Moradores do Complexo do Lins e pesquisadores da Fiocruz participaram, no último sábado (28/3), da 3ª oficina do projeto integrado Tecnologias Sociais em Saúde da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha. A atividade aconteceu na favela da Cachoeira Grande, localizada no Complexo do Lins, e apresentou dados preliminares de uma pesquisa sobre indicadores do acesso à água e saneamento na região, realizada com 400 famílias, e promoveu o diálogo com a população sobre o direito humano à água e ao saneamento.
O encontro reuniu moradores, representantes de veículos locais de comunicação comunitária e pesquisadores do território, com o objetivo de compartilhar os dados quantitativos, realizar diagnósticos e ouvir as percepções da população sobre os resultados. A iniciativa integra um conjunto de ações voltadas à produção de conhecimento participativo e ao fortalecimento do debate público sobre as condições de vida na região.
A oficina promovida pelo projeto faz parte de uma ação conjunta coordenada pela Fiocruz, por meio da Coordenação de Cooperação Social da Presidência e da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em articulação com o Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha — um espaço de articulação que reúne organizações, pesquisadores, movimentos socioambientais e instituições comprometidas com a melhoria das condições ambientais e de saneamento dos territórios da bacia hidrográfica.

“No Lins, nós estamos desenvolvendo, por meio do projeto, ações para compreender a percepção da população sobre as condições de saúde e saneamento. Isso é fundamental para subsidiar a formulação de políticas públicas”, explicou Rejany Ferreira dos Santos, coordenadora do projeto na Coordenação de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e pesquisadora do Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha.
Dados da pesquisa revelam desafios no acesso à água e saneamento
A pesquisa-ação realizada pelo projeto, segue uma metodologia de pesquisa social e qualitativa, com um questionário aprovado no Comite de Ética da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz) é composta por perguntas divididas em módulos sobre dados de identificação do participante e dados socioeconômicos, saneamento ambiental, acesso à água, esgoto, saúde ambiental, dados sobre serviço após concessão e problema de saúde devido a carência em saneamento. As entrevistas foram realizadas pessoalmente pelos pesquisadores do território do projeto.

Moradores de diferentes comunidades do Complexo do Lins relataram casos de falta de água no território por 21 dias. “Quem mora em favela sabe que sempre houve problemas com o acesso à água. Isso impacta diretamente a vida da população, inclusive no orçamento das famílias, que muitas vezes precisam comprar água para suprir a falta de abastecimento. Sem água, não é possível realizar atividades básicas do dia a dia, como tomar banho, cozinhar ou manter a rotina dentro de casa”, relata Rejany Ferreira dos Santos.

Durante a atividade, foram apresentados dados levantados entre maio de 2025 e fevereiro de 2026, com a participação de 400 famílias do Complexo do Lins, residentes nas favelas Árvore Seca, Santa Terezinha, Cachoeira Grande, Morro do Amor, Cachoeirinha, Gambá, Barro Preto e na Rua Vilela Tavares - Lins. Os resultados evidenciam desafios estruturais importantes no território no âmbito do acesso à água e saneamento básico.
De acordo com a pesquisa, 85% dos moradores precisam armazenar água devido à intermitência no abastecimento, o que pode representar riscos à saúde quando feito em condições inadequadas. Além disso, 56% dos entrevistados não possuem coleta adequada de esgoto, enquanto 88% relataram a presença de vetores de doenças, como mosquitos, ratos e baratas, próximos às residências.

O levantamento também aponta que 12% dos moradores identificaram risco de contaminação cruzada entre redes de água e esgoto, e 27% precisam utilizar bombas elétricas para garantir o abastecimento, gerando custos adicionais às famílias. Outro dado relevante indica que 5% dos entrevistados possuem apenas um ou nenhum ponto de água dentro de casa, condição que impacta diretamente na higiene e na saúde.
Entre os participantes, 81% vivem com até um salário-mínimo, 89% não possuem ensino superior e 80% se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, evidenciando a relação entre desigualdade social e acesso precário ao saneamento.

“É importante reivindicar intervenções políticas a partir dos dados levantados. Conseguimos identificar os pontos críticos no território relacionados à água, ao saneamento e à drenagem urbana. Destacamos a questão dos resíduos sólidos como um dos principais fatores de risco à saúde: mais de 80% dos problemas identificados estão relacionados ao acúmulo de lixo, que não é recolhido na mesma velocidade em que é produzido. Isso evidencia a necessidade de uma política mais efetiva de coleta”, explicou Adriana Sotero Martins, coordenadora do projeto e pesquisadora do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Ensp/Fiocruz.
Projeto subsidia a construção de tecnologias sociais e ações no território
Além da apresentação dos dados, a oficina também abordou análises sobre a qualidade da água nas nascentes locais e promoveu um espaço de escuta ativa da população, reforçando a importância da participação comunitária na construção de pesquisas.
Através de ações informativas, educativas e práticas de saneamento em territórios socioambientalmente vulnerabilizados, o projeto já realizou ações também em outros bairros e territórios de favelas e periferias próximos, como o Complexo do Alemão, que foi território de implementação das tecnologias sociais e recorte de pesquisa em edição anterior, e na favela Santa Terezinha, localizada no Complexo do Lins no ano de 2024. Na atual etapa, uma nova localidade do Complexo do Lins será escolhida para receber a construção de duas tecnologias sociais: o Biofiltro e a Bacia de Evapotranspiração.

O primeiro, se trata de um sistema que permite acesso à água tratada pelo processo de remoção das impurezas utilizando-se agentes biológicos e esses poluentes são removidos pela barreira mecânica e por biodegradação. Essa tecnologia pode ser utilizada como alternativa em situações de falta de abastecimento. A Bacia de Evapotranspiração consiste em um sistema natural de evapotranspiração que faz a coleta e tratamento de esgotos de casas, diminuindo a carga de dejetos, proporcionando melhoria ambiental dos rios, com reflexos na saúde da população.
Sobre o projeto
O projeto “Tecnologias sociais em saúde na Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha na Serra dos Pretos Forros no Complexo do Lins” é articulado pelo Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, pela Coordenação de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. As ações tiveram início no segundo semestre de 2023 e seguem em execução ao longo de 2026, com foco na promoção da saúde, no fortalecimento comunitário e na melhoria das condições de saneamento ambiental no território.
*Fotos presentes na matéria: Nathalia Mendonça
Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 02/04/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/04/pesquisadores-da-fiocruz-e-do-complexo-do-lins-moradores-e-coletivos-locais-se


