quinta-feira, 22 de julho de 2021

Mudança climática pode limitar o papel do ecossistema na remoção de CO2 atmosférico


Florestas de sequoias como esta no condado de Humboldt, na Califórnia, são componentes-chave dos esforços de mitigação das mudanças climáticas do estado. Foto: Shane Coffield / UCI
Mudança climática pode limitar o papel do ecossistema na remoção de CO2 atmosférico

Pesquisadores sugerem que as emissões contínuas de gases de efeito estufa podem limitar a capacidade das árvores de remover dióxido de carbono da atmosfera

Para cumprir uma meta ambiciosa de neutralidade de carbono até 2045, os legisladores da Califórnia estão contando em parte com florestas e arbustos para remover CO2 da atmosfera, mas pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine alertam que as mudanças climáticas futuras podem limitar a capacidade do ecossistema de realizar este serviço.

Em um artigo publicado no jornal da American Geophysical Union AGU Advances , os cientistas do sistema UCI Earth enfatizaram que o aumento das temperaturas e a precipitação incerta causarão uma diminuição na capacidade de armazenamento natural de carbono da Califórnia de até 16 por cento sob uma projeção climática extrema e de quase 9 por cento em um cenário mais moderado.

“Este trabalho destaca o enigma que a mudança climática representa para o estado da Califórnia”, disse o autor principal Shane Coffield, um UCI Ph.D. candidato em ciência do sistema terrestre. “Precisamos de nossas florestas e outras áreas cobertas por plantas para fornecer uma ‘solução climática natural’ de remoção de dióxido de carbono do ar, mas o calor e a seca causados pelo próprio problema que estamos tentando resolver podem tornar mais difícil alcançar nosso Objetivos.”

Árvores e plantas retiram CO2 da atmosfera quando fazem a fotossíntese, e parte do carbono acaba sendo armazenado em sua biomassa ou no solo. A estratégia climática da Califórnia depende em parte de um armazenamento aprimorado de carbono para compensar algumas das emissões de transporte, geração de energia e outras fontes. Espera-se que a combinação desse sistema natural de sequestro de carbono e medidas para promover a energia verde ajude o estado a alcançar sua meta de não contribuir com carbono líquido para o meio ambiente até 2045.

Mas os cientistas da UCI sugerem que uma abordagem ainda mais agressiva para reduzir as emissões pode ser necessária.

“O cenário de emissões que seguimos terá um grande efeito no potencial de armazenamento de carbono de nossas florestas”, disse o coautor James Randerson, que detém a cadeira Ralph J. & Carol M. Cicerone em Ciência do Sistema Terrestre na UCI. “Um cenário de emissões mais moderado em que convertemos para fontes de energia mais renováveis leva a cerca de metade da perda de carbono do ecossistema [sequestro] em comparação com um cenário de emissões mais extremas.”

Coffield disse que os modelos climáticos atuais não estão de acordo sobre a precipitação futura da Califórnia, mas é provável que a parte norte do estado fique mais úmida e a parte sul mais seca. Ele também disse que as áreas costeiras do centro e norte da Califórnia e áreas montanhosas de baixa e média elevação – locais de grandes projetos de compensação – têm maior probabilidade de perder parte de seus poderes de sequestro de carbono nas próximas décadas.

Além disso, os pesquisadores foram capazes de estimar os efeitos das mudanças climáticas em espécies de árvores específicas. Eles projetam que as sequoias costeiras ficarão restritas ao extremo norte de sua área de distribuição no final do século e que as condições mais quentes e secas favorecerão os carvalhos em detrimento das coníferas.

Embora o estudo tenha usado modelagem estatística para perscrutar o futuro dos ecossistemas do estado, a pesquisa também destaca a importância da seca e dos incêndios florestais atuais como principais condutores mecanicistas das perdas por sequestro de carbono. Outros estudos estimam que a seca de 2012-2015 matou mais de 40 por cento dos pinheiros ponderosa na cordilheira de Sierra Nevada. Outro problema que os pesquisadores descrevem é a perda de árvores devido ao agravamento da situação do incêndio florestal na Califórnia.

“Esperamos que este trabalho forneça informações sobre a gestão da terra e as políticas climáticas para que medidas possam ser tomadas para proteger os estoques de carbono existentes e as espécies de árvores nos locais mais vulneráveis ao clima”, disse Randerson. “A gestão eficaz do risco de incêndio é essencial para limitar as perdas de carbono [sequestro] em grande parte do estado.”

Junto com Coffield e Randerson neste projeto estavam Kyle Hemes, do Stanford Woods Institute for the Environment da Stanford University; Charles Koven, da Divisão de Ciências Climáticas e Ecossistêmicas do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley; e Michael Goulden, professor de ciência do sistema terrestre e ecologia e biologia evolutiva da UCI. O estudo recebeu financiamento da National Science Foundation, do UC National Laboratory Fees Research Program e do California Strategic Growth Council’s Climate Change Research Program.


Referência:

Coffield, S. R., Hemes, K. S., Koven, C. D., Goulden, M. L., & Randerson, J. T. (2021). Climate-driven limits to future carbon storage in California’s wildland ecosystems. AGU Advances, 2, e2021AV000384. https://doi.org/10.1029/2021AV000384


Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de original da University of California, Irvine

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/07/2021




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/07/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/07/22/mudanca-climatica-pode-limitar-o-papel-do-ecossistema-na-remocao-de-co2-atmosferico/

Imunização avança, mas população da periferia de São Paulo segue pouco vacinada


Mais de seis meses após a enfermeira Mônica Calazans abrir a campanha de vacinação contra a COVID-19 no Brasil, a imunização parece estar avançando e pessoas na faixa dos 30 anos começam a receber a primeira dose das vacinas. No entanto, ao correlacionar dados sobre vacinação por idade e bairros da Região Metropolitana de São Paulo nota-se que ainda persiste uma grande desigualdade.

Estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que, na capital paulista, regiões periféricas do extremo Leste (Guaianases, Cidade Tiradentes e Itaim Paulista), da zona Norte (Brasilândia e Vila Medeiros) e da zona Sul (Campo Limpo e Capão Redondo, Capela do Socorro, Grajaú, Parelheiros e Marsilac) tiveram baixo percentual de pessoas vacinadas com a primeira dose entre a população maior de 40 anos.

Os dados de 12 de julho de 2021 mostram que, a despeito de essas pessoas estarem incluídas no calendário de vacinação, o percentual que recebeu a primeira dose do imunizante dentro desse grupo em relação à população total nessa faixa etária variou entre 10 e 50%.

O mesmo foi observado em outras cidades da Região Metropolitana de São Paulo, como as periferias de São Caetano do Sul, Santo André, São Bernardo e Itapevi. Algumas outras cidades aparecem sem cobertura vacinal, provavelmente pelo atraso no registro e envio dos dados, e não foram consideradas no estudo.

“É preciso olhar para os territórios e dar maior atenção para as regiões onde as pessoas não estão se vacinando. Pode ser por negacionismo, falta de confiança na vacina, porque não podem faltar ao trabalho ou por qualquer outra dificuldade. Porém, independentemente do motivo, esse problema se resolve por meio de políticas públicas. O imunizante está disponível e precisa chegar até as pessoas", diz Raquel Rolnik, uma das coordenadoras do LabCidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

A pesquisadora ressalta que a criação de desertos vacinais, além de ampliar desigualdades e vulnerabilidades, inviabiliza a campanha como um todo. “Por isso, nosso propósito com esse estudo é indicar a necessidade de que o poder público vá até esses lugares, seja ampliando o horário de atendimento dos postos de vacinação, seja por meio dos agentes comunitários que podem ir até a casa das pessoas, seja criando postos nos pontos de ônibus e nas estações de metrô. A política pública para funcionar precisa ser territorializada”, afirma Rolnik.

O estudo liderado por Rolnik correlacionou informações do DataSUS sobre vacinação, do Centro de Desenvolvimento Social e Produtivo (Cedesp) para as hospitalizações por COVID-19 e do Censo de 2010 sobre a distribuição etária pelos territórios.

Ao cruzar os dados sobre hospitalizações, mortes e de vacinados por CEP (localidade), a equipe do LabCidade tem realizado, desde o início da pandemia, estudos sobre a desigualdade da vacinação e do impacto da COVID-19 nos territórios da capital paulista. Desde maio de 2021, a equipe passou a ter acesso aos dados de todo o Estado de São Paulo, o que permitiu ampliar a amostra e realizar o primeiro trabalho sobre a Região Metropolitana de São Paulo (leia mais em: https://agencia.fapesp.br/33343/ e https://agencia.fapesp.br/33625/).

Desigual do início ao fim

Estudo anterior, realizado em maio de 2021 pela mesma equipe de pesquisadores, mostrou que a desigualdade vacinal ocorre desde o início da campanha de imunização. Na cidade de São Paulo, os moradores mais pobres das áreas periféricas foram os mais atingidos pela COVID-19 e também os que menos tinham sido vacinados.

Bairros como Grajaú, Heliópolis, Sapopemba, Iguatemi, José Bonifácio, Cidade Tiradentes, Jaraguá e Brasilândia concentravam tanto o maior número de mortes pela doença como também os menores índices de pessoas vacinadas.

“Essa comparação foi absolutamente chocante: lugares com maior número de hospitalizações e mortes por COVID-19 não estavam sendo imunizados. Isso aconteceu, principalmente, em função do critério de priorização que foi por idade e até maio incluiu apenas profissionais de saúde e comorbidades. Nas periferias a expectativa de vida é menor. Portanto, a população é mais jovem que a do centro expandido da capital”, diz Rolnik.

No entanto, de acordo com a pesquisadora, conforme a campanha foi avançando e passou a atender idades mais baixas e incluiu os grupos profissionais mais atingidos pela COVID-19 – como motoristas de ônibus, profissionais de educação e, em alguns municípios da região metropolitana, garis – a expectativa era de que a desigualdade vacinal entre centro e periferia fosse diminuindo. Mas não foi isso o que aconteceu.

“O impacto da COVID-19 foi mais forte em hospitalizações e óbitos nas periferias e na área central da capital em bairros como Sé, Pari, Brás, Barra Funda, Parque Edu Chaves e Vila Medeiros, na zona Norte da capital. Mas onde ocorre a maior concentração da população com mais de 60 anos – que foi a população prioritária para a vacinação – é no centro expandido. Essa era, portanto, uma explicação para aquela desigualdade chocante antes do avanço da vacinação”, afirma.

A partir dos dados de 12 de julho, quando pessoas com mais de 40 anos passaram a ser imunizadas, Guarulhos, Osasco, Diadema e alguns territórios da zona Norte da capital paulista começaram a ter maior concentração de pessoas que tomaram a primeira dose (relação de vacinados com a população total). “Isso é positivo, pois foram lugares com altos índices de hospitalizações e mortes e também servem como exemplo de que é possível ampliar a proteção contra a COVID-19 nas periferias”, explica.

