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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

SBAD 2022: Dieta, microbiota e intolerâncias alimentares

O terceiro dia da Semana Brasileira do Aparelho Digestivo foi marcado por discussões relacionadas a intolerâncias alimentares. O primeiro tema discutido foi a dieta FODMAP, em palestra ministrada pelo Dr. Hoiti Okamoto. O nome FODMAP advém de um acrônimo em inglês que significa Fermentable Oligosaccharides Disaccharides Monosaccharides and Polyols. Foi descrita por Barrett e Gibson, com o racional de que carboidratos de cadeia curta atuam como moléculas osmoticamente ativas, de pobre absorção pelo intestino delgado e rapidamente fermentadas pelas bactérias, as quais produzem gases e ácidos graxos de cadeia curta. Okamoto destacou o papel das frutoses no conteúdo de água do intestino delgado e dos frutanos na quantidade de gases no intestino grosso. Os FODMAPs têm papel importante no fornecimento de nutrientes para microbiota colônica, sendo degradados a ácidos graxos de cadeia curta. Estudos prévios demonstraram que a restrição de FODMAPS:



Reduz o número total de bactérias;

Reduz o cluster Clostridia IVa, produtores de butiratos;

Reduz Akkermansia muciniphilia;

Reduz Bifidobacterias;

Aumenta Ruminococcus;

Altera o equilíbrio de Firmicutes e Bacteroidetes.

Segundo Okamoto, a dieta tem várias limitações, como o custo clínico e econômico, aderência do paciente, limitação nutricional, qualidade de vida e impacto psicológico. Se instituída, deve ser orientada por nutricionista especializado e dividida em três fases:


Fase 1: eliminação ou restrição, cujo objetivo é controlar os sintomas.

Fase 2: reintrodução, cujo objetivo é avaliar a sensibilidade individual a cada FODMAP.

Fase 3: personalização, cujo objetivo é individualizar a dieta a longo prazo.

Uma sugestão inicial a médicos não especializados na dieta FODMAP seria começar com um teste de exclusão simples, retirando apenas alguns itens, como trigo, leite, cafeína excessiva e/ou alimentos específicos que o paciente identificou. Okamoto destacou que o Brasil é o segundo maior consumidor per capita de lactose do mundo segundo a USDA, sendo que a maior parte da população é intolerante a lactose. Chamou-se ainda a atenção para o consumo de frutanos, especialmente através do consumo de trigo nos pães, os quais quando ingeridos em grande quantidade podem causar sintomas abdominais.

A segunda palestra foi ministrada pelo Prof. Laercio Ribeiro e abordou o tema dieta e microbiota intestinal. Ribeiro iniciou sua apresentação destacando que uma parte expressiva da influência ambiental na saúde humana e no risco de doença é mediada ou modificada pelas microbiota. A disbiose intestinal já foi associada a vários distúrbios digestivos, neurológicos, respiratórios, metabólicos, hepáticos e cardiovasculares. Vários fatores contribuem para uma microbiota saudável, como: genética, via de parto, status socioeconômico, dieta, uso de medicamentos, etc. Alterações no micobioma, viroma e Archaeoma são ainda pouco conhecidos. Diversas pesquisas buscam formas de reestabelecer o equilíbrio da flora intestinal, seja através do uso de prebióticos, probióticos, simbióticos, transplante de microbiota intestinal e antibióticos. Segundo Ribeiro, a dieta é um fator chave para determinação da composição da microbiota intestinal, provavelmente o principal. Sabe-se que microorganismos do intestino grosso se nutrem, principalmente, da fermentação de componentes dietéticos não digeríveis. Foram apresentados estudos demonstrando uma grande diferença de composição da microbiota intestinal de pacientes em dieta ocidental, rica em alimentos processados e produtos animais, quando comparada à de indivíduos em dieta rica em alimentos vegetais. Pacientes em dieta ocidental apresentaram aumento de Bacteroides, Clostridium e Escherichia, bactérias associadas a distúrbios metabólicos e inflamação. Por outro lado, Ribeiro trouxe estudos que sugerem uma rápida modificação da microbiota após aumento do consumo de vegetais, impactando na concentração de ácidos graxos de cadeia curta. Por outro lado, estudos de microbiota após tratamentos antibióticos para H. pylori demonstraram que o microbioma pode permanecer alterado por mais de 4 anos, com altos níveis de resistência a macrolídeos. Por fim, o Ribeiro reforçou a necessidade que hábitos alimentares saudáveis sejam ensinados na infância e que se evite sempre o uso de grandes quantidades de sal, açúcar e gorduras.

