segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Crenças acima da ética

Já era quase madrugada quando Maria percebeu que alguma coisa estava errada. Na época com 25 anos, ela foi até o quarto que dividia com a namorada e a encontrou desmaiada. Cibele, um ano mais nova, precisava de atendimento médico urgente após uma tentativa de suicídio. Logo Maria entrou em ação, ligando para a emergência e recebendo instruções do que fazer. Levou a namorada às pressas à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no Rio de Janeiro, enquanto ela oscilava entre o delírio e a perda de consciência.

Ao chegar lá, Cibele foi levada diretamente para uma sala, onde iniciaram um procedimento com uso de uma sonda. As enfermeiras que estavam atendendo logo começaram a fazer “cara feia”, como Maria contou à Radis. Quando Cibele reclamava de dor, chegou a ouvir frases como: “Agora tem que aguentar, ninguém mandou [fazer isso]”.

A namorada relatou sentir como se estivessem “castigando” Cibele. Ouviram frases falando de Deus ou lamentando por ser “uma menina tão bonita”. Atualmente estudante de Ciência da Computação e moradora do Rio de Janeiro, ela estava vivendo um quadro de depressão grave e, após esse episódio, conseguiu seguir o tratamento até a melhora.

Cibele disse que não gosta de lembrar desse momento da sua vida, por isso pediu para que não fosse identificada — os nomes usados na sua história são fictícios. Ela relata que não percebeu o que estava acontecendo por estar dopada, mas quando soube ficou triste e confusa. O seu caso, infelizmente, não é isolado.

Denúncias de tratamento antiético motivado por crenças e julgamentos morais de profissionais de saúde são constantes na imprensa. Em abril de 2025, uma paciente de um hospital público do Rio de Janeiro ouviu que “só Jesus salva, só Jesus liberta” quando reclamou sobre o desaparecimento de suas guias [fios de conta ligados às religiões de matriz africana]: elas haviam sido jogadas fora. A mulher tratava um câncer de mama, segundo noticiou o G1 (24/4/25).

No mesmo estado, em janeiro de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a um hospital particular que elaborasse um protocolo de atendimento aos pacientes praticantes das religiões de matriz africana. A decisão ocorreu após a denúncia de uma pessoa que sofreu queimadura de segundo grau no antebraço esquerdo durante procedimento cirúrgico na lombar. O homem afirmou que foi queimado exatamente onde havia uma tatuagem em homenagem ao orixá Ogum, conforme noticiado pela Folha de S. Paulo (9/1/24).

Situações em que convicções pessoais e religiosas interferem no atendimento de profissionais de saúde podem gerar diferentes formas de violência e violações de direitos. Essa é a discussão que Radis aborda: qual é o limite entre o que o profissional de saúde acredita e a ética profissional?
A palavra é respeito

A liberdade individual encontra limite quando passa a causar dano a outras pessoas. Essa ideia, associada ao filósofo inglês John Stuart Mill (1803-1876), é amplamente difundida nos estudos sobre ética. O pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), docente e coordenador-geral do Programa de Pós-graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva da Fiocruz, Sergio Rego, afirma que o ser humano é um ser social e deve-se levar em conta como as suas ações repercutem nas outras pessoas.

A base das decisões profissionais precisa ser técnica. “Ela não deve ser baseada na fé, na crença ou na interpretação específica de uma pessoa ou de um grupo acerca de escritos que são considerados sagrados”, afirma o médico, que também é membro do Conselho Científico da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB).

Na prática, todos têm direito à sua crença e ela pode ser válida para o indivíduo, mas não deve ser imposta ao outro. “A teodiceia é como a filosofia vai explicar as decisões de acordo com a vontade divina, o que inclui o sofrimento como sendo algo positivo, porque Jesus sofreu”, afirma Sergio. Segundo ele, existem religiões que pregam que o sofrimento é uma punição. De acordo com esse raciocínio, se a pessoa acredita que uma tentativa de suicídio ou aborto é pecado, ela vai entender que precisa de punição.

Sergio explica que essas visões podem também ser influenciadas por concepções políticas. “Uma vez eu estava no elevador de um hospital e ouço um estudante comentando com outro em voz alta: ‘Esse plantão, eu suturei um bandido sem anestesia, mandei amarrar na maca e o bicho pulava que nem porco’”, relembra. Ele declara que há algo de perverso na forma como esses profissionais estão sendo formados e comprendem a sua missão, a ponto de se sentirem confortáveis em relatar isso em público.

O que a pessoa acredita não deveria importar para fins de exercício profissional, principalmente no atendimento em saúde, no qual ele é a autoridade e existe desequilíbrio de poder, afirma Sergio. “No exercício profissional, uma palavra que é fundamental é: respeito”, declara.

“Para a gente saber o que é melhor para outra pessoa, a gente tem que perguntar”, diz. O pesquisador explica que nem sempre se colocar no lugar do outro é suficiente. “O máximo que vou conseguir é imaginar como eu, com os meus valores, história de vida e crenças, reagiria se estivesse nessa situação específica”, reflete.

Para isso, é importante a defesa de direitos como autonomia do paciente, autodeterminação, consentimento e confidencialidade, acrescenta Sergio. Esses e outros direitos estão agora assegurados na Lei nº 15.378, sancionada em abril de 2026, que institui o Estatuto dos Direitos do Paciente.

Sergio explica que a lei é uma conquista, mas sozinha não é suficiente. “Precisamos fazer com que seja implementada”, diz. “É importante que tenha comissões de bioética, de direitos dos pacientes e ouvidorias dentro dos hospitais, para que essas denúncias possam chegar a quem é de direito”, completa.

As pessoas têm medo de denunciar porque o desequilíbrio de poder é grande. De acordo com o pesquisador, é comum o receio de uma retaliação, por isso a necessidade de existir uma estrutura que possa fazer essa mediação. Ele explica que uma régua importante da ética é se perguntar se quem cometeu o ato teria coragem de assumir o que fez e arcar com as consequências.


