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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Pesquisas integradas na Uerj monitoram população e hábitos de mamíferos da Mata Atlântica

Bioma que já ocupou mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados em 17 estados brasileiros, a Mata Atlântica tem hoje menos de 30% de sua área original restante. Debruçando-se principalmente ao longo da costa do País, é um dos biomas que mais sofre pressão devido à proximidade com os grandes centros urbanos e a consequente ocupação de suas áreas e atividades humanas. Responsável pela produção, regulação e abastecimento de água; sistematização e equilíbrio climáticos; proteção de encostas; fertilidade e proteção do solo; produção de alimentos, madeira, fibras, óleos e remédios; o bioma ainda é dotado de belíssimas paisagens, além de deter relevante patrimônio histórico e cultural.

“Pesquisas integradas com mamíferos na Mata Atlântica: estudos de caso com espécies endêmicas, ameaçadas e exóticas invasoras” é o título do projeto da bióloga Helena de Godoy Bergallo, professora do Departamento de Ecologia do Instituto de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Em seu estudo sobre ecologia de comunidades, populações e história natural ela busca compreender os padrões de riqueza, composição, e abundância de espécies e ocupação do habitat pelos mamíferos nativos e exóticos, bem como suas interações com outros organismos como ectoparasitas e besouros rola-bostas em Unidades de Conservação (UCs) urbanas e rurais, por meio de pesquisas integradas.



Estimativas indicam que a Mata Atlântica abriga cerca de 20 mil espécies vegetais (35% das existentes no Brasil), incluindo espécies endêmicas (aquelas que estão restritas a apenas uma determinada área ou região geográfica) e ameaçadas de extinção; 850 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e 350 de peixes.

Helena esclarece que a fragmentação e a perda de habitat são uma das principais causas da extinção de espécies, pois modificam a conectividade da paisagem, reduzindo uma área contínua a fragmentos menores, inviabilizando a permanência de populações bióticas a longo prazo. A bióloga lembra que em alguns países a situação de determinadas espécies é tão crítica que só a adoção de medidas extremas pode salvá-las. Ela dá o exemplo da Austrália, onde a Conservação da Vida Selvagem precisou construir uma cerca com 44 km de extensão para evitar que espécies invasoras como gatos domésticos tenham acesso às espécies ameaçadas.

A fim de que o conhecimento científico possa ser utilizado para monitorar e manejar os ambientes, potencializando as estratégias e ações de conservação, a pesquisadora optou pelo uso da metodologia de amostragem RAPELD (Protocolos de Inventários Rápidos – RAP - em Pesquisas Ecológicas de Longa Duração - PELD), uma ferramenta que permite a realização de pesquisas integradas. Helena chegou a esse método em 2009, quando recebeu um pedido de ajuda do então Instituto Estadual de Florestas (IEF), hoje Instituto Estadual do Ambiente (Inea), para a elaboração do Plano de Manejo do Parque Estadual da Ilha Grande, localizado na baía de mesmo nome, ao sul do estado do Rio de Janeiro, onde a Uerj tem uma base de pesquisa, o Centro de Estudos Ambientais e de Desenvolvimento Sustentável (Ceads).

“Ao fazer o mapa dos locais onde os pesquisadores estavam desenvolvendo seus estudos, constatei que as ações estavam concentradas em apenas duas áreas, muito restritas às bordas da Unidade de Conservação, e pouco em seu interior”, diz a bióloga. Foi com auxílio do programa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, que Helena instalou o Rapeld no Parque Estadual da Ilha Grande. O método estabelece módulos ou grades com parcelas a cada quilômetro, delimitando as áreas de estudo, abrindo e sinalizando trilhas, além de integrar pesquisas de diversos organismos da flora e da fauna, mas também de solos. Há também parcelas aquáticas e ripárias, para estudos de organismos mais associados a esses ambientes, e o tamanho dos módulos ou grades pode variar.


Exemplar de um Rato-de-espinho (Trinomys sp), um dos mamíferos encontrados no Parque Estadual da Ilha Grande.


