quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Pesquisa confirma transmissão sexual do vírus zika em Pernambuco



Uma pesquisa realizada pela Fiocruz Pernambuco, em colaboração com a Universidade Estadual do Colorado (CSU) dos Estados Unidos, encontrou evidências científicas da importância da transmissão sexual do vírus na epidemia de zika em Pernambuco. Trata-se do primeiro estudo brasileiro a chegar a essa conclusão e o segundo no mundo a demonstrar que a transmissão sexual do vírus da zika tem um papel muito mais importante na epidemia do que se estimava inicialmente. O primeiro foi realizado em Porto Rico (2019).

Outras investigações anteriores já haviam comprovado a existência desta forma de transmissão em localidades sem a presença do mosquito vetor, o Aedes aegypti e sem indicar qual a sua relevância na epidemia. O estudo pernambucano aponta que essa contribuição é significativa. "A via sexual não parece ser unicamente responsável pelo contágio sustentado do zika, mas associada à transmissão pelo mosquito pode contribuir significativamente para a disseminação eficiente do vírus", explica a pesquisadora Tereza Magalhães (CSU e Fiocruz PE), que coordenou o projeto, ao lado dos pesquisadores Ernesto Marques (Fiocruz PE e Universidade de Pittsburgh, EUA) e Brian Foy (CSU). A pesquisa contou com financiamento do National Institutes of Health (NIH).

Além do cuidado metodológico para tentar enxergar a transmissão sexual de forma separada da vetorial, a equipe do projeto precisou superar um grande desafio no início da pesquisa: a redução drástica dos casos de zika, a partir de 2017 (em Pernambuco e em todo o país), que acabou inviabilizando a identificação de novos casos para se somarem à coorte do estudo. Assim, os investigadores precisaram buscar uma estratégia alternativa para o projeto, envolvendo participantes de uma pesquisa anterior, sobre diagnóstico de dengue, e moradores de suas residências. Realizado por Tereza e Ernesto entre maio de 2015 e maio de 2016, esse estudo recrutou pacientes atendidos na UPA de Paulista (PE) com sintomas sugestivos de dengue. O trabalho foi realizado em colaboração com o pesquisador da Universidade de Heidelberg (Alemanha) e CSU, Thomas Jaenisch.

O resultado foi surpreendente, pois, ao final das análises, 60% dentre os mais de duzentos e cinquenta pacientes estudados foram casos confirmados de infecções com os vírus zika e chikungunya, sendo pouquíssimos casos de dengue. Portanto, esse estudo se revelou um importante registro do período final da epidemia de zika e do posterior crescimento dos casos de chikungunya em Pernambuco, doenças que haviam se instalado silenciosamente na população.

A partir desse conhecimento acumulado, foram convidados os participantes dessa pesquisa anterior (denominados index), seus parceiros sexuais e até mais dois moradores da mesma residência, formando uma coorte de 425 pessoas. O objetivo foi comparar, através de sorologia, a exposição prévia dos participantes aos vírus zika e chikungunya. A hipótese era que a exposição ao zika seria maior entre os parceiros sexuais, já que esse vírus é transmitido por sexo e pela picada do mosquito. A comparação com o chikungunya foi muito importante no estudo já que não é transmitido sexualmente (somente pela picada do mosquito).

Foram coletadas amostras de sangue, realizados testes sorológicos e aplicados questionários, para responder a dois tipos de análise. Primeiro foi avaliado o risco da pessoa ser positiva para zika ou chikungunya quando morando com paciente index soropositivo para o respectivo vírus, sendo ela parceira sexual ou não. Depois, esse mesmo risco foi observado em todos os pares de uma mesma residência, independente de serem formados pelo paciente index.

Os resultados apontaram que, no caso do zika, o risco de ter sido exposto ao vírus foi significativamente maior (risco relativo de 3.9) para o parceiro sexual do que para o morador no mesmo espaço que não era parceiro sexual (risco relativo de 1.2). Para chikungunya, utilizado nessa pesquisa como "controle", o resultado foi bem diferente e o risco se mostrou igual para todos os moradores (parceiros sexuais ou não; risco relativo de 2-2.5). Na segunda parte das análises, os pares sexuais das residências tiveram uma maior probabilidade de terem sorologia concordante para o zika do que os pares sem relação sexual, fato que não foi observado com o grupo chikungunya.

Foram coletados também dados clínicos retrospectivos dos participantes. Uma das informações obtidas, em relação aos participantes soropositivos para zika, é que uma menor porcentagem de pares sexuais disse que teve sintomas típicos de arboviroses, comparando com os pares não sexuais. "Isso pode indicar que, se essas pessoas dos pares sexuais foram infectadas com o zika através de relação sexual e não da picada de mosquitos, talvez a sintomatologia seja diferente de acordo com a forma de transmissão", declara Tereza, ressaltando a importância de que esse fator seja levado em conta na fase aguda da doença. "É muito importante até para o manejo clínico, pois pode ser que o médico não consiga fazer um diagnóstico correto se avaliar somente sintomas típicos", complementa.

O estudo mostrou que a transmissão sexual do zika em áreas endêmicas, associada à transmissão vetorial, pode ter sido um dos fatores responsáveis pela rápida disseminação do vírus nas Américas e em outras regiões afetadas pela pandemia em 2015/2016.

Mais detalhes sobre a pesquisa - que contou ainda com a participação das pesquisadoras da Fiocruz PE Ana Brito, Clarice Morais e Marli Tenório, além de vários estudantes e técnicos da instituição – podem ser obtidos no artigo Follow-up household serosurvey in Northeast Brazil for Zika virus: sexual contacts of index patients have the highest risk for seropositivity.





