quarta-feira, 12 de maio de 2021

Mudanças no estilo de vida durante o início da pandemia de COVID-19 não tiveram impacto nas mudanças climáticas

Mudanças no estilo de vida durante o início da pandemia de COVID-19 não tiveram impacto nas mudanças climáticas
As pegadas de carbono das famílias não mudaram significativamente durante o primeiro estado de emergência no Japão

Apesar das mudanças rápidas e significativas nos padrões de consumo testemunhadas durante os primeiros meses da pandemia de COVID-19, as famílias japonesas mantiveram seus níveis normais de emissões de gases de efeito estufa.

A “antropausa” – redução da atividade humana devido à pandemia – ganhou as manchetes no verão passado, mas fechamentos de fábricas e cadeias de suprimentos globais quebradas não se traduziram na adoção de estilos de vida ecológicos para a família média.

“Durante o período inicial do COVID-19, pudemos testemunhar mudanças no estilo de vida acontecendo ao nosso redor rapidamente, então decidimos explorar os impactos ambientais dessas mudanças no estilo de vida. Algumas outras pesquisas naquele período mostraram que as emissões de gases de efeito estufa do lado da produção diminuíram, mas ao avaliar as emissões do lado do consumidor, notamos que elas não mudaram tanto em comparação aos níveis de 2015 a 2019 ”, disse o professor assistente de projeto Yin Long do Instituto para Iniciativas Futuras da Universidade de Tóquio. Long é o primeiro autor da pesquisa publicada recentemente na One Earth .



Os pesquisadores examinaram como as mudanças no estilo de vida durante o estado de emergência do COVID-19 afetaram os hábitos de consumo e as pegadas de carbono associadas das famílias japonesas. © Yin Long, publicado pela primeira vez em One Earth DOI: 10.1016 / j.oneear.2021.03.003



Especialistas dizem que, em todo o mundo, metade da pegada de carbono de uma nação se deve ao consumo de bens e serviços por famílias individuais. A pegada de carbono é uma medida das emissões diretas e indiretas de gases de efeito estufa associadas ao cultivo, fabricação e transporte de alimentos, bens, serviços públicos e serviços que usamos.

Os pesquisadores consideraram neste estudo cerca de 500 itens de consumo e, em seguida, rastrearam as emissões de carbono embutidas em todos os bens e serviços associados. Comer fora, mantimentos, roupas, eletrônicos, entretenimento, gasolina para veículos, bem como utilidades domésticas foram incluídos.

“A verdadeira beleza disso é a consistência da coleta de dados de longo prazo nessas estatísticas governamentais, mesmo durante o período COVID-19, o que nos permite comparar com padrões históricos”, disse o professor associado Alexandros Gasparatos, especialista em economia ecológica quem conduziu o estudo. Gasparatos tem um compromisso duplo com a Universidade de Tóquio e a Universidade das Nações Unidas em Tóquio.

As pegadas de carbono mensais do consumo das famílias no período de janeiro a maio de 2020 foram comparadas às pegadas de carbono dos mesmos meses dos cinco anos anteriores. No Japão, os diagnósticos de COVID-19 começaram a aumentar em fevereiro e o primeiro estado de emergência de COVID-19 em todo o país foi declarado de meados de abril a meados de maio de 2020.



Japão – As pegadas de carbono de todos os grupos demográficos permaneceram dentro dos níveis observados durante os cinco anos anteriores. © Yin Long, publicado pela primeira vez em One Earth DOI: 10.1016 / j.oneear.2021.03.003


As análises da equipe de pesquisa revelaram que a pegada de carbono de 2020 de todas as famílias, tanto agregadas quanto em diferentes grupos de idade, permaneceu amplamente na faixa de 2015 a 2019.

A pegada de carbono das emissões associadas à alimentação fora de casa diminuiu durante o estado de emergência, mas as emissões de alimentos aumentaram, especialmente devido à compra de mais carne, ovos e laticínios. As emissões associadas a roupas e entretenimento diminuíram drasticamente durante o estado de emergência, mas se recuperaram rapidamente quando a medida de emergência terminou.

“Este tipo de experimento natural está nos dizendo que a mudança muito rápida e consistente no estilo de vida durante os estágios iniciais da pandemia COVID-19 não se materializou em mudanças significativas e sustentadas nas pegadas de carbono das famílias”, disse Gasparatos.

As declarações não vinculativas de estado de emergência pelos governos nacional e local no Japão exigiam que as pessoas limitassem as reuniões sociais, jantares em grupos e viagens não essenciais entre as prefeituras. Em comparação com os bloqueios impostos por lei em outros países, os pesquisadores dizem que as imposições mínimas do Japão são provavelmente um modelo melhor das mudanças no estilo de vida que as famílias ecologicamente corretas podem fazer voluntariamente.

“Se virmos a mudança de estilo de vida como uma estratégia para atingir a descarbonização, nossos resultados sugerem que isso pode não se traduzir automaticamente em benefícios ambientais. Vai exigir muito esforço e educação pública focada nas demandas domésticas mais intensas em emissões, como o uso de carros particulares e espaço e aquecimento de água ”, disse Gasparatos.

“Vimos que as fábricas fecharam quando aconteceu o COVID-19, mas a demanda do consumidor permaneceu a mesma, então as fábricas foram reabertas para atender a essas demandas. Conforme escrito nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, consumidores e produtores devem compartilhar a responsabilidade de alcançar estilos de vida sustentáveis ?”, disse Long.


Referência:

Yin Long, Dabo Guan, Keiichiro Kanemoto, and Alexandros Gasparatos, “Negligible impacts of early COVID-19 confinement on household carbon footprints in Japan,” One Earth: April 15, 2021, doi:10.1016/j.oneear.2021.03.003.

Henrique Cortez, tradutor e editor, a partir de original da The University of Tokyo.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/05/2021






Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 10/05/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/05/12/mudancas-no-estilo-de-vida-durante-o-inicio-da-pandemia-de-covid-19-nao-tiveram-impacto-nas-mudancas-climaticas/

Pós-pandemia: o que está em jogo na ‘economia verde’?


Pós-pandemia: o que está em jogo na ‘economia verde’? artigo de Amyra El Khalili

A cotação da água no mercado de futuros de Wall Street, como se fosse ouro ou petróleo, viola os direitos humanos básicos e torna o elemento líquido vulnerável a uma eventual bolha especulativa

Palavras-chave: Economia verde. Problemas socioambientais. Serviços ambientais.

Sumário: 1 Água transformada em mercadoria na Bolsa de Nova Iorque – Referências

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 (2012), fomos abordados por uma avalanche vinda dos ativistas internacionais que denunciavam os perigos da economia verde, tão propalada pela mídia e pelas grandes ONGs ambientalistas, com a anuência de políticos ideologicamente alinhados, tanto com a direita quanto com a esquerda, neste continente latino-americano-caribenho.

A economia verde se apresentou como uma alternativa para solucionar os problemas socioambientais, como o combate à pobreza, às desigualdades e à degradação ambiental, sendo posta, nas convenções das instituições, como meta dos Objetivos do Milênio no programa da ONU pelo Banco Mundial, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), entre outros, nos mais diversos setores da economia, supostamente admitida (a economia verde) como consenso resultante (era o que diziam) de amplo debate com a sociedade, transformando-se, portanto, em fato consumado.

No entanto, a economia verde não se limita a incluir as variáveis ambientais no debate político-econômico. Ela vem como um pacote forjado pelo setor financeiro, arrastando em seu bojo, evidentemente ajustado aos seus interesses, inúmeras iniciativas e propostas que partiram da base excluída dos grandes centros de decisão e das reuniões dessas mesmas instituições, que contaram com uma ilegítima representação de mesmos políticos e seus parceiros nos megaprojetos de infraestruturas responsáveis pelos impactos ambientais nas regiões de onde partiram as propostas dos(as) que desafiam diuturnamente o status quo com seu direito de existir.

Importantes propostas discutidas por anos de trabalho junto às mais diversas comunidades que constituíram, por exemplo, os comitês de bacias hidrográficas, como a “cobrança pelo uso da água”, foram postas no mesmo pacote do que chamam “pagamento por serviços ambientais”.

O setor do agronegócio e empresarial utiliza os recursos naturais (água, energia e minério) mediante outorga (concessão de exploração) como insumo para produzir bens e serviços, enquanto a proposta elaborada pelos comitês de bacias hidrográficas, “cobrança pelo uso da água”, está sendo incluída nesse pacote financeiro (da economia verde), sem a devida explicação do que significa “assinar” um contrato com uma cláusula específica sobre “pagamentos por serviços ambientais” ou mesmo esclarecer o que está implícito quando se utiliza essa expressão.

1 Água transformada em mercadoria na Bolsa de Nova Iorque

Em 2020, a água começou a ser negociada como recurso (commodity), tendo como base o índice Nasdaq Veles California Water (NQH2O) no mercado de futuros de Wall Street, como acontece com o petróleo e o ouro.

