quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

O que está por trás da nova orientação drástica sobre o álcool no Canadá



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Rei Charles 3º e Camilla experimentaram uma cerveja canadense durante a visita de 2022


No Canadá, novas recomendações nacionais apontam que não há quantidade segura de ingestão de drinques alcoólicos.


Se a pessoa escolher beber, de acordo com o documento, um máximo de dois drinques por semana é a quantidade considerada de baixo risco pelas orientações apoiadas pelo governo.


O conselho é uma queda acentuada em relação à recomendação anterior, publicada em 2011.


As diretrizes anteriores recomendavam um máximo de 10 drinques por semana para mulheres e 15 drinques para homens.


"A principal mensagem dessa nova orientação é que qualquer quantidade de álcool não é boa para a saúde", disse Erin Hobin, cientista sênior da Public Health Ontario e membro do painel de especialistas que desenvolveu as diretrizes.


"E se você beber, quanto menos, melhor."


O relatório de quase 90 páginas, do Centro Canadense de Uso e Dependência de Substâncias, descreve vários riscos à saúde associados ao que antes era considerado baixo consumo de álcool.


De acordo com o CCSA, mais de duas cervejas de cerca de 341 ml com 5% de álcool ou uma taça de 142 ml de vinho com 12% de álcool trazem um aumento nos resultados negativos, incluindo câncer de mama e cólon.



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'Com três drinques por semana, o risco de câncer de cabeça e pescoço aumenta em 15% e cresce ainda mais com cada taça ou copo adicional', diz médico


A informação pode vir como um baque para cerca de 80% dos adultos canadenses que bebem.


"A nova orientação é talvez um pouco chocante", disse o dr. Hobin. "Acho que é uma informação muito nova dizer para o público que, com três drinques por semana, o risco de câncer de cabeça e pescoço aumenta em 15% e cresce ainda mais com cada taça ou copo adicional."


"Três drinques por semana para a maioria dos canadenses não seria considerada uma grande quantidade de álcool", acrescentou ela.


Especialistas canadenses dizem que a mudança drástica na orientação - de quase dois drinques por dia para dois por semana - é o resultado de melhores pesquisas ao longo do tempo.


"Os dados gerais estão melhorando em termos de como e o que estamos medindo", disse Jacob Shelley, professor de saúde e direito da Western University.

Como o Canadá se compara com a Austrália, EUA e Reino Unido


As novas recomendações colocam o país fora de sintonia com várias outras nações ocidentais. A orientação nacional da Austrália, publicada em 2020, recomenda um máximo de 10 bebidas padrão por semana. A França sugere o mesmo.


Os EUA recomendam não mais do que dois drinques por dia para homens e um para mulheres, enquanto o Reino Unido sugere não mais do que 14 "unidades" de álcool - cerca de seis copos de vinho ou seis "pints" de cerveja - por semana.


Mas o Canadá não está totalmente "fora da curva". Em 2015, o conselho de saúde da Holanda recomendou que as pessoas se abstivessem completamente de álcool ou bebessem não mais do que uma bebida por dia.


Ainda é uma questão em aberto se os canadenses - que amam cerveja quase tanto quanto amam hóquei - serão convencidos a beber menos por causa dessa orientação.



De acordo com a Pesquisa Global de Drogas, em frequência de consumo, o Canadá não está entre os 10 principais países do mundo, ficando abaixo da média global. Mas na medida de "sentir-se bêbado", o Canadá saltou para o sexto lugar, logo atrás dos EUA e do Reino Unido.


"O álcool faz parte da nossa cultura no Canadá, é normalizado, é socialmente aceitável", disse o dr. Hobin. "Você verá álcool em aniversários, casamentos ou quando estiver assistindo Hockey Night in Canada em uma noite de sábado", disse ela, referindo-se ao amado programa semanal de esportes.


Cientistas da CCSA e outros especialistas dizem que a rotulagem obrigatória de todas as bebidas alcoólicas com advertências de saúde, agora prática comum para cigarros, é um primeiro passo necessário.


Em 2017, em um dos únicos experimentos do mundo real até hoje com advertências sobre câncer em bebidas alcoólicas, Hobin estudou os efeitos de tais advertências em lojas de bebidas em Whitehorse, capital do Estado de Yukon.


Verificou-se que os rótulos diminuíram as vendas de álcool per capita em 7% em comparação com os locais de controle em Yukon e nos territórios da região Noroeste.


Ainda assim, exigir a rotulagem nacional exigiria a aprovação da Health Canada.


Em comunicado à BBC, a agência agradeceu ao CCSA por seu trabalho, dizendo que o uso de álcool apresenta "problemas sérios e complexos de saúde pública e segurança". Mas não quis comentar sobre a adição de advertências de saúde às bebidas dos canadenses.


- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-64321922







Autor: Holly Honderich
Fonte: BBC News em Washington
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 18/01/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-64321922

Osteoporose: o que se deve comer para prevenir a condição



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Viver com medo de fraturar uma vértebra, um braço ou o quadril pode ser cansativo. É o que acontece com quem sofre de osteoporose, a condição que deixa os ossos mais porosos.


A doença se caracteriza pela redução da massa óssea e atinge 30% das mulheres com mais de 50 anos — e 8% dos homens.


