quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Coronavírus: como está a corrida dos cientistas em busca de uma vacina para a doença


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Cientistas estão correndo para desenvolver uma vacina que funciona contra novo vírus

Um novo vírus mortal que já deixou milhares de pessoas infectadas e para qual ainda não há cura ou vacina.

Não é a primeira vez que algo do tipo acontece.

Somente nos últimos cinco anos, o mundo enfrentou surtos de ebola, zika, outro coronavírus chamado Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), e, agora, o vírus simplesmente conhecido como "2019-nCoV".

O vírus já infectou milhares de pessoas, sobretudo na China, e matou mais de 100.

Mas, diferentemente de muitos surtos anteriores, em que as vacinas para proteger as pessoas levaram anos para ser desenvolvidas, a pesquisa de um antídoto para ajudar a conter esse surto começou poucas horas após a identificação do vírus.

As autoridades chinesas divulgaram seu código genético rapidamente. Essa informação ajuda os cientistas a determinar de onde o vírus provavelmente veio, como ele pode sofrer mutações à medida que o surto se desenvolve e como proteger as pessoas contra ele.

Com os avanços tecnológicos e um maior compromisso dos governos de todo o mundo em financiar pesquisas sobre doenças desconhecidas, centros de pesquisa foram capazes de entrar em ação rapidamente.


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Cientistas esperam ter vacina pronta para testes em humanos já no início de junho
Velocidade sem precedentes

No laboratório da Inovio em San Diego, cientistas estão usando um tipo relativamente novo de tecnologia de DNA para desenvolver uma potencial vacina. Ela é chamada atualmente de "INO-4800" — e há planos para iniciar testes em humanos já no início de junho.

Kate Broderick, vice-presidente sênior de pesquisa e desenvolvimento da Inovio, diz: "Depois que a China forneceu a sequência de DNA desse vírus, conseguimos colocá-lo na tecnologia de computador do nosso laboratório e projetar uma vacina em três horas".





Principais perguntas e respostas sobre surto de coronavírus que matou mais de 100 pessoas

"Nossas vacinas são inovadoras porque usam sequências de DNA do vírus para atingir partes específicas do patógeno contra as quais acreditamos que o corpo terá a resposta mais forte", diz Broderick.

"Em seguida, usamos as células do próprio paciente para se tornar uma fábrica da vacina, fortalecendo os mecanismos de resposta natural do corpo."

Cientistas esperam ter uma vacina pronta para testar em humanos no início de junho

A Inovio diz que, se os testes iniciais em humanos forem bem-sucedidos, serão realizados testes maiores, idealmente em um cenário de surto na China "até o final do ano".

É impossível prever se esse surto já terá terminado. Mas se não houver imprevistos no cronograma da Inovio, a empresa diz que será a mais rápida nova vacina já desenvolvida e testada em uma situação de surto.

Quando um vírus semelhante surgiu pela última vez — o da Sars em 2002 —, a China demorou a deixar o mundo saber o que estava acontecendo. Então, quando uma nova vacina começou a ser desenvolvida, o surto estava quase no fim.


Image captionCientistas no laboratório da Inovio em San Diego, na Califórnia (EUA)

A linha do tempo de 2019-nCoV
31 de dezembro de 2019 - China alerta a Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre uma série de casos semelhantes a pneumonia em Wuhan
1º de janeiro de 2020 - É fechado mercado de frutos do mar/animais em Wuhan, que se acredita estar no centro do surto
9 de janeiro - OMS diz que a infecção é causada por um novo tipo de coronavírus
10 de janeiro - China compartilha o código genético do novo vírus
11 de janeiro - Cientistas começam a trabalhar em uma vacina; primeira morte é confirmada
13 de janeiro - Vírus se espalha para o exterior pela primeira vez, com um caso na Tailândia

O trabalho nesses laboratórios está sendo financiado pela Coalizão de Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi), que é composta e financiada por governos e organizações filantrópicas de todo o mundo.

Essa iniciativa foi criada após o surto de ebola na África Ocidental para fornecer financiamento e acelerar o desenvolvimento de vacinas para novas doenças.

Melanie Saville, diretora de pesquisa e desenvolvimento de vacinas do Cepi, diz: "A missão é garantir que os surtos não sejam mais uma ameaça à humanidade e desenvolver vacinas para doenças infecciosas emergentes".


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Fermentadores cultivam bactérias para fornecer principal ingrediente de uma vacina
'Grampo molecular'

O Cepi também está financiando outros dois programas que estão desenvolvendo uma vacina para esse novo coronavírus.

A Universidade de Queensland, na Austrália, está trabalhando em uma vacina "grampo molecular", que permitiria "a produção direcionada e rápida de vacinas contra vários patógenos virais".

Fermentadores cultivam bactérias para fornecer o principal ingrediente de uma vacina.

A Moderna Inc, em Massachusetts, também se uniu ao Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA para acelerar sua pesquisa.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) está coordenando essa busca global por uma nova vacina. O órgão ligado à ONU diz estar acompanhando o progresso de várias instalações de pesquisa, incluindo as três apoiadas pelo Cepi.


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Embora os esforços para criar uma vacina para esse novo coronavírus tenham sido acelerados, a pesquisa ainda está em um estágio inicial em todas as instalações da corrida para encontrar uma nova vacina. Os ensaios clínicos levam tempo e têm maior impacto em um ambiente de surto.

Não há garantias de que nada do que está sendo feito até agora seja seguro e eficaz o suficiente para ser usado no surto na China.

Ana Maria Henao-Restrepo, do programa de Emergências em Saúde da OMS, disse: "Desenvolvemos uma estrutura para informar as decisões sobre quais vacinas experimentais devem ser testadas primeiro".

"Os especialistas vão considerar vários critérios, incluindo perfil de segurança aceitável, indução de respostas imunes apropriadas e disponibilidade oportuna de suprimentos suficientes de doses de vacina".

"Compreender a doença, seus reservatórios, sua transmissão, sua gravidade clínica e o desenvolvimento de medidas eficazes é fundamental para o controle do surto".

A OMS deve decidir qual vacina será testada em humanos primeiro nos próximos dias.



Autor: Tulip Mazumdar
Fonte: Repórter de Saúde em San Diego, EUA
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 30/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51298516

Coronavírus: o diário de uma moradora de Wuhan sobre viver confinada na 'cidade-fantasma'



Guo Jing vive em Wuhan, cidade chinesa que é o epicentro do surto de coronavírus, epidemia que está deixando o mundo todo em alerta.

Até agora, mais de 7 mil casos foram confirmados em 16 países, e 170 mortes foram registradas, todas na China.

Wuhan está isolada desde 23 de janeiro, em uma espécie de quarentena, como parte das medidas tomadas pelo governo chinês para tentar conter a propagação do vírus. O transporte público parou de circular, a maioria das lojas e empresas está fechada, e os moradores estão sendo aconselhados a ficar em casa.

Jing é uma assistente social de 29 anos que mora sozinha. Ela está escrevendo um diário desde que o confinamento começou — e compartilha aqui com a BBC.


Há muitas notícias que causam irritação. Muitos pacientes não podem ser hospitalizados após receberem o diagnóstico [por falta de vagas]. Muitos pacientes com febre não estão sendo tratados adequadamente.

Tem muito mais gente usando máscara cirúrgica. Alguns amigos me aconselharam a estocar suprimentos. Noodles (tipo de macarrão) e arroz estão quase em falta.


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Medo do coronavírus leva à escassez de máscaras cirúrgicas na China

Um homem estava comprando vários pacotes de sal e alguém perguntou por que ele estava comprando tanto. "E se o confinamento durar um ano inteiro?", ele respondeu.

Eu fui a uma farmácia e eles estavam limitando a entrada de clientes. Não havia mais máscaras cirúrgicas, nem álcool desinfetante.

Depois de estocar comida, ainda estou em choque. Há cada vez menos carros e pedestres nas ruas, a cidade parou de repente.

Quando a cidade vai voltar a viver?
Sexta-feira, 24 de janeiro — noite de Ano Novo silenciosa

O mundo está quieto e o silêncio é terrível. Eu moro sozinha, então só percebo que há outros seres humanos por aí por causa dos ruídos ocasionais no corredor.



Tenho muito tempo para pensar em como sobreviver. Não tenho recursos, nem muitos contatos.

Um dos meus objetivos é não ficar doente, por isso tenho que me exercitar. A comida também é crucial para a sobrevivência, então preciso armazenar suprimento suficiente.

O governo não informou quanto tempo vai durar o confinamento. As pessoas estão dizendo que pode durar até maio.

A farmácia e a loja de conveniências aqui embaixo estavam fechadas hoje, mas foi reconfortante ver que os serviços de entrega de comida ainda estão funcionando.

Os noodles estão em falta nos supermercados, mas ainda é possível encontrar um pouco de arroz. Também fui ao mercado hoje. Comprei aipo, brotos de alho e ovos.

Ao voltar para casa, lavei todas as minhas roupas e tomei um banho. A higiene pessoal é importante — acho que estou lavando as mãos de 20 a 30 vezes por dia.

Sair de casa me faz sentir que ainda estou conectada ao mundo. É muito difícil imaginar como os idosos que vivem sozinhos e as pessoas com deficiência vão passar por isso.

Eu não queria cozinhar menos do que o habitual, porque era a última noite do ano do porco — era para ser um jantar de comemoração.

Durante a refeição, eu fiz uma chamada de vídeo com meus amigos. Não havia como fugir do assunto. Algumas pessoas estão em cidades próximas a Wuhan, outras optaram por não ir para casa por causa da doença, mas há aquelas que ainda insistem em se reunir apesar do surto.

Uma amiga tossiu durante a ligação. Alguém disse brincando para ela desligar!

Conversamos por três horas, e achei que conseguiria pegar no sono com pensamentos felizes. Mas quando fechei os olhos, as lembranças dos últimos dias vieram à tona como um flashback.

As lágrimas caíram. Me senti impotente, com raiva e triste. Também pensei na morte.

Não tenho muitos arrependimentos, porque meu trabalho tem um propósito. Mas não quero que minha vida termine.
Sábado, 25 de janeiro — sozinha no Ano Novo Chinês

Hoje é o Ano Novo Chinês. Eu nunca me interessei muito em celebrar estas datas festivas, mas agora o ano novo parece ainda mais irrelevante.

Pela manhã, vi um pouco de sangue depois de espirrar e fiquei com medo. Minha cabeça estava repleta de preocupações em relação à doença. Fiquei pensando se deveria sair ou não. Mas como não estava com febre e tinha apetite, saí.

Usei duas máscaras, apesar de as pessoas dizerem que é inútil e desnecessário. Fico receosa com falsificações e máscaras de baixa qualidade, então usar uma máscara dupla me faz sentir mais protegida.

Ainda estava muito silencioso.

Uma floricultura estava aberta, e o dono havia colocado alguns crisântemos (frequentemente usados em funerais) à porta. Mas não sei dizer se isso significa alguma coisa.

