uma gotinha no alimento e a solução estabelece o contato entre este e o sensor. A detecção é feita na interface entre o sensor e a solução”, detalha a química Nathalia Gomes, pesquisadora do IQSC-USP e integrante da equipe.

Sensores

O processo de verificação de presença de pesticidas é simples. Coloca-se um dedo de cada vez na amostra: primeiro, o indicador; depois, o médio e, por último, o anelar. No caso de um suco de frutas, basta fazer a imersão dos dedos no líquido, um de cada vez. A detecção é feita em um minuto e, no caso do dedo anelar, em menos de um minuto.

“O sensor no dedo anelar usa uma técnica mais rápida. Ele é composto por um eletrodo de carbono funcionalizado, enquanto os dos outros dois dedos por eletrodos modificados com nanoesferas de carbono [dedo indicador] e carbono printex, um tipo específico de nanopartícula de carbono [dedo médio]. Após a detecção, os dados são analisados por um software instalado no celular”, explica Raymundo-Pereira.

O pesquisador ressalta que a incorporação de materiais de carbono conferiu seletividade aos sensores, uma das propriedades mais importantes e difíceis de alcançar em dispositivos semelhantes. “Uma escolha criteriosa de materiais à base de carbono permitiu a detecção sensível e seletiva de quatro classes de pesticidas dentre os mais empregados na agricultura: carbamatos, fenilamidas [subclasse das fenilureias], compostos de bipiridínio e organofosforados. Assim, um dos diferenciais da invenção está na capacidade de detecção seletiva em presença de outros grupos de pesticidas, como triazinas, glicina substituída, triazol, estrobilurina e dinitroanilina. Com os métodos tradicionais isso não é possível.”

Outro destaque do dispositivo está na possibilidade de detecção direta, sem exigir preparo de amostra, o que torna o processo rápido. Além disso, o método preserva o alimento, permitindo o consumo após a análise.

A luva não tem prazo de validade e pode ser usada enquanto não houver danos nos sensores. Osvaldo Novais de Oliveira Junior, professor do IFSC-USP e coautor da pesquisa, explica que os sensores podem ser danificados por solventes orgânicos (como álcool e acetona) ou por algum contato mecânico impróprio na superfície do sensor (um objeto que o arranhe, por exemplo).

Mercado

Raymundo-Pereira salienta que o produto é inovador e que já está em andamento o processo de requisição de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Ele afirma que não há um procedimento simples para a detecção de pesticidas, principal razão pela qual os testes para discriminação de diferentes classes de pesticidas e outros contaminantes ainda não estão disponíveis no mercado. Para ele, o uso de dispositivos como a luva, que permitem a análise química de materiais perigosos in loco, seria relevante em aplicações alimentares, ambientais, forenses e de segurança, permitindo um rápido processo de tomada de decisão no campo.

“Representantes das agências internacionais que fazem o controle da entrada de alimentos nos diversos países do mundo já usam luvas para manipulá-los. Imagine se tivessem um sistema de sensoriamento de pesticidas embutido? Alimentos contendo pesticidas proibidos seriam descartados já na fronteira. O dispositivo pode ser usado durante a colheita também.”

Segundo o pesquisador, o custo do dispositivo é basicamente o custo da luva, sem o sensor. “Os sensores custam menos de US$ 0,1. O custo principal é a luva. Usamos uma luva nitrílica porque é menos porosa que a de látex. Com a pandemia, o preço dela disparou. E o custo individual subiu. Mas, ainda assim, o dispositivo que criamos é um produto muito barato. Mais acessível que os testes feitos atualmente.”

A pesquisa recebeu financiamento da FAPESP por meio de quatro projetos (16/01919-6; 20/09587-8; 19/01777-5; e 18/22214-6).

O artigo Selective and sensitive multiplexed detection of pesticides in food samples using wearable, flexible glove-embedded non-enzymatic sensors pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1385894720334045.




Autor: Karina Ninni
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 19/01/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/cientistas-da-usp-criam-luva-que-detecta-pesticidas-em-alimentos/37744/

Brasil registra recorde de extremos de chuva no início do verão

O número de eventos extremos de chuva no início da atual estação de verão no Brasil foi recorde, aponta levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em São José dos Campos, interior de São Paulo.

