quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Como está a mudar o Mediterrâneo? 40 anos de dados revelam o impacto das alterações climáticas

IEO cria CARIMED, produto de observações do Mediterrâneo sobre carbono inorgânico e variáveis básicas

Direitos de autor Arturo Rodríguez. IEO-CSIC


Cientistas espanhóis, em colaboração com investigadores de instituições europeias e dos Estados Unidos, reuniram dados de 46 campanhas oceanográficas realizadas entre 1976 e 2018 para estudar a evolução do Mediterrâneo e avaliar melhor os efeitos das alterações climáticas.

Temperatura, oxigénio, pH, carbono e até a idade das massas de água. Mais de 40 anos de medições permitem agora recuar no tempo para estudar como o Mediterrâneo se está a transformar e perceber melhor que mudanças a crise climática está a provocar nas suas águas.

Investigadores dos centros oceanográficos da Corunha e das Baleares do Instituto Espanhol de Oceanografia (IEO-CSIC), em colaboração com cientistas de instituições europeias e dos Estados Unidos, reuniram dados de 46 campanhas oceanográficas realizadas entre 1976 e 2018 em praticamente todo o Mediterrâneo.

O resultado é o Carimed, uma nova base de dados que permite comparar medições recolhidas ao longo de quatro décadas e acompanhar a evolução de indicadores como a temperatura, o oxigénio ou o pH. Até agora, parte dessa informação estava dispersa por diferentes arquivos e tinha sido obtida em campanhas realizadas em momentos distintos e com métodos diferentes.
Relate

Comparar o Mediterrâneo de há quatro décadas com o atual pode ajudar a distinguir as suas variações naturais das alterações que se mantêm no tempo e a compreender melhor como está a responder às alterações climáticas. Segundo o IEO-CSIC, (fonte em espanhol) os dados vão permitir seguir essas tendências a longo prazo e perceber melhor a evolução de um mar particularmente sensível ao aquecimento e a outras perturbações ambientais.

Recuperar o passado para compreender o presente

“Uma parte considerável dos dados foi recuperada a partir de registos históricos fragmentados ou arquivados localmente, o que permitiu consolidar medições que anteriormente não estavam acessíveis”, explica Marta Álvarez, oceanógrafa química do Centro Oceanográfico da Corunha e coordenadora do grupo de investigação, em declarações divulgadas pelo IEO-CSIC.

Outra parte, acrescenta Álvarez, resulta de “campanhas internacionais a bordo de navios oceanográficos nacionais e internacionais que contaram com a participação do pessoal do grupo INOCEN do IEO”.

Mas recuperar os dados era apenas o primeiro passo. Havia outro desafio: como comparar uma medição dos anos 70 com outra realizada décadas mais tarde? Os métodos, os instrumentos e as condições das campanhas foram mudando e podiam introduzir diferenças que não significavam necessariamente que o Mediterrâneo também tivesse mudado.

Por isso, os investigadores reviram e ajustaram as medições para detetar eventuais diferenças decorrentes da forma como foram recolhidas. Assim conseguem identificar com maior fiabilidade as alterações que, de facto, se mantêm ao longo dos anos.
Que podem revelar 40 anos de dados?

O Mediterrâneo enfrenta transformações que vão além do aumento da temperatura. O próprio estudo aponta o aquecimento, a acidificação e a perda de oxigénio entre as principais alterações que afetam os oceanos e que podem modificar o seu funcionamento e os seus ecossistemas.

É precisamente por isso que é importante dispor de observações que recuem várias décadas. Analisar essa evolução a longo prazo pode ajudar a detetar mudanças que seriam difíceis de perceber com medições isoladas.

Para garantir que as medições são comparáveis, os cientistas submeteram-nas a um rigoroso controlo de qualidade adaptado às particularidades do Mediterrâneo. Em termos simples, o objetivo é evitar que uma alteração na forma de medir seja confundida com uma alteração real no mar.

“Graças ao rigoroso processo de 2QC minimizaram-se os enviesamentos sistemáticos em variáveis biogeoquímicas e obteve-se um conjunto de dados com maior coerência”, explica Maribel García-Ibáñez, investigadora do Centro Oceanográfico das Baleares.

Para que serve agora toda essa informação? Entre outras coisas, permite observar como evoluíram, ao longo de décadas, processos relacionados com a acidificação do Mediterrâneo, o carbono que as suas águas armazenam ou a renovação das águas profundas. Os dados podem também ser usados para melhorar os modelos com que os cientistas procuram compreender como evoluirá o Mediterrâneo num clima em mudança.

O Carimed fica ainda aberto à comunidade científica e poderá incorporar novas observações no futuro, alargando o retrato do Mediterrâneo que permite ligar o seu passado às alterações que está a registar atualmente.



Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 02/09/2026
Publicação Original:

A terapia génica, embora pareça saída de filmes de ficção científica, é bem real. Explicamos como funciona e o que ainda pode ser melhorado.


Direitos de autor Euronews

Se gosta de ciência e é fã da Marvel, talvez tenha reparado que a terapia genética, uma abordagem médica promissora para tratar doenças ao atacar as suas causas genéticas, ganhou destaque na mais recente versão da saga do super-herói aracnídeo, Spider-Man: Brand New Day.

