sexta-feira, 10 de abril de 2026

Cientistas descobrem um “terceiro estado” entre a vida e a morte

Há séculos que os seres humanos refletem sobre a natureza da vida e da morte e, até agora, sem razão aparente, definiram a vida e a morte como as duas extremidades do mesmo pólo, opostas uma à outra. Agora, um estudo mostra resultados diferentes, chegando a um estado de “sem vida, sem morte"

Um grupo de biólogos celulares afirma que pode existir um “terceiro estado” que quebra as definições tradicionais de vida e morte.

Segundo os cientistas, a morte é geralmente entendida como “a cessação irreversível do funcionamento global de um ser vivo”. No entanto, medidas como a doação de órgãos mostram como os tecidos, órgãos e células podem continuar a viver durante algum tempo após a morte de um organismo.




Dois biólogos, Peter Noble, professor associado de microbiologia na Universidade do Alabama em Birmingham, e Alex Puzhitkov, diretor de bioinformática na Escola de Ciências Biológicas Earl e Manella, em Hope City (Arkansas), num artigo publicado na revista The Conversation, abordaram a forma como a emergência de novos organismos multicelulares nos permite quebrar os constrangimentos convencionais.

Exploraram em profundidade os processos que ocorrem nos organismos após a morte e que permitem que as células continuem a funcionar, possibilitando assim o sucesso de um transplante de órgãos.

A investigação mostrou que células da pele isoladas de embriões de rãs mortos podem adaptar-se espontaneamente às condições das placas de laboratório (placas de Petri) e formar novas estruturas multicelulares chamadas xenobots.

Estas novas estruturas multicelulares também apresentavam comportamentos que iam muito para além das suas funções biológicas originais. Por exemplo, as novas estruturas feitas a partir de células de embriões de rãs mortas utilizaram os seus cílios (protuberâncias finas, semelhantes a pêlos) para se deslocarem no seu ambiente, enquanto que nos embriões de rãs vivas, estes cílios são normalmente utilizados para mover o muco.

Os xenobots também possuíam a capacidade única de efetuar uma auto-replicação cinemática, o que significa que podiam replicar a sua forma física e a sua função sem ter em conta a via de crescimento tradicional.

Estudos demonstraram que as células pulmonares humanas também se podem reunir espontaneamente em pequenos organismos multicelulares com a capacidade de se moverem. Estes antropo-robôs também exibiram novos comportamentos e estruturas próprias e não só podiam manobrar no seu ambiente, como também se podiam reparar a si próprios e a células nervosas danificadas nas proximidades.

Como tal, os resultados destas investigações revelaram adaptações notáveis dos sistemas celulares e desafiaram a noção de que as células e os organismos apenas evoluem de formas pré-determinadas.

Este conceito de um “terceiro estado” também sugeriu que o processo de morte do organismo pode influenciar consideravelmente a forma como a vida evolui ao longo do tempo.
A vida pode ser preservada após a morte?

A capacidade das células e dos tecidos para sobreviverem e funcionarem após a morte de um organismo é influenciada por vários fatores, incluindo as condições ambientais, a atividade metabólica e os métodos de manutenção.

Diferentes tipos de células apresentam tempos de sobrevivência diferentes. Nos seres humanos, por exemplo, os glóbulos brancos são normalmente destruídos entre 60 a 86 horas após a morte.

Em contrapartida, as células do músculo esquelético dos ratos podem ser regeneradas até 14 dias após a morte e as células de fibroblastos de ovinos e caprinos podem ser implantadas cerca de um mês após a morte.

Para determinar se as células podem continuar a sobreviver e a funcionar após a morte, é necessário prestar atenção às suas atividades metabólicas. Manter vivas as células que requerem um fornecimento constante e substancial de energia para realizar as suas tarefas é mais difícil do que as células que requerem menos energia.

Técnicas como a congelação podem ajudar certas amostras de tecido, como a medula óssea, a manter a mesma função.

