sexta-feira, 15 de maio de 2026

Cafeína, remédios e cocaína em tubarões das Bahamas mostram impacto da ação humana

Cafeína, remédios e cocaína foram detectados no sangue de tubarões das Bahamas, no Caribe. Pesquisa realizada pela Fiocruz em colaboração com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e instituições nacionais e internacionais identificou a contaminação em 28 de 85 amostras analisadas.



Em estudo anterior, no Rio de Janeiro, cocaína foi identificada em tubarões Rhizoprionodon lalandii, popularmente conhecidos como “tubarão-bico-fino-brasileiro" ou “cação-frango” (foto: IOC/Fiocruz)


A cafeína foi a substância mais frequente, encontrada em 27 tubarões. O diclofenaco (remédio anti-inflamatório) foi identificado em dez, enquanto paracetamol (medicamento analgésico) e cocaína foram detectados em dois.

Segundo os autores do estudo, as substâncias são consideradas contaminantes de preocupação emergente. “Este é um indicativo de impacto da atividade humana. Essas moléculas são exclusivas de uso humano e chegam ao ambiente principalmente pelo esgoto. A contaminação dos animais aponta falta de tratamento adequado do esgoto”, afirma o pesquisador do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Enrico Saggioro.

Publicado na revista científica Environmental Pollution, o trabalho representa a primeira detecção de cafeína e paracetamol em tubarões no mundo e a primeira identificação de diclofenaco e cocaína em animais das Bahamas, após o achado pioneiro de cocaína em tubarões do Rio de Janeiro, também realizado pelo IOC/Fiocruz.

As três espécies de tubarões analisadas nas Bahamas – tubarão-de-recife-do-Caribe (Carcharhinus perezi), tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e tubarão-limão (Negaprion brevirostris) – vivem em águas costeiras. De acordo com os cientistas, os achados em tubarões juvenis ou que não têm hábito migratório sinaliza para contaminação local.

“Esse resultado foi uma surpresa porque existem poucos estudos sobre contaminação nas Bahamas. Acredita-se que é um ambiente prístino, limpo, mas há muito movimento turístico na região”, comenta a pesquisadora do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC/Fiocruz, Rachel Ann Hauser Davis.

A coleta de amostras foi liderada pela professora da UFPR, Natascha Wosnick, que também é pesquisadora do Instituto Cape Eleuthera, das Bahamas, e da Associação MarBrasil, do Paraná. Os pesquisadores do IOC/Fiocruz, Enrico e Rachel, coordenaram as análises de contaminantes, realizadas em parceria com Rodrigo Hoff, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O estudo também contou com colaboração de cientistas da Universidade Mayor, do Chile, e das universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e do Ceará (UFCE).

Possíveis efeitos nos animais

Segundo os cientistas, não é possível afirmar que as substâncias são nocivas para os animais, mas a análise de componentes do sangue mostrou alterações nos tubarões contaminados. Por exemplo, redução de triglicerídeos e níveis alterados de ureia e lactato, que sugerem possíveis impactos no metabolismo e na resposta ao estresse.

“Essas moléculas são marcadores de saúde do animal. Não é possível garantir que as alterações são causadas pela contaminação, mas os padrões bioquímicos sugerem que os animais são afetados. Para verificar a amplitude desse efeito são necessários experimentos em laboratório, que pretendemos fazer no futuro”, explicou Rachel, citando também outro estudo realizado pelo mesmo grupo de cientistas, que apontou possíveis efeitos de contaminação por metais nos tubarões das Bahamas.

“Analisamos o nível sanguíneo de metais, que indica exposição recente. Chamou atenção o impacto de metais de preocupação emergente, como lítio, que vem sendo associado com descarte de lixo eletrônico em regiões costeiras”, contou Rachel.



Rachel Hauser Davis e Pedro Magno de Araújo analisam uma raia-ticonha (Rhinoptera brasiliensis) (foto: Gutemberg Brito)


Ao considerar que a contaminação ambiental pode impactar a saúde de animais e a própria saúde humana, os pesquisadores destacam a importância de pesquisas sobre contaminantes de preocupação emergente, que ainda não sofrem regulamentação. No Brasil, atualmente, os cientistas realizam estudos sobre presença de drogas, pesticidas e remédios em mexilhões, tubarões e raias. Em breve, deve ser iniciada também análise de amostras de golfinhos.

“Estamos afetando ambiente de maneiras que nem imaginamos. Não se trata de parar de tomar café ou de usar paracetamol, precisamos compreender o impacto dessas substâncias e criar barreiras para que elas não cheguem ao ambiente", declarou Enrico.



