quinta-feira, 14 de maio de 2026

Projeto sobre mobilidade propõe hubs de Planejamento Inteligente


Para debater soluções para a mobilidade urbana, projeto promove evento de escuta em Cabo Frio com a participação de gestores públicos (Foto Divulgação/Acervo de Pesquisa)


Uma profusão de motociclistas se equilibrando por entre os carros, bicicletas elétricas, motocicletas, cruzando sinais vermelhos, transitando pela contramão, falando ao celular. Quem nunca viu situação semelhante numa grande cidade brasileira que atire a primeira pedra. A percepção que se tem é a de que o trânsito está cada dia mais confuso e violento. E os números confirmam a escalada de acidentes nos últimos anos e que não se trata, porém, apenas de percepção.

O País registrou em 2024 o maior número de mortes no trânsito em oito anos, contabilizando 37.150 óbitos, 6,5% a mais do que os 34.881 de 2023, de acordo com dados do DataSUS, do Ministério da Saúde. Sendo que deste total, as motos respondem por 40%, como indicam dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em novembro do ano passado.

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. Dados do Corpo de Bombeiros, divulgados pelo site de notícias G1 em abril, mostram crescimento no número de ocorrências nos quatro primeiros meses deste ano em comparação ao mesmo período de 2025. Na cidade do Rio, sete em cada dez atendimentos por trauma envolvem acidentes com motocicletas. De janeiro a abril, a rede municipal de saúde realizou mais de 10 mil atendimentos. No período de um ano, entre 2024 e 2025, a cidade do Rio de Janeiro teve um aumento de 702% no número de atendimentos a pacientes envolvidos em acidentes com veículos de micromobilidade – patinetes elétricos, autopropelidos, ciclomotores –, de acordo com levantamento da Comissão de Segurança no Ciclismo do RJ, com base em dados da Secretaria Municipal de Saúde.

Para o especialista na área de transportes, novas tecnologias e mobilidade urbana Matheus Henrique de Sousa Oliveira, pesquisador do Programa de Engenharia de Transportes (PET), do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), a melhora na mobilidade, seja nas grandes, médias ou pequenas cidades, passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana.

Matheus Oliveira: para o pesquisador da Coppe/UFRJ, a melhora na mobilidade nas cidades passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana (Foto: Acervo pessoal)


O pesquisador, que recebeu apoio da FAPERJ para a realização de seus estudos por meio do Programa de Apoio a Projetos Científicos e Tecnológicos em Mobilidade Urbana, vem desenvolvendo o trabalho de pesquisa e implementação de hubs inteligentes de planejamento em todo o estado, intitulado “Mob 4.0 – Hub de Planejamento Inteligente da Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro”. A proposta consiste na criação de "laboratórios vivos de inovação" aplicados à mobilidade e, através deles, apoiar o planejamento inteligente das cidades. Matheus enfatiza “que o apoio dos gestores nesse trabalho é imprescindível para que o desenho saia do papel e tenha êxito”.

“Como é que a gente constrói ferramentas tecnológicas capazes de colocar na mesma arena o decisor, a população e os dados que representam o problema?”, questiona ele. Para encontrar a resposta, o pesquisador acrescenta que existem diversas etapas para formar o que ele chama de "ecossistema de inovação da gestão urbana" e que garante essa governança: a fase de escuta ou coleta de dados; o controle sobre esses dados; a transparência sobre os dados; e o monitoramento.