Esses exemplos mostram que, além de ter o imunizante disponível, é preciso ter ações e campanhas para fazer a vacina chegar às pessoas. “O mapa revela mais uma vez que a política pública precisa ser territorializada. Porque se nessas regiões a vacina está disponível e não está chegando até as pessoas, é necessário ter uma estratégia dentro da região e por meio de ações e campanhas mais incisivas por parte das políticas municipais”, ressalta.





Autor: Maria Fernanda Ziegler
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 22/07/2021
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/imunizacao-avanca-mas-populacao-da-periferia-de-sao-paulo-segue-pouco-vacinada/36400/

‘Nunca pensei que homens pudessem ser estuprados'



CRÉDITO,ALEX FEIS-BRYCE
Legenda da foto,

Alex Feis-Bryce estava preocupado de que a polícia não acreditasse nele


Alex Feis-Bryce tinha 18 anos quando foi estuprado por um estranho em uma festa. Ele tinha se declarado gay recentemente e se mudado para Manchester, na Inglaterra, para estudar.


"Acho que foi a segunda vez que fui a um bar gay. Meu amigo e eu encontramos algumas pessoas que nos convidaram para uma festa em casa. Eu era muito ingênuo e concordei, mas meu amigo mudou de ideia no último minuto."


Alex acredita ter sido drogado. "O dono da casa me serviu uma bebida e comecei a ficar sonolento. Ele me levou para um quarto e, logo depois, apareceu e me estuprou. Eu me senti como se estivesse preso à cama." No dia seguinte, Alex aceitou uma carona do homem de volta à universidade e tentou esquecer o que havia acontecido.

Os países em que estupradores conseguem escapar da Justiça casando-se com as vítimas


"Na verdade, pensei que estupro não era algo que acontecia com homens, então talvez não fosse algo que tivesse acontecido comigo. Fui programado para pensar que isso acontece com mulheres, e achei que, ao denunciar o criminoso à polícia, não acreditariam em mim ", diz ele.


Alex é agora o presidente-executivo da Survivors UK, uma instituição de caridade que oferece apoio a homens, meninos e pessoas não binárias que foram estupradas, sofreram violência sexual ou foram abusadas.




CRÉDITO,ALEX FEIS-BRYCE
Legenda da foto,

Alex Feis-Bryce achava que a polícia não acreditasse nele

Gays e bissexuais têm mais chances de serem vítimas


Embora seja mais provável que as vítimas de violência sexual sejam mulheres, uma pesquisa do governo britânico estima que 1 em cada 100 homens sofreu alguma forma de agressão sexual ou tentativa de agressão.


Em 2020, Reynhard Sinaga — "o estuprador com mais condenações na história jurídica britânica" — foi considerado culpado de atrair 48 homens de clubes de Manchester para seu apartamento, não muito longe do bar onde Alex foi abordado. Sinaga drogava e agredia os homens, filmando os ataques.


As próprias pesquisas da Survivors UK sugerem que homens gays e bissexuais podem ser mais propensos a sofrer violência sexual do que a população masculina em geral. Um estudo com 505 homens gays e bissexuais apontou que 47% disseram ter sofrido violência sexual, com mais de um terço deles afirmando que sentiam não poder falar com ninguém sobre o que tinha acontecido.

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É importante reconhecer que a maioria das agressões sexuais "acontece dentro da vida sexual normal", diz Alex.


"Não queremos alimentar o estereótipo homofóbico de que gays e bissexuais são mais promíscuos ou predadores, mas queremos estar atentos aos espaços onde as pessoas fazem sexo consensual e onde os limites são ultrapassados ​​— bares gays, saunas, chemsex (sexo sob uso de drogas). Essa é a parte desafiadora, mas importante da pesquisa, (registrar) sem estigmatizar práticas sexuais específicas."



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Em pesquisa com 505 homens gays e bissexuais, 47% disseram ter sofrido violência sexual

'Há pouco apoio disponível'


Apenas um em cada sete entrevistados na pesquisa, realizada em agosto de 2020, relatou um incidente de agressão sexual à polícia. Entre os que fizeram, cerca de um quarto achava que a denúncia não seria levada a sério.


"É sobre consentimento. Chemsex, por exemplo, ou qualquer sexo que não seja heteronormativo ou convencional — sexo com mais de um parceiro (por exemplo) pode ser extremamente estigmatizado", diz Alex. "Portanto, se alguém sofre violência sexual em circunstâncias como essa, é menos provável que fale com a polícia".


A instituição de caridade antiabuso LGBTQIA+ Galop apoia pessoas que sofreram abuso sexual ou violência. "Homens gays e bissexuais muitas vezes não se veem ou consideram suas experiências representadas na forma como a violência sexual é tratada. Há muito poucos serviços de apoio apropriados disponíveis para ajudá-los", disse sua diretora, Leni Morris.


"Com base em nossa pesquisa, sabemos que muitos nunca se apresentarão, deixando para lidar com o que aconteceu sem apoio profissional. Devemos garantir que a narrativa pública sobre a agressão sexual inclua todas as vítimas e que todo sobrevivente da violência sexual seja capaz de acessar o suporte que precisam. "


Lee (nome fictício) tinha 15 anos quando foi internado numa clínica de recuperação após se mutilar enquanto lutava para aceitar sua sexualidade. Lá, ele foi abusado sexualmente por um conselheiro por mais de um ano — uma experiência que ele diz que o levou a muitos anos de trauma.


