sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Projeto ajuda a promover a cultura da inovação na rede Cefet/RJ

Débora Motta

Alunos do Cefet/RJ testam sistema de escoamento de águas durante grandes enchentes no Rio de Janeiro, na maratona de inovação Expin 48, que desafia estudantes a criarem soluções tecnológicas e sustentáveis na rede de ensino (Fotos: Divulgação)



Referência na formação de profissionais e especialistas na área tecnológica, o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ) oferta 5.371 vagas anuais e atende a mais de 20 mil estudantes, distribuídos em 37 cursos técnicos, 35 cursos de graduação, sete especializações, 10 mestrados e cinco doutorados. Ali, no campus Maracanã, o professor titular Marco Antonio Barbosa Braga, que é físico com Doutorado em Engenharia de Produção, vem desenvolvendo um projeto para ajudar a promover a cultura da inovação entre os alunos da instituição. Coordenador do Laboratório de Novos Ambientes para Inovação e Desenvolvimento Sustentável (N@melab), Braga foi contemplado pela FAPERJ, por meio do edital Cientista do Nosso Estado.

Ele recorda que o Cefet/RJ tem uma longa tradição e, ao longo dos anos, vem acompanhando o processo de transformação do parque industrial brasileiro. “Temos refletido bastante sobre a questão da inovação, que está em voga agora, e precisamos adaptar o perfil das instituições de ensino para atender às necessidades de um mercado mais inovador. O Cefet foi criado em 1917, sob a denominação de Escola Normal de Artes e Ofícios Wenceslau Braz, para atender à necessidade de formação de recursos humanos das manufaturas da época. Em 1942, o então presidente Getúlio Vargas mudou esse perfil, e a instituição passou a ser chamada de Escola Técnica Nacional, para formar técnicos industriais. Em 1978, passou a se chamar Cefet, como autarquia especial e, agora, essa mesma instituição continua se reformulando de acordo com as transformações tecnológicas do País, e precisa atender aos desafios atuais do mercado, já como Universidade Federal de Ciência e Inovação”, contextualizou.

Uma nova legislação federal (Lei nº 15.521/2026) acaba de dar ao Cefet/RJ e ao Cefet de Minas Gerais o status de universidade. Agora, eles passam a ser denominados universidades federais de Ciência e Inovação (UFCI/RJ e UFCI/MG). A nova lei estabelece que ambas as instituições passam a ter organização, estrutura e competências compatíveis com as universidades, com autonomia administrativa, financeira, patrimonial, didático-científica e disciplinar, além de terem reitor, vice-reitor e um Conselho Universitário como órgão deliberativo e consultivo. A transformação também amplia as possibilidades de acesso a editais e linhas de fomento destinadas às universidades, ampliando as perspectivas de captação de recursos.

O Brasil está na 53ª posição do Índice Global de Inovação 2026, ranking elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), entre 139 nações pesquisadas. É um posto abaixo do obtido no índice anterior, mas o País teve um avanço, já que estava na 62ª posição em 2020. “Nesse cenário, nossa contribuição, no Cefet/RJ, é incentivar a formação de uma cultura de inovação e empreendedorismo entre os jovens, ainda em idade escolar. Existem diversos projetos para fortalecer a inovação, mas poucos voltados especialmente para a formação desse público de estudantes. Esse é o nosso diferencial”, afirmou Braga.

Marco Braga: coordenador do laboratório N@melab, ele esteve em um campo de refugiados da ONU no Malawi, na África, para ajudar a implementar estratégia sustentável de geração de energia eólica


No N@melab, ele incentiva projetos que busquem soluções para questões sociais que afetam os alunos no estado do Rio de Janeiro e até na África, em parceria com escolas locais. “O nosso laboratório investiga a educação para a inovação em diferentes níveis de ensino. A ideia é aprender a inovar a partir de problemas concretos extraídos da realidade. Por serem jovens da Educação Básica, os alunos não conhecem os problemas do mundo do trabalho. A realidade deles vem das comunidades onde vivem, dos territórios e das cidades. São problemas ligados à escola, à moradia, ao saneamento básico, à saúde e à mobilidade urbana. O ponto de partida, com eles, é a inovação social. O importante é implementar, de fato, as mudanças propostas, com soluções concretas que vão além das feiras de ciências”, detalhou.

Entre os temas trabalhados com os estudantes, estão: a busca de soluções para o descarte de resíduos no Morro da Providência, na região central do Rio; a geração de energia no campo de refugiados de Dzaleka, localizado no Malawi, país no Sudeste da África – classificado em diversos rankings internacionais como um dos cinco países mais pobres do mundo; e a melhoria da qualidade da água potável em uma escola rural em Nova Friburgo.

“No Morro da Providência, a primeira favela do Brasil, o lixo é de difícil retirada porque os caminhões não chegam lá. Depois de descobrir que é possível produzir eletricidade a partir do lixo, os estudantes do oitavo ano de uma escola da rede pública, na Pequena África, visitaram a usina da Comlurb no Caju, onde esse processo é realizado, e vêm buscando soluções inovadoras para engajar a comunidade na coleta diferenciada de resíduos orgânicos e não-orgânicos. Essa atividade estimulou os jovens a pesquisarem sobre o processo de produção de energia a partir de resíduos sólidos urbanos”, disse.

A partir da cooperação internacional com o Cefet/RJ, professores e alunos do campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, preparam protótipo de um gerador de energia eólico, feito a partir de resíduos encontrados no campo


Estreitando laços de cooperação científica entre Brasil e África, o projeto no campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, teve como desdobramento a instalação de um espaço de inovação para instalação de uma bomba d’água movida a energia eólica. No local, gerido pela Organização das Nações Unidas (ONU), vivem 60 mil refugiados, e há uma escola que atende cerca de dois mil alunos. “Professores da Ubuntu Nation School e da Eagles Junior Academy pediram ajuda ao N@melab para desenvolver projetos inovadores com os estudantes. Em 2023 e 2024, foram realizadas oficinas-piloto de formação dos professores. Em 2027, o projeto será retomado com a inauguração de um Espaço Maker de Inovação STEAM (voltado às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e para as crianças do campo. Será desenvolvida uma oficina de formação, e os professores terão acompanhamento por meio de um canal na internet”, contou.