A fragilidade óssea que acompanha a osteoporose reduz a qualidade de vida dos pacientes e está associada a altas taxas de morbidade e mortalidade.


Além disso, em muitas ocasiões se torna uma doença incapacitante.


Há fatores que aumentam o risco de sofrer de osteoporose que não somos capazes de influenciar — como a idade, o sexo, a etnia ou a presença de algumas patologias, como o hipogonadismo.


No entanto, muitos outros fatores podem ser modificados, incluindo baixo peso corporal, falta de atividade física, pouca exposição ao sol, uso de alguns medicamentos, consumo de café, tabaco e álcool.

Cálcio (e sol) para os ossos


Também sabemos que existem certos hábitos alimentares que, embora não evitem o aparecimento da osteoporose, reduzem o risco de sofrer da condição.



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Ingestão de cálcio na vida adulta está ligada a uma menor perda de massa óssea


Estudos indicam que a ingestão adequada de cálcio melhora a densidade mineral óssea, especialmente durante a infância e a adolescência.


Na idade adulta, a ingestão de cálcio parece estar mais relacionada a uma menor perda de massa óssea do que a um aumento dela.


Na prática, para ingerir cálcio podemos consumir laticínios, assim como leguminosas como soja e seus derivados; frutos secos, como amêndoas; e legumes e verduras, como brócolis, couve ou couve-flor.


O espinafre também contém cálcio, mas não é tão bem absorvido.


Por outro lado, ter níveis adequados de vitamina D no organismo ajuda a absorver o cálcio ingerido, e o mineral a se fixar no osso, reduzindo consideravelmente o risco de sofrer de osteoporose.


Essa vitamina é encontrada apenas em alimentos de origem animal, principalmente em peixes oleosos, e em menor quantidade em outros alimentos, como laticínios.

Além disso, hoje muitos alimentos de origem vegetal, como bebidas vegetais, incorporam vitamina D.



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O salmão é um dos alimentos mais ricos em vitamina D


É claro que essa vitamina não é exclusivamente de origem alimentar: ela também é sintetizada no organismo quando nossa pele é exposta à luz solar.


Por esse motivo, a exposição ao sol é recomendada por cerca de 15 minutos ao dia.

Proteínas na medida certa


A ingestão de proteínas nos países desenvolvidos costuma ser suficiente, até mesmo excessiva. Isso afeta a fragilidade dos ossos? Não está claro.


Por isso, para prevenir a osteoporose, não é aconselhável aumentar seu consumo acima das necessidades do corpo.


O que parece indiscutível é que quanto mais equilibrada for a nossa alimentação, melhor será a nossa saúde óssea.


Para começar, as evidências sobre o efeito protetor das diferentes dietas ainda são muito limitadas e não permitem tirar conclusões claras e fazer recomendações a esse respeito.


E embora haja indícios de que a dieta mediterrânea poderia ajudar a prevenir a osteoporose, nem todos os estudos constataram esse efeito benéfico.

Tampouco é uma má ideia imitar as populações asiáticas com uma dieta rica em soja e peixes oleosos. Há evidências de que esses padrões reduzem a incidência de fraturas associadas à osteoporose.


O que, sem dúvida, não ajuda a evitar a fragilidade óssea é abusar de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar e gordura de má qualidade, ou de cereais refinados, entre outros.


Seguir esse tipo de dieta, que não é saudável, está associado a uma menor densidade óssea e, portanto, a um maior risco de osteoporose em idades mais avançadas.


Em outras palavras, além de aumentar a prevalência de obesidade e outras patologias, e de fazer mal ao coração, a junk food deteriora os ossos.


* Saioa Gómez Zorita é professora da Universidade do País Basco, pesquisadora do grupo de nutrição e obesidade do Centro Espanhol de Pesquisa Biomédica em Fisiopatologia da Obesidade e Nutrição (CiberObn) e do Instituto de Pesquisa Sanitária Bioaraba, Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea.


Maitane González Arceo é estudante de pré-doutorado, grupo de nutrição e obesidade, Universidade do País Basco/Euskal Herriko Universitatea.


María Puy Portillo é professora de nutrição, Centro Espanhol de Pesquisa Biomédica em Fisiopatologia da Obesidade e Nutrição (CiberObn), Universidade do País Basco/Euskal Herriko Universitatea.


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).




Autor: Saioa Gómez Zorita, Maitane González Arceo e María Puy Portillo
The Conversation *
Fonte: bbc
Sítio Online da Publicação: bbc
Data: 18/01/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-64290360



7 técnicas para ajudar seu filho a gostar de estudar

A participação de pais e responsáveis nos estudos das crianças é de grande importância. Seu envolvimento e auxílio farão com que eles compreendam melhor as matérias e, consequentemente, alcancem melhores resultados.

Para isso, é importante incentivar o acesso às mais diversas formas de estudo, para que o aluno encontre a que mais vai contribuir para o seu aprendizado.