Até o momento, foram duas as cidades que já receberam o hub de inovação: Campos dos Goytacazes e Cabo Frio. Entre estudos, análises e propostas, o tempo de implementação do projeto em cada cidade é de cerca de um ano e segue uma metodologia própria. Primeiro, vem a escuta, etapa em que são ouvidos a sociedade civil organizada e o cidadão comum, a academia e também os gestores, através de audiências públicas e reuniões. Essa análise serve para entender quais são as dores, os gargalos e as possibilidades de intervenção e mobilidade em cada local. A partir desta análise, vêm as sugestões propostas no estudo e sua implementação, que sugerem a melhoria do fluxo e mobilidade. “Em Cabo Frio, por exemplo, a gente entendeu que um sistema aquaviário entre o bairro Ogiva e o Centro – já que a cidade é entrecortada por uma lagoa –, e também a ampliação da ciclovia à beira-mar poderiam funcionar, desafogando o trânsito de veículos nas ruas e ampliando as possibilidades de deslocamento para os moradores,” relata. Ele ressalta que a ideia é que o projeto se estenda para mais cidades do estado, sempre observando as potencialidades e particularidades de cada local.

Numa análise mais ampla sobre o trânsito nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro, e sobre o aumento exponencial na circulação de motocicletas, ciclomotores e bicicletas elétricas, Matheus observa que o crescimento da frota de veículos individuais é fruto de um histórico processo de degradação no transporte público que vem ocorrendo desde o final dos anos 90 e tem o seu ápice em meados de junho de 2013, com o crescimento real das tarifas. Processo esse que se intensificou com a pandemia, havendo uma redução drástica na oferta de transportes coletivos e uma mudança de hábitos provocados pelo distanciamento social, como o crescimento da demanda por motos, entregas e deslocamentos individuais. Soma-se a esse cenário, um aumento da disponibilidade de motocicletas, veículos elétricos leves, com baterias duráveis, custo mais acessíveis e com boa autonomia para circular pela cidade em pequenas ou longas distâncias, gerando economia de tempo e dinheiro.

Em Campos dos Goytacazes, população participa de evento de escuta para debater soluções visando a melhora da mobilidade urbana (Foto: Divulgação Acervo de Pesquisa)


Para ele, a solução começa na repactuação do sistema, dando prioridade ao coletivo, com a ampliação de ciclovias, criação de espaços pedonais de qualidade, construção de passarelas e implementação da tarifa zero no transporte público. “A gente precisa entender que o financiamento do transporte público não pode sair do bolso do usuário e existem diversos modelos mundo afora que deram certo e estudos consistentes no Brasil, abordando estimativas de custo, formas de financiamento e sua implementação que demonstram que é possível e viável.”

Outro ponto que o pesquisador defende para a construção de um trânsito mais seguro, menos caótico e menos violento é a redução dos limites de velocidade nas vias urbanas, acompanhado de melhorias das placas de sinalização e redesenho dos espaços e vias públicas, priorizando sempre os pedestres. Ele cita como exemplo e referência mundial o caso da cidade de Fortaleza, que investiu em mobilidade sustentável e conseguiu reduzir pela metade as mortes no trânsito em dez anos.

“Quando a gente investe em ações e iniciativas para uma mobilidade sustentável e reduz os índices de acidentes e mortalidade no trânsito das nossas cidades, estamos falando de economia em saúde pública, em redução nas filas do SUS, nas indenizações e aposentadorias por invalidez. Dinheiro este que pode ser reinvestido em ciclovias, passarelas, travessias, calçadas, ou seja, reorganizar o espaço viário de forma a dar prioridade e segurança ao mais fraco”, pontua.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 07/05/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1013.7.3

A Hantavirose é uma zoonose viral aguda, cuja infecção em humanos, no Brasil, se apresentam na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus.

A Hantavirose é uma zoonose viral aguda, cuja infecção em humanos, no Brasil, se apresentam na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus. Na América do Sul, foi observado importante comprometimento cardíaco, passando a ser denominada de Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH). Os hantavírus possuem como reservatórios naturais alguns roedores silvestres, que podem eliminar o vírus pela urina, saliva e fezes. Os roedores podem carregar o vírus por toda a vida sem adoecer. A Hantavirose é causada por um vírus RNA, pertencente à família Hantaviridae, gênero Orthohantavirus. Os membros desse gênero e família podem ser chamados de, simplesmente, Hantavirus.