A terceira palestra, ministrada pela Profa. Adélia Carmen, abordou especificamente as intolerâncias alimentares. Sabemos que os dissacarídeos necessitam ser quebrados enzimaticamente para serem absorvidos. As intolerâncias mais comuns são a lactose, frutose, frutano e rafinose. A tolerância alimentar depende de alguns fatores:

quantidade ingerida;

trânsito intestinal;

microbiota;

atividade enzimática residual.

À exceção da rafinose, as demais intolerâncias podem ser diagnosticadas por testes respiratórios de hidrogênio expirado. A intolerância a lactose pode ser tratada por exclusão da lactose da dieta e pela suplementação de lactase, com ou sem adição de probióticos, como Bifidobacterium e Lactobacillus GG. Adélia destacou que pacientes com má absorção de frutose podem ter baixos níveis de triptofano, o que se associada a sintomas depressivos. Já os frutanos, e não o glúten, foram associados a sintomas em pacientes com auto-relato de sensibilidade não celíaca ao glúten. O consumo de Psyllium parece reduzir a produção colônica de hidrogênio após ingestão de inulina, um tipo de frutano. Já a intolerância a rafinose, pode ser abordada pela suplementação enzimática de alfa-galactosidase, enzima capaz de ajudar a digestão de amidos/rafinose e reduzir a fermentação bacteriana, distensão abdominal e flatulência. Por fim, Adélia mencionou a ineficácia dos testes de investigação de sensibilidade a alimentos mediados por IgG, já condenados por várias sociedades médicas, uma vez que esses somente identificam a exposição prévia ao alimento e não intolerâncias.

Ao final dessa mesa, o Dr. Eduardo Usuy tratou do tema hipersensibilidade não celíaca ao glúten. Essa síndrome foi definida pela resposta sintomática à ingestão de glúten em pacientes sem evidência sorológica ou histológica de doença celíaca. Estima-se que atinja 10% da população, enquanto somente 0,7% são verdadeiros celíacos. A causa ainda é pouco conhecida e acredita-se que possa se associar a inibidores da amilase tripsina. Manifesta-se com diarreia, dor abdominal, constipação, distensão abdominal, emagrecimento, fadiga e cefaléia. Usuy concluiu que não existe tratamento específico, mas que, geralmente, orienta-se dieta com baixo teor de FODMAPs ou isenta de glúten.






Autor: Guilherme Grossi Cançado
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 04/12/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/sbad-2022-dieta-microbiota-e-intolerancias-alimentares/

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

SBAD 2022: Dieta, microbiota e intolerâncias alimentares

O terceiro dia da Semana Brasileira do Aparelho Digestivo foi marcado por discussões relacionadas a intolerâncias alimentares. O primeiro tema discutido foi a dieta FODMAP, em palestra ministrada pelo Dr. Hoiti Okamoto. O nome FODMAP advém de um acrônimo em inglês que significa Fermentable Oligosaccharides Disaccharides Monosaccharides and Polyols. Foi descrita por Barrett e Gibson, com o racional de que carboidratos de cadeia curta atuam como moléculas osmoticamente ativas, de pobre absorção pelo intestino delgado e rapidamente fermentadas pelas bactérias, as quais produzem gases e ácidos graxos de cadeia curta. Okamoto destacou o papel das frutoses no conteúdo de água do intestino delgado e dos frutanos na quantidade de gases no intestino grosso. Os FODMAPs têm papel importante no fornecimento de nutrientes para microbiota colônica, sendo degradados a ácidos graxos de cadeia curta. Estudos prévios demonstraram que a restrição de FODMAPS:


Reduz o número total de bactérias;

Reduz o cluster Clostridia IVa, produtores de butiratos;

Reduz Akkermansia muciniphilia;

Reduz Bifidobacterias;

Aumenta Ruminococcus;

Altera o equilíbrio de Firmicutes e Bacteroidetes.

Segundo Okamoto, a dieta tem várias limitações, como o custo clínico e econômico, aderência do paciente, limitação nutricional, qualidade de vida e impacto psicológico. Se instituída, deve ser orientada por nutricionista especializado e dividida em três fases:


Fase 1: eliminação ou restrição, cujo objetivo é controlar os sintomas.

Fase 2: reintrodução, cujo objetivo é avaliar a sensibilidade individual a cada FODMAP.

Fase 3: personalização, cujo objetivo é individualizar a dieta a longo prazo.

Uma sugestão inicial a médicos não especializados na dieta FODMAP seria começar com um teste de exclusão simples, retirando apenas alguns itens, como trigo, leite, cafeína excessiva e/ou alimentos específicos que o paciente identificou. Okamoto destacou que o Brasil é o segundo maior consumidor per capita de lactose do mundo segundo a USDA, sendo que a maior parte da população é intolerante a lactose. Chamou-se ainda a atenção para o consumo de frutanos, especialmente através do consumo de trigo nos pães, os quais quando ingeridos em grande quantidade podem causar sintomas abdominais.

A segunda palestra foi ministrada pelo Prof. Laercio Ribeiro e abordou o tema dieta e microbiota intestinal. Ribeiro iniciou sua apresentação destacando que uma parte expressiva da influência ambiental na saúde humana e no risco de doença é mediada ou modificada pelas microbiota. A disbiose intestinal já foi associada a vários distúrbios digestivos, neurológicos, respiratórios, metabólicos, hepáticos e cardiovasculares. Vários fatores contribuem para uma microbiota saudável, como: genética, via de parto, status socioeconômico, dieta, uso de medicamentos, etc. Alterações no micobioma, viroma e Archaeoma são ainda pouco conhecidos. Diversas pesquisas buscam formas de reestabelecer o equilíbrio da flora intestinal, seja através do uso de prebióticos, probióticos, simbióticos, transplante de microbiota intestinal e antibióticos. Segundo Ribeiro, a dieta é um fator chave para determinação da composição da microbiota intestinal, provavelmente o principal. Sabe-se que microorganismos do intestino grosso se nutrem, principalmente, da fermentação de componentes dietéticos não digeríveis. Foram apresentados estudos demonstrando uma grande diferença de composição da microbiota intestinal de pacientes em dieta ocidental, rica em alimentos processados e produtos animais, quando comparada à de indivíduos em dieta rica em alimentos vegetais. Pacientes em dieta ocidental apresentaram aumento de Bacteroides, Clostridium e Escherichia, bactérias associadas a distúrbios metabólicos e inflamação. Por outro lado, Ribeiro trouxe estudos que sugerem uma rápida modificação da microbiota após aumento do consumo de vegetais, impactando na concentração de ácidos graxos de cadeia curta. Por outro lado, estudos de microbiota após tratamentos antibióticos para H. pylori demonstraram que o microbioma pode permanecer alterado por mais de 4 anos, com altos níveis de resistência a macrolídeos. Por fim, o Ribeiro reforçou a necessidade que hábitos alimentares saudáveis sejam ensinados na infância e que se evite sempre o uso de grandes quantidades de sal, açúcar e gorduras.