"Por uma década, essa experiência permeou outros níveis do meu funcionamento. A agressão ou violência sexual parecia normalizada, e eu não me cuidava muito bem."


"Eu precisava escapar da minha cabeça, mas a cura se tornou um caos e eu criei outro problema para mim, abusando das drogas e do sexo para lidar com o desconforto e mal-estar enraizados. Tudo para lidar com a maneira como me sentia."


Quando ele finalmente pediu apoio, também não sabia se o que havia acontecido com ele constituía uma agressão sexual. "Eu talvez tenha considerado erroneamente que o que ele fez comigo não era algo violento — ele não me deu um soco ou chute, ele não me estuprou e isso, de certa forma, se tornou uma permissão minha para continuar."






Autor: Eleanor LawrieFonte:
BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 22/07/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57937302

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Brasil recebe mais 1 milhão de vacinas Covid-19 da Covax Facility



Walterson Rosa/Ministério da Saúde

Um novo lote com mais 1 milhão de doses da vacina Covid-19 chega ao Brasil nesta quarta-feira (21) por meio do consórcio Covax Facility. Nessa remessa são entregues vacinas da Astrazeneca/Oxford, que serão distribuídas para estados e Distrito Federal pelo Ministério da Saúde nos próximos dias.

Ao todo, mais de 6 milhões de doses da AstraZeneca/Oxford e 842,4 mil da Pfizer/BioNTech já foram entregues ao Brasil via aliança liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros parceiros.

As vacinas são entregues por meio de contrato do Brasil com a Covax. Ao todo, o consórcio deve entregar 42,5 milhões de doses de vacinas Covid-19 de diferentes laboratórios até o fim de 2021.

A Covax

O Brasil é um dos quase 200 países que integram a iniciativa global, criada para permitir o acesso justo e igualitário de vacinas Covid-19 por meio de parcerias com laboratórios. Além da OMS, o consórcio é coliderado pela Coalizão para Promoção de Inovações em prol da Preparação para Epidemias (CEPI) e pela Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (Gavi), em parceira com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Pátria Vacinada

Até quinta-feira (22), serão enviadas aos estados e DF mais de 8,7 milhões de doses de vacinas Covid-19. Desde o início da campanha de vacinação, o ministério já distribuiu mais de 154 milhões de doses. A população-alvo no Brasil é de 160 milhões de brasileiros com mais de 18 anos.

Mais de 56,5% da população brasileira já recebeu a primeira dose da vacina no braço: são 90,4 milhões de pessoas. São 34,5 milhões de brasileiros com o ciclo vacinal completo, isto é, que receberam a segunda dose dos imunizantes ou dose única.

Ministério da Saúde
(61) 3315-3580 / 2351





Autor: Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministério da Saúde
Data: 20/07/2021
Publicação Original: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/brasil-recebe-mais-1-milhao-de-vacinas-covid-19-da-covax-facility

Sesai inaugura primeira Unidade Básica de Saúde Indígena no distrito sanitário Alto Rio Juruá (AC)



- Foto: Sesai

Mais saúde, qualidade de vida e atendimento humanizado chegam para a população indígena do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Juruá, no Acre. O secretário especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Robson Santos da Silva, inaugurou a primeira Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) do Distrito, em Mâncio Lima (AC), nesta segunda-feira (19). A unidade vai atender uma população de aproximadamente 700 indígenas da etnia Puyanawa das aldeias Ipiranga e Barão.

A UBSI tem consultório médico e odontológico, laboratório de endemias, sala de vacina, farmácia para dispensação de medicamentos com receituários, entre outros. A obra foi construída pela prefeitura municipal de Mâncio Lima, com recurso de emenda parlamentar da deputada federal Jéssica Sales, e doada à Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério da Saúde.

“Inaugurar um posto de saúde como este é a prova de que a gente está no caminho certo, um trabalho feito em parceria com a prefeitura municipal e com emenda parlamentar. A Sesai garante a manutenção da UBSI, tanto na estrutura física quanto na disponibilização de profissionais de saúde”, afirma o secretário Robson Santos da Silva.

De acordo com a coordenadora do DSEI Alto Rio Juruá, Iglê Monte da Silva, a região do Acre é 98% fluvial. Apesar do território ser amplo, com 69 mil km2, a maioria das aldeias tem população pequena, abaixo do critério mínimo para a construção de uma UBSI no local. Por isso, a maior parte do atendimento é realizado por visita domiciliar em escalas de trabalho que levam oito dias de barco até a aldeia mais distante.

O DSEI conta com uma estrutura de oito Polos Base, uma Casa de Apoio à Saúde Indígena e 340 profissionais de saúde para atender uma população de mais de 18 mil indígenas de 16 etnias, em 162 aldeias.

Expansão

Além da unidade de atendimento inaugurada, mais três UBSI serão entregues em breve, sendo que uma já está em construção e mais duas estão em processo de licitação para atender aldeias com maior densidade populacional.

“O objetivo é trazer um atendimento mais humanizado e de qualidade para a população indígena, aonde poderemos fazer pré-natal, exames preventivos, atendimento médico e odontológico continuado. Além desta UBSI, teremos mais três unidades de atendimentos para serem entregues, estamos trabalhando também para ter mais pontos de referência dentro das aldeias, pois o acesso é bem difícil, as aldeias são bem distantes ”, informa a coordenadora do DSEI Alto Rio Juruá, Iglê Monte da Silva.