Já em Nova Friburgo, na Região Serrana, eles trabalharam para melhorar a qualidade da água potável em uma comunidade rural. “Embora a água seja de nascente, chega à escola bastante suja. Os estudantes bebiam essa água. Uma turma multisseriada, com alunos entre 9 e 12 anos, identificou esse problema como o mais grave da comunidade e procurou construir um filtro baseado em materiais de sucata. Ele não foi construído, mas foi instalado um filtro industrial na escola, em 2024”, disse. “Essas ações nas escolas ajudam a aproximar os jovens de comunidades vulneráveis dos modelos de inovação e a pensarem em soluções sociais”, concluiu.

Braga também é autor do livro Aprendendo a inovar em projetos STEAM – Um guia para estudantes, consagrado como finalista do 64º Prêmio Jabuti em 2022. A obra destaca-se no cenário educacional brasileiro ao abordar a metodologia STEAM e a Aprendizagem Baseada em Projetos (PbL), auxiliando estudantes a desenvolver competências voltadas para a inovação, criatividade e sustentabilidade.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 29/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1140.7.3

Aplicativo ajuda entregadores na organização financeira e no cálculo do ganho real

Paula Guatimosim

No Brasil, cerca de dois milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos (apps), em sua maioria por conta própria, segundo pesquisa


O Brasil possui cerca de dois milhões de pessoas que trabalham por meio de aplicativos (apps), em sua maioria por conta própria, segundo resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada em setembro passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa revela que o contingente de 1,959 milhão de trabalhadores por apps, com 14 anos ou mais, representavam 1,9% do total de ocupados no País. Enquanto quase 60% dos trabalhadores “plataformizados” utilizam apps de transporte de passageiros, 19% atuam como entregadores de apps de comida, produtos etc.

Foi pensando neste contingente de profissionais que atuam com entregas como ocupação principal que o geógrafo Igor Dalla Vecchia, doutorando no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), idealizou o aplicativo batizado de Meu Corre. Disponível gratuitamente para smartphones, o app de organização financeira preenche uma lacuna histórica na produção de dados sobre o trabalho plataformizado no Brasil, disponibilizando os custos operacionais da atividade. Lançado em abril de 2024 para o sistema Android, o mais usado entre a categoria no mercado nacional, o Meu Corre tem cerca de 15 mil entregadores cadastrados em todo o País e, em breve, o app deverá entrar em teste em Portugal, onde há um contingente importante de brasileiros atuando como entregadores.

“A maioria dos entregadores trabalha para mais de uma plataforma, que informam apenas o valor pago ao entregador, ou seja, o valor bruto, mas não o ganho real, descontados os custos para realizar a entrega”, explica Dalla Vecchia. Com o Meu Corre, o entregador tem acesso aos registros dos ganhos e dos custos com o trabalho para diferentes plataformas, pode definir e acompanhar metas diárias, semanais e mensais, pode avaliar indicadores como ganhos por hora e por km rodado, além de exportar os dados individuais em formato de planilha.

Igor Dalla Vecchia: o geógrafo destaca que o app oferece a possibilidade de customização em que cada usuário pode acrescentar categorias pessoais


Dalla Vecchia, que está terminando o doutorado na Universidade de Halle-Wittenberg (Alemanha), conta que foi no início do seu projeto “Da Territorialização das Plataformas Digitais à Des-Re-Territorialização dos/as Trabalhadores/as no Brasil”, em 2019, que ele iniciou suas pesquisas em grupos de WhatsApp de entregadores. De início, ele identificou a necessidade de elaborar mapas digitais que ajudassem esses trabalhadores a localizar pontos seguros de espera, disponibilidade de banheiros, postos de combustível etc. Naquela época, existiam poucas pesquisas ou dados sobre a realidade específica dos entregadores de plataformas digitais, que acabaram sendo essenciais e ganhando destaque durante a pandemia. Segundo o pesquisador, o número de visualizações dos mapas digitais foi tão grande que ele e sua equipe logo pensaram numa forma de democratizar ainda mais as informações.

Compartilhando experiências profissionais e reflexões sobre suas demandas de trabalho com seu amigo Cristiano Dalbem, designer formado em Ciência da Computação, eles tiveram a ideia de transformar a pesquisa em produto digital. Em 2020, já em plena pandemia, com o apoio do programa Startup Rio, da FAPERJ, eles deram início ao desenvolvimento do aplicativo. Durante as rodadas de entrevistas remotas conduzidas, a equipe identificou que a maior urgência da categoria era a gestão financeira. "As plataformas mostram quanto os trabalhadores ganham, mas não mostram quanto eles gastam para trabalhar", explica Igor. Sem essa métrica, que desconta despesas como combustível, alimentação, manutenção de veículos e contabilidade (para os que são formais), o trabalhador atua sob a ilusão do rendimento bruto, sem conhecer seu ganho líquido real.

Outra vantagem do Meu Corre é a possibilidade de customização, ou seja, cada usuário pode acrescentar categorias pessoais de metas, gastos de diversas fontes de renda, calcula o tempo de deslocamento, velocidade e as paradas. “Mas foi a ferramenta de geolocalização que credenciou o projeto a se tornar um aplicativo”, esclarece Vecchia.

Meu Corre: usuários destacam a interface simples e as métricas em tempo real


O entregador Alexandre Guimarães foi um dos principais responsáveis pelo surgimento do projeto, e destacou-se como uma das lideranças no grupo de WhatsApp “Uber Eats + App RJ”. Foi ele quem propôs a criação de um mapa colaborativo da região metropolitana do Rio de Janeiro e, posteriormente, dialogou com Igor e Cristiano sobre a concepção do app, além de contribuir nos testes de usabilidade do protótipo.

