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quinta-feira, 30 de março de 2023

Usinas nucleares, joias das Arábias e outros trambiques



Usinas nucleares, joias das Arábias e outros trambiques, artigo de Heitor Scalambrini Costa

Vejamos o que ocorre no mundo dos negócios nucleares no Brasil

Escândalos, mais escândalos. Não deixam de ser pedagógicos, mesmo muito deles serem crimes de corrupção, hediondos, de lesa-pátria. Todavia acabam desnudando para a sociedade brasileira os reais interesses envolvidos, no vale tudo dos trambiques realizados no chamado “mundo dos negócios”.


Bem, vejamos o que ocorre no mundo dos negócios nucleares no Brasil.

O país sofre o assédio das empresas que constroem e vendem equipamentos e acessórios para usinas nucleares, das empresas de construção civil que se locupletam ganhando bilhões nas obras, dos setores militares que sonham em possuir a bomba atômica, de acadêmicos que aceitam as migalhas para seus projetos de pesquisa, e satisfação do ego. E dos políticos que só pensam naquilo, nas suas próprias eleições, e assim aceitam os agrados oferecidos às suas campanhas.

Um lobby poderoso reunido na Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares- ABDAN é quem agrega os integrantes deste metauniverso de apoiadores das usinas nucleares no país.

Com as mudanças ocorridas desde o final do século passado, o setor elétrico – responsável pela garantia no fornecimento de energia elétrica – que até então era um serviço ofertado pelo Estado, se transformou em uma mera mercadoria, seguindo as leis do mercado. O processo de mercantilização resultou em tarifas escandalosas e serviços de baixa qualidade. Além dos riscos de abastecimento elétrico com crises originadas de erros e escolhas equivocadas na condução da política energética.

Mas voltemos ao propósito do artigo que é destacar as irregularidades que os negócios nucleares e seus agentes se envolvem com frequência, com mentiras, falcatruas, transações caliginosas, desrespeito às leis vigentes, e ocultação da opinião pública e órgãos de fiscalização, de informações importantes. Tais posturas, comportamentos e ações só afetam e aumentam a desconfiança no discurso e na prática dos defensores da tecnologia nuclear para produzir eletricidade.

Um dos últimos acontecimentos que estão nas páginas policiais, envolvendo autoridades e agentes públicos, diz respeito ao almirante, ex-ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque, um dos líderes do lobby pró nuclear. Sua comitiva tentou entrar no país com joias femininas, e acessórios masculinos, no valor de 16,5 milhões de reais, sem a devida declaração à aduana brasileira. A faceta deste militar, agindo como um fora da lei, não conhecíamos. E imaginar que tal personagem comandou um Ministério que influenciou a tomada de decisões pró-nuclear!

O vazamento em Angra I, que acabou lançando água contaminada com material radioativo na Baía de Itaorna, em Angra dos Reis, em setembro de 2022, foi omitido pelas autoridades responsáveis, só vindo a público 6 meses depois do fato ocorrido. Evidências são claras de que houve tentativa de esconder o vazamento, deixando nítida a falta de compromisso e seriedade da Eletronuclear e de seus dirigentes com a transparência, em se tratando da segurança de pessoas e do meio ambiente. Este modus-operandi é bem conhecido na mineração de urânio em Caetité, na Bahia no que diz respeito a eventos radioativos, perigosos, mantidos em sigilo e, quando denunciados, sempre classificados como inofensivos.

Não foram os únicos escândalos envolvendo segmentos da área nuclear, pelo contrário. Lembramos o caso da operação da Polícia Federal-PF, denominada de “Radioatividade”. Segundo a PF nas obras de Angra 3, foi investigada a formação de cartel que definia previamente, entre as empresas construtoras, os valores propostos nas licitações. Nesta operação houve também o indiciamento do almirante ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, acusado de receber propina.