Autor: Fiocruz Pernambuco
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 22/10/20
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-confirma-transmissao-sexual-do-virus-zika-em-pernambuco

Pantanal pode ter temperaturas elevadas em 7ºC até 2100

Pantanal pode ter temperaturas elevadas em 7ºC até 2100

Por Peter Moon, da Agência FAPESP


Modelos também sugerem que, durante o inverno no hemisfério Sul, a região poderá ter redução na quantidade de chuva de 30% a 40% (foto: Wikimedia Commons)


O Pantanal, a maior planície alagada do mundo, corre o risco de, em 2100, ver as suas temperaturas médias anuais elevadas em até 7 °C.

Tamanho aumento de temperatura implicaria uma redução sensível no regime de chuvas da região, principalmente no inverno. Tais mudanças climáticas teriam impacto sobre a evaporação da região e a própria existência do Pantanal como o conhecemos.

Essas projeções foram estimadas a partir da aplicação ao Pantanal dos modelos climáticos globais do 5º Relatório de Avaliação (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2014.

O trabalho “Climate Change Scenarios in the Pantanal”, publicado no livro Dynamics of the Pantanal Wetland in South America, é de autoria da equipe do hidrologista e meteorologista José Antonio Marengo Orsini, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em Cachoeira Paulista, e tem apoio da FAPESP e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas – que, por sua vez, é apoiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O Pantanal tem uma área de 140 mil km², 80% da qual fica no Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. É uma região semiárida. Não fosse o enorme fluxo anual de água para a região, o bioma seria tão seco quanto a caatinga nordestina. Isso não ocorre porque o Pantanal é um grande reservatório que armazena as águas que escoam dos planaltos circundantes.

Nos meses de novembro a março, na estação chuvosa, os rios transbordam, inundando até 70% da planície. É quando se formam os banhados, os lagos rasos e quando os pântanos incham. Tudo isso faz com que, nas áreas mais elevadas, surjam ilhas de vegetação, um refúgio para os animais. Grandes áreas permanecem inundadas por quatro a oito meses no ano, com uma cobertura de água que varia de uns poucos centímetros até 2 metros.

Durante a estação seca, de abril a setembro, as águas refluem para a calha dos rios e os banhados são parcialmente drenados. As águas antes represadas seguem seu curso através das bacias dos rios Paraguai e Paraná, em direção ao rio da Prata e ao Atlântico Sul. Deixam em seu lugar uma camada de sedimentos férteis que impulsionam o crescimento da vegetação e das pastagens.

Esse é o retrato do Pantanal hoje. Nele caem anualmente entre 1.000 e 1.250 milímetros de chuva. A temperatura média anual é 24 °C – sendo que a temperatura máxima, alguns dias no ano, atinge os 41 graus. O que as projeções climáticas de Marengo indicam para o futuro?

O 5º Relatório de Avaliação do IPCC projeta um aumento na temperatura média global em 2100 de 3,7º C a 4,8°C. Quando seus parâmetros são usados para analisar as variáveis climáticas específicas do Pantanal, o resultado impressiona. Até 2040, as temperaturas médias devem subir de 2º C a 3 °C. Em 2070, o aumento poderá ser de 4ºC a 5°C, atingindo em 2100 uma temperatura média 6 °C mais elevada do que a atual.

Embora haja muita incerteza com relação às projeções pluviométricas, os modelos sugerem que, durante o inverno no hemisfério Sul, o Pantanal poderá experimentar uma redução na quantidade de chuva de 30% a 40%.

A associação entre temperaturas mais elevadas e menos chuva implicará um aumento da evaporação no Pantanal. Dependendo da temperatura, volumes consideráveis de água represada poderão desaparecer, o que reduzirá a área total alagada e a quantidade de água nas porções de terra que permanecerão alagadas. “Um aumento da temperatura média de 5º C a 6 °C implicaria em deficiência hídrica, o que afetaria a biodiversidade e a população”, observa Marengo.

As consequências para a fauna e a flora poderão ser severas. Espécies vegetais pouco adaptáveis a um grau de umidade inferior ao atual poderão desaparecer ou migrar para outras regiões. Em seu lugar, germinariam outras espécies, que preferem climas mais secos.

A alteração na vegetação implicaria diretamente as populações de invertebrados e de vertebrados herbívoros – capivaras, antas que delas dependem (mas também o gado das fazendas) – , numa reação em cadeia que afetaria todos os nichos da cadeia alimentar, até atingir os predadores de topo, como os felinos, os jacarés e as aves de rapina.

Muito embora Marengo faça questão de salientar que as incertezas com relação às mudanças climáticas ainda são elevadas, especialmente no quesito do regime pluviométrico, um coisa é certa: as temperaturas globais estão aumentando e o mesmo acontecerá no Pantanal.

Como aquela planície alagada fica no centro da América do Sul, portanto longe da influência marítima que poderia ajudar a amenizar o clima, o aumento das temperaturas no Pantanal tende a ser mais dramático. “O dia mais quente do ano pode vir a ser até 10 °C mais quente do que hoje”, diz Marengo.

Se atualmente, nos dias mais quentes do verão, a temperatura no Pantanal passa fácil dos 40 °C, estamos falando em temperaturas máximas em torno ou superiores aos 50 °C. É temperatura de deserto. A maioria das plantas suporta pontualmente um calorão desses. Pontualmente.