No supermercado, as prateleiras de verduras e legumes estavam vazias, e quase todos os bolinhos e noodles estavam esgotados. Havia apenas algumas pessoas na fila.



Eu continuo tendo esse impulso de comprar grandes quantidades de comida a cada visita ao mercado. Comprei mais 2,5 kg de arroz, apesar de ter 7 kg de arroz em casa. Também não pude deixar de comprar batata-doce, salsichas, feijão vermelho, feijão verde, milho e ovos em conserva.

Eu nem gosto de ovo em conserva! Vou dar para os amigos, depois que o bloqueio for suspenso.

Tenho comida suficiente para um mês, e essa compra compulsiva parece loucura. Mas, sob estas circunstâncias, como eu posso me culpar?

Fui dar uma caminhada pela margem do rio. Duas lanchonetes estavam abertas e algumas pessoas estavam passeando com seus cachorros. Vi que outras também estavam dando uma volta — acho que também não queriam se sentir presas.

Eu nunca tinha andado por essa rota antes. Parecia que meu mundo havia se expandido um pouco.
Domingo, 26 de janeiro — fazer sua voz ser ouvida

Não é apenas a cidade que está confinada — a voz das pessoas também.

No primeiro dia do isolamento, eu não conseguia escrever sobre isso nas redes sociais (por causa da censura). Não conseguia escrever nem no WeChat (rede social chinesa). A censura na internet existe há muito tempo na China, mas agora parece ainda mais cruel.

Quando sua vida é virada de cabeça para baixo, é um desafio reconstruir sua rotina diária. Continuo me exercitando pela manhã, usando um aplicativo, mas não consigo me concentrar porque minha cabeça está ocupada.


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KHARN LAMBERT, WEIBO
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Moradores de Wuhan foram filmados cantando e gritando palavras de incentivo de suas janelas

Saí de casa hoje novamente e tentei contar quantas pessoas eu encontrei na rua — vi oito durante minha caminhada até uma loja de noodles, a cerca de 500m da minha casa.

Eu não queria voltar para casa. Tive vontade de explorar mais. Faz apenas dois meses que me mudei para Wuhan. Não tenho muitos amigos aqui e não conheço muito bem a cidade.

Acho que vi cerca de 100 pessoas na rua hoje. Tenho de continuar a me fazer ouvir e me libertar das correntes. Tomara que todos mantenham a esperança. Amigos, espero que possamos nos encontrar e conversar no futuro.

Por volta das 20h, ouvi pessoas gritando palavras de incentivo, como "Vai, Wuhan!", de suas janelas. O canto coletivo é uma forma de elevar os ânimos.
Terça-feira, 28 de janeiro — finalmente, a luz do sol

O pânico criou uma barreira entre as pessoas.

Em muitas cidades, os moradores são obrigados a usar máscaras em espaços públicos. À primeira vista, a medida é para controlar o surto de pneumonia. Mas, na verdade, pode levar ao abuso de poder.



Alguns cidadãos sem máscara foram expulsos de transportes públicos. Não sabemos por que não estavam usando máscara. Talvez não tenham conseguido comprar, ou não soubessem do aviso.

Não importa o motivo, seus direitos de ir e vir não devem ser cerceados.

Em vídeos que circulam na internet, alguns indivíduos aparecem lacrando as portas de pessoas que se autoimpuseram uma quarentena. Moradores da província de Hubei (onde fica Wuhan) foram expulsos de suas casas e ficaram sem ter para onde ir.

Mas, ao mesmo tempo, há quem esteja oferecendo hospedagem.

Hoje, finalmente, há luz do sol — meu humor também melhorou. Vi mais gente no meu condomínio e havia alguns agentes comunitários. Eles pareciam estar checando a temperatura de quem circulava.

Não é fácil construir confiança e vínculos em uma situação de confinamento. A cidade está abatida por este peso.

No meio de tudo isso, não consigo evitar ficar na defensiva.

Minha ansiedade em relação à sobrevivência foi se dissipando lentamente. Andar pela cidade não terá sentido se eu não fizer nenhum contato com as pessoas daqui.

A participação social é uma necessidade importante. Todo mundo tem de encontrar um papel na sociedade para dar sentido à vida.

Nesta cidade solitária, preciso encontrar meu papel.

Guo Jing também publicou partes de seu diário no WeChat. Ela conversou com a jornalista da BBC Grace Tsoi.

As ilustrações são de Davies Surya.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 30/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51309536

Coronavírus: o que esperar da nova reunião da OMS que decidirá sobre estado de emergência


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Potencial de disseminação global motiva nova reunião de comitê da OMS

*Atualizada pela última vez às 23h55 de 29/01/20

Um comitê especial da Organização Mundial da Saúde (OMS) se reunirá novamente nesta quinta-feira (30/01) para decidir se o surto do novo coronavírus é ou não uma emergência de saúde pública de interesse internacional.

Ao anunciar a nova reunião, o diretor-geral da agência, Tedros Adhanom Ghebreyesus, explicou que apenas 1% dos mais de 6 mil casos confirmados até agora do vírus descoberto em dezembro foram registrados fora da China.

Mas ele destacou que já foram notificadas transmissões do novo coronavírus em ao menos outros três países. "O potencial de maior disseminação global é o motivo pelo qual convoquei o comitê", disse Ghebreyesus.

A decretação de uma situação de emergência de saúde pública de interesse internacional é uma medida usada raramente, apenas para eventos mais graves que podem demandar ações globais para conter a transmissão de uma doença.

O que é uma situação de emergência internacional?

A OMS a define oficialmente como um "evento extraordinário que constitui um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional de doenças e potencialmente exige uma resposta internacional coordenada".

Ela é decretada a partir de uma recomendação feita por um comitê de especialistas ao diretor-geral da agência.

Este grupo já havia se reunido no final da semana passada, por dois dias seguidos. Na ocasião, a OMS concluiu que ainda era cedo para considerar o surto era uma situação de emergência internacional e que mais informações eram necessárias para tomar essa decisão.

A situação era, naquele momento, bem diferente de agora. Havia pouco menos de 600 casos confirmados na China e outros sete países, e menos de 20 mortes causadas pelo 2019-nCov, como é chamado oficialmente o novo coronavírus.


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Novo coronavírus foi descoberto em dezembro na China

Também não havia sido registrada a transmissão do vírus fora da China. Desde então, eventos deste tipo foram notificados por Alemanha, Japão e Vietnã.

Ao mesmo tempo, já há mais de 7 mil casos confirmados em um total de 16 países e 170 mortes, todas na China.

Por estes motivos, infectologistas ouvidos pela BBC News Brasil consideram provável que seja decretada uma situação de emergência pela OMS ao fim da nova reunião de seu comitê.
Decisão permitiria mobilizar mais recursos para conter surto

Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), destaca que, na semana passada, a agência já havia informado que a decisão de não decretar uma situação de emergência não havia sido unânime. Isso indica que alguns membros do comitê já haviam identificado que esta medida seria necessária.

E, na segunda-feira passada, a OMS admitiu ter ocorrido um "erro de redação" na divulgação da avaliação de risco global da epidemia, até então identificado como "moderado" em seus relatórios e que passou a ser descrito como "elevado".

No entanto, a agência disse que a avaliação da situação permanece a mesma desde 22 de janeiro, com um risco "muito alto" na China, e "alto" regionalmente e no restante do mundo.

"Mesmo que eles não decretem uma situação de emergência, devem elevar o nível de alerta quanto ao surto e apontar que o problema pode ser mais grave do que imaginavam, porque houve em uma semana uma evolução razoável do surto e dia após dia quase dobrou o número de casos registrados", diz Venâncio.

"Isso abre caminho para tomar uma série de medidas como liberar mais rapidamente o teste de medicamentos e vacinas e pedir que sejam publicadas informações de observações clínicas e laboratoriais de casos do vírus."
'Situação é preocupante, mas não há motivo para pânico'

Kleber Luz, professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, avalia ser provável que a OMS decrete uma situação de emergência por causa da rápida evolução do surto e porque isso facilita o combate ao vírus.

"Se isso ocorrer, vai haver uma maior mobilização dos organismos de saúde de todos os países, tenham sido eles afetados ou não, e há como obter um volume maior de recursos financeiros e de pessoal e permitir que uma vacina seja desenvolvida mais rapidamente", diz Luz.

"Decretar uma emergência não bloqueia a doença, mas facilita seu enfrentamento."

Benedito da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, explica que os casos de transmissão fora da China são preocupantes, porque, a partir deles, é possível que ocorram outros contágios que deem origem a surtos locais.

"Emergência é uma palavra forte. O número de casos vem crescendo rapidamente, mas, ainda que este coronavírus pareça ser mais transmissível que outros que causaram surtos no passado, ele aparentemente é menos letal", diz Fonseca.

"Então, é de fato uma situação com a qual devemos ficar muito preocupados, mas não pode haver pânico."





Autor: Rafael Barifouse
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 29/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51289892

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Virgem de novo: o que são as operações de 'restauração da virgindade' e por que ativistas querem proibição


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Pelo menos 22 clínicas particulares oferecem cirurgia de reparação do hímen no Reino Unido

Ativistas estão fazendo um apelo ao governo britânico para proibir a cirurgia que "restaura a virgindade" no Reino Unido.

As mulheres que se submetem à operação são, na maioria dos casos, muçulmanas de origem conservadora — que correm o risco de serem marginalizadas ou, em casos extremos, mortas, se o marido ou a família descobrem que fizeram sexo antes do casamento.

Elas optam, então, por um procedimento cirúrgico para "voltarem a ser virgens", também conhecido como himenoplastia.

A operação consiste em restaurar o hímen, membrana que cobre a entrada da vagina.
Sem benefícios para a saúde

Um "hímen intacto" é visto como sinal de virgindade por mulheres que sofrem pressão para provar sua "pureza" na noite de núpcias.


Os ativistas que pedem a proibição argumentam que o procedimento, que não traz benefícios para a saúde, explora o medo e o sentimento de vergonha destas mulheres.

Mas, por outro lado, há o receio de que uma eventual proibição poderia aumentar os riscos para as mulheres muçulmanas, uma vez que o procedimento poderia passar a ser realizado clandestinamente.

De acordo com as diretrizes do General Medical Council (GMC) no Reino Unido, o equivalente ao Conselho Federal de Medicina no Brasil, o consentimento de uma paciente para se submeter à cirurgia deve ser questionado se houver suspeita de "estar sendo realizado sob pressão ou coação exercida por outra pessoa".
'Vivendo com medo'

Halaleh Taheri, fundadora da Middle Eastern Women and Society Organisation, contou à BBC News sobre o caso de uma estudante marroquina que fugiu para Londres quando soube que o pai havia contratado alguém para matá-la.

