quinta-feira, 5 de novembro de 2026

UFF inaugura laboratório com tecnologia inédita no País para análise de sequências sedimentares

Ana Luiza Albuquerque: coordenadora-geral do LAM+, ela exibe uma amostra de coral coletada em Abrolhos, na Bahia, e analisada no scanner de fluorescência de raios-X, equipamento inovador usado para identificar e medir, de forma não invasiva, os elementos químicos presentes em uma amostra (Foto: Mariana Angelito)


A Universidade Federal Fluminense (UFF) acaba de inaugurar uma infraestrutura de pesquisa que coloca o estado do Rio de Janeiro e o Brasil na vanguarda dos estudos internacionais sobre sequências sedimentares, com a integração de tecnologias multiespectrais de alta resolução e inteligência artificial. Trata-se do Laboratório de Análises Multiespectrais para Sequências Sedimentares e Inteligência Artificial (LAM+), localizado no Instituto de Geociências da UFF, no campus Praia Vermelha, em Niterói. O espaço foi montado com recursos da FAPERJ, por meio de projetos financiados pelo edital de Apoio às Fronteiras da Ciência e Inovação – Infraestrutura Multiusuária, que viabilizou a aquisição dos equipamentos, e pelo edital Pensa Rio.

No laboratório, os pesquisadores analisam sequências sedimentares coletadas em ambientes aquáticos. Esses materiais, que, à primeira vista, podem parecer para o leigo apenas amostras de lama do fundo do mar ou de lagos, são verdadeiros “testemunhos” da história geológica e ambiental do planeta. Eles contêm restos de animais, plantas e minerais, que dão pistas sobre a trajetória geológica, arqueológica e ambiental da Terra, depois de submetidos à análise multiespectral. Essa técnica captura e processa, com feixes de luz, imagens em várias faixas do espectro eletromagnético, incluindo a luz visível, o infravermelho e o ultravioleta, que o olho humano não consegue perceber. Ao registrar o modo como diferentes comprimentos de onda da luz interagem com esses sedimentos, os pesquisadores conseguem identificar padrões e extrair "dados de composição" (informações quantitativas e qualitativas sobre os elementos químicos da amostra). Para isso, eles observam a capacidade de absorção da luz, que é diferente nos diversos comprimentos de onda (absorbância).

“Nossa área de trabalho é a Geologia multiespectral. Não estamos apenas olhando para o sedimento. Estamos aprendendo a ler o que ele registra. Analisamos, com os feixes de luz, sequências de sedimentos marinhos e lacustres, que revelam detalhes das condições geológicas e ambientais desses locais em determinado período de tempo no passado, ajudando a contar a história climática e ambiental daquela região. Por isso, chamamos essas amostras de ‘testemunhos’”, explicou a geocientista Ana Luiza Spadano Albuquerque, que é a coordenadora-geral do LAM+. Ela conta com o apoio dos coordenadores científico, Igor Venancio; de Geofísica, Arthur Ayres Neto; e de IA e Ciência de Dados, André Belém.
A equipe do LAM+, laboratório multiusuário que oferece novos parâmetros para a pesquisa brasileira em sequências sedimentares: a partir da esq., o técnico Leandro Candeia; Ana Luiza Albuquerque; Igor Venancio; Liberio Júnior (pesquisador visitante da FAPERJ); Bernardo Nunes (bolsista TCT/FAPERJ) e Mateus Andrade, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Dinâmica dos Oceanos e da Terra, da UFF (Foto: Mariana Angelito)


Professora titular do Departamento de Geologia e Geofísica da UFF, Ana Luiza destaca que o principal diferencial do LAM+ é a integração de múltiplas tecnologias espectrais de ponta. “A integração de múltiplas técnicas ópticas e espectrais com ferramentas de inteligência artificial permitem uma abordagem de ultra-alta resolução e o mapeamento geoquímico, o que é inédito no Brasil, e com uma combinação de instrumentos sem precedentes na América Latina. Essa arquitetura permite reconstruir, em detalhe temporal fino, a história climática e ambiental registrada nas sequências sedimentares, como eventos climáticos extremos, por exemplo, o que é um tema de interesse direto para o enfrentamento das mudanças climáticas e para a compreensão dos riscos ambientais que afetam o estado. A partir da leitura das camadas de sedimentos, é possível rastrear, também, mudanças nas correntes marítimas, nas glaciações e os impactos da erosão no clima da América do Sul ao longo dos milênios”, detalhou a pesquisadora, que também foi contemplada pela FAPERJ no programa Cientista do Nosso Estado.

