Mostrando postagens com marcador Dieta vegana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dieta vegana. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Pediatras no Brasil e nos EUA advertem contra dieta vegana até dois anos



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Falta de vitaminas e minerais nos primeiros anos de vida pode ter repercussão durante toda a vida, apontam pesquisas


O caso da americana Sheila O'Leary, condenada à prisão perpétua nos Estados Unidos acusada de homicídio do próprio filho por desnutrição e desidratação após submetê-lo a uma alimentação apenas com frutas, vegetais crus e leite materno, gerou dúvidas entre os pais.


Será que é possível nutrir bebês e crianças exclusivamente com uma dieta vegana?


Entre sociedades médicas — como a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — a recomendação é evitar uma alimentação sem nenhuma fonte de origem animal até os dois anos de vida.


Mas os especialistas admitem que, sim, até dá para excluir carnes, ovos, laticínios e outros produtos de origem animal das refeições dos pequenos — mas é preciso tomar um enorme cuidado para garantir um aporte adequado de nutrientes, vitaminas e minerais para eles.


Isso envolve escolher bem os ingredientes que vão à mesa e, em alguns casos, até partir para a suplementação com comprimidos e injeções.


Todo esse processo, inclusive, deve ser acompanhado de perto por profissionais de saúde, como pediatras e nutricionistas, para evitar problemas no desenvolvimento do corpo e da mente.


"Os dois primeiros anos de vida são um período crítico, em que o cérebro e o corpo da criança se desenvolvem bastante e precisam de uma grande variedade de nutrientes", explica a médica Fabíola Suano, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da SBP.


"Ou seja, uma carência nutricional nessa fase pode representar um risco para toda a vida", complementa.


A falta de alguns desses compostos que aparecem exclusivamente ou em mais abundância nos alimentos de origem animal, como a vitamina B12, o ferro e o cálcio, por exemplo, está relacionada a déficits no desenvolvimento dos ossos e dificuldades na formação de estruturas do cérebro importantíssimas para a memória, o aprendizado e o raciocínio.


Saiba a seguir quais são as principais recomendações dos especialistas e como pais e mães veganos podem garantir uma boa saúde ao filho, se desejarem mantê-lo longe de carnes, ovos, leites e afins durante a infância.

Polêmica à mesa

Entidades como a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde recomendam que o bebê seja alimentado exclusivamente com o leite materno até o sexto mês de vida.


Nesse ponto, a alimentação da mãe pode fazer toda a diferença: como os nutrientes primordiais chegam ao bebê através do leite materno, é importante que a mulher coma bem e tenha níveis adequados de vitaminas e minerais.


"Muitas vezes, a mãe que adota uma dieta vegana precisa tomar injeções de vitamina B12, para garantir que esse composto esteja no leite dela", exemplifica Suano, que também é professora do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).


Quando o aleitamento não é possível, a alternativa nesses casos é utilizar as fórmulas à base de proteína hidrolisada de arroz ou de proteína isolada de soja.


A amamentação, aliás, continua a ser recomendada até os dois anos de idade — nesse período, porém, vale introduzir aos poucos outros alimentos.


É justamente aí que muitos pais que adotam uma dieta vegetariana ou vegana ficam em dúvida: é possível excluir alguns ou todos os produtos de origem animal da alimentação dos filhos?


A mais recente diretriz da SBP sobre o tema, publicada em 2017, admite que "uma dieta vegetariana bem balanceada é capaz de promover crescimento e desenvolvimento na infância e na adolescência".


O documento está alinhado com a posição de outras entidades do setor, como a Associação Dietética Americana e a Academia Americana de Pediatria.


"Entretanto, por serem mais vulneráveis a desenvolver deficiência de nutrientes, [essas crianças] devem ser adequadamente monitoradas e muitas vezes suplementadas, já que o risco é proporcional à menor variedade dos grupos alimentares consumidos", aponta o texto.


Já a dieta vegana especificamente, que corta todos os produtos de origem animal, é vista com ressalvas nesses primeiros dois anos de vida.