A jovem, hoje com 26 anos, foi estudar no Reino Unido em 2014, onde conheceu um homem e foi morar com ele.

Quando o pai descobriu o relacionamento dos dois, exigiu que ela voltasse ao Marrocos, onde a levou a uma clínica para fazer um "teste de virgindade" — e constatou que o hímen da filha não estava mais intacto.


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Procedimento explora o sentimento de vergonha e o medo da punição de mulheres muçulmanas, dizem ativistas

Ela fugiu de volta para Londres — e agora vive com medo constante de que o pai descubra onde mora.

Uma professora nascida no Marrocos, de 40 anos, afirmou à BBC que, depois de ter sido forçada a fazer o procedimento quando tinha 20 anos, não consegue nem sequer imaginar pressionar as filhas a fazer o mesmo.

"Eu nunca faria isso com elas. Tento ensiná-las a serem livres."
Noite de núpcias

Atualmente, há pelo menos 22 clínicas particulares em todo o Reino Unido oferecendo cirurgia de reparação do hímen, de acordo com uma investigação recente do jornal The Sunday Times.

Elas cobram até 3 mil libras (cerca de R$ 16,5 mil) pelo procedimento, que leva cerca de uma hora.

Os ativistas pelos direitos das mulheres dizem que essas clínicas estão lucrando com as muçulmanas, que temem pelo que pode acontecer se não provarem sua "pureza" na noite de núpcias.

Muitas clínicas anunciam o procedimento em seus sites, como a Gynae Centre, em Londres, dizendo às mulheres que "alguns casamentos são até anulados" quando o marido descobre que o hímen da esposa estava rompido.

A BBC News entrou em contato com a clínica para comentar, mas não recebeu resposta.


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Houve um aumento no número de mulheres que recorrem à cirurgia plástica íntima
'Prática terrível'

O secretário de saúde do Reino Unido, Matt Hancock, afirmou que estudaria maneiras de acabar com essa "prática terrível", mas o Departamento de Saúde se recusou a comentar sobre como uma possível proibição seria aplicada.

"Meninas podem morrer se a proibição deste procedimento não for feita com os devidos cuidados", adverte Taheri.

Khalid Khan, professor de saúde da mulher na Universidade Queen Mary, em Londres, acredita que a proibição "não é uma resposta apropriada".

Desde que sejam disponibilizadas "informações de qualidade" às pacientes, a decisão deve ser de cada mulher.

"Acredito que a motivação dos médicos seja genuinamente de proteção contra abusos", acrescenta.
Apoio psicológico


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No Reino Unido, o procedimento pode custar até 3 mil libras

No entanto, Naomi Crouch, que preside a Sociedade Britânica de Ginecologia Pediátrica e Adolescente, se preocupa com o fato de mulheres e meninas serem coagidas a fazer um procedimento que tem "zero benefício para a saúde".

"Os deveres de um médico são claros nos padrões estabelecidos pelo GMC", diz.

"Nós, como profissionais da saúde, somos obrigados a prestar um juramento para não causar danos aos pacientes, e qualquer serviço respeitável envolvido nesses procedimentos está aberto a auditoria e escrutínio."

Colin Melville, diretor médico, de educação e normas do GMC, afirma que é vital que os médicos levem em conta as "vulnerabilidades e necessidades psicológicas das pacientes" em primeiro lugar.
A questão do consentimento

"Se uma paciente está sob pressão indevida de outras pessoas para fazer um procedimento, o consentimento dela pode não ser voluntário. Se um médico julgar que uma criança ou jovem não deseja uma intervenção estética, não deve realizá-la", declarou.

O fato é que outros procedimentos genitais estéticos, como a labioplastia, que envolve a redução dos lábios da vagina, estão cada vez mais populares — especialmente entre mulheres mais jovens, de diferentes origens no Reino Unido.


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Há o receio de que as mulheres não estejam recebendo o apoio psicológico necessário

Os ativistas alertam que não há muitas informações sobre os efeitos no longo prazo desses procedimentos — e receiam que as mulheres não estejam recebendo apoio psicológico suficiente antes de optar pela cirurgia.

"Essas mulheres, de certa forma, não se consideram nada além de um objeto de desejo, em vez de um ser humano", diz Taheri.

"Para as mulheres muçulmanas, a motivação vem do sentimento de vergonha e do medo da punição."

"Para as outras, é uma falta de satisfação com o próprio corpo, sendo alimentada pelo que a sociedade está dizendo a elas que é normal", avalia.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 28/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51278141

O relato de uma brasileira confinada em Wuhan, epicentro do coronavírus: 'É como uma prisão domiciliar'


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Depois de viajar diversas vezes à China desde 2010, Reisi Liao mudou-se para o país com o marido em novembro

A paraense Reisi Liao mudou-se de Novo Progresso para a cidade chinesa de Wuhan no dia 8 de novembro.

Seu marido é natural da Província de Hubei e, depois muitos anos de idas e vindas, o casal decidiu ficar definitivamente na China por causa da "incerteza" que ronda o Brasil, da "instabilidade do governo e da economia, que não vai tão bem", segundo ela.

"E a gente encontra esse cenário", diz ela, referindo-se à epidemia de coronavírus, que matou cem pessoas apenas na Província de Hubei e provocou o fechamento da cidade de Wuhan, considerada o epicentro da contaminação.


Há seis dias, Wuhan vive em uma espécie de quarentena. Não se pode entrar ou sair da cidade, o transporte público parou de circular, as aulas nas escolas e na universidade foram suspensas.


Desde então, Reisi praticamente não saiu de casa. É o marido que sai para comprar mantimentos, apenas pelo tempo mínimo necessário e protegido por uma máscara.

Com um filho de dois anos, ela não desce nem para as áreas comuns do condomínio, para evitar uma exposição desnecessária do bebê ao risco.

"É como se fosse uma prisão domiciliar."

Enquanto ela conversa com a reportagem, os sogros jogam dominó na sala do apartamento. Eles vieram de uma cidade próxima para as festividades do Ano Novo Lunar e, agora, por causa do bloqueio, não podem mais voltar.

Para passar o tempo, Reisi lê, assiste à televisão. "Cuidar do bebê também mantém a gente bem ocupado", ela brinca.

Como não fala mandarim, sua principal fonte de informação são os portais em português.


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Na última vez em que saiu de casa, a paraense encontrou uma 'cidade fantasma'
Brasileiros pedem para ser retirados

Ela e os outros brasileiros que vivem em Wuhan mantêm contato por meio de um grupo de WeChat, serviço de mensagens instantâneas semelhante ao WhatsApp.

São cerca de 50 pessoas, segundo ela, muitos estudantes que hoje estão praticamente isolados dentro do campus da Universidade de Wuhan, que suspendeu as aulas.

Parte do grupo quer voltar ao Brasil — e já fez o pedido à diplomacia brasileira.

Em entrevista nesta terça-feira (28/1) à Rede Globo, o embaixador brasileiro em Pequim, Paulo Estivallet de Mesquita, afirmou, entretanto, que a China não autorizou voos para evacuação de cidadãos estrangeiros.

E disse ainda que as autoridades brasileiras agirão "assim que possível", quando a quarentena for suspensa pelo governo chinês.


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Quarentena estipulada pelas autoridades chinesas não tem precedentes, segundo OMS

Países como Japão e Estados Unidos já anunciaram a intenção de retirar seus cidadãos das zonas afetadas em voos fretados.

"Se você me perguntar, eu queria voltar era ontem", diz a paraense de 46 anos.

Ela teme que o confinamento possa se estender por muito mais tempo — a última grande epidemia na China, ela lembra, durou 9 longos meses.

O surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (conhecida pela sigla em inglês Sars), também causada por um coronavírus, começou em 2002 e matou 774 pessoas, entre 8.098 infectadas.

A quarentena decretada desta vez pelas autoridades chinesas, entretanto, não tem precedentes, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ela atinge hoje cerca de 18 milhões de pessoas — os 11 milhões de habitantes de Wuhan e os 7,5 milhões que vivem em Huanggang, distante 70 km.
Cidade fantasma

Na última vez em que Reisi saiu de casa, alguns dias atrás, deparou-se com uma cidade vazia.

Ela foi jantar na casa da cunhada, que também vive no distrito de Hanyang — segundo a brasileira, o trânsito entre bairros também está limitado.

Encontrou ruas e estradas vazias, as poucas pessoas que circulavam pelas calçadas usavam máscara.

"Um cenário meio apocalíptico."


Direito de imagemARQUIVO PESSOALImage captionHoje, 11 milhões estão em quarentena em Wuhan

Os primeiros rumores de que havia um vírus novo circulando em Wuhan começaram em dezembro, ela conta. Inicialmente, falava-se que a doença não era transmitida entre humanos.

"Cheguei a perguntar pro meu marido se não precisávamos usar máscara, mas ele disse que as notícias eram de que ela só era transmitida pelo contato com a carne dos animais infectados."

Falou-se que o agente transmissor seria o morcego. Posteriormente, cogitou-se que a epidemia teria se alastrado a partir de um mercado de alimentos, transmitida por carne de cobra.

Os rumores circularam por dias até que as autoridades se manifestassem, lembra Reisi.

Nesta segunda-feira, o prefeito de Wuhan admitiu que sua gestão demorou para responder à crise e afirmou que deixaria o cargo.

A cidade é um importante ponto de conexão da rede de transporte do país: fica a poucas horas de trem de grandes cidades, o que a torna estratégica para a infraestrutura ferroviária de alta velocidade.



Wuhan também tem um importante porto fluvial, construído no curso intermediário do rio Yang Tsé — que, com quase 6,4 mil quilômetros, é o maior rio da Ásia e o terceiro do mundo.

Seu tamanho e importância econômica, além do fato de ser um hub de transportes, explicam em parte por que o vírus viajou tão rapidamente no sudeste da Ásia e até chegou aos Estados Unidos.

Enquanto isso, a brasileira tenta acalmar a família no Pará e fala diariamente com a filha, de 23 anos, que pede para ela voltar.

Ela e o marido têm esperança de que, passado o inverno rigoroso que os recepcionou em Wuhan, a situação "dê uma amenizada".




Autor: Camilla Veras Mota
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 28/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51285083

O que acontece após Brasil anunciar 1º caso suspeito de coronavírus e elevar risco para 'iminente'?


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O ministro da Saúde confirmou primeiro caso de suspeita do novo coronavírus no país

O Ministério da Saúde confirmou que uma estudante de 22 anos de Minas Gerais que esteve na China e apresenta sintomas compatíveis com os provocados pelo novo coronavírus é o primeiro caso de suspeita no Brasil.

Exames confirmarão se a paciente contraiu o 2019-nCoV, como é oficialmente chamado o vírus descoberto em dezembro passado e que está no centro de uma epidemia na China. A identidade da estudante não foi divulgada.

A expectativa do governo é ter o resultado dos testes até a sexta-feira. Em caso positivo, será o primeiro caso confirmado do novo coronavírus tanto no Brasil quanto na América do Sul.