Para explicar o que isso significa e por que isso não deveria acontecer, o jornalista diretor-fundador da Diálogos do Sul, Paulo Cannabrava Filho, dialoga comigo para a TV Diálogos do Sul durante a live conduzida pela jornalista Vanessa Martina.

A cotação da água no mercado de futuros de Wall Street, como se fosse ouro ou petróleo, viola os direitos humanos básicos e torna o elemento líquido vulnerável a uma eventual bolha especulativa, denuncia em um comunicado o relator especial da ONU sobre o direito à água potável e saneamento, Pedro Arrojo-Agudo.

Para Emiliano Teran Mantovani, do Observatorio de Ecología Política de Venezuela:

[…] A criação do índice ‘Nasdaq Veles California Water’ em outubro de 2018 por parte do mencionado CME Group, com a finalidade de colocar um marcador na bolsa de futuros da água na Califórnia, tem como antecedente próximo a formação de mercados de futuros que envolveram perversamente os alimentos desde 2008, como aconteceu com o trigo, o cacau e o arroz. Isso faria com que os grandes bancos privados internacionais destinassem enormes cifras para a compra dos referidos títulos, enquanto se especulava com eles, disparando os preços dos alimentos e aumentando a quantidade de famintos no mundo.

Desde sempre, a nossa participação no debate sobre instrumentos econômicos e financeiros foi pautada pela didática e por esclarecimentos. Sempre expusemos claramente nas discussões os riscos e as necessidades de avançar na direção de um novo modelo econômico para a América Latina e o Caribe, com propostas que vinham da base e dos rincões mais distantes dos centros urbanos, enquanto os políticos e lobistas debatiam as suas propostas em fóruns realizados em hotéis de luxo, regados a badalados coquetéis com solidariedade corporativa entre pares.

Valendo-se de conceitos confusos, de posições políticas dúbias, mas com sofisticada engenharia financeira a respeito da equação terra e bens comuns, os recursos naturais estratégicos engrossaram os negócios da geopolítica internacional (nossa velha conhecida) como mais um incremento de guerras (muitas vezes promovidas pelos próprios governantes), tudo em defesa da democracia e da paz na América Latina, na Ásia, no Oriente Médio, na África.

Essa questão, pelo tanto que é de espinhosa, requer coragem para o devido enfrentamento. Ela nos impõe relembrar a história sangrenta com que foram instaladas as forças políticas na América Latina e no Caribe, o colonialismo, a escravidão. Lamentável e lastimavelmente, também nos obriga a olhar a situação dos(as) irmãs e irmãos refugiados(as), imagem que incomoda, ocupando quase diariamente os noticiários, assim como os ocupam de fundamentalistas que se alimentam do ciclo vicioso da indiferença.

A pesquisa investigativa Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais – reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à destruição da natureza?, da bióloga e ativista Jutta Kill, faz uma análise acurada e nos dá esclarecimentos fundamentados com argumentos técnico-operacionais (de execução) e jurídicos de como se deu a implementação desses “experimentos” com base no princípio da economia verde nos países do Norte e suas consequências tanto lá quanto cá.

Nesse trabalho, fica claro que estamos diante de um problema de ordem ética e moral mais complexo e bem distante das falsas soluções que se impõem por força do comodismo da despolitização e da falta de interesse. Esta última é a que tranquilamente assim se justifica: “Se não entendo do assunto, não quero saber”.

Se quisermos sair do atoleiro em que nossa civilização contemporânea se meteu, é melhor começar a saber e a entender.

Gente disposta a pesquisar, a esclarecer e a orientar, comprometida com a democratização da informação, não falta nem nunca faltou. Aliás, como nos chama a atenção o cientista e ativista Carlos A. Lungarzo:

[…] O despertar das mulheres, coincidindo com uma das maiores crises internacionais do capitalismo, pode ser a esperança de uma nova etapa, desta vez pacífica, que não renuncie à igualdade (e, portanto, à desaparição das classes), mas encare os problemas imediatos. Esta seria uma Novíssima Esquerda, ou, melhor, uma segunda fase da “Nova Esquerda”. Nada garante seu sucesso, mas sua chance é maior que a dos movimentos violentos que só beneficiam os traficantes de armas, e que produziram milhões de mortos na África, na Ásia e na América Latina.

Não podemos esperar que os grupos que hoje mobilizam dúzias de trilhões de dólares sejam definitivamente derrotados. Até que isso aconteça, se acontecer, bilhões de crianças, índios, negros, refugiados, mulheres e pobres esperam uma reação das forças esclarecidas deste planeta, que, acreditemos ou não, existem.

Notas:

(1) Água transformada em mercadoria na Bolsa de Nova York. LIVE com o jornalista Paulo Cannabrava e Amyra El Khalili. TV Diálogos do Sul. Transmitido ao vivo em 10 de dez. de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RHCN22Wy5B4.

(2) A valoração econômica da natureza tem sido estudada há alguns anos. Nesta nova publicação pela Fundação Heinrich Böll, Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais –reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à destruição da natureza?, da bióloga e ativista Jutta Kill, o tema é investigado sob um novo enfoque. Esse artigo explora, assim, as diferenças entre as iniciativas recentes focadas em “acabar com a invisibilidade econômica da natureza” e as antigas perspectivas a respeito da sua valoração econômica. Apesar de concebida atualmente como um novo mecanismo de conservação ambiental e desenvolvimento sustentável, a valoração econômica da natureza não é novidade. Na realidade, ela está inserida na lógica da acumulação de capital presente em nossa sociedade há séculos.

Referências:

ACOSTA, Alberto; CAJAS-GUIJARRO, John. Aberraciones del capital. Wall Street líquido y sociedades sedientas. Rebelión, 17 dez. 2020. Disponível em: https://rebelion.org/aberraciones-del-capital/.

ÁLVAREZ, Clemente. O que significa a água começar a ser cotizada no mercado de futuros de Wall Street?. Jornal El País, 09 dez. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/economia/2020-12-09/o-que-significa-a-agua-comecar-a-ser-cotizada-no-mercado-de-futuros-de-wall-street.html.

ARROJO-AGUDO, Pedro. A ONU denuncia que a cotação da água no mercado de futuros viola direitos humanos básicos. IHU – Instituto Humanitas Unisinos, 12 dez. 2020. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/605566-e-de-todos-a-onu-denuncia-que-a-cotacao-da-agua-no-mercado-de-futuros-viola-direitos-humanos-basicos.

EL KHALILI, Amyra. O Rio São Francisco e a “cobrança pelo uso da água”. Disponível em: http://port.pravda.ru/sociedade/cultura/14-08-2016/41543-rio_sao_fransisco-0/. Acesso em: 14 ago. 2016. Capturado em: 10 mar. 2017.

EL KHALILI, Amyra. As commodities ambientais e a métrica do carbono. Disponível em: http://racismoambiental.net.br/2017/02/17/as-commodities-ambientais-e-a-metrica-do-carbono/. Acesso em: 17 fev. 2017. Capturado em: 17 fev. 2017.

KILL, Jutta. Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais: reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à destruição da natureza? Disponível em: http://br.boell.org/pt-br/2017/03/03/valoracao-economica-da-natureza. Acesso em: 02 mar. 2017. Capturado em: 10 mar. 2017.

LUNGARZO, Carlos A. A greve de mulheres e a “novíssima esquerda”. Disponível em: http://port.pravda.ru/mundo/10-03-2017/42844-greve_mulheres-0/. Acesso em: 08 mar. 2017. Capturado em: 08 mar. 2017.

MANTOVANI, Emiliano Terán. El nuevo asalto al agua y las rutas del capitalismo azul. Agencia Latinoamericana de Información –ALAI, 16 dez. 2020. Disponível em: https://www.alainet.org/es/articulo/210210?utm_source=email&utm_campaign=alai-amlatina.

Fonte:

EL KHALILI, Amyra. Pós-pandemia: o que está em jogo na “economia verde”?. Fórum de Direito Urbano e Ambiental – FDUA, Belo Horizonte, ano 20, n. 116, p. -, mar./abr. 2021.


Amyra El Khalili – Professora de Economia Socioambiental. Foi economista, com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais, tendo ocupado cargos relevantes em corretoras e bancos de investimentos. Editora das redes Movimento Mulheres pela P@Z! e Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. Autora do e-book Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Econômico para a América Latina e o Caribe.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 12/05/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/05/12/pos-pandemia-o-que-esta-em-jogo-na-economia-verde/

Menos é mais: como o decrescimento salvará o mundo, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A exploração da natureza e a domesticação do mundo natural já passou dos limites. A humanidade está promovendo um ecocídio em larga escala que pode se transformar em suicídio

“Acreditar que o crescimento (demo)econômico exponencial pode continuar infinitamente num mundo finito é coisa de louco ou de economista” (1966)
Kenneth Boulding (1910-1993)

A humanidade já superou a capacidade de carga do Planeta e já ultrapassou 4 das 9 fronteiras planetárias. A lógica do crescimento econômico é incompatível com a sustentabilidade. Hoje em dia a preocupação maior do mundo é com a emergência sanitária provocada pela pandemia da covid-19. Mas, no longo prazo, a emergência sanitária é o maior desafio do século e é uma “ameaça existencial” à civilização como afirmou o presidente dos EUA, Joe Biden, na abertura da Cúpula dos Líderes do Clima.

