terça-feira, 21 de julho de 2026

Ilhas Canárias: as fotografias tiradas pelo público ajudam no mapeamento marinho na Macaronésia

Direitos de autor Euronews



Fotografar a flora e a fauna marinhas para avaliar o estado do oceano no dia a dia. Este é o objetivo do RedPROMAR, um projeto da UE, que convida o público a enviar para a sua plataforma fotografias do que encontrarem no mar das Ilhas Canárias, bem como nos Açores, na Madeira e em Cabo Verde.


Com mais de 85 000 avistamentos registados e validados nas águas das chamadas «Ilhas Afortunadas» ou da Macaronésia, os cientistas do projeto RedPROMAR registaram mais de 5000 espécies de organismos vivos nesta parte do Atlântico Norte.

Dennis Rabeling, instrutor de mergulho da Euro-Divers Lanzarote, é um dos principais colaboradores. Todos os dias, mergulha e envia milhares de fotografias da flora e da fauna marinhas para o website deste projeto europeu, que é cofinanciado pelo Governo das Ilhas Canárias. Contribuiu para a descoberta de três espécies até então desconhecidas nas Ilhas Canárias, com uma delas a receber o seu nome: Gibberula Dennisi. «Graças ao programa RedPROMAR, quem enviar fotografias passa a ser um par de olhos adicional na água.» Desta forma, os cientistas podem identificar novas espécies que, até ao momento, não sabíamos que viviam aqui. «Hoje, durante um mergulho de trinta minutos, vimos cerca de vinte ou trinta espécies, talvez até mais», explica Dennis.


Através deste projeto, a cultura dos oceanos é levada para a sala de aula e a sala de aula está mais próxima do mar. Este ano, os alunos do ensino secundário da turma de Juan Francisco Rodríguez García, de IES Yaiza, estudaram como as atividades humanas afetam o ambiente marinho, gravaram um podcast sobre tropicalização e as respetivas consequências e realizaram uma visita de estudo a Órzola, no norte de Lanzarote, para aprender «in situ» quais as espécies que vivem no mar e como funciona o programa RedPROMAR.

«Ensinámos-lhes a utilizar uma ferramenta que permite a qualquer pessoa, incluindo eles próprios, tirar fotografias de uma determinada espécie e georreferenciá-las com a mesma aplicação para fornecer melhores dados científicos e contribuir para a investigação científica».
Juan Francisco Rodríguez García
Educador ambiental e professor, IES Yaiza

Uma experiência que os alunos nunca irão esquecer. Aroa diz: «Eu nem sequer conhecia a maioria das espécies. Nunca tinha ouvido esses nomes. Tomemos o peixe-boi como exemplo. Quando um animal tenta incomodá-lo, ele liberta uma espécie de tinta roxa para o afugentar. É mesmo incrível.»


O orçamento total do projeto é pouco inferior a dois milhões de euros, sendo que 85% foram financiados pela Política de Coesão Europeia e os restantes 15% foram financiados pelo Governo das Ilhas Canárias.
As peças do puzzle de fotografias falam

Este projeto teve início nas Ilhas Canárias e, desde então, expandiu o seu âmbito de atuação a Cabo Verde, à Madeira e aos Açores. Cada fotografia georreferenciada é verificada por uma equipa de especialistas. Marc Martín Sola, biólogo marinho da Gesplan e técnico do programa RedPROMAR, afirma que «os dados da ciência participativa são como um puzzle, em que os observadores fornecem peças pequenas que, isoladamente, podem não fazer sentido», mas, em conjunto, revelam ser valiosas para a comunidade científica e as autoridades.

«Ao juntar todas as peças, conseguimos perceber aspetos que não conseguiríamos perceber individualmente, como espécies introduzidas ou espécies protegidas, e podemos avaliar melhor a distribuição de uma espécie ou o período de acasalamento».


Autor: euronews
Fonte: euronews
Sítio Online da Publicação: euronews
Data: 20/07/2026

Cientistas portugueses estudam nuvens de Marte para facilitar futuras aterragens no planeta



Numa altura em que já se perspetivam futuras missões tripuladas à superfície de Marte, um estudo liderado por dois investigadores portugueses da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa veio dar um contributo para possibilitar "aterragens mais suaves" no Planeta Vermelho.

Dois cientistas portugueses foram os autores principais de um estudo, publicado na revista científica Journal of Geophysical Research: Planets, que se propôs a "caçar" e analisar as nuvens em Marte, num feito que pretende facilitar futuras missões ao Planeta Vermelho.


No âmbito desta investigação, o objetivo consistiu em medir simultaneamente a altitude e a velocidade de propagação das ondas atmosféricas marcianas, que são uma peça-chave para compreender como se transporta a energia na atmosfera desse planeta.

Segundo explicou à Euronews o cientista Francisco Brasil, que liderou o estudo a par de Pedro Machado, ambos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS ULisboa) e do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), isso foi conseguido, essencialmente, com base em dados da missão Mars Express.

Em causa está "uma das mais longas da Agência Espacial Europeia", em órbita há 23 anos e que foi estendida, entretanto, "até 2029" — com elementos de destaque desta iniciativa não tripulada a terem estado envolvidos no estudo.


