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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Estudo mostra como as secas recorrentes afetam a capacidade de recuperação das florestas

Os efeitos das secas - cada vez mais frequentes e severas - na produtividade da Floresta Amazônica, são tema de artigo de acaba de ser publicado na edição especial acerca dos impactos dos extremos climáticos sobre o ciclo do carbono da prestigiosa revista Global Biogeochemical Cycles (https://doi.org/10.1029/2021GB007004), que alcançou o fator de impacto de 5.7. Primeiro autor do trabalho, intitulado “Débitos de resiliência à seca apontam para o declínio da produtividade da Floresta Amazônica”, o biólogo Fausto Machado-Silva, pesquisador no Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e no Laboratório de Ecossistemas e Mudanças Globais (LEMG), associado ao programa de Geociências – Geoquímica Ambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que o interesse pelo tema é grande porque embora os distúrbios da seca sejam amplamente quantificados, poucos estudos abordam os impactos dos efeitos pós-seca.



“Neste trabalho mostramos que as florestas em recuperação pós-seca apresentam níveis de produtividade mais baixos do que os sistemas não perturbados. As dívidas de recuperação variam não só com o grau de intensidade da seca, mas também com o tempo de recuperação da floresta após cada evento”, afirma o pesquisador, que contou com bolsa de pós-doutorado da FAPERJ em colaboração com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Outras fontes de financiamento do artigo vêm do Instituto Serrapilheira, Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Portugal) e o Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Portugal).

Diante das projeções que indicam como consequência do aquecimento global o aumento da intensidade e da frequência das secas em todo o mundo, a recuperação dos danos pode promover uma redução na absorção de carbono pelas florestas. Segundo Machado-Silva, a produtividade de uma floresta é diretamente proporcional à sua capacidade de crescimento e de regeneração. Como as secas mais intensas demandam um período de recuperação mais longo, a absorção de gás carbônico (CO2) da atmosfera pelas plantas para transformá-lo em oxigênio também será mais lenta e dependerá da capacidade de resiliência das diversas áreas da floresta.

Fausto Machado-Silva explica: se a produtividade da floresta diminui, ela perde capacidade de captar o CO2 da atmosfera

O trabalho, orientado pela professora do Departamento de Meteorologia da UFRJ, Renata Libonati, que conta com bolsa de Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, para o desenvolvimento de suas pesquisas, analisou as três maiores secas que incidiram na Amazônia nas últimas duas décadas, ocorridas nos anos de 2005, 2010 e 2015. A proximidade das datas evidencia que esse evento climático extremo, que antes ocorria de forma mais espaçada, agora vem se repetindo a cada cinco anos. O modelo de experimento natural mostrou que o prazo de recuperação da floresta variou de 12 meses para três anos, devido à intensidade maior das secas e do efeito acumulado das secas recorrentes. “Se houver uma sobreposição entre distúrbios de seca e débitos de resiliência, há grande possibilidade de perda de produtividade da Floresta Amazônica, que passará a absorver menos CO2”, afirma o pesquisador.

Segundo o biólogo, o artigo reforça o termo resiliência, pois como a floresta vem sendo impactada cada vez mais por vários fatores, o processo de débito de recuperação fica cada vez maior. “Se a produtividade da floresta diminui, ela perde capacidade de captar o CO2 da atmosfera. Por isso, as projeções futuras indicam que, neste ritmo, a floresta pode deixar realmente de ser um sumidouro de CO2 e passar a ser produtora”, esclarece Machado-Silva. Os resultados do estudo revelam que os ecossistemas em recuperação mostram o sequestro de carbono 13% abaixo dos valores de referência, com base no estado anterior à seca ou em áreas não perturbadas pela seca.