"É preciso conversar com a família e encontrar um meio termo. Se os pais não querem dar carne vermelha, será que não seria possível preparar um peixe ou um ovo?", sugere Suano.


"Se entre os seis meses e os dois anos a criança é submetida a uma dieta totalmente vegana, ela fica com uma diversidade alimentar e nutricional muito restrita", acredita a médica.


A pediatra ressalta que esse debate está longe de chegar a um consenso, mesmo entre os especialistas da área. "Algumas entidades dizem que, sim, é possível adotar o veganismo a partir dos seis meses de vida, enquanto outras consideram a prática arriscada e contraindicada", compara.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

A amamentação deve ser exclusiva até os seis meses de vida


"Mas há ao menos uma unanimidade entre todas as associações: a família que optar por reduzir ou cortar completamente o consumo de carne, leite e ovo das crianças deve fazer um acompanhamento muito cuidadoso."


Essa orientação está, inclusive, em materiais publicados pela Sociedade Vegetariana Brasileira.


Como qualquer tipo de estilo de vida, eliminar os ingredientes de origem animal tem vantagens e desvantagens.


Por um lado, uma alimentação desse tipo está relacionada ao consumo de menos calorias e gorduras saturadas, o que diminui o risco de quadros como obesidade e doenças cardiovasculares na infância e ao longo da vida.


O maior teor de fibras alimentares, vindas dos vegetais, também representa uma ótima notícia para o funcionamento do sistema digestivo — apesar de isso poder interferir na absorção de alguns minerais.


Por outro, a ausência de carnes, ovos e laticínios no prato representa um risco de faltarem ferro, vitamina B12, cálcio e zinco no organismo.


A grande questão, explicam os especialistas, é que alguns desses micronutrientes são mais comuns nos produtos de origem animal — frutas, verduras e legumes até carregam uma boa quantidade deles, mas a biodisponibilidade (ou a porção que nosso corpo absorve daquilo) é mais baixa.

Como evitar problemas


É preciso considerar também que nem sempre uma dieta menos calórica ou com pouca gordura representa uma boa notícia. Afinal, as crianças precisam desses nutrientes na medida certa para crescer bem e com saúde.


Uma revisão de estudos feita no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, em São Paulo, apontou que crianças adeptas de uma dieta vegetariana tendem a ser mais baixas e magras, embora os valores médios de altura e peso delas ainda estejam dentro dos valores considerados normais.


Outra preocupação constante dos especialistas está na ausência de micronutrientes essenciais à saúde.


Um dos exemplos disso é o ferro, que constitui a hemoglobina, uma molécula presente nas células vermelhas do sangue responsáveis por transportar oxigênio para todas as partes do corpo. Ele também é essencial para a imunidade e para a fabricação dos neurotransmissores do cérebro.


A deficiência deste mineral está relacionada a "alterações do desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento do sistema imunológico e diminuição da capacidade de trabalho", lista o material da SBP.


Para garantir a presença do ferro na dieta, é possível partir para algumas estratégias simples, como deixar o feijão de molho por 12 horas. Isso diminui a presença de moléculas que afetam a biodisponibilidade desse mineral.


Outra ideia é consumir vegetais ricos nesse micronutriente, como lentilha, feijão e ervilha, junto com fontes de vitamina C, caso da laranja e do limão, o que aumenta a absorção do ferro pelo nosso organismo.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Deixar o feijão de molho e comer fontes de ferro junto com alimentos ricos em vitamina C garantem um maior consumo desse mineral


Já o cálcio, presente no leite e em alguns laticínios, é primordial para a formação dos ossos que dão sustentação ao corpo e garantem a locomoção.


Até é possível encontrar esse mineral em alguns vegetais, mas a biodisponibilidade dele também é uma barreira importante.


Para as crianças que fazem uma dieta completamente vegana, o caminho mais seguro é a suplementação do cálcio, que garante um aporte suficiente para o desenvolvimento do esqueleto.


A mesma recomendação vale para a vitamina B12, que só aparece nas carnes, nas vísceras e nos ovos.


Como ela é essencial para a circulação sanguínea e para a estrutura que recobre e protege os neurônios, médicos e nutricionistas prescrevem suplementos ou indicam o consumo de alimentos fortificados.


