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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O terremoto que apavorou São Paulo há 100 anos



CRÉDITO,BIBLIOTECA NACIONAL
Legenda da foto,

Os jornais paulistanos da época noticiaram o terremoto nas manchetes


Foi um susto e tanto. Há 100 anos, às 3h55 da madrugada do dia 27 de janeiro de 1922, os paulistanos e habitantes de cidades vizinhas, num raio de 450 km, foram despertados abruptamente por um estrondo mais forte que um trovão.


O barulho foi seguido de um chacoalhar da terra e de suas casas, que derrubou gente da cama, rachou paredes e colunas, quebrou louças e móveis e apavorou todo mundo.


As pessoas, em pânico, saíram às ruas, muitas gritando por socorro e "senhoras e senhoritas" em "trajes menores". É possível que tenha havido pelo menos uma morte - de susto.


É até hoje o maior terremoto registrado na parte continental das regiões Sul e Sudeste do Brasil, com magnitude 5.1, na escala Richter.


"Seu epicentro foi na região de Espírito Santo do Pinhal [a 198 km da capital], onde estou neste dia 27, com o professor Marcelo Assumpção, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), para realizar algumas filmagens e ele dar um conferência sobre o tremor", conta o geólogo Alberto Veloso, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro Tremeu a Europa e o Brasil Também.


"O terremoto estremeceu boa parte da capital paulista, alarmando pessoas, produzindo danos menores em construções e enchendo os jornais de notícias variadas."


No livro Sismicidade do Brasil, de 1984, do qual Veloso e Assumpção são coautores, há vários relatos sobre o abalo de 27 de janeiro de 1922, coletados em jornais e de pessoas entrevistadas por esses veículos.


Eles dão conta de que "precisamente" às 3h55 um "tremor precedido de grande rumor" derrubou algumas cimalhas (molduras superiores de fachadas de edifícios) de várias construções, rachou paredes, dilatou alicerces e deixou "diversas arqueações de cobertura" desintegradas.


Os relatos da época também informavam que a Igreja de São Benedito, em Espírito Santo do Pinhal, "de construção defeituosa e atentatória a todos os princípio de engenharia, devido à desproporção da torre para o corpo estrutural do templo, apresentava, além das que já existiam, diversas novas fendas, ameaçando a torre vir abaixo".


Técnicos que estiveram no local, "dada a violência do abalo, não sabem como essa torre não se derruiu completamente".



CRÉDITO,ALBERTO VELOSO
Legenda da foto,

A Igreja São Benedito (imagem atual), em Espírito Santo do Pinhal, sofreu abalos em sua estrutura depois do terremoto


Ainda de acordo com os jornais dos dias seguintes ao evento, citados no livro Sismicidade do Brasil, em diversas casas, os móveis que existiam no interior foram atirados ao chão e as louças de uso doméstico ficaram quase todas quebradas.


"Além disso, "diversas lojas tiveram as suas prateleiras caídas, sendo que vários negociantes foram muito prejudicados com quebra de mercadorias frágeis".

Registro de morte


O sismo durou apenas 5 segundos, mas foi o suficiente para assustar todo mundo. Segundo os jornais, a população, "em trajes ligeiros, veio à rua". Depois do tremor, algumas pessoas não voltaram mais para suas casas com medo de repetição do fenômeno. "Os primeiros trens deixaram a cidade abarrotados de pessoas que a abandonavam."


A quase 200 quilômetros dali, na capital paulista, também houve danos, pânico e agitação. Em um vídeo sobre o terremoto, postado em seu canal no YouTube, Veloso diz que a cidade já era grande na época, com seus quase 65 mil prédios e cerca de 650 mil habitantes. "O tremor foi sentido em toda a capital e as pessoas ficaram assustadas", conta.



CRÉDITO,MARCELO ASSUMPÇÃO

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"Numerosas famílias abandonaram lares e foram as ruas. A Praça da República foi invadida por senhoras e senhoritas em trajes menores. Na rua Anna Cintra, ruiu parte do telhado de um prédio, causando enorme susto. Na avenida Paulista, Vila Mariana, em Santana o terremoto foi mais sensível e, racharam-se várias paredes de residência particulares."


Ele teria causado ainda pelo menos uma vítima fatal. "Jornais dão nome, idade e endereço do morto que, segundo palavras do delegado e do legista, faleceu de susto causado pelo sismo", conta Veloso.


A vítima teria sido o operário Vicente Júlio Novaes Júnior, de 58 anos, que teria tido uma "síncope" logo depois do abalo.