A publicação do resultado da pesquisa, iniciada em 2018, foi mais demorada que o esperado. Casado com a também biogeoquímica Roberta Peixoto, coautora e colega de laboratório no Lasa/UFRJ e no LEMG/UFF, Fausto compartilha os cuidados parentais das filhas Manuela, de quatro anos, e Betina, que completará dois anos em novembro próximo e nasceu, portanto, durante a pesquisa e ficaram sem aulas presenciais devido à pandemia de Covid-19. “Enquanto as mulheres após o parto têm uma pequena extensão de mais quatro meses da bolsa, a Ciência não considera as necessidades dos pais e não concede licença paternidade”, queixa-se o pesquisador.






Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 14/10/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4334.2.5

quinta-feira, 18 de março de 2021

Estudo comprova relação direta da boa qualidade da água com a existência de florestas



Estudo comprova relação direta da boa qualidade da água com a existência de florestas

As florestas são o lar de cerca de 90% de toda vida terrestre e garantem uma gama de serviços ambientais essenciais para sobrevivência humana, principalmente a disponibilidade hídrica

Dias Mundiais da Floresta (21) e da Água (22) reforçam a importância da conservação do bioma para segurança hídrica

Por Gabriel Santos

Plantar floresta para colher água. Não é por acaso que a ONU (Organização das Nações Unidas) elencou o Dia Mundial da Floresta (21), e em seguida o da Água (22). As florestas são o lar de cerca de 90% de toda vida terrestre e garantem uma gama de serviços ambientais essenciais para sobrevivência humana, principalmente a disponibilidade hídrica. Sem floresta, não há água.

No Brasil, a Mata Atlântica concentra 72% da população, 17 estados, 3.429 municípios, três dos maiores centros urbanos do continente sul americano e nove das 12 bacias hidrográficas do país. Traduzido em valores, isso significa 70% do PIB nacional. Devido a essa magnitude, o bioma precisa de muita atenção, pois ele está reduzido a apenas 12,4% da cobertura original, segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica, o que torna urgente mais ações – da iniciativa pública, privada e sociedade organizada – que visem a sua conservação e a gestão eficiente dos recursos naturais provenientes da floresta, e a manutenção dos mananciais.

Crises hídricas como as vivenciadas em 2014 e 2018, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, despertam o questionamento do porquê falta água no país que concentra 12% de toda água doce do planeta. Os motivos são complexos, passando por questões ambientais, econômicas e de gestão dos recursos hídricos e do saneamento básico. Porém, também são esses cenários que reforçam a busca pela resposta na natureza.

O principal papel das florestas na manutenção dos ciclos hidrológicos é com a produção de chuvas, abastecimento dos lençóis freáticos (rios subterrâneos), na retenção da umidade do solo, e proteção dos rios e mananciais de erosão e assoreamento. O estudo “Retrato da Qualidade da Água nas Bacias da Mata Atlântica” realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica em 230 rios, córregos e lagos de 102 municípios dos 17 estados que o bioma compreende, mostrou que há uma relação direta da boa qualidade da água com a existência da floresta. Todos os pontos de coleta com qualidade boa da água estão em áreas onde a Mata Atlântica está conservada.

O contrário também foi notado quando nascentes, margens de rios e áreas de manancial estão desprotegidas. Dos rios das nove bacias hidrográficas da Mata Atlântica (localizadas nos 17 estados de abrangência do bioma), em apenas 6,5% a água é considerada boa e própria para consumo, sendo que a qualidade também está diretamente ligada aos diferentes modos de utilização do solo, da floresta, com as variações do clima e com os diferentes usos da água, como o abastecimento humano, irrigação, pesca, lazer e turismo. Esse número revela que para aproveitar o imenso potencial hídrico das bacias da Mata Atlântica, a saúde dos rios pede não só atenção, mas soluções.

No mundo, há bons exemplos de investimentos na proteção de recursos hídricos, como Nova Iorque, que há dez anos protegeu suas maiores bacias hidrográficas e hoje economiza milhões dólares em tratamento de água. No Brasil, há modelos bem-sucedidos na sociedade civil organizada, e também na iniciativa privada. Dentre os exemplos para conservar os recursos hídricos com o manejo adequado da floresta, há as estratégias de conservação por meio de Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável. Uma delas é o Legado das Águas, maior reserva privada de Mata Atlântica do país.