Crédito: Pexels7 técnicas de ajudar seu filho a gostar de estudar

O blog Novos Alunos, do Grupo SEB (Sistema Educacional Brasileiro), reuniu 7 métodos que permitem o aumento da concentração e a otimização do conhecimento. Acompanhe a leitura e descubra!
1. Resumos para estudar


Uma das técnicas para estudar mais conhecidas é a produção de resumos. Identificar as partes centrais de um conteúdo e reorganizar as informações, de forma que elas fiquem mais claras e compreensíveis, ajuda a fixá-las.

Também chamado de fichamento, o resumo é o ato de reescrever um conjunto de conhecimentos. Eles podem ser reorganizados, divididos em tópicos, ou ainda estruturados na forma de texto corrido.

Uma das grandes vantagens do resumo como ferramenta de estudos é que ele permite que sejam adicionadas anotações a mais. Elas podem ser obtidas em pesquisas adicionais ou mesmo a partir de considerações que partam do conhecimento prévio do aluno.

O uso do computador e um pouco de disciplina podem fazer do resumo uma estratégia que una de modo eficaz o universo online e a inovação aos estudos — o que ocorre, por exemplo, quando o aluno adiciona links e referências de vídeos, artigos, podcasts ou matérias que possam acrescentar detalhes interessantes ao tema que está estudando.
2. Formas de apresentação

Uma outra estratégia está diretamente ligada às apresentações simuladas. Após uma leitura inicial, ou mesmo um estudo aprofundado, o estudante pode falar sobre o conteúdo, ou mesmo ensiná-lo a outra pessoa.

Nessa hora, a participação externa da família ou dos amigos é muito bem-vinda. Pessoas próximas do dia a dia do estudante podem fazer o papel de seus alunos, acrescentando observações, ou mesmo fazendo perguntas para avaliar seu nível de conhecimento.

Como é uma técnica para estudar, é importante que o jovem não se cobre em relação ao conhecimento integral dos conteúdos. Consultas em livros, apostilas ou materiais de apoio devem ser estimuladas. O objetivo é, por meio da apresentação, compreender as informações pertinentes ao assunto que está sendo o objeto de estudo naquele momento.
3. Mapa mental


Crédito: Frans van Heerden/PexelsA participação externa da família ou dos amigos é muito bem-vinda

A elaboração de diagramas contribui positivamente para uma compreensão mais clara e lógica das informações. Por isso, estruturar um mapa mental é uma ótima estratégia de aprendizado. O método permite uma visualização completa das informações, interligando conceitos e classificando de forma hierarquizada pontos importantes do conhecimento.

Organizar de maneira visual os pontos estratégicos de uma disciplina faz com que o aprendizado seja muito mais fácil e produtivo! Nessa hora, é possível explorar formatos de papeis diferenciados (como a folha A3), ou mesmo de cores e texturas diferentes, para ajudar na identificação visual de trechos e palavras mais importantes.
4. Transcrição

A escrita é uma importante ferramenta para quem quer assimilar alguma informação. O hábito de escrever, ainda que tenha perdido um pouco de sua força com o uso da tecnologia, pode ser considerado um importante aliado do raciocínio.

Por isso, fazer a transcrição de trechos importantes das disciplinas — ou mesmo apostar nas anotações adicionais em livros ou apostilas — ajuda no estudo. Aliás, pesquisas indicam que escrever em papel o que você quer lembrar proporciona estímulos mentais!

Vale lembrar que registrar informações em gadgets ou celulares não conta como a transcrição escrita que estamos sugerindo.



Crédito: Andrea Piacquadio/PexelsA escrita é uma importante ferramenta para quem quer assimilar alguma informação
5. Repetições

Existem algumas técnicas para estudar que são baseadas na repetição. Falar diversas vezes algumas frases ou mesmo insistir em determinadas informações (repetindo em voz alta) contribui positivamente para o aprendizado, mas vale lembrar que a repetição em si não gera conhecimento. O importante é compreender o que se está estudando.

Existem sistemas, como o Leitner, que organizam melhor o exercício da repetição como ferramenta para auxiliar na sedimentação de alguns conteúdos. Nele, são produzidos cartões (ou flashcards) com perguntas, que devem ser depositados em uma caixa.

O estudante deve tentar responder à pergunta de um cartão e, caso acerte, vai para uma segunda caixa. Ao errar, o cartão permanece na primeira caixa. O processo pode acontecer em até seis caixas, para que as perguntas sejam feitas e refeitas mais de uma vez. A ideia é reforçar os estudos em relação às informações que estão na primeira caixa.
6. Autoexplicações gravadas

O estudo por meio de auto explicações segue a mesma lógica do aprendizado a partir de apresentações. A ideia é falar em voz alta frases ou temas que estão sendo estudados.

A técnica, aliás, está 100% ligada à neurociência. A produção oral ajuda na retenção das informações. Ao gravar, é possível ouvir sucessivamente as informações e, assim, sedimentar o aprendizado.

Com essas auto explicações gravadas é como se o aluno elaborasse podcasts personalizados. Esse tipo de informação pode até mesmo ajudar colegas nos estudos e melhorar o rendimento escolar da turma.
7. Grupos de estudos

As trocas e interações podem gerar resultados positivos para o aprendizado. Com alunos engajados e comprometidos, é possível investir em grupos de estudo, visando a obtenção de ótimos resultados no tocante ao aprendizado. É interessante centralizar cada momento do grupo em um mesmo assunto — isso permitirá o esclarecimento de dúvidas e a estruturação de uma agenda de temas a serem vistos e desenvolvidos.