O estudo propôs-se a fazer a caracterização das ondas atmosféricas de Marte ESA/DLR/FU Berlin

Elucidando acerca da importância da investigação, Francisco Brasil detalhou que "para aterrarmos num planeta, assim como aterramos na Terra, precisamos de saber, mais ou menos, como é que essa atmosfera está distribuída em termos de camadas".

Através da caracterização das ondas atmosféricas do planeta em causa, é possível conhecer "como é a dinâmica da sua atmosfera nessas altitudes específicas". Um trabalho que, neste caso em concreto, teve "a medição das altitudes das nuvens e dos ventos" como "técnicas essenciais".

Tudo isto foi possível com recurso a uma câmara de alta resolução a bordo da sonda espacial europeia Mars Express, "que permitiu observar, em ângulos diferentes, o mesmo local".

Uma descoberta, acrescentou ainda Francisco Brasil, que "será importante no futuro, quando a Humanidade chegar a Marte", de modo a que se compreenda "quais são as otimizações que têm de ser feitas" nas naves que se propõem a chegar "à superfície" marciana. Isto com vista a "controlar os atritos ou diferenças que existam na atmosfera" do planeta, de modo a "correr tudo bem na aterragem".
Uma "atmosfera muito rarefeita em comparação com a da Terra"

Mas por que razão esta análise poderá ter um impacto tão significativo em futuras missões a Marte? É que a "atmosfera" desse planeta, "em comparação com a da Terra, é muito rarefeita", ou seja, "tem poucas moléculas". Consequentemente, "a força de atrito que existe" no Planeta Vermelho acaba por ser muito inferior. "É como se estivéssemos quase em queda livre", exemplifica o astrofísico. Bastante diferente do que acontece na Terra, onde "é muito difícil pôr um foguetão no espaço".


E os desafios a este nível, ao longo das últimas décadas, têm sido bastante visíveis. "Tem sido muito difícil enviar rovers para a superfície de Marte", elaborou Francisco Brasil. Facto é que, desde 1960, aproximadamente metade das missões de exploração de Marte acabaram por não correr como esperado, incluindo quedas na superfície do planeta por parte destes veículos robóticos, mas também falhas de lançamento e de órbita.

E explicou o motivo na base das dificuldades de aterragem, perspetivando uma eventual missão tripulada à superfície marciana, algo que nunca aconteceu até agora: "Como não tínhamos tanta informação sobre como a atmosfera estava distribuída, eles [os rovers] acabavam por ter uma queda livre e despenhar-se na superfície de Marte. E não queremos que isso aconteça com os humanos."

No entanto, esta realidade tem-se vindo a alterar "nos últimos anos", no decurso dos quais a "taxa de sucesso da aterragem" em Marte foi já bastante superior em comparação com períodos anteriores, detalhou o investigador.

Isso deve-se, também, aos investimentos que têm vindo a ser feitos em matéria de equipamentos. "Nos últimos anos, todos os rovers têm evoluído muito na questão de amortecer essa tal queda livre que ocorre em Marte", diminuindo o impacto no momento da aterragem na superfície, por via de diferentes mecanismos, como "paraquedas muito específicos" e "sistemas de amortecimento" semelhantes a airbags.
Nuvens em Marte são raras e "sazonais"

Tal como acontece na Terra, no Planeta Vermelho existem "várias estações do ano", devido ao facto de ambos terem um "eixo inclinado", indicou o especialista do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.


E isso tem influência ao nível da formação de nuvens em Marte. "Durante o ano inteiro, elas são muito esparsas", caracterizando-se, em particular, por uma certa sazonalidade.


As nuvens em Marte são raras e sazonais, segundo o investigador Francisco Brasil ESA/DLR/FU Berlin/J. Cowart

Isto porque esse planeta "tem calotes polares compostas por gelo de dióxido de carbono e de água que, à medida que se vai aproximando o verão do Hemisfério Norte, começam a evaporar", formando aquilo a que se apelida de Aphelion Cloud Belt, "uma zona no Hemisfério Norte com muitas nuvens". Pelo que "só nessa altura" do ano marciano "é que conseguimos observar mais nuvens", já que estas vão, depois, "evoluindo ao longo do tempo" e respondendo "às várias dinâmicas da atmosfera".

Também por esse motivo, as nuvens de Marte apenas são identificáveis "em poucos sítios do planeta". E é por isso que, quando "a maioria das pessoas vê uma fotografia de Marte, vê a sua superfície, quase nunca vê nuvens".

Assim, os dados deste novo estudo encabeçado por Francisco Brasil e Pedro Machado poderão, hipoteticamente, influenciar o momento escolhido para uma missão com destino à superfície de Marte, a partir da órbita do planeta. Já que, sabendo "à partida" a estação do ano em que este se encontra, a opção poderá passar por tentar levar a cabo a mesma, "por exemplo, numa altura em que se tenha menos turbulência na atmosfera, de forma a ser feita uma aterragem mais suave".
Marte é "laboratório natural de alguns fenómenos da Terra"

Questionado sobre a relevância que o estudo da atmosfera marciana tem para a comunidade científica do século XXI, o investigador Francisco Brasil referiu que "uma coisa também muito interessante em Marte" é que este planeta "acaba por ser um laboratório natural de alguns fenómenos que temos na Terra", embora a um nível "extremamente exagerado".