Entre 1º e 31 de dezembro de 2021, a equipe técnica do Cemaden emitiu 516 alertas de risco de desastres de origem geo-hidrológica, como deslizamentos de terra, inundações e enxurradas, para os 1.058 municípios monitorados atualmente pela instituição em todo o país. Desse total, 163 concretizaram-se em ocorrências.

Em 2020, no mesmo período, o número de alertas foi ligeiramente maior – de 539 –, mas as ocorrências foram quase 60% menores (103) em comparação com 2021.





“Tivemos emissão de alertas de risco praticamente todos os dias em dezembro de 2020 e 2021. Não me recordo de outros períodos em que tivemos tanta atividade”, diz Rafael Alexandre Ferreira Luiz, tecnologista do Cemaden.

“Se levarmos em consideração a quantidade de alertas enviados, podemos considerar que 2020, 2021 e, provavelmente, 2022 são anos em que os períodos chuvosos têm apresentado mais episódios de extremos de chuva, o que aumenta consideravelmente o risco de desastres em áreas vulneráveis do país”, avalia.

Além do aumento da frequência e da intensidade dos extremos chuvosos que têm sido observados em grande parte do Brasil nesse início de verão, outra característica que chama a atenção dos pesquisadores da instituição é a simultaneidade de eventos extremos no país causados por excesso de chuva nas regiões Norte, Sudeste e parte do Centro-Oeste, e por escassez hídrica na região Sul e parte da região Nordeste, compreendida pelos Estados de Pernambuco, Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte.

De acordo com os pesquisadores, os extremos de chuva que aconteceram no sul da Bahia – e que ocorrem agora no norte de Minas Gerais, Piauí, Tocantins e Maranhão –, além da atual seca na região Sul do país, estão associados ao La Niña. O fenômeno climático que ocorre, em média, em um intervalo de dois a sete anos, provoca uma série de alterações nos padrões de chuva e temperatura globais. No Brasil, o fenômeno causa chuvas mais abundantes no Norte e Nordeste. No Centro-Sul, provoca aumento de temperaturas e seca.

Em relação à expressiva quantidade de chuva observada recentemente no sul da Bahia, os especialistas apontam que no verão é comum a atuação de um sistema meteorológico denominado Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS).

Esse sistema é marcado pela presença de uma banda de nebulosidade e chuvas com orientação noroeste-sudeste, que normalmente se estende da Amazônia até o Sul/Sudeste do Brasil, contribuindo para grandes volumes de chuva principalmente na área geográfica compreendida pelos Estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Durante o mês de dezembro de 2021 ocorreu uma rara configuração de três episódios de ZCAS em um curto período, que oscilaram e se mantiveram predominantemente no sul da Bahia, ocasionando os extremos de precipitação fora de época naquela região.

Além disso, as ZCAS se associaram a outro sistema meteorológico de baixa pressão, denominado Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), bastante atuante no litoral nordestino nesta época do ano e que também contribuiu para a persistência das chuvas no sul da Bahia.

“Se levarmos em consideração a climatologia da região, não era esperada chuva e muito menos com o volume observado no sul da Bahia para esta época do ano”, diz à Agência FAPESP José Marengo, pesquisador do Cemaden e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – um dos INCTs financiados pela FAPESP em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Estado de São Paulo.

“As chuvas em dezembro nessa região foram abundantes, irregulares e concentradas em três períodos relativamente curtos. Em razão do volume e da intensidade delas, os impactos foram bastante altos”, avalia Marengo.

Em dezembro de 2021, foram registradas formações de três ZCAS no Nordeste, que provocaram as chuvas intensas no sul da Bahia. A primeira ocorreu entre os dias 1º e 4 de dezembro, a segunda entre os dias 7 e 11 e a terceira entre os dias 23 e 27 do mesmo mês.

“As chuvas causadas por esse último episódio de ZCAS não foram tão intensas como as do período de 7 a 11 de dezembro. Mas com as chuvas acumuladas o solo no sul da Bahia já estava muito encharcado, o que favoreceu as enxurradas e os movimentos de terra naquela região”, explica Marengo.

A posição dessas três ZCAS para essa época do ano e a ocorrência sucessiva delas também são raras, aponta Vinícius Sperling, meteorologista do Cemaden.

“Essas ZCAS deveriam estar em uma posição mais ao Sudeste, em Minas Gerais ou São Paulo, e estavam mais situadas no Nordeste”, diz Sperling.