Crédito: Ron Lach/Pexels7 técnicas de ajudar seu filho a gostar de estudar

Algumas dicas, no entanto, fazem toda a diferença para o sucesso de um grupo de estudo. Entre elas:

• evitar as conversas paralelas;
• escolher colegas engajados;
• criar regras para o uso de celulares e das redes sociais.

Afinal, o objetivo do grupo de estudo é a aquisição de conhecimento e a troca de experiências.

Como vimos, o aprendizado pode acontecer tanto de maneira individual, quanto em grupo. Explorar as possibilidades é o que permite que o aluno descubra o que mais faz sentido dentro das suas expectativas e necessidades.







Autor: Oferecimento SEB (Sistema Educacional Brasileiro)
Fonte: catracalivre
Sítio Online da Publicação: catracalivre
Data: 16/01/2023
Publicação Original: https://catracalivre.com.br/educacao/tecnicas-filho-estudar/

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Recorde de óbitos por dengue alerta para prevenção

O Brasil chegou ao fim de 2022 com um triste recorde: 1.016 brasileiros morreram por dengue, como informa o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. É o maior número de óbitos pela doença já registrado desde o início do relatório. A alta de casos fatais, geralmente associados ao diagnóstico tardio da doença, pode ter relação com o desvio das atenções para mitigação da urgência em saúde provocada pela Covid-19.



O mosquito 'Aedes aegypti' (foto: Josué Damacena)

“Se observarmos os dados que antecedem a pandemia, percebemos que, durante aumentos dos casos de dengue, a quantidade de óbitos ainda permanecia em menor proporção, visto que os pacientes eram diagnosticados mais rapidamente e, consequentemente, tratados de forma adequada”, destaca Denise Valle, do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

As manifestações clínicas iniciais da dengue são comuns e podem ser confundidas com outras doenças, incluindo a Covid-19: febre, dores de cabeça e no corpo, mal-estar e fraqueza. A semelhança de sintomas pode ter confundido tanto a população quanto os profissionais de saúde. “A letalidade da dengue está associada à demora na identificação e no tratamento da doença. No último ano, ainda sob efeito da Covid-19, pacientes que estavam seguindo o isolamento social podem ter levado mais tempo para buscar assistência médica, e muitos podem ter recebido diagnóstico impreciso por conta da vigência de outra doença com sintomas parecidos”, comenta.

Por ser transmitida pelo Aedes aegypti (também vetor dos vírus chikungunya e zika), a dengue tem seu número de casos gerais diretamente influenciado pela quantidade de mosquitos. A pesquisadora Rafaela Bruno, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Insetos do IOC, lembra que nos últimos anos os cuidados de prevenção também ficaram em segundo plano.

“Diminuiu significativamente o número de campanhas de conscientização sobre o Aedes e, por isso, muitas pessoas esqueceram de vistoriar suas casas em busca de focos de água parada. Também, com o distanciamento social, agentes de endemias não estavam autorizados a visitar residências para ações de prevenção, fundamentais para relembrar moradores da importância de eliminar criadouros do mosquito”, ressalta.

Em 2022, foram registrados 1.450.270 de casos prováveis de dengue. Outros números que chamam atenção são os de casos prováveis de chikungunya e zika. Houve acréscimo de 78,9% na contagem de casos de chikungunya em 2022 quando comparada com a do mesmo período em 2021 – que já era maior em 32,7% que a do ano anterior. Nos casos de zika, o aumento foi de 42%.

“Esses números podem diminuir a partir deste ano com as dinâmicas da sociedade se assemelhando ao período pré-pandêmico. Porém, isso apenas acontecerá se também recuperarmos nossas ações de conscientização acerca do Aedes aegypti”, afirma Rafaela.

Campanhas de prevenção como principal ação

Para impedir que o cenário de gravidade se repita em 2023, as pesquisadoras alertam para a importância de manter a regularidade nas campanhas de prevenção. Conhecida da população brasileira, a campanha 10 Minutos Contra a Aedes – que há mais de uma década tem ajudado a direcionar os cuidados de prevenção – continua como a principal ferramenta para diminuir a incidência do mosquito.

“É uma campanha com mensagem simples e concreta, de fácil compreensão e execução. Desde 2009, quando foi lançada, ela tem sido nossa grande aliada para baixar drasticamente a infestação de mosquitos e, consequentemente, reduzir casos das doenças transmitidas por eles”, lembra Denise.



Guia de ação semanal presente na cartilha da campanha '10 Minutos Contra o Aedes' (foto: Reprodução)


Os 10 Minutos Contra Aedes visa incentivar a população a dedicar pelo menos 10 minutos por semana para vistoriar suas residências em busca de possíveis criadouros do mosquito. “Temos de recuperar a atenção que a prevenção contra o Aedes tinha e, para isso, precisamos da cooperação ativa dos multiplicadores de opinião, como líderes comunitários e jornalistas”, aponta Denise. “Precisamos reverter a queda significativa na quantidade de campanhas públicas e inserções na mídia e voltar a ocupar espaços de comunicação para que a população seja relembrada das ações que devem ser tomadas contra o Aedes”, reforça Rafaela Bruno.