Localizada no Vale do Ribeira no Estado de São Paulo, a área foi adquirida a partir da década de 1940 e conservada desde então pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA). Há oito anos, a Reserva se tornou uma empresa da Reservas Votorantim que combina conservação ambiental com a utilização de recursos naturais de forma sustentável, incluindo o desenvolvimento das comunidades da região a partir de negócios inclusivos e com a floresta em pé, como o ecoturismo, a produção e comercialização de plantas nativas da Mata Atlântica no viveiro e compensação ambiental por meio de reserva legal.

Com 31 mil hectares de floresta nativa (extensão aproximada à cidade de Curitiba – PR), a floresta do Legado das Águas é um refúgio para boa parte da extensão do Rio Juquiá, um dos principais afluentes da bacia hidrográfica Ribeira de Iguape e Litoral Sul. Cerca de 75% da cobertura vegetal está em alto grau de conservação, o que significa muita floresta primária de boa qualidade para proteger o rio, que abastece casas, fornece alimento e outras atividades produtivas para boa parte da população do Vale do Ribeira.

David Canassa, diretor da Reservas Votorantim, explica que as atividades de ecoturismo do Legado das Águas ilustram o bom uso do potencial hídrico e a conservação da floresta. “Iniciamos o ecoturismo na Reserva em meados de 2017 e, atualmente, é um dos principais produtos do nosso portfólio. Conseguimos aliar muito bem o respeito com a natureza, com a floresta e os negócios. Chegamos a receber mais de 300 turistas ao mês, e a demanda é crescente. Com a boa gestão das operações das atividades, o ecoturismo é um negócio promissor e um modelo que pode ser aplicado em outras áreas privadas. É importante que essas alternativas sejam conhecidas, que os proprietários de terra saibam que podem fazer boas escolhas, como investir na própria propriedade, ou em áreas como o Legado das Águas”, explica Canassa.

Canassa também diz que o ecoturismo na Reserva cumpre um importante papel na disseminação de informação e conhecimento sobre a Mata Atlântica. “A gente só protege o que a gente conhece. Por isso, um dos nossos objetivos com o ecoturismo também é reconectar as pessoas com esse bioma, gerando conhecimento, bem-estar e qualidade de vida”, complementa.

Sobre a geração de conhecimento, o diretor ainda diz que uma das frentes de atuação do Legado das Águas é a pesquisa científica. “Já que a floresta é essencial para a disponibilidade hídrica, para entender o ecossistema desse bioma, investimos em diferentes frentes de pesquisa, de fauna à flora, algumas inéditas e outras com descobertas únicas. Mas o objetivo não é reter esse conhecimento, e sim compartilhá-lo para que sirva de base ou apoio de ações conservacionistas e de educação ambiental. Em oito anos de existência do Legado das Águas, impactamos mais de 15 mil pessoas com conhecimento sobre a Mata Atlântica. Acreditamos que é desta forma e com ações complementares e coletivas que valorizaremos a Mata Atlântica. Os Dias Mundiais da Floresta e da Água são momentos para renovar o pacto que todos os setores da sociedade devem ter com o uso consciente e sustentável dos recursos naturais. É momento de pensar qual é o Legado que queremos construir”, finaliza Canassa.

Nota: as informações sobre o território, população, remanescente e bacias foram extraídas de estudos da Fundação SOS Mata Atlântica.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/03/2021



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 18/03/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/03/18/estudo-comprova-relacao-direta-da-boa-qualidade-da-agua-com-a-existencia-de-florestas/

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Florestas 'artificiais' podem causar mais danos que benefícios, dizem estudos




O esquema de subsídios do Chile falhou em aumentar estoques de carbono e conter a perda de biodiversidade, diz estudo — Foto: Robert Heilmayr/BBC


Em vez de beneficiar o meio ambiente, o plantio em larga escala de árvores pode fazer justamente o contrário, segundo dois novos estudos publicados recentemente.


