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quarta-feira, 19 de maio de 2021

Nem os conservadores defendem mais os combustíveis fósseis

Pela primeira vez, a Agência Internacional de Energia admite que, para evitar a catástrofe climática, mais nenhum investimento em petróleo, gás e carvão deve ser feito




Até a conservadora AIE está reconhecendo que o mundo precisa frear já a expansão de petróleo, gás e carvão. Foto: Steve Buissinne/Pixabay.

Em uma guinada inédita, a Agência Internacional de Energia (AIE), organização internacional que tem como objetivo coordenar as políticas energéticas de seus estados-membros, reconheceu hoje que o mundo precisa parar imediatamente de investir em petróleo, gás e carvão, se quiser evitar os cenários mais catastróficos da crise climática.

Fundada em 1974, como resposta à crise internacional do petróleo, e abrigada na estrutura da Organização pela Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a AIE percorreu um longo caminho até finalmente reconhecer a necessidade de um modelo de desenvolvimento compatível com o objetivo do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento da Terra em 1.5˚C.


O relatório Net Zero até 2050: um roteiro para o setor energético global, lançado nesta terça-feira, estabelece mais de 400 pontos que determinam o caminho crítico para alcançar o “net zero” (emissões líquidas zero) até 2050. As principais recomendações da publicação da AIE que o mundo alcance esse objetivo são:
Nenhuma nova expansão ou investimento em petróleo, gás ou carvão além do que já está comprometido, medida que deve começar a valer imediatamente.
A geração de energia solar e eólica fornecerá 68% de toda a demanda global de eletricidade.
As emissões totais de CO₂ relacionadas à energia até 2050 devem chegar a zero.
A AIE sugere, inclusive, um cronograma de metas para o setor, sintetizado no gráfico abaixo.


Crédito: AIE.

Traduzindo, esse cronograma lista os seguintes marcos:

2021 – Fim dos investimentos em projetos de combustíveis fósseis

2035 – Fim das vendas de automóveis a combustão

2040 – Setor global de energia elétrica alcança emissões líquidas zero (net-zero)

2050 – Setor global de energia (não só a elétrica) alcança emissões líquidas zero (net-zero)
Não há mais como defender os combustíveis fósseis

O relatório é notável porque a AIE é vista como uma organização relativamente conservadora e que, no passado, minou consistentemente o potencial das energias renováveis. Além disso, os estudos da AIE são frequentemente utilizados para moldar as decisões de governos e de setores da indústria.

Com o documento lançado hoje, a AIE finalmente reconhece que não há espaço para novos projetos de combustíveis fósseis dentro de seu caminho para 1,5˚C. Entretanto, seu cenário depende fortemente de projetos “net zero” que vêm sendo utilizados por governos e empresas poluidoras como uma estratégia para disfarçar a falta de ação climática, mantendo um cenário de “business as usual”.

Em outras palavras, devemos reconhecer o avanço que esse relatório representa, por nomear claramente o problema – os combustíveis fósseis –, mas lembrar que a solução proposta ainda é insuficiente.

A AIE admitir que não dá mais para defender a produção de combustíveis fósseis deixa as empresas de petróleo, gás e carvão ainda mais isoladas. A ciência é tão clara sobre a necessidade de uma transição energética urgente, e as evidências práticas do impacto da crise climática ficaram tão visíveis em todo o mundo que nem mesmo as organizações mais conservadoras estão hesitando em defender o caminho da descarbonização. Porém, falta derrubar o mito das emissões líquidas zero como resposta. Podemos – e precisamos – ser muito mais ambiciosos do que isso.
Não temos tempo de esperar por soluções do futuro

Outro ponto que merece destaque negativo é o fato de a AIE afirmar que a metade das reduções das emissões virá de tecnologias que estão atualmente em fase de demonstração ou de protótipo. Essa é, aliás, uma das falhas frequentes das propostas de emissões líquidas zero.

De acordo com Sven Teske, professor associado e diretor de pesquisa do Institute for Sustainable Futures, Universidade de Tecnologia de Sydney, a AIE está apostando suas fichas em tecnologias não-comprovadas de captura e armazenamento de carbono. Sem contar que retirar CO₂ da atmosfera é técnica e economicamente muito mais difícil do que evitar a emissão.