Ela explicou que os equipamentos colocam o Brasil na fronteira do conhecimento na área de análise multiespectral de sedimentos, permitindo automatizar a identificação de padrões, a interpretação de sequências sedimentares e a predição de parâmetros geoambientais. “Com a tecnologia inovadora do nosso laboratório multiespectral, deixamos de trabalhar com as abordagens tradicionais da sedimentologia, e passamos a adotar o mapeamento geoquímico de sequências sedimentares como uma estratégia de automação analítica”, disse Ana. “No futuro, poderemos ensinar à inteligência artificial quais os padrões espectrais representam um tipo específico de elemento químico ou mineral, por exemplo. Essa tecnologia vai nos ajudar a gerar digitalmente análises minuciosas, sem gerar resíduos químicos e utilizar materiais de descarte que são necessários no método convencional de analisar sedimentos”, acrescentou.
O técnico Bernardo Nunes analisa amostra no equipamento com tecnologia Spectral Solutions, dotado de câmeras hiperespectrais, capazes de captar detalhes da radiação infravermelha, além do espectro de luz visível ao olho humano (Foto: Mariana Angelito)


Concebido como plataforma multiusuária e multi-institucional, o LAM+ também tem o objetivo de capacitar técnicos, estudantes de graduação e pós-graduação e pesquisadores de diferentes instituições fluminenses, como um polo de formação de recursos humanos altamente qualificados em geociências computacionais. “O LAM+ é um consórcio multidisciplinar utilizado por alunos da graduação de diversos cursos, como Geofísica, Ciências Ambientais, Química, Biologia e por alunos dos programas de pós-graduação envolvidos, como o Programa Dinâmica dos Oceanos e da Terra (DOT) e o Programa de Geociências (Geoquímica Ambiental) da UFF. É um espaço fundamental para a qualificação profissional e acadêmica em diversas áreas”, detalhou.

A coordenadora do projeto destaca ainda que os estudos desenvolvidos no LAM+ podem gerar impactos positivos para diferentes setores da economia fluminense, como na redução dos riscos exploratórios na indústria de óleo e gás, auxiliando na caracterização de materiais geológicos e na tomada de decisões estratégicas para o setor. “Os resultados esperados englobam a consolidação do LAM+ como um polo de inovação em Geociências e a criação de soluções preditivas e automatizadas para desafios ambientais e econômicos. Que nosso laboratório se torne um aliado para a formulação de políticas públicas, oferecendo subsídios científicos e tecnológicos para o desenvolvimento sustentável e a resiliência econômica do estado do Rio de Janeiro”, concluiu Ana Luiza.

Participam da equipe do LAM+, além de Ana Luiza Spadano, os pesquisadores Arthur Ayres, professor do Departamento de Geologia e Geofísica; Igor Venancio, do Departamento de Geoquímica; e Andre Luiz Belem, da Escola de Engenharia, todos da UFF.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 15/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1129.7.0

Projeto ajuda a promover a cultura da inovação na rede Cefet/RJ

Alunos do Cefet/RJ testam sistema de escoamento de águas durante grandes enchentes no Rio de Janeiro, na maratona de inovação Expin 48, que desafia estudantes a criarem soluções tecnológicas e sustentáveis na rede de ensino (Fotos: Divulgação)



Referência na formação de profissionais e especialistas na área tecnológica, o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ) oferta 5.371 vagas anuais e atende a mais de 20 mil estudantes, distribuídos em 37 cursos técnicos, 35 cursos de graduação, sete especializações, 10 mestrados e cinco doutorados. Ali, no campus Maracanã, o professor titular Marco Antonio Barbosa Braga, que é físico com Doutorado em Engenharia de Produção, vem desenvolvendo um projeto para ajudar a promover a cultura da inovação entre os alunos da instituição. Coordenador do Laboratório de Novos Ambientes para Inovação e Desenvolvimento Sustentável (N@melab), Braga foi contemplado pela FAPERJ, por meio do edital Cientista do Nosso Estado.

Ele recorda que o Cefet/RJ tem uma longa tradição e, ao longo dos anos, vem acompanhando o processo de transformação do parque industrial brasileiro. “Temos refletido bastante sobre a questão da inovação, que está em voga agora, e precisamos adaptar o perfil das instituições de ensino para atender às necessidades de um mercado mais inovador. O Cefet foi criado em 1917, sob a denominação de Escola Normal de Artes e Ofícios Wenceslau Braz, para atender à necessidade de formação de recursos humanos das manufaturas da época. Em 1942, o então presidente Getúlio Vargas mudou esse perfil, e a instituição passou a ser chamada de Escola Técnica Nacional, para formar técnicos industriais. Em 1978, passou a se chamar Cefet, como autarquia especial e, agora, essa mesma instituição continua se reformulando de acordo com as transformações tecnológicas do País, e precisa atender aos desafios atuais do mercado, já como Universidade Federal de Ciência e Inovação”, contextualizou.

Uma nova legislação federal (Lei nº 15.521/2026) acaba de dar ao Cefet/RJ e ao Cefet de Minas Gerais o status de universidade. Agora, eles passam a ser denominados universidades federais de Ciência e Inovação (UFCI/RJ e UFCI/MG). A nova lei estabelece que ambas as instituições passam a ter organização, estrutura e competências compatíveis com as universidades, com autonomia administrativa, financeira, patrimonial, didático-científica e disciplinar, além de terem reitor, vice-reitor e um Conselho Universitário como órgão deliberativo e consultivo. A transformação também amplia as possibilidades de acesso a editais e linhas de fomento destinadas às universidades, ampliando as perspectivas de captação de recursos.

