Mostrando postagens com marcador Psiquiatra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psiquiatra. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A doença como metáfora, artigo de Montserrat Martins

Análise profunda sobre como doenças graves (câncer, AIDS) são vistas em nossa cultura, “A doença como metáfora”, de Susan Sontag, deveria ser lido por todos que se interessam em compreender o ser humano e a sociedade.

Carregado de conotações pejorativas no imaginário popular, suscita crenças milenares que vão do “castigo divino” até interpretações do tipo “alguma ele fez”, conotações que culpam o doente pela doença, para alívio psicológico dos que não a tem.

O outro lado da moeda é a evocação de estados patológicos como defesa para condutas ilícitas, numa ampla gama de comportamentos previstos juridicamente, que vão desde atos cometidos “sob violenta emoção” até a alegação de insanidade mental para desculpabilizar o réu, dos quais o argumento preferido é o do “estado de insanidade temporária”.

Nesse “outro lado” é que se tenta entender, agora, qual a relação entre as condutas do ex-assessor Queiroz e a grave doença (câncer) que ele enfrenta atualmente. Pois, em suas declarações, o mesmo afirma que logo após se tratar dará as explicações devidas sobre as suas movimentações financeiras de mais de 1,2 milhão, incompatíveis com sua renda e envolvendo valores de vários outros assessores que trabalhavam junto com ele. Porque a doença impediria, desde já, o esclarecimento dos fatos?

O motivo de arrecadar dos colegas, o destino do dinheiro, tudo isso pode ser informado em poucas frases tais como a alegação inicial de que fazia “negócios com automóveis”. Estar num leito de hospital não impede de falar, aliás, deveria ser fator de alívio esclarecer logo tudo isso. Queiroz tem falado, aliás, mas apenas para alegações de que “depois” vai falar e que está “sendo tratado como o pior bandido do mundo” e que há pessoas duvidariam de sua doença. Disse ele: “Estou muito a fim de esclarecer tudo isso, mas não contava com essa doença. Nunca imaginei que tinha câncer”.

A disposição em relatar detalhes da própria doença (relatou sangramentos, exames, cirurgia, etc) não poderia ser empregado em informações que a sociedade demanda do que, afinal, foi feito com o dinheiro arrecadado dos demais servidores?

Pois a impressão que fica é que os valores que movimentava dos demais assessores tinham finalidade política mesmo, tal como exigir parte dos salários para financiamento de campanha, prática corrente nos bastidores da política. Ou será que quando Queiroz nos diz que não pode falar agora “por causa do câncer” está falando por metáforas, se referindo ao “câncer” do sistema político brasileiro?



Montserrat Martins, Colunista do EcoDebate, é Psiquiatra, autor de “Em busca da alma do Brasil”.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/01/2019




Autor: Montserrat Martins
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 14/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/14/a-doenca-como-metafora-artigo-de-montserrat-martins/

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Expectativas mágicas, artigo de Montserrat Martins

O que há por trás da “guerra civil moral” nas redes sociais, em que as pessoas acusam os candidatos dos outros e promovem os seus? O grande paradoxo das defesas apaixonadas que os eleitores fazem, é que esperam um “produto” que, caso eleito, talvez não seja o que imaginam. O candidato militar tem condições de restaurar as condições de vida que tínhamos nos governos militares? Ou o candidato lulista, de reviver o período favorável à economia daquela época? Ou os demais candidatos que prometem “unir o país” tem condições de cumprir essa promessa?

Os governos militares, por exemplo, foram nacionalistas, se valeram do Estado para investir em infra-estrutura e tinham um Código Florestal que protegia o ambiente. Antes daquela época, já Rondon fora um militar com conceitos avançados de sustentabilidade. Bolsonaro, ao contrário, se diz claramente contra os órgãos estatais e contra áreas de preservação ambiental. Se a área de segurança fosse simples, a intervenção federal no Rio já tinha resolvido. Os governos dos militares, ao contrário do atual, acreditavam em projetos sociais, como o BNH, de habitação.

O candidato lulista deu uma declaração de que “golpe é uma palavra muito forte”, feita para restaurar alianças eleitorais com partidos que apoiaram o impeachment. Quando o governo Lula conseguiu manter a economia aquecida, tinha um vice-presidente empresário (José Alencar) e contava com uma ampla coalizão centrista, que ruiu com sua sucessora. Hoje, Haddad tem uma base estreita, que terá dificuldades de ampliar.

Outros candidatos, não sendo do PT nem Bolsonaro, já falaram em unir o país, mas dificilmente conseguiriam isso. Ciro já disse que desejava cativar os eleitores de Bolsonaro e talvez por isso goste de dar declarações fortes, populistas, mas acabou tão alinhado com o PT que ficou de um lado da equação. Marina Silva foi considerada “de direita” quando apoiou o impeachment da Dilma e a Lava Jato, mas sofre os mesmos ataques da direita por ser uma “ex-ministra do Lula”. Geraldo Alckmin poderia, nesse contexto, tentar passar uma imagem mais equilibrada, de gestor, mas sua linha de propaganda na TV se concentrou em atacar todos ao invés de tentar promover as próprias qualidades.

Nos bastidores da política, se sabe que ser Presidente não dá poderes a ninguém de resolver os problemas do país num golpe de caneta, mas é preciso alimentar a esperança dos eleitores. Sim, é muito importante quem será eleito – não só para o governo mas também para a Câmara Federal e o Senado – mas o que acontecerá depois disso é uma grande incógnita.

A única certeza é a decepção dos eleitores que alimentam expectativas mágicas.


Montserrat Martins, Colunista do EcoDebate, é Psiquiatra, autor de “Em busca da alma do Brasil”



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/09/2018




Autor: Montserrat Martins
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 24/09/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/09/24/expectativas-magicas-artigo-de-montserrat-martins/