O motoboy Christian Araújo, de Macapá, usa o Meu Corre desde 2024. Ele também foi um dos colaboradores para o aperfeiçoamento do app. “Eu estava procurando um programa que me ajudasse a controlar as receitas e despesas, mas nada me agradava. Tudo o que eu achava no mercado era muito carregado de informações, visualmente poluído e acabava me dando mais trabalho e cansando a vista”, explica Christian. Segundo ele, o Meu Corre é específico para a atividade de entregadores e muito objetivo. Para o motoboy, o Meu Corre, por sua vez, é um assessor financeiro, com interface simples de lidar, de inserir as informações e fornecer as métricas de receita e despesa em tempo real. “Com o app, eu consigo saber o custo da minha hora trabalhada e, entre outras coisas, optar por horários e dias mais vantajosos”, alega Christian, que se considera um “piloto de teste” do aplicativo e continua trocando informações com os desenvolvedores.

Christian Araújo: para o motoboy, o aplicativo funciona como um assessor financeiro na sua rotina de trabalho (Foto: arquivo pessoal)


Além de Igor e Cristiano, trabalharam na pesquisa outras nove pessoas, com habilidades diversas, que receberam capacitação e mentoria do programa da FAPERJ, voltado ao apoio de desenvolvimento de projetos e de uma cultura empreendedora. O projeto utiliza uma metodologia estatística baseada em um recorte de dois mil usuários mais regulares. O objetivo é, segundo Igor, produzir dados agregados a partir da realidade dos entregadores, com informações que possam nortear políticas públicas e servir de base para instituições e a comunidade acadêmica.

A ferramenta é totalmente gratuita, operando como uma infraestrutura digital independente capaz de unificar em um painel público as jornadas fragmentadas de profissionais que atuam simultaneamente em múltiplas plataformas, um cenário que costuma gerar distorções e "buracos" nas análises de dados institucionais ou corporativas. O Atlas, que recebeu financiamento alemão por meio do programa Prototype Fund, reunirá mapas, gráficos e recortes sociodemográficos dos trabalhadores (como gênero, idade e raça), além de cruzar dados de distribuição geográfica e metas de rendimento. Em paralelo, a ferramenta já passa por testes de adaptação cambial e de mercado para implementação em Portugal.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 29/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1131.7.2

Comissão Nacional dos ODS visita o programa PISTA na Rocinha

Cristina Cruz

Na Fábrica Sonora, na Rocinha, empreendedores locais confeccionam instrumentos musicais a partir de material reciclado, uma das inicitivas ligadas à economia criativa (Foto: Divulgação)


Representantes da Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (CNODS), parceiros do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e integrantes de instituições públicas visitaram, na manhã desta quarta-feira, dia 28 de outubro, o "PISTA Rocinha", na Zona Sul do Rio de Janeiro. A agenda teve como objetivo conhecer iniciativas de empreendedorismo, inovação social e sustentabilidade desenvolvidas na favela e relacionadas aos desafios da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). O programa PISTA: Conectando Territórios Inovadores foi lançado pela FAPERJ no início de 2025.

Durante a visita, a comitiva conheceu projetos que valorizam os empreendedores locais e apresentam soluções para questões sociais e ambientais, como o Rocinha Recicla, o Nós do Crochê, a Academia de Cinema da Rocinha e a Fábrica Sonora. A programação também incluiu visitas à Fábrica Criativa e ao projeto Florescer, na Rua 1.

A iniciativa busca aproximar representantes institucionais das experiências desenvolvidas no território, evidenciando como o empreendedorismo local pode contribuir para objetivos globais, como a redução das desigualdades, o trabalho decente, o crescimento econômico e a construção de cidades e comunidades sustentáveis.

Empreendedorismo e inovação na Rocinha

A programação começou às 9h, com um café da manhã com empreendedores na sede do PISTA Rocinha, localizada na Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC-RJ), no Complexo Esportivo. Em seguida, os participantes acompanharam uma apresentação técnica sobre o parque e sua metodologia de atuação, além de conhecerem o trabalho do Comitê de Resíduos e da Academia de Cinema da Rocinha.

Na sequência, a comitiva visitou o Rocinha Recicla e o Nós do Crochê, iniciativas que integram a diversidade de experiências empreendedoras desenvolvidas na favela. No CIEP, foram apresentadas as iniciativas Apresentação do Morro e Fábrica Sonora, ligadas à cultura e à economia criativa. O roteiro incluiu ainda uma visita pelo território, com passagem pela Rua 1, para conhecer a Fábrica Criativa e o projeto Florescer. A proposta foi apresentar aos participantes experiências que conectam geração de renda, criatividade, mobilização local e soluções para desafios do território.

Para a coordenadora-geral do Programa PISTA, Carol Müller, a visita representa uma oportunidade de dar visibilidade ao potencial dos empreendedores e às soluções construídas na favela. “Receber a Comissão Nacional dos ODS na Rocinha é uma oportunidade de mostrar o potencial dos empreendedores locais e como suas iniciativas podem contribuir para o desenvolvimento social, econômico e ambiental da favela”, destacou.

FAPERJ e o fortalecimento da inovação

A FAPERJ, vinculada à Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, atua no fomento à pesquisa científica, tecnológica e à inovação no estado. O fortalecimento de iniciativas que aproximam conhecimento, empreendedorismo e desenvolvimento territorial é importante para ampliar oportunidades e estimular soluções conectadas às necessidades da população.

O Nós do Crochê é uma das iniciativas empreendedoras desenvolvidas na favela da Rocinha e que recebem apoio do Programa PISTA (Foto: Divulgação)


Nesse contexto, programas voltados à inovação social podem contribuir para valorizar talentos locais, apoiar empreendimentos e estimular a criação de alternativas sustentáveis para desafios sociais, econômicos e ambientais. A presidente da FAPERJ, Caroline Alves, aponta a importância de iniciativas que aproximam inovação e desenvolvimento territorial. “Investir em iniciativas de inovação social é reconhecer o potencial das favelas para desenvolver soluções criativas e sustentáveis. O fortalecimento desses empreendimentos contribui para a geração de oportunidades, a valorização dos talentos locais e o desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro”, disse.

Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

A Agenda 2030 da ONU reúne 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos para orientar ações em áreas como erradicação da pobreza, saúde, educação, igualdade de oportunidades, trabalho decente, redução das desigualdades e proteção ambiental. As iniciativas apresentadas durante a visita dialogam com diferentes objetivos, especialmente o ODS 8, que trata de trabalho decente e crescimento econômico; o ODS 10, voltado à redução das desigualdades; o ODS 11, sobre cidades e comunidades sustentáveis; e o ODS 12, relacionado ao consumo e à produção responsáveis.

A Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável atua na articulação e no acompanhamento de ações relacionadas à implementação da Agenda 2030 no Brasil. A presença de representantes institucionais na Rocinha permitiu conhecer experiências locais que podem contribuir para o debate sobre desenvolvimento sustentável e inclusão social. Participaram da agenda integrantes da equipe central do PISTA e da equipe local da Rocinha, representantes da Secretaria Estadual do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS), da CNODS, da Prefeitura de Niterói e da área de Relações Internacionais do Governo do Estado do Rio de Janeiro.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 29/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1139.7.6

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Crenças acima da ética

Já era quase madrugada quando Maria percebeu que alguma coisa estava errada. Na época com 25 anos, ela foi até o quarto que dividia com a namorada e a encontrou desmaiada. Cibele, um ano mais nova, precisava de atendimento médico urgente após uma tentativa de suicídio. Logo Maria entrou em ação, ligando para a emergência e recebendo instruções do que fazer. Levou a namorada às pressas à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no Rio de Janeiro, enquanto ela oscilava entre o delírio e a perda de consciência.

Ao chegar lá, Cibele foi levada diretamente para uma sala, onde iniciaram um procedimento com uso de uma sonda. As enfermeiras que estavam atendendo logo começaram a fazer “cara feia”, como Maria contou à Radis. Quando Cibele reclamava de dor, chegou a ouvir frases como: “Agora tem que aguentar, ninguém mandou [fazer isso]”.

A namorada relatou sentir como se estivessem “castigando” Cibele. Ouviram frases falando de Deus ou lamentando por ser “uma menina tão bonita”. Atualmente estudante de Ciência da Computação e moradora do Rio de Janeiro, ela estava vivendo um quadro de depressão grave e, após esse episódio, conseguiu seguir o tratamento até a melhora.

Cibele disse que não gosta de lembrar desse momento da sua vida, por isso pediu para que não fosse identificada — os nomes usados na sua história são fictícios. Ela relata que não percebeu o que estava acontecendo por estar dopada, mas quando soube ficou triste e confusa. O seu caso, infelizmente, não é isolado.

Denúncias de tratamento antiético motivado por crenças e julgamentos morais de profissionais de saúde são constantes na imprensa. Em abril de 2025, uma paciente de um hospital público do Rio de Janeiro ouviu que “só Jesus salva, só Jesus liberta” quando reclamou sobre o desaparecimento de suas guias [fios de conta ligados às religiões de matriz africana]: elas haviam sido jogadas fora. A mulher tratava um câncer de mama, segundo noticiou o G1 (24/4/25).

No mesmo estado, em janeiro de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a um hospital particular que elaborasse um protocolo de atendimento aos pacientes praticantes das religiões de matriz africana. A decisão ocorreu após a denúncia de uma pessoa que sofreu queimadura de segundo grau no antebraço esquerdo durante procedimento cirúrgico na lombar. O homem afirmou que foi queimado exatamente onde havia uma tatuagem em homenagem ao orixá Ogum, conforme noticiado pela Folha de S. Paulo (9/1/24).

Situações em que convicções pessoais e religiosas interferem no atendimento de profissionais de saúde podem gerar diferentes formas de violência e violações de direitos. Essa é a discussão que Radis aborda: qual é o limite entre o que o profissional de saúde acredita e a ética profissional?
A palavra é respeito

A liberdade individual encontra limite quando passa a causar dano a outras pessoas. Essa ideia, associada ao filósofo inglês John Stuart Mill (1803-1876), é amplamente difundida nos estudos sobre ética. O pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), docente e coordenador-geral do Programa de Pós-graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva da Fiocruz, Sergio Rego, afirma que o ser humano é um ser social e deve-se levar em conta como as suas ações repercutem nas outras pessoas.

A base das decisões profissionais precisa ser técnica. “Ela não deve ser baseada na fé, na crença ou na interpretação específica de uma pessoa ou de um grupo acerca de escritos que são considerados sagrados”, afirma o médico, que também é membro do Conselho Científico da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB).

Na prática, todos têm direito à sua crença e ela pode ser válida para o indivíduo, mas não deve ser imposta ao outro. “A teodiceia é como a filosofia vai explicar as decisões de acordo com a vontade divina, o que inclui o sofrimento como sendo algo positivo, porque Jesus sofreu”, afirma Sergio. Segundo ele, existem religiões que pregam que o sofrimento é uma punição. De acordo com esse raciocínio, se a pessoa acredita que uma tentativa de suicídio ou aborto é pecado, ela vai entender que precisa de punição.

Sergio explica que essas visões podem também ser influenciadas por concepções políticas. “Uma vez eu estava no elevador de um hospital e ouço um estudante comentando com outro em voz alta: ‘Esse plantão, eu suturei um bandido sem anestesia, mandei amarrar na maca e o bicho pulava que nem porco’”, relembra. Ele declara que há algo de perverso na forma como esses profissionais estão sendo formados e comprendem a sua missão, a ponto de se sentirem confortáveis em relatar isso em público.

O que a pessoa acredita não deveria importar para fins de exercício profissional, principalmente no atendimento em saúde, no qual ele é a autoridade e existe desequilíbrio de poder, afirma Sergio. “No exercício profissional, uma palavra que é fundamental é: respeito”, declara.

“Para a gente saber o que é melhor para outra pessoa, a gente tem que perguntar”, diz. O pesquisador explica que nem sempre se colocar no lugar do outro é suficiente. “O máximo que vou conseguir é imaginar como eu, com os meus valores, história de vida e crenças, reagiria se estivesse nessa situação específica”, reflete.

Para isso, é importante a defesa de direitos como autonomia do paciente, autodeterminação, consentimento e confidencialidade, acrescenta Sergio. Esses e outros direitos estão agora assegurados na Lei nº 15.378, sancionada em abril de 2026, que institui o Estatuto dos Direitos do Paciente.