O artigo Climate Change Scenarios in the Pantanal, de Jose A. Marengo e outros, publicado no Dynamics of the Pantanal Wetland in South America, Springer International Publishing Switzerland, (doi: 10.1007/698_2015_357), pode ser lido em http://link.springer.com/chapter/10.1007/698_2015_357.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2020




Autor: Ecodebate
Fonte: Ecodebate
Sítio Online da Publicação: Ecodebate
Data: 22/10/20
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/22/pantanal-pode-ter-temperaturas-elevadas-em-7c-ate-2100/

Conheça 4 alimentos que podem retardar o aparecimento da osteoporose

Conheça 4 alimentos que podem retardar o aparecimento da osteoporose

Fraturas recorrentes? Cuidado! Esse pode ser um sinal de osteoporose, doença que de acordo com a Fundação Internacional de Osteoporose (IOF) acomete mais de 10 milhões de brasileiros. Projeções da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) revelam que o número anual de fraturas relacionadas à osteoporose no quadril, um dos locais onde as complicações costumam ser mais graves, devem atingir 140 mil pessoas até o fim de 2020.

Por Fabiano de Abreu
Mais comum em mulheres que em homens, a osteoporose tem influência genética, mas também se desenvolve a partir de fatores de risco como tabagismo, sedentarismo, insuficiência de cálcio e vitamina D e uso de medicamentos tais quais glicocorticoides, anticonvulsivantes, quimioterápicos e doses excessivas de hormônio tireoidiano.

Caracterizado pela perda progressiva e acelerada de massa óssea, o problema é mais comum após os 40 anos e torna as fraturas mais frequentes na vida do portador, exemplifica o médico nutrólogo Dr. Sandro Ferraz.

Apesar de ter causas multifatoriais, o nutrólogo aponta que é possível prevenir a doença analisando fatores de risco, em especial má alimentação — rica em proteínas e sal e pobre em leite, derivados e vegetais verde escuros. “Fontes de Cálcio e Vitamina D são essenciais à saúde dos ossos. Apesar disso, não existe um alimento milagroso que irá combater o problema sozinho. Trata-se de um equilíbrio na dieta, que vai frear processos inflamatórios e impedir que o sistema imunológico seja alterado e a doença se desenvolva”, aponta.

Sendo assim, incluir alguns alimentos ricos em Cálcio, Magnésio e Vitamina D pode ser essencial para retardar o aparecimento da doença. Entre ele estão:

Leite: Rico em cálcio, substância que atua na formação dos ossos, o leite ajuda a retardar o processo de degeneração. Em indivíduos com mais de 50 anos, o consumo de cálcio deve ser de, em média, 1200 mg. Estima-se que um copo de leite de 250 ml de leite tenha 300 miligramas de cálcio.

Nozes e castanhas: Nestas oleaginosas, o grande aliado é o ômega-3 de origem vegetal. De acordo com pesquisa realizada na Pensilvânia, a substância pode ter efeitos protetores sobre a saúde dos ossos, assim como também contém cálcio em sua composição.

Linhaça: Sendo o alto consumo de sal um fator que pode desencadear a doença, alimentos que auxiliam na excreção dessa substância podem ser grandes aliados na prevenção. No caso da linhaça, por exemplo, o consumo regular auxilia os rins a excretar água e sódio, e assim pode proteger os ossos da perda de cálcio.

Tomate: De fácil consumo — vai bem em molhos e saladas — o tomate é uma boa fonte de minerais como magnésio, ferro, fósforo, manganês e potássio, substâncias que ajudam no processo de formação dos ossos.


Foto: EBC

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2020




Autor: Ecodebate
Fonte: Ecodebate
Sítio Online da Publicação: Ecodebate
Data: 22/10/20
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/22/conheca-4-alimentos-que-podem-retardar-o-aparecimento-da-osteoporose/

A agricultura convencional mata o solo e afeta as mudanças climáticas

A agricultura convencional mata o solo. Entrevista com Antonio Donato Nobre

“Mais importante do que ser multidisciplinar é ser não-disciplinar, isto é, integrar e dissolver as “disciplinas” em um saber amplo e articulado, sem fronteiras artificiais e domínios de egos”, afirma o cientista do CCST/Inpe.



O conhecimento científico não pode cegar a complexa relação entre os inúmeros ecossistemas presentes no planeta. “Tal abordagem gera soluções autistas que não se comunicam, tumores exuberantes cuja expansão danifica tudo que está em volta. Assim, a tecnociência olha o mundo com um microscópio grudado em seus olhos, vê pixel, mas ignora a paisagem”, afirma Antonio Donato Nobre, cientista do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – CCST/Inpe.

“A maior parte da agricultura tecnificada adotada pelo agronegócio é pobre em relação à complexidade natural. Ela elimina de saída a capacidade dos organismos manejados de interferir beneficamente no ambiente, introduzindo desequilíbrios e produzindo danos em muitos níveis”, analisa, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Para Nobre, a saída não é abandonar a ciência e a tecnologia produtiva de alimentos, mas sim associá-las e integrá-las a sistemas complexos de vidas em ecossistemas do Planeta. É entender, por exemplo, que a criação de áreas de plantio e produção agropecuária impactarão na chamada “equação do clima”. “É preciso remover os microscópios dos olhos, olhar o conjunto, perceber as conexões e, assim, aplicar o conhecimento de forma sábia e benéfica”, aponta.

Antonio Donato Nobre é cientista do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – CCST/Inpe, autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, lançado no final de 2014.

Tem atuado na divulgação e popularização da ciência, em temas como a Bomba biótica de umidade e sua importância para a valorização das grandes florestas, e os Rios Aéreos de vapor, que transferem umidade da Amazônia para as regiões produtivas do Brasil.