Os mecanismos inatos de sobrevivência são igualmente essenciais para a continuidade da vida das células e dos tecidos. Nos genes ligados ao stress e à imunidade, os investigadores observaram um aumento significativo da atividade post-mortem, provavelmente uma resposta à perda de hemostase (o processo de impedir a perda de sangue dos vasos saudáveis e de parar a hemorragia dos vasos danificados).



Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 14/11/2024
Publicação Original: https://pt.euronews.com/saude/2024/11/14/cientistas-descobrem-um-terceiro-estado-entre-a-vida-e-a-morte

Análise sanguínea simples pode prever quem tem maior probabilidade de viver mais

Cientistas concluíram que pequenas moléculas de RNA no sangue, as piRNAs, antecipam melhor a sobrevivência a curto prazo do que idade, colesterol ou estilo de vida

Exame simples ao sangue pode ajudar a identificar que idosos correm maior risco de morrer no espaço de dois anos, segundo novas investigações.




Liderado pela Duke Health, em colaboração com a Universidade do Minnesota, o estudo sugere que minúsculas moléculas de RNA presentes na corrente sanguínea podem oferecer uma nova forma de avaliar o risco de sobrevivência a curto prazo em pessoas com 71 ou mais anos.

Investigadores focaram-se em pequenos fragmentos de RNA conhecidos como piRNAs, que intervêm na regulação do desenvolvimento, da regeneração e da função imunitária. Ao analisar amostras de sangue de mais de 1 200 idosos, a equipa descobriu que níveis mais baixos de certas piRNAs estavam associados a uma sobrevivência mais prolongada.

"A combinação de apenas algumas piRNAs foi o indicador mais forte de sobrevivência a dois anos em idosos, mais forte do que a idade, os hábitos de vida ou qualquer outra medida de saúde que analisámos", afirmou Virginia Byers Kraus, autora sénior do estudo e professora nos departamentos de Medicina, Patologia e Cirurgia Ortopédica na Escola de Medicina da Universidade de Duke.





"O que mais nos surpreendeu foi o facto de este sinal tão forte vir de um simples exame ao sangue", acrescentou Kraus.
Como foi realizado o estudo e quais foram os resultados?

Recorrendo a inteligência artificial e aprendizagem automática, a equipa analisou 187 indicadores de saúde diferentes e 828 pequenas moléculas de RNA.

Modelos avançados mostraram que apenas seis piRNAs conseguiam prever a sobrevivência a dois anos com uma precisão até 86 por cento. Estes resultados foram confirmados num segundo grupo independente de idosos.

No que toca à sobrevivência a curto prazo, as piRNAs superaram a idade, os níveis de colesterol, a atividade física e mais de 180 outras medidas clínicas.

Os participantes que viveram mais tempo apresentavam de forma consistente níveis mais baixos de piRNAs específicas, um padrão que reflete o observado em organismos de laboratório. Em C. elegans (minúsculos vermes cilíndricos), por exemplo, a redução global dos níveis de piRNAs já mostrou poder duplicar o tempo de vida.

"Sabemos muito pouco sobre as piRNAs no sangue, mas o que estamos a ver é que níveis mais baixos de algumas específicas são melhores", disse Kraus. "Quando estas moléculas estão presentes em maiores quantidades, pode ser um sinal de que algo no organismo não está bem. Perceber porquê pode abrir novas possibilidades para terapias que promovam um envelhecimento saudável."
Podem os tratamentos alterar estas moléculas no sangue?

A equipa planeia agora investigar se tratamentos, alterações no estilo de vida ou medicamentos, incluindo novas classes de fármacos como os fármacos GLP-1, podem alterar os níveis de piRNAs.

Pretendem também comparar os níveis no sangue com os encontrados nos tecidos, para compreender melhor como funcionam estas moléculas.