Importante: Nas Américas, a hantavirose se manifesta sob diferentes formas, desde doença febril aguda inespecífica, até quadros pulmonares e cardiovasculares mais severos e característicos, podendo evoluir para a síndrome da angústia respiratória (SARA).

Transmissão


A infecção humana por hantavirose ocorre mais frequentemente pela inalação de aerossóis, formados a partir da urina, fezes e saliva de roedores infectados. As outras formas de transmissão, para a espécie humana, são:Percutânea, caracterizada pela entrada de agentes infecciosos por lesões na pele, como escoriações ou mordeduras de roedores.
Contato do vírus com mucosa (conjuntival, da boca ou do nariz), por meio de mãos contaminadas com excretas (urina, fezes e saliva) de roedores;
Transmissão pessoa a pessoa, relatada, de forma esporádica, na Argentina e Chile, sempre associada ao hantavírus Andes.

O período de transmissibilidade do hantavírus no homem é desconhecido. Estudos sugerem que o período de maior viremia seria alguns dias que antecedem o aparecimento dos sinais/sintomas.

Já o período de incubação do vírus, ou seja, o período que os primeiros sintomas começam a aparecer a partir da infecção, é, em média, de 1 a 5 semanas, com variação de 3 a 60 dias.

Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homens e roedores silvestres.

Viajantes

Não há evidências de que viagens para áreas de transmissão devam ser restringidas. No entanto, esse perfil de população deve adotar algumas medidas para reduzir, ao mínimo, a possibilidade de infecção pelo hantavírus:Cabanas ou abrigos que tenham permanecido fechados ou com sinais evidentes de presença de roedores só devem ser usados depois de arejados, limpos e descontaminados;
Acampamentos devem ser montados em lugares afastados de onde haja presença de roedores. Ninhos, escombros, lixões, acúmulos de lenha ou produtos agrícolas, palha ou outros materiais são habitats preferenciais desses animais, evitando-se também escorpiões, aranhas, serpentes e carrapatos, entre outros;
Não se deve repousar ou deitar diretamente no solo. Aconselha-se o uso de barraca com piso impermeável;
Nesses acampamentos, devem-se manter os alimentos e os resíduos em vasilhames fechados. O lixo deve ser acondicionado em recipientes à prova de roedores durante a estadia, ressaltando que todo resíduo produzido durante essas atividades deve ser recolhido e depositado em local apropriado.

Sintomas


Na fase inicial, a hantavirose causa os seguintes sintomas:Febre;
Dor nas articulações;
Dor de cabeça;
Dor lombar;
Dor abdominal;
Sintomas gastrointestinais.

Na fase cardiopulmonar, os sintomas da hantavirose são:Febre;
Dificuldade de respirar;
Respiração acelerada;
Aceleração dos batimentos cardíacos;
Tosse seca;
Pressão baixa.

Importante: Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homense roedores silvestres.

Transporte de paciente

Dada a evolução rápida e progressiva do quadro prodrômico para insuficiência respiratória grave e, até mesmo, choque circulatório, para evitar óbito, o paciente com hantavirose deve ser transportado acompanhado de médico habilitado e em condições que assegurem:Estabilidade hemodinâmica;
Parâmetros ventilatórios adequados, com oxigenioterapia e suporte ventilatório mecânico, se necessários;
Acesso venoso, sem administração excessiva de líquidos;
Controle cardiovascular com uso de aminas vasoativas em doses adequadas;
Normas de biossegurança;
Mobilização apenas quando necessária e sem desgaste físico do paciente.


Diagnóstico

Atualmente, os exames laboratoriais para diagnóstico específico da hantavirose são realizados em laboratórios de referência. Os exames estão disponíveis na rede pública de laboratórios para confirmação ou descarte dos casos. O diagnóstico é feito, basicamente, por meio da sorologia. O Ministério da Saúde disponibiliza os kits necessários para testes sorológicos. Saiba mais

Tratamento


Não existe um tratamento específico para as infecções por hantavírus. As medidas terapêuticas são fundamentalmente as de suporte, ministradas conforme cada caso por um médico profissional.