Não se pode deixar de mencionar a criação em 1979, pelos militares, do Programa Nuclear Paralelo-PNP totalmente clandestino, sem fiscalização nacional e internacional, que nunca foi admitido publicamente. O objetivo era desenvolver a técnica de ultracentrifugação para o enriquecimento de urânio. Assim, a fabricação da bomba atômica tupiniquim seria possível. Os trabalhos permaneceram secretos, até que uma reportagem em 1986, do jornal Folha de São Paulo, revelou a existência de poços profundos na Serra do Cachimbo, no Pará, e no Raso da Catarina, reserva ecológica de Paulo Afonso, no semiárido baiano. Tudo indicando que seriam para testes com artefatos nucleares.

Em 1988 foi promulgada a atual Constituição, que proíbe o uso da energia nuclear para fins bélicos. Assim, o PNP passou a ser “legítimo” e controlado pela estatal Eletronuclear.

A retomada do Programa Nuclear Brasileiro, com maior ênfase, se deu em junho de 2007. Sem nenhuma discussão com a sociedade brasileira foi reativado pelo Conselho Nacional de Política Energética-CNPE, colegiado de aproximadamente uma dezena de participantes (grande maioria ministros de Estado), que assessoram a Presidência da República. Em recente modificação na composição do CNPE, já no governo atual, novos integrantes foram incorporados. Todavia, ainda carece de representação igualitária entre sociedade civil e representantes governamentais.

Estes são alguns dos fatos históricos que ajudam a entender os interesses que estão por trás da construção de novas usinas nucleares no país, evidenciando que nas questões nucleares prevalece a cultura do segredo, da falta de transparência, e de negócios escusos.

Assim, a pergunta que não quer calar é: Qual a credibilidade destes agentes públicos, dirigentes, empresários, políticos e acadêmicos que tentam convencer a sociedade brasileira de que as usinas nucleares são importantes e necessárias ao Brasil?

Heitor Scalambrini Costa, doutor em Energética
Professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394




Autor: ecodebate
Fonte: ecodebate
Sítio Online da Publicação: ecodebate
Data: 29/03/2023
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2023/03/29/usinas-nucleares-joias-das-arabias-e-outros-trambiques/

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Projetos de novas usinas nucleares: Perdemos a batalha, não a guerra

Projetos de novas usinas nucleares: Perdemos a batalha, não a guerra, artigo de Heitor Scalambrini Costa

O título retrata o estado de ânimo e de espírito diante das últimas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), definindo que legislar sobre atividades nucleares cabe exclusivamente a União Federal.

Este entendimento ocorreu após o ajuizamento, pelo Procurador Geral da República, de ações de inconstitucionalidade contra artigos e dispositivos de Constituições Estaduais que defendiam e protegiam suas populações e o meio ambiente de uma “catástrofe nuclear”.

Por exemplo, no caso de Pernambuco, o artigo 216 de sua Constituição Estadual restringia a instalação de usinas nucleares em seu território, desde que todas outras fontes energéticas já tivessem sido utilizadas. Segundo decisão do STF este dispositivo foi anulado, e assim, do ponto de vista jurídico, esta decisão vai facilitar a instalação de usinas nucleares em seu território, conforme defende o atual (des)governo federal.


As usinas nucleares, termoelétricas que transformam o calor produzido pelas reações nucleares em energia elétrica, é uma tecnologia em declínio de aceitação, principalmente pela possibilidade de ocorrer acidentes extremos, ou seja, vazamento de material radioativo para a atmosfera. Além do custo da energia gerada ser considerada uma das mais caras entre as opções energéticas para termoelétricas. Hoje seu custo por MWh está em torno de 4 vezes maior que o produzido pelas usinas solares fotovoltaicas e eólicas.

Países como a Alemanha, Itália, Áustria, Bélgica, entre outros, já abandonaram esta tecnologia. Na França e no Japão novas instalações de usinas nucleares sofrem grandes resistências, de inúmeros e representativos grupos sociais. Nota-se mundialmente entre os povos, um posicionamento majoritário contrário a tecnologia nuclear, pois além do risco de uma tragédia com espalhamento de material radioativo para o solo-terra-ar; as usinas nucleares são caras, sujas e perigosas.