"Estes pequenos RNAs são como gestores de pormenor no organismo, ajudam a controlar muitos processos que afetam a saúde e o envelhecimento", disse Kraus. "Estamos apenas a começar a perceber o quão poderosos são. Esta investigação sugere que poderemos identificar o risco de sobrevivência a curto prazo com um exame ao sangue prático e minimamente invasivo, com o objetivo final de melhorar a saúde à medida que envelhecemos."




Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 25/02/2026
Publicação Original: https://pt.euronews.com/saude/2026/02/25/analise-sanguinea-simples-pode-prever-quem-tem-maior-probabilidade-de-viver-mais

Expedição "Darwin 200" recria viagem do cientista em nome do ambiente

Quase 200 anos depois de Charles Darwin ter feito a volta ao mundo com várias descobertas para a história natural, 200 jovens naturalistas vão recriar o percurso para promover a proteção da natureza.


Direitos de autor AP Photo


Após a travessia do Atlântico, a expedição "Darwin 200" chegou a terra firme no Rio de Janeiro.


Quase duzentos anos após o conservacionista britânico ter feito a volta ao mundo, 200 jovens naturalistas propõem-se a retomar a missão. A expedição, que começou a 14 de agosto, em Inglaterra, conta com 32 escalas outrora visitadas por Darwin.



Em cada porto, os investigadores terão agora duas semanas para trocar experiências e promover o ativismo ambiental com cientistas locais.

O fundador do projeto, Stewart McPherson, diz que "o objetivo deste programa é formar os melhores jovens conservacionistas", daí o perfil procurado para participar sejam "pessoas em início de carreira, entre os 20 e os 25 anos, para mudar o mundo de amanhã".

"Quando se diz as palavras 'Charles Darwin', muitas pessoas lembram-se de um homem velho com barba que escreveu muitos livros importantes sobre a evolução e outros assuntos, mas quando ele começou esta viagem de cinco anos à volta do mundo tinha vinte e dois anos e fez esta viagem incrível e descobriu muitos aspetos da história natural e da ciência", lembra McPherson.

Cada líder ambiental deverá fazer três vídeos sobre o seu trabalho para publicar no Youtube e partilhar os projetos com as escolas. No Rio de Janeiro, cinco líderes ambientais selecionados para o "Darwin 200" vão fazer do navio base para expedições locais e aprofundar conhecimentos.

Os participantes no Brasil vão trabalhar na recuperação de florestas e reintrodução de macacos nos habitats, bem como no estudo das populações de golfinhos e na plantação de milhares de árvores de floresta tropical.



Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 08/11/2023
Publicação Original: https://pt.euronews.com/2023/11/08/expedicao-darwin-200-recria-viagem-do-cientista-em-nome-do-ambiente

terça-feira, 7 de abril de 2026

Sexo de polvos: cientistas descobrem braço sensorial que deposita esperma


Polvos machos conseguem fecundar uma fêmea, mesmo quando não conseguem ver a parceira sexual.
Quando os polvos acasalam, o macho mantém a fêmea, literalmente, a uma distância de braço.

Para o acto, o macho tem um braço especial, chamado hectocótilo, que utiliza para depositar um saco de esperma no interior do sistema reprodutor da fêmea.

No entanto, os cientistas não sabiam ao certo como é que esse braço encontra o local exacto quando o macho não consegue ver o que está a fazer. Agora, um novo estudo revelou como é guiado o hectocótilo.
Polvos machos “saboreiam” hormonas das fêmeas

Durante o acto sexual, o polvo macho introduz o hectocótilo no manto da fêmea – uma estrutura em forma de saco, atrás dos olhos, que alberga todos os principais órgãos, incluindo os reprodutores – e tacteia até encontrar o oviduto.

Como o faz foi agora explicado num artigo (fonte em inglês) publicado esta semana na revista Science.

Os investigadores concluíram que o braço de acasalamento é um órgão sensorial que, tal como os outros braços dos polvos, está coberto de ventosas que contêm recetores quimiotáteis.