Por tratar-se de uma doença aguda e de rápida evolução, a hantavirose / hantavírus (síndrome cardiopulmonar por hantavírus), é de notificação compulsória imediata, devendo portanto, ser notificada em até 24h tanto para as Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde, quanto para o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS).

Como a hantavirose é uma doença com transmissão respiratória, profissionais que possam estar expostos, como principalmente trabalhadores rurais, assim como profissionais de saúde que irão realizar investigação à procura do local provável de infecção, devem utilizar os seguintes equipamentos de proteção individual:Máscara pff3;
Luva;
Avental;
Óculos de proteção.

Todo profissional potencialmente exposto ao risco deve ser orientado sobre as formas de transmissão, os períodos de incubação e sinais/sintomas da doença. Quando possível, deve-se, previamente, determinar o nível de risco para cada atividade profissional e identificar as respectivas medidas de prevenção.


Importante: Trabalhadores que apresentem febre ou qualquer doença respiratória em um período de até 60 dias após uma possível exposição ou situação de risco devem buscar, imediatamente, assistência médica e relatar ao profissional de saúde a sua história epidemiológica.

Prevenção


A prevenção das hantavirose baseia-se na utilização de medidas que impeçam o contato do homem com os roedores silvestres e suas excretas (resíduos eliminados do organismo).

As medidas de controle devem conter ações que impeçam a aproximação dos roedores, como, por exemplo, roçar o terreno em volta da casa, dar destino adequado aos entulhos existentes, manter alimentos estocados em recipientes fechados e à prova de roedores, além de outras medidas que impeçam a interação entre o homem e roedores silvestres, nos locais onde é conhecida a presença desses animais.




Autor: gov br
Fonte: gov br
Sítio Online da Publicação: gov br
Data: 12/05/2026
Publicação Original: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hantavirose

Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profi…

Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profissionais do sistema de saúde. Esta Orientação, hoje publicada, surge da necessidade de definir procedimentos a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação ao surto de [...]


Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profissionais do sistema de saúde.

Esta Orientação, hoje publicada, surge da necessidade de definir procedimentos a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação ao surto de Hantavírus no navio de cruzeiro MV Hondius.

No entanto, não existe qualquer alteração da avaliação do risco. O risco para Portugal mantém-se muito baixo, pelo que não há medidas preventivas a implementar a nível nacional para a população.

A Orientação está disponível aqui https://www.dgs.pt/normas-orientacoes-e-informacoes/orientacoes-e-circulares-informativas/orientacao-n-0012026-de-11052026-hantavirus-andes-procedimentos-para-gestao-de-contactos-no-ambito-do-surto-no-navio-cruzeiro-mv-hondius-.aspx.

#DGS #SaúdePública #Saúde #Hantavírus





Autor: sapo
Fonte: sapo
Sítio Online da Publicação: sapo
Data: 11/05/2026
Publicação Original: https://sapo.pt/artigo/conheca-o-guia-rapido-da-dgs-relativo-a-orientacao-sobre-hantavirus-para-profi-6a024961f00315c827965b8c

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo da Fiocruz registra expansão do vírus oropouche no Nordeste


Um estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz identificou a expansão e o estabelecimento da transmissão do vírus oropouche (Orov) no Nordeste do Brasil entre 2024 e 2025. Historicamente associado à região amazônica, o vírus passou a circular de forma contínua em estados nordestinos, atingindo áreas onde não havia registros anteriores de oropouche. De acordo com a pesquisa, foram confirmados 2.806 casos no período, distribuídos em 170 municípios de oito dos nove estados da região. A análise mostra que a disseminação ocorreu de forma heterogênea: a maioria das cidades apresentou poucos registros, enquanto um grupo menor concentrou incidências mais elevadas. O estudo foi publicado em abril de 2026 na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases


Ilustração do inseto transmissor do vírus oropouche, o Culicoides paraensis (Imagem: Ademildo Mendes/MS)

Os dados também revelam uma mudança no perfil geográfico da transmissão. Em 2024, os casos estavam mais concentrados em áreas do bioma Mata Atlântica. Em 2025, a maior parte das ocorrências foi registrada em zonas úmidas da Caatinga, indicando a presença do vírus em diferentes contextos ambientais dentro do Nordeste. O trabalho contou com a participação do Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE), do Laboratório Central de Saúde Pública da Paraíba (Lacen-PB), além do Serviço de Referência em Arboviroses, do Núcleo de Plataformas Tecnológicas e do Núcleo de Bioinformática, todos da Fiocruz Pernambuco.

Para entender a dinâmica da disseminação, os pesquisadores integraram dados epidemiológicos com análises genômicas do vírus. Foram sequenciados 65 genomas a partir de amostras coletadas em Pernambuco, Paraíba e Sergipe. A partir da informação genética, foi possível reconstruir a trajetória de circulação do Orov e identificar múltiplas introduções independentes na região ao longo de 2024.

Segundo o pesquisador do Departamento de Entomologia da Fiocruz Pernambuco e um dos autores do estudo, Gabriel Wallau, o trabalho documenta o estabelecimento do vírus na região. “Esse estudo caracterizou o estabelecimento do vírus oropouche no Nordeste em múltiplos estados, algo que até então não tinha sido descrito de forma ampla. Era um vírus típico da bacia amazônica, com registros pontuais em outras regiões, mas sem essa dinâmica de transmissão sustentada que observamos agora”, afirma.

Em Pernambuco, o estudo identificou duas linhagens distintas do vírus. A primeira, originada na região central do Amazonas, apresentou maior capacidade de dispersão e foi associada à propagação para estados vizinhos, como Sergipe e Paraíba. A segunda permaneceu restrita ao estado.

O município de Jaqueira, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, foi destacado como um dos principais pontos de disseminação regional. A partir dessa localidade, o vírus se espalhou para outros municípios do estado e avançou para estados vizinhos. “A gente conseguiu caracterizar dois grandes surtos no Nordeste, um em Pernambuco e outro na Paraíba, em anos diferentes, mostrando como o vírus se espalha e se estabelece em novos territórios”, explica Wallau.

A pesquisa também identificou padrões temporais na ocorrência dos casos. Em Pernambuco, o aumento das notificações ocorreu a partir de abril de 2024, com pico em junho, próximo ao final do período chuvoso. Em outros estados, como Ceará e Alagoas, o crescimento dos casos foi observado ao longo do segundo semestre do mesmo ano. Já na Paraíba, a transmissão local foi registrada no fim de 2024, com aumento expressivo no início de 2025. Outro ponto observado foi a relação entre a ocorrência da doença e fatores ambientais. Os períodos de maior incidência coincidiram, em geral, com meses de maior precipitação.

De acordo com o pesquisador, a distribuição dos casos também está relacionada ao tipo de vetor envolvido na transmissão. “Diferentemente de outras arboviroses, o oropouche não está associado principalmente ao Aedes aegypti. O principal vetor são os maruins, que se proliferam em áreas de mata e ambientes rurais. Isso ajuda a explicar por que os maiores surtos ocorreram em municípios pequenos e com interfaces com ambiente mais silvestre”, diz.

A análise espacial mostrou que cidades de menor porte apresentaram, proporcionalmente, maiores taxas de incidência. Em contrapartida, grandes centros urbanos registraram menor impacto relativo. Além disso, os resultados indicam que o vírus pode ter circulado sem detecção por semanas ou meses antes do reconhecimento dos primeiros surtos. “Existe um intervalo entre a introdução do vírus e o aumento do número de casos. Isso sugere uma circulação silenciosa antes da identificação dos surtos”, afirma o pesquisador.