Neste filme, Peter Parker, o Homem-Aranha, começa a sentir-se estranho. O seu ADN sofre mutações e o lado aranha começa a dominar, dando-lhe poderes novos e por vezes difíceis de controlar.

Para os controlar, Parker recorre à interferência de ARN, uma técnica real de terapia genética que silencia a atividade de genes específicos.

Mas como funciona a terapia genética? E quais são as suas limitações?

Para responder a estas e outras questões, Euronews Tech Talks entrevistou Alberto Auricchio, diretor do Telethon Institute of Genetics and Medicine, em Nápoles, professor na Universidade de Nápoles e presidente da European Society of Gene & Cell Therapy.
Como funciona a terapia genética?

Usada inicialmente para tratar doenças monogénicas, a terapia genética é hoje aplicada e estudada para encontrar tratamento para uma vasta gama de patologias, incluindo o cancro e o VIH.

“A terapia genética visa, basicamente, a causa de raiz de uma doença genética”, explicou Auricchio. Esta abordagem médica consiste, em essência, em introduzir ácidos nucleicos (ADN e ARN) nas células e tecidos-alvo com fins terapêuticos.

Os ácidos nucleicos podem ser introduzidos nas células-alvo in vivo (diretamente no organismo) ou ex vivo (em células retiradas de um organismo e depois novamente transplantadas para o corpo). Em ambos os casos, a administração é feita com vetores virais ou não virais.

Entre os tipos de terapia genética contam-se a adição de genes e a edição genética, sendo esta última subdividida em silenciamento e correção de genes.

Como os próprios nomes indicam, a adição de genes consiste em acrescentar um gene; a correção de genes implica reparar um gene disfuncional; e o silenciamento de genes desativa um gene.
Qual é o estado da terapia genética na Europa?

A terapia genética é uma área complexa e em constante evolução, mas já não é apenas matéria para histórias de ficção científica. “Já ultrapassámos a fase dos ensaios clínicos. Há produtos de terapia genética aprovados e disponíveis para os doentes”, afirmou Auricchio à Euronews Next.

A primeira terapia genética in vivo aprovada na Europa foi a Glybera, que recebeu autorização de comercialização da Comissão Europeia em 2012 e oferece tratamento médico a doentes com crises graves ou múltiplas de pancreatite devido a deficiência de lipoproteína lipase.

A primeira terapia genética ex vivo aprovada na Europa foi a Strimvelis, autorizada em 2016. Este medicamento trata imunodeficiência combinada grave causada por deficiência de adenosina desaminase e foi desenvolvido no Hospital San Raffaele, em Milão.
Porque é que a terapia genética é promissora?

Entre outras vantagens, a terapia genética destaca-se por ser um tratamento duradouro.

“Existem medicamentos de terapia genética aprovados para os quais temos décadas de acompanhamento em doentes, e sabemos que o efeito terapêutico se mantém estável ao longo de décadas e, em teoria, durante toda a vida do indivíduo”, explicou Auricchio.

Na verdade, estes medicamentos são concebidos para ser um tratamento único na vida, o que significa que uma única administração deverá durar muito tempo.

Por outro lado, para além das dificuldades científicas, a principal limitação da terapia genética é o obstáculo económico.

“São medicamentos muito caros de desenvolver e, os que chegam ao mercado, têm preços muito elevados, alguns deles na ordem dos milhões de euros”, explicou Auricchio.

Por exemplo, o custo da Strimvelis ascende a 594 000 euros, sem IVA.

“Em muitos casos, estes medicamentos são desenvolvidos para doenças raras, que não representam um mercado muito atrativo para os desenvolvedores habituais, como as empresas farmacêuticas; o elevado custo de desenvolvimento é um desafio”, acrescentou Auricchio.

Spider-Man: Brand New Day não aborda o problema económico associado à terapia genética. Peter Parker tem a sorte de conhecer o brilhante cientista Bruce Banner, o Hulk, que o ajuda a desenvolver a sua terapia.

Mas a ciência na vida real é muitas vezes mais exigente do que um filme de super-heróis.

Euronews Tech Talks é um podcast produzido, escrito, apresentado e publicado em inglês.



Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 30/09/2026

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Projeto da Fiocruz está entre os mais emblemáticos do BNDES



A Fiocruz foi uma das nove instituições contempladas na cerimônia de Premiação de Projetos Emblemáticos promovida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), realizada nesta quinta-feira (24/9), na sede da instituição financeira. Com a iniciativa Fronteiras da biotecnologia e soberania em saúde: o Brasil entra na era do RNA, a Fundação foi selecionada pela década de 2020.


Os projetos emblemáticos foram definidos por meio de mais de 1.200 votos de funcionários do BNDES entre cerca de 50 iniciativas selecionadas (foto: Peter Ilicciev)



O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, participou da solenidade que teve abertura de Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, reunindo representantes das organizações homenageadas e parceiros do banco. Ao receber o prêmio, Moreira descreveu a cerimônia como um espaço de preservação da memória e resgatou o histórico de cooperação da Fundação com o banco, que teve início nos anos 2000.

Ao abordar os avanços na área de RNA, foco da iniciativa da Fiocruz contemplada pela instituição financeira, Moreira citou a recente autorização para o início dos estudos clínicos da vacina de RNA mensageiro (RNAm) contra Covid-19 da Fundação, a primeira produzida com a tecnologia no país. "O projeto já foi autorizado pela [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] Anvisa para iniciar os estudos clínicos. O objetivo é desenvolver esta plataforma tecnológica no Brasil, dado o seu potencial para enfrentar diversos desafios na área da saúde", comentou.