A previsão é entregar em breve a reforma do Polo Base de Cruzeiro do Sul, que vai atender nove aldeias da Terra Indígena Katukina e mais duas UBSI na região fluvial dos municípios de Mâncio Lima e Tarauacá. O secretário da SESAI também visitou as instalações do Polo Base Cruzeiro do Sul para conhecer o local e vistoriar as obras de quatro novos Sistemas de Abastecimento de Água (SAA) que serão entregues à população indígena.

Médio Rio Purus

Nesta terça feira, 20, o secretário Robson Santos da Silva visita as instalações do DSEI Médio Rio Purus, no Amazonas, para entregar os certificados do Curso de Atualização de Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e Agentes Indígenas de Saneamento (AISAN) e inaugurar o novo sistema de comunicação via rádio que vai interligar todas as aldeias e unidades de atendimento do DSEI.

Cristiane Hidaka
Secretaria Especial de Saúde Indígena
Ministério da Saúde





Autor: Cristiane Hidaka
Fonte: Secretaria Especial de Saúde Indígena
Sítio Online da Publicação: Ministério da Saúde
Data: 20/07/2021
Publicação Original: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/sesai-inaugura-primeira-unidade-basica-de-saude-indigena-no-distrito-sanitario-alto-rio-jurua-ac

Aprendizado em edição de genoma

Instituto Agronômico vai utilizar “tesoura genética” para solucionar problemas nas culturas de cana, café e citros



Pulverização de fertilizante com composto bactericida em laranjal afetado pelo greening


Uma rede de pesquisadores sediada no Instituto Agronômico (IAC) vai utilizar técnicas de edição de genoma para buscar ampliar a qualidade e a produtividade de três culturas agrícolas de grande importância econômica: o café, a cana-de-açúcar e os citros. O esforço de pesquisa tem focos específicos, como o desenvolvimento de café com baixíssimo teor de cafeína, de laranjais resistentes a uma doença conhecida como HLB ou greening e de variedades de cana aprimoradas. Esses alvos são um pretexto para alcançar um objetivo mais ambicioso. A intenção é criar na comunidade de pesquisa em agronomia do Brasil uma expertise no uso da ferramenta CRISPR-Cas9, sigla de repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas (ver Pesquisa FAPESP nº 288). O método funciona como uma espécie de tesoura e permite remover ou adicionar com precisão trechos do DNA de seres humanos, animais, plantas ou microrganismos. Seu potencial para criar tratamentos de doenças genéticas foi reconhecido com o Prêmio Nobel de Química de 2020, concedido às pesquisadoras Emmanuelle Charpentier, francesa, e Jennifer Doudna, norte-americana.

Na agricultura, o recurso de alterar partes do DNA de uma planta abriu horizontes novos para o campo do melhoramento genético. A edição gênica pode ter vantagens em relação à tecnologia dos organismos transgênicos, pois é mais fácil e barato alterar sequências de nucleotídeos, reescrevendo ordens específicas, do que introduzir genes inteiros. Já na comparação com as técnicas tradicionais, aquelas que buscam desenvolver variedades de plantas a partir de cruzamentos e de mutações que ocorrem aleatoriamente, a CRISPR-Cas9 promete mais rapidez e precisão. O método pode mudar características pontuais de uma espécie sem comprometer a arquitetura genética desenvolvida ao longo de décadas de pesquisas de campo.

Vinculado ao governo do estado de São Paulo, o IAC tem unidades dedicadas à pesquisa de café, citros e cana instaladas respectivamente nas cidades de Campinas, Cordeirópolis e Ribeirão Preto, mas não fará esse trabalho sozinho. Foram estabelecidas parcerias no Brasil com grupos das universidades de São Paulo (USP), Estadual Paulista (Unesp), Federal de São Paulo (Unifesp) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); e, no exterior, com pesquisadores das universidades da Flórida, nos Estados Unidos, de Queensland, na Austrália, e do Instituto Max Planck, na Alemanha. A iniciativa contará com recursos e envolvimento de equipes de pesquisa de empresas como Amazon Agrosciences, CiaCamp, Daterra, GranBio, Citrosuco, Agroterenas, Jacto, Fundag, entre outras. Estão previstos investimentos de quase R$ 35 milhões ao longo de cinco anos. A FAPESP entrará com R$ 4,54 milhões, enquanto as empresas parceiras aplicarão R$ 4,47 milhões. O IAC e as instituições parceiras participarão com R$ 25,79 milhões, na forma de salários de seus pesquisadores e uso de laboratórios e equipamentos.



Diaphorina citri, inseto que dissemina a bactéria causadora do greeningEduardo Cesar

A iniciativa compõe o primeiro Núcleo de Pesquisa Orientada a Problemas (NPOP), um formato de rede de colaboração criado no âmbito do programa Ciência para o Desenvolvimento, lançado pela FAPESP em 2019 para resolver problemas concretos com impacto na economia do estado de São Paulo. “Nossos grupos já vinham estudando os protocolos para aplicação da edição gênica e esse projeto veio acelerar o processo”, afirma a coordenadora do NPOP, Mariângela Cristofani Yaly, engenheira-agrônoma e pesquisadora científica do Centro de Citricultura Sylvio Moreira do IAC, em Cordeirópolis.