A terceira palestra, ministrada pela Profa. Adélia Carmen, abordou especificamente as intolerâncias alimentares. Sabemos que os dissacarídeos necessitam ser quebrados enzimaticamente para serem absorvidos. As intolerâncias mais comuns são a lactose, frutose, frutano e rafinose. A tolerância alimentar depende de alguns fatores:

quantidade ingerida;

trânsito intestinal;

microbiota;

atividade enzimática residual.

À exceção da rafinose, as demais intolerâncias podem ser diagnosticadas por testes respiratórios de hidrogênio expirado. A intolerância a lactose pode ser tratada por exclusão da lactose da dieta e pela suplementação de lactase, com ou sem adição de probióticos, como Bifidobacterium e Lactobacillus GG. Adélia destacou que pacientes com má absorção de frutose podem ter baixos níveis de triptofano, o que se associada a sintomas depressivos. Já os frutanos, e não o glúten, foram associados a sintomas em pacientes com auto-relato de sensibilidade não celíaca ao glúten. O consumo de Psyllium parece reduzir a produção colônica de hidrogênio após ingestão de inulina, um tipo de frutano. Já a intolerância a rafinose, pode ser abordada pela suplementação enzimática de alfa-galactosidase, enzima capaz de ajudar a digestão de amidos/rafinose e reduzir a fermentação bacteriana, distensão abdominal e flatulência. Por fim, Adélia mencionou a ineficácia dos testes de investigação de sensibilidade a alimentos mediados por IgG, já condenados por várias sociedades médicas, uma vez que esses somente identificam a exposição prévia ao alimento e não intolerâncias.

Ao final dessa mesa, o Dr. Eduardo Usuy tratou do tema hipersensibilidade não celíaca ao glúten. Essa síndrome foi definida pela resposta sintomática à ingestão de glúten em pacientes sem evidência sorológica ou histológica de doença celíaca. Estima-se que atinja 10% da população, enquanto somente 0,7% são verdadeiros celíacos. A causa ainda é pouco conhecida e acredita-se que possa se associar a inibidores da amilase tripsina. Manifesta-se com diarreia, dor abdominal, constipação, distensão abdominal, emagrecimento, fadiga e cefaléia. Usuy concluiu que não existe tratamento específico, mas que, geralmente, orienta-se dieta com baixo teor de FODMAPs ou isenta de glúten.





Autor: Guilherme Grossi Cançado
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 04/12/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/sbad-2022-dieta-microbiota-e-intolerancias-alimentares/

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

SBAD 2022: Dieta, microbiota e intolerâncias alimentares

O terceiro dia da Semana Brasileira do Aparelho Digestivo foi marcado por discussões relacionadas a intolerâncias alimentares. O primeiro tema discutido foi a dieta FODMAP, em palestra ministrada pelo Dr. Hoiti Okamoto. O nome FODMAP advém de um acrônimo em inglês que significa Fermentable Oligosaccharides Disaccharides Monosaccharides and Polyols. Foi descrita por Barrett e Gibson, com o racional de que carboidratos de cadeia curta atuam como moléculas osmoticamente ativas, de pobre absorção pelo intestino delgado e rapidamente fermentadas pelas bactérias, as quais produzem gases e ácidos graxos de cadeia curta. Okamoto destacou o papel das frutoses no conteúdo de água do intestino delgado e dos frutanos na quantidade de gases no intestino grosso. Os FODMAPs têm papel importante no fornecimento de nutrientes para microbiota colônica, sendo degradados a ácidos graxos de cadeia curta. Estudos prévios demonstraram que a restrição de FODMAPS:



Reduz o número total de bactérias;

Reduz o cluster Clostridia IVa, produtores de butiratos;

Reduz Akkermansia muciniphilia;

Reduz Bifidobacterias;

Aumenta Ruminococcus;

Altera o equilíbrio de Firmicutes e Bacteroidetes.