Sergio explica que a lei é uma conquista, mas sozinha não é suficiente. “Precisamos fazer com que seja implementada”, diz. “É importante que tenha comissões de bioética, de direitos dos pacientes e ouvidorias dentro dos hospitais, para que essas denúncias possam chegar a quem é de direito”, completa.

As pessoas têm medo de denunciar porque o desequilíbrio de poder é grande. De acordo com o pesquisador, é comum o receio de uma retaliação, por isso a necessidade de existir uma estrutura que possa fazer essa mediação. Ele explica que uma régua importante da ética é se perguntar se quem cometeu o ato teria coragem de assumir o que fez e arcar com as consequências.


Direitos Garantidos pelo Estatuto do PacienteAutonomia e Consentimento: permite aceitar ou recusar procedimentos após receber informações claras
Diretivas Antecipadas: validade de declarações escritas com escolha ou recusa de tratamento para quando o paciente não puder se expressar
Direito ao acompanhante: em internações e procedimentos
Informação e Sigilo: acesso ao prontuário médico, respeito à privacidade e confidencialidade dos dados
Atendimento sem qualquer tipo de discriminação (religião, sexo, raça, orientação sexual, identidade de gênero, entre outras)
A violência afasta pacientes

Aos 23 anos, Laila Marques, relações públicas (RP), marcou uma consulta com uma ginecologista em sua cidade, São Luís (MA). Durante o atendimento, contou que queria fazer o preventivo e respondeu às perguntas básicas, como a data da última menstruação. Quando perguntada sobre métodos contraceptivos, explicou que não usava nenhum e, antes mesmo de conseguir continuar, foi interrompida pela médica, que começou um grande sermão sobre riscos de gravidez, chamando-a de irresponsável e afirmando que ela era muito jovem. A RP também notou que em nenhum momento ela falou sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), apenas gravidez.

Quando, enfim, acabou o sermão, Laila explicou que é uma mulher lésbica, que estava em um relacionamento exclusivo há alguns meses e por isso não usava contraceptivos. O tom da profissional ficou ainda mais agressivo e ela se recusou a fazer o preventivo na paciente, afirmando que, “por ela ainda não ter tido relações sexuais”, não poderia fazer, considerando relação sexual apenas a heterossexual.

Laila exigiu o procedimento, já que a consulta havia sido paga, afirmando que era “lésbica e não virgem”. Porém, como estava muito nervosa pela situação, o preventivo foi bem doloroso. A RP conta que agora, com 32 anos, teria uma postura diferente, simplesmente teria ido embora.

Experiências como essa acabaram fazendo Laila ter um pouco de receio de ir a consultas. Ainda mais por ser uma mulher preta e gorda e, por causa de suas características, sempre ser avaliada de forma superficial e com preconceitos. Ela tenta não deixar de fazer suas consultas de rotina, mas guarda o trauma.

O corpo de pessoas com vagina e os direitos reprodutivos são assuntos delicados quando se fala de respeito ao limite profissional. Outro exemplo é como abortos legais são desencorajados ou negligenciados. Crianças e adolescentes vítimas de estupro muitas vezes têm seu direito negado por pessoas que se posicionam contra o aborto [Leia mais sobre na Radis 283].

Em agosto de 2020, uma menina de apenas 10 anos, grávida vítima de estupro, teve que sair da sua cidade no Espírito Santo e procurar atendimento em Recife (PE), por meio de ação judicial. A criança, que foi estuprada pelo tio desde os 6 anos, foi recebida junto com a avó por ativistas radicais pró-vida na frente do hospital, com cartazes chamando o médico que faria o procedimento de “assassino”.

O movimento Católicas pelo Direito de Decidir, que defende o direito da mulher às decisões relacionadas ao próprio corpo, incluindo o aborto, lançou a cartilha “Ética Profissional e Ética Cristã”, que tenta dialogar sobre crises e conflitos de crenças em pessoas cristãs.

O pesquisador Sergio afirma que, de acordo com a Constituição Brasileira, a vida — nesse caso, desde a concepção — “não pertence ao indivíduo, é um bem tutelado pelo Estado”. A proibição do aborto em qualquer situação e da eutanásia são exemplos disso.
Psicólogos cristãos

A psicóloga G*, de Goiânia, com 32 mil seguidores no Instagram, foi denunciada ao Conselho Regional de Psicologia (CRP) por se autodeclarar “psicóloga cristã”. Em um vídeo em sua página, defendeu-se dizendo que o motivo da denúncia foi o fato de “ter expressado sua fé”. A situação, na verdade, é que ela produz conteúdo nas redes sociais em que utiliza a autoridade de psicóloga para falar de saúde mental aliada a valores evangélicos.

Ela conta que ora pelos pacientes antes de cada sessão e agradeceu por ter tido a “honra de ser denunciada em nome de Deus”, mas defende que sua prática terapêutica não discrimina ninguém. E não parou de produzir os vídeos após a denúncia.

Uma busca feita por Radis nas redes sociais identificou outros perfis que utilizam a mesma nomenclatura e defendem essa “especialidade” na psicologia. Existem, inclusive, cursos de graduação e pós-graduação unindo a formação em Psicologia com a visão cristã. Os anúncios falam que as pessoas sentem que “a espiritualidade aparece na prática com mais frequência do que a formação universitária preparou para enfrentar”.

Os valores dos cursos variam entre R$ 500 e R$ 10 mil e alguns afirmam ter o reconhecimento do Ministério da Educação. Um deles, que se denomina “psicoteológico”, tem como objetivo estimular a fé e a ética cristãs nas atividades profissionais ligadas à psicologia, psiquiatria e afins. Defende a igreja como corpo de Cristo e como comunidade terapêutica [Leia sobre os riscos de aliar saúde mental com religião nas comunidades terapêuticas na Radis 284].


Ivani explica que, ainda que o profissional acredite que a sua espiritualidade é positiva para a saúde mental, não deve mencionar ou induzir isso em nenhum espaço — Foto: CFP.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) se manifestou sobre o assunto por meio da Resolução nº 07/2023 que dispõe sobre a laicidade no exercício da profissão. Em entrevista à Radis, Ivani Oliveira, mestra em Psicologia com ênfase em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e presidenta do CFP, explica que a instituição tem o compromisso inegociável da psicologia com a ciência, a ética e a defesa irrestrita dos direitos humanos.

