A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) divulgou o resultado do Prêmio Capes de Teses - edição 2026. A Fiocruz está entre as instituições contempladas, com duas premiações (nas categorias Ciências Biológicas e Medicina) e uma menção honrosa (na categoria Saúde Coletiva).

Os premiados são Jackson Alves da Silva Queiroz, com trabalho desenvolvido no programa de pós-graduação em Biologia Experimental da Fiocruz Rondônia em associação com a Universidade Federal de Rondônia (Unir); e Mateus Santana do Rosário, cuja tese foi desenvolvida no programa de Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa, do Instituto Gonçalo Moniz (IGM/Fiocruz Bahia). A menção honrosa foi recebida por Camila Rebouças Fernandes, com trabalho desenvolvido no programa de Saúde da Criança e da Mulher, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). A solenidade de premiação dos contemplados ocorrerá em 12 de novembro, no Recife.
Jackson Alves da Silva Queiroz publicou o trabalho Abordagem molecular aplicada ao diagnóstico da hepatite delta: desenvolvimento, validação e implantação de ensaio de alta sensibilidade para quantificação da viremia e avaliação da estabilidade viral em diferentes matrizes biológicas sob a orientação dos pesquisadores Deusilene Souza Vieira Dall'Acqua e Juan Miguel Vilallobos Salcedo como coorientador. O objetivo da tese, elaborada no âmbito do programa de pós-graduação em Biologia Experimental, oferecido em associação da Fiocruz Rondônia com a Universidade Federal de Rondônia (Unir), foi desenvolver, validar e implantar um método multiplex RT-qPCR one step de alta sensibilidade para quantificação de carga viral do vírus da hepatite delta e avaliar a estabilidade viral em diferentes matrizes biológicas.
A hepatite delta é uma doença causada pela exposição aos vírus da hepatite B (HBV) e da hepatite D (HDV), geralmente com evolução clínica mais grave quando comparada a uma monoinfecção pelo HBV. Atualmente, a prevalência real da infecção pelo HDV está subestimada e os métodos de detecção não estão amplamente disponíveis. Amostras biológicas de pacientes monoinfectados com HBV, e coinfectados HBV/HDV foram coletadas nos estados de Rondônia e Acre. Após as etapas de validação, o teste foi implementado em um piloto para implantação do exame de carga viral de hepatite delta no Sistema Único de Saúde (SUS) a partir de parcerias com o Ministério da Saúde. Os resultados sugerem que o HDV pode permanecer detectável por até 96 horas quando armazenado em temperatura ambiente, 4ºC, -30ºC e -80ºC, e até 72 horas em temperaturas de 4ºC à 42ºC, além da possibilidade de detecção utilizando papel de filtro, embora com sensibilidade reduzida. O HDV mostrou-se estável em diferentes condições, o que é crucial para o diagnóstico molecular em regiões com condições adversas de armazenamento.
Mateus Santana do Rosário desenvolveu a tese Encefalites e outras doenças neurológicas relacionadas a arboviroses sob a orientação da pesquisadora Isadora Cristina de Siqueira, no programa de Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa do Instituto Gonçalo Moniz (IGM/Fiocruz Bahia). O trabalho visa caracterizar os aspectos clínicos, epidemiológicos e laboratoriais das encefalites e de outras síndromes neurológicas agudas associadas a arboviroses na Bahia. Vírus neurotrópicos, pertencentes a diferentes famílias de RNA e DNA, são causas relevantes de síndromes neurológicas agudas, como encefalite, mielite e síndrome de Guillain-Barré. Entre essas, a encefalite destaca-se por sua gravidade e heterogeneidade etiológica, tradicionalmente associada a herpesvírus e, em regiões tropicais, a arbovírus. No Brasil, a cocirculação de zika, chikungunya, dengue e oropouche tem ampliado o espectro de manifestações neurológicas, impondo novos desafios à vigilância clínica, diagnóstica e epidemiológica.
A tese de Mateus apontou que as encefalites e outras síndromes neurológicas agudas associadas a arboviroses representam um desafio diagnóstico relevante na Bahia. A predominância do vírus da Chikungunya (CHIKV), a emergência do vírus Oropouche (Orov) e a diversidade de apresentações clínicas reforçam a necessidade de vigilância integrada, ampliação do diagnóstico molecular e fortalecimento das redes clínicas e laboratoriais em regiões endêmicas.