O Brasil está na 53ª posição do Índice Global de Inovação 2026, ranking elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), entre 139 nações pesquisadas. É um posto abaixo do obtido no índice anterior, mas o País teve um avanço, já que estava na 62ª posição em 2020. “Nesse cenário, nossa contribuição, no Cefet/RJ, é incentivar a formação de uma cultura de inovação e empreendedorismo entre os jovens, ainda em idade escolar. Existem diversos projetos para fortalecer a inovação, mas poucos voltados especialmente para a formação desse público de estudantes. Esse é o nosso diferencial”, afirmou Braga.
Marco Braga: coordenador do laboratório N@melab, ele esteve em um campo de refugiados da ONU no Malawi, na África, para ajudar a implementar estratégia sustentável de geração de energia eólica


No N@melab, ele incentiva projetos que busquem soluções para questões sociais que afetam os alunos no estado do Rio de Janeiro e até na África, em parceria com escolas locais. “O nosso laboratório investiga a educação para a inovação em diferentes níveis de ensino. A ideia é aprender a inovar a partir de problemas concretos extraídos da realidade. Por serem jovens da Educação Básica, os alunos não conhecem os problemas do mundo do trabalho. A realidade deles vem das comunidades onde vivem, dos territórios e das cidades. São problemas ligados à escola, à moradia, ao saneamento básico, à saúde e à mobilidade urbana. O ponto de partida, com eles, é a inovação social. O importante é implementar, de fato, as mudanças propostas, com soluções concretas que vão além das feiras de ciências”, detalhou.

Entre os temas trabalhados com os estudantes, estão: a busca de soluções para o descarte de resíduos no Morro da Providência, na região central do Rio; a geração de energia no campo de refugiados de Dzaleka, localizado no Malawi, país no Sudeste da África – classificado em diversos rankings internacionais como um dos cinco países mais pobres do mundo; e a melhoria da qualidade da água potável em uma escola rural em Nova Friburgo.

“No Morro da Providência, a primeira favela do Brasil, o lixo é de difícil retirada porque os caminhões não chegam lá. Depois de descobrir que é possível produzir eletricidade a partir do lixo, os estudantes do oitavo ano de uma escola da rede pública, na Pequena África, visitaram a usina da Comlurb no Caju, onde esse processo é realizado, e vêm buscando soluções inovadoras para engajar a comunidade na coleta diferenciada de resíduos orgânicos e não-orgânicos. Essa atividade estimulou os jovens a pesquisarem sobre o processo de produção de energia a partir de resíduos sólidos urbanos”, disse.
A partir da cooperação internacional com o Cefet/RJ, professores e alunos do campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, preparam protótipo de um gerador de energia eólico, feito a partir de resíduos encontrados no campo


Estreitando laços de cooperação científica entre Brasil e África, o projeto no campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, teve como desdobramento a instalação de um espaço de inovação para instalação de uma bomba d’água movida a energia eólica. No local, gerido pela Organização das Nações Unidas (ONU), vivem 60 mil refugiados, e há uma escola que atende cerca de dois mil alunos. “Professores da Ubuntu Nation School e da Eagles Junior Academy pediram ajuda ao N@melab para desenvolver projetos inovadores com os estudantes. Em 2023 e 2024, foram realizadas oficinas-piloto de formação dos professores. Em 2027, o projeto será retomado com a inauguração de um Espaço Maker de Inovação STEAM (voltado às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e para as crianças do campo. Será desenvolvida uma oficina de formação, e os professores terão acompanhamento por meio de um canal na internet”, contou.

Já em Nova Friburgo, na Região Serrana, eles trabalharam para melhorar a qualidade da água potável em uma comunidade rural. “Embora a água seja de nascente, chega à escola bastante suja. Os estudantes bebiam essa água. Uma turma multisseriada, com alunos entre 9 e 12 anos, identificou esse problema como o mais grave da comunidade e procurou construir um filtro baseado em materiais de sucata. Ele não foi construído, mas foi instalado um filtro industrial na escola, em 2024”, disse. “Essas ações nas escolas ajudam a aproximar os jovens de comunidades vulneráveis dos modelos de inovação e a pensarem em soluções sociais”, concluiu.

Braga também é autor do livro Aprendendo a inovar em projetos STEAM – Um guia para estudantes, consagrado como finalista do 64º Prêmio Jabuti em 2022. A obra destaca-se no cenário educacional brasileiro ao abordar a metodologia STEAM e a Aprendizagem Baseada em Projetos (PbL), auxiliando estudantes a desenvolver competências voltadas para a inovação, criatividade e sustentabilidade.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 29/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1140.7.3

Estudo abre novas perspectivas para o tratamento do câncer de mama


O biólogo Marco Abreu, ladeado pelos parceiros na pesquisa, os professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da UFRJ (Fotos: Divulgação)


Um estudo pioneiro, que avalia a elevação da taxa de fosfato no sangue de pacientes com câncer de mama, pode abrir novas perspectivas para o desenvolvimento de fármacos capazes de inibir a proliferação das células cancerígenas e o avanço dessa neoplasia maligna que, no Brasil, é a que mais causa morte entre as mulheres. A agressividade dos tumores, o metabolismo e a alimentação das pacientes também são analisados no projeto, realizado em parceria por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que conta com o apoio da FAPERJ. De acordo com os responsáveis pela pesquisa, este é o primeiro trabalho, no País, a relacionar esse tipo de câncer à alimentação. Todos os anos, no presente mês, a campanha internacional "Outubro Rosa" procura incentivar a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama.