Outros micronutrientes que exigem uma atenção extra nesse contexto são o zinco, o iodo, a vitamina A, o ácido fólico, a vitamina D e o ômega 3.


Em alguns casos, será preciso reforçar o consumo de alguns alimentos fortificados ou ampliar a oferta de ingredientes de origem vegetal específicos, que trazem uma certa quantidade desses compostos.


Em outros, resta partir para a suplementação por meio de cápsulas, comprimidos e injeções.


No final das contas, uma pitada de bom senso e o acompanhamento de profissionais de saúde vai ser essencial para garantir um bom desenvolvimento da criança que faz uma dieta vegana ou vegetariana nesses primeiros anos de vida.


"Nós sabemos que o vegetarianismo e o veganismo cresceram muito nos últimos anos, seja pela busca de uma dieta mais saudável, seja pela preocupação com o meio ambiente", analisa Suano.


"E nós, como profissionais de saúde, precisamos conversar com as famílias, entender o ponto de vista delas e chegar a um meio termo satisfatório e saudável para todos os envolvidos", conclui a pediatra.







Autor: André Biernath - @andre_biernath
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 31/08/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62736718

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Dieta vegana: existem benefícios para perda de peso?




Uma dieta vegana com pouca gordura induz alterações na microbiota intestinal, que estão relacionadas à composição corporal alterada e à sensibilidade para a insulina, resultando em perda de peso, de acordo com as conclusões de um estudo controlado randomizado em adultos com sobrepeso/obesidade.

Durante a intervenção de 16 semanas, o peso corporal foi reduzido significativamente em indivíduos com dieta vegana, em comparação com aqueles que permaneceram em sua dieta diária normal, com uma perda de -5,8 kg (P <0,001), o que se deve principalmente a uma queda na massa gorda, com um efeito de tratamento de -3,9 kg (P <0,001). A gordura visceral também foi significativamente reduzida com o plano de alimentação vegana.
Nenhuma restrição calórica foi imposta em nenhuma das dietas.

A médica Hana Kahleova, diretora de pesquisa clínica do Comitê Médico pela Medicina Responsável, em Washington, liderou o trabalho e apresentou as conclusões na reunião anual da Associação Europeia para o Estudo da Diabetes (EASD) 2019.


“Este é um resultado muito bom de meio quilo de perda de peso, em média, por semana no grupo vegano”, destacou Hana Kahleova.

A médica explicou que trabalhos anteriores mostraram que as pessoas podem emagrecer o dobro de peso em uma dieta vegana do que em uma dieta não vegana com a mesma ingestão calórica. “Ao conduzir o nosso estudo, queríamos descobrir por que isso acontece. Os resultados sugerem mudanças no microbioma intestinal produzindo os efeitos benéficos”.

Segundo Hana Kahleova, ingerir uma dieta à base de plantas com fibras altera a composição do microbioma intestinal para melhor, alimentando o tipo certo de bactérias, o ácido graxo de cadeia curta produzindo Faecalibacterium prausnitzii, que oferece muitos benefícios metabólicos, como perda de peso, maior sensibilidade à insulina, além de perda de gordura, incluindo a visceral.

No entanto, Emma Elvin, consultora clínica sênior da Diabetes UK, alertou que são necessárias mais pesquisas para entender como as dietas à base de plantas afetam a microbiota intestinal e que efeitos distintos podem ser atribuídos à dieta ser especificamente vegana, em comparação com a redução. caloria antes de recomendar a ampla adoção de uma abordagem vegana.

“É verdade que muitos dos alimentos em uma dieta vegana equilibrada são bons, mas isso não significa que todas as dietas veganas sejam saudáveis. As evidências, até agora, indicam que certos alimentos em dietas à base de plantas (como frutas, verduras e cereais integrais) foram associados à redução do risco de diabetes tipo 2”, afirmou Emma Elvin.
Alterações da microbioma na dieta vegana versus dieta diária

Para o estudo, 148 adultos com sobrepeso ou obesidade, sem histórico de diabetes, foram randomizados para seguir uma dieta vegana com pouca gordura (n = 73) ou nenhuma mudança na dieta (n = 75). A idade média nos grupos vegano e de controle foi de 53 e 57 anos, respectivamente; 60% e 67% eram mulheres, respectivamente; e o índice de massa corporal foi de 33 kg / m 3 nos dois grupos.