Os projetos emblemáticos foram definidos por meio de mais de 1.200 votos de funcionários do BNDES entre cerca de 50 iniciativas selecionadas. O processo de escolha abrangeu ações desenvolvidas ao longo dos 74 anos da instituição financeira, elegendo as mais representativas em áreas como infraestrutura, indústria, meio ambiente e saúde pública.


O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, participou da solenidade que teve abertura de Aloizio Mercadante, presidente do BNDES (foto: Peter Ilicciev)



Durante a cerimônia, o projeto da Fiocruz premiado pelo BNDES foi contextualizado a partir dos desafios expostos durante a pandemia de Covid-19 na produção de vacinas de alta complexidade, como as de RNA mensageiro (mRNA). O recurso viabilizou o desenvolvimento de capacidades nacionais em tecnologia mRNA, que, com a plataforma em desenvolvimento, poderá ser aplicada a vacinas para doenças como influenza, zika e HIV, além de terapias para o tratamento de câncer e de doenças raras.

A iniciativa da Fundação concorreu com oito projetos para representar a década de 2020, sob a temática de crescimento com inclusão social: a expansão de energia eólica pelo Complexo Eólico Rio do Vento; o apoio à restauração do Museu Nacional; a expansão do saneamento pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae); a inclusão digital no Brasil por meio do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust); o desenvolvimento sustentável no Nordeste com o Sertão Vivo; a restauração do arco do desmatamento BNDES Florestas; o avanço da indústria de motores elétricos com a WEG; e a inovação na garantia para acesso ao crédito por micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) pelo Programa Emergencial de Acesso a Crédito com garantia do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI PEAC).

Também foram lembrados no evento a Estrada de Ferro Central do Brasil, pela década de 1950; a criação da Eletrobras, pela década de 1960; a Usina Hidrelétrica de Itaipu, pela década de 1970; o Projeto Carajás (Companhia Vale do Rio Doce), pela década de 1980; a Embraer, pela década de 1990; o Fundo Amazônia, pelos anos 2000; o Butantan, pela década de 2010; e a Concessionária Rodoviária Rio-SP, representando os projetos recentes. A instituição também concedeu menção honrosa ao apoio emergencial ao Rio Grande do Sul.

Período eleitoral

Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de "conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão".


 Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 28/09/2026

Protagonismo do Brasil na ciência global varia de acordo com o modelo de colaboração




Em parceria com a Universidade Calvin (no Michigan, EUA), um estudo da Fiocruz avaliou 10 anos (2010–2019) de colaboração internacional brasileira na área de Ciências da Vida e da Saúde (CVS). Foram mais de 360 mil publicações analisadas, entre 2010 e 2019, com o objetivo de comparar liderança, impacto e temas de pesquisa presentes em três modelos de colaboração: Norte–Sul, Sul–Sul e triangular. A pesquisa contribui para o debate sobre avaliação da ciência ao mostrar que a posição de um país pode não ser adequadamente compreendida por indicadores agregados de colaboração. O artigo foi publicado no site da revista Scientometrics.



Para os autores do artigo, analisar conjuntamente a liderança dos pesquisadores brasileiros, o impacto das publicações e a especialização temática em cada modelo oferece uma leitura mais abrangente do papel do Brasil nas redes globais de ciência. A pesquisa apontou ainda que o Brasil na ciência global não é simplesmente “central” ou “periférico”: ele é context-dependent, ou seja, depende do contexto. O país exerce liderança em alguns arranjos, mas perde espaço de definição de agenda em outros. Os autores também questionam a própria área de estudos métricos: “será que indicadores agregados de internacionalização e impacto conseguem realmente capturar a posição de um país nas redes globais de ciência?”.

Os resultados do estudo indicaram que, ao longo da década, houve um aumento de 71% na colaboração internacional brasileira, com crescimento mais acelerado nas colaborações triangulares, que triplicaram no período. Além disso, a liderança brasileira se mostrou variável conforme o modelo de colaboração: esteve presente em 75% das parcerias Sul–Sul, 67% das Norte–Sul, mas caiu para 31% nas triangulares. No entanto, as colaborações triangulares apresentaram o maior impacto de citação: 50,4% dos artigos ficaram entre os 10% mais citados, contra 36,0% nas Norte–Sul e 23,2% nas Sul–Sul. No mais, nas parcerias Sul–Sul, a colaboração se concentra justamente em áreas nas quais o Brasil possui forte especialização científica, como ecologia, agricultura e veterinária. Já as triangulares apresentam forte concentração em epidemiologia e ensaios clínicos.

Participaram do estudo a professora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e coordenadora do estudo, Bruna de Paula Fonseca; os pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz), Juliana Freitas, Priscila Costa Albuquerque e Fabio Zicker; e o pesquisador da Universidade Calvin, Eric Araújo.

Período eleitoral

Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de "conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão".




Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 28/09/2026

Fiocruz alcança aprovação máxima em edital Finep e tem projetos contemplados


A Fiocruz alcançou o número máximo de aprovações previsto no Edital Finep Centros Temáticos. A chamada, lançada em 2025, com submissão em 2026, estabelecia um limite de até duas propostas aprovadas por eixo temático. A Fiocruz submeteu, ao todo, nove propostas e obteve a aprovação de quatro delas, atingindo o limite máximo de contratações permitido pelo edital em dois eixos: Complexo da Saúde e Transformação Digital.

Na linha temática Complexo da Saúde, as recomendações dentro do limite de recursos foram da pesquisa Inovação, desenvolvimento tecnológico e produção de biofármacos em células de mamíferos do Complexo Tecnológico em Insumos Estratégicos (CTIE) do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e do Instituto Gonçalo Moniz (IGM/Fiocruz Bahia) com o projeto Centro Avançado para o Desenvolvimento de Terapias Inovadoras para Leishmanioses. Na linha temática de Transformação Digital, os projetos recomendados são da Fiocruz Ceará, com a Plataforma Multidisciplinar de Inteligência Artificial Multimodal e Computação Científica para Transformação Digital Baseada em Dados Complexos e do Instituto Carlos Chagas (ICC/Fiocruz Paraná) o Desbravar - Integração de dados genômicos heterogêneos de seres humanos.

O resultado alcançado mostra que a articulação das unidades traz resultados positivos, como destaca a vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Alda Maria da Cruz. “A conquista inédita de quatro projetos contemplados é resultado de um processo de mobilização e articulação institucional realizado para ampliar a participação das unidades da Fiocruz em oportunidades de financiamento”. O resultado também reforça a atuação institucional em pesquisa e inovação, por meio da articulação entre a Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz) e as unidades, em parceria com a Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec) com o objetivo de ampliar a participação em chamadas estratégicas. E reflete a qualidade das propostas e, ao mesmo tempo, a importância de uma atuação institucional articulada para ampliar o acesso das unidades às oportunidades de financiamento, como destaca a vice-presidente Alda Maria da Cruz.

“Este resultado é fruto de um trabalho articulado entre a VPPCB, as unidades e a Fiotec, que envolveu mobilização, identificação de oportunidades e apoio à participação institucional em uma chamada estratégica para a pesquisa e a inovação. Alcançar o limite máximo de projetos que poderiam ser contratados em dois eixos do edital demonstra a força das competências existentes na Fiocruz e a importância de atuarmos de forma integrada para transformar essas capacidades em novas oportunidades de financiamento e fortalecimento da pesquisa institucional”, afirma.

Os projetos recomendados representam, em conjunto, um investimento de quase R$ 37 milhões e reforçam a capacidade da Fiocruz como instituição de referência nacional em pesquisa, desenvolvimento e inovação. A aprovação evidencia a relevância e a qualidade das propostas apresentadas, além de demonstrar a capacidade institucional de mobilizar competências e transformar conhecimento científico em iniciativas de impacto para a sociedade.

Para Marcia Perdonati, que coordenou as submissões pela Fiotec, a conquista também faz parte de um trabalho estratégico de identificação de oportunidades e de apoio às equipes na elaboração das propostas. “Nosso trabalho consistiu em realizar uma busca ativa por projetos alinhados ao escopo do edital e, a partir disso, apoiar as unidades na construção e no aprimoramento das propostas. Atuamos especialmente na adequação aos critérios de avaliação de mérito, buscando fortalecer os projetos e aumentar sua competitividade. Esse trabalho conjunto foi fundamental para que as propostas apresentassem maior aderência aos critérios estabelecidos e alcançassem resultados que assegurassem a obtenção dos recursos”, ressalta Marcia.

Outras iniciativas recentes de captação de recursos junto à Finep também vêm ganhando força, ampliando as oportunidades de financiamento para projetos estratégicos da Fiocruz. Nesse contexto, foram realizadas reuniões entre a Fiotec, as unidades da Fundação e empresas parceiras com o objetivo de estruturar e viabilizar a submissão conjunta de propostas aos editais Finep Mais Inovação Saúde – Empresas (Rodada 2) e Mais Inovação Tecnologias Digitais – Empresas (Rodada 2).

Como resultado desse movimento, foram submetidas propostas pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e por Bio-Manguinhos, no âmbito do edital voltado à área da Saúde. Na frente de Tecnologias Digitais, está prevista, até 30 de setembro, a submissão de uma proposta pelo Ceará, visando ampliar a participação das unidades da Fiocruz nas oportunidades de financiamento oferecidas pela Finep.

Período eleitoral

Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de "conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão".




Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 28/09/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/09/fiocruz-alcanca-aprovacao-maxima-em-edital-finep-e-tem-projetos-contemplados

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

FAPERJ e SECTI lançam editais para pesquisas sobre obesidade e envelhecimento saudável


Solenidade de lançamento de editais de apoio a pesquisas em obesidade e envelhecimento saudável, no Palácio Guanabara, reuniu, na mesa de abertura (a partir da esq.), o secretário estadual de Saúde, Ronaldo Damião; o novo secretário estadual de CT&I, Antonio Claudio da Nóbrega; e a presidente da FAPERJ, Caroline Alves (Fotos: Ernesto Carriço)


Em cerimônia realizada no Palácio Guanabara, nesta quinta-feira, 24 de setembro, a FAPERJ, em conjunto com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), anunciou o lançamento de quatro editais inéditos, planejados especificamente para financiar pesquisas sobre dois temas estratégicos para a saúde pública: a obesidade e o envelhecimento saudável. Ambos representam desafios contemporâneos para o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil e para a Medicina em todo o mundo.