Uma tempestade de poeira em Marte ESA/DLR/FU Berlin

E exemplificou, destacando que ainda não são claras as razões por trás dessas ocorrências: "Temos um fenómeno que é conhecido, que são as tempestades globais em Marte, que cobrem por completo o planeta, e ainda não percebemos bem qual o gatilho que faz acionar essas tempestades."


O astrofísico elucidou ainda que estas "ocorrem tipicamente durante a primavera e o verão do Hemisfério Sul, quando Marte está mais próximo do Sol e o aquecimento da atmosfera é máximo, gerando muita turbulência". Neste momento, o meio académico está a estudar quais serão as causas que motivam estas tempestades globais em Marte, derivadas, muitas vezes, da fusão de outras de menores dimensões, muitas vezes de natureza local ou regional.


Autor: euronews
Fonte: euronews
Sítio Online da Publicação: euronews
Data: 21/07/2026
Publicação Original: https://pt.euronews.com/next/2026/07/21/cientistas-portugueses-estudam-nuvens-de-marte-para-facilitar-futuras-aterragens-no-planet

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Cientistas descobrem nova forma de combater bactérias resistentes a antibióticos


Direitos de autor Janice Haney Carr, Jeff Hageman, M.H.S, USCDCP vía Pixnio

Estudo com participação da Universidade Pompeu Fabra identifica mecanismo que remove proteção das bactérias em laboratório e pode abrir novas vias contra a resistência aos antibióticos

Uma equipa internacional de investigadores identificou um mecanismo até agora desconhecido que permite às bactérias libertarem-se dos biofilmes, ou seja, das estruturas que lhes servem de refúgio contra os antibióticos e o sistema imunitário. A descoberta, feita numa bactéria modelo, permitiu ainda provocar a desintegração destas comunidades em laboratório sem utilizar fármacos, um avanço que poderá inspirar futuras estratégias para combater infeções persistentes.

O estudo, publicado na revista 'Nature Microbiology (fonte em espanhol)', é liderado por cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego e conta com a participação de investigadores da Universitat Pompeu Fabra (UPF). O trabalho descreve como determinadas bactérias produzem um hidrogel que, ao absorver água, acumula pressão suficiente para expulsar células a partir do interior do biofilme.

Os biofilmes são agrupamentos de bactérias que vivem agregadas e protegidas por uma espécie de camada pegajosa que elas próprias produzem. Essa barreira dificulta a ação dos antibióticos e do sistema imunitário e está na origem de muitas infeções persistentes associadas a próteses, cateteres ou feridas que não chegam a cicatrizar.

Os investigadores descobriram que, quando chega o momento de dispersarem, as bactérias produzem uma substância gelatinosa que absorve água e gera força suficiente para empurrar algumas células para fora do biofilme. Desta forma, esses microrganismos conseguem deslocar-se e colonizar outros locais.

Além disso, a equipa conseguiu manipular esse mecanismo. Ao potenciá-lo, fez com que os biofilmes se quebrassem sem necessidade de recorrer a antibióticos, embora os autores alertem que, para já, o trabalho foi realizado apenas em laboratório e ainda está longe de se traduzir num tratamento para doentes.



Autor: euronews
Fonte: euronews
Sítio Online da Publicação: euronews
Data: 07/07/2026
Publicação Original: https://pt.euronews.com/saude/2026/07/07/cientistas-descobrem-nova-forma-de-combater-bacterias-resistentes-a-antibioticos

Gronelândia: centro de investigação suspende novas parcerias com EUA para proteger cientistas

ARQUIVO - Um barco navega em frente a um iceberg na Disko Bay, perto de Ilulissat, Gronelândia, em 28 jan. 2026. (AP Photo/Evgeniy Maloletka, Arquivo)

Direitos de autor AP Photo


A administração Trump cortou milhares de milhões de dólares no financiamento público da investigação e despediu cientistas do Estado.

O Instituto dos Recursos Naturais da Gronelândia, o principal centro de investigação ambiental e de recursos naturais da ilha ártica, vai suspender novas colaborações com parceiros norte-americanos para proteger os seus dados e cientistas.

"Posso confirmar que tomámos a decisão de apenas participar em projetos com parceiros norte-americanos com quem já trabalhamos ou trabalhámos", declarou Josephine Nymand, diretora do instituto, à agência noticiosa AFP.

Esta decisão surge num momento de tensão em torno das promessas do presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, de reivindicar a posse da ilha, que é rica em minerais.

Numa entrevista ao canal público da Gronelândia, a KNR, Josephine Nymand afirmou que a decisão se baseia na necessidade de proteger os dados e os cientistas do instituto, referindo a eliminação de grandes quantidades de dados científicos pela administração Trump e a recusa de entrada de alguns cientistas estrangeiros nos Estados Unidos.


