quarta-feira, 24 de maio de 2023

Fiocruz se torna referência na produção de medicamento para malária

O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) é referência na produção de Primaquina 5 mg, medicamento utilizado para o tratamento da malária no Brasil. O produto foi reconhecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, agora, faz parte da Lista A de medicamentos de referência do órgão de saúde. A instituição também é referência na fabricação do produto Primaquina 15 mg.


A instituição também é referência na fabricação do produto Primaquina 15 mg (foto: Farmanguinhos/Fiocruz)

Segundo o Ministério da Saúde (MS), em boletim epidemiológico publicado em novembro de 2021, mais de 56 mil casos de malária foram registrados naquele ano, considerando apenas o período de janeiro a junho. “Nossa missão é disponibilizar medicamentos efetivos para o tratamento de doenças negligenciadas. É algo que está no nosso DNA e que seguimos desde as linhas de pesquisa, com o nosso corpo técnico e alunos, e que passa pelo desenvolvimento tecnológico até chegar às nossas linhas de produção. Tudo atendendo aos requisitos de qualidade exigidos pela Anvisa”, disse o diretor de Farmanguinhos/Fiocruz, Jorge Mendonça.

Fruto de desenvolvimento totalmente interno, a Primaquina 5 mg é voltada para o público adulto e pediátrico a partir de 6 meses de idade e foi registrada pela Anvisa em março de 2022. Sua distribuição, no entanto, só começou a ser realizada em fevereiro deste ano. Desde então, o Instituto envia unidades farmacêuticas ao MS para auxiliar no tratamento completo da malária pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio do Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária (PNCM).

“O projeto da Primaquina 5 mg é derivado do redesenvolvimento tecnológico da maior dose, de 15 mg, e apresentou alguns desafios adicionais em função da menor concentração do insumo farmacêutico ativo (IFA). Nós iniciamos esses estudos ainda em 2014 e, por isso, conseguimos compreender profundamente a natureza das interações do medicamento. Aprendemos a evitá-las e obtivemos bons resultados para manter a qualidade do produto”, explica a Tecnologista em Saúde Pública e chefe do Departamento de Gestão de Desenvolvimento Tecnológico  de Farmanguinhos/Fiocruz, Juliana Johansson.

Com a entrada do medicamento produzido pelo Instituto na lista da Anvisa, qualquer laboratório que pretenda registrar ou regularizar seu produto perante o órgão  deverá comprovar a intercambialidade com o produto de Farmanguinhos, por meio de estudo de bioequivalência. “As primaquinas de Farmanguinhos são medicamentos inovadores, cuja eficácia, segurança e qualidade foram comprovadas cientificamente junto à Anvisa para obtenção do registro sanitário. Ou seja, se tornaram referência para as demais empresas que pretendam registrar o medicamento”, afirma a chefe de Assuntos Regulatórios da instituição, Soraya Mileti.

Instituto referência

Farmanguinhos é uma unidade técnico-científica da Fiocruz. “Nossa unidade é caracterizada como um laboratório farmacêutico oficial vinculado ao MS e atua como um agente regulador de mercado no setor farmacêutico. Por isso, exercemos um papel essencial no fornecimento de medicamentos para doenças negligenciadas”, lembrou a coordenadora de Desenvolvimento Tecnológico, Alessandra Esteves. Esse trabalho se estende, ainda, ao fornecimento de medicamentos de alto valor agregado, oriundos de Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs), bem como a pesquisa, a inovação, ao desenvolvimento tecnológico e a absorção de tecnologia de fármacos e medicamentos

Além das primaquinas, a instituição aparece na lista da Anvisa como referência para outros medicamentos, separados em grupos que contenham um único insumo farmacêutico ativo (grupo A) e medicamentos que contenham dois ou mais insumos farmacêuticos ativos em uma única forma farmacêutica (grupo B).

Na lista A, por exemplo, são encontrados a Nevirapina 200 mg, Zidovudina 100 mg e Efavirenz 600 mg, para o tratamento de HIV/Aids e os tuberculostáticos Etionamida 250 mg e Isoniazida 100 mg. Já na lista B, aparece a Isoniazida + Rifampicina 150 mg + 300 mg, para o tratamento de tuberculose. Confira as listas A e B da Anvisa.