Sven Teske afirma o seguinte: “As principais tecnologias para descarbonizar o sistema global de energia estão prontas para o mercado, ou já são competitivas em termos de custo ou estarão dentro dos próximos cinco a dez anos. São elas: tecnologias solares e eólicas, tecnologias de baterias, mobilidade elétrica e várias tecnologias para fornecer calor a processos industriais. Não há necessidade de esperar por mais pesquisas. A transição para um fornecimento completo de energia renovável até 2050 pode começar agora”.

Para companhias de petróleo, gás e carvão, essa conclusão pode ser dolorosa, mas não adianta tapar o sol com a peneira. Não há mais tempo para ganhar tempo. Precisamos de políticas públicas que incentivem a expansão da infraestrutura e o financiamento a energias limpas e facilitem o acesso do consumidor a essas energias. E isso deve acontecer não de forma paralela com a expansão dos fósseis, mas substituindo-os. A era dos combustíveis fósseis tem que acabar. O futuro será deles ou da humanidade.




Autor: ILAN ZUGMAN
Fonte: oeco
Sítio Online da Publicação: oeco
Data: 18/05/2021
Publicação Original: https://www.oeco.org.br/analises/nem-os-conservadores-defendem-mais-os-combustiveis-fosseis/

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Fator catastrófico que levou à maior extinção em massa da Terra é revelado em fósseis



Créditos: PaleoFactory / Hana Jurikova.


Por David Nield
Publicado na ScienceAlert

Os cientistas acreditam que finalmente chegaram mais perto de identificar a causa da pior extinção em massa da Terra, rastreando o fator geoquímico que pode ter iniciado tudo.


Conhecido como a Grande Morte, o evento de extinção Permiano-Triássico aconteceu há cerca de 252 milhões de anos. A nova pesquisa é baseada em um estudo de conchas fósseis deixadas por braquiópodes semelhantes a moluscos onde hoje são os Alpes do Sul.

As conchas registram os níveis de pH da água do mar que são afetados pelas concentrações atmosféricas de CO2, e parece que há cerca de 252 milhões de anos houve uma introdução repentina e intensa de dióxido de carbono na atmosfera.

Provavelmente foi devido a uma série gigantesca de erupções vulcânicas na Sibéria, dizem os pesquisadores. O aumento do aquecimento e a acidificação dos oceanos teriam matado certas espécies muito rapidamente, enquanto as águas cada vez mais ricas em nutrientes teriam, então, esgotado os níveis de oxigênio no oceano por um longo período de tempo, causando mais extinções.

“Este colapso semelhante a um dominó dos ciclos e processos de sustentação da vida interconectados levou, enfim, à extensão catastrófica de uma extinção em massa na fronteira do Permiano-Triássico”, disse a biogeoquímica marinha Hana Jurikova, que agora está na Universidade de St Andrews em o Reino Unido.

A equipe mediu diferentes isótopos de boro e carbono nas conchas para obter uma leitura da acidez da água do mar usando instrumentos de alta precisão como a Espectrometria de Massa de Íons Secundários (SIMS). Combinados com modelos computacionais detalhados, os dados poderiam ser usados ​​para reconstituir a Grande Morte.

Os cientistas há muito tempo aceitaram que uma série de erupções vulcânicas onde hoje é a Sibéria foram as principais causas da Grande Morte, mas esta é a primeira vez que uma reconstrução das circunstâncias atmosféricas é feita com tantos detalhes. Isso nos fornece mais informações sobre os mecanismos subjacentes do que aconteceu na Terra na época e quais foram as consequências ao longo dos próximos milhares de anos.


Este estudo responde a algumas perguntas sobre a combinação de eventos e suas sequências, relacionando claramente o aumento de CO2 com a atividade vulcânica. A análise e modelagem também sugerem que outro fator – a liberação de grandes quantidades de metano por micróbios no fundo do mar – não foi tão importante.

“Com esta técnica, podemos não apenas reconstruir a evolução das concentrações atmosféricas de CO2, mas também rastreá-la claramente de volta à atividade vulcânica”, disse o bioquímico marinho Marcus Gutjahr do Centro Helmholtz de Pesquisa Oceânica de Kiel da GEOMAR, na Alemanha.

“A dissolução de hidratos de metano, que foi sugerida como uma causa potencial adicional, é altamente improvável com base em nossos dados”.