"Não posso fazer muito para ajudar os nossos compatriotas se forem detidos à chegada aos Estados Unidos", declarou à KNR.

"Por isso, decidimos que o melhor, na situação atual, era não ir para lá."

Esta medida surge num momento de renovadas tensões em torno da Gronelândia.

Na semana passada, Trump voltou a defender, retomando uma posição já expressa este ano, que a Gronelândia, território ártico semiautónomo da Dinamarca, "deveria estar sob controlo dos Estados Unidos", contrariando aparentemente meses de esforços diplomáticos para que abandonasse essa exigência.

Relatórios e dados sobre o clima e o ambiente têm sido alvo de uma eliminação em grande escala dos sites governamentais.

O Instituto de Recursos Naturais da Gronelândia realiza investigação sobre os ecossistemas do Ártico e monitoriza o ambiente e os recursos biológicos da ilha.



Autor: euronews
Fonte: euronews
Sítio Online da Publicação: euronews
Data: 16/07/2026

Ilhas Canárias: as fotografias tiradas pelo público ajudam no mapeamento marinho na Macaronésia

Direitos de autor Euronews



Dennis Rabeling, instrutor de mergulho da Euro-Divers Lanzarote, é um dos principais colaboradores. Todos os dias, mergulha e envia milhares de fotografias da flora e da fauna marinhas para o website deste projeto europeu, que é cofinanciado pelo Governo das Ilhas Canárias. Contribuiu para a descoberta de três espécies até então desconhecidas nas Ilhas Canárias, com uma delas a receber o seu nome: Gibberula Dennisi. «Graças ao programa RedPROMAR, quem enviar fotografias passa a ser um par de olhos adicional na água.» Desta forma, os cientistas podem identificar novas espécies que, até ao momento, não sabíamos que viviam aqui. «Hoje, durante um mergulho de trinta minutos, vimos cerca de vinte ou trinta espécies, talvez até mais», explica Dennis.



Através deste projeto, a cultura dos oceanos é levada para a sala de aula e a sala de aula está mais próxima do mar. Este ano, os alunos do ensino secundário da turma de Juan Francisco Rodríguez García, de IES Yaiza, estudaram como as atividades humanas afetam o ambiente marinho, gravaram um podcast sobre tropicalização e as respetivas consequências e realizaram uma visita de estudo a Órzola, no norte de Lanzarote, para aprender «in situ» quais as espécies que vivem no mar e como funciona o programa RedPROMAR.

«Ensinámos-lhes a utilizar uma ferramenta que permite a qualquer pessoa, incluindo eles próprios, tirar fotografias de uma determinada espécie e georreferenciá-las com a mesma aplicação para fornecer melhores dados científicos e contribuir para a investigação científica».
Juan Francisco Rodríguez García
Educador ambiental e professor, IES Yaiza

Uma experiência que os alunos nunca irão esquecer. Aroa diz: «Eu nem sequer conhecia a maioria das espécies. Nunca tinha ouvido esses nomes. Tomemos o peixe-boi como exemplo. Quando um animal tenta incomodá-lo, ele liberta uma espécie de tinta roxa para o afugentar. É mesmo incrível.»


O orçamento total do projeto é pouco inferior a dois milhões de euros, sendo que 85% foram financiados pela Política de Coesão Europeia e os restantes 15% foram financiados pelo Governo das Ilhas Canárias.
As peças do puzzle de fotografias falam

Este projeto teve início nas Ilhas Canárias e, desde então, expandiu o seu âmbito de atuação a Cabo Verde, à Madeira e aos Açores. Cada fotografia georreferenciada é verificada por uma equipa de especialistas. Marc Martín Sola, biólogo marinho da Gesplan e técnico do programa RedPROMAR, afirma que «os dados da ciência participativa são como um puzzle, em que os observadores fornecem peças pequenas que, isoladamente, podem não fazer sentido», mas, em conjunto, revelam ser valiosas para a comunidade científica e as autoridades.

«Ao juntar todas as peças, conseguimos perceber aspetos que não conseguiríamos perceber individualmente, como espécies introduzidas ou espécies protegidas, e podemos avaliar melhor a distribuição de uma espécie ou o período de acasalamento».
Marc Martín Sola
Biólogo marinho da Gesplan e técnico do programa RedPROMAR

A plataforma funciona também como um sistema de alerta precoce para a chegada de espécies exóticas e a proliferação de espécies associadas à atividade humana ou às alterações climáticas. «Existem períodos específicos em que recebemos muitos relatos e avistamentos de uma determinada espécie, o que costuma coincidir com casos de «arribazones» (dar à costa), ou seja, a chegada em massa de organismos, vivos ou mortos, que dão à costa», explica Marc. «Em 2024, registámos mais de uma centena de avistamentos em apenas alguns meses. A ciência participativa permite-nos detetar e registar estes picos repentinos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos à comunidade científica e, assim, manter um registo da data e do local onde ocorreram», conclui.