O estudo também reúne evidências de que a expansão do vírus não se restringe mais à Amazônia. “O que a gente observa é que há condições ambientais e populacionais favoráveis para a ocorrência de novos surtos em outras regiões do país. Isso amplia o número de pessoas potencialmente expostas ao vírus”, ressalta Wallau.

A febre de oropouche é uma arbovirose que apresenta sintomas como febre alta, dor de cabeça, dores musculares e articulares, podendo ser confundida com outras doenças como dengue, zika e chikungunya. Além disso, casos raros de abortos e partos precoces em mulheres grávidas também foram registrados neste último grande surto (2023-2025) no Brasil.




Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 12/05/2026

Fiocruz deposita patente de dispositivo inovador de coleta não invasiva e indolor de pele


A Fiocruz deu mais um passo no fortalecimento da inovação em saúde ao realizar o depósito, junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), de um novo pedido de patente voltado à coleta de amostras cutâneas. Intitulada Dispositivo de coleta e armazenamento de pele, sistema e método de coleta e armazenamento de pele, a tecnologia propõe uma alternativa eficiente, padronizada e não invasiva para obtenção de biomarcadores relevantes. O projeto foi desenvolvido no contexto do projeto NAPI Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (Napi) Proteômica da Fundação Araucária.

O dispositivo desenvolvido permite a coleta de material da superfície da pele com potencial para análise de proteínas, DNA e RNA, ampliando as possibilidades de aplicação em diferentes técnicas laboratoriais. A inovação pode contribuir diretamente para o diagnóstico de doenças dermatológicas, reduzindo a necessidade de procedimentos invasivos e aumentando a precisão das análises.

De acordo com o pesquisador da Fiocruz Paraná Paulo Carvalho, o depósito do pedido de patente marca um avanço importante no desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas à saúde. “Trata-se de uma ferramenta que pode facilitar significativamente o acesso a biomarcadores cutâneos, com impacto direto na qualidade e na agilidade dos diagnósticos”, destaca.

A invenção foi desenvolvida no contexto do doutorado de Amanda Camillo no Programa de Pós-Graduação em Biociências e Biotecnologia (PPGBB) da Fiocruz Paraná, juntamente com os pesquisadores Marlon Dias e Paulo Carvalho, que ressaltam o potencial de aplicação da tecnologia. “Buscamos desenvolver uma solução que, além de eficiente, fosse clinicamente aplicável, reduzindo a necessidade de procedimentos invasivos e ampliando a possibilidade de monitoramento de biomarcadores cutâneos em diferentes contextos, desde pesquisa até potencial uso diagnóstico”, explica.

A Assessoria de Novos Negócios e Inovação (Anni) acompanhou o projeto desde as etapas iniciais, oferecendo suporte no processo de proteção intelectual. Para a analista Fabricia Pimenta, a iniciativa reflete o amadurecimento da cultura de inovação na instituição. “O depósito desse pedido de patente demonstra o potencial da Fiocruz Paraná em gerar tecnologias com impacto real para a sociedade. Nosso papel é garantir que essas soluções sejam protegidas e tenham caminho para chegar à população”, afirmou.

Após o protocolo no INPI, o pedido de patente passa por etapas de exame formal e técnico. Somente após a verificação de critérios como novidade, atividade inventiva e aplicação industrial é que a patente pode ser concedida. Com mais este depósito, a Fiocruz reforça sua atuação estratégica no desenvolvimento científico e tecnológico, consolidando seu compromisso com a geração de soluções inovadoras que contribuam para a melhoria da saúde pública e da qualidade de vida da população.




Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/05/2026

EPSJV/Fiocruz realiza 3ª Jornada Nacional de Iniciação Científica da Rede Provoc

A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) promove, no dia 28 de maio, a 3ª Jornada Nacional de Iniciação Científica da Rede Provoc. O evento, que integra as comemorações de 40 anos do Programa de Vocação Científica (Provoc), vai reunir pesquisadores, professores e cerca de 280 estudantes de diversos estados e do Distrito Federal. A Jornada destaca o compromisso da Fiocruz com a difusão do conhecimento científico e tecnológico, atuando também como agente de cidadania, e tem como objetivos debater políticas públicas para a juventude e promover a iniciação científica no Ensino Médio.

Este é o terceiro ano que a EPSJV reúne jovens de diversas regiões do país para um intercâmbio científico e cultural por meio da Rede Provoc. Instituída a partir de 2022, a Rede Provoc Luiz Fernando Rocha Ferreira da Silva reúne estudantes de 30 escolas de 10 estados onde a Fiocruz está presente.




Programação
A programação tem início às 8h30, com recepção na Tenda Arena da EPSJV, seguida da mesa de abertura do evento, às 9h. Em seguida, serão realizadas homenagens a diretores e pesquisadores de outras unidades da Fiocruz, além de coordenadores, diretores de instituições conveniadas e participantes do Provoc. Ainda pela manhã, estudantes apresentam seus trabalhos de iniciação científica, atividade que se estende também para o período da tarde.

Para a coordenadora do Provoc, Cristiane Braga, o evento ultrapassa o caráter acadêmico. “Realizar a 3ª Jornada é um marco que transborda o aspecto acadêmico; é, essencialmente, um encontro de gerações comprometidas com o futuro da ciência para a sociedade”, afirma. Segundo ela, a presença de jovens de diferentes regiões do país reafirma o impacto da iniciação científica em suas trajetórias. “Ver jovens reunidos, compartilhando pesquisas, expectativas e sonhos, reafirma o papel transformador que a iniciação científica exerce em suas vidas”, destaca.

Por fim, Cristiane reforça o compromisso do Provoc e da Escola Politécnica como um todo com o futuro da ciência: “Que possamos ampliar cada vez mais o alcance deste programa e seguir possibilitando a vivência do cotidiano da pesquisa a esses jovens, fortalecendo o compromisso com uma ciência cidadã, crítica e inclusiva.”


Um programa pioneiro

Criado em 1986, o Programa de Vocação Científica (Provoc) da Fiocruz é coordenado pela Escola Politécnica. Pioneiro no Brasil, o Provoc inicia estudantes do Ensino Médio na pesquisa científica em saúde. “Este ano, a Jornada ganha um significado ainda mais profundo e especial ao celebrarmos os 40 anos do Provoc, este programa pioneiro que serviu de modelo e inspiração para diversas iniciativas em todo o país. São quatro décadas colaborando na formação de jovens pesquisadores e fortalecendo o trabalho de quem faz a educação e a ciência acontecerem no dia a dia”, destaca Cristiane.

Em 40 anos, mais de três mil estudantes das redes pública e privada, além de organizações sociais dos Complexos da Maré e de Manguinhos, no Rio de Janeiro, já passaram pelo Programa e, muitos deles, se tornaram pesquisadores. Ao longo desse tempo, o modelo de iniciação científica que constitui o Provoc não apenas se reproduz pelas instituições da Fiocruz, mas também se qualifica como uma referência para a iniciação científica em território nacional. A partir de 2022, o programa se expandiu com a criação da Rede Provoc Luiz Fernando da Rocha Ferreira da Silva, nomeada em homenagem a um dos idealizadores do Provoc e fundadores da EPSJV.



Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/05/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/epsjv-fiocruz-realiza-3a-jornada-nacional-de-iniciacao-cientifica-da-rede-provoc

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Fiocruz obtém patente para tratamento contra malária resistente

A Fiocruz obteve a patente de um método de tratamento considerado promissor contra a malária, sobretudo nos casos resistentes aos medicamentos tradicionais. A concessão foi feita pelo escritório norte-americano United States Patent and Trademark Office (USPTO) e pesquisadores da Fiocruz Minas são os responsáveis pela inovação. O método utiliza o composto DAQ, que apresentou ação contra cepas resistentes do Plasmodium falciparum, parasita responsável pelas formas mais graves da doença.