A pesquisadora ressalta a vantagem de a metodologia ser modular, respeitando as peculiaridades das diversas áreas, mas observando sempre uma mesma escala, o que permite a comparação e estudos em todo o território nacional e no exterior. Segundo Helena, além das pesquisas serem desenvolvidas em uma mesma escala espacial, para que haja a integração necessária, os dados coletados precisam ser compartilhados. A disponibilização de dados é crucial não apenas para os pesquisadores, mas também para orientar os tomadores de decisão que, muitas vezes, precisam de acesso rápido as informações. Para suprir esta carência, o programa prevê ações de capacitação de pesquisadores, gestores e estudantes na infraestrutura Rapeld, e no gerenciamento de dados e metadados.

O método Rapeld está associado à Rede de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), programa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). A rede PPBio da Mata Atlântica (PPBioMA) é coordenada por Helena, que também atua como Coordenadora Científica do Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável (Ceads), vinculado à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Uerj, e Conselheira da Uerj na Comissão Estadual de Controle Ambiental (CECA) associado ao Inea.

A pesquisadora conta que na Amazônia, além de integrar as pesquisas, o Rapeld vem integrando a comunidade, que não só colabora com a coleta de dados como vem fortalecendo seus vínculos comunitários e o pertencimento. A metodologia está começando a ser implantada também no Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, criado em 1998 e com área de 1.000 hectares distribuídos no Maciço do Mendanha, formado pelas serras do Mendanha, Gericinó e Madureira. O objetivo é integrar a pesquisa a demais unidades de conservação, como a Reserva Biológica do Tinguá, e a outras áreas de proteção ambiental da região, como a APA do Guandu, onde o grande desafio é a proximidade com a matriz urbana. O Rapeld também foi implantado na Reserva Natural da Vale, com 23 mil hectares mantidos pela mineradora no município de Linhares; e na vizinha Reserva Biológica de Sooretama, localizada entre os municípios de Sooretama e Linhares (ambos no Espírito Santo), cujo bloco florestal de 50.000 hectares é cortado pela BR 101.

As pesquisas vêm indicando que os principais responsáveis pelas mudanças em taxas de ocupação ou diminuição nas densidades dos mamíferos da Mata Atlântica são as ações antrópicas, o cão e o gato. As ações antrópicas vão desde a caça até a abertura de trilhas e estradas que impactam os mamíferos. A caça, apesar de proibida por Lei, continua sendo uma atividade frequente em áreas de conservação. “Quando entramos pela mata, com muita frequência encontramos vestígios de caça”, afirma a pesquisadora. Nossos estudos têm mostrado o impacto da caça em várias espécies de mamíferos como, por exemplo, tatus, antas e porcos, que têm maior probabilidade de ocupar áreas ou de serem detectados onde não há caça.

O cão, muitas vezes, acompanha o homem na caça e, em outras, é um predador porque faz parte do seu instinto. “Uma vez eu estava em uma das trilhas da Ilha Grande e um cachorro começou a me seguir. Não adiantava tentar espantá-lo. De repente ele sumiu e voltou depois com um tatu na boca”, conta Helena. Ela ressalta que as unidades de conservação são criadas para conservar nossa biodiversidade, mas a presença do cão e outras espécies invasoras afeta a forma como as espécies ocupam as áreas. “As espécies muitas vezes ficam espremidas na parte mais interna da reserva para evitar contato com os cães, que geralmente estão na borda. Além disso, o cão leva e traz doenças para espécies nativas”, explica a bióloga. Ela dá o exemplo de um estudo que sua equipe desenvolveu com os ectoparasitas de cães domésticos na Ilha Grande, no qual foram registradas três novas espécies de carrapatos, que na fase adulta são encontrados nos carnívoros, como o cão, mas em sua forma de larva e ninfa parasitam principalmente pequenos roedores. Isso indica que os cães estão entrando na floresta.

O gato doméstico, que também tem o hábito de caçar, costuma trazer a presa para mostrar ao seu dono, como se fosse um presente. A pesquisadora explica que uma das formas de engajar a comunidade nas pesquisas é pedir para que elas guardem as presas trazidas por seus gatos, como foi feito na comunidade do Abraão, na Ilha Grande. Com isso, alguns participantes da pesquisa se deram conta do impacto que os gatos domésticos causavam. “No cenário que projetamos, estimamos que para diminuir a quantidade de gatos na Vila do Abraão na Ilha Grande em 30 anos, precisaremos castrar ou remover 80% das fêmeas. Além disso, é crucial que os donos de cães e gatos tenham uma guarda responsável, castrem seus animais de estimação, os alimentem e não os deixem eles soltos”, explica a pesquisadora.