Para a obesidade, foi anunciado o lançamento do “Programa de Auxílio à Pesquisa em Obesidade para Pesquisadores CNE/FAPERJ ou CNPq Níveis A ou B com Experiência Comprovada em Redes de Pesquisas Consolidadas com no Mínimo 5 Pesquisadores Associados (Edital FAPERJ Nº 18/2026)” e do “Programa de Auxílio à Pesquisa em Obesidade para Pesquisadores JCNE/FAPERJ ou CNPq Níveis C ou D com Experiência Comprovada e com no Mínimo 3 Pesquisadores Associados (Edital FAPERJ Nº 19/2026)”.

Já para impulsionar estudos sobre o envelhecimento saudável, foram lançados os editais “Programa de Apoio ao Envelhecimento com Qualidade de Vida para Pesquisadores CNE/FAPERJ ou CNPq Níveis A ou B com Experiência Comprovada em Redes de Pesquisas Consolidadas com no Mínimo 5 Pesquisadores Associados (Edital FAPERJ Nº 20/2026)” e “Programa de Apoio ao Envelhecimento com Qualidade de Vida para Pesquisadores JCNE/FAPERJ ou CNPq Níveis C ou D com Experiência Comprovada e com no Mínimo 3 Pesquisadores Associados (Edital FAPERJ Nº 21/2026)".

Os editais vão apoiar trabalhos de pesquisadores de alto nível, com reconhecida trajetória acadêmica, e contemplados pelos programas Cientista do Nosso Estado (CNE) e Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE), editais-símbolo da FAPERJ, e bolsistas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Ao dar início à cerimônia, a presidente da FAPERJ, Caroline Alves, ressaltou a nova fase da Secretaria, com a chegada do professor Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, e a parceria entre a Fundação e a SECTI. “Hoje, iniciamos um novo ciclo da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação e não estamos falando apenas do lançamento de editais, mas de uma mudança, de uma perspectiva de planejamento e compreensão sobre o papel da Ciência para o nosso estado. A compreensão de que a gente vai fortalecer ainda mais a tecnologia e a inovação para o desenvolvimento do nosso estado. Esses editais foram planejados e estruturados junto ao nosso secretário de Ciência e Tecnologia, em uma construção cuidadosa, estratégica, olhando para nossas necessidades, para uma maior reflexão sobre onde estamos, onde queremos chegar e qual a Ciência que queremos construir para o futuro do estado do Rio de Janeiro”, afirmou Caroline Alves.

A presidente da Fundação destacou também a forma cuidadosa como o novo secretário conduziu o processo de lançamento dos novos editais. “O seu olhar para as instituições de pesquisa, universidades e para todo o nosso ecossistema, reforça ainda mais a importância de construir políticas públicas de forma integrada e estratégica. Este é um novo momento, de fortalecimento das instituições, de integração e, sobretudo, de planejamento. O Rio de Janeiro tem ciência, tem conhecimento, tem instituições de excelência. Nosso desafio é transformar toda essa potência em estratégia, oportunidade, desenvolvimento e futuro”, concluiu.

Antonio Claudio da Nóbrega: o novo secretário de CT&I assinou uma carta-compromisso com a população e a comunidade científica e tecnológica fluminense elencando os objetivos a serem alcançados na sua gestão, entre eles a implementação do Conselho Estadual de CT&I e a reestruturação do Conselho Superior da FAPERJ


O secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Antonio Claudio Lopes da Nóbrega, enfatizou a importância dos novos editais. “São dois temas absolutamente fundamentais. Há uma prevalência da obesidade, ela é um fator determinante de agravos à saúde, de morbidade, de custos com saúde, de redução de qualidade de vida. Então, essa é uma iniciativa fundamental para a que a ciência possa tratar do tema e, da mesma maneira, da questão do envelhecimento saudável”, afirmou.

Nóbrega ressaltou, também, a maneira ampla como os novos editais tratam as pesquisas dos dois temas. “Quero chamar atenção, e essa foi uma preocupação do trabalho realizado com a FAPERJ, que o olhar sobre a questão da obesidade e do envelhecimento, nesses editais, procura ser um olhar mais alargado do que o aspecto biológico ou de saúde. Ele incentiva também uma compreensão dos fatores determinantes da obesidade do ponto de vista social e econômico, os aspectos do impacto sobre as políticas públicas, quais são os determinantes e os fatores modificadores do ponto de vista da relação entre instituições. É um desafio maior. Isso também vale para o envelhecimento. Há um olhar do ponto de vista de políticas públicas para promover um envelhecimento autônomo e com qualidade”, explicou.

O secretário lembrou que a cerimônia de lançamento dos editais, prestigiada por representantes de diferentes instituições de pesquisa, foi sua primeira oportunidade de falar diretamente com a comunidade acadêmica do estado, em um evento promovido no âmbito da Secretaria. Ao se dirigir aos pesquisadores, Nóbrega falou sobre as diretrizes e a missão da nova SECTI.