Os cientistas continuam a juntar as peças da história do que aconteceu na extinção do Permiano-Triássico com base em registros geológicos que têm centenas de milhões de anos – não é a parte mais fácil do trabalho de detetive.

Ainda há muito mais para descobrir sobre quais foram os fatores contribuintes, quanto tempo eles duraram e como algumas espécies sobreviveram. Cerca de 96% das espécies marinhas e 70% das espécies de vertebrados terrestres se foram para sempre.

O que torna este novo estudo interessante é que ele mostra como nossa compreensão pode ser aprofundada por meio de técnicas de análise aprimoradas que estão surgindo online, incluindo o uso de espectrometria e o estudo de fósseis de braquiópodes.

“Sem essas novas técnicas, seria difícil reconstruir os processos ambientais de mais de 250 milhões de anos no mesmo nível de detalhes que temos agora”, disse o geoquímico marinho Anton Eisenhauer, da GEOMAR. “Além disso, os novos métodos podem ser aplicados para outras áreas científicas”.

A pesquisa foi publicada na Nature Geoscience.




Autor: David Nield
Fonte: Nature Geoscience
Sítio Online da Publicação: universoracionalista
Data: 22/10/20
Publicação Original: https://universoracionalista.org/fator-catastrofico-que-levou-a-maior-extincao-em-massa-da-terra-e-revelado-em-fosseis/

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A Singularidade Solar, artigo de José Eustáquio Diniz Alves







O mundo está passando por uma grande revolução da sua matriz energética, passando da era dos poluidores combustíveis fósseis para a era das energias renováveis. O Sol irradia durante 365 dias o equivalente a 10 mil vezes a energia consumida anualmente pela população mundial. Assim, o nosso astro maior pode ser a grande fonte de energia renovável do planeta, tornando-se uma fonte energética que seja abundante e, relativamente, limpa e ecológica.

Segundo Tam Hunt, a “singularidade solar” é o ponto em que a energia solar se torna tão barata na maioria dos países ao redor do mundo que é estabelecida como a nova fonte de energia padrão.

O crescimento da energia fotovoltaica acompanhado do armazenamento de baterias e os veículos elétricos formam revoluções paralelas e entrelaçadas que devem transformar o sistema energético em todo o mundo. Existe a possibilidade de se atingir 100% de energia renovável até 2050.

O gráfico acima mostra que os acréscimos anuais na produção de energia solar passou de 1 GW em 2005 para 74 GW em 2016 e deve alcançar mais de 100 GW em 2021. Portanto, um aumento de 100 vezes em 15 anos. A capacidade instalada pode ultrapassar mil GW no início da próxima década.

O custo da energia é fundamental para o seu futuro desenvolvimento. O preço de um painel solar em 2016 era 30% menor do que era em 2010 – caindo de US$ 1,50 por watt para US$ 0,447 por watt. Isso significou uma redução de 70% em seis anos.

O gráfico abaixo mostra que a queda do preço da produção da energia solar tem caído de forma consistente e já se torna competitiva com as demais fontes energéticas. A singularidade solar cria uma nova situação, pois a energia solar tenderá a crescer exponencialmente quando atingir o nível bem abaixo da paridade dos custos com novas usinas de gás natural, plantas de carvão ou usinas nucleares.






A energia solar foi a fonte de mais rápido crescimento em todo o mundo em 2016, superando o crescimento em todas as outras formas de geração de energia pela primeira vez, segundo a Agência Internacional de Energia. A energia renovável representou dois terços do novo poder adicionado às redes mundiais no ano passado. A nova capacidade solar já ultrapassou o crescimento líquido do carvão, anteriormente a maior fonte nova de geração de energia. A mudança foi impulsionada pela queda dos preços e pelas políticas governamentais, particularmente na China, que representavam quase metade dos painéis solares instalados. O Dr. Fatih Birol, diretor executivo da AIE, disse: “O que estamos testemunhando é o nascimento de uma nova era na energia solar fotovoltaica [PV]. Esperamos que o crescimento da capacidade de energia solar fotovoltaica seja maior do que qualquer outra tecnologia renovável até 2022”.