Nena Bergallo, como a pesquisadora é conhecida, explora o Parque Estadual do Desengano (Foto: Riva Leão)


O estudo dos mamíferos está sempre associado aos demais aspectos da Mata Atlântica, como, por exemplo, a presença e densidade de árvores exóticas, como a jaqueira, originária da Ásia. Por possuir frutos muito grandes e produzir muitas sementes, vão dominando a mata. Suas sementes envoltas a uma polpa carnuda atraem e favorecem o estabelecimento de roedores e marsupiais e o desaparecimento de outros. “Importante dispersor de sementes, o gambá, por exemplo, acaba por se acomodar nos arredores da jaqueira, deixando de lado seu importante trabalho de semeador”, exemplifica Helena.

As pesquisas com o besouro rola-bosta também têm sua importância. Animal que se alimenta de fezes de outros animais, o rola-bosta é considerado um engenheiro do ecossistema. Ao rolar e enterrar as fezes eles adubam a área e auxiliam na decomposição da matéria orgânica. Além disso, ao cavar buracos, aumentam a aeração do solo. O rola-bosta é considerado um bioindicador ambiental e por possuir estreita relação com os mamíferos, áreas com maiores riquezas de espécies de rola-bosta são também aquelas com maiores riquezas de mamíferos. Por isso o Laboratório de Ecologia de Mamíferos começou a trabalhar com esses coleópteros tão interessantes associados aos mamíferos.

Helena tem uma equipe composta por três pesquisadores de pós-doutorado, cada qual com seu perfil distinto, todos bolsistas da FAPERJ. Elizabete Captivo Lourenço está estudando a influência da saúde ambiental na saúde dos morcegos. Átilla Colombo Ferreguetti está avaliando os efeitos diretos e indiretos da fragmentação da Mata Atlântica nas comunidades de mamíferos de médio e grande porte ao longo do sudeste do Brasil. Já Luciana de Moraes Costa monitora os morcegos utilizando algumas técnicas, entre elas a bioacústica, que capta sons de animais, como dos morcegos insetívoros, que possuem importante papel no controle de insetos. Com a bioacústica a equipe identificou na Ilha Grande o Promops centralis, uma nova espécie de morcego para o estado do Rio de Janeiro. Compõem também a equipe cinco doutorandos, três mestrandos e uma técnica.





Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 17/02/2022
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4418.2.1

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Destino dos mamíferos após dinossauros variou entre diferentes espécies


Pakicetus inachus, mamífero do Eoceno – Imagem: Nobu Tamura via Wikimedia Commons – CC

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Quando se fala em extinção em massa, é comum imaginar um meteoro caindo na Terra e dizimando dinossauros, mas não é bem assim. As diversas extinções em massa na história do planeta ocorreram de forma diferente sobre os grupos de seres vivos. Um exemplo são os mamíferos, classe de vertebrados que já existia no tempo dos dinossauros e sobreviveu ao evento extintivo há 66 milhões de anos, que marcou o fim do período Cretáceo.

Havia quatro linhagens de mamíferos contemporâneas dos répteis gigantes. Todas sobreviveram. Algumas saíram mais chamuscadas, outras menos. Em estudo publicado na Biology Letters, os biólogos Tiago Bosisio Quental, da Universidade de São Paulo, e Mathias Pires, da Universidade Estadual de Campinas, buscam entender de que forma os diversos grupos de mamíferos atravessaram a extinção em massa no fim do Cretáceo. O trabalho contou com apoio da Fapesp.

“Quando se fala em extinções em massa, subentende-se um evento de grandes proporções, durante o qual um número elevado de espécies se extinguiu em um período relativamente curto”, disse Pires.

Outro modo de se olhar para as extinções em massa é observar o número de espécies no registro fóssil. Verifica-se que em um determinado período geológico ocorreu uma extinção em massa quando o número total de espécies que desapareceu do registro fóssil é muito superior ao número de novas espécies.

“Ou seja, é quando a taxa de extinções, velocidade com que espécies são perdidas, supera a taxa de especiações, a velocidade com que as espécies são geradas. Isso torna negativa a taxa de diversificação, que é dada pela diferença entre as duas taxas”, disse Pires.