Diferentemente daqueles que defendem tal tecnologia para o Brasil, a nucleoeletricidade em nada contribui para a transição energética. No Brasil real as usinas Angra I e Angra II contribuem com menos de 2% da potência total instalada na matriz elétrica. O Plano Nacional de Energia (PNE) 2050, projeta uma ampliação da geração nuclear entre 8 e 10 Gigawatts (GW). Mesmo que esta potência seja agregada a matriz elétrica nos próximos anos, a contribuição da fonte nuclear continuaria mínima e desnecessária para segurança energética do país.

Existem inequívocos interesses econômicos e militares em promover as usinas nucleares, em detrimento ao interesse público. Econômicos, pois são construções caras, 5 bilhões de dólares cada usina de 1.200 Megawatts (MW), obviamente de grande interesse dos vendedores dos equipamentos e das empreiteiras. Do ponto de vista militar, um acordo binacional está em pleno andamento com a França para a construção de submarinos nucleares, cujo custo ao pais é estimado em 35 bilhões de reais. E sem dúvida na área militar, o desejo sempre desmentido, é pela construção de artefatos nucleares, como a bomba nuclear.

Assuntos gravíssimos e de interesse da sociedade brasileira, que impliquem consequências para as gerações futuras não estão sendo devidamente debatidos. Um deles é a nuclearização do pais em um continente até então pouco provido de atividades nucleares.

Heitor Scalambrini Costa
Professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco
Membro da Articulação Antinuclear Brasileira (AAB)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/11/2021





Autor: Heitor Scalambrini Costa
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 04/11/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/11/04/projetos-de-novas-usinas-nucleares-perdemos-a-batalha-nao-a-guerra/

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Acidentes em usinas nucleares quando ocorrem são catastróficos, artigo de Heitor Scalambrini Costa






Os argumentos dos defensores da energia nuclear como fonte de energia elétrica se baseiam principalmente em minimizar os riscos da ocorrência de acidentes nas usinas nucleares. Se referenciam em informações citando cientistas, instituições e organismos pró nuclear para suas alegações, e se aliam a setores econômicos que se beneficiam diretamente ou indiretamente da expansão desta tecnologia.

Uma das irresponsabilidades maiores dos defensores dos “negócios nucleares” é a insistência em minimizar, e mesmo de negar a possibilidade de acidentes nas usinas nucleoelétricas. Sendo o mais grave, chamado de acidente severo, que consiste na liberação de material radioativo do interior da usina para o meio ambiente.

Nas usinas nucleares existem distintas barreiras físicas para conter os gases radioativos produzidos. Desde as varetas de combustível, o vaso de pressão do reator, o envoltório de aço que abriga componentes e circuitos hidráulicos; até o invólucro de concreto que reveste a carcaça de aço, chamado edifício do reator. Apesar de todas estas proteções e cuidados para impedir que o material radioativo gerado pela reação de fissão nuclear (processo de divisão do núcleo atômico em outros núcleos, liberando grande quantidade de energia usada para produzir eletricidade), chegue ao meio ambiente, acidentes severos ocorreram em passado recente.

E porque a radioatividade (capacidade que alguns elementos possuem de emitir energia sob forma de partículas ou radiação eletromagnética) de inúmeros elementos fabricados artificialmente no processo de fissão nuclear é tão perigosa para os seres vivos?

A radiação emitida por estes elementos provoca basicamente nos seres vivos a destruição das células com o calor, e modificações celulares, e consequentemente mutações genéticas.

Os rejeitos produzidos pelo reator nuclear podem ser classificados em três níveis de radioatividade: alta, média e baixa. Considerando somente os rejeitos de alta radioatividade (também conhecido popularmente como lixo nuclear), ainda não há no mundo um lugar seguro para o depósito definitivo do lixo nuclear. No Brasil, assim como em outros países que tem usinas nucleares, este lixo de alta radioatividade fica no interior do edifício do reator, em piscinas. São rejeitos com longa meia vida (tempo necessário para a atividade de um elemento radioativo ser reduzida a metade), podendo alguns chegar a emitir radiação por dezenas de milhares de anos.