Foi relator nos estudos sobre o Código Florestal promovidos pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC e Academia Brasileira de Ciências. Possui graduação em Agronomia pela Universidade de São Paulo, mestrado em Biologia Tropical (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e é PhD em Earth System Sciences (Biogeochemistry) pela University of New Hampshire.

Atualmente é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e pesquisador Visitante no Centro de Ciência do Sistema Terrestre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os impactos da produção agrícola nas mudanças climáticas? Quais os riscos que o modelo do agronegócio (baseado nas grandes propriedades e produção em larga escala de uma só cultura por vez) representa?



Antonio Donato Nobre – A ocupação desordenada das paisagens produz pesados impactos no funcionamento do sistema de suporte à vida na Terra. A expansão das atividades agrícolas — quase sempre associada à devastação das florestas que têm maior importância na regulação climática — tem consequências que se fazem sentir cada vez mais, e serão devastadoras se não mudarmos a prática da agricultura.

A natureza, ao longo de bilhões de anos, evoluiu um sofisticadíssimo sistema vivo de condicionamento do conforto ambiental. Biodiversidade é o outro nome para competência tecnológica na regulação climática. A maior parte da agricultura tecnificada adotada pelo agronegócio é pobre em relação à complexidade natural. Ela elimina de saída a capacidade dos organismos manejados de interferir beneficamente no ambiente, introduzindo desequilíbrios e produzindo danos em muitos níveis.

IHU On-Line – Como aliar agricultura e pecuária à preservação de florestas e outros ecossistemas? Como o novo Código Florestal brasileiro se insere nesse contexto?

Antonio Donato Nobre – Extensa literatura científica mostra muitos caminhos para unir com vantagens agricultura, criação de animais e a preservação das florestas e de outros importantes ecossistemas. Esse conhecimento disponível assevera não haver conflito legítimo entre proteção dos ecossistemas e produção agrícola. Muito ao contrário, a melhor ciência demonstra a dependência umbilical da agricultura aos serviços ambientais providos pelos ecossistemas nativos.

Em 2012, contrariando a vontade da sociedade, o congresso revogou o código florestal de 1965. A introdução de uma nova lei florestal lasciva e juridicamente confusa já está produzindo efeitos danosos, como aumentos intoleráveis no desmatamento e a eliminação da exigência, ou o estímulo à procrastinação, no que se refere à recuperação de áreas degradadas. Mas a proteção e recuperação de florestas tem direto impacto sobre o regime de chuvas.

Incrível, portanto, que a agricultura, atividade que primeiro sofrerá com o clima inóspito que já bate às portas do Brasil, tenha sido justamente aquela que destruiu e continua destruindo os ecossistemas produtores de clima amigo. Enquanto estiver em vigor essa irresponsável e inconstitucional nova lei florestal, a degradação ambiental somente vai piorar.

IHU On-Line – De que forma o conhecimento mais detalhado sobre as formas de vida, e a relação entre elas, em florestas, como a amazônica, pode inspirar formas mais eficientes de produção de alimentos e, ao mesmo tempo, minimizar impactos ambientais?

Antonio Donato Nobre – A biomimética é uma nova área da tecnologia que copia e adapta soluções engenhosas encontradas pelos organismos para resolver desafios existenciais. Janine Benyus, a pioneira popularizadora desse saber, antes ignorado, costuma dizer que os designs encontrados na natureza são resultados de 3,8 bilhões de anos de evolução tecnológica. Durante esse tempo, somente subsistiram soluções efetivas e eficazes, que de saída determinaram a superioridade da tecnologia natural.

Ora, a agricultura precisa redescobrir a potência sustentável e produtiva que é o manejo inteligente de agroecossistemas inspirados nos ecossistemas naturais, ao invés de se divorciar deste vasto campo de conhecimento e soluções, como fez com seus agrossistemas empobrecidos, envenenados e que exploram organismos geneticamente aberrantes.

IHU On-Line – Qual o papel do solo na “composição da equação do clima” no planeta? Em que medida o desequilíbrio do solo pode influenciar nas mudanças climáticas?

Antonio Donato Nobre – Microrganismos e plantas têm incrível capacidade para adaptar-se ao substrato, seja solo, sedimento ou mesmo rocha. Essa adaptação gera simultaneamente uma formação e condicionamento do substrato, o que o torna fértil para a vida vicejar ali. O metabolismo dos ecossistemas, incluindo sua relação com o substrato, tem íntima relação com os ciclos globais de elementos químicos. A composição e funcionamento da atmosfera depende, para sua estabilidade dinâmica, portanto, para o conforto e favorecimento da própria vida, do funcionamento ótimo dos ecossistemas naturais.

Na equação do clima, os ecossistemas são os órgãos indispensáveis que geram a homeostase ou equilíbrio planetário. A agricultura convencional extermina aquela vida que tem capacidade regulatória, mata o solo, fator chave para sua própria sustentação, e introduz de forma reducionista e irresponsável nutrientes hipersolúveis, substâncias tóxicas desconhecidas da natureza e organismos que podem ser chamados de Frankensteins genéticos.

Todos estes insumos tornam as monoculturas do agronegócio sem qualquer função reguladora para o clima, e muito pior, devido à pesada emissão de gases-estufa e perturbações as mais variadas nos ciclos globais de nutrientes, a agricultura tecnificada é extremamente prejudicial para a estabilidade climática.

IHU On-Line – Desde a perspectiva do antropoceno , como avalia a relação do ser humano com as demais formas de vida do planeta hoje? Qual o papel da tecnologia e da ciência nessa relação?