A princípio ninguém sabia o que tinha acontecido. Segundo Veloso, o próprio governador, Washington Luís, acreditou ter ocorrido uma convulsão social, uma revolta com o uso de dinamite.


"Após negativa da polícia, ele procurou informações no Observatório Meteorológico, que contava com barógrafos, instrumento que mede a pressão atmosférica e a registra continuamente, mas não terremoto. O equipamento registrou o início do abalo, no entanto, às 3h50min40."


O diretor do Observatório, José Nunes Belfort de Mattos, informou a duração de 4 segundos e amplitude 8 centímetros do sinal registrado.


"Baseado apenas naquela amplitude, ele interpretou que o solo da cidade de São Paulo subiu e desceu oito centímetros, o que não era correto", diz Veloso. Mas outro observatório, o Nacional do Rio de Janeiro, registrou o terremoto.


"O encarregado da sismologia, Alex Lemos, fez a leitura no sismograma e estimou a distância até o epicentro em 400 quilômetros", conta Veloso.



CRÉDITO,MARCELO ASSUMPÇÃO


Dois estudos mais abrangentes do sismo de Espírito Santo Pinhal só foram feitos 57 anos depois, em 1979. Um deles pelo próprio Veloso.


"Eu e um colega da UnB, Jorge Mendes, estudamos o tremor e sua magnitude através da área de percepção", explica. "Estimamos que ela foi 4.8, com erro de mais ou menos 0.3, coincidindo, então, com a magnitude consagrada de 5.1."


O outro, mais aprofundado, foi realizado por Assumpção, que contava com uma equipe maior. Ele pesquisou a área onde o abalo foi sentido e o grau de intensidade em cada local.


"Isso tornou possível estimar a magnitude Richter (5.1) e o seu epicentro, que foi perto de Espírito Santo do Pinhal e São João da Boa Vista, no Estado de São Paulo", conta. "Um sismo dessa magnitude, nessa região do limite entre São Paulo e Minas Gerais, ocorre uma vez a cada 400 anos. É muito raro, portanto, ocorrer outro igual. Mas não é impossível."


De acordo com Assumpção, assim como todos os terremotos no Brasil, o de 1922 foi consequência indireta das forças que movimentam as placas tectônicas.


"Mesmo estando longe das bordas da Placa Sul-Americana, numa região que chamamos de intraplaca, o Brasil está submetido a pressões geológicas que podem causar tremores", explica. "Alguns com magnitudes perto de 5 ou mais têm causado danos."


Algumas regiões do país são mais propensas a sismos do que outras. Uma delas é justamente a da divisa entre São Paulo e Minas Gerais, que vai desde Espirito Santo do Pinhal (SP), passando por Poços de Caldas, até Araxá (MG). "Uma hipótese possível para explicar essa maior sismicidade, é que nessa região a placa sul-americana é mais fina, o que concentra as pressões geológicas que vêm das bordas das placas", diz Assumpção.


Ele alerta que, apesar de muito raramente causar danos em construções civis, o estudo dos tremores é importante para garantir a segurança de instalações críticas, como usinas nucleares e barragens de hidrelétricas e de rejeitos de minério, por exemplo.


"Nesses casos, é preciso levar em conta eventos 'extremos', isto é, fortes e muito raros, mas que podem ter consequências catastróficas se não forem tomados cuidados de segurança", diz. "Para usinas nucleares e barragens de rejeito, por exemplo, a legislação exige que se considere eventos com período de recorrência de 10.000 anos."




Autor: Evanildo da Silveira
Fonte: Vera Cruz (RS) para BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 27/01/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-60147867

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Costa do Nordeste já sofreu com Tsunami após terremoto que atingiu Portugal



Trabalho de campo na praia de Pontinhas, Pitimbu (PB), contou com a participação do professor Pedro Costa, da Universidade de Coimbra/Instituto Dom Luiz (Fotos: Divulgação/Uerj)

No dia 1º de novembro de 1755, Lisboa foi arrasada por um terremoto que desencadeou um dos mais devastadores tsunamis, atingindo as costas atlânticas da África, América e Europa. Até recentemente, os impactos transatlânticos deste tsunami tinham sido descritos apenas para algumas ilhas do Caribe, mas o grupo de pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) realizou um trabalho de campo, no qual percorreu 270 km, incluindo 22 praias, entre o Rio Grande do Norte e o sul de Pernambuco. Entre as amostras coletadas em quatro diferentes locais, uma delas apresentou evidências da chegada do tsunami também na costa brasileira.