Direitos Garantidos pelo Estatuto do PacienteAutonomia e Consentimento: permite aceitar ou recusar procedimentos após receber informações claras
Diretivas Antecipadas: validade de declarações escritas com escolha ou recusa de tratamento para quando o paciente não puder se expressar
Direito ao acompanhante: em internações e procedimentos
Informação e Sigilo: acesso ao prontuário médico, respeito à privacidade e confidencialidade dos dados
Atendimento sem qualquer tipo de discriminação (religião, sexo, raça, orientação sexual, identidade de gênero, entre outras)
A violência afasta pacientes

Aos 23 anos, Laila Marques, relações públicas (RP), marcou uma consulta com uma ginecologista em sua cidade, São Luís (MA). Durante o atendimento, contou que queria fazer o preventivo e respondeu às perguntas básicas, como a data da última menstruação. Quando perguntada sobre métodos contraceptivos, explicou que não usava nenhum e, antes mesmo de conseguir continuar, foi interrompida pela médica, que começou um grande sermão sobre riscos de gravidez, chamando-a de irresponsável e afirmando que ela era muito jovem. A RP também notou que em nenhum momento ela falou sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), apenas gravidez.

Quando, enfim, acabou o sermão, Laila explicou que é uma mulher lésbica, que estava em um relacionamento exclusivo há alguns meses e por isso não usava contraceptivos. O tom da profissional ficou ainda mais agressivo e ela se recusou a fazer o preventivo na paciente, afirmando que, “por ela ainda não ter tido relações sexuais”, não poderia fazer, considerando relação sexual apenas a heterossexual.

Laila exigiu o procedimento, já que a consulta havia sido paga, afirmando que era “lésbica e não virgem”. Porém, como estava muito nervosa pela situação, o preventivo foi bem doloroso. A RP conta que agora, com 32 anos, teria uma postura diferente, simplesmente teria ido embora.

Experiências como essa acabaram fazendo Laila ter um pouco de receio de ir a consultas. Ainda mais por ser uma mulher preta e gorda e, por causa de suas características, sempre ser avaliada de forma superficial e com preconceitos. Ela tenta não deixar de fazer suas consultas de rotina, mas guarda o trauma.

O corpo de pessoas com vagina e os direitos reprodutivos são assuntos delicados quando se fala de respeito ao limite profissional. Outro exemplo é como abortos legais são desencorajados ou negligenciados. Crianças e adolescentes vítimas de estupro muitas vezes têm seu direito negado por pessoas que se posicionam contra o aborto [Leia mais sobre na Radis 283].

Em agosto de 2020, uma menina de apenas 10 anos, grávida vítima de estupro, teve que sair da sua cidade no Espírito Santo e procurar atendimento em Recife (PE), por meio de ação judicial. A criança, que foi estuprada pelo tio desde os 6 anos, foi recebida junto com a avó por ativistas radicais pró-vida na frente do hospital, com cartazes chamando o médico que faria o procedimento de “assassino”.

O movimento Católicas pelo Direito de Decidir, que defende o direito da mulher às decisões relacionadas ao próprio corpo, incluindo o aborto, lançou a cartilha “Ética Profissional e Ética Cristã”, que tenta dialogar sobre crises e conflitos de crenças em pessoas cristãs.

O pesquisador Sergio afirma que, de acordo com a Constituição Brasileira, a vida — nesse caso, desde a concepção — “não pertence ao indivíduo, é um bem tutelado pelo Estado”. A proibição do aborto em qualquer situação e da eutanásia são exemplos disso.
Psicólogos cristãos

A psicóloga G*, de Goiânia, com 32 mil seguidores no Instagram, foi denunciada ao Conselho Regional de Psicologia (CRP) por se autodeclarar “psicóloga cristã”. Em um vídeo em sua página, defendeu-se dizendo que o motivo da denúncia foi o fato de “ter expressado sua fé”. A situação, na verdade, é que ela produz conteúdo nas redes sociais em que utiliza a autoridade de psicóloga para falar de saúde mental aliada a valores evangélicos.

Ela conta que ora pelos pacientes antes de cada sessão e agradeceu por ter tido a “honra de ser denunciada em nome de Deus”, mas defende que sua prática terapêutica não discrimina ninguém. E não parou de produzir os vídeos após a denúncia.

Uma busca feita por Radis nas redes sociais identificou outros perfis que utilizam a mesma nomenclatura e defendem essa “especialidade” na psicologia. Existem, inclusive, cursos de graduação e pós-graduação unindo a formação em Psicologia com a visão cristã. Os anúncios falam que as pessoas sentem que “a espiritualidade aparece na prática com mais frequência do que a formação universitária preparou para enfrentar”.

Os valores dos cursos variam entre R$ 500 e R$ 10 mil e alguns afirmam ter o reconhecimento do Ministério da Educação. Um deles, que se denomina “psicoteológico”, tem como objetivo estimular a fé e a ética cristãs nas atividades profissionais ligadas à psicologia, psiquiatria e afins. Defende a igreja como corpo de Cristo e como comunidade terapêutica [Leia sobre os riscos de aliar saúde mental com religião nas comunidades terapêuticas na Radis 284].


Ivani explica que, ainda que o profissional acredite que a sua espiritualidade é positiva para a saúde mental, não deve mencionar ou induzir isso em nenhum espaço — Foto: CFP.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) se manifestou sobre o assunto por meio da Resolução nº 07/2023 que dispõe sobre a laicidade no exercício da profissão. Em entrevista à Radis, Ivani Oliveira, mestra em Psicologia com ênfase em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e presidenta do CFP, explica que a instituição tem o compromisso inegociável da psicologia com a ciência, a ética e a defesa irrestrita dos direitos humanos.

Na prática, significa dizer que o profissional pode ter sua crença religiosa como direito individual e inalienável do cidadão, protegido pela Constituição Federal, afirma Ivani. “O limite ético e técnico ocorre no exato instante em que o profissional utiliza a sua posição de autoridade científica, o espaço do consultório, a divulgação pública da profissão ou o título de psicóloga(o) para induzir, impor ou promover dogmas e convicções pessoais”, explica.

Ivani defende que, enquanto a fé permanece no âmbito da vida privada do cidadão, ela é uma expressão individual livre. A partir do momento em que é levada para o atendimento ou para a publicidade dos serviços — incluindo as redes sociais —, ela invade o campo ético, fere a laicidade e compromete o rigor científico da profissão.

A respeito da denominação “psicologia cristã” e sobre os cursos, Ivani ressalta que a psicologia é uma ciência e profissão regulamentada, cujos métodos e intervenções derivam do acúmulo científico universal, testado, validado e plural. “Ao atrelar a palavra psicologia a um recorte confessional específico, seja ‘cristã’, ‘espírita’ ou de qualquer outra matriz, cria-se um conceito híbrido que induz a sociedade ao erro. O público passa a acreditar que dogmas, doutrinas ou preceitos morais de uma religião possuem validação científica”, diz.