Uma das pesquisas apontou que os incentivos financeiros para plantar árvores podem ter efeitos negativos ao reduzir a biodiversidade e geram pouco impacto nas emissões de carbono.


Um outro estudo descobriu que a quantidade de carbono que as novas florestas podem absorver pode ser superestimada.


A mensagem principal de ambos os trabalhos é de que plantar árvores não é uma solução simples para as mudanças climáticas.



Solução de baixo custo e alto impacto?



Nos últimos anos, a ideia de plantar árvores como uma solução de baixo custo e alto impacto para combater as mudanças climáticas realmente ganhou força.


Estudos anteriores indicavam que as árvores têm um enorme potencial para absorver e armazenar carbono, e muitos países estabeleceram campanhas de plantio como um elemento-chave de seus planos.


No Reino Unido, por exemplo, as promessas dos partidos políticos de plantar um número cada vez maior de árvores foram parte da campanha para as eleições gerais do ano passado.


Nos Estados Unidos, até o presidente Donald Trump participou da campanha Trillion Trees — projeto que pretende plantar 1 trilhão de árvores.


Outra grande iniciativa de plantio de árvores é chamada de Desafio de Bonn.


Nele, os países estão sendo instados a restaurar 350 milhões de hectares de terras degradadas e desmatadas até 2030. Até o momento, cerca de 40 nações aderiram à ideia.


Mas os cientistas pedem cautela na corrida para plantar novas florestas.


Eles apontam para o fato de que, no Desafio de Bonn, quase 80% dos compromissos assumidos até o momento envolvem o plantio de monoculturas ou uma mistura limitada de árvores que produzem produtos específicos, como frutas ou borracha.



Incentivos financeiros



Um estudo analisou os incentivos financeiros dados aos proprietários privados para plantar árvores. Esses pagamentos são vistos como um elemento-chave para aumentar significativamente o número de árvores.


A pesquisa analisou o exemplo do Chile, onde um decreto subsidiando o plantio de árvores ficou em vigor de 1974 a 2012, e foi amplamente visto como uma política de reflorestamento de influência global.


A lei subsidiou 75% dos custos do plantio de novas florestas.


Embora a legislação não se referisse às florestas existentes, a aplicação negligente e as limitações orçamentárias fizeram com que alguns proprietários de terras simplesmente substituíssem as florestas nativas por novas plantações de árvores mais lucrativas.


O estudo constatou que o esquema de subsídios expandiu a área coberta por árvores, mas diminuiu a área de floresta nativa.


Os autores apontam que, como as florestas nativas do Chile são ricas em biodiversidade e armazenam grandes quantidades de carbono, o esquema de subsídios fracassou em aumentar os estoques de carbono e conter a perda de biodiversidade.


"Se as políticas para incentivar as plantações de árvores são mal projetadas ou mal aplicadas, há um alto risco de não apenas desperdiçar dinheiro público, mas também liberar mais carbono e perder a biodiversidade", disse o coautor da pesquisa Eric Lambin, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.


"Esse é exatamente o oposto do objetivo dessas políticas."



Absorção de carbono



Um segundo estudo se propôs a examinar quanto carbono uma floresta recém-plantada seria capaz de absorver da atmosfera.


Até agora, muitos cientistas calcularam a quantidade de carbono que as árvores podem retirar do ar usando uma proporção fixa.


Suspeitando que essa proporção depende das condições locais, os pesquisadores analisaram o norte da China, onde houve um plantio intensivo de árvores pelo governo por causa das mudanças climáticas, mas também em um esforço para reduzir a poeira do deserto de Gobi.


Os cientistas analisaram 11 mil amostras de solo retiradas de áreas florestadas, e descobriram que, em solos pobres em carbono, a adição de novas árvores aumentou a densidade do carbono orgânico.