Mas o vício do egoísmo, da ganância e da cobiça funciona como uma ideologia que defende o lema do “Mais é melhor” e exalta o acumulo de bens e serviços e o enriquecimento ilimitado da humanidade às custas do empobrecimento e definhamento do mundo natural. Porém, existe uma lógica oposta que foi exposta por Jason Hickel, no livro “Less is more: Degrowth Will Save the World”. O livro fornece o argumento mais persuasivo e abrangente em favor do “decrescimento”, defendendo uma redução planejada do uso de energia e recursos para trazer a economia de volta ao equilíbrio com o mundo vivo de uma forma segura, justa e equitativa.





O livro de Jason Hickel é uma contribuição essencial para o debate sobre a ultrapassagem da capacidade de resiliência da Terra e é uma leitura obrigatória para todas as pessoas preocupadas com a sobrevivência dos ecossistemas e, em especial, para os formuladores de políticas e analistas. Mas se os políticos e os empresários são, normalmente, obcecados com o crescimento econômico, todas as pessoas que defendem o meio ambiente precisam repercutir este livro que faz uma defesa do DECRESCIMENTO.

Uma das afirmações centrais de Hickel, e que ele detalha na primeira parte do livro, é que “não há nada natural ou inato no comportamento produtivista que associamos ao homo economicus. Essa criatura é o produto de cinco séculos de reprogramação cultural. ” Em outras palavras, fomos encorajados, até mesmo compelidos a nos comportar de maneira a justificar o produtivismo e o acumulo de bens materiais. O autor considera que as propostas de desmaterialização da economia e o desacoplamento entre produção e recursos naturais não ocorre na prática, pois o que funciona é o “Paradoxo de Jevons”, já que os ganhos microeconômicos não ocorrem em nível macroeconômico.

Além de defender o decrescimento, Hickel defende a justiça social e critica as desigualdades que são os subprodutos mais significativos e intencionais da expansão capitalista e um dos desafios mais intransponíveis que a população mundial tem que enfrentar. Ele diz: “a justiça é o antídoto para o imperativo do crescimento – e a chave para resolver a crise climática”. A conclusão de Hickel sobre a transição ideológica necessária deixa claro que não será difícil e que a janela de oportunidade se fecha rapidamente. Ele escreve como “a luta diante de nós é mais do que apenas uma luta pela economia. É uma luta por nossa própria teoria do ser. Requer descolonizar não apenas terras, florestas e povos, mas descolonizar nossas mentes”.

O livro “Menos é mais” está alinhado com outros estudos fundamentais. Artigo de Steffen et. al (2015), que atualizou a metodologia e os dados das fronteiras planetárias, mostrou que quatro das nove fronteiras já foram ultrapassadas: Mudanças climáticas; Perda da biodiversidade; Mudança no uso da terra e Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio). Duas delas, a Mudança climática e a Perda de biodiversidade, são o que os autores chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o Sistema Terra a um novo estado que pode levar a civilização ao colapso. As duas grandes ameaças que pairam sobre a civilização e a vida na Terra são: Mudanças climáticas e aquecimento global e o Ecocídio gerado pela 6ª extinção em massa

Outra contribuição recente foi o relatório elaborado por Sir Partha Dasgupta, um dos mais prestigiados economistas contemporâneos. Dasgupta diz que os interesses da humanidade, a ideologia da engenhosidade humana e a apologia à tecnologia pregam que se pode fazer o uso do que se quiser da natureza. Mas este ideal de progresso, além de ser eticamente inaceitável, é economicamente desastroso. O gráfico abaixo resume a situação, pois enquanto a produtividade econômica aumenta, cresce o capital humano, mas diminui o capital natural. Para prosseguir um futuro sustentável exigirá uma mudança transformadora em nosso modo de pensar e agir.




Ou seja, enquanto a economia cresce, a humanidade enriquece e a natureza empobrece. A exploração da natureza e a domesticação do mundo natural já passou dos limites. A humanidade está promovendo um ecocídio em larga escala que pode se transformar em suicídio. A economia tradicional tende a ver a natureza apenas como um bem econômico a serviço do bem-estar da humanidade e como uma mercadoria que faz circular a economia pagando salários, lucros e juros. A tão decantada racionalidade do Homo economicus virou um problema de insensibilidade natural e uma prática especista, com sérios danos à biodiversidade.

A mensagem central do livro “Menos é mais” é que o mundo precisa promover um decrescimento das atividades mais poluidoras do Planeta e promover a redistribuição dos bens públicos e comuns, como forma de evitar o colapso ambiental, garantindo não somente a qualidade de vida humana (com menos consumo), mas também a qualidade da vida ambiental e a regeneração ecológica.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. O decrescimento demoeconômico e o trilema da sustentabilidade, Ecodebate, 20/06/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/06/20/o-decrescimento-demoeconomico-e-o-trilema-da-sustentabilidade-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Planejando o decrescimento demoeconômico, Ecodebate, 05/06/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/06/05/planejando-o-decrescimento-demo-economico-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A grande contradição do capitalismo: capital antrópico versus capital natural. Ecodebate, RJ, 29/06/2012
http://www.ecodebate.com.br/2013/05/29/a-grande-contradicao-do-capitalismo-capital-antropico-versus-capital-natural-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. As fronteiras planetárias e a autolimitação do espaço humano, Ecodebate, RJ, 06/06/2012
http://www.ecodebate.com.br/2012/06/06/as-fronteiras-planetarias-e-a-auto-limitacao-do-espaco-humano-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Nicholas Georgescu-Roegen, O decrescimento: Entropia – Ecologia – Economia. Ed. Senac, 2013.

Dave Lindorff. Growth is the Enemy of Humankind. 17/01/2013
http://www.nationofchange.org/growth-enemy-humankind-1358432599

PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, May 7, 2014
http://peakoilbarrel.com/natural-resources-human-destiny/

PURVIS, Andy. A million threatened species? Thirteen questions and answers, IPBES Global Assessment and Life Sciences, may 2019
https://www.ipbes.net/news/million-threatened-species-thirteen-questions-answers

STEFFEN, W. et al. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet, V. 347, I. 6223, Science, 13/02/2015
https://science.sciencemag.org/content/347/6223/1259855

YOUJIN, Low. The heat is on: Earth is getting ‘very, very close’ to crossing tipping point, scientist warns, Today, 06/06/2019
https://www.todayonline.com/heat-earth-getting-very-very-close-crossing-tipping-point-scientist-warns

Dasgupta, P. The Economics of Biodiversity: The Dasgupta Review. London: HM Treasury, 2021
https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/957291/Dasgupta_Review_-_Full_Report.pdf


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2021






Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 12/05/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/05/12/menos-e-mais-como-o-decrescimento-salvara-o-mundo/

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Cientistas investigam como espiritualidade pode ajudar a saúde do corpo



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

No Brasil, instituições respeitadas têm se dedicado a estudar o quanto a espiritualidade do paciente auxilia na cura de doenças físicas e psíquicas


Raiva, rancor, orgulho, medo, egoísmo. Sentimentos comuns a todos os seres humanos podem estar no cerne de boa parte das doenças enfrentadas pela humanidade, segundo a própria medicina. Várias instituições no Brasil e no mundo vêm se dedicando a estudar até que ponto a saúde do indivíduo é influenciada, literalmente, pelo seu estado de espírito.


No país, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, por meio do Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (Proser), e a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), têm investigado o quanto a espiritualidade (não necessariamente a religiosidade) do paciente auxilia na cura de doenças físicas e psíquicas - que podem ser agravadas a partir de sentimentos ruins e pensamentos destrutivos.


Nos Estados Unidos, grandes instituições de ensino como a Escola de Medicina de Stanford, as Universidades Duke, a da Flórida, a do Texas e Columbia mantêm centros de estudos exclusivos sobre o assunto, assim como a Universidade de Munique, na Alemanha, a de Calgary, no Canadá, e o Royal College of Psychiatrists, no Reino Unido. Para os centros de pesquisa, há um conjunto de evidências que indicam que diversas expressões da espiritualidade têm impacto significativo na saúde e no bem-estar, associadas a menores níveis de mortalidade, depressão, suicídio, uso de drogas, ou mesmo internações e medicamentos.


As instituições ressaltam que espiritualidade é diferente de religião: em tese, uma pessoa religiosa é espiritualizada; mas alguém espiritualizado não necessariamente segue uma religião - e pode até não acreditar em Deus. A espiritualidade estaria ligada à busca pessoal de um propósito de vida e de uma transcendência, envolvendo também as relações com a família, a sociedade e o ambiente.