Antonio Donato Nobre – Esta nova era foi batizada de antropoceno porque os seres humanos tornaram-se capazes de alterações massivas na delgada película esférica que nos permitiu a existência e nos dá abrigo. O maior drama da ocupação humana do ambiente superficial da Terra é que tal capacidade está destruindo o sistema de suporte à vida, sistema esse dependente 100% de todas demais espécies as quais o ser humano tem massacrado em sua expansão explosiva.

Infelizmente, na expansão do antropoceno, o conhecimento científico tem sido apropriado de forma gananciosa por mentes limitadas e arrogantes, e empregado no desenvolvimento sinistro de tecnologias e engenharias que por absoluta ignorância tornaram-se incapazes de valorizar o capital natural da Terra. Este comportamento autodestrutivo tem direta relação com a visão de ganho em curto prazo e a ilusão de poder auferida na aplicação autista de agulhas tecnológicas.

IHU On-Line – Em que medida a aproximação entre ciência e saberes indígenas pode contribuir para um novo caminho em termos de preservação do planeta e produção de alimentos?

Antonio Donato Nobre – Cada pesquisador sincero, inteligente e com mente aberta deve reconhecer a máxima milenar da sabedoria socrática: “somente sei que nada sei”. O conhecimento verdadeiro e sem limites internos impõe uma postura sóbria e humilde diante da enormidade da complexidade do mundo e da natureza. Hoje, a ciência mais avançada dá inteiro e detalhado suporte ao saber ancestral de sociedades tribais, que perduraram por milênios. Descer do salto alto da arrogância que fermentou graças ao individualismo permitirá reconhecer essa sabedoria básica de sustentabilidade, preservada no saber indígena.

Para a ciência, a aprender com o saber nativo está a veneração pela sabedoria da Mãe Terra; a intuição despretensiosa que capta o essencial da complexidade em princípios simples e elegantes; e sua capacidade holística e lúdica de articular a miríade de componentes do ambiente em uma constelação coerente e funcional de elos significativos.

IHU On-Line – De que forma a tecnociência e a tecnocracia impactam na forma de observar o planeta? O que isso significa para a humanidade?

Antonio Donato Nobre – A ciência é esta fascinante aventura humana na busca do conhecimento, evoluída aceleradamente a partir do renascimento na Europa. Muitas são suas virtudes e incríveis suas aplicações. No entanto, tais brilhos parecem infelizmente vir acompanhados quase sempre de alucinantes danos colaterais, nem sempre reconhecidos como tal. Na ciência, que gera o conhecimento básico; na tecnologia, que aplica criativamente esse conhecimento; e na engenharia, que transforma conhecimento em realidade, grassa uma anomalia reducionista que permite a hipertrofia de soluções pontuais, desconectadas entre si e do conjunto.

Tal abordagem gera soluções autistas que não se comunicam, tumores exuberantes cuja expansão danifica tudo que está em volta. Assim, a tecnociência olha o mundo com um microscópio grudado em seus olhos, vê pixel, mas ignora a paisagem. Abre caminhos para que ânimos restritos se apropriem de conhecimentos parciais e destruam o mundo. É preciso remover os microscópios dos olhos, olhar o conjunto, perceber as conexões e, assim, aplicar o conhecimento de forma sábia e benéfica.

IHU On-Line – De que forma conceitos como a Ecologia Integral, presentes na Encíclica Laudato Si’ , do papa Francisco, contribuem para o desenvolvimento de uma visão sistêmica do ser humano sobre o planeta? Qual a importância de uma perspectiva multidisciplinar acerca da temática ambiental?
Antonio Donato Nobre – Ecologia Integral deve significar o que o nome diz. Aliás, se não for integral não pode ser denominada ecologia.

Isso porque na natureza não existe isolamento, cada partícula, cada componente, cada organismo e cada sistema interage com os demais, sob o sábio comando das leis fundamentais. Por isso a ação humana pode gerar um acorde harmonioso na grande sinfonia universal, ou — se desrespeitar as leis — tornar-se fonte de perturbação e destruição.

Mais importante do que ser multidisciplinar é ser não-disciplinar, isto é, integrar e dissolver as “disciplinas” em um saber amplo e articulado, sem fronteiras artificiais e domínios de egos. A ciência verdadeira é aquela oriunda do livre pensar, do profundo sentir e do intuir espontâneo. A busca da verdade está ao alcance de todas as pessoas, não é nem deveria ser território exclusivo dos iniciados na ciência. Todos somos dotados da capacidade de inquirir e temos como promessa de realização o dom da consciência. Cientistas são facilitadores, e como tal deveriam servir aos semelhantes com boa vontade, iluminando o caminho do conhecimento, guiando na direção do saber.

IHU On-Line – Como avalia a agroecologia no Brasil hoje? O que a ciência e a tecnologia oferecem em termos de avanços para esse campo?

Antonio Donato Nobre – Agroecologia, agrofloresta sintrópica, sistemas agroflorestais, agricultura biodinâmica, trofobiose, agricultura orgânica, agricultura sustentável etc. compõem um rico repertório de abordagens que convergem na aspiração de emular em agroecossistemas a riqueza e funcionamento dos ecossistemas naturais. Uma parte dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos autistas de até então pode ser aproveitada para essa nova era de agricultura produtiva, iluminada, respeitadora, harmônica e saudável.