No registro fóssil dos últimos 500 milhões de anos foram identificadas cinco grandes extinções em massa (e muitas outras de menor escala). Elas ocorreram por diversos motivos, como vazamentos magmáticos por centenas de milhares ou milhões de anos, liberando bilhões de toneladas de gases de efeito estufa que envenenaram a atmosfera e bloquearam a radiação solar.

Foi o que ocorreu na pior das extinções em massa, há 252 milhões de anos, que marcou a passagem dos períodos Permiano ao Triássico (e das eras Paleozoica à Mesozoica), quando mais de 90% das espécies desapareceram. Extinções em massa também ocorreram quando houve a liberação maciça de bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) aprisionadas no subsolo oceânico, causando um megaefeito estufa – como especula-se ter ocorrido no final do período Triássico, há 201 milhões de anos, com perda de 80% das espécies.

Ou o contrário, com o sequestro de bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera, o que derrubou as temperaturas, causando uma severa glaciação planetária. Foi assim há 444 milhões de anos, no fim do período Ordoviciano, quando desapareceram 86% das formas de vida.
Pesquisadores descrevem a dinâmica de diversificação dos mamíferos depois da extinção em massa do fim do Cretáceo. Muitas linhagens contemporâneas aos dinossauros desapareceram, mas outras sobreviveram (imagem: originação, extinção e taxas de diversificação para os três clados [grupos com um ancestral comum] de mamíferos na América do Norte. Linhas pontilhadas denotam o limite do Cretáceo-Paleógeno) – Foto: Biology Letters via Agência FAPESP
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Evento K-Pg

A extinção em massa de 66 milhões de anos atrás se chama evento K-Pg, sigla que se refere ao momento em que acaba o período Cretáceo (Kreide, em alemão) e inicia o período seguinte, o Paleógeno (Pg). Em uma escala de tempo mais ampla, o evento K-Pg foi o instante geológico que marca o fim da era Mesozoica, aquela dominada pelos dinossauros, e o início da Cenozoica, os últimos 66 milhões de anos.

O evento K-Pg foi provocado pela associação de dois fatores: vazamentos magmáticos devastadores onde hoje é a Índia, conjugados com a colisão de um astro celeste de 10 quilômetros de diâmetro na península de Yucatán, no atual México.

“Todos esses episódios de extinção massiva são heterogêneos. Tiveram causas diferentes e transcorreram de forma diversa. Da mesma forma, seu impacto sobre as formas de vida não foi absoluto, mas relativo. Alguns grupos sofreram mais, outros menos. Alguns desapareceram, enquanto outros aproveitaram as novas condições ambientais pós-catástrofe para se diversificar rapidamente”, disse Pires.

No novo trabalho, os pesquisadores buscaram entender de que modo as diversas linhagens de mamíferos existentes no final do Cretáceo ultrapassaram o gargalo biótico do evento K-Pg. Também participaram do estudo Daniele Silvestro, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), e Brian Rankin, da University of California em Berkeley (Estados Unidos).

A grande classe dos mamíferos surgiu no Triássico há pelo menos 220 milhões de anos, idade do fóssil mais antigo que se conhece. No fim do Cretáceo, a linhagem era bastante diversificada. Havia os placentários (como são popularmente conhecidos os eutérios), linhagem à qual pertence o Homo sapiens, assim como todos os primatas, roedores, morcegos, cetáceos e ungulados, entre outros.

Havia também os marsupiais (ou metatérios), grupo que hoje acolhe gambás, cangurus e coalas. Eles dividiam o cenário com o grupo dos monotremados e, por fim, com o dos multituberculados (seu nome deriva do formato específico de seus dentes, com vários tubérculos).

O novo estudo ressalta que a extinção em massa do Cretáceo se abateu fortemente sobre os mamíferos. Isso não quer dizer que todos os quatro grupos sofreram com a mesma intensidade. A extinção em massa foi mais severa para uns do que para outros.

Durante o Cretáceo, entre 145 e 66 milhões de anos atrás, os multituberculados eram a linhagem dominante e a mais diversificada entre os mamíferos. Sabe-se isso porque, no registro fóssil que antecede o evento K-Pg, os fósseis de multituberculados são a grande maioria. Já os fósseis de placentários e de marsupiais, embora menos numerosos, também são encontrados em bom número.