 
Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 14/05/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/cafeina-remedios-e-cocaina-em-tubaroes-das-bahamas-mostram-impacto-da-acao-humana

Lado oculto da jaqueira: árvore invasora empobrece chão da Mata Atlântica e afeta sapos


Estudo realizado na Uerj investiga como a presença das jaqueiras altera a estrutura do chão da floresta e afeta diferentes espécies de sapos que vivem na serapilheira (Foto: Divulgação)


Espécies invasoras são uma das principais ameaças à biodiversidade no mundo. Ao se espalharem fora de sua área de origem, elas alteram habitats, reduzem a diversidade nativa e comprometem o funcionamento dos ecossistemas. Na Mata Atlântica brasileira, uma dessas espécies é a jaqueira. Seus impactos sobre a vegetação já são conhecidos. No entanto, ainda sabemos pouco sobre o que acontece com os animais que vivem no chão da floresta, um dos ambientes mais sensíveis e importantes para a biodiversidade tropical.

Um grupo de cientistas do Departamento de Ecologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicou recentemente um estudo no periódico Biological Invasion sobre uma pesquisa realizada na Reserva Biológica de Duas Bocas, no Espírito Santo.

Coordenado pela pesquisadora na área de ecologia de comunidades e conservação da biodiversidade, Juliane Pereira Ribeiro, o estudo investiga como a presença da jaqueira altera a estrutura do chão da floresta e como essas mudanças afetam diferentes espécies de sapos que vivem na serapilheira.

Efeito cascata sobre a fauna

Os resultados mostram que a jaqueira simplifica o habitat, reduz recursos essenciais e desencadeia efeitos em cascata sobre a fauna. E nem todas as espécies respondem da mesma forma. "Áreas dominadas por jaqueiras apresentam uma camada de folhas mais rasa e menor abundância de artrópodes, como insetos e outros invertebrados. Esses organismos são fundamentais para o funcionamento do ecossistema. Eles também servem de alimento para muitos pequenos vertebrados", afirma Juliane.



A Rhinela crucifer foi uma das três espécies de sapos analisadas no estudo conduzido por pesquisadores da Uerj (Foto: Divulgação)


Ela explica que quando a serapilheira diminui, o ambiente fica mais simples. Micro-hábitats desaparecem. A retenção de umidade cai. As condições se tornam menos estáveis para espécies sensíveis. Ou seja, mesmo quando a floresta parece verde por cima, o que acontece no chão conta outra história. "Analisamos três espécies de sapos com diferentes exigências ecológicas. As respostas foram distintas. Uma espécie mais generalista, conhecida pelo nome científico de Rhinella crucifer, e tolerante a ambientes alterados, foi registrada com maior frequência em áreas invadidas.

Já a espécie Haddadus binotatus, reconhecida como mais dependente de micro-hábitats úmidos e estáveis, apresentou queda acentuada onde a densidade de jaqueiras era maior. A terceira espécie que estudamos foi a Proceratophrys schirchi e percebemos que não foi afetada diretamente pela presença da árvore. No entanto, sua ocorrência estava associada à profundidade da serapilheira e à diversidade de artrópodes. Como esses dois fatores diminuem em áreas invadidas, a espécie acaba sendo afetada indiretamente", conta.

De acordo com Juliane, isso mostra que o impacto pode ocorrer por caminhos menos visíveis. A árvore modifica o habitat. O habitat modifica as espécies. Segundo ela, é importante destacar que o fato de uma espécie persistir em áreas invadidas não significa que a invasão seja benéfica. Muitas vezes, o que ocorre é um favorecimento de espécies mais tolerantes à degradação, enquanto as mais especializadas desaparecem.

Juliane Ribeiro: para a coordenadora do estudo, resultados obtidos pela pesquisa reforçam que a jaqueira representa uma ameaça real à biodiversidade da Mata Atlântica (Foto: Divulgação)


"Esse processo pode levar à chamada homogeneização biológica. Comunidades passam a se parecer cada vez mais entre si, dominadas por poucas espécies generalistas. A diversidade funcional diminui. Na prática, a jaqueira atua como um filtro ecológico. Ela empobrece o habitat e seleciona quais espécies conseguem persistir. O resultado é uma floresta menos diversa, menos complexa e potencialmente menos resiliente a mudanças futuras", diz.

Para Juliane, os resultados reforçam que a jaqueira representa uma ameaça real à biodiversidade da Mata Atlântica. Sua presença altera não apenas a vegetação, mas também o funcionamento do ecossistema. Ela destaca que o manejo de espécies invasoras precisa considerar esses efeitos indiretos sobre a fauna. A remoção continua sendo fundamental, especialmente em áreas protegidas. Mas deve ser acompanhada por ações que restaurem a complexidade do habitat, como a recuperação da serapilheira e da vegetação nativa do sub-bosque. Sem esse cuidado, há o risco de resolver um problema e criar outro.