Conheça e compartilhe a cartilha dos 10 Minutos Contra o Aedes.





Autor: Max Gomes (IOC/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 17/01/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/aedes-aegypti-recorde-de-obitos-por-dengue-alerta-para-prevencao

Curso para profissionais de saúde visa enfrentamento à discriminação

Uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está disponibilizando um curso online e gratuito, sobre o enfrentamento ao estigma e discriminação de populações em situação de vulnerabilidade nos serviços de saúde. O objetivo é qualificar os trabalhadores da área sobre a influência do estigma e da discriminação no processo de cuidado em saúde. Para mais informações e inscrições, clique aqui. 



A elaboração do curso surgiu da necessidade de sensibilizar e instrumentalizar profissionais de saúde para uma atenção inclusiva, humanizada, interseccional e não discriminatória. O conteúdo proposto pretende atualizar, aprimorar e qualificar as práticas e construções sócio-históricas que ocorrem durante todo o processo de trabalho através da interação entre profissionais e usuários dos serviços de saúde. 

Nesse contexto, a proposta do curso autoinstrucional é promover a qualificação dos trabalhadores da saúde sobre a influência do estigma e da discriminação no processo de cuidado em saúde, instrumentalizando-os para uma atenção inclusiva, humanizada, interseccional e não discriminatória em relação às IST, HIV/Aids, Hepatites Virais, Micoses Endêmicas, Tuberculose e Hanseníase.

Módulos, aulas e certificado 

Dentre os temas tratados no primeiro módulo, serão abordadas as bases conceituais, como estigma e discriminação, condições individuais, programáticas e sociais de vulnerabilidade e implicações étnicas em saúde. O curso completo conta com cinco módulos, divididos em 17 aulas em 35h de carga horária.  

Os conteúdos estão alinhados às evidências científicas nacionais e internacionais, focadas nos avanços em relação ao enfrentamento das vulnerabilidades sociais.  

Certificados de conclusão serão enviados aos aprovados com obtenção de nota mínima de 70, por e-mail, em até cinco dias úteis após a realização da avaliação online.  

A formação é uma realização da Fiocruz, através do Campus Virtual Fiocruz e a Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, em parceria com Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (DCCI/SVS/MS). 

Enfrentamento ao estigma e à discriminação em serviços de saúde 

A postura dos trabalhadores em saúde deve ser sempre a de se colocar no lugar do usuário/paciente e perceber suas necessidades, como uma das formas de acolhimento na medida em que atende e responde a essas demandas. É importante ressaltar que o acesso, fator determinante para o uso efetivo dos serviços de saúde, também resulta de fatores individuais, contextuais e relativos à qualidade do atendimento que influenciam o uso e a efetividade do cuidado. 

Cabe ressaltar que essas ofertas de cursos não asseguram a essa parcela da população o fim da discriminação nos serviços prestados pela saúde mas já lhe conferem maior visibilidade a suas necessidades. É necessário lembrar que essas políticas só se viabilizam quando traduzidas à realidade específica local, exigindo um esforço conjunto, ou seja, sob a perspectiva de cada um e todos os gestores, técnicos, conselheiros e demais envolvidos na produção do cuidado em saúde, assim como de pesquisadores e ativistas sociais comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e igualitário.  

Portanto, é fundamental dar voz ao usuário e ao trabalhador em saúde para se conseguir promover iniciativas de educação permanente para a transformação das relações pautadas em desigualdades evitáveis. 

“Mais de um quarto dos brasileiros com diagnóstico de HIV, por exemplo, ainda não recebe tratamentos antirretrovirais, e entre as razões para a falta de acesso está o racismo estrutural, afirmou a diretora e representante do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) no Brasil, Claudia Velasquez.  

Para ela, isso, aliado ao estigma e às desigualdades sociais, explica o motivo que na última década o país apresentou queda de 9,8% na proporção de casos de Aids entre as pessoas brancas, enquanto entre os negros houve aumento de 12,9%. “É o racismo estrutural que existe e afasta as pessoas dos serviços”, afirmou a bióloga de 52 anos, com mestrado em saúde pública internacional.




Autor: Úrsula Neves
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 16/01/2023
Publicação Original: https://pebmed.com.br/curso-para-profissionais-de-saude-visa-enfrentamento-a-discriminacao/

O que todo médico precisa saber sobre hepatite alcoólica

Estima-se que o álcool seja responsável por cerca de 50% dos óbitos por doença hepática crônica e que, aproximadamente, um terço dos pacientes com transtorno por uso de álcool desenvolve doença hepática crônica. A doença hepática alcoólica tem amplo espectro clínico e histológico, incluindo esteatose, esteatohepatite, cirrose hepática e carcinoma hepatocelular. A hepatite alcoólica é uma entidade clínica que ocorre em alcoolistas crônicos, cursando com icterícia e coagulopatia, além de aumentar a predisposição a infecções, ser desencadeante de acute-on-chronic liver failure (ACLF) e apresentar altas taxas de mortalidade, em torno de 20 a 50% em 03 meses.