Autor:
Arielle Curti (Farmanguinhos/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz 
Sítio Online da Publicação: Fiocruz 
Data: 19/05/2023

Aniversário do Museu da Vida Fiocruz celebra povos originários

O Museu da Vida Fiocruz, em parceria com a Aldeia Maracanã, festeja 24 anos de fundação com um evento especial. O Aniversário do Museu da Vida Fiocruz 2023: Aprendendo com os povos originários acontece no campus Fiocruz Manguinhos entre os dias 25 e 27 de maio, com entrada gratuita e uma programação comemorativa. O destaque fica para as atividades do dia 27, quando o Museu abre ao público em esquema de visitação livre num sábado pela primeira vez este ano. Confira abaixo a lista de atividades.

Durante três dias, o Museu da Vida Fiocruz e a Aldeia Maracanã convidam o público a mergulhar na cultura indígena. A lista de atividades é extensa, com oficina de grafismo corporal, de tupi-guarani, contação de histórias, feira de artesanato e medicinas da floresta e apresentação de cânticos. Os visitantes também vão poder conferir exposições, peças teatrais, atividades ao ar livre e muito mais.

Paula Bonatto, coordenadora do Serviço de Educação do Museu da Vida Fiocruz, explica que, dentro da visão que se constrói de popularização da ciência, a promoção do diálogo com os movimentos populares é muito importante. “Cabe a nós, como Museu da Vida Fiocruz, como pessoas que estão na luta pela saúde de qualidade para todos, nos alinharmos com esses povos, principalmente considerando o conceito de equidade, que é dar mais atenção aos que mais precisam”, explica Bonatto, que ressalta também a relevância fundamental das trocas de saberes e experiências com os grupos. “São conhecimentos e sabedoria que temos como patrimônios a serem conservados e aprendidos por nós”.

Povos indígenas por eles mesmos

Ninguém melhor para compartilhar conhecimentos sobre cultura indígena do que os próprios indígenas. Sendo assim, o Museu da Vida Fiocruz está trazendo a Aldeia Maracanã (Aldeia Maraká'nà) para estabelecer este diálogo junto aos visitantes.

Durante os três dias de evento, o público poderá partilhar da visão e do conhecimento dos indígenas que ocupam a Aldeia Maracanã, aldeia urbana que reúne povos de várias etnias e se localiza no bairro do Maracanã, Zona Norte do Rio de Janeiro. Há ainda a Universidade Pluriétnica Indígena Aldeia Maracanã, que cultiva e promove o compartilhamento de conhecimentos tradicionais.

“Pensar e planejar o evento com o museu tem sido uma troca de emoções, memórias e afetos. A todo instante, sentimos muito respeito à cultura e à espiritualidade dos povos originários. Percebo o esforço para que realmente tenhamos o protagonismo”, explica Mônica Lima Tripuira Kuarahy Manaú Arawak, professora da Universidade Pluriétnica Indígena Aldeia Maracanã, doutora em Biologia e servidora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc).

Ela lembrou que o evento possibilitará a abordagem de aspectos da medicina da floresta e da cosmovisão indígena, uma discussão que contribui para a cura do planeta e da sociedade. “Penso que as pessoas do museu estão realmente mergulhando neste resgate ancestral a cada contato conosco”, ressaltou. O desejo é que este sentimento seja transmitido ao público durante os três dias de evento. “Que as pessoas possam vivenciar a espiritualidade dos povos da floresta, pois é na floresta que reside toda ciência e vida”.

A professora destacou ainda que a expectativa é que o encontro traga desdobramentos futuros, divulgando aos visitantes as mais urgentes pautas indígenas e ajudando na formação de parcerias dentro e fora da Fiocruz junto a questões como a demarcação da Aldeia Maracanã e de sua Universidade Pluriétnica Indígena, maior atenção à Casa do Índio (localizada na Ilha do Governador – RJ) e as violações e violências contra os povos originários.

O Museu da Vida Fiocruz fica localizado na Avenida Brasil, 4365, Manguinhos. A entrada é gratuita e a visitação é livre. O agendamento para grupos já está esgotado para os dias 25 e 26 de maio. Não haverá agendamento também no dia 27 – o Museu estará de portas abertas para receber todos os visitantes.

Confira a programação completa no site do Museu da Vida Fiocruz.