Mas, onde os solos já eram ricos em carbono, a adição de novas árvores diminuiu essa densidade.


Os autores afirmam que suposições anteriores sobre quanto carbono pode ser absorvido com o plantio de novas árvores provavelmente são superestimadas.


"Esperamos que as pessoas entendam que o reflorestamento envolve muitos detalhes técnicos e equilíbrios de diferentes partes, e não vai resolver todos os nossos problemas climáticos", disse Anping Chen, da Universidade Estadual do Colorado, nos Estados Unidos, e principal autor do estudo.






Autor: BBC news Brasil
Fonte: BBC news Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC news Brasil
Data: 27/06/2020
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2020/06/27/florestas-artificiais-podem-causar-mais-danos-que-beneficios-dizem-estudos.ghtml

terça-feira, 7 de maio de 2019

Estudo indica que a caça compromete a capacidade de armazenamento de carbono das florestas

A perda de animais, muitas vezes devido à caça ilegal ou não regulamentada, tem consequências para a capacidade de armazenamento de carbono das florestas, mas esta ligação é raramente mencionada nas discussões sobre políticas climáticas de alto nível, segundo um novo estudo da Universidade de Lund.

Lund University Centre for Sustainability Studies*


Onça-pintada. Foto: EBC

Muitas espécies de animais selvagens desempenham um papel fundamental na dispersão das sementes de árvores tropicais, particularmente espécies de árvores de sementes grandes, que em média têm uma densidade de madeira ligeiramente maior do que as árvores de sementes pequenas. A perda de vida selvagem, portanto, afeta a sobrevivência dessas espécies de árvores – por sua vez, afetando potencialmente a capacidade de armazenamento de carbono das florestas tropicais.

A fauna florestal também está envolvida em muitos outros processos ecológicos, incluindo polinização, germinação, regeneração e crescimento de plantas e ciclos biogeoquímicos. Estudos empíricos nos trópicos mostraram que a defaunação (isto é, a extinção da vida selvagem induzida pelo homem) pode ter efeitos em cascata na estrutura e dinâmica da floresta.

A sustentabilidade da caça é questionável em muitos locais e, particularmente, espécies maiores são rapidamente exauridas quando a caça abastece os mercados urbanos com carne de animais silvestres.

O estudo avaliou em que medida a ligação entre defaunação e capacidade de armazenamento de carbono foi abordada na governança florestal contemporânea, com foco em um mecanismo específico, denominado Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal (REDD +).

Os resultados mostram que, embora os documentos de políticas de alto nível reconheçam a importância da biodiversidade, e os planos de projetos subnacionais mencionam a fauna e a caça de forma mais explícita, a caça como um fator de degradação florestal é apenas raramente reconhecida. Além disso, a ligação entre a fauna e a função do ecossistema florestal não foi mencionada em documentos internacionais ou nacionais.

Em vez de uma supervisão, isso pode representar uma escolha política deliberada para evitar adicionar mais complexidade às negociações e implementação de REDD +. Isso pode ser atribuído ao desejo de evitar os custos de transação de assumir esses “complementos” adicionais em um processo de negociação que já foi complexo e demorado.

“Embora a biodiversidade tenha passado de uma questão secundária para uma característica inerente na última década, mostramos que as funções ecológicas da biodiversidade ainda são mencionadas apenas superficialmente”, diz Torsten Krause, professor sênior associado do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Universidade de Lund, na Suécia. .

“No nível subnacional, a fauna e a caça eram muito mais prováveis de serem mencionadas nos documentos do projeto, mas ainda não encontramos nenhuma menção explícita de uma ligação entre a defaunação e a capacidade de armazenamento de carbono”, acrescenta.

O estudo demonstra que a defaunação é praticamente negligenciada nas negociações climáticas internacionais e na governança florestal.

“A suposição de que a cobertura florestal e a proteção do habitat é igual à conservação efetiva da biodiversidade é enganosa e deve ser questionada”, diz Martin Reinhardt Nielsen, professor associado do Departamento de Economia de Alimentos e Recursos da Universidade de Copenhague, Dinamarca.