O governo federal também anunciou ter elevado a classificação de risco do país do nível 1, de alerta, para o nível 2, de perigo iminente. A escala vai até o nível 3, de emergência de saúde pública, quando são confirmados casos de transmissão no Brasil.

"A elevação do risco significa que o país precisa se preparar para uma potencial introdução do vírus por aqui. Já vimos isso ocorrer em outros lugares, e é preciso tomar medidas de contenção para que o primeiro caso confirmado não venha a criar uma cadeia de transmissão no Brasil", afirma o infectologista Esper Kallás, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.


O governo federal disse que a estudante está internada e isolada no Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte, instituição de referência estadual em doenças infectocontagiosas, e 14 pessoas que tiveram contato com ela estão sendo monitoradas.

Desde o início do surto, em dezembro, houve mais de 7 mil rumores no Brasil de pacientes que teriam o vírus, informou o ministério, dos quais 127 foram verificados e apenas este foi, de fato, confirmado como uma suspeita real.

O caso atende os critérios epidemiológicos (a paciente esteve em Wuhan, cidade chinesa onde começou o surto e há casos de transmissão entre pessoas confirmados) e clínicos (apresenta sintomas respiratórios e febre baixa), estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para identificação de possíveis infecções.

No entanto, a paciente disse não ter visitado o mercado que seria o epicentro da epidemia, nem tido contato com nenhuma pessoa doente ou procurado serviços de saúde em Wuhan. Ela passa bem, segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está fazendo um levantamento dos passageiros do voo em que a estudante veio da China.

"O país terá agora que monitorar os voos vindos da China, se é que já não está fazendo isso", afirma à BBC News Brasil o infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

"Mas não podemos ser alarmistas. Não é estranho que uma pessoa que veio da região onde o vírus está sendo transmitido esteja infectada. Mesmo que isso se confirme, acredito que haverá apenas casos esporádicos e que o vírus provavelmente não se disseminará."
Vírus já foi detectado em 16 países

Mais de 4,5 mil infecções pelo novo coronavírus já foram confirmados no mundo até agora. Mais de 100 pessoas já morreram — todas na China.

Até o momento, outros 15 países já registraram casos do vírus. Em todos eles, as pessoas haviam estado na região da China onde ocorre a transmissão do vírus de pessoa para pessoa.



O Ministério da Saúde brasileiro recomendou que viajantes evitem ir à China a não ser que seja estritamente necessário.

"Estamos desaconselhando, não estamos proibindo. Não é recomendável que a pessoa se exponha e depois retorne ao Brasil e exponha mais pessoas", disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em uma coletiva de imprensa nesta terça-feira.

O 2019-nCoV faz parte de uma grande família de vírus que circulam em animais — sete deles podem ser transmitidos para seres humanos e causar desde um resfriado comum até problemas respiratórios que levam à morte.


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Mais de 4,5 mil casos foram confirmados em todo o mundo

Os coronavírus estiveram por trás de duas epidemias graves recentes. A Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês) matou 774 das 8.098 infectadas em 2003.

Já a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês) matou 858 dos 2.494 pacientes identificados, em 2012.

"Até o momento, ele parece ser um coronavírus menos letal e que provoca doenças menos graves do que aqueles por trás das epidemias mais recentes. Das pessoas que foram internadas, 40% tinham outras doenças crônicas, como diabetes, hipertensão ou insuficiência cardíaca, que diminuem a imunidade do paciente", diz Boulos.
Número de casos cresce rapidamente

O número de casos vem crescendo rapidamente nos últimos dias. Eram pouco mais de 800 na última sexta-feira e já passavam de 2,7 mil na segunda-feira — em 24 horas, houve um aumento de mais de 50% no total de pacientes confirmados.

Mas isso não significa que são novos casos de contaminação, mas casos suspeitos em que houve resultado positivo nos exames, explica o médico sanitarista e epidemiologista brasileiro Jarbas Barbosa, diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da OMS.

"A capacidade de fazer testes é cada vez maior, porque há mais laboratórios e máquinas dedicadas a isso, e isso eleva o total de casos. Também aumenta porque a transmissão segue ocorrendo, e não há nenhuma evidência de que foi interrompida. Então, o número de casos vai crescer nos próximos dias, infelizmente", disse Barbosa à BBC News Brasil.

Representantes do governo federal participarão nesta terça-feira de uma reunião com a OMS sobre a epidemia, e o Instituto Butantan colaborará com um esforço internacional para a produção de uma vacina.


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Diversos países adotaram a triagem de passageiros em aeroportos para conter o surto

Mandetta disse que o país está preparado para detectar o vírus e que, a partir do momento em que a OMS passou a indicar desde a segunda-feira que o risco global representado pelo surto é "elevado" e não "moderado", o Brasil ampliará os critérios para o monitoramento de possíveis casos de infecção.

O governo federal fazia isso apenas com pessoas que haviam passado pela Província de Hubei, onde fica Wuhan e que concentra a maioria dos casos na China. "Agora, vamos [considerar] toda a China, não importa qual Província. Muito provavelmente, vai haver uma sensação de que estão aumentando os casos suspeitos", afirmou Mandetta.

A mudança na classificação da epidemia pela OMS se deveu a um "erro de redação" em relatórios anteriores e que a avaliação da situação permanecia a mesma desde 22 de janeiro, com um risco "muito alto" na China, e "alto" regionalmente e no restante do mundo.

O governo também informou que não irá tomar medidas para trazer de volta para os país os brasileiros que estejam na China. "A pessoa tem que ficar onde ela está. Não é orientado remoção mesmo porque você não tem um tratamento específico definido para esse vírus", afirmou Mandetta.






Autor: Priscila Bellini
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 24/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51275039

Diagnóstico de endometriose: jornalista conta saga de 15 anos para identificar a doença


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A jornalista Karoline Gomes encarou consultas e exames ao longo de quinze anos, antes de obter um diagnóstico

A jornalista paulista Karoline Gomes passou pelos mesmos sintomas ao longo de quinze anos. Todos os meses, sentia cólicas menstruais fortes. A dor vinha acompanhada de desmaios, idas ao hospital em busca de medicação e dias acamada. Como resposta ao problema, recebia uma leva de medicamentos para dor.

O exemplo da jovem, que tem hoje 26 anos, ilustra o tipo de dificuldade enfrentada por mulheres com endometriose.

No caso de Karoline, as dores apareceram logo na primeira menstruação, aos 9 anos. Aos 12, começou a peregrinação por consultórios médicos. Somente aos 24 ela obteve uma resposta para o problema.

Mundialmente, as estimativas dão conta de que mulheres demoram entre sete e dez anos para obter um veredicto do tipo.

E muitas delas ainda estão à espera: cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva sofrem da doença.

O que é a endometriose

A endometriose é uma doença crônica em que o tecido que reveste o interior do útero, o endométrio, desenvolve-se para fora do órgão.

Em um ciclo normal, essa mucosa se descama e ocasiona o sangramento característico da menstruação. Em caso de fecundação, é nela que o óvulo se fixa dentro do útero.

A condição aparece quando há uma anomalia no processo, já que o endométrio, ao se espalhar, acaba em outros outros cantos do corpo.

O sofrimento físico associado à condição vem daí: os focos de tecido que estão fora do útero também respondem a hormônios e sangram.

Esse sangramento — que pode ocorrer nas proximidades de órgãos como ovários, intestino ou bexiga — causa inflamação e desencadeia dores fortes.

Os focos da doença podem então danificar as trompas uterinas, comprometer órgãos vizinhos ao sistema reprodutor e ir além.

Quando Karoline Gomes encarou um tratamento para a doença, ela já chegara ao quadro avançado. Logo de cara, teve de passar por uma cirurgia para extrair as trompas, dez centímetros do intestino e três centímetros da bexiga.
Primeiros sinais

As cólicas menstruais constantes acenderam o primeiro sinal vermelho para Karoline.

Ela conta que usava desde compressas quentes até remédios analgésicos e anti-inflamatórios para aliviar a dor na região pélvica.

"Ou os médicos diziam que isso era raro para meninas da minha idade, ou que era normal ter essas dores porque eu era muito jovem."

A saída encontrada pelos médicos foi a prescrição do anticoncepcional, que prometia controlar as crises.

"Quando o remédio funcionava, era o paraíso. Eu saía da cama, tinha qualidade de vida", conta Karoline.

Com o tempo, entretanto, as dores voltavam. Meses sem reclamação eram intercalados por períodos de cólica forte.

O ginecologista Bernardo Portugal Lasmar, da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), explica o problema por trás das crises.

"O anticoncepcional por si só não trata a endometriose, apenas controla os sintomas. Enquanto isso, a doença pode evoluir."

Por exemplo, as medicações podem suspender a menstruação e impedir que os focos da doença "sangrem", mas não os eliminam, nem barram seu avanço.

Ainda sem solução para as dores, Karoline mudou de cidade e continuou a saga por um diagnóstico. Entre os exames solicitados, estavam desde amostras de sangue até exames de papanicolau e ultrassons.

"Mas eu precisava de alguém que não tratasse aquilo como apenas questão de rotina", diz Karoline, que recorria à rede privada.

Para ela, um dos obstáculos era dar conta de explicar a própria situação em consultas rápidas.

"Eu sabia dizer o que eu sentia, mas não conseguia colocar a ênfase no quanto doía, eu não tinha tempo."

Em tempo restrito, precisava narrar o longo histórico da doença e os pormenores das crises, em que a dor chegava à região lombar e à virilha.

A necessidade do tempo maior de consulta também é um dos pontos levantados por Lasmar, da Febrasgo. Como o ginecologista destaca, os sinais da endometriose podem ser percebidos já na conversa feita em consultório, antes de qualquer exame físico.

"A paciente vai contar detalhes que são indicativos da doença e o médico precisa estar atento."

Cólicas fortes, dores em regiões próximas, ciclos menstruais curtos e infertilidade são alguns dos alertas possíveis.
Ponto de virada

A luz no fim do túnel apareceu depois de uma conversa entre amigas.

"Uma delas comentou que uma amiga tinha ido à ginecologista e sido diagnosticada com endometriose."

Os sintomas descritos se pareciam com os de Karoline, que recorreu à indicação. Quando chegou ao consultório, contou sua suspeita à médica.

Dessa vez, os pedidos de exame foram além dos testes de sangue, incluindo uma ressonância magnética da pelve.

Com resultados em mão, o veredicto veio.

"Ela disse 'lamento informar, mas você tem uma endometriose muito grave'. Lembro de ter ficado tão feliz que levantei e abracei a médica", conta Karoline.

"Só conseguia pensar 'eu não sou louca, eu sabia o que estava sentindo'. Foi como ter a minha história validada."

Dar um nome ao quadro foi só o primeiro passo. A partir daí, teve de buscar um cirurgião especialista que conseguisse remover os focos da doença.