Autor: 
Teresa Santos (Museu da Vida Fiocruz)
Fonte: Fiocruz 
Sítio Online da Publicação: Fiocruz 
Data: 19/05/2023

Fiocruz integra nova Rede Internacional de Vigilância da OMS

Presidente da Fiocruz, Mario Moreira participou, no último sábado (20/5), em Genebra, do lançamento da Rede internacional de Vigilância de Patógenos (em inglês, International Pathogen Surveillance Network – IPSN), uma iniciativa do hub para Inteligência Epidemiológica Pandêmica e Epidêmica da Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo é gerar uma plataforma global de vigilância genômica para detectar e responder às ameaças antes que elas se tornem epidemias ou pandemias. A Fiocruz compõe o fórum de lideranças da iniciativa e pretende colocar sua capacidade e seu expertise a serviço da rede. O lançamento é um evento paralelo da 76ª Assembleia Mundial da Saúde, que acontece de 21 a 30 de maio.  

O presidente da Fiocruz, convidado a falar em um painel sobre o papel que a instituição desempenhou na resposta do sistema de saúde brasileiro à pandemia, destacou a produção e as entregas de kits diagnóstico, as criações da Rede Genômica, do Biobanco Covid-19 e do Observatório Covid-19 Fiocruz, a transferência de tecnologia para a produção de uma vacina nacional de Covid-19 e a escolha da Fiocruz pela Opas/OMS para ser um dos dois polos de desenvolvimento e produção de vacinas com tecnologia mRNA na América Latina.

“Um evento com potencial pandêmico pode surgir em áreas com menor capacidade de resposta no campo da vigilância moderna. Portanto, abordagens de vigilância multinacional integradas são centrais para minimizar o risco de disseminação de surtos. Será muito importante trabalhar em conjunto e alinhar esforços com outros atores da vigilância genômica de patógenos para acelerar o progresso e garantir que todos os países tenham sistemas de vigilância de saúde fortes e sustentáveis. Para isso, reforçamos que as estruturas e capacidades da Fiocruz estão à disposição dessa iniciativa global para promover vidas mais saudáveis e melhores em todo o mundo”, comentou Mario Moreira. 

Para o diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Michael Ryan, que representou o diretor-geral  da Organização Tedros Adhanom Ghebreyesus no evento, em diversos lugares do mundo havia uma capacidade na área de vigilância genômica que foi acelerada com a pandemia. O desafio agora é sustentar essa capacidade e distribui-la de forma mais igual no mundo. 


A Fiocruz compõe o fórum de lideranças da iniciativa e pretende colocar sua capacidade e seu expertise a serviço da rede (foto: OMS)

“Temos que construir um sistema de vigilância que se sustente e não apenas para os ricos. O sistema tem que funcionar para todos em todo lugar. Temos que aplaudir a comunidade científica que soube responder à pandemia à altura, mas, ao mesmo tempo, temos o desafio de manter o investimento na vigilância mesmo após o surto pandêmico e de tornar essas capacidades de resposta mais bem distribuídas, já que hoje ainda são muito desiguais”, destaca Ryan.

A Rede recebe financiamento da Rockefeller Foundation, Wellcome Trust e do governo alemão, mas pretende ampliar o investimento com a adesão de mais financiadores aos projetos de vigilância. A iniciativa conta ainda duas linhas de ação: comunidades de práticas, que reúnem especialistas na área de dados genômicos e tem por objetivo criar protocolos, compartilhamento de dados e o desenvolvimento de ferramentas de dados que possam integrar os sistemas públicos de saúde; e aceleradores de países, para ampliar a capacidade de cooperação para o desenvolvimento de estruturas locais de vigilância genômica.

O diretor-geral assistente da Divisão de Inteligência e Sistemas de Vigilância de Emergências da Saúde da OMS, Chikwe Ihekweazu, enfatizou: “nenhum grupo aqui tem todas as respostas. O objetivo da Rede é prover as condições e uma coordenação para que os países e instituições possam colocar o seu conhecimento, recursos e capacidade em prol de uma rede global para alcançar um objetivo comum”. 