Nos outros sete braços, esses recetores ajudam o animal a “provar” o ambiente em redor, funcionando como uma língua para localizar alimento ou identificar micróbios nocivos.

Mas no hectocótilo, que é normalmente mantido junto ao corpo quando não está em acasalamento, a função destes recetores não era clara.

Durante a investigação, os cientistas verificaram que o oviduto da fêmea produz enzimas que geram a hormona sexual progesterona.

Descobriram que os recetores permitem ao braço de acasalamento dos machos detetar a progesterona, o que significa que conseguem fecundar a parceira mesmo sem verem o parceiro sexual.

Os investigadores constataram também que braços especializados amputados de polvos machos se moviam em resposta à progesterona – mas não quando entravam em contacto com outras hormonas semelhantes.

Ao analisar células do hectocótilo de três indivíduos, a equipa detetou até três vezes mais recetores quimiotáteis e três vezes mais neurónios no braço de acasalamento do que num braço normal.
Polvos conseguem acasalar sem ver

É comum os animais recorrerem à deteção de hormonas durante os processos de acasalamento, mas o órgão sensorial de deteção é normalmente diferente daquele que liberta o esperma.


Nos polvos machos, porém, o hectocótilo assume as duas funções, algo que os investigadores associam à natureza solitária destes animais.

“Faz sentido que o braço funcione ao mesmo tempo como sensor e órgão de acasalamento porque, nestes encontros fortuitos, o braço tem de conseguir localizar a fêmea, localizar o oviduto e iniciar muito rapidamente a cópula ou seguir em frente”, explicou ao jornal britânico The Guardian o professor Nicholas Bellono, autor sénior do estudo na Universidade de Harvard.

A preferência dos polvos pela independência também representou um desafio para as experiências de laboratório.

Um par macho-fêmea foi colocado num tanque e separado por uma divisória, pois estes animais tendem a tornar-se agressivos e podem matar-se.

A divisória tinha orifícios que permitiam aos polvos estender os braços e aproximarem-se um do outro.

Os cientistas tencionavam retirar a divisória quando os polvos já estivessem familiarizados, mas ficaram surpreendidos ao ver o macho estender o braço de acasalamento por um dos orifícios e introduzi-lo no manto da fêmea.

Os investigadores colocaram outros casais no mesmo dispositivo experimental e verificaram que o mesmo se repetia.


Importa salientar que o comportamento foi idêntico em escuridão total, o que sustenta a hipótese de que os polvos conseguem acasalar sem sequer verem o outro.


Autor: euronews
Fonte: euronews
Sítio Online da Publicação: euronews
Data: 06/04/2026
Publicação Original: https://pt.euronews.com/2026/04/06/sexo-de-polvos-cientistas-descobrem-braco-sensorial-que-deposita-esperma

Pesquisadores da Fiocruz e do Complexo do Lins, moradores e coletivos locais se reúnem para tratar da qualidade da água no território

Moradores do Complexo do Lins e pesquisadores da Fiocruz participaram, no último sábado (28/3), da 3ª oficina do projeto integrado Tecnologias Sociais em Saúde da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha. A atividade aconteceu na favela da Cachoeira Grande, localizada no Complexo do Lins, e apresentou dados preliminares de uma pesquisa sobre indicadores do acesso à água e saneamento na região, realizada com 400 famílias, e promoveu o diálogo com a população sobre o direito humano à água e ao saneamento.

O encontro reuniu moradores, representantes de veículos locais de comunicação comunitária e pesquisadores do território, com o objetivo de compartilhar os dados quantitativos, realizar diagnósticos e ouvir as percepções da população sobre os resultados. A iniciativa integra um conjunto de ações voltadas à produção de conhecimento participativo e ao fortalecimento do debate público sobre as condições de vida na região.