O gráfico abaixo ilustra a desconexão entre as projeções históricas sobre as instalações dos painéis solares e os desenvolvimentos reais, segundo Hoekstra (12/06/2017). As 12 projeções dos relatórios do World Energy Outlook (WEO) da Agência Internacional de Energia (IEA) ficaram sempre abaixo do crescimento real da energia solar.







Sem dúvida o avanço da energia solar (juntamente com a energia eólica) substituindo os combustíveis fósseis é uma necessidade urgente para a estabilização da economia e do clima. Contudo, a trajetória de mudança não será simples. Kurt Cobb considera que a revolução energética, se acontecer na escala necessária, não deve ocorrer de maneira tão rápida e nem com tantos resultados positivos sobre o clima. Gail Tverberg (2014), no artigo: “Ten Reasons Intermittent Renewables (Wind and Solar PV) are a Problem”, relaciona dez problemas que dificultam a superação dos combustíveis fósseis e a mudança da matriz energética mundial para fontes renováveis. Artigo de Kris De Decker (14/09/2017) mostra as dificuldades para manter a economia mundial funcionando apenas com base na energia renovável.

Não resta dúvidas de que a economia internacional precisa reduzir significativamente os subsídios e a dependência dos combustíveis fósseis e aumentar o peso das energias renováveis no conjunto da produção energética, a despeito das dificuldades que precisam ser superadas. A transição energética não pode ser pequena e tardia.

Paralelamente, o mundo também precisa caminhar rumo ao decrescimento das atividades antrópicas, renovando o estilo de desenvolvimento consumista que tem colocado tantas pressões sobre o meio ambiente e a biodiversidade. A transição energética é um primeiro passo. Mas a construção de uma civilização ecológica é a única alternativa para evitar um colapso ambiental.

Referências:

ALVES, JED. Energia renovável: um salto na evolução? Ecodebate, 29/01/2010
http://www.ecodebate.com.br/2010/01/29/energia-renovavel-um-salto-na-evolucao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A transição energética: da energia fóssil às renováveis, Ecodebate, 28/07/2017
https://www.ecodebate.com.br/2017/07/28/transicao-energetica-da-energia-fossil-as-renovaveis-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Tam Hunt. The Solar Singularity: 2017 Update, Green Tech media, March 24, 2017
https://www.greentechmedia.com/articles/read/the-solar-singularity-2017-update-ev-autonomous-energy-storage

Kris De Decker. How (Not) to Run a Modern Society on Solar and Wind Power Alone, Resilience, 14/09/2017 http://www.resilience.org/stories/2017-09-14/how-not-to-run-a-modern-society-on-solar-and-wind-power-alone/

Auke Hoekstra. Photovoltaic growth: reality versus projections of the International Energy Agency, 12/06/2017
https://steinbuch.wordpress.com/2017/06/12/photovoltaic-growth-reality-versus-projections-of-the-international-energy-agency/



José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br




Autora: José Eustáquio Diniz Alves
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 15/12/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/12/15/singularidade-solar-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Testemunhos paleontológicos da passagem do tempo


Na bacia de São José de Itaboraí, foram encontrados fósseis que
registram a vida há 60 milhões de anos (Foto: Lilian Bergqvist/UFRJ)


Entender a história geológica da Terra, que implica uma dimensão temporal muito maior que o da própria existência humana, constitui uma experiência fascinante. As rochas, os minerais e os fósseis são os elementos que possibilitam o entendimento de eventos e fenômenos geológicos que ocorreram há milhões e até mesmo bilhões de anos. Mares que se transformaram em montanhas, desertos em florestas tropicais e rios caudalosos em amplas planícies geladas – tudo é possível no transcorrer do tempo.

Ao longo dos últimos 3,8 bilhões de anos de história do nosso planeta, a vida surgiu, se diversificou e deixou registros, que possibilitam o remontar de uma história intrincada de ocupação dos espaços ecológicos e de transformações dos cenários ambientais. Desde o aparecimento da primeira célula, até a complexidade atual dos seres vivos, que encontramos no registro geológico estas evidências de vida, materializadas nos fósseis.

Podemos imaginar que eles são como o sequestro da vida pelos processos relacionados à dinâmica interna do planeta. O natural seria imaginarmos que um organismo ao morrer se desintegraria e seus elementos químicos voltassem a fazer parte do ciclo natural de nutrientes do solo. No evento de fossilização, este caminho natural da história da morte é subvertido, e os restos orgânicos passam a ser incorporados aos sedimentos, preservando-se por milhões de anos. Trata-se de um sequestro da história biológica de um indivíduo, em direção ao ciclo das rochas.

