sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Estudo de pesquisadores do Museu Nacional revela como cresciam alguns dos precursores dos crocodilos no período Triássico

Pesquisadores do Museu Nacional, unidade de ensino e pesquisa vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em colaboração com o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA-UFSM) e o Museu de La Plata, Argentina, acabam de publicar um trabalho científico sobre os padrões de crescimento da linhagem crocodiliana (Pseudosuchia), investigando uma espécie encontrada em rochas de idade triássica (cerca de 231 milhões de anos atrás), no Rio Grande do Sul.

A pesquisa aborda essa questão por meio da análise paleohistológica dos ossos de Dynamosuchus collisensis, um representante do grupo dos Ornithosuchidae. A Paleohistologia – que analisa cortes micrométricos em ossos fósseis ao microscópio – é uma ferramenta cada vez mais em ascensão na pesquisa paleontológica, permitindo compreender aspectos fundamentais do ritmo de crescimento e idade individual e contribuindo para preencher lacunas importantes no conhecimento sobre a biologia dos grupos extintos de vertebrados.

O artigo intitulado Filling a key gap in growth patterns of Pseudosuchia through the osteohistology of Dynamosuchus collisensis (Ornithosuchidae: Archosauria) foi publicado neste mês de fevereiro na revista científica internacional Royal Society Open Science. O estudo foi liderado por Brodsky Dantas Macedo de Farias, bolsista FAPERJ do programa de Pós-Doutorado Nota 10, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Zoologia do Museu Nacional, e supervisionado por Marina Bento Soares, pesquisadora da mesma instituição que também recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa de fomento à pesquisa "Cientista do Nosso Estado".

Também participam do trabalho, Rodrigo Temp Müller e Fabiula Prestes de Bem (CAPPA-UFSM) e Maria Belén von Baczko e Julia Brenda Desojo (Museo de La Plata, Argentina). Dynamosuchus collisensis é o único representante brasileiro pertencente ao grupo dos ornitossúquios, aparentados à linhagem crocodiliana. O fóssil (espécime CAPPA/UFSM 0248) foi encontrado no município de Agudo, Rio Grande do Sul, em afloramentos da Formação Santa Maria.

As análises paleohistológicas mostram que Dynamosuchus apresentava, em sua maior parte, tecidos ósseos altamente vascularizados, indicativos de crescimento rápido. No úmero, foram identificadas três linhas anuais de crescimento e no fêmur, quatro. Isso indica que o indivíduo estudado tinha, no mínimo, quatro anos de idade no momento da morte. A ausência de transição para tecidos de crescimento mais lento, indicam que o indivíduo estudado ainda era esqueletalmente e, provavelmente, sexualmente imaturo. Considerando que o espécime analisado, com cerca de dois metros de comprimento, ainda era jovem, os dados sugerem que ele provavelmente teria muito a crescer ao longo da vida.


As análises paleohistológicas dos ossos do Dynamosuchus indicaram que ele tinha, no mínimo, quatro anos de idade no momento da morte, cerca de dois metros de comprimento, ainda era jovem, e que provavelmente teria muito a crescer ao longo da vida (Foto: Rodrigo Tempo Müller)


Para fortalecer as interpretações baseadas nos dados paleohistológicos, também foram empregados métodos independentes de avaliação da maturidade esquelética, como a análise das suturas nas vértebras. As vértebras analisadas apresentam suturas neurocentrais (entre o centro e o arco neural) abertas, ou seja, arcos neurais ainda não fusionados aos centros vertebrais. Essas características são indicativas de imaturidade esquelética e corroboram as evidências obtidas a partir da paleohistologia óssea, de que o espécime CAPPA/UFSM 0248 era um indivíduo jovem.

O projeto desenvolvido pelo Bolsista de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ, intitulado “Preenchendo lacunas no conhecimento paleobiológico de arcossauros do Triássico do Sul do Brasil a partir da paleohistologia“, tem como objetivo principal fornecer uma abordagem comparativa envolvendo os principais grupos de Pseudosuchia durante o primeiro período da Era Mesozoica, o período Triássico.

Neste contexto, por se tratar de um dos grupos mais basais dessa linhagem, os ornitossúquios constituem uma referência-chave para a reconstrução da trajetória dos Pseudosuchia. Resultados obtidos até o momento pelo projeto indicam que o padrão atual de crescimento em crocodilos, que crescem de forma lenta durante toda a vida (mesmo depois de adultos), contrasta ao observado nos seus precursores fósseis, incluindo os ornitossuquídeos, que cresciam a taxas bastante elevadas até atingir o estágio adulto.


O bolsista de pós-doutorado Brodsky Farias e a professora Marina Bento Soares: pesquisadores puderam contar com os recursos do mais bem equipado Laboratório de Paleohistologia do Brasil, instalado no Museu Nacional/UFRJ e implementado com recursos da FAPERJ (Fotos:Divulgação)


"Esta pesquisa é particularmente importante porque não apenas aponta para a presença de um predador de grande porte nos ecossistemas do Triássico brasileiro, mas também revela, através da paleohistologia, que os representantes basais da linhagem crocodiliana apresentavam padrões de crescimento compatíveis com taxas metabólicas mais elevadas, possivelmente mais próximas das aves e mamíferos do que dos crocodilos atuais", diz Brodsky Farias.

Professora do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional, Marina Bento Soares conta que o convite para participarem da pesquisa partiu de Rodrigo Temp Müller, primeiro autor da descrição original de Dynamosuchus collisensis e coautor do presente estudo, para realizar as análises histológicas do material. "Desde o início, reconhecemos a relevância científica da espécie, a única representante brasileira do grupo Ornitosuchidae, um dos ramos mais basais da linhagem crocodiliana. Diante dessa importância, incorporamos o estudo ao projeto do Brodsky, que, desde o doutorado, investiga os padrões de crescimento dos pseudosúquios", explica a pesquisadora, ressaltando que a inclusão de Dynamosuchus ampliou substancialmente a base comparativa do projeto e permitiu preencher uma lacuna fundamental no entendimento da biologia da linhagem crocodiliana, no seu início. "É importante ressaltar, também, que o Museu Nacional, na sua fase de reconstrução após o incêndio de 2018, conta com o mais bem equipado Laboratório de Paleohistologia do Brasil, implementado com recursos da FAPERJ. Toda a fase experimental do trabalho com Dynamosuchus foi realizada no referido laboratório, e vários novos estudos vêm por aí", adianta.



Autor: Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 2/02/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=963.7.5

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