A oficina promovida pelo projeto faz parte de uma ação conjunta coordenada pela Fiocruz, por meio da Coordenação de Cooperação Social da Presidência e da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em articulação com o Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha — um espaço de articulação que reúne organizações, pesquisadores, movimentos socioambientais e instituições comprometidas com a melhoria das condições ambientais e de saneamento dos territórios da bacia hidrográfica.


“No Lins, nós estamos desenvolvendo, por meio do projeto, ações para compreender a percepção da população sobre as condições de saúde e saneamento. Isso é fundamental para subsidiar a formulação de políticas públicas”, explicou Rejany Ferreira dos Santos, coordenadora do projeto na Coordenação de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e pesquisadora do Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha.

Dados da pesquisa revelam desafios no acesso à água e saneamento

A pesquisa-ação realizada pelo projeto, segue uma metodologia de pesquisa social e qualitativa, com um questionário aprovado no Comite de Ética da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz) é composta por perguntas divididas em módulos sobre dados de identificação do participante e dados socioeconômicos, saneamento ambiental, acesso à água, esgoto, saúde ambiental, dados sobre serviço após concessão e problema de saúde devido a carência em saneamento. As entrevistas foram realizadas pessoalmente pelos pesquisadores do território do projeto.


Moradores de diferentes comunidades do Complexo do Lins relataram casos de falta de água no território por 21 dias. “Quem mora em favela sabe que sempre houve problemas com o acesso à água. Isso impacta diretamente a vida da população, inclusive no orçamento das famílias, que muitas vezes precisam comprar água para suprir a falta de abastecimento. Sem água, não é possível realizar atividades básicas do dia a dia, como tomar banho, cozinhar ou manter a rotina dentro de casa”, relata Rejany Ferreira dos Santos.


Durante a atividade, foram apresentados dados levantados entre maio de 2025 e fevereiro de 2026, com a participação de 400 famílias do Complexo do Lins, residentes nas favelas Árvore Seca, Santa Terezinha, Cachoeira Grande, Morro do Amor, Cachoeirinha, Gambá, Barro Preto e na Rua Vilela Tavares - Lins. Os resultados evidenciam desafios estruturais importantes no território no âmbito do acesso à água e saneamento básico.

De acordo com a pesquisa, 85% dos moradores precisam armazenar água devido à intermitência no abastecimento, o que pode representar riscos à saúde quando feito em condições inadequadas. Além disso, 56% dos entrevistados não possuem coleta adequada de esgoto, enquanto 88% relataram a presença de vetores de doenças, como mosquitos, ratos e baratas, próximos às residências.


O levantamento também aponta que 12% dos moradores identificaram risco de contaminação cruzada entre redes de água e esgoto, e 27% precisam utilizar bombas elétricas para garantir o abastecimento, gerando custos adicionais às famílias. Outro dado relevante indica que 5% dos entrevistados possuem apenas um ou nenhum ponto de água dentro de casa, condição que impacta diretamente na higiene e na saúde.

Entre os participantes, 81% vivem com até um salário-mínimo, 89% não possuem ensino superior e 80% se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, evidenciando a relação entre desigualdade social e acesso precário ao saneamento.


“É importante reivindicar intervenções políticas a partir dos dados levantados. Conseguimos identificar os pontos críticos no território relacionados à água, ao saneamento e à drenagem urbana. Destacamos a questão dos resíduos sólidos como um dos principais fatores de risco à saúde: mais de 80% dos problemas identificados estão relacionados ao acúmulo de lixo, que não é recolhido na mesma velocidade em que é produzido. Isso evidencia a necessidade de uma política mais efetiva de coleta”, explicou Adriana Sotero Martins, coordenadora do projeto e pesquisadora do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Ensp/Fiocruz.

Projeto subsidia a construção de tecnologias sociais e ações no território

Além da apresentação dos dados, a oficina também abordou análises sobre a qualidade da água nas nascentes locais e promoveu um espaço de escuta ativa da população, reforçando a importância da participação comunitária na construção de pesquisas.