Segundo Okamoto, a dieta tem várias limitações, como o custo clínico e econômico, aderência do paciente, limitação nutricional, qualidade de vida e impacto psicológico. Se instituída, deve ser orientada por nutricionista especializado e dividida em três fases:



Fase 1: eliminação ou restrição, cujo objetivo é controlar os sintomas.

Fase 2: reintrodução, cujo objetivo é avaliar a sensibilidade individual a cada FODMAP.

Fase 3: personalização, cujo objetivo é individualizar a dieta a longo prazo.

Uma sugestão inicial a médicos não especializados na dieta FODMAP seria começar com um teste de exclusão simples, retirando apenas alguns itens, como trigo, leite, cafeína excessiva e/ou alimentos específicos que o paciente identificou. Okamoto destacou que o Brasil é o segundo maior consumidor per capita de lactose do mundo segundo a USDA, sendo que a maior parte da população é intolerante a lactose. Chamou-se ainda a atenção para o consumo de frutanos, especialmente através do consumo de trigo nos pães, os quais quando ingeridos em grande quantidade podem causar sintomas abdominais.


A segunda palestra foi ministrada pelo Prof. Laercio Ribeiro e abordou o tema dieta e microbiota intestinal. Ribeiro iniciou sua apresentação destacando que uma parte expressiva da influência ambiental na saúde humana e no risco de doença é mediada ou modificada pelas microbiota. A disbiose intestinal já foi associada a vários distúrbios digestivos, neurológicos, respiratórios, metabólicos, hepáticos e cardiovasculares. Vários fatores contribuem para uma microbiota saudável, como: genética, via de parto, status socioeconômico, dieta, uso de medicamentos, etc. Alterações no micobioma, viroma e Archaeoma são ainda pouco conhecidos. Diversas pesquisas buscam formas de reestabelecer o equilíbrio da flora intestinal, seja através do uso de prebióticos, probióticos, simbióticos, transplante de microbiota intestinal e antibióticos. Segundo Ribeiro, a dieta é um fator chave para determinação da composição da microbiota intestinal, provavelmente o principal. Sabe-se que microorganismos do intestino grosso se nutrem, principalmente, da fermentação de componentes dietéticos não digeríveis. Foram apresentados estudos demonstrando uma grande diferença de composição da microbiota intestinal de pacientes em dieta ocidental, rica em alimentos processados e produtos animais, quando comparada à de indivíduos em dieta rica em alimentos vegetais. Pacientes em dieta ocidental apresentaram aumento de Bacteroides, Clostridium e Escherichia, bactérias associadas a distúrbios metabólicos e inflamação. Por outro lado, Ribeiro trouxe estudos que sugerem uma rápida modificação da microbiota após aumento do consumo de vegetais, impactando na concentração de ácidos graxos de cadeia curta. Por outro lado, estudos de microbiota após tratamentos antibióticos para H. pylori demonstraram que o microbioma pode permanecer alterado por mais de 4 anos, com altos níveis de resistência a macrolídeos. Por fim, o Ribeiro reforçou a necessidade que hábitos alimentares saudáveis sejam ensinados na infância e que se evite sempre o uso de grandes quantidades de sal, açúcar e gorduras.


A terceira palestra, ministrada pela Profa. Adélia Carmen, abordou especificamente as intolerâncias alimentares. Sabemos que os dissacarídeos necessitam ser quebrados enzimaticamente para serem absorvidos. As intolerâncias mais comuns são a lactose, frutose, frutano e rafinose. A tolerância alimentar depende de alguns fatores:



quantidade ingerida;

trânsito intestinal;

microbiota;

atividade enzimática residual.