Também como parte do fórum de lideranças da Rede, estiveram presentes no painel de lançamento o chefe-executivo da Agência de Segurança em Saúde do Reino Unido, Jenny Harries, o diretor do Centro de Resposta e Inovação para Epidemia (Ceri) da Universidade Stellenbosch, na África do Sul, Tulio de Oliveira, o diretor de Doenças Infecciosas da The Wellcome Trust, Alexander Pym, o diretor-executivo do Centro Nacional para Doenças Infeciosas, Leo Yee-Sin, o diretor-geral do CDC África, Ahmed Ogwell Ouma, o vice-presidente sênior da Fundação Rockefeller, Naveen Rao, e a diretora do Centro Nacional de Genômica e Bioinformática (ANLIS Malbrán), na Argentina, Josefina Campos.



Autor: 
Pamela Lang (Agência Fiocruz de Notícias) 
Fonte: Fiocruz 
Sítio Online da Publicação: Fiocruz 
Data: 22/05/2023

terça-feira, 23 de maio de 2023

Novo podcast dá voz às mulheres que atuam nas ciências exatas

Desconstruir as percepções negativas que costumam ser associadas às ciências matemáticas. Esse é um dos principais objetivos do novo podcast A matemática no divã, que estreou no fim de abril na Rádio da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

No formato de entrevista, o podcast é produzido pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), campus de São Carlos, em parceria com a Rádio UFSCar, e promove bate-papos descontraídos com uma pesquisadora da área das ciências exatas a cada mês.

“Queremos estimular os ouvintes a lançar um novo olhar para a matemática, que ainda é considerada de difícil compreensão, acessível apenas a poucos privilegiados capazes de decifrar sua linguagem e na qual não existe mais nada a ser cientificamente descoberto”, explicou a jornalista Denise Casatti, analista de comunicação do ICMC-USP, à Assessoria de Comunicação do instituto.

A ideia do programa nasceu a partir das experiências vivenciadas pela jornalista, que também é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar.

A proposta é que as pesquisadoras convidadas se sintam em um ambiente acolhedor para a escuta e a fala, em que poderão compartilhar com os ouvintes relatos de suas experiências pessoais e profissionais. No primeiro episódio, a pesquisadora Maria Aparecida Soares Ruas, professora do ICMC, revela como foi participar, em 1969, da sétima edição do Colóquio Brasileiro de Matemática, evento que marcou a fundação da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).



Autor: 
FAPESP 
Fonte: FAPESP 
Sítio Online da Publicação: FAPESP 
Data: 23/05/2023

Projetos sobre obesidade e consumo de álcool na adolescência são selecionados por consórcio internacional



A Global Alliance for Chronic Diseases (GACD) reúne as principais agências internacionais de financiamento a pesquisas especificamente para apoiar o que se denomina atualmente como “pesquisa da implementação”, que busca entender como o conhecimento gerado pela investigação científica pode se transformar em medidas concretas, capazes de lidar com a carga crescente de doenças não transmissíveis em países de baixa e média renda e em populações vulneráveis de países de alta renda.

O resultado da última chamada realizada pela GACD teve duas propostas apoiadas pela FAPESP, sendo que uma delas foi a mais bem avaliada no painel e a outra obteve cofinanciamento do Research Council of Norway (RCN), da Noruega. Cada projeto receberá um aporte máximo de R$ 1.500.000,00, por uma atuação que deverá se estender por 48 a 60 meses.

No edital “Fatores de Risco Comum em Idades Vulneráveis (Adolescentes e Jovens Adultos)”, a FAPESP definiu como escopo propostas voltadas especificamente para as faixas etárias entre 10 e 19 anos e 15 e 24 anos.

As duas propostas contempladas foram: “Ambientes alimentares saudáveis e obesidade na infância e adolescência: compreendendo e superando os desafios para implementação das políticas públicas mais eficazes”, apresentada por Patricia Constante Jaime, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP); e “Redução do consumo de álcool entre adolescentes através de uma intervenção multicomponente de base comunitária: uma abordagem de pesquisa de implementação”, apresentada por Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp).

A primeira proposta aponta o agravamento do crescimento da obesidade, associado a mudanças alimentares, com o aumento da disponibilidade de alimentos ultraprocessados. “Como resultado”, diz a pesquisadora na apresentação da proposta, “observa-se um crescimento de doenças crônicas não transmissíveis associadas à má alimentação, particularmente em crianças e adolescentes”.