A incidência de hepatite alcoólica vem crescendo e aumentando em populações mais jovens e do sexo feminino. A pandemia de covid-19 contribui para esse aumento. Recentemente, o New England Journal of Medicine publicou uma revisão sobre hepatite alcoólica, que fala sobre fatores de risco, patogênese, diagnóstico e tratamento.

Fatores de risco

Em sua maioria, os pacientes com hepatite associada ao álcool têm uma história de uso prolongado e em grandes quantidades de álcool.


São fatores de risco:

sexo feminino

etnia hispânica

fatores genéticos, como mutação no gene PNAPL3

Por outro lado, o consumo moderado de café e o polimorfismo no gene HSD17B13 são fatores protetores.


Patogênese

O álcool exerce dano hepático direto, através de suas toxinas e metabólitos, e indireto, através de exacerbação de resposta inflamatória. O fígado exerce papel fundamental na metabolização do álcool em acetaldeído, levando à ativação de resposta imune inata, depleção de glutationa, peroxidação lipídica, dano mitocondrial e exacerbação da resposta inflamatória através da liberação de DAMPs (padrões moleculares associados a danos).


Isso porque o consumo excessivo de álcool atua no eixo fígado-intestino, através da perda das “tight-junctions”, aumentando a permeabilidade intestinal e levando à disbiose. Com isso, há translocação bacteriana e liberação de PAMPS (padrões moleculares associados a patógenos), exacerbando a resposta inflamatória e causando dano hepático.


Há, ainda, uma tentativa inútil de regeneração hepática, através de expansão maciça das células progenitoras do fígado, que é denominada reação ductular. Dessa forma, a função hepática (que realiza, por exemplo, o transporte de bilirrubina, a síntese de fatores de coagulação e a metabolização da glicose) fica prejudicada.


A síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS) e a disfunção imune são frequentes, favorecendo infecções bacterianas e o desenvolvimento de ACLF.


Diagnóstico e prognóstico da hepatite alcoólica

O artigo propõe um fluxograma diagnóstico com uma avaliação inicial, exclusão de potenciais diagnósticos diferenciais e avaliação de indicação de biópsia hepática transjugular. Na avaliação inicial, deve-se ter atenção a parâmetros clínicos e laboratoriais.


Os dados clínicos que favorecem o diagnóstico incluem: consumo crônico de álcool > 60g/dia em homens e 40 g/dia em mulheres até 60 dias antes do início da icterícia; início recente de icterícia, fadiga, ascite, febre, hepatomegalia dolorosa, confusão mental e flapping.


Nos exames laboratoriais, espera-se bilirrubina total maior que 3 mg/dl, AST/ALT maior que 2, AST menor que 400 U/L, Gama-GT maior que 100 U/L, albumina menor que 3g/L, INR maior que 1,5 e contagem de plaquetas menor que 150.000 cél/mm³. Alguns pacientes podem apresentar anemia hemolítica não imune.


Após suspeita clínica inicial é necessário excluir diagnósticos diferenciais. É indicado:


solicitar US abdome com Doppler para excluir obstrução mecânica (CHC, obstrução biliar benigna ou maligna, síndrome de Budd-Chiari);

revisão detalhada do uso de medicamentos, suplementos ou ervas com potencial hepatotóxico nos últimos três meses, com auxílio do site livertox.nih.gov para excluir DILI/HILI (lesão hepática induzida por drogas ou ervas);

solicitar sorologias para hepatites virais;

solicitar marcadores de hepatite autoimune se suspeição clínica ou primeiro episódio à FAN, IgG, anti músculo liso;

e avaliar presença de hipotensão, choque, hemorragia maciça ou uso recente de cocaína à Excluir hepatite isquêmica.

Na ausência de fatores confundidores, é feito o diagnóstico clínico provável de hepatite alcoólica. Nos casos de dúvida diagnóstica, deve-se considerar a possibilidade de biópsia hepática transjugular, incluindo os seguintes casos: apresentação clínico-laboratorial atípica; uso incerto de álcool; alta suspeição de hepatite autoimune; e uso de substâncias hepatotóxicas nos últimos três meses.


O diagnóstico de hepatite alcoólica comprovado por biópsia é feito se a biópsia hepática apresentar achados como: fibrose em ponte ou cirrose; bilirrubinostase hepatocelular, canalicular ou ductular; infiltração neutrófilos; e corpúsculos de Mallory-Denk. Na impossibilidade de realizar biópsia em casos de dúvida diagnóstica, o diagnóstico de hepatite alcoólica é clinicamente possível.


Feito o diagnóstico, deve-se avaliar a gravidade do quadro através do uso de escores prognósticos como índice de função discriminante de Maddrey, MELD score, ABIC e Glasgow, todos disponíveis em calculadoras on-line.


Conheça as calculadoras disponíveis no Whitebook!


Atualmente, o escore que vem mostrando melhor correlação com a gravidade é o escore MELD, que acima de 20 indica gravidade.


Tratamento

Para todos os pacientes, recomenda-se o tratamento de suporte e das complicações hepáticas, assim como o tratamento do alcoolismo.