Os recursos serão utilizados em material de pesquisa, como reagentes químicos e substratos para a produção de mudas, mas o impacto principal virá com a contratação de bolsas. “A contratação temporária de pessoal especializado, por meio de bolsas de doutorado e de pós-doutorado, além de técnicos, vai ampliar muito a nossa capacidade de investigação, uma vez que os institutos paulistas têm tido dificuldade em repor quadros com a aposentadoria de pesquisadores”, afirma Yaly. Estima-se que o projeto contará com 35 pesquisadores do IAC e de instituições parceiras e seja feita a contratação de outros 35 técnicos e bolsistas.

Na vertente de citricultura do projeto, segundo Yaly, o foco é o greening. Causada pela bactéria Candidatus Liberibacter e transmitida por um inseto sugador de seiva, Diaphorina citri, a doença se espalha para raízes, ramos, folhas e frutos, que ficam pequenos e deformados. De acordo com dados do Fundecitrus, o greening atingia, em 2019, 19,02% das plantações de laranja de São Paulo e Minas Gerais. A única forma de controle é eliminar as plantas doentes e prevenir a disseminação do inseto. “Não há variedades comerciais de citros com resistência à bactéria”, diz Yaly.

O uso da CRISPR-Cas9 partirá do conhecimento acumulado no desenvolvimento de variedades transgênicas que vêm sendo testadas em experimentos de campo. “As pesquisas utilizando estratégias para prospecção nos permitiram identificar 10 genes que podem ter um papel nessa resistência à doença. Vamos agora usar a edição para tentar silenciá-los”, afirma. A meta é, dentro de cinco anos, organizar uma metodologia para aplicação da técnica e obter variedades editadas. “Mas esse esforço vai continuar pelos anos seguintes, até a validação do material de campo e o registro no Ministério da Agricultura.” Yaly vê esse esforço de pesquisa como uma sequência do Projeto Genoma, que teve início em meados dos anos 1990 com o sequenciamento de uma bactéria, Xylella fastidiosa, causadora também de uma doença dos laranjais, o amarelinho. “Esperamos que o NPOP alavanque o uso da CRISPR-Cas9 e crie um novo capítulo no melhoramento genético de plantas.”



Colheita no Centro de Citricultura Sylvio Moreira do IAC, em CordeirópolisFernando Alves de Azevedo

Em relação ao café, a meta é intensificar a busca de variedades com baixíssimo teor de cafeína. O café descafeinado é responsável por 10% do consumo mundial, mas o processo químico de remoção da substância estimulante também retira compostos responsáveis pelo sabor e o aroma da bebida. Em 2004, um grupo de pesquisadores do IAC e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou na população silvestre de cafeeiros da Etiópia três plantas mutantes de café tipo arábica que apresentavam teor de apenas 0,07% de cafeína. No arábica comum, o teor de cafeína varia de 1% a 1,5%, enquanto no café canéfora o índice chega a 2,2%. “Desde essa descoberta, as três plantas passaram a ser utilizadas no desenvolvimento de uma nova cultivar desprovida de cafeína por meio de métodos clássicos, que envolvem cruzamentos e autofecundações”, explica o engenheiro-agrônomo Oliveiro Guerreiro Filho, pesquisador do Centro de Café Alcides Carvalho do IAC, em Campinas, um dos membros do NPOP. “Mas esse é um processo que demora muitos anos. A cada cruzamento é preciso selecionar os híbridos com baixo teor de cafeína e fazer retrocruzamentos para resgatar todas as características desejadas.”

A edição de genoma será usada para acelerar o processo de melhoramento. “Vai nos permitir, por exemplo, silenciar apenas um gene de uma cultivar sabidamente produtiva e longeva, sem desarticular toda a sua arquitetura.” Uma dificuldade que atrasava o desenvolvimento dessas variedades já foi contornada. Utilizando as técnicas de melhoramento tradicional, só era possível aferir se uma planta híbrida produzia café com baixo teor de cafeína quando ela começava a dar frutos, dois anos após cultivada. Os pesquisadores do IAC, em parceria com uma equipe da Embrapa, conseguiram dar mais velocidade a esse processo. Identificaram marcadores moleculares capazes de apontar precocemente, a partir da análise das folhas, se as plantas estudadas têm baixa cafeína ou não. A busca do café com baixo teor de cafeína, observa Guerreiro, é um bom alvo para testar o potencial da edição gênica no aperfeiçoamento de cultivares de café. “Uma vez dominada, será possível usá-la em alvos diferentes nos cafeeiros. Agora é a cafeína, mas depois poderá ser a resistência ao déficit hídrico ou a tolerância ao calor.”

No caso da cana-de-açúcar, o foco principal do projeto é a transgenia, mas a intenção é incorporar conhecimento sobre a CRISPR-Cas9 a um conjunto de pesquisas que buscam variedades transgênicas tolerantes à seca, resistentes à praga do carvão da cana ou então mais ricas em celulose. “A transgenia é uma realidade para a cana-de açúcar e vai continuar sendo por muito tempo. Já temos algumas variedades transgênicas sendo testadas em campo”, afirma a engenheira-agrônoma Silvana Creste Dias de Souza, pesquisadora do Centro de Cana do IAC, em Campinas. “Mas queremos aprender a utilizar as ferramentas de edição gênica, que tendem a ter um impacto disruptivo.” O objetivo do projeto é, dentro de cinco anos, criar uma variedade de cana editada que seja resistente a um herbicida da classe dos inibidores de ALS, um dos mais utilizados nos canaviais. Ao mesmo tempo, buscam-se genes que possam ser modificados pela ferramenta relacionados ao carvão da cana-de-açúcar ou a variedades da chamada “cana-energia”, com maior teor de fibras e maior potencial para produção de bioenergia. Os desafios, observa Souza, não são desprezíveis, dada a complexidade do genoma da espécie. A cana é um organismo poliploide: cada cromossomo tem de 8 a 10 cópias e eles nem sempre são iguais. “Cada gene tem vários alelos e cada um pode conferir um fenótipo [características observáveis]. Acertar um gene específico para alcançar um fenótipo desejado é bastante complexo”, observa.