Autor: euronews
Fonte: euronews
Sítio Online da Publicação: euronews
Data: 20/07/2026
Publicação Original: https://pt.euronews.com/my-europe/2026/07/20/ilhas-canarias-as-fotografias-tiradas-pelo-publico-ajudam-no-mapeamento-marinho-na-macaro

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Novo centro de pesquisa usará relógios e anéis inteligentes para detecção precoce de doenças


Elton Alisson | Pesquisa para Inovação – Os relógios e anéis inteligentes costumam ser vistos apenas como acessórios para contar passos, calorias ou monitorar o sono, mas no Viva Bem: inteligência artificial para saúde e bem-estar eles são considerados peças-chave para o avanço da medicina preventiva. O novo Centro de Pesquisa Aplicada (CPA), fruto de uma parceria entre FAPESP, Unicamp e Samsung, vai usar inteligência artificial para transformar esses dispositivos em ferramentas de diagnóstico precoce. A meta é rastrear alterações biológicas sutis e antecipar a identificação de condições graves, como a doença de Parkinson e distúrbios cardíacos, muito antes de os sintomas se manifestarem.

“Queremos, por meio desses dispositivos vestíveis cada vez mais populares e acessíveis, enxergar sinais invisíveis de doenças muito antes que os sintomas se tornem clinicamente evidentes”, disse Anderson Rocha, professor do Instituto de Computação da Unicamp e coordenador do Viva Bem, durante a cerimônia de lançamento oficial do centro realizada em 3 de julho.

Atualmente, os smartwatches e smart rings possuem uma série de sensores capazes de medir, entre outras coisas, a frequência cardíaca, a pressão arterial, a temperatura, a condutividade elétrica da pele, a composição corporal, incluindo o nível de hidratação, e os movimentos. A proposta dos pesquisadores do Viva Bem é empregar, nos próximos anos, algoritmos e tecnologias de IA capazes de processar todos esses dados simultaneamente. Ao combiná-los, será possível extrair e identificar padrões sutis, que servirão como medidas objetivas para o monitoramento de diversas condições de saúde.

“Já constatamos, por meio de um projeto desenvolvido anteriormente, que a ansiedade e o estresse, por exemplo, causam mudanças na condutividade elétrica da pele detectáveis por um relógio inteligente”, disse Rocha (leia mais em: agencia.fapesp.br/58300).

No caso do Parkinson, tecnologias de IA podem analisar tremores e alterações na forma de andar (padrão da marcha) e de sono para identificar indícios anos antes do diagnóstico clínico tradicional. Já na saúde cardiovascular, a tecnologia poderá atuar como um eletrocardiograma contínuo, identificando arritmias, padrões anômalos de pressão e riscos de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC) a partir da variabilidade cardíaca.

Além disso, distúrbios no sono detectados por IA em smartwatches podem atuar como preditores de doenças neurodegenerativas. Em idosos, a tecnologia poderá identificar o declínio na força e na independência de movimento com meses de antecedência, permitindo intervenções preventivas contra quedas, exemplificou Rocha.

“Essas condições representam algumas das 11 frentes de aplicações das pesquisas que desenvolveremos no centro e que identificamos como potencialmente de grande impacto”, afirmou o pesquisador. “Nosso objetivo não é substituir o médico. Queremos apontar para o usuário quando ele deve procurar um especialista, de modo a garantir uma melhor qualidade de vida”, ponderou.

“Queremos, por meio desses dispositivos vestíveis cada vez mais populares e acessíveis, enxergar sinais invisíveis de doenças”, disse Anderson Rocha, professor do Instituto de Computação da Unicamp e coordenador do Viva Bem

Corpo único

Para que os diagnósticos feitos por meio da IA desenvolvida no Viva Bem sejam confiáveis, serão seguidas diretrizes rígidas. Uma delas será treinar o sistema para compreender que cada corpo é único, abandonando a abordagem convencional, que avalia apenas o padrão médio das pessoas, em favor da variabilidade individual.

Outra diretriz é a da explicabilidade. O sistema precisará não apenas indicar um risco, mas deverá explicar por que chegou àquela conclusão. “Isso é fundamental para que o médico confie na sugestão da IA e tome decisões clínicas seguras”, avaliou Rocha.

O foco das pesquisas será o desenvolvimento de algoritmos e tecnologias de IA que sejam embarcáveis; ou seja, que rodem diretamente no relógio ou anel inteligente, visando permitir um processamento eficiente e em tempo real. “Os algoritmos buscarão aprender diretamente com os sinais brutos, sem depender exclusivamente de rótulos [classificações] manuais constantes, para facilitar o aprendizado contínuo sobre o corpo humano”, afirmou Rocha.

Dados sensíveis

Na avaliação do pesquisador, uma das grandes vantagens do uso de smartwatches para a realização de pesquisa em saúde é que os dados são coletados durante a rotina normal do usuário, revelando padrões que uma consulta médica pontual de 15 minutos poderia não detectar. “Diferentemente da medicina tradicional, que muitas vezes é baseada em dados episódicos [obtidos durante um check-up anual, por exemplo], a IA permite o monitoramento 24 horas por dia, sete dias por semana”, comparou.

A fim de garantir a segurança e a privacidade, a gestão dos dados coletados também seguirá diretrizes rigorosas. Todas as coletas deverão ser realizadas estritamente com a aprovação de comitês de ética, contando com a participação voluntária das pessoas, que darão consentimento após receberem explicações detalhadas sobre o processo.

