
Aula prática do AGente das Águas reúne participantes em atividade de campo voltada à identificação de organismos bioindicadores da qualidade da água (Foto: Acervo AGente das Águas)
Em sua configuração atual, a iniciativa já percorreu cerca de 50 municípios de Paraná, Espírito Santo e Rio de Janeiro, formando cerca de 600 participantes entre agentes comunitários e multiplicadores. “O AGente das Águas é mais do que uma ação de divulgação científica e mais do que um projeto de popularização da ciência. É efetivamente uma iniciativa de ciência cidadã, em que construímos conhecimento em conjunto com as comunidades locais”, afirma a pesquisadora Clélia Mello-Silva, chefe do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental (Lapsa) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), responsável pela coordenação do projeto, ressaltando que o diferencial do programa está justamente na construção coletiva da ciência.
A trajetória da plataforma começou ainda no fim da década de 1990, quando pesquisadores do Lapsa perceberam o interesse das populações locais em participar das atividades de campo realizadas pelo laboratório. Desde então, a iniciativa passou por diferentes formatos e, após a pandemia de Covid-19, foi reformulada em 2022 e incorporada à atual Plataforma AGente das Águas .
Ciência produzida nos territórios
Mas, afinal, o que a presença de pequenos organismos aquáticos pode revelar sobre a saúde de um rio? Para os pesquisadores do AGente das Águas, a resposta está justamente nos chamados macroinvertebrados aquáticos. Visíveis a olho nu, esses pequenos organismos — como larvas de insetos, moluscos e crustáceos — vivem no fundo de rios e córregos e funcionam como bioindicadores da qualidade da água.

Durante atividade prática do AGente das Águas, participantes realizam coletas e observações em campo para avaliação da qualidade da água e das condições ambientais do rio (Foto: Acervo AGente das Águas)
“Algumas espécies são mais sensíveis à poluição e desaparecem quando o ambiente é degradado, enquanto outras conseguem sobreviver em condições mais adversas. Logo, ao identificar quais organismos estão presentes em determinado trecho do rio, é possível avaliar a saúde do ecossistema e detectar sinais de impacto ambiental” explica Clélia sobre o biomonitoramento, método que utiliza organismos vivos como indicadores das condições ambientais de um ecossistema.
No AGente das Águas, a análise biológica é combinada a avaliações físico-químicas, bacteriológicas e ambientais, além da medição da vazão dos rios. Em conjunto, essas informações permitem compreender a situação dos recursos hídricos e identificar possíveis impactos provocados por esgoto, atividades agrícolas, processos industriais ou outras fontes de poluição.
Para disseminar essa metodologia nos territórios, a plataforma oferece cursos de formação que combinam atividades teóricas e práticas. As capacitações são conduzidas por profissionais da Fiocruz e ensinam os participantes a realizar as diferentes etapas do biomonitoramento.
Duas modalidades de treinamento são oferecidas. A primeira é voltada para os chamados agentes multiplicadores, profissionais das áreas de saúde, ambiente e educação que já atuam nos territórios e participam de formações híbridas, com aulas em ambiente virtual e atividades de campo.
A segunda, denominada Comunidade, é destinada a moradores interessados em atuar no monitoramento ambiental local. Nesse caso, as atividades são presenciais e ocorrem em espaços disponibilizados pelos parceiros do programa. Além do monitoramento ambiental, a plataforma busca fortalecer o protagonismo das comunidades na discussão dos problemas relacionados à água.
“Mais do que formar pessoas, o AGente das Águas empodera a população local e faz com que ela possa lutar pelos seus direitos, pelo direito do acesso à água de qualidade”, destaca Clélia.
Para Tatiana Figueiredo, pesquisadora do Lapsa e integrante do projeto, um dos principais resultados observados é o fortalecimento do vínculo entre os participantes e seus territórios.
“Essa questão do pertencimento, de se identificar como uma pessoa que vive naquela região e que precisa fazer alguma coisa pela sua água, é muito importante. O programa leva autonomia para que eles consigam buscar soluções para os problemas locais”, afirma.
Segundo a pesquisadora, a formação permite que moradores compreendam melhor os desafios ambientais de suas regiões e participem de forma mais qualificada dos espaços de decisão. Com acesso a informações e ferramentas de monitoramento, os participantes passam a acompanhar mais de perto questões relacionadas à qualidade da água, saneamento e conservação ambiental, contribuindo para o debate e para a cobrança de soluções junto aos órgãos responsáveis.
Expansão
Desde 2022, a plataforma é desenvolvida em parceria com a Associação Pró-Gestão das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Agevap) e os comitês de bacias hidrográficas Rio Dois Rios, Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana e Médio Paraíba do Sul. Agora, a iniciativa entra em uma nova etapa com o projeto Águas em Movimento, que prevê a criação de Centros de Gestão e Monitoramento da Qualidade das Águas, implantação de núcleos de pesquisa em saúde e educação ambiental e climática, realização de atividades em escolas e a criação de um curso de especialização voltado para profissionais das áreas de ambiente, saúde e educação.

Antes das atividades de campo, participantes do AGente das Águas acompanham aulas sobre biomonitoramento e monitoramento da qualidade da água, uma das etapas da capacitação oferecida pelo programa (Foto: Acervo AGente das Águas)
A proposta também prevê fóruns comunitários para discussão dos resultados obtidos nos territórios e encontros anuais voltados à divulgação das ações desenvolvidas. Além disso, participantes já formados pelo programa poderão atuar nos Centros de Gestão e Monitoramento da Qualidade das Águas, ampliando a presença da iniciativa nos municípios parceiros e valorizando a experiência adquirida ao longo das capacitações.
Para os pesquisadores, o objetivo final vai além da geração de dados científicos. A expectativa é que o conhecimento produzido coletivamente contribua para a conservação dos recursos hídricos e para a construção de comunidades mais preparadas para enfrentar desafios ambientais e climáticos em seus territórios.
“Nós queremos unir sociedade, comitês de bacias, governo local e academia para pensar soluções ambientais locais”, conclui Clélia.
Autor: Yuri Neri (IOC/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 24/06/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/06/projeto-capacita-moradores-e-profissionais-para-monitoramento-da-saude-dos-rios