Os pesquisadores analisaram documentos históricos, rodaram modelos numéricos e coletaram dados sedimentológicos que confirmam a chegada do tsunami de 1755 também no Nordeste do país. Para selecionar os pontos mais prováveis de terem preservado o registro geológico desse evento, os pesquisadores partiram dos registros históricos disponíveis sobre um possível impacto do tsunami na costa brasileira, o grupo realizou simulação numérica para identificar áreas ao longo da costa mais suscetíveis a fortes inundações naquele ano.

Com base nisso, vários levantamentos sedimentológicos foram realizados. Em Pontinhas (PB), foi possível detectar uma camada peculiar de areia grossa. Análises geoquímicas, do tamanho de grão, e outros itens das camadas sedimentares sugerem uma associação com um evento de alta energia como responsável pela deposição. Com base em todos os dados de modelagem histórica, sedimentológica e numérica apresentados, os pesquisadores da Uerj indicam uma associação altamente provável e compatível ao tsunami de 1755, demonstrando pela primeira vez as evidências desse fenômeno no Atlântico Sul.

O estudo resultou no artigo intitulado “Can modeling the geologic record contribute to constraining the tectonic source of the AD 1755 Great Lisbon earthquake?”, submetido ao periódico Earth ans Space Science, da American Geophysical Union, e que aguarda publicação. Ele descreve as simulações de runup (a altitude que a onda chegou na praia) e run in (o quanto a onda adentrou o continente). Os resultados de runup mostraram valores de 1,8 a 1,7 metro para a região de Lucena; de 1,5 a 1,1 metro para a região de Pitimbu, ambas na Paraíba; e a variação entre 1,9 e 1,8 metro para região de Tamandaré, em Pernambuco. Com relação aos valores de inundação, foram obtidos resultados de até quatro quilômetros distantes da linha de costa, principalmente em locais com influência de rios, nas proximidades da Ilha de Itamaracá (PE).

Segundo Francisco Dourado, que recebe apoio da FAPERJ para a realização de sua pesquisa por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado, esses valores validam o modelo associado aos registros históricos que relatam “[...] enchente do terremoto entrou pela terra dentro, couza de humalegoa [...]” (citado por Alberto Veloso, membro da equipe, no livro “Tremeu a Europa e o Brasil também.”,2015, p. 125), sendo uma légua equivalente entre quatro e cinco quilômetros.

Grupo de pesquisa coordenado por Dourado sobre desastres naturais, o Cepedes (www.cepedes.uerj.br) ainda possui um projeto aprovado dentro do Brics – grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, cujo objetivo é a troca de experiências entre Brasil, China e Rússia sobre metodologias de mapeamento de áreas de risco de deslizamentos em regiões montanhosas. A área de estudo no Brasil será a região serrana do Rio de Janeiro. "Estão programadas visitas em Chengdu, na base da cordilheira do Himalaia na China e na região de Sochi, na Rússia, palco das Olímpiadas de Inverno de 2014, assim como a vinda de delegações da China e da Rússia que serão recebidas na Uerj. Desses encontros, espera-se recomendação sobre as melhores práticas de mapeamento de áreas de risco a deslizamentos de terra encontradas nos três países", conta Dourado.

O grupo de pesquisa, composto por alunos de graduação, de pós-graduação, docentes e outros pesquisadores da Uerj e de outras instituições de pesquisa do Rio de Janeiro, ainda possui um projeto de extensão em escolas públicas do estado, onde é usada a técnica da "Realidade Aumentada" em uma caixa de areia para simular locais com maior risco de deslizamentos e inundações. "Foram feitas visitas a 22 escolas entre 2017 e 2019. Nesses encontros, foram abordadas questões sobre desastres naturais, que alcançaram um público de mais de 11 mil alunos e funcionários", diz o pesquisador.

Como lembra Francisco Dourado, todos os anos, centenas de pessoas morrem no Brasil devido a desastres naturais e a média anual de mortes devido essa causa tem crescido anualmente. O Estado do Rio de Janeiro tem ocupado lugar de destaque nessas estatísticas, principalmente pelos grandes acidentes que ocorreram nos últimos anos. O impacto humano e social desses desastres é bem significativo. Ainda não há um método para eliminar a ocorrência de desastres naturais, mas segundo ele ações podem ser tomadas no intuito de se diminuir a vulnerabilidade e aumentar a resiliência das comunidades. Para isso, a sociedade precisa conhecer os perigos aos quais está exposta e as perdas potenciais devido a esses processos perigosos. Nesse sentido, procura treinar e capacitar a população exposta a processos perigosos e técnicos dos
Governos do Estado e dos municípios do Rio de Janeiro
para minimizar o número de mortes e outras perdas.




Autor: Claudia Jurberg
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 15/10/20
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4088.2.7