Para a pesquisa, Juliane contou com o apoio de uma bolsa de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ e da Rufford Foundation.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 14/05/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1019.7.6

Química Orgânica rende à pesquisadora da UFF mais um prêmio internacional




Vanessa Nascimento nasceu em Casca, uma pequena cidade pertencente à região de Passo Fundo, no Planalto Central do Rio Grande do Sul, com cerca de nove mil habitantes, em sua maioria descendentes de imigrantes italianos. Ela lembra que desde criança se compadecia das dificuldades que os moradores do pequeno município enfrentavam para terem acesso a tratamento médico e fármacos. Seu sonho sempre foi ajudar a comunidade e a medicina parecia ser o caminho mais natural. Mas quando presenciou uma cirurgia em seu próprio pé, desistiu da ideia, passando a se interessar pela química, estimulada por um professor.

Ela se formou em Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria (2009), cursou mestrado e doutorado em Química na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com um período sanduíche na Universidade de Perugia (Itália). Fez estágio pós-doutoral na própria UFSC, sob orientação do professor Faruk Nome e, em seu primeiro concurso público, conquistou uma vaga de professora adjunta do Departamento de Química Orgânica da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ali, Vanessa lidera o grupo de pesquisa do laboratório SupraSelen, fundado por ela, onde comanda estudos pioneiros ligados à obtenção de moléculas e supramoléculas contendo selênio para as mais diversas aplicações (antioxidantes, anti-inflamatórios, catalisadores etc.). Mãe de dois meninos gêmeos de sete anos, sempre que pode, Vanessa leva os filhos para os eventos profissionais, o que, ela garante, já vem despertando nas crianças o interesse pela Química.

“Um dos motivos que contribuíram para que eu permanecesse no Rio de Janeiro foi o constante apoio da FAPERJ”, afirma Vanessa, que teve três projetos aprovados pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE), o primeiro em 2019, e, agora, concorre ao edital de Apoio à Jovem Cientista Mulher Dra. Tatiana Sampaio. A pesquisadora também foi uma das vencedoras do Prêmio FAPERJ de Pesquisa e Inovação, lançado em 2025, na categoria “Pesquisa de Impacto”.

Suas pesquisas são alinhadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) – plano de ação global estabelecido pela ONU em 2015 –, ao contemplar a redução de resíduos e o uso de matérias-primas renováveis e solventes mais seguros. As quinonas são compostos orgânicos presentes na natureza como a vitamina K. Já o selênio é um mineral essencial ao organismo, com ação antioxidante, anti-inflamatória, capaz de combater os radicais livres. “Nossa ideia foi juntar essas características biológicas das quinonas e do selênio para reduzir a toxidade dos fármacos e potencializar sua atividade”, explica Vanessa.

Segundo ela, por meio de parcerias e colaborações, como a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), sua equipe desenvolveu moléculas que, inicialmente, foram testadas no tratamento da tuberculose, uma doença grave com tratamento longo que, se não for executado de forma correta, pode levar o paciente à morte. Segundo a pesquisadora, os medicamentos desenvolvidos para o combate da tuberculose têm mais de 50 anos e, muitas vezes, não matam as bactérias porque, ao longo do tempo, o organismo já adquiriu resistência a eles. Por ser uma doença que, em geral, acomete a população de baixa renda, as indústrias não se interessam em desenvolver novos fármacos. É justamente para atender a essa necessidade que a equipe da pesquisadora desenvolveu novas moléculas para o tratamento mais rápido e eficaz da doença, trabalho que lhe rendeu o “PeerJ Award” em 2019, em um evento realizado em Perúgia, na Itália, que reuniu centenas de cientistas de mais de 40 universidades de diversos países.

Em um segundo momento de sua pesquisa, Vanessa e sua equipe organizaram uma quimioteca de compostos com essa combinação. Em colaboração com a UFF/campus Nova Friburgo, uma das classes de compostos foi testada no tratamento de câncer de boca, com excelentes respostas, e as moléculas com os melhores resultados já estão sendo testadas in vivo. Segundo a pesquisadora, não existem fármacos específicos para o câncer de boca, que possui uma tendência de aumentar devido ao excesso do uso dos cigarros eletrônicos (ou vapes). Em reportagem da revista Translational Cancer Research, uma revisão bibliográfica considerou quase uma centena de artigos sobre o “potencial carcinogênico oral dos cigarros eletrônicos”. O estudo indica que análises químicas de cigarros eletrônicos mostraram a presença de compostos orgânicos voláteis com potencial carcinogênico. Com base nas evidências da literatura publicada, o cigarro eletrônico pode ser considerado um fator de risco potencial para o câncer oral devido à presença de componentes carcinogênicos e à sua capacidade de induzir alterações prejudiciais às células orais, embora ainda haja carência de estudos prospectivos de longo prazo e de estudos de caso-controle em larga escala. O selênio também vem sendo testado em bancada como antioxidante e, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma terceira classe de moléculas vem sendo testada para o tratamento da tuberculose.