“Motivada pelos propósitos de aprender, criar, construir e realizar, a SECTI terá como missão formular, coordenar, executar e avaliar a Política Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, na condição de órgão responsável pela regulamentação, articulação, estruturação, coordenação geral e gestão do Sistema Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Rio de Janeiro e se orientará pela integração permanente entre as quatro hélices fundamentais do sistema composto pela comunidade acadêmica e científica, pelo setor produtivo, pelos entes governamentais e pela sociedade civil”, explicou Nóbrega.

Na cerimônia, o novo secretário anunciou uma carta-compromisso com a população e a comunidade científica e tecnológica fluminense com os objetivos a serem alcançados. Nóbrega leu o documento, que lista uma série de ações estruturantes e operacionais orientadas pelo Plano de Desenvolvimento Social e Econômico do Estado (Pedes), como: articular as unidades vinculadas, valorizando seus servidores e corpo técnico; articular as secretarias estaduais para promover a Ciência, Tecnologia e Inovação em todas as instâncias de governo; harmonizar os marcos legais e construir os meios para implementação do Conselho Estadual de CT&I – CONECTI; reestruturar o Conselho Superior da FAPERJ e dotá-lo de um papel estratégico para o fomento consistente, perene, robusto e crescente; promover a visibilidade da Ciência e Tecnologia em toda a sociedade; integrar o estado do Rio de Janeiro com os projetos estratégicos nacionais em CT&I e ampliar o alcance das ações da SECTI junto às demais unidades da federação e internacionalmente.

Como forma de aproximar a ciência e a tecnologia do setor produtivo, a SECTI firmou um acordo de cooperação, com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico e o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), para criação de cursos de capacitação técnica na área de petróleo e gás. Maior produtor de petróleo e gás natural do País, respondendo por cerca de 88% da produção nacional, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), o estado ainda tem déficit de mão de obra especializada nessa área.

O secretário de Estado de Saúde, Ronaldo Damião, destacou a importância do lançamento de editais voltados à pesquisa sobre obesidade e envelhecimento saudável. “O envelhecimento, a obesidade e o meio ambiente são preocupações mundiais. A população está vivendo mais. Hoje, já somos mais de 18 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil e há uma visão de que esse número vai chegar a 40 milhões. O mundo não está preparado para isso. Principalmente, os países em desenvolvimento como o nosso. Vamos ter uma maior incidência de doenças cardiovasculares, a incidência de tumores vai aumentar, há a possibilidade da obesidade também. Então, é preciso estudar isso melhor. Não são só as canetas (emagrecedoras), não são só as cirurgias, e a taxa de complicações é bem significativa. Há outras formas de tentar resolver essas questões e eu acho que é com pesquisa”, afirmou.

Sobre os editais para obesidade e envelhecimento saudável

Para a obesidade, as linhas de pesquisa contempladas nos dois editais lançados incluem: estratégias de tratamento clínico da obesidade no SUS; organização e qualificação do cuidado na Atenção Primária à Saúde; comorbidades associadas à obesidade; biomarcadores e mecanismos fisiopatológicos; tecnologias diagnósticas e soluções digitais; atenção de alta complexidade em obesidade severa; avaliação de políticas públicas; e etiopatogenia da obesidade com foco em prevenção na infância e na adolescência.


Com a presença de representantes da comunidade científica e tecnológica estadual, a cerimônia de anúncio dos editais lotou o auditório do Prédio Anexo do Palácio Guanabara


Segundo o novo secretário de CT&I, o lançamento de editais, chamadas públicas e programas voltados para a obesidade converge com a nova gestão estadual, que assume o compromisso de alinhar a produção científica, o setor produtivo e o desenvolvimento socioeconômico. “A abordagem da obesidade deixa de ser apenas uma despesa na saúde assistencial e passa a ser tratada como um vetor estratégico de inovação e inclusão”, analisou Nóbrega.

Por sua vez, os editais voltados ao envelhecimento saudável foram divididos por três eixos temáticos. A iniciativa visa impulsionar pesquisas inovadoras sobre os mecanismos do envelhecimento, a funcionalidade e a qualidade de vida da população idosa; modelos de cuidado, organização de serviços e políticas públicas; prevenção de incapacidade; terapias antienvelhecimento, além de tecnologias em saúde, inovação digital e inclusão social.

Segundo a presidente da FAPERJ, a iniciativa não se trata de um projeto independente, mas de uma ação integrada ao Sistema Único de Saúde fluminense. "Não são editais isolados, mas um pacote conectado, pensado para dialogar com a realidade do SUS e com a agenda de desenvolvimento do estado. Estamos investindo em quem cuida, em quem pesquisa e em quem inova dentro da rede de Saúde do estado", destacou a presidente.

De acordo com a diretora Científica da FAPERJ, Eliete Bouskela, o Brasil é um país que está envelhecendo muito rapidamente e, por isso, torna-se extremamente importante que as pessoas consigam envelhecer com qualidade de vida. E, portanto, se faz urgente produzir evidências científicas que possam orientar a formulação de políticas públicas e melhorar a assistência à saúde da população idosa no estado.

O período de submissão para os editais voltados à obesidade e ao envelhecimento saudável é de 24 de setembro a 12 de outubro de 2026. Os editais completos estão disponíveis na página da FAPERJ (www.faperj.br).