“A ZCAS é um evento incomum de acontecer sobre a região do sul da Bahia. Ocorrer duas ou três em um mês é muito mais raro”, afirma o pesquisador.

Efeito das mudanças climáticas

Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral do Cemaden, não é possível estabelecer uma relação direta entre as ZCAS e eventos climáticos extremos isolados com as mudanças do clima. Mas, em conjunto, esses extremos climáticos sugerem a influência do aquecimento global.

“Para cada evento climático extremo recente, como as chuvas no sul da Bahia ou a onda de calor extremo no Sul do Brasil, conseguimos dar uma explicação meteorológica. Mas quando juntamos essas situações com as de anos anteriores podemos dizer que, de alguma forma, estamos sendo afetados pelas mudanças climáticas”, avalia Seluchi.

“Esses eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes e já estamos observando isso”, afirma o pesquisador.

As conclusões da contribuição do Grupo de Trabalho 1 (WG1) para o sexto relatório de avaliação (AR6) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em agosto de 2021, apontam que a intensidade e a duração de eventos climáticos extremos aumentarão mesmo se o aquecimento global se estabilizar em 1,5 ºC. Nesse cenário, haverá incremento das ondas de calor, estações quentes mais longas e temporadas de frio mais curtas.

Já com o aquecimento global de 2 ºC, os extremos de calor atingiriam mais frequentemente os limiares de tolerância crítica para a agricultura e a saúde, projetam os autores.

Com a limitação do aquecimento entre 1,5 ºC e 2 ºC, os impactos dos eventos climáticos extremos seriam menores, porque permitiria a adaptação”, ponderam os autores.

Cada meio grau adicional de aquecimento global causará aumentos estatisticamente significativos nos extremos de temperatura, na intensidade de fortes chuvas e na gravidade de secas em algumas regiões.

Em escala global, os eventos de chuva forte se intensificarão em cerca de 7% para cada grau adicional de aquecimento, uma vez que uma atmosfera mais quente é capaz de reter mais umidade, estimam os cientistas (leia mais em: agencia.fapesp.br/36533/).

“Estudos já mostram que os extremos de chuva estão aumentando nos últimos 40 ou 50 anos, particularmente no sudeste da América do Sul, e as projeções de mudanças climáticas para as próximas décadas apontam na mesma direção”, diz Marengo, que editou e revisou o capítulo 3 do relatório.

“O clima está mais irregular e essa irregularidade amplifica os riscos climáticos, o que aumenta significativamente a chance de desastres de origem geo-hidrológica no Brasil”, afirma.

“Porém, o risco de desastres também é influenciado por ações que nada têm a ver com o clima, tais como política de planejamento urbano e redução de vulnerabilidade, de modo que a população possa morar longe de áreas de alto risco de enchentes, inundações, enxurradas e deslizamentos de terra. Ou seja, o governo e os tomadores de decisão têm um papel crucial para proteger a população do alto risco climático futuro”, pondera.

O pesquisador destaca a importância de centros de monitoramento e alertas no Brasil, como o Cemaden, que podem atuar conjuntamente com órgãos de Defesa Civil das três esferas do governo e que são fundamentais para a mitigação dos impactos futuros.





Autor: Elton Alisson
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 20/01/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/brasil-registra-recorde-de-extremos-de-chuva-no-inicio-do-verao/37759/

Grupo da Unifesp desenvolve protocolo para impressão 3D de células cerebrais

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveu um protocolo para a impressão em três dimensões (3D) de células neurais. A chamada biotinta é composta de polímeros naturais que permitem aos astrócitos, um tipo de célula cerebral, sobreviver por pelo menos 14 dias em laboratório depois de passar por uma impressora 3D. O procedimento resulta num modelo mais parecido com o tecido neural do que os obtidos pelos protocolos atuais, em que as células são cultivadas em duas dimensões.

O estudo, apoiado pela FAPESP, foi publicado no Journal of Visualized Experiments (JoVE).