Muitos podem imaginar que um fóssil é a matéria orgânica mineralizada, inerte e “desprovido de vida”. Porém, para os paleontólogos, ele se transforma em uma janela no tempo passado, no qual animais e plantas pretéritos realizam uma conexão com aqueles que encontramos no mundo atual. Descobrir um fóssil é uma experiência única, em que se pode vislumbrar mundos que não mais existem, vidas que não mais se repetirão, e que, num ato inimaginável, podemos ressuscitá-las e traduzir em cores, texturas e formas as existências do passado, possibilitando, assim, contar a história da vida no transcorrer da existência da Terra.

Uma pequena parte desta história escrita nas rochas e nos fósseis encontra-se em nosso estado. Apesar de as rochas mais antigas do Rio de Janeiro, datadas de mais de 2 bilhões de anos, não conterem fósseis, são muitos os registros da vida em depósitos com alguns milhões de anos, localizados tanto no interior quanto no litoral. Durante os eventos que resultaram na separação da América do Sul e África, há mais de 140 milhões de anos, desenvolveram-se depressões ao longo dos limites atuais entre estes dois grandes continentes, onde proliferavam em lagos e mares interiores, pequenos organismos que deram origem às importantes jazidas de óleo e gás que hoje encontramos nas bacias de Campos e de Santos. Neste caso, tamanho certamente não é documento! Ainda hoje, fósseis microscópicos representados por esporos, pólens, microcrustáceos e protozoários marinhos são recuperados das sondagens realizadas para a exploração petrolífera, possibilitando, assim, o entendimento da origem de recursos minerais tão importantes para a economia do Rio de Janeiro.

E que outros fósseis encontramos em nosso estado? Talvez a primeira ideia seja de que teríamos dinossauros. Não, não os temos. Porém, possuímos o primeiro grande registro de mamíferos no mundo, em rochas que datam logo após a extinção destes répteis. Trata-se de rochas tão importantes, que até mesmo um tempo geológico é a elas dedicado, o “Itaboraiense”, época em que viveram mamíferos já extintos na região do município de Itaboraí. E é exatamente lá, que se desenvolve, atualmente, um dos grandes programas educacionais em geociências de nosso País.

A Bacia de São José de Itaboraí – assim denominada por sua localização no bairro homônimo do município de Itaboraí, distante cerca de 30 quilômetros de Niterói – é uma localidade-ícone para a paleontologia mundial. Durante aproximadamente 50 anos, realizou-se a extração de calcário na localidade da Fazenda São José, e, durante as etapas de exploração mineral, foram recuperados centenas de fósseis de mamíferos, répteis, aves e moluscos. Um registro monumental da história da vida há 60 milhões de anos no território fluminense.

Inegavelmente, Itaboraí esteve presente na vida de gerações de paleontólogos formados em nossas universidades. A localidade, de fácil acesso, e com afloramentos de rochas que possibilitavam o entendimento dos eventos geológicos dos últimos milhões de anos, sempre representou um espaço aberto para aprendizagem e qualificação de novos geocientistas. Com a descoberta do pré-sal, estas rochas despertaram novo interesse científico na medida em que as mesmas podem ser consideradas como análogas das “rochas reservatório” do pré-sal.

No estado do Rio de Janeiro, temos o maior número de paleontólogos do País, trabalhando em diferentes áreas do conhecimento paleontológico – desde a aplicação desta ciência na prospecção de recursos petrolíferos, até sua utilização para o entendimento teórico dos grandes fenômenos de evolução e extinção da vida na Terra. Universidades, centros de pesquisa, empresas e museus concentram especialistas em diferentes temas, desde o estudo de fósseis manométricos, até os grandes mamíferos das eras interglaciais. Assim, com o apoio da FAPERJ, estabelecemos, há mais de uma década, o Instituto Virtual de Paleontologia (IVP), programa institucional da FAPERJ inicialmente coordenado por mim e atualmente um projeto de extensão da Uerj coordenado pelo professor Hermínio Ismael de Araújo Júnior, também da FGEL-Uerj. O referido programa congrega instituições de ensino e pesquisa neste desvendar da história da vida. O IVP tem sido uma ação colaborativa das instituições sediadas no estado, trabalhando em rede e possibilitando uma ampla difusão do conhecimento paleontológico. Palestras, exposições, participação em feiras de ciência, difusão por meio da imprensa e programas de treinamento e capacitação profissional são algumas das atividades.