Quando nos referimos a radiação emitida por materiais radioativos estas podem ser: alfa, beta e gama. A mais perigosa é a radiação gama (radiação eletromagnética), altamente energética e de grande frequência, capaz de penetrar na matéria mais profundamente que a radiação do tipo alfa e beta. Devido à sua elevada energia, podem causar danos, no caso dos seres humanos, provocando graves lesões, e até a morte. Efeitos na saúde advindos da exposição à radiação são definidos como efeitos imediatos, e efeitos tardios.

Os efeitos somáticos podem ser imediatos, se a dose absorvida for muito alta, em torno de 1 Gray (unidade no Sistema Internacional de Unidades de dose absorvida), e recebida toda de uma só vez, os sintomas são náusea e vômitos, efeito conhecido como síndrome da radiação. No caso de doses absorvidas acima de 2 Grays podem levar a morte. À medida que a dose aumenta, as chances de sobrevivência diminuem.

Já os efeitos somáticos tardios são resultado de pequenas doses, mas continuadas num longo intervalo de tempo. São casos que ocorrem em pessoas ocupacionalmente expostas, como os radiologistas e os trabalhadores da mineração de urânio, por exemplo. Estes efeitos são: maior incidência de câncer, possibilidade de formação de catarata, e há evidências de que a expectativa de vida seja reduzida.

A investigação de efeitos somáticos, como por exemplo alguns tipos de câncer e a leucemia, nos leva a questionar a existência de um limiar de radiação que seja responsável pelo desencadeamento desses efeitos. A tendência atual, é de não aceitar a existência de um limiar de segurança absoluta. Pelo contrário, postula-se que haja uma relação contínua entre exposição e risco.

Diante do quadro dos efeitos da radiação através de elementos químicos criado no interior de uma usina nuclear, que podem ser liberados para o meio ambiente, caso ocorra um vazamento, as consequências são dramáticas e trágicas para a vida.

Logo, para que não corramos o risco de material radioativo ser liberado pelas usinas nucleares em um acidente, a única decisão acertada seria não construir tais usinas. O Brasil não precisa de usinas nucleares.

Heitor Scalambrini Costa é professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco. Físico, graduado na Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, com mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na UFPE, e doutorado na Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica-França.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/07/2019



Autor: Heitor Scalambrini Costa
Fonte: Ecodebate
Sítio Online da Publicação: Ecodebate
Data: 25/07/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/07/25/acidentes-em-usinas-nucleares-quando-ocorrem-sao-catastroficos-artigo-de-heitor-scalambrini-costa/

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Tudo o que você precisa saber sobre as usinas nucleares de Angra 1 e 2, e por que são diferentes de Chernobyl


Direito de imagemELETRONUCLEARImage captionUsinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita); os reatores, onde a energia nuclear é gerada, ficam dentro das estruturas brancas

A recém-lançada série de TV Chernobyl, sobre um dos piores acidentes nucleares no mundo, na usina de mesmo nome, na Ucrânia Soviética, em 1986, fez telespectadores brasileiros questionarem como é a produção de energia nuclear no Brasil, na Central Nuclear em Angra dos Reis (RJ).

"Terminei Chernobyl e estou tentando não surtar por morar perto das usinas de Angra dos Reis", escreveu uma pessoa no Twitter. "Assisti Chernobyl ontem, mas algo agora me assola: quais reatores são usados nas usinas de Angra 1 e 2?", disse outra. "Depois de ver Chernobyl, só consigo pensar que nós temos Angra."

"O tema nuclear inspira um profundo medo na sociedade, o que amplifica muito a percepção dos reais riscos", pondera Leonam dos Santos Guimarães, presidente da Eletronuclear, responsável pelas usinas nucleares do Brasil e subsidiária da Eletrobras, controlada pelo governo federal.