O tratamento dos dados e o desenvolvimento dos algoritmos envolverão a participação direta de especialistas da Unicamp e da própria Samsung, garantindo uma curadoria técnica e clínica rigorosa. A Samsung focará a coleta nos sinais captados pelos seus próprios sensores e dispositivos (como o Galaxy Watch e o Galaxy Ring) e integrará essas informações à sua plataforma de dados, dentro dos protocolos de pesquisa do centro, explicou Rocha.

“Dado de saúde é a coisa mais íntima que existe", ressaltou o pesquisador. Existe uma preocupação explícita no projeto em evitar o vazamento de dados sensíveis, o que poderia gerar consequências graves para o usuário, como discriminação em processos seletivos ou perda de emprego.

Amadurecimento da relação

A iniciativa de criação do novo CPA, com investimento inicial de R$ 20 milhões, é um desdobramento de um hub de inovação colaborativa mantido pela Unicamp e pela Samsung nos últimos cinco anos, resultado de uma colaboração em pesquisa consolidada há mais de uma década, contou Rocha.

“O início da conversa com a Samsung se deu há cerca de 15 anos. Em 2020, em plena pandemia de COVID-19, discutimos uma ideia maior, que culminou no hub Viva Bem. Agora, elevamos o patamar para um Centro de Pesquisa Aplicada, com o objetivo de aumentar a capacidade de colaboração entre empresa, universidade e FAPESP, para trazer soluções reais à sociedade”, disse.

O CPA Viva Bem representa a primeira parceria em pesquisa estabelecida pela Samsung no Brasil no modelo de CPA, que envolve uma universidade, empresa e fundação de amparo à pesquisa, disse à Agência FAPESP Otávio Penatti, diretor de pesquisa e desenvolvimento em inteligência artificial da empresa no Brasil.

"A Samsung tem mais de 50 parceiros universitários e mais de cem projetos de pesquisa colaborativa no Brasil, mas aqui na Unicamp temos uma parceria singular. A empresa está no Brasil há quase 40 anos e hoje desempenhamos um papel de protagonismo no ecossistema de pesquisa e desenvolvimento global da Samsung. Três das quatro tecnologias principais do novo smartwatch que a empresa lançará em breve foram desenvolvidas pelo nosso time de P&D aqui no Brasil", afirmou.

Para Rodolfo Jardim de Azevedo, coordenador geral de Tecnologias e Parcerias em Inovação da FAPESP, o modelo do CPA é um divisor de águas. "Não existe financiamento de dez anos no mundo por uma agência de fomento em um único contrato. A FAPESP decidiu trazer isso [para o Brasil]. Ela assina cinco anos, renováveis por mais cinco, permitindo um planejamento de alto impacto, diferentemente de uma pesquisa espalhada [em pequenos projetos] de curta duração", comparou.

Pelo modelo de CPA, a FAPESP atuará como cofinanciadora, aportando recursos que dobram o investimento feito pela empresa, permitindo o planejamento de pesquisas estratégicas de longo prazo. Por sua vez, a Samsung, além do aporte financeiro, trará a visão de mercado, experiência em pesquisa aplicada e seu ecossistema global de produtos para aproximar a ciência dos problemas reais da sociedade. Já a Unicamp fornecerá a excelência científica por meio da participação de mais de 70 pesquisadores de diferentes unidades da universidade – como os institutos de Computação e de Física, as faculdades de Engenharia Elétrica e de Computação e de Educação Física, além da Faculdade de Ciências Médicas e do Hospital de Clínicas da Unicamp.

"O projeto reunirá excelência científica e formação de talentos, unindo a visão de produto da Samsung à necessidade de soluções reais para a sociedade que a universidade busca entregar", avaliou Mônica Alonso Cotta, pró-reitora de graduação da Unicamp.


Autor: fapesp
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data: 14/07/2026

Plataforma que simula desequilíbrios quer antecipar risco de quedas em idosos


Plataforma criada por pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) pretende ajudar a prevenir quedas em idosos ao simular situações reais de desequilíbrio e analisar, em tempo real, como o cérebro, os músculos e o corpo reagem. A tecnologia, desenvolvida ao longo de mais de dez anos de pesquisa com apoio da FAPESP – dos estudos iniciais, na linha de Auxílio à Pesquisa, ao protótipo, na linha de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) –, combina sensores, realidade virtual e jogos interativos e agora se prepara para chegar ao mercado por meio da startup Kerygma Technology, incubada na própria universidade.

As quedas estão entre as principais causas de internação, perda de autonomia e morte em idosos. A prevalência de quedas na população idosa residente em áreas urbanas é de 25%, de acordo com a última edição do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), financiado pelo Ministério da Saúde. Entre pessoas com mais de 80 anos, o dado é ainda mais alarmante: quatro em cada dez pessoas sofrem esse tipo de acidente anualmente. Além das fraturas e hospitalizações, as quedas frequentemente levam à perda de independência, ao medo de caminhar e ao isolamento social.