Na prática, significa dizer que o profissional pode ter sua crença religiosa como direito individual e inalienável do cidadão, protegido pela Constituição Federal, afirma Ivani. “O limite ético e técnico ocorre no exato instante em que o profissional utiliza a sua posição de autoridade científica, o espaço do consultório, a divulgação pública da profissão ou o título de psicóloga(o) para induzir, impor ou promover dogmas e convicções pessoais”, explica.

Ivani defende que, enquanto a fé permanece no âmbito da vida privada do cidadão, ela é uma expressão individual livre. A partir do momento em que é levada para o atendimento ou para a publicidade dos serviços — incluindo as redes sociais —, ela invade o campo ético, fere a laicidade e compromete o rigor científico da profissão.

A respeito da denominação “psicologia cristã” e sobre os cursos, Ivani ressalta que a psicologia é uma ciência e profissão regulamentada, cujos métodos e intervenções derivam do acúmulo científico universal, testado, validado e plural. “Ao atrelar a palavra psicologia a um recorte confessional específico, seja ‘cristã’, ‘espírita’ ou de qualquer outra matriz, cria-se um conceito híbrido que induz a sociedade ao erro. O público passa a acreditar que dogmas, doutrinas ou preceitos morais de uma religião possuem validação científica”, diz.

A presidenta do CFP conta que continuamente chegam demandas e denúncias ao Sistema de Conselhos sobre a Resolução 07/2023, como o caso relatado nesta reportagem. “Recebemos denúncias que envolvem desde o uso de redes sociais para ofertar ‘terapias confessionais’ atreladas ao título de psicólogo(a), até relatos de pacientes que sofreram tentativas de direcionamento moral ou doutrinário em sessão, incluindo violência simbólica contra a diversidade sexual e de gênero”, afirma. Segundo ela, todas as denúncias tramitam sob o devido processo legal nos CRPs, assegurando o contraditório e a ampla defesa.

Ainda que o profissional acredite que a sua espiritualidade é positiva para a saúde mental, não deve mencionar ou induzir isso em nenhum espaço. Ivani explica que, embora a religiosidade possa funcionar como fator de suporte para muitas pessoas, também pode ser fonte de intenso sofrimento psíquico, culpa e repressão (como nos casos de rejeição familiar por motivos religiosos). “Pressupor que a fé é um bem universal limita a avaliação profissional para as contradições do sujeito e impõe um viés moral sobre a experiência do paciente”, declara.



Para Ivani Oliveira o compromisso da psicologia deve ser com a ciência, a ética e a defesa dos direitos humanos — Foto: CFP.


Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 20/10/2026
Publicação Original: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/etica-profissional/crencas-acima-da-etica/

“A clínica deve ser laica”



Apresença da espiritualidade no cotidiano profissional é o ponto de partida para uma oferta que vem ganhando espaço nas redes sociais: cursos que aproximam a psicologia da visão cristã. Uma busca realizada por Radis nas redes sociais identificou diferentes perfis que utilizam a nomenclatura “psicologia cristã” e defendem essa “especialidade” na profissão. Há, inclusive, oferta de cursos de graduação e pós-graduação que combinam a formação em psicologia com uma perspectiva cristã.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre oferta de cursos ou atendimento. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) já se manifestou sobre o tema por meio da Resolução nº 07/2023, que dispõe sobre a laicidade no exercício da profissão. Em entrevista à Radis, Ivani Oliveira, mestra em Psicologia, com ênfase em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atual presidenta do CFP, explica que a instituição tem como compromisso inegociável a relação da psicologia com a ciência, a ética e a defesa irrestrita dos direitos humanos.

Em que momento a manifestação da crença pessoal do profissional deixa de ser uma expressão individual e passa a interferir no exercício da psicologia?

Como presidenta do CFP, reforço que a crença religiosa é um direito individual e inalienável do cidadão, protegido pela Constituição Federal. O limite ético e técnico ocorre no exato instante em que o profissional utiliza a sua posição de autoridade científica, o espaço do consultório, a divulgação pública da profissão ou o título de psicóloga(o) para induzir, impor ou promover dogmas e convicções pessoais. Enquanto a fé permanece no âmbito da vida privada do cidadão, ela é uma expressão individual livre. A partir do momento em que é levada para o atendimento ou para a publicidade dos serviços, ela invade o campo ético, fere a laicidade e compromete o rigor científico da nossa profissão.

Por que o CFP entende que “psicologia cristã” não pode ser considerada uma modalidade ou especialidade da psicologia?

Reafirmo que a psicologia é uma ciência e uma profissão regulamentada, cujos métodos e intervenções derivam do acúmulo científico universal, testado, validado e plural. Ao atrelar a palavra psicologia a um recorte confessional específico, seja “cristã”, “espírita” ou de qualquer outra matriz, cria-se um conceito híbrido que induz a sociedade ao erro. O público passa a acreditar que dogmas, doutrinas ou preceitos morais de uma religião possuem validação científica. Nós, no CFP, não proibimos a fé de nenhum profissional, mas não admitimos a apropriação do título profissional para rotular práticas de aconselhamento religioso como se fossem modalidades da ciência psicológica.
Para Ivani Oliveira o compromisso da psicologia deve ser com a ciência, a ética e a defesa dos direitos humanos — Foto: CFP.

Chegaram denúncias relacionadas à interferência de crenças religiosas no exercício da Psicologia aos Conselhos desde a publicação da Resolução 07/2023?

Sim. O Sistema Conselhos, sob a nossa coordenação e a dos Conselhos Regionais (CRPs), recebe continuamente demandas e denúncias relativas ao descumprimento do nosso Código de Ética e das nossas resoluções. Desde que publicamos a Resolução CFP nº 07/2023, recebemos denúncias que envolvem desde o uso de redes sociais para ofertar “terapias confessionais” atreladas ao título de psicólogo(a), até relatos de pacientes que sofreram tentativas de direcionamento moral ou doutrinário em sessão, incluindo violência simbólica contra a diversidade sexual e de gênero. Todas as denúncias tramitam sob o devido processo legal nos CRPs, assegurando o contraditório e a ampla defesa.