“A recente aprovação da patente do método de tratamento contra parasitos da malária é um marco importante, pois além de ter baixo custo, essa molécula possui mecanismo único de superar a resistência desenvolvida pelo P. falciparum, parasito causador da malária humana letal caso não seja tratada adequadamente”, afirma a pesquisadora Antoniana Krettli, coordenadora do estudo.

A malária segue como um grave problema de saúde pública global, com milhões de casos anuais. Embora a DAQ não seja uma molécula inédita, uma vez que sua atividade antimalárica já havia sido descrita na década de 1960, o diferencial do estudo foi revisitar o composto à luz de abordagens contemporâneas. “Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasito, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, explica o pesquisador colaborador da Fiocruz Minas, Wilian Cortopassi.

Assim como a cloroquina, o DAQ interfere em um processo essencial para a sobrevivência do parasito. Durante a digestão da hemoglobina, o microrganismo produz uma substância tóxica que normalmente é neutralizada. O composto bloqueia esse mecanismo, levando à morte do parasito. Estudos indicam que o DAQ é eficaz contra cepas sensíveis e resistentes do Plasmodium falciparum, com ação rápida nas fases iniciais da infecção.

A pesquisadora Anna Caroline Aguiar ressalta que o composto também demonstrou atividade contra o Plasmodium vivax, espécie responsável pela maioria dos casos de malária no Brasil, reforçando o potencial da molécula em contextos epidemiológicos relevantes para o país. “Nós vimos que a molécula funcionou tanto para falciparum quanto para vivax, o que é extremamente relevante”, afirma a pesquisadora, que participou de uma série de experimentos durante o mestrado e doutorado, realizados sob orientação de Antoniana Krettli.

Outro aspecto relevante é o baixo custo da molécula, uma característica especialmente importante, considerando que a malária afeta majoritariamente países de baixa e média renda. “Esse fator amplia o potencial de aplicação da tecnologia em contextos de maior vulnerabilidade”, ressalta Cortopassi.

Os estudos contaram com a colaboração de instituições como a University of California San Francisco (UCSF), por meio do programa Catalyst Awards, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). As pesquisas seguem em andamento, com novos estudos conduzidos em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Próximos passos

Apesar dos resultados promissores, o desenvolvimento do DAQ como medicamento ainda exige uma série de etapas. Será necessário avançar nos estudos de toxicidade, definir a dose mais segura e eficaz e desenvolver a formulação adequada. Segundo a equipe, apenas a fase pré-clínica já demanda investimentos significativos.

Nesse cenário, a proteção intelectual se torna estratégica para viabilizar o avanço da tecnologia. De acordo com a coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), Ana Paula Granato, a patente representa um diferencial competitivo e um passo importante na prospecção de parcerias com a indústria farmacêutica. “É, sem dúvida, um reconhecimento importante, pois demonstra a ineditismo e o potencial da tecnologia”, afirma. Concedida em março deste ano, a patente tem validade até 05 de setembro de 2041.

Antoniana Krettli destaca o papel estratégico da Fiocruz nesse processo. “A instituição tem forte atuação na Amazônia, com diagnóstico e acompanhamento de pacientes, além de experiência em testes clínicos. Isso facilita parcerias e o avanço de novos medicamentos”, afirma.

Para os pesquisadores, o estudo também acende um alerta. Embora ainda existam tratamentos eficazes, o parasito continua evoluindo, o que reforça a necessidade de desenvolver novas alternativas desde já, evitando um cenário de escassez terapêutica nos próximos anos.



Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 087/05/2024
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/fiocruz-obtem-patente-para-tratamento-contra-malaria-resistente