Variedade de café do banco de germoplasma do Instituto AgronômicoLéo Ramos Chaves

A GranBio, empresa de biotecnologia que desenvolve etanol de segunda geração, extraído de celulose e hemicelulose, vai investir R$ 1,5 milhão na vertente de pesquisa de cana-de-açúcar do NPOP. “Precisamos de variedades mais produtivas e robustas de cana e o uso da tecnologia da CRISPR-Cas9 pode ajudar a alcançá-las”, diz o agrônomo José Bressiani, diretor da Biovertis, um dos braços da GranBio. O método pode ajudar a desenvolver variedades de cana-energia, cujas paredes celulares possam ser desconstruídas com menor severidade durante o pré-tratamento, facilitando o processamento industrial na produção do etanol celulósico e elevando o rendimento. A edição de genoma poderia, por exemplo, modificar a lignina e criar um tipo de cana em que seja possível acessar com mais facilidade os açúcares da celulose e da hemicelulose. “Alcançar esses resultados por meio da transgenia tende a ser mais demorado e complexo”, afirma Bressiani.

Um dos requisitos do edital dos Núcleos de Pesquisa Orientada a Problemas é que as instituições de pesquisa responsáveis pelos projetos atraiam parcerias com empresas privadas, a fim de acelerar a aplicação dos resultados. A FAPESP se dispôs a investir a mesma quantidade de recursos obtida de colaboradores privados. As equipes do IAC foram procurar antigos parceiros. O grupo do café celebrou uma parceria com a Daterra, fabricante de cafés especiais que há décadas utiliza variedades e tecnologias desenvolvidas pelo IAC ou em conjunto com o instituto. “Nossa empresa aplica 10% de seus resultados em pesquisa. Já fez mais de 10 projetos com o IAC e historicamente tem contado com a ajuda da instituição. Nunca pudemos retribuir a contento e essa parceria nos deu essa oportunidade”, afirma Luis Norberto Pascoal, diretor de pesquisa da Daterra. Parte dos experimentos de campo serão desenvolvidos em uma estação da empresa em Franca.

A cooperação não garante às empresas investidoras exclusividade sobre os resultados obtidos, mas haverá benefícios como descontos na cobrança de royalties durante certo período. Na pesquisa sobre citros, firmou-se uma colaboração curiosa. Uma das parceiras, a CiaCamp, é uma startup que nasceu no próprio Instituto Agronômico em 2016 para comercializar um composto desenvolvido no Centro de Citricultura, capaz de controlar doenças bacterianas que afetam os citros (ver Pesquisa FAPESP nº 276). Articulada com uma fabricante de fertilizantes de São Carlos, a Amazon Agrosciences, a CiaCamp vai investir cerca de R$ 50 mil por ano no projeto do NPOP e pretende desenvolver biofertilizantes talhados para as variedades que vierem a ser desenvolvidas. “Nós nascemos da pesquisa, fomos para o mercado e tivemos retorno financeiro. Agora podemos investir em pesquisa”, afirma a bióloga Simone Picchi, responsável pela CiaCamp, que antes de criar a startup fez dois estágios de pós-doutorado no IAC.




Autor: Fabrício Marques
Fonte: revistapesquisa
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 07/07/2021
Publicação Original: https://revistapesquisa.fapesp.br/aprendizado-em-edicao-de-genoma/

Após a construção do reservatório de Belo Monte, emissão de gases de efeito estufa triplicou no local




A construção da hidrelétrica de Belo Monte em Altamira (PA) triplicou as emissões de gases de efeito estufa no local em que hoje se encontra o reservatório da usina. Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista Science Advances por um grupo internacional de pesquisadores.

Foram medidas as emissões em diferentes pontos da usina antes, durante e depois de sua construção. O estudo levou cerca de dez anos para ser concluído.

“A justificativa para a construção de Belo Monte partia da premissa de que usinas hidrelétricas geram energia com baixas emissões e a um custo menor do que outras fontes renováveis. Hoje esse argumento está caindo por terra, como mostramos em nosso estudo”, diz Dailson Bertassoli Jr., pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP) e coautor do estudo.

Ele explica que na região amazônica há hidrelétricas que emitem mais do que outras. A usina de Balbina (AM), por exemplo, inaugurada na década de 1980, tem emissão superior à de termelétricas que produzem quantidade semelhante de energia. “No caso de Belo Monte, a maior hidrelétrica amazônica, a emissão equivalente fica entre 15 e 55 quilos de CO2 [dióxido de carbono] por megawatt-hora produzido [há uma variação entre estações do ano]. Isso é uma fração do que seria emitido por termelétricas, mas, mesmo assim, não é nada que deva ser desprezado”, afirma.