Como as células tumorais se multiplicam de forma intensa, precisam de grandes volumes de fosfato, que fornece a elas a energia que necessitam. “Por isso, estudos indicam que a disponibilidade do mineral pode contribuir para o crescimento dos tumores. Daí a importância de avaliar a dieta das pessoas em tratamento”, explica o coordenador do projeto, o biólogo Marco Antonio Lacerda Abreu, pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT), do Departamento de Bioquímica (DBq), do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag) da Uerj.

Para desenvolver o estudo, 70 pacientes atendidas no Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ doaram uma amostra de 10 ml de sangue antes de realizarem a cirurgia, e responderam a um questionário sobre seus hábitos alimentares. Os pesquisadores também retiraram amostras do tumor e de tecido saudável. Um grupo de 24 voluntárias saudáveis também participou. O nível de fosfato no sangue das pacientes foi comparado ao de mulheres sem a doença e relacionado às características do tumor, ao metabolismo e à alimentação.

Novas contribuições para o estudo do câncer de mama

Uma das principais contribuições do estudo foi mostrar que as pacientes com câncer de mama apresentavam mais fosfato no sangue do que as mulheres sem a doença. Entretanto, os níveis de cálcio, mineral que costuma acompanhar o fosfato, permaneceram semelhantes entre os dois grupos. Isso indica que a alteração foi específica do fosfato.

A pesquisa apontou também que, quanto mais elevado era o nível de fosfato, mais alto era o grau dos tumores das pacientes e mais avançado era o estágio da doença. “O fosfato esteve associado a características que indicam maior agressividade da doença”, explicou Abreu, mestre e doutor em Química Biológica pelo IBqM/UFRJ. O pesquisador também fez pós-doutorado no instituto e, em fevereiro de 2026, foi convocado para assumir uma vaga no Ibrag/Uerj.

Outra conclusão do estudo foi mostrar uma possível influência da alimentação no volume de fosfato registrado no sangue das pacientes. “O fosfato no sangue acompanhou a frequência de consumo de alimentos ricos nesse mineral, sugerindo que a alimentação pode ter contribuído para os níveis observados”, explicou Abreu, cujo trabalho foi financiado pelo Programa Apoio ao Jovem Pesquisador Fluminense Sem Vínculo Empregatício, da FAPERJ.

A hiperfosfatemia – elevado volume de fosfato no sangue – pode ter diferentes causas, entre elas a alimentação. A substância está presente, de forma natural, nas carnes, nos grãos, no leite e nos ovos, mas, sobretudo, nos produtos ultraprocessados, onde é utilizada como aditivo. A associação do excesso de fósforo a casos de câncer de mama já havia sido apontada em estudos realizados no exterior.

Entretanto, é preciso lembrar que outros fatores podem estar relacionados à elevação do nível de fosfato no sangue. O principal deles é a Doença Renal Crônica, ocasionada pela diminuição da capacidade dos rins filtrarem o fósforo. Outra possível causa é o hipoparatireoidismo, queda na produção do hormônio da paratireoide, e a destruição celular intensa.

Outro aspecto que não pode ser esquecido é o fato de o fosfato ser um elemento imprescindível para a saúde. Ele está presente no DNA, nos ossos e na molécula que leva energia às células, ou seja, sem o mineral não haveria vida.

A pesquisa liderada por Marco Abreu apontou, ainda, uma relação entre a elevação do fosfato no sangue e o estresse oxidativo no organismo. “Análises complementares mostraram que níveis mais altos de fosfato também estiveram associados a sinais de estresse oxidativo, um desequilíbrio químico que pode favorecer a progressão do tumor”, explicou.

O projeto, que continua em curso, conta com a parceria dos professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do HUCFF, e da equipe do Serviço de Anatomia Patológica da unidade. Também colaboram os professores José Roberto Meyer-Fernandes, que foi o orientador de Marco Abreu no doutorado; Cláudia Fernanda Dick; e Adalberto Ramon Vieyra, todos do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM) da UFRJ; e as professoras Tatiana Simão e Patrícia Reis, do Departamento de Bioquímica (DBq) do Ibrag/Uerj.

Resultado do estudo é fruto de quase 10 anos de pesquisas
Marco Abreu: coordenador do projeto, o pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT) da Uerj está à frente do estudo que avalia a importância da dieta para pacientes com câncer de mama


Abreu faz questão de lembrar que o estágio atual do estudo é resultado de quase uma década de trabalho intenso, que partiu de células cultivadas no Laboratório de Bioquímica Celular do IBqM e chegou até às pacientes atendidas pelo Hospital Universitário da UFRJ. Segundo ele, o primeiro passo foi mostrar que as células de câncer de mama possuem “portas de entrada” próprias para captar o fosfato. “Com isso, foi possível começar a entender como o tumor obtém esse mineral em grande quantidade”.