A dieta vegana não continha produtos de origem animal e compreendia legumes, nozes, legumes, frutas e cereais integrais. A ingestão de calorias foi irrestrita nos dois grupos.

O objetivo do estudo foi testar o efeito da dieta vegana baseada em vegetais na composição da microbiota intestinal, peso corporal, composição corporal e sensibilidade à insulina durante 16 semanas.

“Sabemos que dietas à base de plantas são muito eficazes para o controle de peso porque é sustentável a longo prazo e os benefícios vão além da intervenção imediata. No entanto, até o momento, havia pouco entendimento dos mecanismos que impulsionam os benefícios de uma dieta vegana”, ressaltou a médica.
F. prausnitzii alimenta-se de fibras e induz a perda de gordura

Quando a composição do microbioma intestinal dos participantes foi avaliada, os pesquisadores descobriram que toda a família de bacteroidetes tinha sido aumentada naqueles que ingeriram a dieta vegana, sendo que uma espécie foi considerada especialmente importante: Faecalibacterium prausnitzii.

“A abundância relativa de F. prausnitzii cresceu no grupo vegano e foi associada a um efeito de tratamento de + 4,8%. Contagens mais baixas dessas bactérias foram descritas em pacientes com diabetes, e isso tem sido associado à resistência à insulina e inflamação”, acrescentou.

A especialista explicou que F. prausnitzii produz ácidos graxos de cadeia curta, oferecendo muitos benefícios metabólicos, incluindo prevenção de doenças cardiovasculares, efeitos sensibilizadores à insulina e efeitos positivos no sistema imunológico.

Esses ácidos graxos de cadeia curta são produzidos por essas bactérias, que se alimentam de fibras abundantes em alimentos de origem vegetal, mas não em produtos de origem animal. “Quanto mais plantas são consumidas, mais essas bactérias são alimentadas com a maior a quantidade de ácidos graxos de cadeia curta produzidas. O aumento de F. prausnitzii observado em nosso estudo se correlacionou com a perda de peso e um aumento na sensibilidade à insulina”, explicou Kahleova.

E, crucialmente, dois terços da perda de peso foram “explicados pela perda de gordura e que a gordura visceral também foi perdida rapidamente na dieta vegana”.
Dieta vegana versus vegetariana

Estudos anteriores mostraram que os veganos têm um risco menor de diabetes do que os vegetarianos, uma vez que uma dieta vegetariana é mais liberal e pode ter altos níveis de gordura saturada.

“Pode ser difícil no começo encontrar e fazer receitas, além de encontrar opções para comer fora. Além disso, geralmente comemos o mesmo que, ou precisamos cozinhar para nossas famílias”, argumentou a médica, que ainda alertou para a prevenção de uma queda nos níveis de vitamina B12, que podem ser associados a uma dieta vegana.

Pacientes com diabetes que tomam metformina (que também reduz a vitamina B12) e, principalmente, idosos (tomando ou não metformina), podem ter deficiência de vitamina B12, precisando tomar suplementos.

O mesmo grupo pretende, em breve, fazer um estudo comparativo cruzado de uma dieta vegana com pouca gordura, como a American Diabetes Association (ADA) recomenda: uma dieta com restrição de carboidratos, controlada por porção, controlada por pacientes para pacientes com diabetes. E a composição do microbioma intestinal será medida.

“Também estamos no meio de outro estudo comparando uma dieta vegana com pouca gordura com uma dieta mediterrânea rica em azeite e nozes, que abordará a qualidade e quantidade de gordura de cada dieta. E no futuro, poderemos comparar dietas veganas com baixo teor de gordura versus dietas veganas com alto teor de gordura”, revelou Kahleova.




Autor: Úrsula Neves
Fonte: PebMed
Sítio Online da Publicação: PebMed
Data: 07/10/2019