segunda-feira, 28 de maio de 2018

Mosca varejeira usa saliva para se refrescar, revela pesquisa




O comportamento de ingestão da gota de saliva após o processo de evaporação já era conhecido, mas se acreditava tivesse a função apenas de concentrar nutrientes e reduzir o peso da mosca durante o voo, e não termorregulação, como revelado agora – Foto: Muhammad Mahdi Karim via Wikimedia – CC

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As moscas varejeiras usam gotículas de saliva para resfriar a temperatura de seus corpos. Elas projetam uma gota de saliva para fora do aparato bucal e, em seguida, a recolhem de volta, o que viabiliza a evaporação de água presente na secreção e seu consequente resfriamento. A repetição do mecanismo faz a gota de saliva perder até 8°C em relação ao ambiente em apenas 15 segundos. Essa forma de regulação de temperatura corporal da Chrysomya megacephala nunca havia sido descrita até a publicação, nesta quinta-feira, do artigo Droplet bubbling evaporatively cools a blowfly, na revista on-line Scientific Reports.

“Quando a mosca engole novamente essa gota, ela consegue resfriar, primeiramente, a cabeça; posteriormente, o tórax e, por fim, o abdômen”, conta o biólogo Guilherme Gomes, pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e um dos autores do artigo. O mecanismo permite à mosca diminuir consideravelmente a temperatura e o metabolismo de tecidos que geram alto gasto energético. “Ela faz ciclos sequenciais de três, quatro, cinco vezes. Algumas fazem até 15 vezes esse ciclo”, completa Gomes.

O grupo de pesquisadores, composto de cientistas da USP e da Unesp, utilizou uma câmera termográfica para registrar as atividades das moscas ao longo de dias. As imagens permitiram medir a temperatura corpórea superficial dos insetos em diferentes horários e condições “climáticas”. Com os dados obtidos a partir dos experimentos, os cientistas construíram um modelo matemático para compreender e descrever o processo de termorregulação da Chrysomya megacephala por meio da evaporação da saliva. “O que nós fizemos foi aplicar princípios básicos de conservação de energia para este caso”, diz o físico Roland Köberle, professor do IFSC-USP e coautor do paper.

O modelo indica que, após a mosca realizar seis vezes o ciclo de ingestão da gota, há uma queda de 3°C na cabeça, 1,6°C no tórax e 0,8°C no abdômen do animal. A frequência do comportamento varia de acordo com a temperatura ambiente: quanto maior o calor, mais frequente é a extrusão de gotas de saliva. No entanto, com umidade do ar superior a 80%, o mecanismo perde eficiência e as moscas deixam de engolir as gotas.

Os pesquisadores também notaram que as moscas repetiam o comportamento com maior frequência no escuro, o que indica uma variação que acompanha os períodos de atividade e inatividade desses insetos diurnos, possibilitando a diminuição da atividade neural durante o repouso. “Ela reduz entre 2°C e 3°C a temperatura corpórea por oito horas, repetindo esse comportamento a cada 30 ou 60 minutos”, explica Gomes.

O comportamento de ingestão da gota de saliva após o processo de evaporação já era conhecido, mas se acreditava que tivesse a função apenas de concentrar nutrientes e reduzir o peso da mosca durante o voo. Agora, a extrusão e a ingestão de gotas de saliva aparecem como um mecanismo de termorregulação análogo à transpiração, em humanos, e à ofegação, nos cães.

A capacidade de controlar a temperatura, conforme demonstrado no trabalho, é uma das características evolutivas mais interessantes das moscas. “Moscas e insetos em geral são os organismos que estão mais adaptados ao ambiente terrestre, longe de qualquer outro. Eles sobrevivem bem com pouca coisa, têm a capacidade de separar as faixas etárias do desenvolvimento, de controlar e reduzir perda de água através de processos excretórios específicos, grande eficiência na percepção sensorial do ambiente e a troca de gases deles é uma das formas mais eficientes do ponto de vista de circulação”, afirma o biólogo.

Assista abaixo a entrevista publicada no Canal USP.