Para muitos casos de endometriose, essa intervenção cirúrgica que "limpa" os focos, chamada de laparoscopia, é indicada.

São feitas pequenas incisões no abdômen da paciente, por onde se insere o instrumento cirúrgico.

É assim que os médicos visualizam os danos causados pela doença e eliminam focos visíveis.


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KAROLINE GOMES
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Karoline mostra as cicatrizes de procedimentos pelos quais passou no tratamento de endometriose

Os médicos indicam cirurgia a mulheres que têm outros órgãos comprometidos, como os rins ou o intestino, ou que sofram com dores fortes mesmo sob efeito do anticoncepcional.

Mas, antes de qualquer procedimento, as possibilidades precisam ser discutidas com o médico. Em casos avançados, pode ser necessária a remoção de órgãos afetados.

"Eu deixei claro para o médico, na presença do meu marido, que ele estava liberado para remover útero e trompas, se achasse necessário."

Mas, depois do primeiro procedimento, a saída indicada pelo médico foi um remédio aplicado por injeções, diretamente na barriga.

A medicação, usada também em casos de câncer de próstata e de mama, desencadeou uma série de efeitos colaterais.

"Foi como enfrentar uma nova doença. Eu não menstruava, tinha muitas dores de estômago e de cabeça, meus pés ficaram inchados e o remédio piorava meu quadro de depressão."

A ideia era combater a doença por meio de seis aplicações do remédio, sem extrair os órgãos afetados.

Depois da quarta aplicação, o plano deu errado. Karoline teve de recorrer ao hospital, depois de sofrer uma hemorragia.
"Eu não sei como você vivia com tanta dor"

Foi uma perfuração no intestino que levou Karoline à sala de cirurgia. Os focos da doença haviam chegado ao reto e à bexiga, danificando órgãos na região da pelve.

O procedimento levou à remoção das duas trompas uterinas, de parte do intestino e da bexiga.

Um médico diferente fez o procedimento em caráter de emergência, já que os danos aos órgãos eram piores que o previsto. Os exames de imagem haviam apontado comprometimento de dois centímetros de intestino — que provou ser cinco vezes maior.

Ao passar pela UTI, onde Karoline seguia internada, o cirurgião responsável comentou o caso.

"Eu me lembro dele falando: 'Eu não sei como você vivia com tanta dor, os seus órgãos estavam dilacerados'", relata ela. "Eu falava o tempo todo que tinha essa dor, mas não me ouviam."

A jovem paulista soube ainda que o quadro de hemorragia e a internação às pressas poderiam ter sido evitados.

"O primeiro cirurgião que me atendeu achava que eu era nova demais para ficar infértil, para tirar as trompas. Foi por isso que parei na UTI e precisei de outra cirurgia."

"Tudo pela possibilidade de que, um dia, eu quisesse ter um bebê", diz Karoline. "Mas esse bebê não existe. Quem existe neste momento sou eu, e eu estou sentindo dor."


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Depois de encarar o tratamento para endometriose, Karoline Gomes criou o Endomapa, grupo que reúne mulheres que sofrem da doença
Rede de apoio

Uma das dificuldades de mulheres com endometriose está em encontrar médicos que identifiquem a doença. Com sintomas como cólicas menstruais fortes, as pacientes nem sempre conseguem ir além dos exames de rotina.

Foi com isso em mente que a jornalista Karoline Gomes criou o Endomapa, um grupo de Facebook destinado a mulheres que sofrem com a doença — ou suspeitam de um diagnóstico.

"A primeira movimentação do Endomapa foi a de encontrar a médica que me diagnosticou, pela indicação da amiga de uma amiga."

No grupo, as participantes contam desde dificuldades encontradas nas consultas até indicações de médicos no sistema público de saúde. Cabe a Karoline moderar e facilitar o contato entre as participantes.

Por trás do projeto, está a ideia de facilitar o acesso a um atendimento adequado.

"É uma dor incapacitante, são muitos os casos em que não dá para ter uma vida normal e saudável."



Autor: Priscila Bellini
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 24/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50672105

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Laboratório da Uerj é referência na aplicação do DNA em Genética Forense

A popularização dos exames de DNA transformou de forma definitiva a realidade das investigações de vínculo genético entre humanos. Em diversos países, produtores de televisão e cinema enxergaram até a oportunidade de explorar o assunto em séries que rapidamente caíram no gosto popular. Na capital fluminense, a determinação de um grupo de pesquisadores levou à criação, em 1996, do Laboratório de Diagnósticos por DNA, instalado dentro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Com o apoio de recursos disponibilizados por editais lançados pela FAPERJ, que incentivavam pesquisas na área de Segurança Pública, o laboratório logo estabeleceu parcerias, com o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro. Pioneiro na utilização do DNA em identificação humana, o laboratório atuou junto à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), na formação, e treinamento laboratorial, de recursos humanos especializados em DNA Forense para dar suporte técnico às Secretarias de Segurança Pública de distintos estados brasileiros.

À frente do laboratório ao longo desses 23 anos, Elizeu Carvalho reuniu histórias inusitadas. Por ele passaram casos emblemáticos da história recente do Rio de Janeiro. Entre os mais famosos, está o “Caso Carlinhos”, o garoto que desapareceu com 10 anos de idade. Seu pai foi acusado de tê-lo assassinado, em ritual de magia negra, embora o corpo jamais tenha sido encontrado. O caso ganhou as manchetes dos jornais e, de tempos em tempos, alguém se apresenta como Carlinhos. Programa de uma emissora de televisão chegou a apresentar um homem do interior de São Paulo como filho de Dona Conceição, a mãe de Carlinhos, que tem seu perfil genético depositado em um banco de dados do laboratório. Em outro episódio referente a esse mesmo caso, Carvalho chegou a ser processado, por um homem, que, diante do teste negativo, o acusou de estar impedindo que ele assumisse sua verdadeira identidade e encontrasse sua mãe.

Em seus primeiros anos de vida, o laboratório foi responsável por inúmeras análises de evidências criminais e de amostras biológicas de suspeitos diante da ausência de laboratórios de DNA Forense nas polícias técnicas. Foi assim que em 2003, ele e sua equipe ficaram responsáveis por analisar amostras do local do crime do assassinato de um alto executivo e sua esposa na Barra da Tijuca. “O crime ocorreu no dia do encerramento de um Congresso Internacional e em vez de descansar, passei o último domingo daquele ano analisando as provas. Do lado de fora do antigo prédio em que trabalhávamos, inúmeros jornalistas nos esperavam. Um repórter chegou a oferecer uma entrada ao vivo para encerrar o último programa do ano com o resultado da perícia por DNA. Precisei marcar um almoço no Leblon com o Procurador-Geral do Ministério Público para entregar os resultados – que não incriminavam nenhum dos suspeitos apontados – e no dia seguinte realizamos a coletiva de imprensa”, relembra.

A interiorização do Programa de DNA impulsionou a popularização desse tipo de exame. As demandas pelo teste na Justiça aumentaram e trouxeram mudanças na atuação do laboratório. Com a necessidade de comparecer à Uerj para realizar os testes, apenas cerca de 30% dos convocados se apresentava, então a partir de uma conversa informal com um juiz de Nova Friburgo se iniciaram mutirões para a realização dos procedimentos de coleta de amostras biológicas em diferentes cidades do estado do Rio de Janeiro. A partir daí, o alcance do atendimento à população carente se elevou consideravelmente, chegando a ser próximo de 100% em algumas comarcas. No dia em que foi realizada a entrevista para a produção desta reportagem, em meados de dezembro, o laboratório tinha agendado, pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, 100 casos na cidade de Campos dos Goytacazes, o que significa coletar amostras de sangue de pelo menos 300 pessoas – filho, mãe e suposto pai, usualmente. “Imagina 300 pessoas vindo ao Rio de Janeiro? É muito mais lógico e produtivo duas ou três pessoas do laboratório se deslocarem para lá. No ato da coleta das amostras biológicas, é necessário que todos os envolvidos na perícia genética estejam presentes, de forma a se realizar o autoreconhecimento entre as partes, sendo feita uma foto para comprovar o comparecimento do conjunto, a qual é anexada ao laudo pericial ”, explica Carvalho.

E mesmo quando não se relacionam a crimes violentos, algumas investigações por DNA revelam-se perturbadoras. “Quando iniciamos os trabalhos no laboratório ficamos surpreendidos com o quantitativo de casos nos quais pais têm filhos com suas próprias filhas. Às vezes com uma, duas, três filhas e é entendido com naturalidade pelo núcleo familiar, mas outros parentes, ou mesmo vizinhos, acabam denunciando o crime”, comenta.

Outro caso que seria um corriqueiro teste de paternidade demonstrou um longo histórico de abusos por parte de um tio. “Um pai me procurou contando que sua filha de 16 anos dera luz a uma criança e queriam fazer a identificação por DNA do pai. Foram realizados um, dois, três, seis investigações de paternidade e nenhum dos indivíduos apontados pela mãe era o pai biológico. Diante disso, entendi que a jovem mãe não queria revelar a identidade do pai da criança e perguntei ao homem se ele não conseguiria convencer sua filha a ser atendida pelo Serviço de Psicologia do Fórum da Comarca. Descobriu-se que o pai da criança era um tio que abusava sexualmente da sobrinha há anos e que ameaçava matar toda a família caso fosse denunciado”, conta.


Elizeu Carvalho conta que até 2007 o laboratório da Uerj era um ponto de apoio para resolução de casos e de treinamento das polícias técnicas. Atualmente, além da formação de pessoal,
se dedica aos testes de paternidade solicitados pela Justiça


O DNA Forense é de fundamental relevância em perícias envolvendo indivíduos que se apresentam como herdeiros após a morte de indivíduo que indica como genitor, o qual não teria, segundo argumenta-se, realizado o reconhecimento da paternidade, ou da maternidade, enquanto vivos. A perícia genética pode ser realizada diretamente através da exumação e coleta de amostras dos restos mortais do questionado genitor, pai ou mãe, ou pela reconstrução do perfil genético do suposto pai, ou mãe, realizada a partir de amostras biológicas coletadas em vida de seus parentes genéticos, tais como genitores, filhos, irmãos e sobrinhos, por exemplo. E Carvalho garante: na maioria dos casos, a perícia genética define com elevada precisão se o vínculo de parentesco questionado ocorre, ou não. E também há outros mais novelescos. Entre os mais complexos, está a disputa por heranças de pessoas que morrem sem deixar herdeiros diretos – em muitos casos seus pais e irmãos são também falecidos. Usualmente, a herança é passada para parentes mais distantes, como netos, primos, sobrinhos. Não raro, aparece alguém que procura se habilitar como herdeiro direto no inventário, demandando perícia genética bastante complexa, com exumações de restos mortais. “Nesses casos, o objetivo é comprovar a ocorrência, ou não, de relações biológicas entre o suposto filho que ora se apresenta como herdeiro e a pessoa falecida, bem como comprovar se os herdeiros já habilitados no inventário são de fato geneticamente relacionados ao morto”, explica.