Na sequência, o grupo de pesquisa conseguiu descrever as enzimas presentes na superfície das células tumorais, que liberam o fosfato ao redor do tumor. “Dessa forma, ficou claro que o tumor não apenas capta o mineral, mas também contribui para aumentá-lo à sua volta”, informou o pesquisador.

“Um passo decisivo veio com a observação de que o excesso de fosfato leva as células de câncer de mama mais agressivas a produzir moléculas oxidantes, o que favorece comportamentos típicos de tumores agressivos. Além disso, quando essas células recebiam um antioxidante, parte desses efeitos era revertida”, explicou Abreu. As pesquisas resultaram em alguns artigos, entre eles um sobre hiperfosfatemia, publicado no periódico Cellular Signalling, em julho de 2026.

Mais adiante, o projeto, iniciado em laboratório, chegou até o hospital, onde a equipe passou a fazer a dosagem do fosfato presente no sangue das mulheres com câncer de mama.

Segundo Marco Abreu, o próximo passo é estudar, novamente em laboratório, as células do tumor das pacientes que participaram do estudo. A intenção é entender como o fosfato atua no câncer de mama e tentar identificar novos alvos de tratamento. O propósito é estudar a proteína que controla a proliferação das células cancerígenas e buscar um fármaco que iniba a sua ação.

"Caso os resultados sejam confirmados em estudos com um número maior de pacientes, a dosagem de fosfato no sangue, um exame simples e de baixo custo, poderá futuramente contribuir para a avaliação da agressividade do câncer de mama", destaca Abreu. Segundo o pesquisador, a associação entre níveis elevados de fosfato e características de maior agressividade tumoral sugere que esse mineral pode ser investigado como um potencial biomarcador complementar. "Nosso objetivo é compreender melhor essa relação e avaliar se, no futuro, o fosfato poderá auxiliar na identificação de pacientes com tumores mais agressivos, contribuindo para estratégias de acompanhamento e tratamento mais individualizadas", concluiu.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 22/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1128.7.4

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

InfoGripe: cinco estados têm SRAG em nível de alerta ou risco, com sinal de crescimento

Divulgada nesta quinta-feira (29/10), a nova edição do Boletim InfoGripe da Fiocruz mostra que 5 das 27 unidades da Federação (UF) - Amapá, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Sergipe e Maranhão - apresentam incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em nível de alerta ou risco, com sinal de crescimento na tendência de longo prazo até a Semana Epidemiológica (SE) 42, período de 18 a 24 de outubro. Em Sergipe, o aumento do número de casos de SRAG tem sido impulsionado pelo metapneumovírus, especialmente entre crianças pequenas.

O estudo aponta também que duas UF apresentam incidência de SRAG em níveis de alerta, risco ou alto risco, porém sem sinal de crescimento na tendência de longo prazo - Roraima e Santa Catarina. No cenário nacional, o número de casos de SRAG está com tendência de estabilização ou oscilação nas últimas seis semanas e aumento nas últimas três semanas.

A atualização verificou ainda queda do número de casos de SRAG por metapneumovírus e estabilização de rinovírus e um leve crescimento dos casos graves por Covid-19, em nível nacional. No entanto, os casos graves por Covid-19 permanecem em níveis baixos no país. “Mesmo com o baixo número de hospitalizações por Covid-19 é muito importante que as pessoas dos grupos prioritários verifiquem se estão em dia com a vacina contra o vírus. Lembrando que idosos e pessoas imunocomprometidas precisam tomar doses de reforço da vacina contra a Covid-19 a cada seis meses”, alerta a pesquisadora Tatiana Portella, do Boletim InfoGripe, desenvolvido pelo Programa de Computação Científica da Fiocruz.



Estados e capitais

Em Mato Grosso, segundo o InfoGripe, o aumento do número de casos de SRAG tem sido impulsionado principalmente pelo vírus Sars-CoV-2. Em Mato Grosso do Sul o incremento é causado pelo rinovírus e pelo Sars-CoV-2. No Maranhão e no Amapá o estudo verificou que não há dados laboratoriais suficientes para determinar o vírus responsável pelo aumento do número de casos de SRAG.

As ocorrências de SRAG por metapneumovírus estão aumentando principalmente nos estados das regiões Sudeste (São Paulo e Rio de Janeiro) e Nordeste (Bahia, Pernambuco e Sergipe). O estudo observou ainda um sinal de leve aumento dos casos de SRAG na faixa etária de 50 a 64 anos, e estabilização dos casos de SRAG nas demais faixas etárias. Em relação à Covid-19, há sinais de aumento dos casos graves em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, nesses três últimos estados, a incidência de SRAG por Covid-19 permanece em níveis muito baixos.

Cinco das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas) com sinal de crescimento de SRAG na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana 42: Aracaju (SE), Belém (PA), Cuiabá (MT), João Pessoa (PB) e Rio de Janeiro (RJ).