“O paciente traz a sua fé como elemento da sua vivência, o profissional deve acolher essa dimensão; no entanto, a leitura analítica e a resposta clínica devem ser rigorosamente laicas e científicas”

O profissional pode utilizar conceitos religiosos para interpretar o sofrimento psíquico de um paciente?

Não. Nossa orientação é: a escuta e a intervenção da psicóloga e do psicólogo devem se dar estritamente com base nos referenciais teóricos e metodológicos reconhecidos pela ciência. Interpretar a dor ou o sofrimento psíquico por meio de conceitos como “pecado”, “provação divina” ou “fraqueza espiritual” descaracteriza a atuação técnica e transfere o atendimento para o campo da orientação pastoral. Destaco uma distinção fundamental: se o paciente traz a sua fé como elemento da sua vivência, o profissional deve acolher essa dimensão; no entanto, a leitura analítica e a resposta clínica devem ser rigorosamente laicas e científicas.

Um psicólogo pode se recusar a atender uma demanda porque ela entra em conflito com suas convicções religiosas?

O nosso Código de Ética prevê que a(o) profissional pode indicar o encaminhamento do paciente quando avaliar que não possui condições pessoais ou técnicas para realizar aquele atendimento de forma isenta. Contudo, reforço que essa recusa não pode se converter em ato de discriminação. É dever profissional realizar o encaminhamento adequado, priorizando sempre o cuidado e a integridade daquele sujeito.


“Pressupor que a fé é um bem universal limita a avaliação profissional”

Existe risco de o profissional pressupor que a espiritualidade é necessariamente positiva para a saúde mental? Qual é o risco ético de apresentar uma abordagem religiosa como modalidade reconhecida?

Embora a religiosidade possa funcionar como fator de suporte para muitas pessoas, alerto que ela também pode ser fonte de intenso sofrimento psíquico, culpa e repressão (como nos casos de rejeição familiar por motivos religiosos). Pressupor que a fé é um bem universal limita a avaliação profissional para as contradições do sujeito e impõe um viés moral sobre a experiência do paciente. De forma semelhante, apresentar uma abordagem confessional como se fosse uma modalidade científica reconhecida gera uma grave violação do direito à informação. O paciente nos busca em situação de vulnerabilidade confiando no respaldo ético da psicologia; submetê-lo a intervenções religiosas disfarçadas de ciência é violar sua autonomia e expô-lo a práticas sem comprovação metodológica.


Autor: fiocruz

Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 20/10/2026

Crise global, problemas regionais, respostas locais

As mudanças climáticas já são realidade e os indícios são claros. Agosto de 2026 empatou com julho de 2023 como o período mais quente da história, com os termômetros registrando temperatura média de 16,96 graus Celsius. Dados divulgados pelo serviço europeu de monitoramento climático Copernicus indicam que o aquecimento global provocado pela queima de carvão, petróleo e gás natural resultou no aumento de 1,65 grau Celsius da temperatura, ultrapassando o limite de 1,5 grau estabelecido pelo Acordo de Paris.


Ondas de calor extremo, incêndios florestais e inundações acontecem em diferentes continentes; no Hemisfério Norte, o verão bateu todos os recordes históricos; nos oceanos, a temperatura média da superfície do mar atingiu 21,07 graus Celsius, em agosto. A situação tende a se agravar, alertam os cientistas, com os efeitos do El Niño, que deve intensificar eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas. Os impactos já afetam economias e ecossistemas em todo o planeta, inclusive no Brasil.

Por aqui, os alertas são visíveis e preocupantes, já que o fenômeno pode amplificar riscos já existentes em territórios marcados por desigualdade, ocupação de áreas suscetíveis a inundação e deslizamento, déficit de saneamento, fragilidade da infraestrutura urbana e exposição crescente a calor, seca, queimadas e insegurança hídrica, como aponta nota técnica produzida pelo Observatório de Clima e Saúde, ligado ao Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) [Leia mais sobre os efeitos do El Niño na Radis 287].



Radis preparou, nesta edição, uma série de matérias sobre as estratégias de adaptação climática, com foco nos caminhos para reduzir os impactos sobre diferentes populações, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade. Como as cidades, o SUS e os territórios estão respondendo a esse cenário e o que ainda é preciso fazer para que as políticas públicas estejam atentas à emergência climática?



Autor: fiocruz

Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 22/10/2026

Estudo abre novas perspectivas para o tratamento do câncer de mama

O biólogo Marco Abreu, ladeado pelos parceiros na pesquisa, os professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da UFRJ (Fotos: Divulgação)


Um estudo pioneiro, que avalia a elevação da taxa de fosfato no sangue de pacientes com câncer de mama, pode abrir novas perspectivas para o desenvolvimento de fármacos capazes de inibir a proliferação das células cancerígenas e o avanço dessa neoplasia maligna que, no Brasil, é a que mais causa morte entre as mulheres. A agressividade dos tumores, o metabolismo e a alimentação das pacientes também são analisados no projeto, realizado em parceria por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que conta com o apoio da FAPERJ. De acordo com os responsáveis pela pesquisa, este é o primeiro trabalho, no País, a relacionar esse tipo de câncer à alimentação. Todos os anos, no presente mês, a campanha internacional "Outubro Rosa" procura incentivar a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama.

Como as células tumorais se multiplicam de forma intensa, precisam de grandes volumes de fosfato, que fornece a elas a energia que necessitam. “Por isso, estudos indicam que a disponibilidade do mineral pode contribuir para o crescimento dos tumores. Daí a importância de avaliar a dieta das pessoas em tratamento”, explica o coordenador do projeto, o biólogo Marco Antonio Lacerda Abreu, pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT), do Departamento de Bioquímica (DBq), do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag) da Uerj.