Autor: 
José Tadeu Arantes 
Fonte: FAPESP 
Sítio Online da Publicação: FAPESP 
Data: 23/05/2023

Quase 30% dos restaurantes do iFood são dark kitchens, revela estudo inédito










 – Aproximadamente um terço dos restaurantes listados no iFood, aplicativo de entrega de comida mais utilizado pelos brasileiros, são dark kitchens, de acordo com um estudo inédito no país – e um dos poucos já realizados no mundo – sobre as cozinhas exclusivas para delivery, que ganharam força durante a pandemia de COVID-19.

Além da ausência de instalações para consumo no local, esses estabelecimentos apresentam ainda outras características próprias: estão localizados em áreas mais distantes dos centros urbanos, comercializam especialmente comida brasileira, lanches e sobremesas e são mais baratos do que restaurantes convencionais. Essas e outras conclusões foram apresentadas por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em artigo publicado quinta-feira (18/05) na revista Food Research International.

Para identificar e caracterizar as dark kitchens no aplicativo, a coleta de dados foi realizada em duas etapas. Na primeira, por meio de mineração de dados, foram obtidos nome, URL endereço e CNPJ (Cadastro Nacional de Empresas) de 22.520 restaurantes de três centros urbanos (Limeira, Campinas e São Paulo), bem como sua distância linear até o centro da cidade, tempo estimado de entrega, avaliação dos usuários, tipo de comida oferecida, possibilidade de agendamento de entregas e rastreamento da localização do pedido.

Na segunda, os primeiros mil estabelecimentos localizados a partir do centro de cada cidade foram classificados como dark kitchens (727, ou seja, 27,1%), standard ou restaurantes-padrão (1.749 ou 65,2%) ou indefinidos (206 ou 7,7%), sobre os quais não foram obtidas informações suficientes ou cujos endereços apontavam para lugares inexistentes, como terrenos. Na capital, o número de dark kitchens é ainda mais alto: 35,4%.

“Acreditamos, no entanto, que esse número seja maior, já que a plataforma não exige posicionamento dos restaurantes nem identifica a informação para o consumidor, fazendo com que, em diversos casos, não tenhamos conseguido dados suficientes para bater o martelo”, afirma Diogo Thimoteo da Cunha, professor do curso de nutrição, pesquisador do Laboratório Multidisciplinar em Alimentos e Saúde (LabMAS) da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp (FCA-Unicamp) e coordenador da pesquisa. “Tanto que precisamos realizar também um trabalho investigativo, buscando informações em redes sociais e no Google Street View, telefonando e enviando mensagens e até visitando lugares para observar fachadas.”

“Também pudemos constatar que, nas três cidades, as dark kitchens ficam mais distantes das regiões centrais, o que barateia custos de produção e leva a preços mais baixos, diferentemente de um restaurante bem localizado, que precisa investir em fachada e outros serviços”, completa Mariana Piton Hakim, pesquisadora do LabMAS e primeira autora do trabalho. “Por outro lado, em São Paulo, observamos que os restaurantes convencionais apresentavam número de estrelas [avaliação de usuários] superior, além de contarem com mais avaliações nas três cidades, o que pode estar relacionado ao menor volume de venda das dark kitchens e ao fato de que restaurantes convencionais geralmente são mais conhecidos.”

Outros dados extraídos da pesquisa, financiada pela FAPESP, foram os tipos de comida mais servidos pelas dark kitchens (na capital, culinária brasileira, em 30,3% dos casos; enquanto nas cidades menores, lanches e sobremesas, em 34,7% dos casos) e seus modelos de organização: independente (cozinhas alugadas por uma marca exclusivamente para uso próprio, podendo ou não ter fachada); shell ou hub (compartilhada por mais de uma cozinha/restaurante); franquia (com mais de um ponto de venda, redes sociais bem estabelecidas e podendo estar presente em diferentes cidades); cozinha virtual em um restaurante-padrão com menu diferente (instalada no mesmo endereço de um restaurante físico, mas com nome e serviço diferentes); cozinha virtual em um restaurante-padrão com menu semelhante, mas nome diferente (montada no mesmo endereço de um restaurante físico, com mesmo tipo de cardápio, mas com nome diferente); e doméstica (localizadas em prédios residenciais ou casas).