A presidenta do CFP conta que continuamente chegam demandas e denúncias ao Sistema de Conselhos sobre a Resolução 07/2023, como o caso relatado nesta reportagem. “Recebemos denúncias que envolvem desde o uso de redes sociais para ofertar ‘terapias confessionais’ atreladas ao título de psicólogo(a), até relatos de pacientes que sofreram tentativas de direcionamento moral ou doutrinário em sessão, incluindo violência simbólica contra a diversidade sexual e de gênero”, afirma. Segundo ela, todas as denúncias tramitam sob o devido processo legal nos CRPs, assegurando o contraditório e a ampla defesa.

Ainda que o profissional acredite que a sua espiritualidade é positiva para a saúde mental, não deve mencionar ou induzir isso em nenhum espaço. Ivani explica que, embora a religiosidade possa funcionar como fator de suporte para muitas pessoas, também pode ser fonte de intenso sofrimento psíquico, culpa e repressão (como nos casos de rejeição familiar por motivos religiosos). “Pressupor que a fé é um bem universal limita a avaliação profissional para as contradições do sujeito e impõe um viés moral sobre a experiência do paciente”, declara.



Para Ivani Oliveira o compromisso da psicologia deve ser com a ciência, a ética e a defesa dos direitos humanos — Foto: CFP.


Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 20/10/2026
Publicação Original: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/etica-profissional/crencas-acima-da-etica/

“A clínica deve ser laica”



Apresença da espiritualidade no cotidiano profissional é o ponto de partida para uma oferta que vem ganhando espaço nas redes sociais: cursos que aproximam a psicologia da visão cristã. Uma busca realizada por Radis nas redes sociais identificou diferentes perfis que utilizam a nomenclatura “psicologia cristã” e defendem essa “especialidade” na profissão. Há, inclusive, oferta de cursos de graduação e pós-graduação que combinam a formação em psicologia com uma perspectiva cristã.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre oferta de cursos ou atendimento. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) já se manifestou sobre o tema por meio da Resolução nº 07/2023, que dispõe sobre a laicidade no exercício da profissão. Em entrevista à Radis, Ivani Oliveira, mestra em Psicologia, com ênfase em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atual presidenta do CFP, explica que a instituição tem como compromisso inegociável a relação da psicologia com a ciência, a ética e a defesa irrestrita dos direitos humanos.

Em que momento a manifestação da crença pessoal do profissional deixa de ser uma expressão individual e passa a interferir no exercício da psicologia?

Como presidenta do CFP, reforço que a crença religiosa é um direito individual e inalienável do cidadão, protegido pela Constituição Federal. O limite ético e técnico ocorre no exato instante em que o profissional utiliza a sua posição de autoridade científica, o espaço do consultório, a divulgação pública da profissão ou o título de psicóloga(o) para induzir, impor ou promover dogmas e convicções pessoais. Enquanto a fé permanece no âmbito da vida privada do cidadão, ela é uma expressão individual livre. A partir do momento em que é levada para o atendimento ou para a publicidade dos serviços, ela invade o campo ético, fere a laicidade e compromete o rigor científico da nossa profissão.

Por que o CFP entende que “psicologia cristã” não pode ser considerada uma modalidade ou especialidade da psicologia?

Reafirmo que a psicologia é uma ciência e uma profissão regulamentada, cujos métodos e intervenções derivam do acúmulo científico universal, testado, validado e plural. Ao atrelar a palavra psicologia a um recorte confessional específico, seja “cristã”, “espírita” ou de qualquer outra matriz, cria-se um conceito híbrido que induz a sociedade ao erro. O público passa a acreditar que dogmas, doutrinas ou preceitos morais de uma religião possuem validação científica. Nós, no CFP, não proibimos a fé de nenhum profissional, mas não admitimos a apropriação do título profissional para rotular práticas de aconselhamento religioso como se fossem modalidades da ciência psicológica.
Para Ivani Oliveira o compromisso da psicologia deve ser com a ciência, a ética e a defesa dos direitos humanos — Foto: CFP.

Chegaram denúncias relacionadas à interferência de crenças religiosas no exercício da Psicologia aos Conselhos desde a publicação da Resolução 07/2023?

Sim. O Sistema Conselhos, sob a nossa coordenação e a dos Conselhos Regionais (CRPs), recebe continuamente demandas e denúncias relativas ao descumprimento do nosso Código de Ética e das nossas resoluções. Desde que publicamos a Resolução CFP nº 07/2023, recebemos denúncias que envolvem desde o uso de redes sociais para ofertar “terapias confessionais” atreladas ao título de psicólogo(a), até relatos de pacientes que sofreram tentativas de direcionamento moral ou doutrinário em sessão, incluindo violência simbólica contra a diversidade sexual e de gênero. Todas as denúncias tramitam sob o devido processo legal nos CRPs, assegurando o contraditório e a ampla defesa.


“O paciente traz a sua fé como elemento da sua vivência, o profissional deve acolher essa dimensão; no entanto, a leitura analítica e a resposta clínica devem ser rigorosamente laicas e científicas”

O profissional pode utilizar conceitos religiosos para interpretar o sofrimento psíquico de um paciente?

Não. Nossa orientação é: a escuta e a intervenção da psicóloga e do psicólogo devem se dar estritamente com base nos referenciais teóricos e metodológicos reconhecidos pela ciência. Interpretar a dor ou o sofrimento psíquico por meio de conceitos como “pecado”, “provação divina” ou “fraqueza espiritual” descaracteriza a atuação técnica e transfere o atendimento para o campo da orientação pastoral. Destaco uma distinção fundamental: se o paciente traz a sua fé como elemento da sua vivência, o profissional deve acolher essa dimensão; no entanto, a leitura analítica e a resposta clínica devem ser rigorosamente laicas e científicas.

Um psicólogo pode se recusar a atender uma demanda porque ela entra em conflito com suas convicções religiosas?

O nosso Código de Ética prevê que a(o) profissional pode indicar o encaminhamento do paciente quando avaliar que não possui condições pessoais ou técnicas para realizar aquele atendimento de forma isenta. Contudo, reforço que essa recusa não pode se converter em ato de discriminação. É dever profissional realizar o encaminhamento adequado, priorizando sempre o cuidado e a integridade daquele sujeito.