O aumento de SRAG em Aracaju e Cuiabá ocorre especialmente entre crianças pequenas. Em João Pessoa, o aumento é observado principalmente na faixa etária de 50 a 64 anos. Em Belém, o aumento se dá entre crianças de 2 a 4 anos e adultos de 50 a 64 anos. Já na capital do Rio de Janeiro ocorre entre crianças menores de 2 anos e adultos de 15 a 49 anos. O InfoGripe mostra também que duas capitais apresentam incidência de SRAG em níveis de alerta, risco ou alto risco, porém sem sinal de crescimento na tendência de longo prazo - Brasília (DF) e Florianópolis (SC).

Dados epidemiológicos

Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a proporção entre os casos positivos foi de 4,1% de influenza A, 5,4% de influenza B, 11,5% de vírus sincicial respiratório (VSR), 53,3% de rinovírus e 6,4% de Sars-CoV-2 (Covid-19). Entre os óbitos, a presença destes mesmos vírus entre os positivos e no mesmo recorte temporal foi de 4,8% de influenza A, 7,6% de influenza B, 8,6% de VSR, 42,9% de rinovírus e 19% de Sars-CoV-2 (Covid-19).

Referente ao ano epidemiológico 2026, já foram notificados 168.814 casos de SRAG, sendo 90.200 (53,4%) com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 61.754 (36,6%) negativos, e ao menos 7.351 (4,4%) aguardando resultado laboratorial. Dados de positividade para semanas recentes estão sujeitos a grandes alterações em atualizações seguintes por conta do fluxo de notificação de casos e inserção do resultado laboratorial associado. Dentre os casos positivos do ano corrente, observou-se 15,7% de influenza A, 5,5% de influenza B, 39,1% de VSR, 33,3% de rinovírus e 3,8% de Sars-CoV-2 (Covid-19).

Incidência e mortalidade

A incidência e mortalidade semanal média, nas últimas oito semanas epidemiológicas, mantêm o cenário típico de maior impacto nos extremos das faixas etárias analisadas. Enquanto a incidência de SRAG apresenta impacto mais elevado nas crianças de até 2 anos, em termos de mortalidade ocorre o inverso, com a população a partir de 65 anos sendo a mais impactada.

A incidência de SRAG é mais elevada nas crianças pequenas e está associada principalmente ao rinovírus, VSR e ao metapneumovírus. A pesquisadora Tatiana Portella ressalta que o rinovírus também se destaca como principal causa de mortalidade nas crianças de até 2 anos. Já a incidência de SRAG por Covid-19 continua baixa em todas as faixas etárias.




Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 29/10/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/10/infogripe-cinco-estados-tem-srag-em-nivel-de-alerta-ou-risco-com-sinal-de

Periferia Brasileira de Letras integra a programação da 1ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na UERJ

A Periferia Brasileira de Letras (PBL), por meio do projeto de extensão PBL+UERJ, participa da programação da 1ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) da UERJ, iniciada nesta semana e que segue até amanhã (29). No segundo dia de atividades, o evento destaca o protagonismo feminino na ciência, na arte e na cultura, em sintonia com o tema nacional da 23ª SNCT, “Ciência Delas”, proposto pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

A iniciativa é realizada em parceria com a Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e conta com a participação de pesquisadoras do Programa Mulheres e Meninas na Ciência da Fiocruz e da Escola de Teatro Popular (ETP).

Organizada pela PR2/UERJ, a programação reúne oficinas, palestras, mesas-redondas, exibições audiovisuais e visitas mediadas, além de três exposições realizadas com apoio do Proext-PG|Capes.

A agenda geral da SNCT na UERJ teve início no dia 6 de outubro e se estende até o mês de novembro. As atividades promovidas pela PBL acontecem de 27 a 29 de outubro, integrando a agenda geral do evento, que se encerra no dia 13 de novembro.




Programação Oficial da PBL+UERJ na l SNCT na UERJ

27 de outubro (Terça-feira) | 14h às 18h Atividade: Poéticas e Resistências nas Vozes da Periferia Descrição: Roda de conversa com coletivos literários da Periferia Brasileira de Letras (PBL-RJ), seguida de exibição da obra cinematográfica "Estrelas Além do Tempo" e debate com a pesquisadora Dayana Gusmão da Silva (Programa Mulheres e Meninas na Ciência / Fiocruz).

28 de outubro (Quarta-feira) | 14h às 18h Atividade: Ciência Delas: Documentário e Debate Descrição: Exibição do documentário "Ciência Delas", com presença da pesquisadora Beatris Duquevis e da diretora Daniela Muzi, sucedida de debate sobre a obra.

29 de outubro (Quinta-feira) | 14h às 18h Atividade: Poéticas Populares – Painel com a Escola de Teatro Popular (ETP) Descrição: Lançamento editorial da Revista Poéticas Populares (editorada pela ETP em parceria com o Instituto Augusto Boal), acompanhado de mesa com os organizadores da publicação.


Serviço Institucional

Evento: Programação PBL+UERJ na 1ª SNCT/UERJ

Período das atividades PBL: 27, 28 e 29 de outubro de 2026 (Período geral da SNCT UERJ: 06/10 a 13/11)

Horário: 14h às 18h

Local: UERJ — Campus Maracanã | Pavilhão João Lyra Filho, 9º andar / IFCH, Auditório 9042 (Bloco F)

Endereço: Rua São Francisco Xavier, 524 – Maracanã, Rio de Janeiro – RJ

Acesso: Gratuito e aberto à comunidade acadêmica e ao público em geral.






Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 28/10/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/10/periferia-brasileira-de-letras-integra-programacao-da-1a-semana-nacional-de-ciencia

Fiocruz Petrópolis comemora 15 anos com programação especial

O Fórum Itaboraí: Política, Ciência e Cultura em Saúde (Fiocruz Petrópolis), programa da Presidência da Fiocruz, completa 15 anos de atuação em Petrópolis e preparou uma programação especial que celebra a trajetória da instituição e reafirma seu compromisso com a promoção da saúde, da ciência, da cultura e da redução das desigualdades sociais. Entre os dias 3 e 6 de novembro, o público poderá participar de uma série de atividades gratuitas, que incluem debates, seminários, oficinas, rodas de conversa, apresentações culturais e ações educativas.

O evento será realizado na sede do Palácio Itaboraí e focará em temas relacionados à saúde, território, meio ambiente, mudança climática, segurança alimentar e nutricional, direito à cidade, cultura e participação comunitária. A agenda também valoriza experiências desenvolvidas ao longo dos 15 anos da instituição junto a comunidades, escolas, pesquisadores, gestores públicos e diferentes organizações da sociedade por meio de uma mostra que resgata esta trajetória.

A programação começa na terça-feira (3/11), com a solenidade de abertura, que contará com a participação de representantes da Fiocruz, autoridades e instituições parceiras. Na sequência, será realizado o debate Desenvolvimento Urbano Integrado, Clima e Saúde, com especialistas que debaterão as relações entre planejamento urbano, mudanças climáticas e saúde. O evento será transmitido on-line pelo canal da VídeoSaúde no Youtube.

A programação comemorativa segue até sexta-feira (6/11), reunindo atividades culturais, oficinas, debates e apresentações artísticas. Entre os destaques estão as ações do Teatro do Oprimido, concertos da Orquestra de Câmara da Fiocruz (OCPIT) e oficinas de escrita e compostagem.

A agenda também inclui debate sobre segurança alimentar e nutricional e roda de conversa sobre o uso de plantas medicinais, valorizando conhecimentos tradicionais e ancestrais e experiências desenvolvidas nos territórios. O encerramento será marcado pelo seminário Desigualdades Sociais, Direito à Cidade e Inequidades em Saúde, que reunirá pesquisadores, representantes de organizações sociais e lideranças comunitárias para discutir desafios e possibilidades de transformação territorial.

Durante a semana, o público também poderá visitar a exposição Brasil Glacial e participar da Troca de Livros – Projeto Livro em Movimento.

A programação é aberta ao público, mas será respeitada a capacidade de lotação dos espaços. Mais informações sobre as atividades e orientações para participação serão divulgadas pelos canais oficiais do Fórum Itaboraí/Fiocruz Petrópolis.




Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 29/10/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/10/fiocruz-petropolis-comemora-15-anos-com-programacao-especial

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Projeto ajuda a promover a cultura da inovação na rede Cefet/RJ

Débora Motta

Alunos do Cefet/RJ testam sistema de escoamento de águas durante grandes enchentes no Rio de Janeiro, na maratona de inovação Expin 48, que desafia estudantes a criarem soluções tecnológicas e sustentáveis na rede de ensino (Fotos: Divulgação)



Referência na formação de profissionais e especialistas na área tecnológica, o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ) oferta 5.371 vagas anuais e atende a mais de 20 mil estudantes, distribuídos em 37 cursos técnicos, 35 cursos de graduação, sete especializações, 10 mestrados e cinco doutorados. Ali, no campus Maracanã, o professor titular Marco Antonio Barbosa Braga, que é físico com Doutorado em Engenharia de Produção, vem desenvolvendo um projeto para ajudar a promover a cultura da inovação entre os alunos da instituição. Coordenador do Laboratório de Novos Ambientes para Inovação e Desenvolvimento Sustentável (N@melab), Braga foi contemplado pela FAPERJ, por meio do edital Cientista do Nosso Estado.

Ele recorda que o Cefet/RJ tem uma longa tradição e, ao longo dos anos, vem acompanhando o processo de transformação do parque industrial brasileiro. “Temos refletido bastante sobre a questão da inovação, que está em voga agora, e precisamos adaptar o perfil das instituições de ensino para atender às necessidades de um mercado mais inovador. O Cefet foi criado em 1917, sob a denominação de Escola Normal de Artes e Ofícios Wenceslau Braz, para atender à necessidade de formação de recursos humanos das manufaturas da época. Em 1942, o então presidente Getúlio Vargas mudou esse perfil, e a instituição passou a ser chamada de Escola Técnica Nacional, para formar técnicos industriais. Em 1978, passou a se chamar Cefet, como autarquia especial e, agora, essa mesma instituição continua se reformulando de acordo com as transformações tecnológicas do País, e precisa atender aos desafios atuais do mercado, já como Universidade Federal de Ciência e Inovação”, contextualizou.