Percepção do consumidor e questões sanitárias

Embora as dark kitchens apareçam com frequência nos noticiários pelas brigas com vizinhos por conta do barulho, mau cheiro e trânsito de motoqueiros em suas redondezas residenciais, os pesquisadores levantam ainda outra questão a ser esclarecida: suas condições higiênico-sanitárias.

“Percebemos que esse modelo de restaurante parece estar às margens das legislações – não porque seja ilegal em si, mas porque ninguém nunca se debruçou para entender direito como o setor funciona e como pode ser aprimorado”, diz Cunha. “Não queremos dificultar seu trabalho, inclusive porque sabemos que traz recursos e é uma tendência que veio pra ficar, mas entender seu impacto na economia e também viabilizá-lo de forma legal para que possa ser acessado adequadamente pela vigilância sanitária, que hoje tem dificuldades em fiscalizar cozinhas domésticas, fortalecendo o setor e trazendo proteção ao consumidor.”

Esse deve ser o foco dos próximos estudos do grupo, que pretende, ainda este ano, visitar dark kitchens para observar de perto seu funcionamento, qualidades e defeitos e entender a percepção do produtor. A expectativa é de que serão constatadas falhas sanitárias nos casos de cozinhas domésticas, como presença de animais e famílias, bem como geladeiras de uso único, mas também exemplos de como driblar essas fraquezas e trazer potenciais sugestões para o setor.

Os pesquisadores lembram ainda que a situação é agravada pelo fato de o consumidor não entender exatamente o conceito de dark kitchen e desconhecer eventuais riscos para o alimento e para sua família, de acordo com um estudo anterior do grupo, divulgado na revista Food Research International.

“A percepção dos consumidores é ambígua: ao mesmo tempo em que acreditam que uma refeição pedida pelo iFood traga uma certa chancela de proteção, não consideram que o aplicativo tenha responsabilidade pela segurança do alimento”, diz Hakim.

O estudo está sendo realizado em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além de duas instituições de ensino internacionais (universidades de Central Lancashire, no Reino Unido, e Gdansk, na Polônia), o que permitirá a comparação do setor em diferentes países.

A reportagem entrou em contato com a plataforma iFood por meio de sua assessoria de imprensa, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

O artigo Exploring dark kitchens in Brazilian urban centres: A study of delivery-only restaurants with food delivery apps pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0963996923005148?via%3Dihub.




Autor: Julia Moióli | Agência FAPESP 
Fonte: FAPESP 
Sítio Online da Publicação: FAPESP 
Data: 23/05/2023

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria da USP oferece vaga de pós-doutorado

Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI) recebe, até domingo (21/05), inscrições para uma oportunidade de pós-doutorado em modelagem matemática industrial aplicada e matemática computacional.

O CeMEAI é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado no Instituto de Ciências Matemáticas e Computacionais da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), em São Carlos.

A vaga requer doutorado em matemática aplicada, engenharia ou áreas afins, além de sólida formação em técnicas de redução dinâmica, como teoria da forma normal, redução de Lyapunov-Smith e redução de variedade central. Candidatos com habilidades comprovadas na realização de pesquisas científicas independentes e na programação de ambientes de computação de alto desempenho serão priorizados.

Os interessados devem enviar currículo e duas cartas de recomendação para o professor Tiago Pereira da Silva (tiago@icmc.usp.br).

Mais informações sobre a vaga em: www.fapesp.br/oportunidades/5994/.

A oportunidade de pós-doutorado está aberta a brasileiros e estrangeiros. O selecionado receberá Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP no valor de R$ 8.479,20 mensais e Reserva Técnica equivalente a 10% do valor anual da bolsa para atender a despesas imprevistas e diretamente relacionadas à atividade de pesquisa.

Caso o bolsista de PD resida em domicílio fora da cidade na qual se localiza a instituição-sede da pesquisa e precise se mudar, poderá ter direito a um auxílio-instalação. Mais informações sobre a Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP estão disponíveis em www.fapesp.br/bolsas/pd.

Outras vagas de bolsas, em diversas áreas do conhecimento, estão no site FAPESP-Oportunidades, em www.fapesp.br/oportunidades.
 


Autor: Agência FAPESP 
Fonte: FAPESP 
Sítio Online da Publicação: FAPESP 
Data: 19/05/2023