Para desenvolver o estudo, 70 pacientes atendidas no Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ doaram uma amostra de 10 ml de sangue antes de realizarem a cirurgia, e responderam a um questionário sobre seus hábitos alimentares. Os pesquisadores também retiraram amostras do tumor e de tecido saudável. Um grupo de 24 voluntárias saudáveis também participou. O nível de fosfato no sangue das pacientes foi comparado ao de mulheres sem a doença e relacionado às características do tumor, ao metabolismo e à alimentação.

Novas contribuições para o estudo do câncer de mama

Uma das principais contribuições do estudo foi mostrar que as pacientes com câncer de mama apresentavam mais fosfato no sangue do que as mulheres sem a doença. Entretanto, os níveis de cálcio, mineral que costuma acompanhar o fosfato, permaneceram semelhantes entre os dois grupos. Isso indica que a alteração foi específica do fosfato.

A pesquisa apontou também que, quanto mais elevado era o nível de fosfato, mais alto era o grau dos tumores das pacientes e mais avançado era o estágio da doença. “O fosfato esteve associado a características que indicam maior agressividade da doença”, explicou Abreu, mestre e doutor em Química Biológica pelo IBqM/UFRJ. O pesquisador também fez pós-doutorado no instituto e, em fevereiro de 2026, foi convocado para assumir uma vaga no Ibrag/Uerj.

Outra conclusão do estudo foi mostrar uma possível influência da alimentação no volume de fosfato registrado no sangue das pacientes. “O fosfato no sangue acompanhou a frequência de consumo de alimentos ricos nesse mineral, sugerindo que a alimentação pode ter contribuído para os níveis observados”, explicou Abreu, cujo trabalho foi financiado pelo Programa Apoio ao Jovem Pesquisador Fluminense Sem Vínculo Empregatício, da FAPERJ.

A hiperfosfatemia – elevado volume de fosfato no sangue – pode ter diferentes causas, entre elas a alimentação. A substância está presente, de forma natural, nas carnes, nos grãos, no leite e nos ovos, mas, sobretudo, nos produtos ultraprocessados, onde é utilizada como aditivo. A associação do excesso de fósforo a casos de câncer de mama já havia sido apontada em estudos realizados no exterior.

Entretanto, é preciso lembrar que outros fatores podem estar relacionados à elevação do nível de fosfato no sangue. O principal deles é a Doença Renal Crônica, ocasionada pela diminuição da capacidade dos rins filtrarem o fósforo. Outra possível causa é o hipoparatireoidismo, queda na produção do hormônio da paratireoide, e a destruição celular intensa.

Outro aspecto que não pode ser esquecido é o fato de o fosfato ser um elemento imprescindível para a saúde. Ele está presente no DNA, nos ossos e na molécula que leva energia às células, ou seja, sem o mineral não haveria vida.

A pesquisa liderada por Marco Abreu apontou, ainda, uma relação entre a elevação do fosfato no sangue e o estresse oxidativo no organismo. “Análises complementares mostraram que níveis mais altos de fosfato também estiveram associados a sinais de estresse oxidativo, um desequilíbrio químico que pode favorecer a progressão do tumor”, explicou.

O projeto, que continua em curso, conta com a parceria dos professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do HUCFF, e da equipe do Serviço de Anatomia Patológica da unidade. Também colaboram os professores José Roberto Meyer-Fernandes, que foi o orientador de Marco Abreu no doutorado; Cláudia Fernanda Dick; e Adalberto Ramon Vieyra, todos do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM) da UFRJ; e as professoras Tatiana Simão e Patrícia Reis, do Departamento de Bioquímica (DBq) do Ibrag/Uerj.

Resultado do estudo é fruto de quase 10 anos de pesquisas
Marco Abreu: coordenador do projeto, o pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT) da Uerj está à frente do estudo que avalia a importância da dieta para pacientes com câncer de mama


Abreu faz questão de lembrar que o estágio atual do estudo é resultado de quase uma década de trabalho intenso, que partiu de células cultivadas no Laboratório de Bioquímica Celular do IBqM e chegou até às pacientes atendidas pelo Hospital Universitário da UFRJ. Segundo ele, o primeiro passo foi mostrar que as células de câncer de mama possuem “portas de entrada” próprias para captar o fosfato. “Com isso, foi possível começar a entender como o tumor obtém esse mineral em grande quantidade”.

Na sequência, o grupo de pesquisa conseguiu descrever as enzimas presentes na superfície das células tumorais, que liberam o fosfato ao redor do tumor. “Dessa forma, ficou claro que o tumor não apenas capta o mineral, mas também contribui para aumentá-lo à sua volta”, informou o pesquisador.

“Um passo decisivo veio com a observação de que o excesso de fosfato leva as células de câncer de mama mais agressivas a produzir moléculas oxidantes, o que favorece comportamentos típicos de tumores agressivos. Além disso, quando essas células recebiam um antioxidante, parte desses efeitos era revertida”, explicou Abreu. As pesquisas resultaram em alguns artigos, entre eles um sobre hiperfosfatemia, publicado no periódico Cellular Signalling, em julho de 2026.

Mais adiante, o projeto, iniciado em laboratório, chegou até o hospital, onde a equipe passou a fazer a dosagem do fosfato presente no sangue das mulheres com câncer de mama.

Segundo Marco Abreu, o próximo passo é estudar, novamente em laboratório, as células do tumor das pacientes que participaram do estudo. A intenção é entender como o fosfato atua no câncer de mama e tentar identificar novos alvos de tratamento. O propósito é estudar a proteína que controla a proliferação das células cancerígenas e buscar um fármaco que iniba a sua ação.



"Caso os resultados sejam confirmados em estudos com um número maior de pacientes, a dosagem de fosfato no sangue, um exame simples e de baixo custo, poderá futuramente contribuir para a avaliação da agressividade do câncer de mama", destaca Abreu. Segundo o pesquisador, a associação entre níveis elevados de fosfato e características de maior agressividade tumoral sugere que esse mineral pode ser investigado como um potencial biomarcador complementar. "Nosso objetivo é compreender melhor essa relação e avaliar se, no futuro, o fosfato poderá auxiliar na identificação de pacientes com tumores mais agressivos, contribuindo para estratégias de acompanhamento e tratamento mais individualizadas", concluiu.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 22/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1128.7.4