Perdão e gratidão no controle da pressão arterial


"A espiritualidade é um estado mental e emocional que norteia atitudes, pensamentos, ações e reações nas circunstâncias da vida de relacionamento, sendo passível de observação e mensuração científica", diz o médico Álvaro Avezum Júnior, diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), professor do centro de cardiopneumologia da USP e do programa de doutorado do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Segundo ele, a espiritualidade é expressa através de crenças, valores, tradições e práticas. "Quem tem menos disposição ao perdão está mais disponível a enfrentar enfermidades coronárias", diz o especialista, que também é diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Da mesma maneira, diz, a raiva acumulada pode levar à diabetes.


Avezum é um dos principais estudiosos do país da relação entre espiritualidade e saúde. Esteve à frente da iniciativa da SBC em publicar, há dois anos, as Diretrizes Brasileiras Sobre Espiritualidade e Fatores Psicossociais, que integram o conjunto de prevenção cardiovascular. "A SBC foi a primeira sociedade de cardiologia do mundo a associar enfermidade moral a doença cardíaca, a partir de evidências científicas", diz.


Segundo ele, com intervenções baseadas em perdão e gratidão é possível controlar, por exemplo, a pressão arterial. "Mas não um perdão condicional, que mantém o ressentimento, e sim um perdão emocional, que muda o que se sente em relação ao agressor", afirma.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Relação entre profissionais da saúde e pacientes deve ser guiada pela empatia


Agora seus estudos buscam ir além e entender a origem da doença. "Queremos mostrar que é possível prevenir a doença tratando a espiritualidade primeiro, por meio do perdão e da gratidão, além de reforçar outras atitudes positivas como solidariedade, compaixão, humildade, paciência, confiança e otimismo", diz ele, que não se importa com eventuais céticos no meio científico. "Se alguém diz que isto não é ciência está sendo dogmático, porque escolhe o que investigar".


Até 2019, antes da pandemia do novo coronavírus, as doenças cardíacas eram a principal causa de morte entre adultos no Brasil. Foram 116.766 óbitos em 2019 relacionados aos males do coração, informa o Ministério da Saúde. Segundo Avezum, já existem artigos e estudos sobre espiritualidade e covid-19 no mundo (eram 110 até o último dia 25 de abril, segundo registros do buscador PubMed, da National Library of Medicine, dos Estados Unidos). Mas os resultados ainda são inconclusivos, diz.


"Para combater o coronavírus, o melhor é não se expor e se valer da religiosidade e da fé para enfrentar os desafios do isolamento social", afirma.

"Vou morrer, doutor?"


O interesse de Avezum no tema começou com o trabalho da médica americana Christina Puchalski que, desde 1996, procura inserir o componente espiritual no cuidado com os pacientes. Christina dirige o Instituto George Washington para Espiritualidade e Saúde (GWish), da Universidade George Washington. Ela defende que os médicos levantem o histórico espiritual do paciente para entendê-lo de forma integral. O objetivo é identificar as crenças e valores que realmente importam ao indivíduo, e como isso atua na forma como ele lida com a doença.


"Se o paciente acredita que a meditação o acalma, o médico deve ter essa informação em mãos e recomendar que ele mantenha a prática, ao mesmo tempo em que toma a medicação", diz o médico Frederico Leão, coordenador do Proser do IPq. "É preciso adotar a prática espiritual que esteja em harmonia com as crenças de cada um, porque isso vai contribuir para o tratamento".


Pesquisar o impacto dessas práticas na saúde mental dos pacientes é o foco do IPq, que também promove cursos sobre como o abordar o tema nos consultórios.


Segundo Leão, até o início dos anos 2000, os médicos tinham muito receio em falar sobre o assunto, mesmo sendo o Brasil um país onde mais de 80% da população se declara cristã. "Muitos não sabiam - e talvez ainda não saibam - como fazer essa abordagem", diz ele. "É o caso do cirurgião que, antes da cirurgia, pede para rezar um Pai Nosso com toda a equipe e o paciente questiona: 'Por que isso, doutor, vou morrer?'".


Leão destaca as pesquisas do psiquiatra americano Harold Koenig, da Universidade Duke, para quem negligenciar a dimensão espiritual do paciente é como ignorar o seu aspecto social ou psicológico, ou seja, ele não é tratado de forma integral. "Koenig constatou que o pensamento positivo, a meditação e a oração não afetam só a mente, mas o organismo como um todo", afirma Leão, para quem essas práticas se tornam ainda mais essenciais em tempos de pandemia do novo coronavírus. "Só os muito alienados não estão revendo seu padrão de vida neste momento".

Pânico e ressentimento


Helma Gonçalves do Nascimento Martins acordou se sentindo estranha naquela sexta-feira, 8 de janeiro. Aos 48 anos, a fisioterapeuta achou que a dor e o cansaço eram resultado do treino cardiovascular feito na véspera. Mas os sintomas do novo coronavírus vieram com força. "Tive febre, dor no corpo, perda de olfato, era um sintoma novo a cada quatro horas", diz. "Me faltava ar até para tomar um copo d'água". Com o marido e a filha caçula em casa, ela se isolou no quarto da criança. E aí teve início o pior dos sintomas: o pânico.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

A espiritualidade vai muito além da religião e envolve nosso estado mental e emocional


"A ansiedade bateu muito forte, era o medo da morte a todo instante, não conseguia pensar em outra coisa, achava que eu não ia aguentar", diz ela, que foi monitorada pelo seu médico durante os 14 dias de tratamento. "Ele me dizia: 'Estou 100% com você, a gente vai vencer este vírus', e eu procurava acreditar. É uma doença em que você sente a morte ao seu lado e precisa estar sozinha".


O pior da covid-19 passou nos primeiros dez dias. Mas os sintomas continuaram por mais de um mês. "Eu sentia uma fraqueza muscular imensa, tontura", diz.


O tratamento com remédios foi encerrado e Helma começou a ser atendida pela tia do marido, uma terapeuta holística. Ela lhe aplicava massagens e passes de reiki. "Aquilo fortaleceu o meu espírito. Comecei a me sentir bem melhor e um mês depois já voltei a trabalhar o dia todo", afirma. Evangélica, ela acredita que a espiritualidade a ajudou na recuperação. "Você quer lutar, quer sobreviver e vem uma força, que você não sabe bem de onde, e te ajuda a buscar a luz em meio ao pânico, a superar os sentimentos ruins". Para ela, suas doenças foram agravadas pelo seu estado emocional. "Três meses antes do coronavírus, em outubro, sofri uma angina, um pré-infarto. Enfrentava uma crise conjugal e não conseguia perdoar. Depois, passei a ficar desesperada em relação ao futuro, ao trabalho, por conta da pandemia. A falta de perdão e de fé me abalaram demais".


O psicólogo Laerson Cândido de Oliveira ressalta o valor do amor, da oração, da positividade e da fé no futuro. "Costumamos ter muita solidariedade em relação a quem está distante de nós, a quem não conhecemos, mas somos incapazes de perdoar as menores faltas cometidas por pessoas do nosso convívio", diz ele, que dirige o Instituto Espírita Cidadão do Mundo (IECIM), em São Paulo.


Segundo ele, o ódio e o ressentimento aprisionam o indivíduo, levando-o a um estado doentio, enquanto o medo e o egoísmo paralisam impulsos positivos, no sentido de auxílio ao próximo.

Contra o negacionismo


As práticas de massagem (ayurveda) e reiki, usadas por Helma no tratamento das sequelas da covid-19, integram a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPICs), adotada em 2006 pelo Ministério da Saúde. Hoje, a PNPICs engloba 29 recursos terapêuticos - muitos baseados em conhecimentos tradicionais como acupuntura, ioga, meditação, fitoterapia, homeopatia e quiropraxia, e outros mais recentes, como ozonioterapia e biodança. Atualmente, são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 54% dos municípios do país.


A adoção da PNPICs segue orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, em 1988, incluiu a dimensão espiritual no conceito de saúde multidimensional. Para a organização, espiritualidade é "o conjunto de todas as emoções e convicções de natureza não material, com a suposição de que há mais no viver do que pode ser percebido ou plenamente compreendido, remetendo a questões como o significado e sentido da vida, não se limitando a qualquer tipo específico de crença ou prática religiosa".


"A PNPICs pode fazer a grande diferença para a saúde da população, ao valorizar o conhecimento tradicional, as culturas regionais, amparada no aculturamento espiritualista, sobretudo a um baixo custo", diz o neurocientista Sérgio Felipe de Oliveira. "É a possibilidade de diálogo com a população", prossegue ele, para quem o diálogo entre ciência e espiritualidade nunca foi tão urgente.


"A ciência não pode se fechar em cima de si mesma, em um conhecimento hermético. Ela precisa ouvir e conversar com a população. Senão, quando nós precisamos da ciência, o povo não ouve. Aí surgem o negacionismo e as fake news", diz ele, que entre 2007 e 2014 ministrou a disciplina optativa Medicina e Espiritualidade na Faculdade de Medicina na USP.