“Pressupor que a fé é um bem universal limita a avaliação profissional”

Existe risco de o profissional pressupor que a espiritualidade é necessariamente positiva para a saúde mental? Qual é o risco ético de apresentar uma abordagem religiosa como modalidade reconhecida?

Embora a religiosidade possa funcionar como fator de suporte para muitas pessoas, alerto que ela também pode ser fonte de intenso sofrimento psíquico, culpa e repressão (como nos casos de rejeição familiar por motivos religiosos). Pressupor que a fé é um bem universal limita a avaliação profissional para as contradições do sujeito e impõe um viés moral sobre a experiência do paciente. De forma semelhante, apresentar uma abordagem confessional como se fosse uma modalidade científica reconhecida gera uma grave violação do direito à informação. O paciente nos busca em situação de vulnerabilidade confiando no respaldo ético da psicologia; submetê-lo a intervenções religiosas disfarçadas de ciência é violar sua autonomia e expô-lo a práticas sem comprovação metodológica.


Autor: fiocruz

Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 20/10/2026

Crise global, problemas regionais, respostas locais

As mudanças climáticas já são realidade e os indícios são claros. Agosto de 2026 empatou com julho de 2023 como o período mais quente da história, com os termômetros registrando temperatura média de 16,96 graus Celsius. Dados divulgados pelo serviço europeu de monitoramento climático Copernicus indicam que o aquecimento global provocado pela queima de carvão, petróleo e gás natural resultou no aumento de 1,65 grau Celsius da temperatura, ultrapassando o limite de 1,5 grau estabelecido pelo Acordo de Paris.


Ondas de calor extremo, incêndios florestais e inundações acontecem em diferentes continentes; no Hemisfério Norte, o verão bateu todos os recordes históricos; nos oceanos, a temperatura média da superfície do mar atingiu 21,07 graus Celsius, em agosto. A situação tende a se agravar, alertam os cientistas, com os efeitos do El Niño, que deve intensificar eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas. Os impactos já afetam economias e ecossistemas em todo o planeta, inclusive no Brasil.

Por aqui, os alertas são visíveis e preocupantes, já que o fenômeno pode amplificar riscos já existentes em territórios marcados por desigualdade, ocupação de áreas suscetíveis a inundação e deslizamento, déficit de saneamento, fragilidade da infraestrutura urbana e exposição crescente a calor, seca, queimadas e insegurança hídrica, como aponta nota técnica produzida pelo Observatório de Clima e Saúde, ligado ao Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) [Leia mais sobre os efeitos do El Niño na Radis 287].



Radis preparou, nesta edição, uma série de matérias sobre as estratégias de adaptação climática, com foco nos caminhos para reduzir os impactos sobre diferentes populações, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade. Como as cidades, o SUS e os territórios estão respondendo a esse cenário e o que ainda é preciso fazer para que as políticas públicas estejam atentas à emergência climática?



Autor: fiocruz

Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 22/10/2026

Estudo abre novas perspectivas para o tratamento do câncer de mama

O biólogo Marco Abreu, ladeado pelos parceiros na pesquisa, os professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da UFRJ (Fotos: Divulgação)


Um estudo pioneiro, que avalia a elevação da taxa de fosfato no sangue de pacientes com câncer de mama, pode abrir novas perspectivas para o desenvolvimento de fármacos capazes de inibir a proliferação das células cancerígenas e o avanço dessa neoplasia maligna que, no Brasil, é a que mais causa morte entre as mulheres. A agressividade dos tumores, o metabolismo e a alimentação das pacientes também são analisados no projeto, realizado em parceria por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que conta com o apoio da FAPERJ. De acordo com os responsáveis pela pesquisa, este é o primeiro trabalho, no País, a relacionar esse tipo de câncer à alimentação. Todos os anos, no presente mês, a campanha internacional "Outubro Rosa" procura incentivar a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama.

Como as células tumorais se multiplicam de forma intensa, precisam de grandes volumes de fosfato, que fornece a elas a energia que necessitam. “Por isso, estudos indicam que a disponibilidade do mineral pode contribuir para o crescimento dos tumores. Daí a importância de avaliar a dieta das pessoas em tratamento”, explica o coordenador do projeto, o biólogo Marco Antonio Lacerda Abreu, pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT), do Departamento de Bioquímica (DBq), do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag) da Uerj.

Para desenvolver o estudo, 70 pacientes atendidas no Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ doaram uma amostra de 10 ml de sangue antes de realizarem a cirurgia, e responderam a um questionário sobre seus hábitos alimentares. Os pesquisadores também retiraram amostras do tumor e de tecido saudável. Um grupo de 24 voluntárias saudáveis também participou. O nível de fosfato no sangue das pacientes foi comparado ao de mulheres sem a doença e relacionado às características do tumor, ao metabolismo e à alimentação.

Novas contribuições para o estudo do câncer de mama

Uma das principais contribuições do estudo foi mostrar que as pacientes com câncer de mama apresentavam mais fosfato no sangue do que as mulheres sem a doença. Entretanto, os níveis de cálcio, mineral que costuma acompanhar o fosfato, permaneceram semelhantes entre os dois grupos. Isso indica que a alteração foi específica do fosfato.

A pesquisa apontou também que, quanto mais elevado era o nível de fosfato, mais alto era o grau dos tumores das pacientes e mais avançado era o estágio da doença. “O fosfato esteve associado a características que indicam maior agressividade da doença”, explicou Abreu, mestre e doutor em Química Biológica pelo IBqM/UFRJ. O pesquisador também fez pós-doutorado no instituto e, em fevereiro de 2026, foi convocado para assumir uma vaga no Ibrag/Uerj.

Outra conclusão do estudo foi mostrar uma possível influência da alimentação no volume de fosfato registrado no sangue das pacientes. “O fosfato no sangue acompanhou a frequência de consumo de alimentos ricos nesse mineral, sugerindo que a alimentação pode ter contribuído para os níveis observados”, explicou Abreu, cujo trabalho foi financiado pelo Programa Apoio ao Jovem Pesquisador Fluminense Sem Vínculo Empregatício, da FAPERJ.