"Isso ocorre porque (a tecnologia nuclear) teve o pior marketing da história. Foi apresentada à humanidade através do holocausto de Hiroshima e Nagasaki (cidades japonesas onde os Estados Unidos lançaram bombas atômicas, em 1945). Logo a seguir veio a Guerra Fria, com ameaça de destruição em larga escala com bombas nucleares", diz Guimarães.

Como, então, é a produção de energia nuclear no Brasil? Por que as usinas estão localizadas em Angra dos Reis, área turística com floresta e mar exuberantes entre São Paulo e Rio de Janeiro, as cidades mais populosas do Brasil? E quais são as medidas de segurança tomadas para evitar um acidente nuclear, como o retratado pela série produzida pela HBO?

Chance de acidente é muito baixa, mas impactos seriam graves

O Brasil tem apenas duas usinas nucleares, Angra 1 e Angra 2, responsáveis pela produção de 3% da energia consumida no país - para comparação, a usina hidrelétrica de Itaipu gera 15%.

Angra 1 entrou em operação comercial em 1985 e, Angra 2, em 2001. A construção de uma terceira usina, Angra 3, foi iniciada há 35 anos, tem 62% das obras executadas, mas atualmente o canteiro encontra-se paralisado.

A instalação das usinas em Angra levou em conta justamente a proximidade tanto do Rio como de São Paulo. Dessa forma, é mais fácil transmitir a energia produzida para os grandes centros de consumo. Além disso, estar perto do mar é importante, já que é preciso muita água para resfriar o sistema - vale dizer que essa água não entra em contato com a radioatividade.


Direito de imagemMAXAR TECHNOLOGIES/GOOGLE EARTHImage captionVista aérea das usinas de Angra 1 e Angra 2, envoltas pelo mar e floresta de Angra dos Reis

Em uma usina nuclear, a energia é gerada pelo processo de fissão nuclear do urânio - ou seja, a quebra dos átomos - que ocorre dentro de uma estrutura chamada de reator.

Uma pequena pastilha de urânio enriquecido, com o tamanho de uma bala, é capaz de produzir a mesma eletricidade que 22 caminhões tanques de óleo diesel. "O combustível nuclear é o mais denso que o homem pode utilizar, ou seja, uma pequena quantidade produz muita energia", explica Guimarães.

O combustível usado no reator é formado por centenas dessas pastilhas. É um material radioativo, que se torna ainda mais radioativo com o processo de fissão.

"Um acidente nuclear é basicamente o vazamento do material radioativo", explica Roberto Schaeffer, professor do Programa de Planejamento Energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "É muito mais provável que outras barragens no Brasil se rompam do que ocorra um acidente em Angra. Ainda assim, me assusta mais um acidente em Angra, devido à possível severidade", opina.

Segundo Guimarães, "a prática da indústria prevê uma probabilidade de acidente severo, com liberação de material radioativo para o ambiente, na ordem de um a cada um milhão de anos".

O físico e mestre em engenharia nuclear Luiz Pinguelli Rosa, professor emérito do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ, reconhece que existem diversos dispositivos para evitar que material radioativo vaze para o meio ambiente. "Mas (essa tecnologia) falhou em Three Mile Island (acidente nuclear nos Estados Unidos, em 1979), em Chernobyl e em Fukushima (acidente nuclear no Japão, em 2011). Desde então houve um avanço, mas não foi definitivo", avalia.


Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionSegundo testemunhas, a série Chernobyl faz um retrato fiel dos efeitos da radiação no corpo humano; na imagem, um membro da equipe de limpeza no telhado da usina soviética
Angra 1 e Angra 2 têm reatores diferentes do usado em Chernobyl

As usinas brasileiras são de um tipo diferente de Chernobyl. O reator usado em Angra 1 e Angra 2 é chamado PWR, onde o processo de fissão é controlado com água pressurizada. É o tipo de reator mais utilizado no mundo.