Camila Rebouças Fernandes elaborou o trabalho A gente tem o direito de não querer ser mãe: Experiências de mulheres que escolhem não ser mães sob a orientação da pesquisadora Ivia Maria Jardim Maksud, no âmbito do programa de Saúde da Criança e da Mulher do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). A tese busca discutir a construção da experiência de escolher não ser mãe a partir das narrativas de mulheres. O estudo analisou a experiência da não-maternidade com base em: marcadores sociais de gênero, raça, classe e geração; na relação entre o modelo hegemônico de maternidade e a escolha das mulheres pela não-maternidade; na dinâmicas das relações familiares, amorosas e de amizade de mulheres que escolhem não ser mães; além de explorar o impacto do trabalho, remunerado ou não, para mulheres que escolhem não se tornar mães; bem como discutir as experiências de reprodução e de contracepção de não-mães voluntárias.
A partir das entrevistas realizadas, a tese observou que as experiências de maternidade das mulheres ao redor é um dos elementos que constroem a sua decisão pela não-maternidade. O quesito carreira profissional não se mostrou como impeditivo à maternidade, mas foram identificados alguns fatores que afastam as mulheres da vontade de ser mães: o receio de gerar uma criança com uma condição complexa de saúde, a experiência de cuidar de crianças e seu convívio, a noção de responsabilidade nos cuidados com uma criança, e as restrições de circulação de espaço e de tempo. Entre os grupos que mais exercem cobranças e pressões para que as mulheres tenham filhos, destacaram-se na pesquisa as famílias, sendo elas de origem ou não.
A falta de referências de não-mães voluntárias também se revelou um potencializador da sensação de falta de pertencimento e solidão. As mulheres dessa pesquisa assumem o papel de cuidadoras, sendo os principais alvos de seus cuidados as crianças, as pessoas idosas e os animais de estimação. Apesar de, aparentemente, fazerem a mesma escolha, as trajetórias das interlocutoras mostraram-se plurais. Foram acessadas narrativas de mulheres negras, brancas e pardas; de diferentes faixas etárias (20, 30, 40, 50 e 60 anos), locais de moradia, orientação sexual, estado civil e crença religiosa.
Três teses concorrem ao Grande Prêmio
Além da premiação por área há o Grande Prêmio Capes de Tese, destinado às três melhores teses entre os 50 trabalhos vencedores. A escolha será dividida em três colégios de avaliação: Ciências da Vida; Humanidades; e Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar.
Os três vencedores dos Grandes Prêmios receberão bolsa de pós-doutorado no exterior por até 12 meses, certificado e troféu. Os orientadores receberão R$ 9 mil para participação em congresso internacional.
Os demais autores das teses vencedoras receberão bolsa de pós-doutorado no Brasil por até 12 meses, certificado e medalha. Caso haja cerimônia presencial e disponibilidade orçamentária, os autores e seus orientadores também receberão passagens aéreas e diárias para participar do evento. Cada orientador receberá ainda R$ 3 mil e certificado.
Reconhecimento em 50 áreas do conhecimento
O Prêmio Capes de Tese seleciona anualmente trabalhos que se destacam pela qualidade científica e pelo potencial de contribuição para a sociedade. Na edição deste ano, a avaliação considerou seis critérios: originalidade, relevância, metodologia, redação, inovação e impactos.
Para realizar a seleção, a Capes constituiu comissões específicas formadas por representantes das 50 áreas de avaliação. O resultado divulgado contempla um vencedor em cada área.
A abrangência da premiação evidencia a diversidade da produção científica brasileira. Entre os trabalhos reconhecidos estão pesquisas sobre agricultura familiar e sustentabilidade, patrimônio arquitetônico, culturas africanas e de seus descendentes, fotossíntese artificial, paisagens amazônicas, produção de biopolímeros, desinformação, inteligência artificial, doença de Alzheimer, hepatite delta, educação intercultural, prevenção de quedas em idosos, energia, refrigeração magnética, câncer, arboviroses, mudanças climáticas e biodiversidade. Também estão entre os premiados estudos dedicados a questões sociais e políticas contemporâneas, a uberização do trabalho, a política de gestão de rejeitos de mineração, o racismo estrutural, a violência no campo e a tortura contra adolescentes.
Período eleitoral
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Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 11/09/2026