Confira os editais nos links abaixo:

Edital FAPERJ Nº 18/2026 – Programa de Auxílio à Pesquisa em Obesidade para Pesquisadores CNE/FAPERJ ou CNPq Níveis A ou B com Experiência Comprovada em Redes de Pesquisas Consolidadas com no Mínimo 5 Pesquisadores Associados

Edital FAPERJ Nº 19/2026 – Programa de Auxílio à Pesquisa em Obesidade para Pesquisadores JCNE/FAPERJ ou CNPq Níveis C ou D com Experiência Comprovada e com no Mínimo 3 Pesquisadores Associados

Edital FAPERJ Nº 20/2026 – Programa de Apoio ao Envelhecimento com Qualidade de Vida para Pesquisadores CNE/FAPERJ ou CNPq Níveis A ou B com Experiência Comprovada em Redes de Pesquisas Consolidadas com no Mínimo 5 Pesquisadores Associados

Edital FAPERJ Nº 21/2026 – Programa de Apoio ao Envelhecimento com Qualidade de Vida para Pesquisadores JCNE/FAPERJ ou CNPq Níveis C ou D com Experiência Comprovada e com no Mínimo 3 Pesquisadores Associados 



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 24/09/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1116.7.7

Livro aborda a música dos cassinos brasileiros entre 1933 e 1946


Reunindo nove artigos assinados por jornalistas e pesquisadores do Brasil e da França, o livro traz elementos para pensar a produção, a circulação e o consumo de músicas populares na América Latina, entre 1933 e 1946, período em que o Brasil teve cerca de 80 cassinos (Imagem: Divulgação)

Quando os cassinos fecharam suas portas no Brasil, em 1946, com a publicação do Decreto-Lei nº 9.215, que proibia a prática e a exploração dos jogos de azar no País, não foram apenas o giro das roletas e o ruído das fichas arrastadas sobre as mesas que deixaram de ser ouvidos. A proibição dos jogos silenciou, também, a voz de cantores e os instrumentos de músicos e orquestras que se apresentavam nos palcos dos luxuosos salões de apostas, nas décadas de 1930 e 1940.

Passados 80 anos da edição do decreto, no Governo Dutra, que proibia os jogos, chegará às livrarias, até o fim de 2026, o livro “O som dos cassinos”. A obra traz aos leitores elementos para pensar a produção, a circulação e o consumo das músicas populares na América Latina, entre 1933 e 1946, período em que o Brasil teve cerca de 80 casas de jogos. Organizado pela pesquisadora Suely Campos Franco, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EM/UFRJ), o livro reúne, em 214 páginas, nove artigos assinados por jornalistas e pesquisadores de diferentes instituições do Brasil e da França. O texto da contracapa é do jornalista e escritor Ruy Castro.

Impresso com auxílio do Programa de Apoio à Editoração da FAPERJ, o livro, publicado pela Numa Editora, é resultado do evento acadêmico “I Jornada Internacional O Som dos Cassinos – A circulação das músicas populares entre América Latina e Europa no século XX: apropriações e transferências culturais”, também organizado por Suely, em novembro de 2016, com a parceria do Museu da Imagem e do Som (MIS) e do Consulado da França, marcando os 70 anos da proibição dos cassinos no Brasil.

“A proposta do livro é mapear e refletir sobre a música dos cassinos, a produção e consumo das músicas populares na América Latina nos anos 1930 e 1940, e sobre a circulação de artistas, músicos e cantores brasileiros e estrangeiros entre o Rio de Janeiro e a Europa no período entre as duas Guerras Mundiais. A obra conta com ensaios dos pesquisadores que participaram da jornada internacional e de outros autores convidados”, explica Suely Franco, cientista social, mestre em Memória Social e doutora em Études Lusophonnes (História/Estudos Culturais) pela Universidade Paris 3 Sorbonne Nouvelle.
Artistas como Linda Batista, Grande Otelo, Herivelto Martins e Ary Barroso (ao piano) se apresentaram no Cassino da Urca, uma das mais famosas casas de jogos do Rio de Janeiro (Foto: Carlos Moskovics/Acervo Instituto Moreira Salles - IMS)


A pesquisadora é autora do capítulo que mostra os cassinos como palco para músicos e cantores europeus que buscaram exílio no Brasil e em outros países do continente, no fim da década de 1930, por conta da Segunda Guerra Mundial. O ponto de partida da pesquisa de Suely Franco foi a viagem do maestro francês Ray Ventura e de sua orquestra à América do Sul no ano de 1941. No texto, ela mostra que além de ser um espaço de trabalho para os artistas, os cassinos favoreceram a realização de encontros musicais, diálogos de diferentes culturas e uma intensa troca de experiências entre cantores e músicos brasileiros e do exterior.

A influência dos artistas estrangeiros e da atmosfera glamourosa dos salões de jogos, no período de 1933 a 1946, conhecido como “Tempo dos cassinos”, também foi objeto de estudo do historiador Laurent Vidal, um dos pesquisadores franceses que participaram da jornada de 2016 e agora do livro. Professor da Universidade de La Rochelle, Vidal investigou essa influência na formação de uma identidade cosmopolita no Rio de Janeiro daquela época e no impacto da presença estrangeira na criação das modernidades urbana e balneária, arquitetônica, sonora e musical. Um dos focos do pesquisador foi a passagem do cantor francês Jean Sablon, entre 1939 e 1945, pelos palcos dos cassinos da então capital brasileira.