É preciso, porém, que o isolamento acabe, que os conhecimentos sejam transparentes, integrados, articulados, simplificados e recolocados em perspectiva. Se as agulhas tecnológicas foram danosas, como os transgênicos, por exemplo, ainda assim serão úteis para sabermos o que “não” fazer. Na compreensão em detalhe das bases moleculares da vida, abrindo portais para consciência sobre a complexidade astronômica existente e atuante em todos os organismos, a humanidade terá finalmente a prova irrefutável para o acerto das abordagens holísticas e ecológicas.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Antonio Donato Nobre – É preciso iluminar e revelar a imensa teia de mentiras criada em torno da revolução verde com seus exuberantes tumores tecnológicos. As falsidades suportadas por corporações, governos, mídia e educação bitoladora desde a mais tenra idade, implantaram um sistema mundial de dominação que, literalmente, enfia goela abaixo da humanidade um menu infernal de alimentos portadores de doenças.

Esse triunfante modelo de negócio não se contenta em somente alimentar mal, o faz via quantidades crescentes de produtos animais, os quais requerem imensas áreas e grandes quantidades de água e outros insumos para serem produzidos.

Com isso a pegada humana no planeta torna-se destrutiva e insuportável, e a consequência já se faz sentir no clima como falência múltipla de órgãos. Apesar disso, creio que ainda temos uma pequena chance de evitar o pior se, como humanidade, dermos apoio irrestrito para a busca da verdade.

Precisamos de uma operação Lava Jato no campo, e a ciência tem todas as ferramentas para apoiar esse esforço de sobrevivência.





Autor: Ecodebate
Fonte: Ecodebate
Sítio Online da Publicação: Ecodebate
Data: 22/10/20
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/22/a-agricultura-convencional-mata-o-solo-e-afeta-as-mudancas-climaticas/

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Brasil lança programa inédito de medicina de precisão



O programa Genomas Brasil é uma iniciativa inovadora que, a partir de um banco de dados com 100 mil genomas, permitirá, no futuro, antecipar diagnósticos de doenças antes mesmo dos primeiros sintomas 


O Governo Federal lançou, nesta quarta-feira (14), no Palácio do Planalto, o Programa Nacional de Genômica e Saúde de Precisão. Denominado de Genomas Brasil, o programa aperfeiçoará o entendimento das variações genéticas típicas da população brasileira, e possibilitando, futuramente, o acesso a tratamentos personalizados no Sistema Único de Saúde (SUS). Dessa forma, será possível, por exemplo, identificar suscetibilidades do indivíduo em desenvolver determinadas doenças antes mesmo dos primeiros sintomas aparecerem. O investimento previsto para os primeiros quatro anos é de, pelo menos, R$ 600 milhões.

“O programa Genomas Brasil representa um grande avanço no diagnóstico, na prevenção e no tratamento de doenças. Essa iniciativa vai mudar a medicina realizada hoje no país e vai trazer precisão ao tratamento dos brasileiros. É primeiro grande passo para o Brasil entrar na elite da área de terapia avançada da genômica no mundo”, destacou o presidente da República, Jair Bolsonaro.

A principal meta do Genomas Brasil para os próximos quatro anos é a criação de um banco de dados nacional com 100 mil genomas completos de brasileiros. Esse banco de dados permitirá compreender a relação entre genes e doenças na população, trazendo para o SUS benefícios como o acesso a diagnósticos mais precisos, a capacidade de prever e prevenir doenças e a personalização do tratamento com base na informação genética.

O banco de dados sequenciará genes de portadores de doenças raras, cardíacas, câncer e infectocontagiosas, como a Covid-19. Essas doenças foram escolhidas devido a elevada carga de casos no país e pelos elevados custos que geram ao SUS. “Estamos efetivamente focados em construir o maior banco de sequencias genéticas do mundo, mapeamento o DNA de 100 mil brasileiros em quatro anos. Isso vai nos dar capacidade de precisar a medicina. Nós precisamos dar o remédio certo, na dose certa e personalizado à população. Com esta medida estamos buscando fazer a saúde que o brasileiro merece no futuro”, ressaltou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

A medicina de precisão torna o diagnóstico mais exato ao utilizar dados genéticos das pessoas, permitindo a personalização do tratamento, e tornando todo o processo mais seguro e eficaz. Neste setor da medicina é possível observar e compreender o comportamento das doenças, para que, a longo prazo, o melhor tratamento, ou até mesmo a cura de algumas dessas doenças possa ser alcançada.

SOBRE O PROGRAMA

O Genomas Brasil irá trabalhar com três frentes para criar um cenário que permita implementar a saúde de precisão no SUS. A primeira fase visa fortalecer as áreas de ciência e tecnologia no Brasil, apoiando financeiramente a execução de pesquisas e formação de pesquisadores altamente qualificados. Para isso, o Ministério da Saúde firmou acordo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) este ano em que disponibilizou mais de R$ 71 milhões do seu orçamento para viabilizar ações de fomento à pesquisa e à capacitação de pesquisadores.

A primeira ação desta parceria foi o lançamento da Chamada Pública n° 26/2020 pelo CNPq, em agosto, que disponibilizará R$ 47,2 milhões para apoiar pesquisas que visem gerar produtos inovadores de terapias avançadas consideradas estratégicas para o SUS.

A iniciativa também conta com a parceria e incentivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que apoiará o projeto na atração e regulação de recursos privados para o programa, com o objetivo de fomentar a inovação em saúde no país. Entre as iniciativas do BNDES está uma chamada pública no valor aproximado de R$ 50 milhões para o sequenciamento genético da população brasileira, o apoio na estruturação do modelo de participação da iniciativa privada no financiamento e na pesquisa de saúde de precisão e o fomento a startups na área de genômica via o Programa BNDES Garagem.