Para os interessados em realizar testes de DNA, o laboratório oferece o serviço de forma gratuita. Quando não encaminhado por órgão público, para solicitar o serviço é preciso entrar em contato com o laboratório e agendar as coletas das amostras biológicas das partes. Em 23 anos, no laboratório foram produzidos os perfis de DNA de mais de 550 mil indivíduos, tendo sido emitidos cerca de 140 mil laudos periciais em atendimentos às demandas de Secretarias de Segurança Pública de vários estados, da Polícia Federal e do Tribunal de Justiça, Defensoria Pública e Ministério Público do Rio de Janeiro.

Para além de auxiliar na solução de crimes e imbróglios familiares, Carvalho destaca a formação de recursos humanos altamente especializados como o principal feito do laboratório. “Hoje, nas polícias técnicas de praticamente todos os estados brasileiros existem laboratórios de DNA atuantes. Até 2007 eram raros. Então o laboratório da Uerj era um ponto de apoio para resolução de casos e para treinamento de pessoal. Por aqui também transitam há mais de duas décadas cientistas forenses do Brasil, Portugal, Espanha, Áustria, Estados Unidos, Alemanha, Argentina, Dinamarca, Suécia, Colômbia, entre outros, que juntamente com os membros do laboratório ministram disciplinas de pós-graduação, cursos de atualização na área do DNA Forense, tendo os cientistas nacionais e do estrangeiro participado de quatro simpósios internacionais organizados pelo Laboratório de Diagnósticos por DNA da Uerj, nos anos 1999, 2003, 2008 e 2017, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, com o apoio da FAPERJ. Esse laboratório é referência mundial e dos congressos internacionais participaram quadros técnicos e cientistas forenses de toda a América do Sul, dos Estados Unidos e de vários países da Europa e Ásia”, orgulha-se. O laboratório continua a se dedicar à formação de graduados, mestres e doutores em Biologia Forense, Genética de Populações e Genética Forense. Desde a sua constituição, além de bacharéis que desenvolveram monografias, e de profissionais que realizaram pós-doutoramento, foram formados 51 mestres e 29 doutores.





Autor: Juliana Passos
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 24/01/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3913.2.2

Diretoria de Tecnologia da FAPERJ divulga editais e programas em diferentes localidades do estado



Reunião no auditório do Crab-Sebrae reuniu um bom público de interessados em conhecer as oportunidades de fomento em editais da FAPERJ

Equipe reunindo assessores da Diretoria de Tecnologia da FAPERJ vem percorrendo instituições de ensino e pesquisa e entidades ligadas às áreas de Tecnologia e Inovação em diferentes localidades da Região Metropolitana e do Interior Fluminense a fim de divulgar editais e chamadas com inscrições abertas. O objetivo é atingir um público mais amplo e variado do que
aquele habituado às oportunidades de fomento da Fundação. Os assessores, divididos em grupos, têm feito palestras em universidades, institutos de pesquisa, mecanismos de geração de empreendimentos inovadores, associações de classe e outras instituições que compõem o ecossistema de inovação fluminense. As visitas continuam nesta sexta, dia 24 de janeiro, no auditório do Instituto Gênesis, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Além dos editais “Startup Rio”, “InovAÇÃO Rio”, em parceria com a AgeRio, e “Doutor Empreendedor”, também está sendo divulgada a chamada para a bolsa de Iniciação Tecnológica (IT), que teve seu objetivo reformulado e seu escopo ampliado, podendo inclusive servir às micro, pequenas e médias empresas.

Este conjunto inédito de ações expande o raio de ação da Diretoria de Tecnologia da FAPERJ e tem como objetivo aproximar a Fundação do ecossistema de inovação estadual, fomentando o empreendedorismo, apoiando o processo de inovação em diferentes fases e buscando aproximar a infraestrutura de ciência e tecnologia do mercado.

Ao mesmo tempo, os editais e a chamada pretendem atingir um público bastante diverso e heterogêneo, especialmente empresas de diferentes setores, que não tem histórico de relação com a Fundação. A Diretoria avalia que esse esforço de divulgação é fundamental para transcender as fronteiras tradicionais e posicionar a Diretoria de Tecnologia da FAPERJ como um ator relevante do sistema de inovação do Estado do Rio de Janeiro.

Confira a íntegra dos editais com inscrições abertas:

Programa Doutor Empreendedor: Transformando Conhecimento em Inovação – 2019

Programa de Apoio à Inovação em Micro, Pequenas e Médias Empresas no Estado do Rio de Janeiro InovAÇÃO RIO

Startup Rio 2020: Apoio à Difusão de Ambiente de Inovação em Tecnologia Digital no Estado do RJ

Programa de Iniciação Tecnológica (IT)

Veja a lista completa de editais da FAPERJ: http://www.faperj.br/?id=3532.3.5

Confira abaixo a agenda de divulgação dos editais, com os respectivos locais e horários:



Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 24/01/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3916.2.9

Ricardo Lodi toma posse como novo reitor da Uerj

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) já tem oficialmente uma nova reitoria. Em cerimônia realizada na noite da última sexta-feira, dia 17 de janeiro, na Capela Ecumênica do campus Maracanã, tomaram posse o novo reitor, Ricardo Lodi, e o vice-reitor, Mário Sérgio Carneiro. Eles serão os responsáveis pela gestão da maior universidade estadual durante os próximos quatro anos. Anteriormente, os cargos de reitor e de vice-reitora foram ocupados pelos professores Ruy Garcia Marques (médico cirurgião, que foi presidente da FAPERJ de 2007 a 2015) e Maria Georgina Muniz Washington, engenheira. Durante a cerimônia, o governador Wilson Witzel anunciou o aumento nos investimentos em pesquisa, por meio da FAPERJ, com o repasse de recursos da ordem de R$ 100 milhões para a criação de um centro tecnológico e a ampliação do Colégio de Aplicação da Uerj (CAp). Na ocasião, o governador Wilson Witzel foi investido como Chanceler da Uerj.

Em 2020, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro completa 70 anos e receberá novos investimentos. De acordo com Witzel, o prédio localizado no bairro de São Cristóvão, que hoje abriga a Faculdade de Engenharia, passará por uma reforma e será transformado em um polo de tecnologia e startups fluminenses.

“Serão investidos cerca de R$ 100 milhões na reforma do prédio da rua Fonseca Teles. Será o maior centro tecnológico da América Latina. O local pegou fogo, estava abandonado e será recuperado. É uma homenagem aos 70 anos da Uerj. Vamos ainda adquirir um novo prédio para o ampliar o CAp-Uerj. Teremos também o aumento do investimento na pesquisa com a FAPERJ, que será de R$ 500 milhões. No ano passado, foram R$ 300 milhões. Isso já nos coloca em condições de disputar os primeiros lugares de pesquisa nas universidades brasileiras. Temos a missão de encostar na USP [a Universidade de São Paulo] e dei este desafio ao novo reitor. Mantenho o compromisso, como Chanceler da Uerj, com a cultura, economia, educação e, especialmente, com a tolerância e o diálogo franco com as instituições”, afirmou o governador.


A Capela Ecumênica do campus Maracanã da Uerj ficou lotada para a cerimônia de posse do novo reitor


Na ocasião, também foram empossados os diretores dos Centros Setoriais, os diretores de Unidades Universitárias, da Rede Sirius, além da direção do Hospital Universitário Pedro Ernesto e do Centro de Produção da Uerj (Cepuerj). A eleição ocorreu em novembro de 2019 e é válida para o quadriênio 2020/2023. O cheque simbólico recebido no final de 2019 das mãos do governador pelo antigo reitor Ruy Garcia Marques foi repassado ao atual. No valor de R$ 1,3 bilhão, ele representa o orçamento da Uerj previsto para 2020.

“Nos últimos anos, teve início a explosão de racionalistas e do anti-intelectualismo que, saindo das mídias digitais onde ganhavam óculos e blindagem, conquistam importante espaço político e travam uma verdadeira guerra cultural em universidades, seus professores, técnicos e alunos. Mais do que nunca, é atual o alerta de Darcy Ribeiro de que a crise na educação do Brasil não é uma crise, mas um projeto. Nesse cenário, é fundamental destacar a importância da autonomia universitária e seus aspectos didáticos, pedagógicos, administrativos e financeiros-patrimoniais para o desenvolvimento cultural, econômico e social do País, a fim de que, no futuro, não seja inviabilizado pelo desmantelamento do sistema de educação, pesquisa e extensão das universidades. Aqui, é preciso destacar que o atual Governo do Estado não embarcou nesta guerra cultural das universidades. É preciso reconhecer seus esforços para, em um ambiente de reestruturação fiscal, prestigiar a universidade, esforçando-se para cumprir seus compromissos financeiros previstos no orçamento. Neste ponto, é sensível a mudança de relação com o Governo anterior, em que durante a crise financeira do estado, a Uerj foi posta como última das prioridades, o que comprometeu seu funcionamento, a vida de quase 40 mil famílias, o atendimento médico à população mais carente, as pesquisas científicas e os projetos de extensão”, discursou o novo reitor, Ricardo Lodi.

Estiveram presentes também na posse da nova reitoria os secretários de Estado de Educação, Pedro Fernandes; a subsecretária de Ensino Superior, Pesquisa e Inovação da Secti, Maria Isabel de Castro, que ocupou a Presidência da FAPERJ em julho de 2017, e o secretário estadual de Turismo, Otavio Leite, o subsecretário-geral de Estado de Saúde, Roberto Pozzan. A FAPERJ foi representada pelo seu presidente, Jerson Lima Silva; pela diretora Científica, Eliete Bouskela; e pela chefe de Gabinete, Consuelo Camara, entre outras autoridades, gestores e pesquisadores. 
 

A partir da esq., Roberto Pozzan, Maria Isabel de Castro, Jerson Lima, Ruy Garcia Marques, Ricardo Lodi e Mário Sérgio Carneiro


A cerimônia foi aberta com a execução do Hino Nacional pelo Coral Altivoz, da Uerj, que retornou para encerrar o evento ao som de “Samba do Avião” (Tom Jobim) e do samba-enredo de 2019 “Histórias Para Ninar Gente Grande”, da escola de samba Mangueira – vizinha da Uerj, ao lado da Vila Isabel de Noel Rosa, como bem ressaltou em discurso o vice-reitor Mario Sergio Carneiro. A apresentação contou com as participações especiais de Rafael Bombom ao cavaquinho, de Cacá da Mangueira e dos percussionistas Denner de Paula e Leandro Oliveira, com regência do maestro Mário Assef.