“O fato de a defaunação e particularmente a perda de grandes dispersores de sementes por meio de caça insustentável ter repercussões duradouras em todo o ecossistema florestal deve ser reconhecida e considerada amplamente na governança florestal, ou nos arriscamos a perder a floresta para as árvores”, conclui.


Referência:

Not Seeing the Forest for the Trees: The Oversight of Defaunation in REDD+ and Global Forest Governance
Torsten Krause and Martin Reinhardt Nielsen
Forests 2019, 10(4), 344; https://doi.org/10.3390/f10040344



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/05/2019




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 07/05/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/05/07/estudo-indica-que-a-caca-compromete-a-capacidade-de-armazenamento-de-carbono-das-florestas/

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Florestas ricas em espécies armazenam duas vezes mais carbono que monoculturas

O nível total de sequestro de carbono e a conseqüente mitigação do aquecimento global só poderão ser alcançados com uma combinação de espécies.





Universidade de Zurique*

Em 2009, o projeto BEF-China iniciou um experimento de biodiversidade em uma floresta, com a colaboração de instituições da China, Alemanha e Suíça. O amplo projeto investigou quão importante é a diversidade de espécies de árvores para o bom funcionamento dos ecossistemas florestais. Foram plantados grupos de árvores com diferentes números de espécies, desde monoculturas até terrenos altamente diversificados, com 16 tipos diferentes de árvores em uma área de 670 metros quadrados.

Após oito anos, tais terrenos armazenavam uma média de 32 toneladas de carbono por hectare em biomassa acima do solo. Em contrapartida, as monoculturas acumularam menos da metade disso: uma média de apenas 12 toneladas de carbono por hectare. Durante a fotossíntese, as plantas absorvem dióxido de carbono da atmosfera e convertem o carbono em biomassa. Quando uma floresta armazena mais carbono, isso auxilia na redução dos gases de efeito estufa e ao mesmo tempo também indica uma alta produtividade florestal.
Florestas biodiversificadas são mais produtivas

O fato de a biodiversidade aumentar a produtividade já havia sido anteriormente demonstrado através de experimentos em prados na Europa e nos Estados Unidos. Mas como partiram do principio de que todas as espécies de árvores ocupam nichos ecológicos semelhantes, concluíram que a biodiversidade florestal traria um efeito mínimo. Evidentemente, no entanto, esta suposição estava errada. “No experimento de biodiversidade florestal, a biomassa aumentou tão rapidamente quanto nas pradarias. Conseqüentemente, mesmo após apenas quatro anos, se via claras diferenças entre as monoculturas e as florestas ricas em espécies,” explica o Professor Helge Bruelheide da Universidade Martinho Lutero de Halle-Wittenberg, co-diretor do Centro Alemão para Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv), o qual supervisionou os experimentos de campo junto com o Instituto de Botânica da Academia Chinesa de Ciências. Tais diferenças continuaram a se intensificar nos quatro anos seguintes.

“Estas descobertas têm grande relevância ecológica e econômica,” afirma o Professor Bernhard Schmid, da Universidade de Zurique, autor sênior na equipe de redação, composta de 60 pessoas, da presente publicação na Science. Um estudo anterior já havia encontrado uma correlação positiva entre a biodiversidade e o armazenamento de carbono. Contudo, ele foi baseado apenas na comparação entre a variação de diversidade de espécies em terrenos naturais. “Portanto, era impossível concluir se a maior biodiversidade era a causa da maior produtividade. Mas agora nós chegamos à mesma conclusão com um experimento sob condições controladas: uma floresta com um grande número de espécies de árvores é mais produtiva que uma monocultura,” acrescenta o Professor Dr. Keping Ma, da Academia Chinesa de Ciências e co-gestor do projeto.
Maior produtividade, melhor proteção climática

Em todo o mundo, há planos para grandes programas de reflorestamento, com o objetivo de proteger o clima através do plantio de novas florestas. Somente na China, entre 2010 e 2015, foram plantadas anualmente 1.5 milhão de hectares de novas florestas, ainda que a maior parte constituída de monoculturas de rápido crescimento. “Nosso novo estudo mostra que as florestas não são todas iguais no quesito proteção climática: as monoculturas não fornecem nem metade dos serviços ambientais desejados. O nível total de sequestro de carbono e a conseqüente mitigação do aquecimento global só poderão ser alcançados com uma combinação de espécies.