A exceção são os monotremados. Assim como ocorre hoje, quando há somente duas famílias de monotremados viventes – das quais fazem parte o ornitorrinco e a equidna –, o registro fóssil dos monotremados é muito rarefeito, tanto antes quanto depois do Cretáceo, sugerindo que este grupo sempre foi relativamente marginal em relação às outras linhagens de mamíferos. É também por essa razão que tal linhagem não foi incluída no estudo.

Sabendo-se que havia multituberculados, placentários e marsupiais, qual grupo de mamíferos foi mais severamente atingido no K-Pg? De qual linhagem sobreviveram mais gêneros? Qual grupo apresentou o maior aumento de diversidade (maior especiação) nos milhões de anos imediatamente posteriores ao gargalo biótico? Qual grupo jamais se recuperou do cataclismo?

O único meio para tentar obter respostas a essas perguntas é recorrer ao registro fóssil encontrado em uma mesma região do planeta, de modo a tentar garantir que, há 66 milhões de anos e naquela região, a catástrofe se abateu de forma mais ou menos equivalente sobre todos os grupos de mamíferos.

Quental e Pires elegeram a América do Norte como local do estudo, uma vez que 150 anos de contínuas prospecções paleontológicas naquele continente fornecem um rico painel da diversidade de mamíferos antes, durante e após o evento K-Pg.

“A América do Norte apresenta um registro fóssil com qualidade suficiente para esse tipo de estudo. Já foram feitos outros estudos analisando como os mamíferos ultrapassaram a extinção do Cretáceo, mas até onde pudemos constatar este é um dos primeiros a analisar a dinâmica da diversificação das distintas linhagens de mamíferos”, disse Quental.

Os cientistas utilizaram um conjunto de dados com 188 recentes assembleias fossilíferas do Cretáceo e do Paleoceno – abrangendo um lapso temporal que vai de 69,9 milhões de anos até 55 milhões de anos atrás –, formações localizadas no interior ocidental da América do Norte.

“O registro fóssil de mamíferos da América do Norte possui assembleias muito bem estudadas com datações em torno do evento K-Pg, sendo as ocorrências de fósseis relativamente bem resolvidas, minimizando a incerteza taxonômica. O conjunto de dados que utilizamos inclui informações sobre quase 290 gêneros de mamíferos, entre multituberculados, eutérios e metatérios”, disse Quental.

Foram empregados diversos métodos estatísticos avançados para identificar padrões de originação, extinção e diversificação, antes, durante e após o K-Pg. Os resultados evidenciaram que as três linhagens atravessaram a extinção em massa de maneiras bem distintas.

O estudo indica que a taxa de originação de Methateria (marsupiais), por exemplo, permaneceu aproximadamente constante durante todo o intervalo de tempo estudado. No entanto, um claro pico de extinção é identificado durante o K-Pg, gerando um saldo líquido de diversificação negativo. Passado o evento K-Pg, a taxa de extinção diminuiu gradualmente. No entanto, a diversificação líquida negativa persistiu por mais de 2 milhões de anos, até cerca de 64 milhões de anos atrás.

Quanto aos multituberculados, eles estavam se diversificando no fim do Cretáceo, apresentando altas taxas de originação e taxas de extinção relativamente baixas. Já em torno do limite K-Pg, a taxa de extinção permaneceu baixa, mas observam-se quedas na taxa de originação, o que derruba a diversificação de multituberculados para perto de zero. Ou seja, durante o K-Pg a taxa de diversificação encontra-se em equilíbrio, pois aproximadamente a mesma quantidade de gêneros de multituberculados está se originando e se extinguindo.

Segundo o estudo, decorrido o K-Pg, embora a taxa de extinção dos multituberculados permanecesse em queda, o declínio na taxa de originação era ainda maior, consequentemente levando a uma diversificação negativa. Em outras palavras, a quantidade de gêneros de multituberculados continuou diminuindo durante o restante do período analisado, até 55 milhões de anos atrás. Tal declínio parece ter persistido por muito mais tempo, dado que os multituberculados desapareceram progressivamente do registro fóssil mundial, até, por fim, a linhagem terminar há cerca de 35 milhões de anos.

Especula-se que a razão para o fim dos multituberculados teria sido a competição crescente com uma nova linhagem de eutérios, os roedores, cuja ordem tem origem justamente logo após o evento K-Pg, já no período Paleógeno.