A barragem de Belo Monte detém a maior capacidade instalada entre as usinas do tipo fio d’água em todo o mundo. Diferentemente das usinas com reservatório de acumulação, as de fio d’água dispõem de um reservatório menor. No caso de Belo Monte, são dois interligados por um canal de 20 quilômetros (km) de extensão. O principal, formado no rio Xingu, conta com 359 km². Já o intermediário, com 119 km², tem 28 diques e canais de transposição.

Os pesquisadores iniciaram as primeiras medidas de emissão de gases de efeito estufa no reservatório de Belo Monte em 2011 – antes do represamento e da construção da hidrelétrica. Ao longo dos anos, outras três medições foram realizadas nos mesmos pontos. O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de nove projetos. Participaram cientistas da Linköping University (Suécia), University of Washington (Estados Unidos) e da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Altamira.

Emissão desigual

Um achado importante da pesquisa é a heterogeneidade das emissões na região amazônica e até mesmo entre diferentes pontos de um único reservatório. A medição em diferentes partes da represa e áreas que foram alagadas para a construção da hidrelétrica de Belo Monte mostrou que algumas emitem mais gases de efeito estufa do que outras.

A constatação põe em xeque o uso de padrões de emissão – como, por exemplo, os estipulados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com base em hidrelétricas construídas em zonas temperadas –, que são usados para estudos prévios de impacto ou até mesmo para a venda de créditos de carbono.

“Entender como se dão as emissões de gases de efeito estufa a partir do reservatório de Belo Monte é essencial para um planejamento estratégico eficiente da expansão da rede de geração de energia elétrica no país. No entanto, é tão heterogêneo que não dá nem para generalizar e se referir a ‘emissões de hidrelétrica’. Cada usina tem a sua emissão e elas devem ser avaliadas caso a caso”, diz Bertassoli Jr. à Agência FAPESP.

Segundo o pesquisador, um dos principais fatores que contribuem para as emissões a partir de usinas hidrelétricas é a geração de metano (CH4) pela degradação de material orgânico retido no fundo dos reservatórios.

Henrique Sawakuchi, pesquisador da Linköping University e responsável pelas primeiras medições do estudo, explica que essa alta variabilidade das emissões de diferentes hidrelétricas se deve a fatores como tipos de vegetação e solos, temperatura e clima, características da atividade microbiana e tipo de reservatório.

“Diferentemente das zonas temperadas e boreais, as altas temperaturas durante todo o ano resultam em intensa atividade microbiana e, consequentemente, em maior produção de metano e gás carbônico nas áreas tropicais”, explica Henrique.

Desvio-padrão

No caso das emissões de metano, a matéria orgânica que gera o gás vem da bacia de drenagem rio acima e se acumula no reservatório. Ela também pode ser produzida na coluna d’água pelas algas que vivem por ali.

“Esses dois fatores variam muito entre os rios da Amazônia. O Xingu, por exemplo, é um rio de água clara, o que permite maior penetração da luz do sol. Com isso ocorre maior produção de algas, que depois viram matéria orgânica e geram metano. Outros rios, como o Madeira, são conhecidos como de água branca, ou seja, a luz quase não penetra na coluna d’água. Por isso há menor crescimento de alga”, diz André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da USP e também autor do estudo.

Outro fator de variabilidade é a profundidade do reservatório. “Nas zonas mais profundas, a água de fundo pode ser menos oxigenada, o que favorece a geração de metano”, explica André.

Os pesquisadores observaram também que, dependendo do tipo de solo ou vegetação alagada durante a construção dos reservatórios, há mais material orgânico disponível para biodegradação e geração de metano e gás carbônico. Dessa forma, as áreas com pastagem que não são removidas, como é feito no caso da vegetação florestal, surpreendentemente também tiveram emissões significativas.

“A parte superior do solo também tem muita matéria orgânica que vira matéria-prima para a produção de metano. São esses tipos de variações que fazem a diferença na hora de fechar a conta das emissões totais de um reservatório. Às vezes, o pasto está em um tipo de solo que tem mais matéria orgânica, enquanto a floresta está num solo que quase não tem. Varia muito e isso tudo deve ser contabilizado na hora de medir os impactos de uma hidrelétrica”, afirma André.

De acordo com os pesquisadores, os resultados reforçam a importância de considerar todas essas variáveis de heterogeneidade em estudos de impacto ambiental das hidrelétricas, mesmo que elas sejam do tipo fio d’água, como é o caso de Belo Monte.

“Deveria ser obrigatório um acompanhamento das emissões antes, durante e por um longo tempo após a construção dos reservatórios das hidrelétricas. Sobretudo nas hidrelétricas do rio Madeira, que estão vendendo crédito de carbono e as emissões não são bem estimadas. É provável que estejam vendendo crédito de carbono que não estão mitigando”, avalia Henrique.

O artigo How green can Amazon hydropower be? Net carbon emission from the largest hydropower plant in Amazonia (doi: 10.1126/sciadv.abe1470), de Dailson J. Bertassoli Jr., Henrique O. Sawakuchi, Kleiton R. de Araújo, Marcelo G. P. de Camargo, Victor A. T. Alem, Tatiana S. Pereira, Alex V. Krusche, David Bastviken, Jeffrey E. Richey e André O. Sawakuchi, pode ser lido em https://advances.sciencemag.org/content/7/26/eabe1470.




Autor: Maria Fernanda Ziegler
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 21/07/2021
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/apos-a-construcao-do-reservatorio-de-belo-monte-emissao-de-gases-de-efeito-estufa-triplicou-no-local/36391/