Já o reator de Chernobyl usava grafite para controlar o processo. Depois de uma explosão de vapor, o grafite incendiou, enviando radioatividade para atmosfera. O fogo demorou oito dias para ser controlado.

"São tecnologias completamente diferentes. O acidente que ocorreu em Chernobyl é impossível de ocorrer em um reator PWR, porque água não pega fogo", explica Pinguelli.

"O que pode ocorrer (no reator PWR) é uma explosão de vapor, que espalhe material radioativo no ambiente", completa o pesquisador. Há uma série de procedimentos de segurança para evitar que uma explosão como essa ocorra. Por isso, é algo "muito pouco provável, mas não quer dizer que seja impossível".

Caso algo ocorra, o sistema conta com barreiras de contenção sucessivas, para que o material radioativo não se espalhe para o ambiente externo. Em usinas como as de Angra, a quantidade dessas barreiras de contenção é superior à que existia em Chernobyl.


Direito de imagemELETRONUCLEARImage captionIlustração mostra como é a estrutura de Angra 2: 5-reator, 6-piscina de combustível usado, 7-barreira de contenção de aço, 8-barreira de contenção de concreto, 1,2,3 e 4- turbinas e geradores, 9-sala de controle, 10-administração

Primeiro, as pastilhas combustíveis têm uma estrutura molecular de barreira, para reter os produtos gerados na fissão, que são radioativos. Essas pastilhas, por sua vez, ficam dentro de um tubo feito de uma liga metálica especial, que também visa bloquear a saída de radiação.

Os tubos são posicionados no interior do vaso reator, feito de três centímetros de aço especial "projetado para resistir ao mais sério acidente", segundo a Eletronuclear.

Em Angra 1, só a tampa do reator pesa cerca de 40 toneladas. Ela teve que ser trocada, porque se descobriu que o material de que era feita era suscetível à corrosão sob tensão. Não havia nenhum sinal de deterioração, mas por medida de segurança, foi substituída.

Por fim, o reator está dentro de uma estrutura com de 70 centímetros de concreto e uma camada de aço.

Outro tipo de acidente possível - embora também improvável - é qualquer situação externa que comprometa a estrutura onde fica o reator, comprometendo as barreiras de contenção.

É o caso de uma queda de avião no local. "A região de Angra está em uma das rotas de aviação mais movimentadas do mundo (a ponte aérea Rio-São Paulo). Então, existe o risco de um avião cair ali", diz Schaeffer. Por exemplo, a rota aérea entre o Aeroporto de Viracopos, em Campinas, e o Aeroporto de Galeão, no Rio de Janeiro, passa a cerca de quatro quilômetros de Angra 1 e Angra 2 - segundo os trajetos exibidos no site FlightRadar24.com.

Um terremoto ou maremoto nas proximidades também poderia abalar as estruturas do reator. É o que ocorreu com a usina de Fukushima, o maior acidente nuclear desde Chernobyl. Após um maremoto, foi formado um tsunami, que atingiu a usina, comprometendo os geradores de energia que eram usados para resfriar o sistema. Em consequência disso, ocorreram falhas - como derretimento e explosões nos reatores - que espalharam material radioativo.

O Brasil, porém, não tem histórico de terremotos e maremotos. Mesmo assim, após o acidente de Fukushima, a Eletronuclear fez verificações de segurança em Angra, reavaliando a capacidade da estrutura de lidar com intempéries naturais.


Direito de imagemCORTESIA DE FLIGHTRADAR24.COMImage captionMapa do Flightradar24.com mostra rota de avião passando a cerca de quatro quilômetros de Angra 1 e Angra 2
Combustível usado continua radioativo e precisa ser armazenado

Em uma usina nuclear, o reator não é o único local com material radioativo.

Depois de usado, o combustível continua extremamente radioativo. Por isso, precisa ser armazenado em condições especiais, para evitar vazamento e contaminação. Não se sabe por quanto tempo esse material permanece perigoso - o prazo pode chegar a 200 mil anos.