O suporte nutricional é recomendado a todos os pacientes, que devem ingerir pelo menos 21 kcal/kg/dia. Quando o aporte oral não garante essa oferta, deve-se realizar nutrição enteral com alvo de 35-40 kcal/kg/dia. É recomendada suplementação de vitaminas do complexo B e outras vitaminas como D e K, caso os níveis séricos estejam baixos.


Os pacientes devem ser submetidos a rastreio infeccioso, com culturas, análise do líquido ascítico, radiografia de tórax e exame sumário de urina. Na suspeita de infecção, é necessário início precoce de antibióticos de amplo espectro. O manejo do alcoolismo requer equipe multidisciplinar e é de extrema importância. É necessário avaliar a presença de síndrome de abstinência e tratá-la, quando presente.


Após a alta hospitalar, o paciente deve ser encaminhado para um especialista. Em caso de pacientes sem lesão renal, deve-se considerar o uso de baclofeno. Na ausência de contraindicações, deve-se administrar prednisolona ou prednisona 40 mg nos casos graves (MELD > 20 e/ou índice de Maddrey > 32).


No sétimo dia da medicação, deve-se calcular o escore de Lille para avaliar resposta. Alternativamente, é possível calcular no quarto dia. Caso o escore seja menor que 0,45, recomenda-se completar quatro semanas da prednisona. Caso maior ou igual a 0,45, recomenda-se parar a corticoterapia e considerar transplante hepático precoce em locais em que esse é disponível ou inserção em trials clínicos com medicações promissoras, como acetilcisteína e G-CSF (granulokine).


Em 2011, Mathurin e colaboradores publicaram um estudo que incluiu 26 pacientes com hepatite alcoólica grave sem resposta aos glicocorticoides. Todos foram submetidos a transplante hepático precoce. A sobrevida em seis meses foi muito maior nesse grupo do que em uma série histórica de pacientes com doença grave semelhante (77% versus 23%).


No Brasil, as políticas de transplante hepático requerem, no mínimo, seis meses de abstinência etílica. Dessa forma, o transplante hepático precoce ainda não é uma opção nos casos refratários em nosso país.


Mensagens práticas sobre hepatite alcoólica

A hepatite alcoólica é uma condição grave que ocorre em pacientes alcoolistas crônicos com padrão de consumo elevado. Sua incidência vem aumentando, principalmente após o período de pandemia de covid-19. Conhecer essa condição e saber tratá-la é de suma importância para médicos que atuam em serviços de atenção primária.


O cuidado multidisciplinar é de extrema importância para os pacientes com hepatite alcoólica, visto que há concomitância de doença hepática e alcoolismo. Muitas vezes, os estigmas relacionados ao alcoolismo atrapalham o tratamento e acompanhamento desses pacientes.



Autor: Fernanda Costa Azevedo
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 17/01/2023
Publicação Original: https://pebmed.com.br/o-que-todo-medico-precisa-saber-sobre-hepatite-alcoolica/

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Pesquisa identifica resíduos de pesticidas em papinhas infantis

Estudo conduzido por cientistas do Brasil e da Espanha rastreou a presença de 21 agrotóxicos (incluindo fungicidas, inseticidas e herbicidas) e quatro toxinas produzidas por fungos do gênero Aspergillus (aflatoxinas) em 50 amostras de alimentos industrializados para bebês comercializados em supermercados no Estado de São Paulo.



Análise feita na Espanha usou metodologia desenvolvida por pesquisadores da Unicamp para rastrear grande variedade de compostos de uma só vez (foto: Freepik)

A boa notícia é que não foram encontradas nas amostras selecionadas as temidas aflatoxinas, que são tóxicas ao organismo humano e de animais e podem surgir em cereais, grãos e outros cultivos. A aflatoxina B1, por exemplo, é comprovadamente carcinogênica.

A pesquisa foi conduzida pela engenheira de alimentos Rafaela Prata, com apoio da FAPESP, e divulgada na revista Food Control,.

Quanto aos agrotóxicos, o estudo revelou inicialmente a presença de sete dos 21 compostos rastreados. “Encontramos resíduos de pesticidas em 68% das amostras analisadas de alimentos infantis. No recorte por composição e sabor, 47% das papinhas com frutas apresentaram pelo menos um resíduo de agrotóxico, índice que foi de 85% para as comidas de bebês à base de carne e vegetais”, descreve a pesquisadora.

As concentrações dos agrotóxicos identificados ficaram abaixo dos limites máximos de resíduos estabelecidos pela legislação europeia desde 2006, que foi usada como padrão no estudo. De modo geral, na União Europeia, o limite é de 10 microgramas por quilo de alimento para diferentes agrotóxicos. Limites ainda mais baixos foram determinados para agrotóxicos específicos, como fipronil (4 microgramas por quilo). “Não existe, no Brasil, uma legislação própria para limitar a concentração de resíduos de agrotóxicos em alimentos infantis”, diz Prata. “O que existe são monografias sobre agrotóxicos no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa], que consultamos para ver em quais cultivos o uso de determinado produto é autorizado, bem como os limites máximos em alimentos, mas nada sobre as papinhas”, diz Prata.