Vizinhos do poder, os cassinos foram palco de eventos relacionados à história política, social e cultural na “Era Vargas”. Esse é um dos aspectos abordados pelo jornalista Flavio Menna Barreto em seu artigo. Autor do livro “Apostas encerradas – O breve império do Cassino Quitandinha” (Ed. Velho Litoral, 217 pág., 2009), Barreto dedicou seu ensaio ao palacete erguido em Petrópolis para ser um suntuoso hotel-cassino, anunciado como o mais luxuoso das Américas. Inaugurado em 1944, na cidade da Região Serrana fluminense, o espaço funcionou como cassino por pouco mais de dois anos apenas.

No período Vargas, os cassinos também serviram de palco para as relações, nem sempre tão harmônicas, entre a música popular e o poder, tratadas em dois ensaios do livro. Em “O samba fora do compasso do ‘Estado Novo’”, Adalberto Paranhos, professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), aborda essa relação e a censura às vozes destoantes da pauta estado-novista. Já “A canção popular no tempo de Getúlio Vargas” mostra a intensa difusão da música popular nas décadas de 1930 e 1940, suas intenções e implicações políticas. No texto, Orlando de Barros, professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca, entre outros aspectos, a importância das casas de jogos como espaço de atuação para os artistas populares, assim como as emissoras de rádio que viviam sua época de ouro nos anos 1940 e 1950.
Durante a pesquisa que deu origem ao livro, Suely visitou o que restou do Cassino da Urca. Do luxuoso salão à beira mar, restaram apenas ruínas. Posteriormente, a construção foi recuperada (Foto: acervo pessoal)


Os artistas e produtores que transitavam pelos cassinos e estavam em evidência naquele período são personagens do artigo “As roletas e a indústria da música no Rio de Janeiro do século XX”, do jornalista e gestor cultural Leo Feijó. Autor de textos sobre a cultura da noite e do entretenimento, Feijó mostra que as indústrias da música e dos salões de apostas trabalhavam em colaboração. Em meio às figuras que brilhavam naquele momento, um dos protagonistas da noite era o empresário Joaquim Rolla, proprietário de cassinos em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Conhecido como o “Rei da roleta”, Rolla foi analisado pelo jornalista, pesquisador e escritor João Perdigão, no capítulo “Como o show business dos cassinos moldou o Brasil contemporâneo”.

Além de ser espaço para os artistas, os cassinos dão emprego a milhares de trabalhadores, temporários ou não, da área do espetáculo na França, assim como acontecia no Brasil. Em seu artigo, o professor e coordenador do Mestrado em Administração e Gestão Musical da Sorbonne, Gilles Demonet, investiga a relação entre a música e as casas de apostas e faz uma cronologia dos regulamentos dos cassinos na França, o que permite realizar uma comparação com as práticas adotadas ou não no Brasil.

O impacto da proibição do jogo, em 1946, na atividade profissional dos músicos é o tema do texto produzido pelas pesquisadoras Luciana Requião, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Programa de Pós-graduação em Música da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), e Anne Meyer, doutora em Documentação e História da Música pela UniRio. No ensaio, resultado de pesquisa realizada no Fundo Documental do Sindicato dos Músicos do Estado do Rio de Janeiro, as autoras recuperaram informações inéditas sobre o regime de trabalho para os músicos nos cassinos.

A diversidade dos temas abordados no livro, mostra o impacto que as casas de jogos tinham, 90 anos atrás, no cenário artístico e cultural brasileiro, em especial à música; no mercado de trabalho de instrumentistas e cantores; e na indústria do entretenimento. Apesar disso, o “Tempo dos cassinos” é relativamente pouco estudado, se comparado à “Época de ouro do rádio no Brasil”.
Suely Campos Franco: para a pesquisadora, o "Tempo dos cassinos" ainda é relativamente pouco estudado se comparado à "Época de ouro do rádio no Brasil". Memória dos salões de jogos sofreu uma espécie de apagamento (Foto: acervo pessoal)


“No Brasil, os estudiosos se dedicaram muito mais às pesquisas sobre o rádio do que aos estudos acerca dos cassinos. Os acervos das emissoras e dos jornais contribuíram para guardar a memória do rádio. Já a memória dos cassinos sofreu uma espécie de apagamento por conta do fechamento dos salões e do próprio preconceito em relação àqueles espaços”, argumenta a pesquisadora.

O lançamento da obra, no Rio de Janeiro, será dia 7 de outubro, às 19h, na Sala Guarani do Teatro Carlos Gomes, no Centro. Para o evento estão previstas uma mesa com os autores e uma apresentação musical com exemplos do repertório apresentado nos cassinos da Urca, Atlântico, Copacabana Palace, Icaraí e Quitandinha.

A escolha do Teatro Carlos Gomes tem um significado histórico: após o fechamento dos cassinos, em 1946, o espaço recebeu festivais beneficentes em apoio aos artistas que, com o fim das atividades, perderam seus contratos e seus locais de trabalho. O lançamento pretende, assim, associar a apresentação do livro à preservação da memória desse importante capítulo da história da música e da vida artística brasileira.

Até o fim de 2026, Suely Campos Franco também pretende levar o livro para feiras literárias e para lançamento em livrarias e espaços culturais de outras cidades brasileiras. Em Belo Horizonte, o evento será na Livraria da Rua, em data a ser confirmada.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 17/09/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1101.7.3