Para Sergio Felipe, é fundamental que o médico crie uma relação de empatia com o paciente. "Tanto o povo brasileiro quanto o americano são religiosos, acreditam na força da oração e na proteção de Deus. O médico precisa valorizar a dimensão espiritual do paciente para integrá-la ao tratamento", afirma.


É neste sentido, por exemplo, que o médico deve explicar que o paciente não pode estar estressado quando for tomar o medicamento, porque a adrenalina vai atrapalhar a sua eficácia. "O estado de espírito do indivíduo interfere na farmacocinética, ou seja, na absorção e distribuição do remédio no organismo", diz. "Se a oração e a fé do paciente podem acalmá-lo, isso será importante para que a medicação surta efeito".

Risadas no centro cirúrgico


Na cabeça do médico, fazer a junção entre o material e o espiritual não é tão simples. "Somos treinados a observar a dimensão física do paciente e, para a maioria, é difícil aliar este conhecimento técnico com a espiritualidade", afirma a médica pediatra Carolina Camargo Vince. "É preciso ser cuidadoso na abordagem, para que o paciente não pense que a cura dele depende de um milagre", diz ela, que integra a equipe de oncologia pediátrica do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto do Tratamento do Câncer Infantil do Hospital das Clínicas de São Paulo.


No dia a dia, Carolina costuma estender os cuidados à família da criança. "O diagnóstico de câncer afeta a saúde mental e emocional não só do paciente, mas das famílias, especialmente quando se trata de uma criança", diz ela. É comum em um primeiro momento haver um sentimento de revolta por parte dos pais, que se perguntam por que isso acontece com o filho deles, ou por que não foram eles o alvo da doença, no lugar das crianças, afirma.


"O câncer te coloca frente a frente com a questão da espiritualidade, é um momento de reflexão existencial", diz Carolina, para quem as crianças, em geral, desenvolvem sua espiritualidade de maneira plena. "Não passa pela cabeça delas desistir ou desesperar, elas vão procurar mecanismos dentro delas mesmas para se adaptar a um novo momento de vida, que envolve muitos remédios, picadas, desconfortos e às vezes longos períodos de internação".


Paciente de Carolina, Cora Grigio foi diagnosticada com leucemia quando tinha cinco anos e meio. "Para mim, até então, essa doença era sinônimo de morte", conta Patrícia Ferreira Silvério, mãe de Cora, que viu a filha encarar a situação com leveza.


"A Dra. Carol explicou para ela o que estava acontecendo de maneira didática e delicada", lembra. "E durante todo o tratamento, que durou dois anos e dois meses, minha filha só chorou uma vez". Espirituosa e alegre, Cora sempre gostou de se enfeitar para ir ao hospital, onde brincava com quem estivesse perto. "Deitada na maca, ela ia rindo com as médicas para o centro cirúrgico", lembra Patrícia, que hoje alimenta o Instagram da filha, uma modelo de 8 anos. "Ela começou a fazer campanhas quando ainda estava carequinha, tamanha a autoestima".


Mas para a mãe o processo nunca foi tranquilo. "Um dia, depois das primeiras sessões de quimioterapia, levei um susto quando um tufo de cabelo dela saiu na escova. Cora percebeu e começou a cantar para me alegrar", diz Patrícia. "Não aguentei e chamei meu marido, precisava chorar um pouco".


Para Patrícia, a doença da única filha foi capaz de lhe mostrar que ela não está no controle de tudo. "Eu sempre fui a que tomava a frente das coisas, a que resolvia tudo. Mas me deparei com algo que eu não conseguia resolver. Eu tinha que buscar paz para passar pelo sofrimento", diz ela, uma católica que se aproximou do espiritismo na época do tratamento de Cora.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

A forma como o paciente e sua família lidam com a doença pode fazer diferença no resultado final do tratamento e na recuperação

Mentes perturbadas


A pediatra intensivista Cíntia Tavares Cruz sempre quis tratar do tema espiritualidade com as famílias, mas não sabia como abordar. Ao longo do seu curso de medicina na Universidade de Campinas (Unicamp), o mais perto que ela chegou do assunto foi quando aprendeu sobre ética e humanização.


"O paciente que chega à UTI está em colapso do corpo físico. Existe alto grau de incerteza, tudo sai do falso controle. Depois de resgatá-lo, é preciso tratar de questões que o levaram até ali e vão além do físico", diz ela, que só ouviu falar sobre espiritualidade quando se especializou em medicina paliativa. Voltada a doentes crônicos, a especialidade busca proporcionar ao paciente e sua família uma qualidade de vida integral, envolvendo físico, social, emocional e espiritual. "Neste sentido, as práticas integrativas fazem toda a diferença".


Na opinião da fisioterapeuta Juliana Faria do Nascimento, as PNPICs contribuem para o equilíbrio energético e permitem melhorar a imunidade do indivíduo. "Por isso, o Conselho Nacional de Saúde pediu que este tipo de tratamento não fosse interrompido durante a pandemia", diz ela, que trabalha em Adamantina (SP) e tem entre os seus pacientes diabéticos, hipertensos e portadores de doenças cardiovasculares que viram aumentar seu grau de ansiedade e estresse durante o confinamento. "Uma mente perturbada não consegue evoluir na parte física", afirma.


Cíntia Cruz concorda. "A adoção de práticas integrativas ajuda a desbloquear a espiritualidade do paciente. Isso não vai acabar com o seu sofrimento, mas vai ajudá-lo a lidar melhor com este momento difícil, ao sair da inércia e da vitimização", diz a pediatra, que trabalha como intensivista no Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, e como paliativista no Hospital das Clínicas.


Foi o que aconteceu com o pequeno Kaleb, de 10 anos. Vítima de sarcoma histiocítico, um tipo raro e agressivo de câncer, que se disseminou por todo o corpo, ele passou a ter contato no hospital com a meditação para controlar a dor. "Por vezes eu estava no quarto conversando com a médica e ele pedia silêncio para meditar", lembra a mãe de Kaleb, Fernanda Hochstedler.

"Deus não se esqueceu da gente"


Foi a segunda vez que Kaleb teve câncer. Na primeira, quando ele ainda tinha 8 anos, foi diagnosticado com leucemia. Se incomodou com a perda de cabelo, mas respondeu bem ao tratamento ao longo do primeiro ano. Um dia, porém, começou a sofrer com febres altas e persistentes. Uma investigação profunda levou ao diagnóstico de sarcoma.


"Foi muito difícil dizer a ele que surgiu um novo câncer e que ele precisava passar por um transplante de medula", diz Fernanda. "Dissemos a ele que não sabíamos o final da história, mas que ele jamais estaria sozinho e que Deus não se esqueceu da gente", diz ela que, com o marido e outros quatro filhos, segue a Igreja Internacional do Calvário, de origem canadense.


O transplante foi feito em novembro de 2019. As sessões intensas de quimioterapia levaram a uma reação no pulmão e ele voltou a ser internado em 3 de março do ano passado. "Quando surgiu a pandemia, fiquei o tempo todo com ele no hospital, passei quase um mês sem ver meus outros filhos", diz Fernanda. Para suprir em parte a falta dos irmãos, a quem Kaleb sempre foi apegado, a mãe sugeriu que eles fizessem novos amigos no hospital - alguns mantidos até hoje.


"Quando você foca na vida da outra pessoa, você cria empatia e transforma a sua própria perspectiva", diz ela. "Isso nos ajudou a lidar com as emoções e a não nos entregarmos ao desespero".


O momento de dor profunda, porém, chegou. Kaleb precisou ser entubado em abril e, em 12 de maio de 2020, faleceu. Dois dias antes, sem perspectiva de melhoras, Fernanda e o marido questionaram se os irmãos queriam se despedir de Kaleb. Todos concordaram. O garoto permanecia sedado, mas os irmãos conversaram com ele. "O meu caçula disse: 'Vá para casa, Kaleb. Nós vamos mais tarde'", lembra Fernanda, que chegou a colocar o filho já morto no colo. "Deixá-lo ir, depois de tanto sofrimento, trouxe muita paz", diz ela, para quem Deus se tornou muito mais real depois de toda a experiência. "É claro que houve dor e desespero, mas a fé nos permitiu não permanecer lá e voltarmos a viver".





Autor: Daniele Madureira
Fonte: São Paulo para a BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56655826

Como foi a reentrada de foguete chinês descontrolado, que caiu no Oceano Índico



CRÉDITO,REUTERS
Legenda da foto,

Foguete foi lançado em 29 de abril


Os destroços do foguete chinês Longa Marcha 5B caíram no Mar Arábico, perto das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, de acordo com autoridades daquele país.


De acordo com imprensa estatal da China, partes do foguete entraram na atmosfera da Terra às 10h24 deste domingo (9/5) horário de Pequim (22h24 de sábado, 8/5, no Brasil).