Para a pesquisadora, falta uma regulamentação específica para esses produtos. “Os bebês são um grupo populacional sensível e vulnerável porque ingerem mais alimentos por quilograma de peso corporal do que os adultos e seus sistemas de desintoxicação e vias metabólicas não estão totalmente desenvolvidos. É importante conhecer a composição dos alimentos oferecidos a eles”, justifica a pesquisadora.

“Ainda que estejam dentro dos limites preconizados pela legislação europeia, o ideal é que essas substâncias não sejam encontradas em alimentos infantis”, afirma o pesquisador espanhol Roberto Romero-González. Referência internacional no estudo de contaminantes e supervisor deste projeto de pesquisa no exterior, González é um dos líderes do Laboratório de Química Analítica e Contaminantes do Research Centre for Mediterranean Intensive Agrosystems and Agri-Food Biotechnology (Ciaimbital), na Universidade de Almeria, na Espanha, onde foi realizada parte das análises das papinhas brasileiras, com financiamento da FAPESP.

Faltam estudos

A presença de pesticidas e de toxinas produzidas por fungos em alimentos infantis ainda é pouco estudada no Brasil, embora avance em países europeus. “Somos um dos maiores consumidores dessas substâncias do mundo. Precisamos investir nesse tipo de pesquisa”, defende Prata. “Até onde sabemos, foi a primeira análise feita com uma metodologia desenvolvida para identificar pesticidas de classes diferentes e micotoxinas em alimentos infantis à base de carnes e vegetais.”

Parte da investigação foi conduzida no Laboratório de Análises de Alimentos I da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob a coordenação da professora Helena Godoy, que estuda contaminantes em alimentos infantis e validação de métodos com apoio da FAPESP. Anteriormente, o país dispunha apenas de dados sobre a contaminação por agrotóxicos em papinhas feitas com frutas.

Logo depois dessa análise, o grupo submeteu as mesmas amostras a uma nova triagem para rastrear a presença de 2.424 contaminantes não abordados a princípio, entre eles outros pesticidas, hormônios, medicamentos veterinários e seus metabólitos (substâncias derivadas da metabolização desses compostos químicos pelo organismo humano).

“Encontramos mais dez agrotóxicos e um metabólito, demonstrando que o método que desenvolvemos é sensível e eficaz”, diz Prata. Ela se refere ao processo de inovação, com uso de novos materiais, para adaptar metodologias usadas para identificar um único composto à detecção simultânea de um conjunto de resíduos de agrotóxicos e micotoxinas. “Nós conseguimos desenvolver um método analítico multirresíduos confiável e validá-lo totalmente. Pode ser uma ferramenta útil para programas de vigilância de alimentos”, afirma.

Segundo a pesquisadora, o metabólito sulfóxido de aldicarbe foi encontrado em três sabores de papinhas: caldo de feijão, arroz e carne; legumes e carne; e abóbora, feijão preto e peito de frango. O teste não mediu a quantidade de resíduos.

O aldicarbe é um pesticida proibido no Brasil desde 2012. Por sua alta toxicidade, era usado ilegalmente como raticida (o popular “chumbinho”). Segundo o toxicologista Daniel Junqueira Dorta, professor de química forense na USP de Ribeirão Preto, trata-se de pesticida que se degrada rapidamente no solo, em cerca de duas ou três semanas. A presença de resíduos no alimento sugere, portanto, o uso irregular nas lavouras. Da mesma forma, o composto se degrada rapidamente no organismo e é eliminado.

“O efeito pior do aldicarbe é agudo, por concentração mais alta”, diz o toxicologista. “De todo modo, não deveria haver resíduo desse tipo de jeito nenhum”, diz o toxicologista. Para a professora Helenice de Souza Spinosa, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, que analisou a toxicidade do composto em cães e gatos, o achado é relevante e precisa ser mais bem investigado e detalhado. Ela lembra ainda que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), além das próprias empresas, faz o monitoramento da presença de contaminantes nos alimentos por amostragem regularmente.

“Se você pensar que a criança vai se alimentar com pequena quantidade e nesse estudo nem está quantificado, ou seja, podem ser apenas traços, isso não vai causar intoxicação aguda. Mas o achado é importante: embora proibido, pode ser que estejam usando e não sabemos”, diz Spinosa.

Procurada pela reportagem, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) sugeriu, por meio de sua assessoria de imprensa, que a Agência FAPESP entrasse em contato com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins e Congêneres (Abiad). Em nota, a Abiad afirmou que as empresas a ela associadas seguem todas as normas e legislações nacionais vigentes e que têm restritas políticas para garantir a qualidade dos produtos aos consumidores.

“Os alimentos passam por diversos e rígidos processos de controle de vigilância sanitária, sendo aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e só então liberados para o consumo do público. A Abiad também reforça que nenhuma das empresas associadas foi informada por órgãos que regulamentam a qualidade dos produtos no Brasil sobre substâncias irregulares encontradas em alimentos infantis.”

O artigo Targeted and non-targeted analysis of pesticides and aflatoxins in baby foods by liquid chromatography coupled to quadrupole Orbitrap mass spectrometry pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0956713522002651?via%3Dihub.








Autor: Monica Tarantino | Agência FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 12/01/2023
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/pesquisa-identifica-residuos-de-pesticidas-em-papinhas-infantis/40458/