A segunda etapa visa estabelecer um projeto piloto de pesquisa para avaliar a viabilidade de implementação de serviço de genômica e saúde de precisão no SUS, além de qualificar os profissionais da rede pública para a medicina personalizada e de precisão. Os participantes da pesquisa que terão seus genomas sequenciados serão recrutados diretamente dos serviços da rede pública que cuidam dos pacientes com doenças raras, cardiovasculares, oncológicas e infectocontagiosas do SUS. O projeto piloto é inspirado no Projeto 100.000 Genomas do Reino Unido, iniciado em 2012.

A terceira fase consiste em fortalecer e estimular a indústria brasileira de genômica e saúde de precisão. O Genomas Brasil irá criar um programa de pré-aceleração de startups, visando estimular ideias inovadoras, estimulando a indústria nacional. O programa irá criar um consórcio pré-competitivo de inovação com empresas nacionais e internacionais para agregar valor aos dados genômicos do programa, estimulando, assim, a economia do setor no país.

DIVERSIDADE BRASILEIRA

No Brasil, a população possui uma das maiores miscigenações no mundo, já que é caracterizada por grande diversidade étnica. Nesse contexto, o Programa Genomas Brasil se propõe a explorar as especificidades genéticas da população brasileira, composta por fragmentos de diferentes genomas subcontinentais (europeu, ameríndio, africano e asiático), para garantir o acesso à saúde de precisão e, consequentemente, o cuidado ao paciente de forma individualizada, levando em conta o histórico de saúde e a relação dos dados clínicos, genéticos e o estilo de vida.

Para estabelecer o genoma de referência da população brasileira, o Genomas Brasil irá utilizar as experiências prévias financiadas pela pasta. A escolha desses projetos de pesquisas deve-se à existência clínica detalhada das populações estudadas e amostras biológicas previamente coletadas. Para obter o máximo benefício, o programa reunirá experiência de grupos de pesquisas de excelência, distribuídos em diversos estados do Brasil e em diferentes instituições, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), universidades públicas e institutos de pesquisas do governo federal.


Por Nicole Beraldo, da Agência Saúde
Assessoria de Imprensa
(61) 3315-2535/2351




Autor: Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministério da Saúde
Data: 08/10/20
Publicação Original: https://antigo.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/47613-brasil-lanca-programa-inedito-de-medicina-de-precisao-2

Superação e autocuidado: mulheres com câncer de mama compartilham histórias no Outubro Rosa



Ministério da Saúde reforça importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado durante o mês destinado à saúde da mulher


Mulheres que ainda lutam ou que já venceram o câncer de mama compartilham histórias de superação. Durante o Outubro Rosa, a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento adequado é reforçada, para incentivar a população feminina a olhar para si e dar atenção ao seu corpo.

A campanha do Ministério da Saúde para reforçar o autocuidado das mulheres no mês de outubro, alertou Silvana Alves Viana, de 47 anos, no ano passado. “O câncer é uma doença silenciosa. Em determinado momento, eu falei que pelo menos o ‘toque nas mamas’ eu iria me propor a fazer com frequência. Em um desses que eu fiz, eu vi que tinha um nódulo”, conta a consultora, que ficou atenta aos sinais do próprio corpo, após a campanha de conscientização.

Para ela, o câncer foi uma experiência transformadora - para o bem e para o mal - que a proporcionou ver a vida de outra forma. Hoje, Silvana relata a conscientização que a doença lhe trouxe por conta do diagnóstico precoce.

“Eu acho que eu descobri o câncer, a tempo ainda de não ter um tratamento mais agressivo, por causa dessas campanhas. Se tem algo importante para ser feito é reforçar esse tipo de comunicação. Quanto mais cedo você descobrir, maior o percentual de cura”, concluiu a consultora, que segue em tratamento.
PREVENÇÃO

O Ministério da Saúde recomenda que mulheres entre 50 e 69 anos façam a mamografia a cada dois anos, mesmo que não apresentem sintomas da doença. Foi através de um exame preventivo que, em 2015, a bibliotecária Rosa Maria de Abreu Carvalho, de 58 anos, descobriu que estava com câncer de mama.

“Descobri a doença quando ela estava bem no início, por conta de o diagnóstico ter saído de um exame preventivo. Eu sou do tipo ‘dos males o menor’: retirei a mama toda, a esquerda, e já coloquei a prótese”, contou Rosa, dizendo que o humor e a autoestima lhe ajudaram a superar o tratamento com quimioterapia e radioterapia.

Rosa pede que as mulheres não tenham receio de um possível diagnóstico positivo: “Faça o exame de toque, que pode detectar já bem no início alguma alteração na mama. Tudo tem que ser diagnosticado, não tenham medo”, reforça.

“A campanha do Outubro Rosa na televisão, no seu trabalho, em um folheto, é muito importante para ela se lembrar de olhar para si própria, para se cuidar, porque a prevenção ainda é o melhor remédio”, concluiu a bibliotecária.
ATENDIMENTO

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferta atenção integral à prevenção e ao tratamento do câncer de mama. A assistência passa pelo diagnóstico precoce e pelo rastreio mamográfico, quando indicado pelo médico.

Enfermeira há 30 anos, Maria Lúcia Pereira Machado Nobre, de 56 anos, é uma das profissionais de saúde responsáveis por cuidar das brasileiras na Atenção Primária. No atendimento, ela acolhe as mulheres e monitora se as pacientes fizeram os exames preventivos das mamas e do colo do útero.

“A gente faz um primeiro atendimento e vai ver todo o estado dessa mulher. A gente não vai ver só a questão do preventivo, vai ver o lado emocional, psicológico. Vai ver essa mulher como um todo”, explica a enfermeira da Unidade Básica de Saúde (UBS) Nova Colina, em Sobradinho (DF).