Quanto aos eutérios (placentários), o estudo mostra alta originação e alta extinção perto do limite K-Pg, resultando em uma inflexão na diversidade. As taxas de originação eram muito superiores àquelas das extinções, exceto no período entre 66 milhões de anos e 64 milhões de anos atrás.

Logo após, verifica-se um segundo pulso de originação, acompanhado pela queda nas taxas de extinção, sinal da ocorrência de uma curta explosão na diversificação. Em torno de 62 milhões de anos atrás, a originação de eutérios diminui, enquanto a diversificação fica em torno de zero, sugerindo um equilíbrio de diversidade.

“Encontramos três padrões de diversificação entre os grupos de mamíferos. Metatheria se comporta da forma clássica em uma extinção em massa. Diversas extinções se agrupam no tempo, levando a uma queda severa na diversificação”, disse Quental.

Segundo o pesquisador, nos multituberculados a diminuição na diversificação e a subsequente perda de diversidade foram impulsionadas pelo declínio das taxas de originação e não pela extinção, ou seja, perderam diversidade porque demoravam muito para gerar novas espécies.

“Já os eutérios mostram uma dinâmica mais complexa de ascensão e queda, mais precisamente atribuída por oscilações rápidas na taxa de especiação durante e logo após o K-Pg, ao mesmo tempo que a taxa de extinção aumenta, porém, não tanto a ponto de causar uma diversificação negativa por muito tempo”, disse Quental.

Pires ressalta que o estudo mostra que a extinção em massa do K-Pg foi ecologicamente seletiva entre as linhagens de mamíferos, “com uma concentração de extinções entre metatérios carnívoros especializados e eutérios insetívoros, enquanto os eutérios e os multituberculados mais generalistas mantiveram maior diversidade”.

Embora os resultados indiquem que os eutérios (placentários) sofreram perdas substanciais no limite de K-Pg, essas perdas foram compensadas pelo aumento da originação. Pode ter ocorrido diversificação entre os eutérios sobreviventes, graças à chegada à América do Norte de outros grupos de eutérios provenientes de outros continentes.

“A plasticidade de dietas dos multituberculados pode ter permitido que os grupos persistissem, explicando as baixas taxas de extinção. A diversidade ecológica e taxonômica dos multituberculados foi crescente durante o fim do Cretáceo. No entanto, nossas análises mostram que os multituberculados não compensaram as perdas por extinção, pois geravam cada vez menos diversidade, diferentemente dos eutérios, cujas perdas foram compensadas por altas taxas de originação”, disse Pires.

A conclusão dos pesquisadores indica que, quando os clados (grupos com ancestral comum) são avaliados individualmente, eventos de extinção em massa podem ser vistos como mudanças na extinção, na originação ou em ambos os regimes.

“Isso significa que os estudos sobre fenômenos macroevolutivos que são centrados em grandes grupos taxonômicos podem estar deixando de contar uma história macroevolutiva muito mais rica, só percebida em escalas taxonômicas mais sutis”, destacam.

O artigo Diversification dynamics of mammalian clades during the K–Pg mass extinction (doi: 10.1098/rsbl.2018.0458), de Mathias M. Pires, Brian D. Rankin, Daniele Silvestro e Tiago B. Quental, pode ser lido no site da publicação científica.

Peter Moon / Agência Fapesp




Autor: Peter Moon
Fonte: Agência Fapesp
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 07/01/2019
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/destino-dos-mamiferos-apos-dinossauros-variou-entre-diferentes-especies/

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Declínios populacionais de mamíferos e aves são ligados ao rápido aquecimento do clima

A taxa em que o nosso planeta está aquecendo é um fator crítico para explicar o declínio de espécies de aves e mamíferos, revela uma nova pesquisa publicada na revista Global Change Biology pelo Institute of Zoology (Zoological Society of London).

Institute of Zoology, Zoological Society of London*

Os cientistas estudaram 987 populações de 481 espécies em todo o mundo, para investigar como a taxa de mudança climática e mudança no uso da terra (de paisagens naturais a dominadas por humanos) interagem para afetar a taxa de declínio de mamíferos e aves, bem como se espécies localizado em áreas protegidas e tamanho do corpo teve uma influência. A taxa em que nosso clima está aquecendo foi a melhor explicação para a taxa observada de declínio populacional.