Vanessa Nascimento: para a pesquisadora, atender as necessidades da população por meio das pesquisas é uma forma de retribuir à sociedade


Outra molécula desenvolvida pelo seu laboratório tem potencial para o tratamento da esporotricose, doença negligenciada causada por um fungo do gênero Sporothrix, cujo principal transmissor é o gato doméstico. Os felinos desenvolvem feridas profundas que não cicatrizam e o tratamento com fungicida pode levar seis meses, sem garantia de cura. A esporotricose é transmitida aos humanos pelo contato direto com o fungo ou arranhões/mordidas de gatos doentes. Segundo Vanessa, a zoonose, que pode causar desde lesões na pele até infecções graves, tem apresentado um crescimento preocupante, principalmente no estado do Rio de Janeiro. Com este trabalho Vanessa Nascimento conquistou o prêmio "Para Mulheres na Ciência", promovido pelo Grupo L’Oréal em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a Unesco, na categoria Ciências Químicas. O prêmio valoriza a produção científica de mulheres que enfrentam desafios contemporâneos.

Além de reconhecer o olhar para as doenças negligenciadas, o prêmio também considerou o aperfeiçoamento e a sustentabilidade do método para a obtenção das moléculas. Segundo Vanessa, o laboratório vem utilizando a fotocatálise, também chamada de luz visível (luz de LED), cuja irradiação nas moléculas acelera o processo e aumenta o potencial das reações. O fotorreator, desenvolvido pela equipe em 2022, tornou o processo mais seletivo, com menor gasto de energia, reduziu a produção de resíduos e acelerou o processo (dias gastos na bancada para horas no fotorreator).

“Sempre digo para meus alunos que necessitamos sobreviver da pesquisa e, para isso, precisamos ter números, mas realizar a pesquisa buscando atender às necessidades da população é uma forma de retribuir à sociedade, que paga nossos salários. Um olhar para as doenças negligenciadas é também uma forma de olhar para a população”, alega Vanessa.



Neste ano de 2026, Vanessa foi surpreendida com o prêmio “Martin D. Rudd Early Career Researcher Prize”, concedido pela revista Phosphorus, Sulfur, and Silicon and the Related Elements, que reconhece jovens pesquisadores de destaque no mundo. Vanessa não sabia que havia sido indicada pelo seu ex-orientador do doutorado-sanduíche na Itália. O prêmio é concedido a um pesquisador avaliado como promissor, convidado a apresentar seu trabalho no workshop anual da Rede de Redox e Catálise de Selênio e Enxofre (WSeS), que este ano será realizado em setembro, no Japão.


Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 14/05/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1015.7.4

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Projeto sobre mobilidade propõe hubs de Planejamento Inteligente


Para debater soluções para a mobilidade urbana, projeto promove evento de escuta em Cabo Frio com a participação de gestores públicos (Foto Divulgação/Acervo de Pesquisa)


Uma profusão de motociclistas se equilibrando por entre os carros, bicicletas elétricas, motocicletas, cruzando sinais vermelhos, transitando pela contramão, falando ao celular. Quem nunca viu situação semelhante numa grande cidade brasileira que atire a primeira pedra. A percepção que se tem é a de que o trânsito está cada dia mais confuso e violento. E os números confirmam a escalada de acidentes nos últimos anos e que não se trata, porém, apenas de percepção.

O País registrou em 2024 o maior número de mortes no trânsito em oito anos, contabilizando 37.150 óbitos, 6,5% a mais do que os 34.881 de 2023, de acordo com dados do DataSUS, do Ministério da Saúde. Sendo que deste total, as motos respondem por 40%, como indicam dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em novembro do ano passado.

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. Dados do Corpo de Bombeiros, divulgados pelo site de notícias G1 em abril, mostram crescimento no número de ocorrências nos quatro primeiros meses deste ano em comparação ao mesmo período de 2025. Na cidade do Rio, sete em cada dez atendimentos por trauma envolvem acidentes com motocicletas. De janeiro a abril, a rede municipal de saúde realizou mais de 10 mil atendimentos. No período de um ano, entre 2024 e 2025, a cidade do Rio de Janeiro teve um aumento de 702% no número de atendimentos a pacientes envolvidos em acidentes com veículos de micromobilidade – patinetes elétricos, autopropelidos, ciclomotores –, de acordo com levantamento da Comissão de Segurança no Ciclismo do RJ, com base em dados da Secretaria Municipal de Saúde.