Sobre a nova Reitoria

Professor adjunto da Faculdade de Direito da Uerj, onde cursou sua graduação e exerceu o cargo de diretor, o novo reitor, Ricardo Lodi, atuou também como coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito. É autor de 10 livros e de mais de uma centena de artigos e capítulos de obras coletivas.

Já o vice-reitor Mario Sergio é professor adjunto de Radiologia Odontológica da Faculdade de Odontologia da universidade. Foi diretor e vice-diretor da Faculdade de Odontologia e, por duas vezes, diretor do Centro Biomédico.

Atualmente, a universidade, que tem 16 campi e unidades externas no território fluminense, reúne, aproximadamente, 43 mil alunos, 2.800 docentes e 5.600 técnicos administrativos. São 90 cursos de graduação, além de 63 de mestrado e outros 46 de doutorado.

* Com informações das assessorias de comunicação da Uerj e do Palácio Guanabara



Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 23/01/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3912.2.7

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Febre hemorrágica reaparece no Brasil

Considerada uma doença rara e de alta letalidade, a febre hemorrágica ressurgiu no Brasil após 20 anos sem registro de novos casos. O Ministério da Saúde confirmou, na segunda-feira (20/1), um caso de febre hemorrágica brasileira. O paciente, morador de Sorocaba, no interior de São Paulo, morreu por complicações da doença no dia 11 de janeiro, menos de duas semanas após apresentar os primeiros sintomas. O Ministério afirmou que o caso representa um risco significativo para a saúde pública, ainda que nenhum caso secundário tenha sido identificado até este momento da investigação.

De acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (Volume 51 | Nº 03 | Jan. 2020), a notificação de um caso confirmado para o gênero Mammarenavirus, com aproximadamente 90% de similaridade com a espécie Sabiá foi recebida em 17 de janeiro. O relato encaminhado ao Ministério da Saúde apresentou a seguinte descrição: paciente iniciou sinais e sintomas em 30/12/2019, com quadro de odinofagia, dor epigástrica, associado com náuseas, vertigem, xerostomia e mialgias. Evoluiu com mialgia em membros, seguida de dispneia, febre alta (39°C), sonolência, hipotensão, confusão mental, conjuntivite bilateral, exantema difuso, agitação psicomotora, manifestação hemorrágica, rebaixamento de nível de consciência, falência multissistêmica com evolução para óbito em 11/01/2020. Entre o início dos sintomas e o óbito, o paciente foi atendido por pelo menos três estabelecimentos de saúde entre os municípios de Eldorado, Pariquera-Açu e São Paulo, sendo o último o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

Ainda segundo o relato, nos exames complementares observou-se: intensa leucopenia, leve plaquetopenia, níveis elevados de creatinofosfoquinase, bilirrubina e aminotransferases (transaminases), tempo de protombina (TP) normal e tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA) alterado.

O resultado da metagenômica viral realizada pela equipe do Laboratório de Técnicas Especiais (Late) do Hospital Israelita Albert Einstein identificou um novo vírus do gênero Mammarenavírus, da família Arenaviridae, ainda sem espécie definida (genbank: MN956773 e MN956774). Posteriormente, o Laboratório de Investigação Médica do HCFMUSP também confirmou o mesmo agente através de metagenômica viral e o Instituto Adolfo Lutz após amplificação de RNA viral por RT-PCR.

Febres hemorrágicas virais

As febres hemorrágicas provocadas por vírus são um grupo de doenças de origem zoonótica, caracterizadas por febre e manifestações hemorrágicas que podem apresentar extrema gravidade e alta letalidade1,2. São doenças que apresentam uma distribuição mundial, causadas por um RNA vírus de fita simples de 6 famílias: Flaviviridae (febre hemorrágica de Omsk, febre da floresta de Kyasanur, dengue hemorrágico/síndrome de choque do dengue e febre amarela), Nairoviridae (febre hemorrágica do Congo e da Criméia), Phenuiviridae (febre do Vale Rift), Hantaviridae (febre hemorrágica com síndrome renal por hantavírus e síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus), Arenaviridae (febres hemorrágicas dos vírus Junin, Machupo, Guanarito e Sabiá na América do Sul e do vírus Lassa na África) e Filoviridae (febres hemorrágicas dos vírus Marburg e Ebola).

Histórico da febre hemorrágica por arenavírus no Brasil

Na literatura, há descrição de quatro casos humanos de febre hemorrágica brasileira provocados pelo gênero Mammarenavirus. O primeiro caso ocorreu por infecção natural, ou seja, a partir de um reservatório, na década de 1990 no estado de São Paulo e deu a origem a um segundo caso que ocorreu em ambiente laboratorial ao processar amostra do primeiro caso.

O primeiro caso era uma mulher, de 25 anos, que relatou viagem para o município de Cotia no estado de São Paulo, 10 dias antes ao início dos sintomas. Após o óbito, foi identificado por meio de testes imunológicos e virológicos que se tratava de umnovo vírus, da família Arenaviridae, denominado de vírus Sabiá, devido o nome do bairro onde a paciente
provavelmente se infectou.

O segundo caso, foi um técnico de laboratório de 39 anos, que foi infectado acidentalmente, durante o processamento da amostra clínica do primeiro caso. Esse caso sobreviveu e a confirmação foi comprovada por meio da soroconversão para o vírus Sabiá em sorologia pareada.

Há um terceiro relato de caso de vírus Sabiá, porém ocorrido em ambiente laboratorial dos Estados Unidos, em um virologista que provavelmente se infectou durante procedimentos laboratoriais.

O quarto caso de vírus Sabiá descrito na literatura ocorreu em 1999 por infecção natural. Trata-se de um paciente de 32 anos, do sexo masculino, operador de máquina de grãos de café, residente de área rural do Espírito Santo do Pinhal no estado de São Paulo. Após 7 dias de hospitalização, o paciente evoluiu para óbito.

Além desses casos com características clínicas hemorrágicas, há descrição de um caso adicional de infecção laboratorial com o arenavírus flexal. Neste caso, a paciente apresentou febrícula por várias semanas, mal-estar, astenia e intensa queda de cabelo. A recuperação foi completa, inclusive com recuperação do volume do cabelo.

Transmissão

Os roedores silvestres cronicamente infectados podem eliminar o vírus por toda a vida. Acredita-se que a manutenção dos Mammarenavirus pode ocorrer por transmissão vertical, ou seja, da mãe para o filhote; pelo contato próximo entre os roedores, brigas, acasalamento; e aerossóis.

As pessoas contraem a doença principalmente por meio da inalação de aerossóis, formados a partir da urina, fezes e saliva de roedores infectados. A transmissão dos arenavírus de pessoa a pessoa pode ocorrer quando há contato muito próximo e prolongado ou em ambientes hospitalares, quando não utilizados equipamentos de proteção, por meio de contato com sangue, urina, fezes, saliva, vômito, sêmen e outras secreções ou excreções. Procedimentos de geração de aerossóis, como intubação orotraqueal, ventilação mecânica não invasiva e aspiração das vias aéreas superiores, também estão envolvidos na transmissão de humano para humano. Eventualmente, pode ocorrer transmissão ao homem por contato direto com roedores, por meio de mordeduras.

O período de incubação, ou seja, período que compreende entre a exposição do vírus até o início dos sintomas, geralmente é de 6 a 14 dias, podendo variar de 5 a 21 dias.

Sinais e sintomas

Os arenavírus causam uma síndrome febril hemorrágica, cujo período de incubação é longo (em média entre uma semana e mais de um mês). A doença inicia com uma febre, mal-estar, dores musculares, dor epigástrica e retro-orbital, dor de cabeça, tonturas, sensibilidade à luz e constipação. Com a evolução da doença pode haver comprometimento neurológico. A doença normalmente cursa entre 6 a 14 dias.

A doença evolui com manifestações neurológicas e grave comprometimento hepático resultando em hepatite, podendo o paciente apresentar prostração extrema, dor abdominal, hiperemia conjuntival, rubor em face e tronco, hipotensão ortostática, hemorragia petequial, conjuntival e outras mucosas, hematúria, vesículas em pálato, linfadenopatia generalizada e encefalite.

Devido à síndrome de extravasamento capilar, o paciente pode apresentar pulso fino e choque, acometimento pulmonar e edemas, principalmente em face e região cervical, além de elevação do hematócrito, leucopenia com linfocitopenia e trombocitopenia.

O acometimento neurológico produz hiporreflexia, tremores e outras alterações do sistema nervoso central (SNC) como meningite e encefalopatias.

Tratamento

O tratamento é de suporte conforme a sintomatologia do paciente. Tem-se utilizado a ribavirina para o tratamento de casos provocados pelo vírus da febre do Lassa, sendo mais eficaz quando aplicada precocemente. Acredita-se que outros arenavírus também são sensíveis a esse antiviral. Na suspeita de um caso, favor entrar em contato com Cievs local e nacional para orientação e disponibilização da medicação.

Orientações aos profissionais de saúde

Monitoramento de contactantes: se define como contactantes os profissionais da Santa Casa de Eldorado, Hospital de Pariquera-Açu e Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Instituto Adolfo Lutz, Laboratório de investigação médica do Instituto de Medicina Tropical, Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Israelita Albert Einstein e familiares do caso confirmado, que entraram em contato com sangue, secreções ou excreções corpóreas com o caso confirmado para Mammarenavirus.

Sinais e Sintomas de alerta

Contactantes com alto risco de exposição: presença de qualquer um dos sintomas: febre, mialgia, odinofagia, cefaleia, exantema, hiperemia conjuntival, icterícia, hipotensão, alteração neurológica (letargia, confusão mental, crise convulsiva), sintomas gastrointestinais e manifestações hemorrágicas.

Contactantes com médio e baixo risco: presença de dois ou mais dos seguintes sintomas: febre, mialgia, odinofagia, cefaleia, exantema, hiperemia conjuntival, icterícia, hipotensão, alteração neurológica (letargia, confusão mental, crise convulsiva), sintomas gastrointestinais e manifestações hemorrágicas.

Período de monitoramento

O período de monitoramento será de 21 dias a partir do último dia da exposição ao material biológico ou contato com caso confirmado.

Notificação

A presença de sinais e sintomas de alerta em contactantes deve ser notificada de forma imediata (até 24 horas) pelo profissional de saúde responsável pelo atendimento, ao Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac (Cievs-SP) pelo telefone (0800 555 466) ou e-mail (notifica@saude.sp.gov.br), ou para o Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde Nacional (Cievs) pelo telefone (0800 644 6645) ou e-mail (notifica@saude.gov.br).

Para mais informações, acesse o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde aqui.

*Fonte: Boletim Epidemiológico Ministério da Saúde.





Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 23/01/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/febre-hemorragica-reaparece-no-brasil

Pesquisadora alerta para a necessidade de políticas de saúde em áreas de fronteira

Nos últimos anos, a Venezuela vem enfrentando uma grave crise econômica, gerada pela instabilidade política e também pela queda das receitas do petróleo. Com isso, dia após dia milhares venezuelanos atravessaram a fronteira em busca de refúgio e melhores condições de vida no município de Pacaraima, estado de Roraima. Todo este fluxo migratório gerou impactos consideráveis nos serviços públicos, principalmente no campo da saúde, levando o governo do estado a decretar, em 2016, emergência em saúde pública de importância nacional. Essa situação vem acarretando sobrecarga de trabalho para os profissionais que atuam na atenção básica e, principalmente, para os agentes comunitários de saúde, conforme análise de Rivena Dias, egressa do Mestrado Profissional em Educação em Saúde da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).

Nessa entrevista, ela conta um pouco sobre a sua pesquisa, que mostra que a chegada dos imigrantes venezuelanos trouxe consequências significativas para o trabalho desses agentes, em especial, para as ACS mulheres, como carga horária excessiva e entraves com o idioma. Além disso, Rivena ressalta que esses profissionais clamam urgentemente por uma qualificação específica para atender as demandas de imigrantes. “Diante da situação dos venezuelanos, elas reconhecem que é indispensável serem capacitadas para atender esta nova demanda, pois ainda têm dúvidas sobre como abordar, criar vínculos, sendo que as culturas são diferentes e os hábitos também”, aponta.

Qual foi o objetivo da pesquisa?
A dissertação analisou o impacto do atendimento aos imigrantes venezuelanos sobre as condições de trabalho dos agentes comunitários de saúde do município de Pacaraima, localizado no estado de Roraima e que faz fronteira com a Venezuela.

Qual a metodologia usada?
A pesquisa foi desenvolvida com abordagem qualitativa. Os sujeitos desse estudo foram os agentes das equipes da Estratégia Saúde da Família que atendem aos cidadãos venezuelanos. De acordo com o Departamento de Atenção Básica [DAB], atualmente estão cadastrados 28 agentes no município, distribuídos em cinco equipes.

Para a pesquisa, consideramos os profissionais que atendem ou já atenderam imigrantes e que trabalham na sede do município, onde os venezuelanos têm o seu primeiro contato com o território brasileiro. Seguindo este critério, 11 agentes comunitários foram entrevistados – todas mulheres que perceberam nesse trabalho uma oportunidade singular de ter renda e, ao mesmo tempo, ficarem próximas das suas famílias. Grande parte das entrevistadas veio de outros estados das regiões Norte e Nordeste, reflexo do intenso êxodo, principalmente de nordestinos para Roraima à época da sua ocupação. As agentes responderam um questionário autoaplicativo, pré-codificado, anônimo e com perguntas fechadas, envolvendo variáveis como gênero, etnia, naturalidade, faixa etária, escolaridade, tipo de residência em que mora, tempo de trabalho como agente comunitária, atendimento ao imigrante, formação para desenvolvimento das atividades como agente, dentre outros. Depois disso, realizamos entrevistas semiestruturadas com dez agentes. As entrevistas seguiram um roteiro que envolveu questões que abordaram suas condições de trabalho, a forma como percebem as suas práticas, principalmente em relação ao atendimento ao imigrante, assim como acerca da necessidade de uma maior capacitação para desenvolverem suas atividades em área de fronteira.

Qual é o papel do agente comunitário de saúdeque trabalha com atendimento ao cidadão venezuelano na cidade de Pacaraima?
Após escutar as agentes de Pacaraima, percebemos que o papel do agente em áreas de fronteira é complexo e, muitas vezes, desgastante. Na maioria dos relatos aparece o estresse, o sofrimento, mas também a solidariedade para e com o imigrante que chega às vezes somente com a roupa do corpo.
A limitação em resolver as situações dos moradores acaba por trazer à tona sentimentos de frustração, tanto para o morador que depositou sua esperança no agente comunitário como para o próprio profissional, que se sente incapaz e desmotivado por não conseguir dar a solução tão aguardada por aquele morador de sua área, principalmente diante da grande demanda que se estabeleceu com a vinda maciça dos imigrantes venezuelanos. As agentes relataram que, com a chegada dos novos moradores, a situação se agravou ainda mais, já que os serviços de saúde estão sobrecarregados e não conseguem absorver nem metade das necessidades dos imigrantes.

As agentes expressaram ainda que a condição do imigrante é flutuante, ou seja, está em constante mobilidade, pois sua intensa movimentação entre os dois países ou entre os municípios do próprio estado acaba por se constituir em obstáculo no processo de trabalho deste profissional, sobretudo, no que se refere ao acompanhamento da situação de saúde dos moradores venezuelanos de suas respectivas áreas. Nesse sentido, os entrevistados afirmam que, por serem o elo entre o usuário e o sistema de saúde, e tendo em vista a condição do imigrante de não ter um local fixo de moradia, o seu papel acaba sendo colocado em discussão, já que estes não pertencem de fato a sua área de abrangência, não há como acompanhar e nem desenvolver as atividades de maneira adequada. Isso é bastante comum quando se leva em consideração território em área de fronteira, já que as pessoas acabam entrando e saindo do Brasil. Embora nos últimos anos os imigrantes que vêm fugindo da crise acabem fixando moradia no território brasileiro e tenham em Pacaraima sua primeira tentativa de ganhar a vida.
Frequentemente, essa primeira investida quase sempre não é bem-sucedida porque por um lado não há como o mercado de trabalho local absorver toda essa população e, por outro, há superlotação dos abrigos – o que acaba por levar os imigrantes venezuelanos a procurarem outros destinos como os demais municípios do estado e, em especial, a capital Boa Vista. Há também um movimento do governo federal com outros estados de fazer a interiorização desses imigrantes para f, por exemplo, São Paulo, Mato Grosso, Amazonas, entre outros.

E como são as condições de trabalho dessas agentes?
Em vários momentos das entrevistas, as agentes relataram dificuldades para desenvolver seu trabalho no atendimento ao imigrante venezuelano. Relataram sentir medo e insegurança ao fazer as visitas domiciliares porque, frequentemente, os venezuelanos encontram-se aglomerados em casas pequenas, com poucos cômodos. Pelo fato de serem mulheres, ressaltaram que a presença de muitos homens na mesma residência apavora, pois temem estupro, assalto, entre outros. A companhia de outra colega é a saída que encontraram para se sentirem mais seguras. Esses profissionais revelam também que acabam trabalhando além do seu horário quando constatam que há uma situação de vulnerabilidade ou quando não conseguem achar a pessoa durante o seu período de trabalho.

Outro aspecto citado é o sofrimento psíquico em decorrência da intensa mobilidade dos imigrantes, o que acaba confundindo as agentes que relatam que são cobradas, pois têm que saber onde está aquele usuário que não está comparecendo as consultas, ou aquele que não tem buscado seu medicamento para hipertensão, por exemplo. Afirmam que ficam sempre vigilantes para ter certeza se o usuário venezuelano ainda está no município ou já foi embora.

As dificuldades com a língua também foram apontadas pelas entrevistadas que mencionam como a comunicação ficou mais complexa. Mesmo morando em áreas de fronteira, o idioma ainda é um entrave, principalmente para o imigrante que compreende pouco do que é falado [em português].
Nos relatos fica clara a empatia com os venezuelanos. A ânsia de querer ajudar é percebida nos olhos das agentes, pois elas sabem que os imigrantes que fogem da crise econômica em seu país passam por inúmeras dificuldades como a adaptação ao idioma, de encontrar emprego – validação de diploma –, xenofobia e vulnerabilidade social. Muitas vezes sem documentação ou com documentação insuficiente, recorrem à informalidade na tentativa de obter alguma resposta aos seus anseios, mesmo sujeitando-se a toda sorte de exploração.

É importante que esses profissionais tenham uma formação específica para atendimentos a imigrantes?

Sim. As agentes foram unânimes em afirmar que sabem a importância de haver sempre capacitação para exercerem suas atividades com qualidade e segurança. Referiram que diante da situação dos venezuelanos é indispensável serem capacitadas para atender esta nova demanda, pois ainda têm dúvidas sobre como abordar, criar vínculos, sendo que as culturas são diferentes, os hábitos também. Relatam que a língua é um grande entrave no atendimento aos venezuelanos e entendem que uma das formas possíveis de amenizar isso seria a contratação de um intérprete pela prefeitura de Pacaraima para oferecer apoio quando a comunicação entre profissionais e usuários fosse ineficaz. Uma das agentes entrevistadas sugeriu que fossem realizadas, semanalmente, palestras em espanhol sobre temas ligados à saúde para os venezuelanos, pois assim a equipe teria mais segurança de que o imigrante estaria de fato compreendendo e estaria atento a sua saúde.

E quais foram os resultados da pesquisa?

Foi uma experiência gratificante dar voz e vez às agentes comunitárias da fronteira. Os resultados apontaram que as condições de trabalho sofreram mudanças com a chegada dos venezuelanos, seja pelas visitas domiciliares que muitas vezes eram realizadas à noite ou nos finais de semana ou mesmo pela confusão na hora do cadastro, devido à intensa mobilidade dos estrangeiros.

As entrevistas mostraram ainda que as agentes sabem que têm grande responsabilidade à medida que se enxergam como a ponte entre os serviços de saúde e o usuário. Entretanto, sabem que não está em suas mãos a resolução das necessidades do morador de sua área, mesmo que utilizem vários meios, até mesmo pessoais para obter resolutividade. Percebem sua importância na vida do usuário, principalmente quando esse é imigrante e não conhece quase nada do país em que passará a residir.

Neste cenário de imigração, as agentes sabem a importância que tem a dimensão da educação no seu trabalho e revelam fazer de tudo para que sempre seja possível a realização de ações educativas em suas áreas. A capacitação foi elencada pelas agentes como uma saída para melhorar suas condições de trabalho, visto que pode proporcionar subsídios para o melhor desempenho de suas atividades. Mencionam que as capacitações ainda possibilitam um trabalho com mais qualidade e segurança.

Finalmente, cabe ressaltar que é necessário lutar para que as condições de trabalho dos agentes comunitários de saúde não sejam tão adversas, que não seja necessário trabalhar fora do seu horário, que não precisem sofrer por conta de cobranças cujas respostas não estão capacitadas a fornecer. É necessário olhar para o profissional que está na linha de frente dos sistemas de saúde, expondo-se, tendo que fazer todo um esforço para garantir que o morador de sua área tenha o mínimo de suas necessidades atendidas.

É fundamental e urgente pensar em políticas de saúde em áreas de fronteira, já que é possível, sim, um olhar mais atento às particularidades destes locais que requerem diversas estratégias para o enfrentamento do sofrimento ocupacional e das condições de trabalho, expressas através de carências em determinados pontos, devido às repercussões sobre a organização da rede de serviços de saúde, da vinculação flexível, aliadas à dinâmica de imigração que ocorre nestas áreas.





Autor: Julia Neves (EPSJV/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 24/01/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisadora-alerta-para-necessidade-de-politicas-de-saude-em-areas-de-fronteira