“No organismo, as células são tridimensionais. Mas quando cultivadas em laboratório têm plástico embaixo e meio de cultura em cima [conjunto de substâncias que permitem a sobrevivência e a proliferação celular]. Isso é muito distante da organização natural do tecido ou do órgão, em que elas estão arranjadas de maneira tridimensional. A biotinta que desenvolvemos tenta reproduzir a relação da célula com o microambiente e com outras células. É um sistema intermediário entre a cultura 2D e experimentos com animais”, explica Marimélia Porcionatto, professora da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e coordenadora do estudo.



Os astrócitos têm papel fundamental em diversos processos do cérebro, inclusive em doenças que afetam o sistema nervoso central. O procedimento padronizado pelas pesquisadoras da Unifesp pode ser adaptado para estudar outros tipos celulares e atualmente está sendo aplicado pelo grupo para analisar astrócitos e neurônios infectados com o vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19, no âmbito de outro projeto financiado pela FAPESP.

“Estamos testando diferentes biomateriais que sejam compatíveis com células do tecido neural, não apenas astrócitos, mas neurônios e células-tronco neurais. A bioimpressão é uma técnica bastante recente na engenharia de tecidos e, ainda mais os neurais, compostos por células mais sensíveis. Por isso, esse protocolo será útil tanto para quem quer trabalhar com astrócitos e outras células do cérebro quanto com outros tipos celulares”, conta Bruna Alice Gomes de Melo, primeira autora do trabalho, realizado durante seu pós-doutorado na EPM-Unifesp (leia mais em: agencia.fapesp.br/32255).

O protocolo foi desenvolvido com células de camundongos, mas usa materiais biocompatíveis que podem ser adaptados para o estudo de células humanas. Além de estudar doenças do sistema nervoso central num formato mais próximo ao do cérebro, o grupo liderado por Porcionatto busca materiais que futuramente possam recuperar áreas cerebrais lesionadas por traumatismo cranioencefálico ou acidente vascular cerebral (AVC), por exemplo (leia mais em: agencia.fapesp.br/29645).

Receita

A biotinta é composta de insumos disponíveis no mercado, como a laminina, extraída de bovinos, um componente da matriz extracelular (moléculas que se localizam entre as células). A receita inclui ainda fatores de crescimento para as células, compostos que permitem que sobrevivam em cultura.

Também conta com um produto conhecido como gelatina metacrilada. O insumo é vendido comercialmente no exterior, mas as pesquisadoras o produzem no laboratório a um custo muito inferior ao do importado. Melo recebeu treinamento para produzir a gelatina metacrilada no doutorado, conduzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mais especificamente durante estágio no Programa de Ciências da Saúde e Tecnologia das universidades Harvard e Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, apoiado por bolsa da FAPESP.

“Em outras composições, uma boa parte das células sobrevivia ao estresse da impressão em 3D e até se tornavam viáveis por um tempo, mas a morfologia dos astrócitos não condizia com a que é vista no tecido vivo. A gelatina metacrilada e a laminina foram essenciais”, diz a pesquisadora.

Depois que passa pelo bico ejetor da impressora, a biotinta, que tem aspecto de um gel, é disposta em camadas. Em poucos dias, os astrócitos começam a se replicar e têm um comportamento similar ao que apresentam no tecido nervoso.

O objetivo agora é aumentar a complexidade do protocolo. Além dos astrócitos, o estudo com SARS-CoV-2 usou uma biotinta com neurônios e uma terceira que combina os dois tipos celulares. Em breve, as pesquisadoras devem incluir na mistura células-tronco neurais.

“A ideia é chegar o mais próximo possível da complexidade do tecido neural. Quando esses protocolos estiverem bem validados com células de camundongos, poderemos criar outros com células humanas. Isso vai servir para uma variedade de estudos, como testar novos fármacos, identificar genes que são expressos durante o desenvolvimento do cérebro, modelar doenças, entre outros”, completa Porcionatto.

O trabalho teve ainda como autoras mais três bolsistas FAPESP na EPM-Unifesp: Elisa M. Cruz, de doutorado; Taís N. Ribeiro, de mestrado, e Mayara Mundim, que realizou doutorado.

O artigo 3D Bioprinting of Murine Cortical Astrocytes for Engineering Neural-Like Tissue pode ser lido em: www.jove.com/t/62691/3d-bioprinting-murine-cortical-astrocytes-for-engineering-neural-like.







Autor: André Julião
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 21/01/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/grupo-da-unifesp-desenvolve-protocolo-para-impressao-3d-de-celulas-cerebrais/37767/