Mais informações: e-mail guigomes@gmail.com, Guilherme Gomes
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Autor: Jornal USP
Fonte: Jornal USP
Sítio Online da Publicação: Jornal USP
Data de Publicação: 25/04/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/mosca-varejeira-usa-saliva-para-se-refrescar/

Molécula descoberta em pesquisa brasileira pode salvar diabo-da-tasmânia de extinção



Diabo-da-tasmânia: entre 70% e 90% dos espécimes morreram nos últimos 15 anos, grande parte de câncer de face, tumor altamente contagioso entre esses animais, e que causa feridas principalmente na boca e no nariz – Foto: Gelmo94/Wikimedia Commons



Um peptídeo (composto que pode formar proteínas) encontrado em pesquisas brasileiras está sendo aplicado em estudos internacionais buscando a cura de doença que acomete o diabo-da-tasmânia, mamífero marsupial que habita a ilha australiana e está em risco de extinção.

A maior ameaça ao animal – conhecido mundialmente pelo personagem de desenho animado Taz – é o tumor facial, e a molécula que agora representa esperança para o tratamento foi descoberta em doutorado realizado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB)_da USP no ano 2000.

A gomesina é um peptídeo isolado do sangue da Acanthoscurria gomesiana, uma aranha encontrada no Estado de São Paulo. Essa molécula possui fortes características antimicrobianas. “Nós temos no nosso sangue anticorpos que ajudam a nos defender de doenças, e esses animais mais simples também têm substâncias que os protegem”, explica Pedro Ismael da Silva Junior, professor da Pós-Graduação Interunidades em Biotecnologia do ICB e pesquisador do Instituto Butantan. O peptídeo já apresentara eficiência contra fungos, vírus, bactérias e alguns tipos de câncer.


Foto: Amada44/Wikimedia Commons

Proteínas ou peptídeos com ação antimicrobacteriana são aqueles que possuem a capacidade de identificar células ou agentes estranhos ao sistema do animal e destruí-los. Essas moléculas podem agir de duas formas, segundo Silva Junior: rompendo a parede celular do agente estranho, derrubando seu conteúdo interno e lhe causando a morte, ou entrando no micro-organismo e causando danos internos, como inibição da produção de outras proteínas.

A busca por novos medicamentos em animais peçonhentos é algo muito comum no mundo acadêmico. O interesse em particular por aranhas é explicado pela pouca evolução dos animais. O doutor explica que as aranhas são animais que surgiram há 400 milhões de anos e que, pelos fósseis encontrados, apresentam poucas mudanças evolutivas desde então, mesmo vivendo em locais com grande presença de micro-organismos, como fungos e bactérias.


O diabo-da-tasmânia, representado no personagem Taz, da Warner Bros. – Foto: Reprodução/Warner Bros. Animation

Soma-se a isso, o fato de ficarem expostas periodicamente a esses agentes enquanto crescem, uma vez que os artrópodes, filo ao qual pertencem os aracnídeos, possuem esqueleto externo (exoesqueleto). Isso significa que as aranhas precisam trocar de exoesqueleto para crescer, ficando desprotegidas dos agentes externos até a formação de um novo esqueleto. Dessa forma, para terem sobrevivido tanto tempo com tão poucas mudanças, esses animais possuem um bom sistema de defesa adquirido pelo processo de seleção natural, o que o tornou tão efetivo contra doenças e agentes estranhos, explicou o professor Ismael Silva Junior.
Câncer de face em diabos-da-tasmânia

A doença que acomete os diabos-da-tasmânia é o tumor facial do diabo-da-tasmânia ou cancro facial do diabo-da-tasmânia (TFDT). O TFDT é um tipo de câncer altamente contagioso entre esses animais, caracterizando-se por feridas na face, principalmente na boca e no nariz. Esses machucados vão aumentando e se espalhando, destruindo os rostos dos diabos-das-tasmânia e os impedindo de comer, o que lhe causa a morte por inanição. O câncer se espalha de maneira rápida e se apresenta em 65% da ilha da Tasmânia. A cura do tumor pode salvar essa espécie da extinção.




Autor: Jornal USP
Fonte: Jornal USP
Sítio Online da Publicação: Jornal USP
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/molecula-brasileira-pode-salvar-diabo-da-tasmania-de-extincao/

Nova gaiola deixa roedores menos estressados e pesquisas mais fidedignas


Além de reduzir as complicações e o estresse dos animais durante a limpeza das gaiolas convencionais, novo equipamento também contempla o enriquecimento ambiental e o bem-estar dos animais – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Acaba de ser liberada a patente para uma nova gaiola modular, a ser utilizada em estudos com roedores. O equipamento, desenvolvido por pesquisadores na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, contém ambientes em andares interligados por passagens, rampas, tubulações intercomunicantes, além de abrigos e objetos, permitindo aos animais conviverem entre si, estimulados de uma maneira mais próxima ao que acontece na natureza. A invenção substitui as gaiolas convencionais de laboratórios de pesquisa e poderá ter utilidade também em lojas de pets e residências. A patente foi concedida pela Agência USP de Inovação (Auspin) na categoria Máquinas e Equipamentos.