A reentrada dos destroços do foguete também foi confirmada pelo 18º Esquadrão de Controle Espacial dos Estados Unidos, que se dedica a rastrear objetos artificiais na órbita da Terra.


O Comando Espacial dos EUA disse, por meio de um comunicado, que poderia "confirmar que a Longa Marcha 5B reentrou na Península Arábica". "Não se sabe se os destroços impactaram a terra ou a água", disse o comando.


Roscosmos, a agência espacial da Rússia, também relatou que destroços caíram no Oceano Índico.


A reentrada descontrolada do foguete na Terra causou preocupação, embora as autoridades chinesas e especialistas independentes tenham alertado que havia muito pouco risco de os destroços caírem em uma área habitada.

Foguete chinês descontrolado: EUA monitoram destroços que devem cair sobre a Terra no sábado


A China havia lançado o Longa Marcha 5B em 29 de abril para colocar em órbita um trecho da estação espacial que aquele país está construindo.


Vários sites de rastreamento dos Estados Unidos e da Europa monitoraram a reentrada do foguete, mas não foi possível determinar se ele se desintegraria ao entrar.


Nem foram capazes de identificar onde os possíveis destroços cairiam.



CRÉDITO,VCG
Legenda da foto,

China deu mais um passo em seu ambicioso programa espacial com lançamento do módulo Tianhe

Reentrada na Terra


A maioria dos componentes do Longa Marcha 5B se desintegrou ao entrar na atmosfera terrestre e os destroços caíram no Oceano Índico, de acordo com a imprensa estatal chinesa, citada pela agência de notícias Reuters.


As coordenadas localizam o ponto de impacto no Oceano Índico, ao norte do arquipélago das Maldivas, localizado a sudoeste do Sri Lanka e a 600 km da Índia.


Com 18 toneladas, o Longa Marcha 5B é um dos maiores artefatos a ter retornado descontroladamente à Terra em décadas.

Preocupação


Antes da reentrada do foguete, havia o temor de que detritos pudessem cair em uma área habitada.


O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, disse que a China foi negligente ao permitir a devolução descontrolada de um objeto tão grande.



CRÉDITO,BBC
Legenda da foto,

Terra está rodeada de satélites, mas também de lixo espacial


A China, por sua vez, rebateu essa acusação. A imprensa daquele país descreveu os alertas do Ocidente como "exageros" e previu que os destroços cairiam em algum lugar em águas internacionais.


Especialistas espaciais também previram que as chances de alguém ser atingido por um pedaço de lixo espacial eram muito pequenas, especialmente porque grande parte da superfície da Terra é coberta por oceanos e grandes áreas de nosso planeta são desabitadas.


Vários especialistas em modelagem de detritos espaciais apontaram que a reentrada aconteceria provavelmente na noite de sábado ou no domingo.


Eles previram que a maior parte do artefato se incendiaria durante sua imersão final na atmosfera, embora sempre houvesse a possibilidade de que metais com alto ponto de fusão e outros materiais duráveis pudessem atingir a superfície da Terra.


"A reentrada no oceano sempre foi estatisticamente a mais provável", tuitou Jonathan McDowell, especialista do Centro de Astrofísica da Universidade de Harvard, que monitorou a queda do foguete.


A missão do Longa Marcha 5B


Em 29 de abril, a China usou o foguete para colocar parte de sua estação espacial em órbita.


A estação espacial do gigante asiático será montada a partir de vários módulos que serão enviados em diferentes horários.


A China espera que ela entre totalmente em operação até o fim de 2022.


Para ter sua estação espacial pronta no prazo, a China estabeleceu um cronograma apertado de 11 lançamentos para os próximos dois anos.


A estação em forma de T deve funcionar por 10 anos e sua vida útil pode ser estendida para 15 anos com reparo e manutenção adequados, de acordo com a Academia de Tecnologia Espacial da China.


Espera-se que seja a única estação operacional em órbita aberta a parceiros estrangeiros após a 'aposentadoria' da Estação Espacial Internacional.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57048256

A técnica dos psicólogos para saber quando alguém está mentindo



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Muita gente acha que sabe dizer quando alguém está mentindo, mas é extremamente difícil encontrar indicadores confiáveis


A polícia achou que Marty Tankleff, de 17 anos, parecia calmo demais depois de encontrar os corpos da mãe esfaqueada e do pai espancado na casa da família em Long Island, no Estado de Nova York, nos EUA.


As autoridades não acreditaram em suas alegações de inocência, e ele passou 17 anos na prisão pelos assassinatos.

Em outro caso, a polícia achou que Jeffrey Deskovic, de 16 anos, estava aflito e ansioso demais para ajudar os detetives depois que seu colega de escola foi encontrado estrangulado.


Ele também foi julgado por mentir e cumpriu quase 16 anos de prisão pelo crime.


Um deles não estava transtornado o suficiente. O outro estava transtornado demais. Como esses sentimentos opostos podem ser pistas reveladoras de culpa?


Não são, diz a psicóloga Maria Hartwig, pesquisadora do John Jay College of Criminal Justice da Universidade da Cidade de Nova York.


Ambos os rapazes, posteriormente inocentados, foram vítimas de uma concepção errônea generalizada: que você pode identificar um mentiroso pela maneira como ele age.


Em diferentes culturas, as pessoas acreditam que certos comportamentos — como desviar o olhar, inquietação e gagueira — entregam os mentirosos.


Mas, na verdade, pesquisadores encontraram poucas evidências para apoiar essa crença, apesar de décadas de pesquisas.


"Um dos problemas que enfrentamos como pesquisadores da mentira é que todo mundo pensa que sabe como a mentira funciona", afirma Hartwig, coautora de um estudo sobre pistas não-verbais para mentira publicado na revista acadêmica Annual Review of Psychology.


Esse excesso de confiança levou a erros judiciais graves, como Tankleff e Deskovic sabem muito bem.


"Os erros de detecção de mentira custam caro para a sociedade e para as pessoas vítimas de erros de julgamento", explica Hartwig.


"Tem muita coisa em jogo."

Sinais errados


Os psicólogos sabem há muito tempo como é difícil identificar um mentiroso.


Em 2003, a psicóloga Bella DePaulo, agora afiliada à Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e seus colegas examinaram a literatura científica existente e reuniram 116 experimentos que comparavam o comportamento das pessoas ao mentir e ao dizer a verdade.


Os estudos avaliavam 102 possíveis pistas não-verbais, incluindo desviar o olhar, piscar, falar mais alto (uma pista não-verbal porque não depende das palavras usadas), encolher os ombros, mudar a postura e movimentar a cabeça, mãos, braços ou pernas.


Nenhuma delas provou ser um indicador confiável de um mentiroso, embora algumas fossem levemente correlacionadas, como pupilas dilatadas e um pequeno aumento — indetectável ao ouvido humano — no tom de voz.


Três anos depois, DePaulo e o psicólogo Charles Bond, da Texas Christian University, também nos EUA, revisaram 206 estudos envolvendo 24.483 observadores que julgaram a veracidade de 6.651 comunicações de 4.435 indivíduos.


Nem os especialistas em segurança pública, nem os estudantes voluntários foram capazes de distinguir as afirmações verdadeiras das falsas mais do que 54% das vezes — um pouco acima do acaso.


Em experimentos individuais, a precisão oscilou de 31 a 73% — e variou mais amplamente em estudos menores.


"O impacto da sorte é aparente em estudos pequenos", diz Bond. "Em estudos de tamanho suficiente, a sorte se nivela."


Este efeito em relação ao tamanho sugere que a maior precisão relatada em alguns dos experimentos pode apenas se resumir ao acaso, explica o psicólogo e analista de dados aplicados Timothy Luke, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia.


"Se não encontramos grandes efeitos até agora", diz ele, "é porque provavelmente não existem."


A sabedoria popular diz que você pode identificar um mentiroso pela forma como ele soa ou age.


Mas quando os cientistas analisaram as evidências, descobriram que muito poucas pistas realmente tinham qualquer relação significativa com mentir ou dizer a verdade.


Mesmo as poucas associações que eram estatisticamente significativas não eram fortes o suficiente para serem indicadores confiáveis.


Os peritos da polícia, no entanto, frequentemente apresentam um argumento diferente: que os experimentos não eram realistas o suficiente.


Afinal de contas, eles dizem, os voluntários — a maioria estudantes — instruídos a mentir ou dizer a verdade em laboratórios de psicologia não enfrentam as mesmas consequências que os suspeitos de crimes na sala de interrogatório ou no banco dos réus.


"Os 'culpados' não tinham nada em jogo", afirma Joseph Buckley, presidente da John E Reid and Associates, que treina milhares de policiais todos os anos em detecção de mentiras baseada em comportamento.


"Não era uma motivação real, consequente."



CRÉDITO,A. VRIJ ET AL/AR PSYCHOLOGY 2019/KNOWABLE MAGAZINE
Legenda da foto,

É difícil identificar um mentiroso com testes


Samantha Mann, psicóloga da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, achava que as críticas da polícia eram pertinentes quando começou a pesquisar sobre a mentira há 20 anos.