As aves foram as mais afetadas pelo rápido aquecimento climático, com os efeitos sendo duas vezes mais fortes nas aves em relação aos mamíferos, assim como as populações localizadas fora das áreas protegidas sendo mais severamente afetadas. Espécies como o maçarico -de-cauda-preta ( Limosa limosa ) na Alemanha e Senegal, gansos-de-peito-rosa no Canadá ( Anser brachyrhynchus ) e chacal-de-dorso-preto ( Canis mesomelas ) na Tanzânia foram apenas algumas das espécies destacadas em declínio populacional .

A principal autora, Fiona Spooner, do Instituto de Zoologia e do Centro de Pesquisas sobre Biodiversidade e Meio Ambiente da UCL, disse: “A razão pela qual achamos que as aves estão em pior situação é devido às estações de reprodução particularmente sensíveis às mudanças de temperatura. Achamos que isso poderia estar levando a uma dessincronização de seu ciclo de reprodução, levando aos impactos negativos que estamos vendo. As estações de reprodução dos mamíferos são muito mais flexíveis, e isso se reflete nos dados. ”

Esta descoberta é crucial, porque se a taxa em que o clima aquece excede a taxa máxima possível de animais sendo capazes de se adaptar às mudanças em seu ambiente – as extinções locais de animais começarão a se tornar mais proeminentes. A pesquisa enfatiza a urgência de entender a vulnerabilidade dos animais aos aumentos de temperatura e fornece uma imagem do que pode acontecer se não reduzirmos as mudanças climáticas.

Co-autor sênior, Dr. Robin Freeman chefe da Unidade de Indicadores e Avaliação do Instituto de Zoologia da ZSL disse: “Nossa pesquisa mostra que em áreas onde a taxa de aquecimento climático é pior, nós vemos uma queda mais rápida da população de aves e mamíferos. A menos que possamos encontrar maneiras de reduzir o aquecimento futuro, podemos esperar que esses declínios sejam muito piores ”.

“É importante ressaltar que nossa descoberta não sugere que as mudanças no uso da terra, como agricultura, desenvolvimento ou desmatamento, não desempenhem um papel no declínio de pássaros e mamíferos, ou porque o declínio está relacionado à mudança climática. gerações futuras para lidar. Pelo contrário, essa descoberta sugere que dados adicionais, incluindo dados de paisagem com resolução mais alta, são necessários para entender os mecanismos que impulsionam esses declínios ”.

Gareth Redmond-King, Chefe de Política Climática e Energia da WWF disse: “Este relatório fornece mais evidências da crescente ameaça que a mudança climática representa para a nossa vida selvagem, não apenas em todo o mundo, mas também aqui em nossas portas como as abelhas e papagaio muito amado.

“É por isso que precisamos urgentemente que o governo do Reino Unido tome medidas para cumprir as metas atuais de redução das emissões de gases do efeito estufa, mas também para aumentar a ambição de construir um futuro sustentável e resiliente ao clima, no qual restauremos a natureza”.

Para mais informações sobre o trabalho da Unidade de Indicadores e Avaliações da ZSL. O departamento publica o Relatório do Índice do Planeta Vivo em conjunto com o WWF a cada dois anos. Este documento fornece uma visão geral do empolgante trabalho que será publicado em outubro de 2018.

Os pontos mostram a distribuição e a densidade das séries temporais da população usadas na análise. Os pontos preto e branco significam populações de aves e mamíferos, respectivamente, onde ambos os grupos taxonômicos estão presentes, os números de cada um são proporcionalmente representados com um gráfico de pizza. 77,4% dos locais possuem uma população. A camada de base do mapa mostra a taxa de mudança de temperatura, em graus por ano, entre 1950 e 2005, com base na análise do conjunto de dados de séries temporais de CRU TS v. 3.23 (Harris et al., 2014 )


Referência:

Spooner FEB, Pearson RG, Freeman R. Rapid warming is associated with population decline among terrestrial birds and mammals globally. Glob Change Biol. 2018;00:1–11. https://doi.org/10.1111/gcb.14361


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/25/declinios-populacionais-de-mamiferos-e-aves-sao-ligados-ao-rapido-aquecimento-do-clima/