A hiperfosfatemia – elevado volume de fosfato no sangue – pode ter diferentes causas, entre elas a alimentação. A substância está presente, de forma natural, nas carnes, nos grãos, no leite e nos ovos, mas, sobretudo, nos produtos ultraprocessados, onde é utilizada como aditivo. A associação do excesso de fósforo a casos de câncer de mama já havia sido apontada em estudos realizados no exterior.

Entretanto, é preciso lembrar que outros fatores podem estar relacionados à elevação do nível de fosfato no sangue. O principal deles é a Doença Renal Crônica, ocasionada pela diminuição da capacidade dos rins filtrarem o fósforo. Outra possível causa é o hipoparatireoidismo, queda na produção do hormônio da paratireoide, e a destruição celular intensa.

Outro aspecto que não pode ser esquecido é o fato de o fosfato ser um elemento imprescindível para a saúde. Ele está presente no DNA, nos ossos e na molécula que leva energia às células, ou seja, sem o mineral não haveria vida.

A pesquisa liderada por Marco Abreu apontou, ainda, uma relação entre a elevação do fosfato no sangue e o estresse oxidativo no organismo. “Análises complementares mostraram que níveis mais altos de fosfato também estiveram associados a sinais de estresse oxidativo, um desequilíbrio químico que pode favorecer a progressão do tumor”, explicou.

O projeto, que continua em curso, conta com a parceria dos professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do HUCFF, e da equipe do Serviço de Anatomia Patológica da unidade. Também colaboram os professores José Roberto Meyer-Fernandes, que foi o orientador de Marco Abreu no doutorado; Cláudia Fernanda Dick; e Adalberto Ramon Vieyra, todos do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM) da UFRJ; e as professoras Tatiana Simão e Patrícia Reis, do Departamento de Bioquímica (DBq) do Ibrag/Uerj.

Resultado do estudo é fruto de quase 10 anos de pesquisas
Marco Abreu: coordenador do projeto, o pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT) da Uerj está à frente do estudo que avalia a importância da dieta para pacientes com câncer de mama


Abreu faz questão de lembrar que o estágio atual do estudo é resultado de quase uma década de trabalho intenso, que partiu de células cultivadas no Laboratório de Bioquímica Celular do IBqM e chegou até às pacientes atendidas pelo Hospital Universitário da UFRJ. Segundo ele, o primeiro passo foi mostrar que as células de câncer de mama possuem “portas de entrada” próprias para captar o fosfato. “Com isso, foi possível começar a entender como o tumor obtém esse mineral em grande quantidade”.

Na sequência, o grupo de pesquisa conseguiu descrever as enzimas presentes na superfície das células tumorais, que liberam o fosfato ao redor do tumor. “Dessa forma, ficou claro que o tumor não apenas capta o mineral, mas também contribui para aumentá-lo à sua volta”, informou o pesquisador.

“Um passo decisivo veio com a observação de que o excesso de fosfato leva as células de câncer de mama mais agressivas a produzir moléculas oxidantes, o que favorece comportamentos típicos de tumores agressivos. Além disso, quando essas células recebiam um antioxidante, parte desses efeitos era revertida”, explicou Abreu. As pesquisas resultaram em alguns artigos, entre eles um sobre hiperfosfatemia, publicado no periódico Cellular Signalling, em julho de 2026.

Mais adiante, o projeto, iniciado em laboratório, chegou até o hospital, onde a equipe passou a fazer a dosagem do fosfato presente no sangue das mulheres com câncer de mama.

Segundo Marco Abreu, o próximo passo é estudar, novamente em laboratório, as células do tumor das pacientes que participaram do estudo. A intenção é entender como o fosfato atua no câncer de mama e tentar identificar novos alvos de tratamento. O propósito é estudar a proteína que controla a proliferação das células cancerígenas e buscar um fármaco que iniba a sua ação.



"Caso os resultados sejam confirmados em estudos com um número maior de pacientes, a dosagem de fosfato no sangue, um exame simples e de baixo custo, poderá futuramente contribuir para a avaliação da agressividade do câncer de mama", destaca Abreu. Segundo o pesquisador, a associação entre níveis elevados de fosfato e características de maior agressividade tumoral sugere que esse mineral pode ser investigado como um potencial biomarcador complementar. "Nosso objetivo é compreender melhor essa relação e avaliar se, no futuro, o fosfato poderá auxiliar na identificação de pacientes com tumores mais agressivos, contribuindo para estratégias de acompanhamento e tratamento mais individualizadas", concluiu.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 22/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1128.7.4

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Fiocruz recebe base da Força Nacional do SUS em Rondônia


O Centro de Clima e Saúde da Fiocruz Rondônia, localizado na capital do estado (Porto Velho), será a sede para a implantação da Base Regional Norte II da Força Nacional do SUS (FN-SUS). A iniciativa é parte das ações estruturantes do Programa AdaptaSUS do Ministério da Saúde (MS) e da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS), voltadas para o enfrentamento de emergências em saúde pública no Brasil.


As ações da FN-SUS refletem na redução dos tempos de mobilização e na ampliação da capacidade de respostas às emergências, fortalecendo a atuação do SUS frente, inclusive, aos impactos das mudanças climáticas (foto: Divulgação)



A implantação das bases regionais da Força Nacional do SUS fortalece a coordenação entre diferentes níveis de governo (estados e municípios), aproximando a capacidade operacional federal dos territórios mais vulneráveis e otimizando a logística necessária às operações em diferentes territórios, considerando as particularidades de cada região. O conjunto de ações da FN-SUS reflete na redução dos tempos de mobilização e na ampliação da capacidade de respostas às emergências, fortalecendo a atuação do Sistema Único de Saúde (SUS) frente, inclusive, aos impactos das mudanças climáticas.

A solenidade de entrega da Base Regional Norte I da FN-SUS ocorre nesta quinta-feira (22/10). A escolha de Porto Velho para a Base se deu pela localização estratégica para a cobertura da parte sudoeste da Amazônia Legal, especialmente os estados de Rondônia, Acre e norte do Mato Grosso, o que permite acesso abrangente a diferentes localidades por meio da BR 364 e hidrovia do Madeira. A Base Regional Norte I foi inaugurada em Manaus (Amazonas) na última terça-feira (20/10).