Uma nova legislação federal (Lei nº 15.521/2026) acaba de dar ao Cefet/RJ e ao Cefet de Minas Gerais o status de universidade. Agora, eles passam a ser denominados universidades federais de Ciência e Inovação (UFCI/RJ e UFCI/MG). A nova lei estabelece que ambas as instituições passam a ter organização, estrutura e competências compatíveis com as universidades, com autonomia administrativa, financeira, patrimonial, didático-científica e disciplinar, além de terem reitor, vice-reitor e um Conselho Universitário como órgão deliberativo e consultivo. A transformação também amplia as possibilidades de acesso a editais e linhas de fomento destinadas às universidades, ampliando as perspectivas de captação de recursos.

O Brasil está na 53ª posição do Índice Global de Inovação 2026, ranking elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), entre 139 nações pesquisadas. É um posto abaixo do obtido no índice anterior, mas o País teve um avanço, já que estava na 62ª posição em 2020. “Nesse cenário, nossa contribuição, no Cefet/RJ, é incentivar a formação de uma cultura de inovação e empreendedorismo entre os jovens, ainda em idade escolar. Existem diversos projetos para fortalecer a inovação, mas poucos voltados especialmente para a formação desse público de estudantes. Esse é o nosso diferencial”, afirmou Braga.

Marco Braga: coordenador do laboratório N@melab, ele esteve em um campo de refugiados da ONU no Malawi, na África, para ajudar a implementar estratégia sustentável de geração de energia eólica


No N@melab, ele incentiva projetos que busquem soluções para questões sociais que afetam os alunos no estado do Rio de Janeiro e até na África, em parceria com escolas locais. “O nosso laboratório investiga a educação para a inovação em diferentes níveis de ensino. A ideia é aprender a inovar a partir de problemas concretos extraídos da realidade. Por serem jovens da Educação Básica, os alunos não conhecem os problemas do mundo do trabalho. A realidade deles vem das comunidades onde vivem, dos territórios e das cidades. São problemas ligados à escola, à moradia, ao saneamento básico, à saúde e à mobilidade urbana. O ponto de partida, com eles, é a inovação social. O importante é implementar, de fato, as mudanças propostas, com soluções concretas que vão além das feiras de ciências”, detalhou.

Entre os temas trabalhados com os estudantes, estão: a busca de soluções para o descarte de resíduos no Morro da Providência, na região central do Rio; a geração de energia no campo de refugiados de Dzaleka, localizado no Malawi, país no Sudeste da África – classificado em diversos rankings internacionais como um dos cinco países mais pobres do mundo; e a melhoria da qualidade da água potável em uma escola rural em Nova Friburgo.

“No Morro da Providência, a primeira favela do Brasil, o lixo é de difícil retirada porque os caminhões não chegam lá. Depois de descobrir que é possível produzir eletricidade a partir do lixo, os estudantes do oitavo ano de uma escola da rede pública, na Pequena África, visitaram a usina da Comlurb no Caju, onde esse processo é realizado, e vêm buscando soluções inovadoras para engajar a comunidade na coleta diferenciada de resíduos orgânicos e não-orgânicos. Essa atividade estimulou os jovens a pesquisarem sobre o processo de produção de energia a partir de resíduos sólidos urbanos”, disse.

A partir da cooperação internacional com o Cefet/RJ, professores e alunos do campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, preparam protótipo de um gerador de energia eólico, feito a partir de resíduos encontrados no campo


Estreitando laços de cooperação científica entre Brasil e África, o projeto no campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, teve como desdobramento a instalação de um espaço de inovação para instalação de uma bomba d’água movida a energia eólica. No local, gerido pela Organização das Nações Unidas (ONU), vivem 60 mil refugiados, e há uma escola que atende cerca de dois mil alunos. “Professores da Ubuntu Nation School e da Eagles Junior Academy pediram ajuda ao N@melab para desenvolver projetos inovadores com os estudantes. Em 2023 e 2024, foram realizadas oficinas-piloto de formação dos professores. Em 2027, o projeto será retomado com a inauguração de um Espaço Maker de Inovação STEAM (voltado às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e para as crianças do campo. Será desenvolvida uma oficina de formação, e os professores terão acompanhamento por meio de um canal na internet”, contou.

Já em Nova Friburgo, na Região Serrana, eles trabalharam para melhorar a qualidade da água potável em uma comunidade rural. “Embora a água seja de nascente, chega à escola bastante suja. Os estudantes bebiam essa água. Uma turma multisseriada, com alunos entre 9 e 12 anos, identificou esse problema como o mais grave da comunidade e procurou construir um filtro baseado em materiais de sucata. Ele não foi construído, mas foi instalado um filtro industrial na escola, em 2024”, disse. “Essas ações nas escolas ajudam a aproximar os jovens de comunidades vulneráveis dos modelos de inovação e a pensarem em soluções sociais”, concluiu.

Braga também é autor do livro Aprendendo a inovar em projetos STEAM – Um guia para estudantes, consagrado como finalista do 64º Prêmio Jabuti em 2022. A obra destaca-se no cenário educacional brasileiro ao abordar a metodologia STEAM e a Aprendizagem Baseada em Projetos (PbL), auxiliando estudantes a desenvolver competências voltadas para a inovação, criatividade e sustentabilidade.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 29/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1140.7.3