Para aprofundar a questão, ela e o colega Aldert Vrij assistiram a horas de entrevistas em vídeo da polícia com um serial killer condenado e identificaram três verdades conhecidas e três mentiras conhecidas.


Mann pediu então a 65 policiais ingleses que vissem as seis declarações e julgassem quais eram verdadeiras e quais eram falsas. Como as entrevistas eram em holandês, os oficiais julgaram inteiramente com base em pistas não-verbais.


Os policiais estavam corretos 64% das vezes — melhor do que o acaso, mas ainda não muito precisos, diz ela.


E aqueles que se saíram pior foram os que disseram confiar em estereótipos não-verbais como "mentirosos desviam o olhar" ou "mentirosos são inquietos".


Na verdade, o assassino manteve contato visual e não se inquietou ao mentir.


"Esse cara estava claramente muito nervoso, sem dúvida", afirma Mann, mas controlou seu comportamento para contrariar estrategicamente os estereótipos.


Em um estudo posterior, também realizado por Mann e Vrij, 52 policiais holandeses não se saíram melhor do que o acaso ao tentar distinguir entre declarações verdadeiras e falsas de familiares que haviam matado seus parentes e negado veementemente em coletivas de imprensa que foram usadas no estudo.


Notavelmente, os policiais com pior desempenho foram aqueles que acreditaram que as demonstrações de emoção eram genuínas. Mas o que isso significa?


"Se o marido matou a esposa, ele poderia estar perturbado por uma série de razões, como remorso ou (medo de) ser preso", diz Mann.


"O comportamento não-verbal é tão idiossincrático. Se você se concentrar no comportamento não-verbal, como as emoções, você vai cometer erros."


Confirmando esses resultados em larga escala, anos depois, Hartwig e Bond revisaram a literatura de estudos que comparavam as habilidades das pessoas para detectar mentiras de alto e baixo risco.


Eles não encontraram evidências de que as pessoas detectassem melhor as mentiras contadas por criminosos ou suspeitos acusados ​​injustamente em investigações policiais do que aquelas contadas por voluntários em laboratório.

Algo a esconder


De assassinos em série a estudantes mentindo em experimentos de laboratório, as mentiras em todos esses experimentos foram ditas oralmente.


Em um estudo publicado em 2019, Mann examinou a farsa não-verbal, como quando alguém está tentando esconder uma atividade ilícita — um tipo de mentira relevante para detectar terroristas ou contrabandistas.


Ela recrutou 52 estudantes universitários voluntários e pediu a metade deles que transportasse um laptop que supostamente continha fotos confidenciais em um trajeto de balsa entre duas cidades.


Os voluntários foram orientados a tentar se misturar em meio à multidão e não parecerem "suspeitos", porque haveria pessoas tentando identificá-los.


A outra metade do grupo recebeu um telefone celular comum para transportar, sem instruções para esconder o que estavam fazendo.


Quando Mann mostrou os vídeos das viagens de balsa para 104 outros voluntários e pediu que identificassem os "contrabandistas", os observadores não se saíram melhor do que o acaso.


Em entrevistas posteriores, os "contrabandistas" disseram que estavam nervosos, mas conscientemente tentaram agir normalmente e controlar o nervosismo com táticas como ouvir música ou usar seus telefones.


Em seguida, Mann aumentou o nível de tensão do experimento. Metade de um novo grupo de 60 voluntários recebeu um envelope com moedas russa, egípcia e coreana para esconder, enquanto a outra metade não "contrabandeou" nada.


Mas, desta vez, Mann enviou dois pesquisadores para andar pela balsa e analisar os passageiros, aparentando comparar seus rostos com fotos em um telefone celular.


Desta vez, 120 observadores que tentavam identificar os "contrabandistas" no vídeo acertaram 39,2% das vezes — bem menos do que o acaso.


A razão, diz Mann, é que os "contrabandistas" conscientemente se esforçaram para parecer normais, enquanto os voluntários "inocentes" do grupo de controle agiram com naturalidade.


A surpresa deles com a vigilância inesperada pareceu aos observadores um sinal de culpa.

Disfarçar bem


A descoberta de que mentirosos podem esconder o nervosismo com sucesso é a peça que faltava na pesquisa sobre mentira, diz o psicólogo Ronald Fisher, da Universidade Internacional da Flórida, nos EUA, que treina agentes do FBI, a polícia federal americana.


"Não são muitos os estudos que comparam as emoções internas das pessoas com o que os outros percebem", diz ele.


"A questão toda é que os mentirosos ficam mais nervosos, mas isso é um sentimento interno, ao contrário do modo como eles se comportam, conforme observado pelos outros."


Estudos como estes levaram os pesquisadores a abandonar em grande parte a busca por pistas não-verbais para a mentira.


Mas existem outras maneiras de identificar um mentiroso?



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Ideias preconcebidas sobre como as pessoas se comportam ao mentir resultaram em erros judiciais


Hoje, os psicólogos que investigam a mentira estão mais propensos a se concentrar em pistas verbais e, particularmente, em maneiras de ampliar as diferenças entre o que dizem os mentirosos e quem fala a verdade.


Por exemplo, os interrogadores podem reter evidências estrategicamente por mais tempo, permitindo que um suspeito fale mais livremente, o que pode levar os mentirosos a contradições.


Em um experimento, Hartwig ensinou essa técnica a 41 policiais em treinamento, que na sequência identificaram corretamente os mentirosos em cerca de 85% das vezes — em comparação com 55% de outros 41 recrutas que ainda não haviam recebido o treinamento.


"Estamos falando de melhorias significativas nas taxas de precisão", diz Hartwig.


Outra técnica de interrogatório explora a memória espacial ao pedir que suspeitos e testemunhas descrevam uma cena relacionada a um crime ou um álibi para ser desenhada.


Como isso reforça a lembrança, quem diz a verdade pode apresentar mais detalhes.


Em um estudo simulado de missão de espionagem publicado por Mann e seus colegas no ano passado, 122 participantes se encontraram com um "agente" no refeitório da escola, trocaram um código e, em seguida, receberam um pacote.


Posteriormente, os participantes instruídos a dizer a verdade sobre o que aconteceu forneceram 76% mais detalhes sobre a experiência durante uma entrevista para ilustrar o ocorrido do que aqueles solicitados a encobrir a troca de código-pacote.


"Quando você ilustra, está revivendo um evento — então isso ajuda a memória", diz Haneen Deeb, psicóloga da Universidade de Portsmouth, coautora do estudo.


O experimento foi desenvolvido com a contribuição da polícia do Reino Unido, que regularmente recorre a entrevistas para ilustração e trabalha com pesquisadores de psicologia, como parte da transição para os interrogatórios de presunção de inocência, que substituiu oficialmente os interrogatórios do tipo acusatório nas décadas de 1980 e 1990 no país após escândalos envolvendo condenações injustas e abusos.

Mudança lenta


Nos EUA, porém, essas reformas baseadas na ciência ainda precisam ser introduzidas significativamente na polícia e em outras autoridades de segurança.



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

As técnicas de detecção de mentira desenvolvidas no século 20 são notoriamente imprecisas


A Administração de Segurança de Transporte (TSA, na sigla em inglês) do Departamento de Segurança Interna dos EUA, por exemplo, ainda usa pistas não-verbais de mentira para selecionar passageiros para interrogatório nos aeroportos.


A lista de verificação de triagem comportamental secreta da agência instrui os agentes a procurar pistas que indiquem supostos mentirosos, como desviar o olhar — considerado um sinal de respeito em algumas culturas —, olhar fixo prolongado, piscar rapidamente, reclamar, assobiar, bocejar de forma exagerada, cobrir a boca ao falar e inquietação ou cuidados pessoais excessivos.


Todas essas pistas foram completamente desacreditadas por pesquisadores.


Com os agentes se baseando em fundamentos tão vagos e contraditórios para suspeita, talvez não seja surpreendente que passageiros tenham apresentado 2.251 queixas formais entre 2015 e 2018, alegando que foram selecionados com base na nacionalidade, raça, etnia ou outros motivos.


O escrutínio do Congresso em relação aos métodos de triagem da TSA em aeroportos remonta a 2013, quando o General Accounting Office (GAO)​ — o órgão de auditoria do Congresso americano — revisou as evidências científicas para detecção de comportamento e descobriu que eram insuficientes, recomendando a TSA a limitar seu financiamento e restringir seu uso.


Em resposta, a TSA eliminou o uso de oficiais de detecção de comportamento independentes e reduziu a lista de verificação de 94 para 36 indicadores, mas manteve muitos elementos sem respaldo científico, como suor intenso.


Em resposta ao novo escrutínio do Congresso, a TSA prometeu em 2019 melhorar a supervisão da equipe para reduzir a criação de perfis. Ainda assim, a agência continua a ver valor na triagem comportamental.