Segundo Daniela Cristina Carvalho de Abreu, fisioterapeuta especialista em gerontologia e professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), o cenário é preocupante porque a sociedade continua tratando a queda como algo “normal” do envelhecimento. “Hoje entendemos a queda como um evento sentinela. Quando ela acontece, muito provavelmente várias alterações já vinham ocorrendo. Ela é a bandeira vermelha de que alguma coisa deixou de funcionar adequadamente.”

Foi justamente diante desse cenário que o engenheiro da computação Alessandro Pereira da Silva, líder do Laboratório de Ambientes Virtuais e Tecnologia Assistiva (LAVITA), da UMC, começou a desenvolver a tecnologia em 2012. Ele conta que a ideia surgiu a partir de uma inquietação em relação aos métodos tradicionais usados para avaliar o equilíbrio. “Na época, o estudo do equilíbrio era feito em uma plataforma estática e o paciente era o elemento de desequilíbrio. O terapeuta precisava pedir para a pessoa inclinar um pouco para frente, um pouco para trás. No mundo real, no entanto, é o chão que muda, é o ambiente que gera o desequilíbrio”, explica.

A solução encontrada foi criar uma plataforma capaz de se movimentar em diferentes direções e inclinações, simulando situações reais de instabilidade e desequilíbrio.

Simular o desequilíbrio para entender o corpo

A simulação desses desequilíbrios não acontece apenas pelo movimento da plataforma. Para tornar os exercícios mais próximos de situações do cotidiano e estimular a adesão ao tratamento, os pesquisadores incorporaram recursos de realidade virtual e gameterapia. Nos jogos desenvolvidos pela equipe, o paciente permanece sobre a plataforma enquanto controla movimentos dentro de ambientes virtuais. Em um dos cenários, por exemplo, o usuário navega por um rio e precisa deslocar o corpo lateralmente para coletar objetos. Quando surgem quedas d’água no ambiente virtual, a plataforma se inclina na mesma direção do cenário exibido nos óculos de realidade virtual.

“O sistema responde ao jogo. Quando o cenário inclina, a plataforma inclina junto. Isso aumenta muito a imersão e nos permite avaliar como o cérebro e os músculos respondem ao desequilíbrio”, explica Silva.

Enquanto isso, sensores registram continuamente como o corpo reage aos estímulos. O equipamento, que avalia quatro músculos da perna – que são chave para entender a chamada estratégia do tornozelo na correção dos desequilíbrios –, consegue rotacionar até 25 graus para frente, para trás e para os lados, com velocidade máxima de 7 graus por segundo, enquanto o sistema capta uma série de informações do paciente em tempo real.

Um dos parâmetros analisados é o chamado centro de pressão (COP), indicador que mostra como o corpo distribui o peso para manter o equilíbrio. O sistema também mede a velocidade de deslocamento corporal, a distribuição da carga corporal, a ativação muscular por meio da eletromiografia (EMG) e a atividade cerebral pelo eletroencefalograma (EEG).

“Conseguimos identificar, por exemplo, se a pessoa descarrega mais peso no lado direito do corpo do que no esquerdo. Isso pode indicar fraqueza muscular, alterações vestibulares ou compensações posturais importantes”, diz Silva. Segundo ele, a EMG permite analisar a ativação elétrica dos músculos estabilizadores envolvidos no equilíbrio postural, enquanto o EEG ajuda a identificar como o cérebro responde ao desequilíbrio.

A plataforma trabalha justamente com dois mecanismos fundamentais do equilíbrio: o controle antecipatório e o compensatório. O primeiro ocorre antes da perda de estabilidade, quando o cérebro percebe que um desequilíbrio pode acontecer e prepara o corpo para reagir. Já o compensatório entra em ação depois da instabilidade, tentando evitar a queda. Um dos diferenciais da tecnologia, segundo Silva, é a sincronização de todos esses dados em uma mesma linha temporal.

“Muitas plataformas conseguem coletar esses dados de forma isolada. O grande diferencial da nossa é que tudo é registrado de forma sincronizada. Isso diminui muito o viés metodológico para pesquisa e pode gerar futuramente um sistema preditivo de risco de queda”, afirma.

Segundo Sandra Maria Sbeghen Ferreira de Freitas, professora da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e especialista em controle do movimento humano e biomecânica, plataformas de força já são amplamente utilizadas em pesquisa para avaliação do equilíbrio e da oscilação postural, mas a integração simultânea de diferentes tecnologias ainda é um desafio. “Plataformas de força, eletromiografia e estudos combinando esses equipamentos já existem. O diferencial desse parece estar justamente em sincronizar tudo em um mesmo sistema e transformar isso em uma ferramenta aplicável para o profissional”, afirma.


Carolina Daffara

Do diagnóstico à prevenção

Para Abreu, da FMRP-USP, a primeira etapa fundamental é estratificar o risco de queda. “E isso precisa ser simples, rápido e de baixo custo. Não adianta depender de uma ferramenta cara para fazer a triagem populacional”, pondera, ao ressaltar que, atualmente, as sociedades científicas internacionais recomendam que toda pessoa idosa passe ao menos uma vez por ano por uma triagem de risco de quedas, o que ainda não acontece de forma rotineira.