Através de ações informativas, educativas e práticas de saneamento em territórios socioambientalmente vulnerabilizados, o projeto já realizou ações também em outros bairros e territórios de favelas e periferias próximos, como o Complexo do Alemão, que foi território de implementação das tecnologias sociais e recorte de pesquisa em edição anterior, e na favela Santa Terezinha, localizada no Complexo do Lins no ano de 2024. Na atual etapa, uma nova localidade do Complexo do Lins será escolhida para receber a construção de duas tecnologias sociais: o Biofiltro e a Bacia de Evapotranspiração.


O primeiro, se trata de um sistema que permite acesso à água tratada pelo processo de remoção das impurezas utilizando-se agentes biológicos e esses poluentes são removidos pela barreira mecânica e por biodegradação. Essa tecnologia pode ser utilizada como alternativa em situações de falta de abastecimento. A Bacia de Evapotranspiração consiste em um sistema natural de evapotranspiração que faz a coleta e tratamento de esgotos de casas, diminuindo a carga de dejetos, proporcionando melhoria ambiental dos rios, com reflexos na saúde da população.

Sobre o projeto

O projeto “Tecnologias sociais em saúde na Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha na Serra dos Pretos Forros no Complexo do Lins” é articulado pelo Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, pela Coordenação de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. As ações tiveram início no segundo semestre de 2023 e seguem em execução ao longo de 2026, com foco na promoção da saúde, no fortalecimento comunitário e na melhoria das condições de saneamento ambiental no território.

*Fotos presentes na matéria: Nathalia Mendonça



Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 02/04/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/04/pesquisadores-da-fiocruz-e-do-complexo-do-lins-moradores-e-coletivos-locais-se

Audiência pública no Senado debate internacionalização da Fiocruz


Na próxima quarta-feira (8/4), o Senado Federal vai realizar, às 10h, uma audiência pública para debater a internacionalização da Fiocruz enquanto instituição estratégica do Estado Brasileiro. O objetivo é discorrer sobre o papel da instituição no âmbito da Saúde Pública, ciência e cooperação internacional, e como essa atuação fortalece políticas públicas e a presença do Brasil no exterior. O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, participará da sessão. A audiência será transmitida e aberta para a participação de interessados por meio do portal e-cidadania.

Além de Mario Moreira, participarão da audiência representantes da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores, da Agência de Promoção e Exportação do Brasil (ApexBrasil) e do Ministério da Saúde. A sessão será durante a 5ª Reunião Extraordinária da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.


Como parte do seu compromisso histórico com a saúde e a vida, a Fiocruz atua de forma cada vez mais estruturada na frente internacional e na Diplomacia da Saúde. Nos últimos anos, a presença da Fundação no exterior vem sendo fortalecida, apesar de um cenário global cada vez mais desafiador, marcado por conflitos, instabilidade geopolítica, ameaças ao multilateralismo, impactos da crise climática e emergências sanitárias. A saúde, neste contexto, assume centralidade no debate, exigindo atuação conjunta entre países.

Nas colaborações firmadas pela Fiocruz figuram, principalmente, o eixo Sul-Sul até a geração de conhecimento e tecnologias na interface com países líderes no contexto industrial em saúde. Neste contexto, a atuação internacional gera resultados concretos para a população brasileira e o Sistema Único de Saúde (SUS), como redução de custos na produção de medicamentos, fortalecimento da capacidade de produção nacional, avanços em pesquisas, ampliação de opções de terapias e imunizantes mais eficazes e acessíveis e fortalecimento da soberania nacional por meio de acordos de transferência de tecnologia.

Ao mesmo tempo, as ações de internacionalização, pautadas na defesa do multilateralismo, apoiam sistemas de saúde locais a partir do princípio da solidariedade entre nações. “Nosso olhar e nossos esforços estão voltados para garantir o direito à vida e o acesso equitativo a bens e serviços em saúde para as pessoas que vivem situações de vulnerabilidade”, reforça Mario Moreira. “Sem dúvida, o parlamento brasileiro é um grande aliado neste compromisso com a soberania nacional e o multilateralismo”.



Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 06/04/2026

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Risco de hospitalização é 21% maior em crianças infectadas com chikungunya na barriga da mãe

Em estudo publicado na revista Nature, pesquisadores da Fiocruz apontam que crianças que tiveram contato com a chikungunya ainda na barriga da mãe, ou seja, de forma intrauterina, apresentaram 21% maior risco de hospitalização nos primeiros três anos de vida. Para as crianças infectadas na hora do parto, este risco dobrou de tamanho. Outro achado teve relação com o período em que a mãe é infectada pela doença: se ocorreu durante o primeiro ou segundo trimestre da gravidez, as chances da criança vir a ser hospitalizada nos primeiros anos de vida foram 25 e 35% mais altas.
 


A pesquisa, conduzida no Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), utilizou a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros para monitorar dados de 1,8 mil crianças nascidas de mães que tiveram chikungunya durante a gestação por três anos, entre 2015 e 2018. Outras 18 mil crianças que não foram expostas à doença foram analisadas para comparação no mesmo período.

“Os resultados indicam que uma vez que a criança é exposta a chikungunya ainda bebê, independente de ter tido contato com a resposta inflamatória causada pelo vírus na mãe, a doença pode ter consequências duradouras para a saúde da criança”, conta a pesquisadora Mio Kushibuchi, líder do estudo.

As trajetórias das crianças foram acompanhadas desde o nascimento até os três anos de idade, tendo sido contabilizadas as hospitalizações neste período. A pesquisa também avaliou idade materna, escolaridade, raça materna, acesso a serviços de saúde, município de residência e data de nascimento. Os dados foram retirados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e Sistema de Informações Hospitalares (SIH), dentre outros.

Atualmente, o Brasil notifica quase a totalidade de casos mundiais por chikungunya, tendo registrado 95% dos casos pela doença. Porém, o estudo avalia que as mudanças climáticas estão agindo para a disseminação da doença em outros países e contextos ao redor do mundo.

De acordo com o estudo, as manifestações do vírus chikungunya ainda permanecem pouco estudadas quando comparadas a doenças “primas” mais conhecidas, como a dengue e a Zika. Ao nascer, o bebê vem ao mundo sem sequelas visíveis da doença, que podem vir a se agravar à medida que o recém-nascido se torna uma criança. “Justamente por não ter consequências físicas aparentes, a chikungunya pode passar despercebida e, por vezes, as pessoas afetadas podem carregar os sintomas da doença em silêncio”, comenta Kushibuchi. “Tornar público o impacto da doença em crianças expostas ao vírus ainda no útero e o quão isso pode causar hospitalizações, pode ajudar a entender a dimensão desta doença”.

A pesquisadora ainda destaca que a chikungunya precisa de maior atenção em populações em situação vulnerável. “Mães que vivem em comunidades em situação de pobreza e desigualdade, com baixa condição sanitária, são consideradas um grupo de risco, já que o mosquito Aedes aegypti pode transmitir essa e outras doenças, como a dengue, para o feto”, explica.

O artigo também traz recomendações em três esferas. Na dimensão clínica, é indicado que gestantes que contraem a chikungunya recebam acompanhamento pré-natal reforçado, mesmo em fases iniciais da gravidez, e que seus filhos tenham assistência regular contínua nos primeiros dias de vida. Na dimensão política, o estudo avalia que a infecção da chikungunya traz custos altos para o sistema de saúde e, por isso, é necessário investimento em prevenção e vigilância ativa em tempos de epidemia. Ao lado desta, na dimensão governamental, é recomendadp o controle de vetores nas comunidades em situação de vulnerabilidade, em especial, nas cidades e centros urbanos com saneamento precário.


Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 01/04/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/04/risco-de-hospitalizacao-e-21-maior-em-criancas-infectadas-com-chikungunya-na