“Rondônia, assim como os demais estados da região Norte, enfrenta diversos desafios relacionados às questões ambientais e sanitárias, e por isso, entendemos que esse reforço se faz necessário para que possamos estar mais preparados em situações de emergências”, destaca o coordenador da Fiocruz Rondônia, Jansen Medeiros. “A conclusão dessa base em nossa nova sede é um avanço para a saúde e para a qualidade de vida da população rondoniense”.

No Brasil, a estratégia é desenvolvida em diferentes fases, tendo iniciado com a implantação de três bases piloto: Regional Sul, em Porto Alegre (RS); Regional Nordeste, em Salvador (BA); e Regional Sudeste, no Rio de Janeiro (RJ). Além da Base Regional Norte II em Porto Velho e Norte I em Manaus, outras quatro unidades deverão ser entregues até dezembro de 2026, nas cidades de Belém (Pará), Regional Norte III; Campo Grande (Mato Grosso do Sul), constituindo a Regional Centro Oeste; e Recife (Pernambuco) e Fortaleza (Ceará), formando as regionais do Nordeste.

Para implementação das bases, foi realizado um estudo técnico destinado à definição do modelo operacional e a estrutura necessária para o funcionamento das bases regionais. Foram estabelecidos requisitos para a construção dos escritórios, compreendendo os espaços físicos adequados à coordenação administrativa e operacional e definidos recursos tecnológicos, bem como a estrutura logística para as atividades de monitoramento a serem realizadas nas áreas de abrangência das cinco macrorregiões. A definição de cada sede levou em consideração não apenas a localização geográfica das capitais, mas principalmente a sua capacidade de atuar de forma estratégica como polos regionais de monitoramento, articulação institucional e apoio às operações da Força Nacional do SUS.

Período eleitoral

Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de "conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão".


Autor: fiocruz

Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 22/10/2026

InfoGripe: três estados têm incidência de SRAG em nível de alerta ou risco, com sinal de crescimento

Divulgada nesta quinta-feira (22/10), a nova edição do Boletim InfoGripe da Fiocruz mostra que o número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) apresenta sinal de queda na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) e de estabilização ou oscilação na tendência de curto prazo (últimas três semanas). No entanto, segundo os pesquisadores, 3 das 27 unidades da Federação (UF) apresentam incidência de SRAG em nível de alerta ou risco (últimas duas semanas) com sinal de crescimento na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana Epidemiológica (SE) 41: Goiás, Mato Grosso e Sergipe. A análise é referente à SE 41, período de 11 a 17 de outubro.

Em Sergipe, o aumento de SRAG tem sido impulsionado pelo metapneumovírus, enquanto em Goiás está associado principalmente ao rinovírus. Em ambos os estados, o aumento ocorre especialmente entre crianças pequenas. Em Mato Grosso, o aumento de SRAG tem sido impulsionado principalmente pela Covid-19. Além disso, três UF também apresentam incidência de SRAG em níveis de alerta, risco ou alto risco, porém sem sinal de crescimento na tendência de longo prazo: Mato Grosso do Sul, Roraima e Santa Catarina.

Segundo os pesquisadores do InfoGripe, “apesar de o número de casos de SRAG por Covid-19 estar em níveis baixos na maior parte do país, é importante que as pessoas dos grupos prioritários verifiquem se estão com as doses de reforço da vacina em dia. Lembrando que idosos e imunocomprometidos precisam tomar doses de reforço da vacina contra a Covid-19 a cada seis meses. Os demais grupos de risco devem tomar a dose de reforço uma vez ao ano”.


Estados e capitais

Em nível nacional, observa-se um aumento dos casos de SRAG por metapneumovírus, além de um leve crescimento dos casos graves por rinovírus e Covid-19. No entanto, os casos graves por Covid-19 permanecem em níveis baixos no país.

Os casos de SRAG por metapneumovírus estão aumentando principalmente nos estados do Centro-Sul (São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina) e Nordeste (Bahia, Pernambuco e Sergipe). Em relação à Covid-19, há sinais de aumento dos casos graves em Mato Grosso, São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, nesses dois últimos estados, a incidência de SRAG por Covid-19 permanece em níveis muito baixos.

De acordo com o InfoGripe, 5 das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas) com sinal de crescimento de SRAG na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana 41: Aracaju (SE), Cuiabá (MT), João Pessoa (PB), Palmas (TO) e Rio de Janeiro (RJ).

O aumento de SRAG em Aracaju e Cuiabá ocorre especialmente entre crianças pequenas, enquanto, em Palmas, concentra-se nas crianças e adolescentes de 5 a 14 anos. Em João Pessoa, o aumento é observado principalmente na faixa etária de 50 a 64 anos. Na capital do Rio de Janeiro, ocorre entre crianças menores de 2 anos, adolescentes e adultos de 15 a 64 anos.

Além disso, quatro capitais também apresentam incidência de SRAG em níveis de alerta, risco ou alto risco, porém sem sinal de crescimento na tendência de longo prazo: Belém (PA), Brasília (DF), Florianópolis (SC) e Rio Branco (AC).

Dados epidemiológicos

Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a proporção entre os casos positivos foi de 3,4% de influenza A, 5,3% de influenza B, 12% de vírus sincicial respiratório (VSR), 53,7% de rinovírus e 5,8% de Sars-CoV-2 (Covid-19). Entre os óbitos, a presença destes mesmos vírus entre os positivos e no mesmo recorte temporal foi de 6,9% de influenza A, 9,8% de influenza B, 8,8% de vírus sincicial respiratório, 38,2% de rinovírus e 23,5% de Sars-CoV-2 (Covid-19).

Referente ao ano epidemiológico 2026, já foram notificados 166.131 casos de SRAG, sendo 88.981 (53,6%) com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 60.426 (36,4%) negativos, e ao menos 7.416 (4,5%) aguardando resultado laboratorial. Dados de positividade para semanas recentes estão sujeitos a grandes alterações em atualizações seguintes por conta do fluxo de notificação de casos e inserção do resultado laboratorial associado. Dentre os casos positivos do ano corrente, observou-se 15,8% de influenza A, 5,5% de influenza B, 39,4% de vírus sincicial respiratório, 33% de rinovírus, e 3,8% de Sars-CoV-2 (Covid-19).

Incidência e mortalidade

A incidência e mortalidade semanal média1, nas últimas oito semanas epidemiológicas, mantêm o cenário típico de maior impacto nos extremos das faixas etárias analisadas. Enquanto a incidência de SRAG apresenta impacto mais elevado nas crianças até 2 anos, em termos de mortalidade temos o inverso, com a população a partir de 65 anos sendo a mais impactada.