Além disso, florestas ricas em espécies também contribuem para proteger a ameaçada biodiversidade do planeta,” explica Bernhard Schmid. “Infelizmente, o conceito errôneo de que produtividade e biodiversidade se excluem mutuamente ainda é muito difundido. Mas o oposto é verdadeiro.” As florestas ricas em espécies também são menos vulneráveis à doenças ou fenômenos meteorológicos extremos, que estão se tornando cada vez mais freqüentes devido à mudança climática.

Se os efeitos observados no experimento forem extrapolados para as florestas existentes no mundo, pode-se concluir que uma redução de 10% das espécies de árvores levaria à perdas de produção mundiais no valor de 20 bilhões de dólares, por ano. Tal resultado mostra que, de acordo com os pesquisadores, o reflorestamento com uma combinação de diferentes espécies é economicamente vantajoso.


Referência:

Yuanyuan Huang et al.: Impacts of species richness on productivity in a large-scale subtropical forest experiment, Science, 5 Oktober 2018. DOI: 10.1126/science.aat6405
http://dx.doi.org/10.1126/science.aat6405



* Tradução de Ivy do Carmo, Magma Translation (magmatranslation.com)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/10/2018






Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 11/10/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/10/11/florestas-ricas-em-especies-armazenam-duas-vezes-mais-carbono-que-monoculturas/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Impactos humanos em florestas e pastagens são maiores e mais antigos do que se supunha anteriormente



Pastagem. Foto: Embrapa



Alpen-Adria-Universität*

A utilização humana de biomassa reduz os estoques globais de carbono na vegetação em 50%, o que implica que emissões maciças de CO2 para a atmosfera ocorreram ao longo dos últimos séculos e milênios. A contribuição do manejo florestal e pecuária nas pastagens naturais para as perdas globais de carbono é de uma magnitude similar à do desmatamento. Atualmente, esses efeitos são subestimados nos modelos globais de carbono existentes e nas avaliações das emissões de gases de efeito estufa (GEE) da produção terrestre. Sem uma análise completa dos efeitos da gestão da terra, as previsões climáticas globais e os cálculos dos efeitos de GEE das futuras políticas de bioenergia são propensos a erros, comprometendo seriamente a avaliação robusta de medidas que ajudariam a atingir o objetivo de 1,5 ° C do Acordo de Paris.

Os estoques de carbono na vegetação têm um papel crucial no sistema climático global. No entanto, as características essenciais da vegetação receberam pouca atenção científica até o momento. Embora a pesquisa tenha feito progressos significativos nos últimos anos em relação à quantificação dos efeitos do desmatamento, os efeitos dos usos da terra que não estão associados à mudança da cobertura terrestre foram amplamente ignorados.

Uma equipe de pesquisa internacional liderada por Karl-Heinz Erb publicou ontem um artigo na Nature, visando fechar essa lacuna de conhecimento. Os cálculos baseados nos dados atuais sobre o estado de arte já haviam revelado que os ecossistemas terrestres globais estão atualmente armazenando cerca de 450 bilhões de toneladas de carbono. “No entanto, em um mundo hipotético sem uso da terra, a vegetação armazenaria até 916 bilhões toneladas de carbono ”,

Aproximadamente 53 a 58 por cento da diferença de cerca de 466 bilhões de toneladas de carbono podem ser atribuídas ao desmatamento de florestas e florestas, principalmente para fins agrícolas. No entanto, os usos da terra que não resultam em mudanças na cobertura da terra, por exemplo, manejo florestal ou pastagem de pastagens naturais, também têm um enorme impacto sobre a quantidade de carbono armazenado na vegetação globalmente. Sua contribuição é estimada em 42 a 47 por cento, dos quais dois podem ser atribuídos ao manejo florestal e o terceiro restante ao pasto.