Para o especialista na área de transportes, novas tecnologias e mobilidade urbana Matheus Henrique de Sousa Oliveira, pesquisador do Programa de Engenharia de Transportes (PET), do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), a melhora na mobilidade, seja nas grandes, médias ou pequenas cidades, passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana.

Matheus Oliveira: para o pesquisador da Coppe/UFRJ, a melhora na mobilidade nas cidades passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana (Foto: Acervo pessoal)


O pesquisador, que recebeu apoio da FAPERJ para a realização de seus estudos por meio do Programa de Apoio a Projetos Científicos e Tecnológicos em Mobilidade Urbana, vem desenvolvendo o trabalho de pesquisa e implementação de hubs inteligentes de planejamento em todo o estado, intitulado “Mob 4.0 – Hub de Planejamento Inteligente da Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro”. A proposta consiste na criação de "laboratórios vivos de inovação" aplicados à mobilidade e, através deles, apoiar o planejamento inteligente das cidades. Matheus enfatiza “que o apoio dos gestores nesse trabalho é imprescindível para que o desenho saia do papel e tenha êxito”.

“Como é que a gente constrói ferramentas tecnológicas capazes de colocar na mesma arena o decisor, a população e os dados que representam o problema?”, questiona ele. Para encontrar a resposta, o pesquisador acrescenta que existem diversas etapas para formar o que ele chama de "ecossistema de inovação da gestão urbana" e que garante essa governança: a fase de escuta ou coleta de dados; o controle sobre esses dados; a transparência sobre os dados; e o monitoramento.

Até o momento, foram duas as cidades que já receberam o hub de inovação: Campos dos Goytacazes e Cabo Frio. Entre estudos, análises e propostas, o tempo de implementação do projeto em cada cidade é de cerca de um ano e segue uma metodologia própria. Primeiro, vem a escuta, etapa em que são ouvidos a sociedade civil organizada e o cidadão comum, a academia e também os gestores, através de audiências públicas e reuniões. Essa análise serve para entender quais são as dores, os gargalos e as possibilidades de intervenção e mobilidade em cada local. A partir desta análise, vêm as sugestões propostas no estudo e sua implementação, que sugerem a melhoria do fluxo e mobilidade. “Em Cabo Frio, por exemplo, a gente entendeu que um sistema aquaviário entre o bairro Ogiva e o Centro – já que a cidade é entrecortada por uma lagoa –, e também a ampliação da ciclovia à beira-mar poderiam funcionar, desafogando o trânsito de veículos nas ruas e ampliando as possibilidades de deslocamento para os moradores,” relata. Ele ressalta que a ideia é que o projeto se estenda para mais cidades do estado, sempre observando as potencialidades e particularidades de cada local.

Numa análise mais ampla sobre o trânsito nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro, e sobre o aumento exponencial na circulação de motocicletas, ciclomotores e bicicletas elétricas, Matheus observa que o crescimento da frota de veículos individuais é fruto de um histórico processo de degradação no transporte público que vem ocorrendo desde o final dos anos 90 e tem o seu ápice em meados de junho de 2013, com o crescimento real das tarifas. Processo esse que se intensificou com a pandemia, havendo uma redução drástica na oferta de transportes coletivos e uma mudança de hábitos provocados pelo distanciamento social, como o crescimento da demanda por motos, entregas e deslocamentos individuais. Soma-se a esse cenário, um aumento da disponibilidade de motocicletas, veículos elétricos leves, com baterias duráveis, custo mais acessíveis e com boa autonomia para circular pela cidade em pequenas ou longas distâncias, gerando economia de tempo e dinheiro.

Em Campos dos Goytacazes, população participa de evento de escuta para debater soluções visando a melhora da mobilidade urbana (Foto: Divulgação Acervo de Pesquisa)


Para ele, a solução começa na repactuação do sistema, dando prioridade ao coletivo, com a ampliação de ciclovias, criação de espaços pedonais de qualidade, construção de passarelas e implementação da tarifa zero no transporte público. “A gente precisa entender que o financiamento do transporte público não pode sair do bolso do usuário e existem diversos modelos mundo afora que deram certo e estudos consistentes no Brasil, abordando estimativas de custo, formas de financiamento e sua implementação que demonstram que é possível e viável.”