A incidência de SRAG é mais elevada nas crianças pequenas e está associada principalmente ao rinovírus, VSR e metapneumovírus. Já a mortalidade é maior entre os idosos, tendo como principal causa o rinovírus, VSR, influenza A e Covid-19.

O rinovírus também se destaca como principal causa de mortalidade nas crianças pequenas. A incidência de SRAG por Covid-19 continua baixa em todas as faixas etárias.

Período eleitoral

Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de “conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão”.


Autor: fiocruz

Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 22/10/2026

Semana da Educação 2026 enaltece produção acadêmica e científica da Fiocruz

No âmbito das comemorações pelo Dia dos Professores, a Fiocruz mais uma vez celebrou seus docentes e estudantes, valorizando sua produção acadêmica e científica. Nos dias 14, 15 e 16 de outubro, a Fundação promoveu as cerimônias de entrega da Medalha Virgínia Schall de Mérito Educacional, do Prêmio Oswaldo Cruz de Teses, do Prêmio Capes de Teses, além de exaltar a participação de um estudante do Instituto Carlos Chagas (ICC/Fiocruz Paraná) na cerimônia de honra dos diplomados do Instituto Pasteur (PhD Graduation Cerimony). A semana de comemoração contou ainda com a realização de uma Câmara Técnica de Educação e a realização do novo Prêmio Ciência ao Vivo, promovido pelo Centro de Apoio ao Discente (CAD) em parceria com a Associação de Pós-Graduandos-RJ (APG-RJ).


Evento enfatizou a integração entre ensino e pesquisa como caminho fundamental para o fortalecimento da ciência e o futuro da instituição

A mesa de cerimônia da Medalha Virgínia Schall de Mérito Educacional, do Prêmio Oswaldo Cruz de Teses e Prêmio Capes de Teses contou com as presenças do presidente da Fiocruz, Mario Moreira, da vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação, Marly Cruz, da coordenadora-geral de Educação da (CGE), Isabella Delgado, da coordenadora de Equidade, Diversidade, Inclusão e Políticas Afirmativas (Cedipa), Hilda Gomes, da representante do Sindicato Nacional do Servidores da Fiocruz (Asfoc-SN), Luciana Lindemeyer, e do coordenador da APG-RJ, João Pedro Souza de Oliveira. Na ocasião, o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, ressaltou o protagonismo da instituição na produção científica, no desenvolvimento tecnológico e na formação de profissionais para o Sistema Único de Saúde (SUS), destacando sua atuação nacional e internacional.

Durante seu discurso, Moreira enfatizou a importância da educação na formação de pesquisadores, gestores e cidadãos comprometidos com as políticas públicas e a transformação social: "Não formamos somente pesquisadores, formamos cidadãos comprometidos com as políticas públicas e com o desenvolvimento justo do país, com pessoas que tem entendimento do que é o sistema público de saúde do Brasil, o maior do mundo".

Moreira defendeu ainda a integração entre ensino e pesquisa como caminho fundamental para o fortalecimento da ciência e o futuro da instituição: “Temos que andar alinhados, não tem sentido tratar da pesquisa sem a formação, e nem da formação sem a pesquisa. É nessa atividade que nos renovamos, é daí que vem o oxigênio do nosso desenvolvimento científico, tecnológico, inclusive pedagógico também”, afirmou. Ao final, parabenizou os pesquisadores homenageados e reconheceu a contribuição dos professores da Fiocruz e de todo o país para o avanço da educação e da ciência.

Destacando o protagonismo da Fiocruz na formação de profissionais para o SUS, a vice-presidente de Educação, Marly Cruz, também ressaltou a importância do trabalho coletivo, da integração entre educação e pesquisa e do compromisso institucional com a transformação social. Marly enalteceu os 49 programas de pós-graduação acadêmicos e profissionais da Fiocruz, os 35 programas de residência em saúde e os cerca de 45 cursos de especializações presenciais e a distância que são oferecidos por ano pela Fundação, bem como os diversos cursos de aperfeiçoamento e qualificação profissional. "Isso nos faz ser a principal instituição formadora para o SUS em todo o país, é muita responsabilidade", disse ela.

Marly também enfatizou os avanços na internacionalização da educação no campos da saúde, a excelência dos programas, o fortalecimento da diversidade e da inclusão e o impacto social de cada iniciativa: "Quero parabenizar todos os nossos docentes que têm realizado um trabalho incrível, elevando nossos programas a um nível de excelência. Se temos programas de excelência é porque temos feito e influenciado muito nas transformações sociais que precisamos para os diferentes territórios brasileiros. Muito do sucesso da educação nessa instituição tem a ver com esse trabalho de integração e parceria para que possamos fazer essa educação acontecer", complementou Marly.

Em clima de celebração, a coordenadora-geral de Educação, Isabella Delgado, pontuou os avanços da Fiocruz no campo da educação em 2026. Entre as conquistas, reforçou os resultados positivos na avaliação dos programas de pós-graduação, a ampliação da formação em doutorados profissionais e o fortalecimento da cooperação acadêmica internacional. Isabella também enfatizou a importância da integração entre ciência e sociedade e do reconhecimento das trajetórias acadêmicas dos homenageados. “Estamos avançando em muitas coisas, como no debate sobre a extensão acadêmica e sobre a formação sanitarista. É importante fazermos com que a sociedade entenda a ciência que a gente faz nesse país e para o mundo. Hoje é dia de alegria e festa. Brilhamos juntos: a instituição está brilhando e vocês, nossos discentes, estão brilhando”, afirmou, destacando o orgulho pelas conquistas coletivas e o compromisso da instituição com a educação e a ciência.

Medalha Virginia Schall

O pesquisador do Instituto Gonçalo Moniz (IGM/Fiocruz Bahia) Mitermayer Galvão dos Reis foi contemplado com a Medalha Virginia Schall de Mérito Educacional. Sua candidatura foi indicada pelos programas de pós-graduação em Patologia Humana, Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa e Pesquisa Clínica e Translacional, todas ligadas à Fiocruz Bahia. Com a premiação, Mitermayer tem reconhecida a sua carreira científica e capacidade de somar esforços para a promoção do ensino de pós-graduação e de pesquisas voltadas para o desenvolvimento das áreas das Ciências Biológicas Aplicadas e Biomedicina e/ou Medicina, no âmbito nacional e internacional.