Uma das principais ações do IVP encontra-se no âmbito do programa Jovens Talentos, da FAPERJ, e no apoio à revitalização do Parque Paleontológico de Itaboraí. Atividades importantes, que possibilitaram uma ampla popularização da paleontologia, estimulando, assim, a formação de novos profissionais.

O Parque Paleontológico de Itaboraí é, inegavelmente, uma das experiências educacionais mais importantes já feitas em nosso estado nos últimos anos – com uma conjunção das atividades de pesquisa científica e a transformação da realidade econômica local. Após o encerramento da atividade mineira na região, ocorreu um rápido declínio da empregabilidade na localidade de São José, próxima ao local, levando a inúmeros problemas sociais. A criação do parque na localidade da antiga pedreira de extração de calcário, por meio de um decreto municipal da prefeitura de Itaboraí, inseriu-se num contexto, no qual a pesquisa científica integrava-se com a comunidade, viabilizando ações que permitam transformar os aspectos sociais e econômicos locais. A parceria realizada entre a FAPERJ, instituições universitárias, prefeitura municipal de Itaboraí e a própria comunidade, aponta para uma nova forma de difundir e popularizar a informação científica, possibilitando, tanto o resgate da história da Terra (numa perspectiva que se abre a partir do conhecimento gerado no estado do Rio), quanto à participação da população, que pode ver modificada suas condições sociais por meio do turismo científico. Uma ação, enfim, transformadora da realidade social e educacional do estado por meio da paleontologia, auxiliando, assim, na criação de novos rumos para a solução dos problemas atuais.



Pesquisadora visitante do programa de pós-graduação em Análise de Bacias e Faixas Móveis (PPGABFM) da Faculdade de Geologia (FGEL), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maria Antonieta é professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Uerj


Autora: Maria Antonieta da Conceição Rodrigues
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data de Publicação: 08/12/2017
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3507.2.9









quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Os mistérios revelados pelos ovos de pterossauros

A descoberta de um ninho com fósseis de centenas de ovos e alguns embriões de pterossauros – os répteis voadores da pré-história –, na região da cidade de Hami, no noroeste da China, ajuda a revelar detalhes ainda desconhecidos pela ciência sobre a vida desses vertebrados, como a sua reprodução e o seu desenvolvimento. O trabalho de pesquisa, que conta com a participação do paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ), é realizado em parceria com diversas instituições internacionais e nacionais e resultou na publicação de um artigo na renomada revista científica Science, divulgado nesta quinta-feira, 30 de novembro, com o título Egg acumulation with 3D embryos provides insight into the life history of a pterosaur.




Reconstituição de macho, fêmea e filhotes do
pterossauro Hamipterus tianshanensis, em vida
(Paleoarte: Chuang Zhao)


“Até então, só se tinha registro científico de quatro descobertas de fósseis de ovos de pterossauro no mundo, dois na Argentina e dois na China”, explica Kellner, que desde 2004 viaja anualmente a China para participar de pesquisas paleontológicas. Os ovos encontrados são da espécie de pterossauro Hamipterus tianshanensis, que viveu há 120 milhões de anos, durante o período Cretáceo Inferior. “Até agora, confirmamos 215 ovos, ao analisarmos um bloco de rocha de 3,2 metros quadrados. O número total estimado nesse bloco é de 300 ovos. Nunca antes foram encontrados tantos ovos juntos em uma área tão pequena”, completa o paleontólogo, que é Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ,.

A espécie Hamipterus tianshanensis foi descrita pela primeira vez por Kellner e colegas chineses em 2014, em artigo publicado na capa na revista americana Current Biology, uma das principais publicações internacionais na área de ciências biológicas. Exímios voadores, esses animais tinham uma envergadura de 1,5 a 3,5 metros, considerando as extremidades entre uma asa e outra, e dentes bem desenvolvidos. Ele conta que o local da descoberta é uma região desértica nos arredores na cidade de Hami, localizada na província de Xinjiang.