Outro ponto que o pesquisador defende para a construção de um trânsito mais seguro, menos caótico e menos violento é a redução dos limites de velocidade nas vias urbanas, acompanhado de melhorias das placas de sinalização e redesenho dos espaços e vias públicas, priorizando sempre os pedestres. Ele cita como exemplo e referência mundial o caso da cidade de Fortaleza, que investiu em mobilidade sustentável e conseguiu reduzir pela metade as mortes no trânsito em dez anos.

“Quando a gente investe em ações e iniciativas para uma mobilidade sustentável e reduz os índices de acidentes e mortalidade no trânsito das nossas cidades, estamos falando de economia em saúde pública, em redução nas filas do SUS, nas indenizações e aposentadorias por invalidez. Dinheiro este que pode ser reinvestido em ciclovias, passarelas, travessias, calçadas, ou seja, reorganizar o espaço viário de forma a dar prioridade e segurança ao mais fraco”, pontua.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 07/05/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1013.7.3

A Hantavirose é uma zoonose viral aguda, cuja infecção em humanos, no Brasil, se apresentam na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus.

A Hantavirose é uma zoonose viral aguda, cuja infecção em humanos, no Brasil, se apresentam na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus. Na América do Sul, foi observado importante comprometimento cardíaco, passando a ser denominada de Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH). Os hantavírus possuem como reservatórios naturais alguns roedores silvestres, que podem eliminar o vírus pela urina, saliva e fezes. Os roedores podem carregar o vírus por toda a vida sem adoecer. A Hantavirose é causada por um vírus RNA, pertencente à família Hantaviridae, gênero Orthohantavirus. Os membros desse gênero e família podem ser chamados de, simplesmente, Hantavirus.


Importante: Nas Américas, a hantavirose se manifesta sob diferentes formas, desde doença febril aguda inespecífica, até quadros pulmonares e cardiovasculares mais severos e característicos, podendo evoluir para a síndrome da angústia respiratória (SARA).

Transmissão


A infecção humana por hantavirose ocorre mais frequentemente pela inalação de aerossóis, formados a partir da urina, fezes e saliva de roedores infectados. As outras formas de transmissão, para a espécie humana, são:Percutânea, caracterizada pela entrada de agentes infecciosos por lesões na pele, como escoriações ou mordeduras de roedores.
Contato do vírus com mucosa (conjuntival, da boca ou do nariz), por meio de mãos contaminadas com excretas (urina, fezes e saliva) de roedores;
Transmissão pessoa a pessoa, relatada, de forma esporádica, na Argentina e Chile, sempre associada ao hantavírus Andes.

O período de transmissibilidade do hantavírus no homem é desconhecido. Estudos sugerem que o período de maior viremia seria alguns dias que antecedem o aparecimento dos sinais/sintomas.

Já o período de incubação do vírus, ou seja, o período que os primeiros sintomas começam a aparecer a partir da infecção, é, em média, de 1 a 5 semanas, com variação de 3 a 60 dias.

Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homens e roedores silvestres.

Viajantes

Não há evidências de que viagens para áreas de transmissão devam ser restringidas. No entanto, esse perfil de população deve adotar algumas medidas para reduzir, ao mínimo, a possibilidade de infecção pelo hantavírus:Cabanas ou abrigos que tenham permanecido fechados ou com sinais evidentes de presença de roedores só devem ser usados depois de arejados, limpos e descontaminados;
Acampamentos devem ser montados em lugares afastados de onde haja presença de roedores. Ninhos, escombros, lixões, acúmulos de lenha ou produtos agrícolas, palha ou outros materiais são habitats preferenciais desses animais, evitando-se também escorpiões, aranhas, serpentes e carrapatos, entre outros;
Não se deve repousar ou deitar diretamente no solo. Aconselha-se o uso de barraca com piso impermeável;
Nesses acampamentos, devem-se manter os alimentos e os resíduos em vasilhames fechados. O lixo deve ser acondicionado em recipientes à prova de roedores durante a estadia, ressaltando que todo resíduo produzido durante essas atividades deve ser recolhido e depositado em local apropriado.

Sintomas


Na fase inicial, a hantavirose causa os seguintes sintomas:Febre;
Dor nas articulações;
Dor de cabeça;
Dor lombar;
Dor abdominal;
Sintomas gastrointestinais.

Na fase cardiopulmonar, os sintomas da hantavirose são:Febre;
Dificuldade de respirar;
Respiração acelerada;
Aceleração dos batimentos cardíacos;
Tosse seca;
Pressão baixa.

Importante: Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homense roedores silvestres.