"É preciso tomar conta do combustível nuclear usado, como uma babá cuida de um bebê, por milhares de anos. Nesse prazo, há sempre o risco de algo acontecer. É uma maldade com gerações futuras", opina Schaeffer.

Então, o que é feito com esse combustível usado e radioativo? "Quando o combustível sai do reator, ele é tão perigoso que não é possível transportá-lo. Então, a solução é fazer o armazenamento ao lado do reator", explica Pinguelli.

Dessa forma, todo o combustível já usado ao longo dos 34 anos de operação de Angra 1 e 18 anos de Angra 2 está armazenado na Central Nuclear de Angra dos Reis. São colocados em duas piscinas profundas, cheias de água, constantemente monitoradas, localizadas dentro das barreiras de contenção que também protegem o reator.

"Hoje, temos 1.800 elementos combustíveis nas piscinas de armazenagem. Juntas, as duas piscinas não chegam a uma semiolímpica", explica o presidente da Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães.

"O armazenamento do combustível de alta radioatividade em piscinas não é uma boa solução. Era para serem depósitos provisórios. Mas, até hoje, não há uma solução adequada e definitiva. Esse não é um problema exclusivo dos brasileiros, mas dos americanos, europeus...", fala Pinguelli.

Já Guimarães, da Eletronuclear, argumenta que alguns países, como França e Rússia, estão conseguindo reciclar até 90% do combustível usado - o restante ainda deve ser estocado a longuíssimo prazo. A seguir, esse novo composto reciclado é reutilizado no reator. "Mas não é algo disseminado, porque é mais caro que um combustível novo."

De todo modo, defende Guimarães, essa reciclagem pode vir a ser feita no futuro. Assim, "em vez de ver o combustível usado como um legado negativo para futuras gerações, se armazenado de forma segura, é um legado positivo", já que poderá ser usado para produzir energia novamente.


Direito de imagemELETRONUCLEARImage captionPiscina de armazenamento de combustível nuclear usado, em Angra
Plano de emergência prevê evacuação de raio de 3 km

Caso as medidas de segurança e barreiras de contenção não sejam capazes de conter um vazamento, entra em ação o plano de emergência. Ele estabelece diferentes raios de ação, dependendo da gravidade do acidente.

O primeiro raio é de 3 km ao redor da Central Nuclear, englobando uma pequena vila de trabalhadores de Angra 1 e Angra 2, chamada de Praia Brava, e alguns pontos da Estação Ecológica de Tamoios - afetando em torno de 2 mil pessoas.

A cada dois anos, são realizados treinamentos de evacuação de emergência nessa área, diz a Eletronuclear. Esses testes contam com a participação do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, além da Defesa Civil do Rio de Janeiro.

Em situações mais graves, o raio de ações de emergência subiria para até 15 quilômetros, o que inclui parte da cidade de Angra dos Reis, a Praia de Tarituba em Paraty, e outros trechos da Estação Ecológica de Tamoios.

"Um acidente de média proporção poderia espalhar (radiação) por um raio maior do que isso. Mas não chegaria a São Paulo e Rio de Janeiro", explica o professor Pinguelli.

No caso de Chernobyl, a radiação se espalhou por diversos pontos da Europa. Isso ocorreu, em parte, devido ao incêndio prolongado e a condições atmosféricas desfavoráveis, que levaram a radiação para longe.

A cidade de Pripyat, a cerca de 4 km da usina nuclear, foi evacuada. Até hoje, mais de três décadas após o acidente, existe uma zona de exclusão de 30 km ao redor de Chernobyl, onde é proibido viver.

Além do plano de emergência, a Eletronuclear monitora os níveis de radiação no meio ambiente ao redor das usinas. As conclusões, até agora, são que não houve alterações.