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Ao serem interrogadas, as pessoas podem ficar nervosas ou angustiadas por uma série de motivos, não apenas por estarem escondendo a verdade


Como um oficial da Segurança Interna disse aos investigadores do Congresso, vale a pena incluir indicadores comportamentais de "bom senso" em um "programa de segurança racional e defensável", mesmo que não atendam aos padrões acadêmicos de evidência científica.


O gerente de relações com a imprensa da TSA, R Carter Langston, diz que o órgão "acredita que a detecção comportamental fornece uma camada crítica e eficaz de segurança dentro do sistema de transporte do país."


A TSA cita dois casos distintos de detecção comportamental bem-sucedidos nos últimos 11 anos que impediram três passageiros de embarcar em aviões com dispositivos explosivos ou incendiários.


Mas, como diz Mann, sem saber quantos supostos terroristas escaparam da segurança sem serem detectados, o sucesso de tal programa não pode ser medido.


E, na verdade, em 2015, o chefe interino da TSA foi afastado após agentes infiltrados do Departamento de Segurança Interna contrabandearem com sucesso, em uma investigação interna, dispositivos explosivos falsos e armas reais por meio da segurança do aeroporto 95% das vezes.


Em 2019, Mann, Hartwig e 49 outros pesquisadores universitários publicaram uma revisão de estudos avaliando as evidências da triagem de análise comportamental, concluindo que os profissionais de segurança pública deveriam abandonar essa pseudociência "fundamentalmente equivocada", que pode "prejudicar a vida e a liberdade dos indivíduos".


Hartwig, por sua vez, se juntou ao especialista em segurança nacional Mark Fallon, ex-agente especial do Serviço de Investigação Criminal da Marinha dos Estados Unidos e ex-diretor assistente de Segurança Interna, para criar um novo currículo de treinamento para investigadores mais solidamente baseado na ciência.


"O progresso tem sido lento", diz Fallon.


Mas ele espera que reformas futuras salvem as pessoas do tipo de condenações injustas que marcaram as vidas de Jeffrey Deskovic e Marty Tankleff.


Para Tankleff, os estereótipos de mentirosos se revelaram ferrenhos.


Em anos de campanha para ser absolvido e recentemente para exercer advocacia, o rapaz reservado e estudioso teve que aprender a mostrar mais sentimento "para criar uma nova narrativa" de inocente injustiçado, diz Lonnie Soury, gerente de crise que foi sua coach nesse esforço.


Funcionou, e Tankleff finalmente conseguiu ser admitido na Ordem de Nova York em 2020. Por que demonstrar emoção era tão importante?

"As pessoas", diz Soury, "são muito tendenciosas".

*Este artigo foi publicado originalmente na Knowable Magazine e republicado aqui com permissão.




Autor: Jessica Seigel
Fonte: BBC Future (Knowable Magazine)*
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 07/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-56799659

Elon Musk: o que é a Síndrome de Asperger, que o CEO da Tesla revelou ter



CRÉDITO,REUTERS
Legenda da foto,

O CEO da SpaceX também falou sobre o uso das redes sociais: 'Eu às vezes digo ou posto coisas estranhas'


O empresário Elon Musk revelou que tem a síndrome de Asperger durante o programa de TV dos Estados Unidos 'Saturday Night Live'.


Aos 49 anos, o CEO da Tesla disse aos telespectadores que foi "a primeira pessoa com Asperger" a apresentar o programa, e foi aplaudido pelo público.


Pessoas com síndrome de Asperger interpretam o ambiente ao seu redor de forma diferente para outras pessoas.


Elon Musk foi apresentador convidado do show de esquetes — uma posição cobiçada, que já foi preenchida por uma série de celebridades desde o início do programa na década de 1970, como Adele, Chris Rock, Ringo Starr e Will Ferrell.


"Eu nem sempre tenho muita entonação ou variação em como eu falo... o que me disseram que é bom para fazer comédia", brincou Musk, em sua fala de abertura. "Na verdade, estou fazendo história esta noite como a primeira pessoa com Asperger a apresentar o Saturday Night Live."


A fala gerou uma onda de palmas da plateia do estúdio, mas o conteúdo dela foi questionado nas redes sociais. Alguns apontaram que o comediante Dan Aykroyd, que falou publicamente sobre sua experiência com síndrome de Tourette e Asperger, já havia apresentado o programa.


Musk, que tem mais de 53 milhões de seguidores no Twitter, também fez piada sobre o uso das redes sociais. Ele já enfrentou críticas e até ameaças legais por causa de seus tuítes no passado.


Em 2020, ele passou a usar as redes sociais para questionar a gravidade da pandemia de coronavírus e combater as medidas de distanciamento social impostas pelas autoridades da Califórnia, onde está a sede de sua fábrica de carros.


"Olha, eu sei que às vezes digo ou posto coisas estranhas, mas é assim que meu cérebro funciona", disse ele. "Para qualquer um que tenha ficado ofendido, só quero dizer que reinventei os carros elétricos e estou mandando pessoas para Marte em um foguete. Você achou que eu também seria um cara normal e tranquilo?"


Outro caso recente que chamou atenção foi o da jovem ativista climática sueca Greta Thunberg, diagnosticada com a síndrome de Asperger e que demonstrou grande habilidade em galvanizar o público em torno de sua causa. Ela foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz de 2020.



O que é a síndrome de Asperger?

A síndrome de Asperger é uma condição vitalícia que afeta as pessoas de muitas maneiras diferentes
Alguns optam por continuar usando o termo síndrome de Asperger, enquanto outros preferem se referir a si mesmos como autistas ou no espectro autista
Pessoas com a síndrome podem ter dificuldade em interpretar a linguagem verbal e não verbal e podem precisar de mais tempo para processar informações
Também podem ter problemas para expressar seus sentimentos de forma convencional. Mas podem ser mais empáticos ou emocionalmente conscientes do que pessoas não autistas
Muitas pessoas com síndrome de Asperger têm interesses intensos e altamente focados — alguns os direcionam para uma carreira de sucesso


Fonte: Autism.org.uk



Transtorno do Espectro do Autismo


A Síndrome de Asperger faz parte do chamado Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).


Segundo o Ministério da Saúde do Brasil, "pessoas com Asperger geralmente processam detalhes adicionais ao seu redor e possuem grandes habilidades em observação e ordem detalhadas, processando muito mais os sentidos, fazendo com que cores, sons, cheiros e sentimentos pareçam mais brilhantes, mais altos e mais fortes".


Além da Síndrome de Asperger, o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) reúne desordens do desenvolvimento neurológico presentes desde o nascimento ou começo da infância, como Autismo Infantil, Autismo de Kanner, Autismo de Alto Funcionamento, Autismo Atípico, Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação e Transtorno Desintegrativo da Infância.


E quais são os sintomas de uma criança no espectro autista?


O Ministério da Saúde aponta que, geralmente, a criança apresenta os seguintes sintomas:

dificuldade para interagir socialmente, como manter o contato visual, expressão facial, gestos, expressar as próprias emoções e fazer amigos
dificuldade na comunicação, optando pelo uso repetitivo da linguagem e bloqueios para começar e manter um diálogo
alterações comportamentais, como manias, apego excessivo a rotinas, ações repetitivas, interesse intenso em coisas específicas, dificuldade de imaginação e sensibilidade sensorial


O ministério aponta, ainda, que "a diferença entre os transtornos é o grau, dentro do espectro autista, já que é possível ter pessoas com TEA com apenas pequenas dificuldades de socialização até indivíduos com afastamento social, deficiência intelectual e dependência de cuidados ao longo da vida".

Nome do filho: X Æ A-12 Musk


Durante o programa, o bilionário também brincou sobre o nome incomum do filho — ele e a cantora canadense Grimes anunciaram o nascimento de seu primeiro filho, X Æ A-12 Musk, no ano passado. "A pronúncia é como um gato correndo pelo teclado", disse Musk.


Ainda no programa de TV, o CEO da SpaceX falou sobre a criptomoeda Dogecoin.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Musk e a cantora canadense Grimes anunciaram o nascimento de seu primeiro filho, X Æ A-12 Musk, no ano passado


A moeda foi criada em 2013 por dois profissionais de software e, no início deste ano, seu valor aumentou 50% depois que Musk a apelidou de "a criptomoeda do povo". Ela usa um cachorro Shiba Inu como mascote e é baseada em um meme que caracteriza o animal.


Musk descreveu a moeda como "um veículo imparável que vai dominar o mundo", mas depois disse que uma "confusão" provocou uma queda quase imediata no valor.


Sem nenhum valor intrínseco como ouro ou propriedade, e sem capacidade de gerar renda, as criptomoedas são extremamente voláteis e podem perder valor tão rápido quanto sobem. Isso as torna difíceis de avaliar e torna seus preços suscetíveis a falas de apoiadores como Musk.


A NBC, responsável pela transmissão do programa, disse que o episódio foi transmitido ao vivo no YouTube para mais de 100 países.






Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 10/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57056509