À exceção da rafinose, as demais intolerâncias podem ser diagnosticadas por testes respiratórios de hidrogênio expirado. A intolerância a lactose pode ser tratada por exclusão da lactose da dieta e pela suplementação de lactase, com ou sem adição de probióticos, como Bifidobacterium e Lactobacillus GG. Adélia destacou que pacientes com má absorção de frutose podem ter baixos níveis de triptofano, o que se associada a sintomas depressivos. Já os frutanos, e não o glúten, foram associados a sintomas em pacientes com auto-relato de sensibilidade não celíaca ao glúten. O consumo de Psyllium parece reduzir a produção colônica de hidrogênio após ingestão de inulina, um tipo de frutano. Já a intolerância a rafinose, pode ser abordada pela suplementação enzimática de alfa-galactosidase, enzima capaz de ajudar a digestão de amidos/rafinose e reduzir a fermentação bacteriana, distensão abdominal e flatulência. Por fim, Adélia mencionou a ineficácia dos testes de investigação de sensibilidade a alimentos mediados por IgG, já condenados por várias sociedades médicas, uma vez que esses somente identificam a exposição prévia ao alimento e não intolerâncias.



Ao final dessa mesa, o Dr. Eduardo Usuy tratou do tema hipersensibilidade não celíaca ao glúten. Essa síndrome foi definida pela resposta sintomática à ingestão de glúten em pacientes sem evidência sorológica ou histológica de doença celíaca. Estima-se que atinja 10% da população, enquanto somente 0,7% são verdadeiros celíacos. A causa ainda é pouco conhecida e acredita-se que possa se associar a inibidores da amilase tripsina. Manifesta-se com diarreia, dor abdominal, constipação, distensão abdominal, emagrecimento, fadiga e cefaléia. Usuy concluiu que não existe tratamento específico, mas que, geralmente, orienta-se dieta com baixo teor de FODMAPs ou isenta de glúten.







Autor: Guilherme Grossi Cançado
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 04/12/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/sbad-2022-dieta-microbiota-e-intolerancias-alimentares/

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Dieta de restrição calórica altera a composição da microbiota presente no intestino humano



Imagem colorida do microscópio eletrônico de varredura da bactéria intestinal Clostridioides difficile. © CDC | Janice Carr

Dieta de restrição calórica altera a composição da microbiota presente no intestino humano
Pesquisadores da Charité – Universitätsmedizin Berlin e da University of California em San Francisco puderam mostrar pela primeira vez que uma dieta de baixíssima caloria altera significativamente a composição da microbiota presente no intestino humano.

Em uma publicação atual da Nature * , os pesquisadores relatam que a dieta resulta em um aumento de bactérias específicas – notavelmente Clostridioides difficile, que está associada à diarreia induzida por antibióticos e colite. Essas bactérias aparentemente afetam o equilíbrio de energia do corpo, exercendo uma influência na absorção de nutrientes do intestino.

O microbioma intestinal humano consiste em trilhões de microrganismos e difere de uma pessoa para outra. Em pessoas com sobrepeso ou obesas, por exemplo, sabe-se que sua composição é diferente daquela encontrada em indivíduos com peso corporal normal. Muitos de nós iremos, em algum momento de nossas vidas, tentar fazer dieta para perder peso. Mas que efeito essa mudança drástica na dieta tem em nossos corpos?

Uma equipe internacional de pesquisadores co-liderados por Charité abordou esta questão. “Pela primeira vez, pudemos mostrar que uma dieta de muito baixa caloria produz grandes mudanças na composição do microbioma intestinal e que essas mudanças têm impacto no balanço energético do hospedeiro”, disse o Prof. Dr. Joachim Spranger, Chefe do Departamento de Endocrinologia e Doenças Metabólicas da Charité e um dos principais autores do estudo.

Para explorar os efeitos da dieta, a equipe estudou 80 mulheres mais velhas (pós-menopausa) cujo peso variou de um pouco acima do peso a gravemente obesas por um período de 16 semanas. As mulheres seguiram um regime de substituição de refeição supervisionado por um médico, consumindo shakes, totalizando menos de 800 calorias por dia, ou mantiveram seu peso durante o estudo.

Os participantes foram examinados no Centro de Pesquisa Experimental e Clínica (ECRC), uma instalação operada em conjunto pela Charité e o Centro Max Delbrück de Medicina Molecular (MDC). A análise regular da amostra de fezes mostrou que a dieta reduziu o número de microrganismos presentes no intestino e mudou a composição do microbioma intestinal.