Transporte de paciente

Dada a evolução rápida e progressiva do quadro prodrômico para insuficiência respiratória grave e, até mesmo, choque circulatório, para evitar óbito, o paciente com hantavirose deve ser transportado acompanhado de médico habilitado e em condições que assegurem:Estabilidade hemodinâmica;
Parâmetros ventilatórios adequados, com oxigenioterapia e suporte ventilatório mecânico, se necessários;
Acesso venoso, sem administração excessiva de líquidos;
Controle cardiovascular com uso de aminas vasoativas em doses adequadas;
Normas de biossegurança;
Mobilização apenas quando necessária e sem desgaste físico do paciente.


Diagnóstico

Atualmente, os exames laboratoriais para diagnóstico específico da hantavirose são realizados em laboratórios de referência. Os exames estão disponíveis na rede pública de laboratórios para confirmação ou descarte dos casos. O diagnóstico é feito, basicamente, por meio da sorologia. O Ministério da Saúde disponibiliza os kits necessários para testes sorológicos. Saiba mais

Tratamento


Não existe um tratamento específico para as infecções por hantavírus. As medidas terapêuticas são fundamentalmente as de suporte, ministradas conforme cada caso por um médico profissional.

Por tratar-se de uma doença aguda e de rápida evolução, a hantavirose / hantavírus (síndrome cardiopulmonar por hantavírus), é de notificação compulsória imediata, devendo portanto, ser notificada em até 24h tanto para as Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde, quanto para o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS).

Como a hantavirose é uma doença com transmissão respiratória, profissionais que possam estar expostos, como principalmente trabalhadores rurais, assim como profissionais de saúde que irão realizar investigação à procura do local provável de infecção, devem utilizar os seguintes equipamentos de proteção individual:Máscara pff3;
Luva;
Avental;
Óculos de proteção.

Todo profissional potencialmente exposto ao risco deve ser orientado sobre as formas de transmissão, os períodos de incubação e sinais/sintomas da doença. Quando possível, deve-se, previamente, determinar o nível de risco para cada atividade profissional e identificar as respectivas medidas de prevenção.


Importante: Trabalhadores que apresentem febre ou qualquer doença respiratória em um período de até 60 dias após uma possível exposição ou situação de risco devem buscar, imediatamente, assistência médica e relatar ao profissional de saúde a sua história epidemiológica.

Prevenção


A prevenção das hantavirose baseia-se na utilização de medidas que impeçam o contato do homem com os roedores silvestres e suas excretas (resíduos eliminados do organismo).

As medidas de controle devem conter ações que impeçam a aproximação dos roedores, como, por exemplo, roçar o terreno em volta da casa, dar destino adequado aos entulhos existentes, manter alimentos estocados em recipientes fechados e à prova de roedores, além de outras medidas que impeçam a interação entre o homem e roedores silvestres, nos locais onde é conhecida a presença desses animais.




Autor: gov br
Fonte: gov br
Sítio Online da Publicação: gov br
Data: 12/05/2026
Publicação Original: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hantavirose

Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profi…

Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profissionais do sistema de saúde. Esta Orientação, hoje publicada, surge da necessidade de definir procedimentos a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação ao surto de [...]


Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profissionais do sistema de saúde.

Esta Orientação, hoje publicada, surge da necessidade de definir procedimentos a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação ao surto de Hantavírus no navio de cruzeiro MV Hondius.

No entanto, não existe qualquer alteração da avaliação do risco. O risco para Portugal mantém-se muito baixo, pelo que não há medidas preventivas a implementar a nível nacional para a população.

A Orientação está disponível aqui https://www.dgs.pt/normas-orientacoes-e-informacoes/orientacoes-e-circulares-informativas/orientacao-n-0012026-de-11052026-hantavirus-andes-procedimentos-para-gestao-de-contactos-no-ambito-do-surto-no-navio-cruzeiro-mv-hondius-.aspx.

#DGS #SaúdePública #Saúde #Hantavírus





Autor: sapo
Fonte: sapo
Sítio Online da Publicação: sapo
Data: 11/05/2026
Publicação Original: https://sapo.pt/artigo/conheca-o-guia-rapido-da-dgs-relativo-a-orientacao-sobre-hantavirus-para-profi-6a024961f00315c827965b8c

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo da Fiocruz registra expansão do vírus oropouche no Nordeste


Um estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz identificou a expansão e o estabelecimento da transmissão do vírus oropouche (Orov) no Nordeste do Brasil entre 2024 e 2025. Historicamente associado à região amazônica, o vírus passou a circular de forma contínua em estados nordestinos, atingindo áreas onde não havia registros anteriores de oropouche. De acordo com a pesquisa, foram confirmados 2.806 casos no período, distribuídos em 170 municípios de oito dos nove estados da região. A análise mostra que a disseminação ocorreu de forma heterogênea: a maioria das cidades apresentou poucos registros, enquanto um grupo menor concentrou incidências mais elevadas. O estudo foi publicado em abril de 2026 na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases


Ilustração do inseto transmissor do vírus oropouche, o Culicoides paraensis (Imagem: Ademildo Mendes/MS)

Os dados também revelam uma mudança no perfil geográfico da transmissão. Em 2024, os casos estavam mais concentrados em áreas do bioma Mata Atlântica. Em 2025, a maior parte das ocorrências foi registrada em zonas úmidas da Caatinga, indicando a presença do vírus em diferentes contextos ambientais dentro do Nordeste. O trabalho contou com a participação do Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE), do Laboratório Central de Saúde Pública da Paraíba (Lacen-PB), além do Serviço de Referência em Arboviroses, do Núcleo de Plataformas Tecnológicas e do Núcleo de Bioinformática, todos da Fiocruz Pernambuco.

Para entender a dinâmica da disseminação, os pesquisadores integraram dados epidemiológicos com análises genômicas do vírus. Foram sequenciados 65 genomas a partir de amostras coletadas em Pernambuco, Paraíba e Sergipe. A partir da informação genética, foi possível reconstruir a trajetória de circulação do Orov e identificar múltiplas introduções independentes na região ao longo de 2024.

Segundo o pesquisador do Departamento de Entomologia da Fiocruz Pernambuco e um dos autores do estudo, Gabriel Wallau, o trabalho documenta o estabelecimento do vírus na região. “Esse estudo caracterizou o estabelecimento do vírus oropouche no Nordeste em múltiplos estados, algo que até então não tinha sido descrito de forma ampla. Era um vírus típico da bacia amazônica, com registros pontuais em outras regiões, mas sem essa dinâmica de transmissão sustentada que observamos agora”, afirma.

Em Pernambuco, o estudo identificou duas linhagens distintas do vírus. A primeira, originada na região central do Amazonas, apresentou maior capacidade de dispersão e foi associada à propagação para estados vizinhos, como Sergipe e Paraíba. A segunda permaneceu restrita ao estado.

O município de Jaqueira, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, foi destacado como um dos principais pontos de disseminação regional. A partir dessa localidade, o vírus se espalhou para outros municípios do estado e avançou para estados vizinhos. “A gente conseguiu caracterizar dois grandes surtos no Nordeste, um em Pernambuco e outro na Paraíba, em anos diferentes, mostrando como o vírus se espalha e se estabelece em novos territórios”, explica Wallau.

A pesquisa também identificou padrões temporais na ocorrência dos casos. Em Pernambuco, o aumento das notificações ocorreu a partir de abril de 2024, com pico em junho, próximo ao final do período chuvoso. Em outros estados, como Ceará e Alagoas, o crescimento dos casos foi observado ao longo do segundo semestre do mesmo ano. Já na Paraíba, a transmissão local foi registrada no fim de 2024, com aumento expressivo no início de 2025. Outro ponto observado foi a relação entre a ocorrência da doença e fatores ambientais. Os períodos de maior incidência coincidiram, em geral, com meses de maior precipitação.

De acordo com o pesquisador, a distribuição dos casos também está relacionada ao tipo de vetor envolvido na transmissão. “Diferentemente de outras arboviroses, o oropouche não está associado principalmente ao Aedes aegypti. O principal vetor são os maruins, que se proliferam em áreas de mata e ambientes rurais. Isso ajuda a explicar por que os maiores surtos ocorreram em municípios pequenos e com interfaces com ambiente mais silvestre”, diz.

A análise espacial mostrou que cidades de menor porte apresentaram, proporcionalmente, maiores taxas de incidência. Em contrapartida, grandes centros urbanos registraram menor impacto relativo. Além disso, os resultados indicam que o vírus pode ter circulado sem detecção por semanas ou meses antes do reconhecimento dos primeiros surtos. “Existe um intervalo entre a introdução do vírus e o aumento do número de casos. Isso sugere uma circulação silenciosa antes da identificação dos surtos”, afirma o pesquisador.

O estudo também reúne evidências de que a expansão do vírus não se restringe mais à Amazônia. “O que a gente observa é que há condições ambientais e populacionais favoráveis para a ocorrência de novos surtos em outras regiões do país. Isso amplia o número de pessoas potencialmente expostas ao vírus”, ressalta Wallau.

A febre de oropouche é uma arbovirose que apresenta sintomas como febre alta, dor de cabeça, dores musculares e articulares, podendo ser confundida com outras doenças como dengue, zika e chikungunya. Além disso, casos raros de abortos e partos precoces em mulheres grávidas também foram registrados neste último grande surto (2023-2025) no Brasil.




Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 12/05/2026