Direito de imagemELETRONUCLEARImage captionMapa mostra diferentes raios de ação para o planejamento de emergência da Central Nuclear de Angra
Energia que não produz carbono, mas gera lixo radioativo

Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia do governo de Jair Bolsonaro, já declarou que Angra 3 "é um projeto prioritário". Para finalizá-lo, são necessários cerca de R$ 15 bilhões. Nesse momento, a Eletronorte está estruturando alternativas para financiar o empreendimento.

"Esperamos que no final do ano que vem possamos retomar as obras no canteiro. A previsão de entrada em operação comercial de Angra 3 é 2026", diz Leonam Guimarães, presidente da empresa - um de seus antecessores no cargo, Othon Luiz Pinheiro da Silva, foi preso no âmbito da Operação Lava Jato, acusado de corrupção durante as obras de Angra 3.

A nova usina é considerada "irmã gêmea" de Angra 2. "É como se você fosse comprar um carro zero quilômetro e escolhesse um Opala. Ele é novo, nunca foi usado, mas não tem a tecnologia de hoje, não tem Airbag, por exemplo. Então, Angra 3 é uma usina nova, com tecnologia velha", diz Schaeffer.

Porém, Guimarães explica que o projeto de Angra 3 foi sendo atualizado ao longo dos anos. Por exemplo, seu controle será digital, ao contrário de Angra 2, que é analógico. De certa forma, seria como acrescentar um Airbag no Opala.

"Não podemos dizer que o Brasil está defasado. Na verdade, o mundo todo está. A tecnologia nuclear é uma tecnologia antiga, velha. Experimentou muito avanço durante algumas décadas, depois não mais", afirma Pinguelli.

A maior parte das usinas nucleares foi construída entre os anos 1970 e 1980. Com uma vida útil média de 40 anos, muitas delas estão próximas do fim da sua operação. "Nesse momento, a indústria nuclear mundial está diminuindo e não crescendo. O motivo é que mais usinas antigas estão sendo aposentadas, porque já atingiram sua vida útil, do que usinas estão sendo construídas", fala Schaeffer.


Direito de imagemELETRONUCLEARImage captionAngra 3 está em construção há mais de três décadas e foi investigada pela Operação Lava Jato

Se por um lado algumas usinas estão se aposentando, outras estão pedindo a expansão da licença de operação para mais 20 anos. É o que deve ocorrer com Angra 1 em um futuro próximo. Em 2024, expira a licença da usina. No final deste ano, a Eletronuclear espera dar entrada em uma solicitação de extensão das atividades por duas décadas.

Além da conclusão de Angra 3, a Eletronuclear e alguns especialistas em energia defendem a construção de novas usinas nucleares no Brasil.

Um dos principais argumentos é que o Brasil é um dos poucos países do mundo com condições de atuar em todo o processo de produção de energia atômica: possui uma das maiores reservas de urânio do mundo (localizada na Bahia), tem tecnologia para enriquecer o material (no município fluminense de Resende) e possui usinas há mais de três décadas. "Só Brasil, Estados Unidos e Rússia reúnem essas três condições", fala Guimarães.

Outro argumento pró-usinas nucleares é que, assim como as fontes renováveis, elas não geram gases causadores de efeito estufa. Por outro lado, ao contrário das renováveis, não dependem de condições climáticas. Ou seja, sem vento, sem sol ou com queda dos níveis dos rios, a produção de energia eólica, solar e hidrelétrica pode diminuir. Já a nuclear é capaz de funcionar continuamente.

"Se queremos descarbonizar a geração elétrica, temos que combinar as duas tecnologias disponíveis: as renováveis, que são intermitentes, e a nuclear, que consegue produzir energia o tempo todo", defende o presidente da Eletronuclear.

Já entre os argumentos contrários está o preço elevado da energia nuclear - a energia de Angra 3 deve ser mais cara até do que a geração solar. Entre os fatores que encarecem a produção estão, inclusive, as elevadas exigências de segurança. Além disso, pesam contra a energia nuclear os riscos de acidentes e a geração de um lixo radioativo que precisa ser armazenado e monitorado indefinidamente - por milhares de anos, considerando a tecnologia atual.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 23/06/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48683942