Lúcia, como gosta de ser chamada e é conhecida por colegas e pacientes, relembra as mulheres que foram atendidas em sua sala e que tiveram diagnósticos positivos para câncer de mama.

“Eu tive casos de mulheres que detectaram casos de câncer e que já tinha muitos anos que elas não faziam o preventivo. Eram mulheres que vinham várias vezes aqui na unidade, mas acompanhando outras pessoas. Eu sempre bato muito na tecla da necessidade de a mulher conhecer o seu corpo. Essa questão do toque eu acho muito importante”.

Para a enfermeira, a campanha do Outubro Rosa faz toda a diferença nos cuidados da saúde da mulher. Mas ela ressalta que o alerta deve ficar ligado durante o ano todo.

“Em todo o atendimento a gente fala que não precisa ser no Outubro Rosa, mas a gente sabe que esse mês é um momento que tem essa intensificação, é quando as mulheres procuram mais”, diz Lúcia.

Saiba mais sobre câncer de mama e do colo do útero em www.inca.gov.br.




Por Marina Pagno
Ministério da Saúde
(61) 3315-3580/2005




Autor: Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministério da Saúde
Data: 08/10/20
Publicação Original: https://antigo.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/47588-superacao-e-autocuidado-mulheres-com-cancer-de-mama-compartilham-historias-no-outubro-rosa

Como identificar alergia a medicamentos em crianças

Como identificar alergia a medicamentos em crianças
Embora os sintomas das alergias a medicamentos sejam semelhantes em crianças e adultos, com vermelhidão no corpo, algumas vezes acompanhadas de coceira, ou mesmo placas de urticária ou inchaço nos olhos, lábios etc., as reações a medicamentos são menos frequentes na infância quando comparadas à fase adulta.

Outro aspecto que diferencia é que as mulheres são as mais acometidas e, na infância, não há predileção por gênero.

A Dra. Mara Morelo, médica alergista membro do Departamento Científico de Alergia a Medicamentos da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), conta que alguns estudos sugerem que crianças de menor idade teriam maior risco para reações adversas a medicamentos, porém o nível de evidência não é alto.

“São necessários mais estudos para avaliar esse dado. Em uma revisão recente da literatura, foi observada uma prevalência de autorrelato de reações a medicamentos em 10% de adultos contra 5,1% de crianças. Quando a investigação dessa prevalência foi realizada em unidades de saúde (pacientes internados e ambulatoriais), ela foi um pouco maior (7,1% em crianças), mas ainda menor quando comparada a dos adultos (16,8%). Entretanto, após uma investigação completa baseada na história clínica e testes diagnósticos, ambas as prevalências reduzem bastante, ou seja, a hipersensibilidade verdadeira é bem menor do que a autorreferida”, explica a especialista.

Medicamentos que mais causam alergias – Um estudo na América Latina que incluiu centros brasileiros mostra que os anti-inflamatórios foram as principais causas de reações a medicamentos, mesmo em crianças. “Por isso, é importante tomar medicamentos somente com prescrição médica, mesmo que seja para tratamento de uma dor ou febre”, alerta Dra. Mara.

Assim como em adultos, os anti-inflamatórios e os antibióticos, especialmente os do grupo dos beta-lactâmicos (como penicilina, amoxicilina etc.), são os que mais desencadeiam reações alérgicas.

Segundo a especialista da ASBAI, felizmente, as reações graves são mais raras. As reações alérgicas a medicamentos são divididas em dois grupos: as que ocorrem rapidamente após o uso do medicamento (em minutos a poucas horas) e as que ocorrem após várias horas ou dias.

“Entre as reações graves que ocorrem rapidamente, nós podemos citar a anafilaxia (o paciente apresenta além das alterações na pele, manifestações como falta de ar, chiado no peito, vômitos, palpitações, queda da pressão arterial, podendo inclusive evoluir para óbito). Entre as reações tardias, observamos manifestações cutâneas mais graves, como lesões bolhosas no corpo e acometimento de órgãos internos como fígado, rins etc. Muitas vezes, essas reações tardias são de difícil diagnóstico, pois o intervalo entre o início da medicação e dos sintomas é mais longo”, explica Dra. Mara.

Como identificar a alergia ao antibiótico?

O primeiro passo é verificar se realmente a criança tem alergia a antibióticos. Isso é feito através de uma história clínica bem detalhada, buscando esclarecer quais foram os sinais e sintomas apresentados pela criança.

A médica alergista conta que, muitas vezes, a criança apresenta manifestações cutâneas que foram desencadeadas por uma infecção e não pelo medicamento em si. A partir da história, os alergistas poderão indicar testes específicos para esclarecer o diagnóstico.

“Esses testes podem ser realizados na pele ou mesmo oferecendo a medicação suspeita para confirmar ou afastar a alergia, o que é conhecido como teste de provocação oral. Sempre deve ser realizado por alergistas treinados em local apropriado para o tratamento de uma eventual reação adversa”, alerta a especialista.

Após o diagnóstico preciso, pode-se receitar antibiótico mais indicado para aquela criança. Caso se confirme a alergia a um antibiótico, é possível indicar um antibiótico de outra classe que não faça reação cruzada com o anterior.

“Alergia a Medicamentos na Infância” é um dos temas que será abordado durante o 47º Congresso Brasileiro de Alergia e Imunologia, que acontece entre os dias os dias 31 de outubro e 02 de novembro. Por razão da pandemia causada pelo novo coronavírus, pela primeira vez, após 48 anos de existência, o Congresso será realizado no formato online.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/10/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 21/10/20
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/21/como-identificar-alergia-a-medicamentos-em-criancas/