Erb resume a situação: “Até agora, esses efeitos foram severamente subestimados e, portanto, receberam pouca consideração em estudos e modelos globais. Nossos resultados mostram que as consequências do manejo florestal e do pasto são muito maiores do que anteriormente assumido. As florestas controladas armazenam cerca de um terço menos de carbono do que as florestas intocadas e intocadas. Este efeito não é apenas local, mas pode ser observado quase em todo o mundo. O que isso também nos diz é que, embora a suspensão do desmatamento seja absolutamente essencial, isso não seria suficiente para mitigar as mudanças climáticas. Além de proteger as áreas florestais, a proteção das funções florestais, incluindo os estoques de carbono, precisa ser movida para o foco ”.

Contextualizar essa descoberta com a compreensão atual do ciclo global do carbono sugere que esse efeito maciço é muito maior que antes da hipótese. Uma fração considerável da redução do estoque de biomassa ocorreu antes de 1800, ou seja, antes do início da industrialização e das emissões de combustíveis fossilizados. Isso é relevante porque ilustra claramente que se transformar em biomassa, como parte importante do suprimento de energia da humanidade, exerceria pressões significativas sobre a vegetação e seu equilíbrio de carbono. A maioria dos cenários destinados a atingir alvos de aquecimento global baixos, como os objetivos de 1.5-2.0°C codificados no Acordo de Paris, dependem fortemente de pressupostos sobre energia de biomassa, muitas vezes associados a tecnologias de captura e sequestro de carbono (BECCS).

O novo estudo revela um conflito alvo decisivo: por um lado, a biomassa como matéria-prima e como componente do fornecimento de energia é implementada com o objetivo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Por outro lado, o aumento da utilização da biomassa pode resultar no esgotamento dos estoques de carbono e, portanto, nas elevadas emissões de gases de efeito estufa das áreas de manejo da terra. “Nossos resultados mostram claramente que não é legítimo assumir que o uso de biomassa para a energia é neutro para o clima se não contribui para o desmatamento. Enquanto os modelos do futuro ciclo do carbono não refletem explicitamente e plenamente todos os efeitos do manejo da terra sobre os estoques de biomassa, eles não serão capazes de avaliar com precisão os efeitos do ciclo do carbono da implementação em larga escala de políticas de bioenergia.

O estudo, cofinanciado por vários projetos, incluindo o Conselho Europeu de Investigação e a Comissão Europeia no âmbito do programa H2020, também aponta para graves lacunas de conhecimento e incertezas de dados. Essas incertezas têm uma relevância direta para o desenvolvimento de estratégias destinadas a lutar contra as mudanças climáticas: no momento, a confiabilidade e a robustez dos dados permitem uma verificação do aumento de estoque de biomassa, por exemplo, devido a programas de florestação, apenas na zona climática temperada . Nesta zona, no entanto, os efeitos potencialmente viáveis são modestos. Nas florestas tropicais, em contraste, os potenciais são muito maiores, mas enormes incertezas dificultam a verificação.

Referência:


Erb, K.-H., Kastner, T., Plutzar, C., Bais, A.L.S., Carvalhais, N., Fetzel, T., Gingrich, S., Haberl, H., Lauk, C., Niedertscheider, M., Pongratz, J., Thurner, M., Luyssaert, S., 2017. Unexpectedly large impact of forest management and grazing on global vegetation biomass. Nature. doi:10.1038/nature25138



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/01/2018




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 04/01/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/01/04/impactos-humanos-em-florestas-e-pastagens-sao-maiores-e-mais-antigos-do-que-se-supunha-anteriormente/