O homenageado, o pesquisador Mitermayer Galvão dos Reis (de camisa azul), da Fiocruz Bahia

Com muita emoção, Reis agradeceu à família por todo apoio, incentivo e compreensão ao logo da vida e contou a sua trajetória profissional. Recordando o início de sua jornada como docente, orgulhou-se ao dizer que vários diretores de hospitais da Bahia foram seus alunos e citou uma declaração que sempre dá em sala de aula sobre o que o motiva a ensinar por tantos anos: “Eu tenho que dar a melhor aula porque são vocês que vão cuidar de mim. O professor precisa capacitar o profissional de saúde, porque é o médico quem vai cuidar do avô, do pai, da mãe e do filho de alguém. Esses profissionais precisam exercer sua atividade como se estivessem fazendo para a própria família”.

Ele concluiu enaltecendo a vocação docente: “Ser professor tem essa coisa boa de olhar pra trás e ver que formou pessoas que estão fazendo a diferença”. Em nome de Anísio Teixeira e de sua professora do primário, senhora Perpétua — de União Queimada, distrito rural do município de Itajuípe, no sul da Bahia, onde nasceu — ele homenageou todos os professores do Brasil, afirmando que "a arma da democracia é a educação".

Reis é médico graduado pela Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública. Tem especialização, mestrado e doutorado em Patologia Humana pela Faculdade de Medicina da Bahia (FMB/UFBA) e concluiu o pós-doutorado na Case Western Reserve University e na Harvard School of Public Health (EUA). Atualmente, é pesquisador titular da Fiocruz Bahia, onde é professor do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa e coordenador-geral do curso de Epidemiologia Molecular de Doenças Infecciosas e Parasitárias Emergentes. É membro da Academia Brasileira de Ciências, Academia Baiana de Ciências, Academia Baiana de Medicina e é membro honorário internacional da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene (ASTMH), além de ter ocupado ainda outros cargos de destaque ao longo de sua carreira.

Prêmio Oswaldo Cruz de Teses

A iniciativa, que anualmente valoriza a produção do conhecimento acadêmico em saúde, está em sua décima edição e visa premiar trabalhos de elevado valor para o avanço do campo da saúde em diversas áreas temáticas de atuação da Fiocruz. Em 2026, foram premiados quatro estudantes e concedidas sete menções honrosas nas áreas de Ciências Biológicas Aplicadas e Biomedicina, Ciências Humanas e Sociais, Medicina e Saúde Coletiva.

Prêmio Capes de Teses

Durante a cerimônia, uma homenagem aos premiados no Prêmio Capes de Teses 2026. A Fiocruz foi contemplada com duas premiações (nas categorias Ciências Biológicas e Medicina) e uma menção honrosa (na categoria Saúde Coletiva). Os premiados foram Jackson Alves da Silva Queiroz, com trabalho desenvolvido no programa de pós-graduação em Biologia Experimental, oferecido pela Fiocruz Rondônia em associação com a Universidade Federal de Rondônia (Unir); e Mateus Santana do Rosário, cuja tese foi desenvolvida no programa de Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa, do Instituto Gonçalo Moniz (IGM/Fiocruz Bahia). A menção honrosa foi recebida por Camila Rebouças Fernandes, com trabalho desenvolvido no programa de Saúde da Criança e da Mulher, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). A solenidade de entrega do Prêmio está prevista para ser realizada até 30 de novembro.

Cerimônia de Honra dos diplomados do Instituto Pasteur (PhD Graduation Cerimony)

Pela segunda vez na história, a Fiocruz tem um estudante convidado a integrar a Cerimônia de Honra dos diplomados do Instituto Pasteur (PhD Graduation Cerimony). Doutor pelo programa de pós-graduação em Biociências e Biotecnologia do Instituto Carlos Chagas (ICC/Fiocruz Paraná), Rafael Amaral Donassolo foi o indicado com a tese Identificação e caracterização de proteínas de Plasmodium vivax com potencial antigénico, um trabalho desenvolvido na Fiocruz sobre proteínas do parasito causador da malária, sob a orientação de Letusa Albrecht e coorientado por Pryscilla Wowk. O pesquisador teve seu trabalho inscrito pela instituição e foi um dos seis selecionados para a Cerimônia de Honra dos Diplomados do Instituto Pasteur, na França, entre candidatos de mais de 30 instituições integrantes da Rede Pasteur, de 25 diferentes países. Assim, Rafael Donassolo também recebeu uma homenagem especial durante a Semana da Educação.

Prêmio Ciência ao Vivo

No âmbito das celebrações da Semana da Educação na Fiocruz 2026, o Centro de Apoio ao Discente (CAD), da Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (Vpeic), em parceria com a Associação de Pós-Graduandos-RJ (APG-RJ), realizou as apresentações e entrega dos prêmios aos estudantes participantes do Prêmio Ciência ao Vivo. A cerimônia foi marcada por muita alegria e estudantes transformarem seus trabalhos científicos em apresentações criativas, capazes de mobilizar e informar tanto quem possui conhecimento no campo quanto quem está fora da sua área, com particular atenção à divulgação científica. Em sua primeira edição, o objetivo do Prêmio é ampliar a circulação pública das pesquisas desenvolvidas na Fiocruz e estimular competências de síntese, comunicação científica, criatividade e diálogo entre estudantes de diferentes programas, unidades e áreas do conhecimento.

Após as apresentações, o público presente votou em seus candidatos preferidos, tendo sido escolhido pelo júri popular Leonardo Salomoni de Araújo, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), com o trabalho sobre Resistência aos antibióticos, uso racional e descarte de medicamentos. Para finalizar as premiações, os jurados se reuniram para julgar as apresentações e definirem os vencedores. O terceiro colocado pela escolha do júri foi Maximiliano Pedro Albino, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), com a apresentação abordando Autismo, apoio às famílias em Angola e cooperação com o Brasil; em segundo lugar ficou Ana Lívia Carvalho da Silva, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), com tema Implante coclear, estigma, identidade e participação social; e a grande vencedora da primeira edição do Prêmio Ciência ao Vivo foi Julia Fernandes Barbosa dos Santos, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), com a apresentação Investigação de parasitos encontrados em cães com leishmaniose.


Período eleitoral


Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de “conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão”.


Autor: fiocruz

Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 23/10/2026