“Pudemos observar como as bactérias adaptaram seu metabolismo para absorver mais moléculas de açúcar e, com isso, torná-los indisponíveis para seu hospedeiro humano. Pode-se dizer que observamos o desenvolvimento de um ‘microbioma faminto’ ”, diz o primeiro autor do estudo, Dr. Reiner Jumpertz von Schwartzenberg, pesquisador e clínico do Departamento de Endocrinologia e Doenças Metabólicas, cujo trabalho no estudo foi financiado pelo Clínico Programa para cientistas operado pela Charité e pelo Instituto de Saúde de Berlim (BIH).

Amostras de fezes, que foram coletadas antes e depois da dieta, foram então transferidas para camundongos que foram mantidos em condições livres de germes e, como resultado, não tinham toda a microbiota intestinal. Os resultados foram surpreendentes: os animais que receberam fezes após a dieta perderam mais de 10% de sua massa corporal.

As fezes pré-dieta não tiveram nenhum efeito. “Nossos resultados mostram que esse fenômeno é explicado principalmente por mudanças na absorção de nutrientes do intestino dos animais”, diz o Prof. Spranger. Ele acrescenta: “Isso destaca o fato de que as bactérias intestinais têm um grande impacto na absorção dos alimentos”.

Quando os pesquisadores estudaram a composição das fezes em mais detalhes, eles foram particularmente atingidos por sinais de aumento da colonização por uma bactéria específica – Clostridioides difficile. Embora esse microrganismo seja comumente encontrado no ambiente natural e nos intestinos de seres humanos e animais saudáveis, seu número no intestino pode aumentar em resposta ao uso de antibióticos, resultando potencialmente em inflamação severa da parede intestinal. Também é conhecido como um dos patógenos mais comuns associados a hospitais.

Quantidades maiores da bactéria foram encontradas em participantes que completaram o regime de perda de peso e em camundongos que receberam bactérias intestinais após a dieta. “Pudemos mostrar que o C. difficile produziu as toxinas tipicamente associadas a esta bactéria e que era disso que dependia a perda de peso dos animais,” explica o Prof. Spranger. Ele acrescenta: “Apesar disso, nem os participantes nem os animais mostraram sinais relevantes de inflamação intestinal”.

Resumindo os resultados da pesquisa, o Prof. Spranger diz: “Uma dieta de muito baixas calorias modifica severamente nosso microbioma intestinal e parece reduzir a resistência à colonização pela bactéria Clostridioides difficile associada ao hospital. Essas mudanças tornam a absorção de nutrientes pela parede intestinal menos eficiente, notavelmente sem produzir sintomas clínicos relevantes. O que ainda não está claro é se ou em que medida esse tipo de colonização assintomática por C. difficile pode prejudicar ou potencialmente melhorar a saúde de uma pessoa. Isso tem que ser explorado em estudos maiores ”.

Os resultados do atual estudo, que também recebeu financiamento do Centro Alemão de Doenças Cardiovasculares (DZHK), podem até dar margem a opções de tratamento para distúrbios metabólicos como obesidade e diabetes. Por esta razão,os pesquisadores agora explorarão como as bactérias intestinais podem ser influenciadas para produzir efeitos benéficos no peso e no metabolismo de seus hospedeiros humanos.

Referência:

von Schwartzenberg, R.J., Bisanz, J.E., Lyalina, S. et al. Caloric restriction disrupts the microbiota and colonization resistance. Nature (2021). https://doi.org/10.1038/s41586-021-03663-4

Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de original da Charité – Universitätsmedizin Berlin

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/06/2021




Autor: Henrique Cortez
Fonte: Charité – Universitätsmedizin Berlin
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/23/dieta-de-restricao-calorica-altera-a-composicao-da-microbiota-presente-no-intestino-humano/