Detalhe de esqueleto de um embrião encontrado dentro
de um ovo de pterossauro
(Foto: Alexander Kellner)



“Descobrimos, ao analisarmos uma seção de rocha de 2,2 metros, oito níveis diferentes com concentração de ossos de pterossauros, sendo que em quatro deles tinha ovos. O fato de existir essas camadas cumulativas significava que os animais deviam retornar ao mesmo local para ocasionalmente colocar os seus ovos. As fêmeas faziam desse lugar uma colônia de nidificação para a postura sazonal dos seus ovos”, detalha.

Também foi possível entender porque tantos ovos foram preservados no mesmo local. “Com base em dados geológicos, verificamos que chuvas torrenciais faziam com que os rios transbordassem e reunissem em um só lugar, com a força da água, os ovos postos naquela área, que horas depois eram soterrados juntos pelas intempéries. Então, todos os ovos se concentraram em um espaço comparativamente pequeno, como o que acabamos de estudar”, explica Kellner.

Outro fator que chamou a atenção é a delicadeza dos ovos de pterossauro. “Os ovos de pterossauro costumam ser muito frágeis, porque têm casca mole, já que a parte externa da casca mais dura, mineralizada, de carbonato de cálcio, é fina, e a parte interna, membranosa. Assim, eles deformam mas não quebram, como os ovos de dinossauro, por exemplo, que são muito mais resistentes e, por isso, comuns no registro fossilífero. Raridade são os ovos de pterossauro", detalha.

Junto com a descoberta dos ovos, veio mais uma boa surpresa para os pesquisadores. Foram encontrados embriões de pterossauros em um raro estado de boa preservação – em dimensões tridimensionais (3D). “Encontramos restos de 16 embriões de Hamipterus tianshanensis. Eles não estão completos, mas estão preservados em 3D, o que permitiu um estudo mais aprofundado. Pudemos fazer análise de tomografia computadorizada para ver o interior do ovo de alguns embriões e estudar como se deu o desenvolvimento deles”, destaca. “Esse é um grande diferencial dessa descoberta.”


Os paleontólogos Alexander Kellner e Xiaolin Wang no
momento da descoberta na região de Hami, na China
(Foto: Alexander Kellner)


A partir dessas análises, a equipe percebeu uma característica curiosa. Os ossos vinculados ao voo (o úmero) era pouco desenvolvido nos embriões de pterossauros prestes a nascer. Por outro lado, o osso fêmur, das pernas do animal, eram bem formados. “Chegamos à conclusão que esse filhote podia caminhar, mas não voar, logo depois que nascia. Isso indica que o cuidado parental, que podia ser paterno ou materno, era indispensável para a sobrevivência e o desenvolvimento dessa espécie de réptil voador. Essa é uma descoberta interessante, porque antes se acreditava que eles eram como os demais répteis que conhecemos hoje, como o jacaré, que já tem maior independência depois que nasce. Agora sabemos que eles não podiam voar logo depois do nascimento, pelo menos na espécie Hamipterus tianshanensis, graças ao estudo dos fósseis desses embriões”, conclui o pesquisador.

A pesquisa também foi contemplada, no Brasil, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e foi financiada, em grande medida, na China, pelo Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados (IVPP), localizado em Pequim, e pelo Museu de Hami. “Hoje, vivemos em uma situação difícil para a ciência no Brasil. É preciso manter um financiamento contínuo das pesquisas para podermos produzir, e até para podermos estabelecer parcerias internacionais. A China, por exemplo, tem um número considerável de artigos na área de paleontologia publicados em revistas de peso, como a Nature e a Science, pois conta com fomento contínuo”, ponderou.

Além de Kellner, assinam o artigo os pesquisadores brasileiros Taissa Rodriges, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes); e Juliana Sayão e Renan Bantim, ambos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Também são autores os pesquisadores chineses Xiaolin Wang, Shunxing Jiang, Xin Cheng, Qiang Wang, He Chen, Ning Li, Jialiang Zhang, Xi Meng, Xinjun Zhang, Rui Qiu e Zhonghe Zhou – todos do IVPP –; e 
Yingxia Ma e Yahefujiang Paidoula, do Museu de Hami.


Autora: Débora Motta
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data de Publicação: 30/11/2017
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3505.2.8