A fisioterapeuta explica que a avaliação é simples: “Basicamente, fazemos três perguntas: se a pessoa caiu no último ano, se tem preocupação em cair e se sente instabilidade para andar ou realizar atividades. Depois aplicamos um teste rápido de mobilidade ou velocidade da marcha. Em menos de cinco minutos é possível classificar esse paciente como baixo, moderado ou alto risco de queda”, explica.

Na sua avaliação, ferramentas mais avançadas, como a plataforma, entram em uma segunda etapa para aprofundar a avaliação de pessoas idosas com histórico de quedas ou maior risco de novos episódios, que se beneficiam de uma melhor compreensão dos fatores associados a essa condição. “A plataforma permite integrar informações sobre aspectos musculares, neurais e biomecânicos e isso pode ajudar a personalizar os treinamentos e tratamentos”, diz Abreu, esclarecendo que, muitas vezes, uma intervenção funciona para um paciente e não funciona para outro porque as necessidades são diferentes. “Quanto mais preciso é o diagnóstico, mais direcionada tende a ser a intervenção.”

O fisioterapeuta Tabajara de Oliveira Gonzalez, integrante do grupo de pesquisa da UMC, afirma que a tecnologia surge justamente para preencher essa lacuna. “A plataforma foi pensada para responder ao desafio do envelhecimento da população. Queda em idosos é um problema de saúde pública no mundo inteiro. Você tem lesões associadas, óbitos, pacientes que acabam ficando acamados, gerando custos para o sistema de saúde e sem um trabalho preventivo muito efetivo”, afirma.

Segundo ele, embora os idosos sejam um dos principais focos das pesquisas, a plataforma pode futuramente atender diferentes perfis de pacientes com alterações de equilíbrio, incluindo pessoas com doenças neurológicas, problemas vestibulares, amputações, obesidade e até mesmo atletas em reabilitação. “Você pode ter um paciente amputado que não consegue distribuir adequadamente o peso entre os lados do corpo, uma criança com déficit cognitivo ou um atleta voltando de lesão. São muitos os públicos possíveis”, diz.

Freitas ressalta, porém, que tecnologias desse tipo ainda estão concentradas principalmente em universidades, laboratórios de pesquisa e grandes centros de reabilitação. “Essas avaliações exigem processamento de dados, interpretação especializada e equipamentos de alto custo. Por isso, ainda existem muitos desafios para transformar tudo isso em algo amplamente acessível no dia a dia clínico”, pondera.

Apesar dos recursos de realidade virtual, os pesquisadores ressaltam que a tecnologia não pretende substituir o tratamento fisioterapêutico. “Quem propõe o tratamento é o profissional. O sistema permite que o fisioterapeuta controle velocidade, inclinação, dificuldade e escolha jogos específicos de acordo com a necessidade de cada paciente”, ressalta Silva.

Abreu destaca que o treinamento físico continua sendo a principal ferramenta para prevenção de quedas. “O exercício físico é a base de tudo. E quanto mais o treino trabalha equilíbrio, força e mobilidade juntos, maior o impacto na prevenção.” Para a especialista, o grande desafio agora é transformar o conhecimento científico em política pública. “Precisamos conscientizar a população, capacitar os profissionais de saúde e criar linhas de cuidado para a pessoa idosa. Se conseguirmos identificar precocemente quem começa a perder equilíbrio, força e mobilidade, conseguimos intervir antes da queda acontecer.”

Da pesquisa ao mercado

O engenheiro eletricista André Roberto Fernandes da Silva, que também participou do desenvolvimento da tecnologia durante a realização do doutorado em Engenharia Biomédica na UMC, destaca que a equipe trabalhou desde o início para garantir segurança durante os testes. “Tivemos muita atenção para oferecer segurança também para quem usa. A plataforma possui sistemas de sustentação, barras de apoio e cintos de proteção para ampliar o uso mesmo em pessoas com comprometimento importante de equilíbrio.”

Ao final da avaliação, o sistema gera automaticamente um relatório em PDF com os dados coletados, informações clínicas do paciente e sugestões terapêuticas. A expectativa agora é avançar para uma nova etapa com apoio da inteligência artificial. “O hardware e o software básico estão prontos. O próximo passo é desenvolver uma plataforma de dados com inteligência artificial capaz de integrar todas essas informações e auxiliar na construção de modelos preditivos de risco de queda. Mas precisamos ampliar os testes humanos para validar melhor esses modelos”, afirma Fernandes da Silva.

Agora, o objetivo é transformar o protótipo acadêmico em um produto disponível. “Nós já temos um protótipo funcional pronto para comercialização. Queremos ampliar os testes fora do ambiente universitário e levar a plataforma para clínicas, hospitais e centros de reabilitação. Se conseguirmos avançar, acreditamos que em cerca de um ano e meio já será possível escalar o produto para o mercado”, conclui o engenheiro.




Autor: fapesp
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data: 15/07/2026
Publicação Original: https://revistapesquisa.fapesp.br/plataforma-que-simula-desequilibrios-quer-antecipar-risco-de-quedas-em-idosos/