Vista esquemática em planta mostrando o conteúdo de dois módulos interligados
Interferência nos resultados

A pesquisa científica feita em laboratório, seja para criação de novos medicamentos, seja para a produção de vacinas, de soros, cosméticos ou suplementos alimentares, necessita de roedores para a realização dos experimentos. Os ratos e os camundongos são os animais mais utilizados por terem similaridades com o organismo humano em termos fisiológicos e genéticos. Além de serem pequenos, são fáceis de manipular e se reproduzem e atingem a maturidade rapidamente. No entanto, “a forma como eles são mantidos em laboratórios, com pouco espaço de movimentação, pode interferir nas respostas e nos dados das pesquisas. O ideal seria que eles pudessem ser mantidos numa condição semelhante à que encontram na natureza, de forma que desenvolvessem naturalmente os comportamentos de sua espécie”. É sobre estas condições ambientais que a gaiola modular impacta, explica Carlos Portela, autor do invento. Além de reduzir as complicações e o estresse dos animais durante a limpeza das gaiolas convencionais, o novo equipamento também contempla o enriquecimento ambiental e o bem-estar dos animais.


Vista em perspectiva de dois módulos unidos

O equipamento é composto de módulos com diferentes ambientes e pavimentos, que permitem que os animais se desloquem e tenham mais interação entre eles. O ambiente mais ativo provoca individualmente estímulos nos roedores, que reagirão de acordo com sua própria genética, o que no final dará respostas diferentes aos resultados e aos efeitos dos fármacos testados neles, diz o pesquisador.

A gaiola modular foi criada para ser utilizada em laboratórios de pesquisas científicas, mas pode ser adaptada e instalada em residências para uso de animais domésticos, tais como gatos, chinchilas, etc. A gaiola promove maior atividade física nos animais, que são mais estimulados ambiental e sensorialmente. Isso impacta sua qualidade de vida, favorece a aprendizagem, a saúde e até a reprodução.

Biotério convencional

“A invenção substitui as gaiolas convencionais de laboratórios de pesquisa e poderá ter utilidade no setor comercial de pets”, relata Carlos Portela, autor da patente – Foto: Arquivo pessoal

Nos biotérios, onde são mantidos os animais dos experimentos científicos, cada gaiola tem o tamanho de cerca de duas caixas de sapato e abriga normalmente cinco ratos. De acordo com Portela, neste espaço reduzido, eles não podem ficar de pé e mal se locomovem. “Seria como se cinco pessoas vivessem em um cômodo de 2 por 3 metros forrado de palha, onde ninguém pode se levantar e todos dormem, comem, bebem, defecam e urinam no mesmo lugar”, compara. Embora a caixa dos ratos seja limpa a cada dois ou três dias e fique sob temperatura, umidade e iluminação controladas, os roedores, que naturalmente são sociais, quase sempre passam a vida isolados, engordando e sem estimulação física e ambiental.

Carlos de Paula Portela é graduado em psicologia, fez mestrado no Instituto de Psicologia da USP, doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e pós-doutorado na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP. O invento Disposição Modular Intercomunicante para Estudos foi desenvolvido durante o período de pós-doutorado em conjunto com José Bernardino Merusse.



Autor: Jornal USP
Fonte: Jornal USP
Sítio Online da Publicação: Jornal USP
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/nova-gaiola-deixa-roedores-menos-estressados-e-pesquisas-mais-fidedignas/

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A greve dos caminhoneiros e o Brasil 100% renovável e sem combustíveis fósseis, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“O futuro será renovável ou não haverá futuro”





A greve dos caminhoneiros e o aquecimento global são dois alertas para o Brasil levar a sério o cenário do fim do uso generalizado dos combustíveis fósseis e acordar para a necessidade de planejar a construção de um futuro energético 100% renovável.

Num momento em que o país tem 27,7 milhões de pessoas desocupadas ou desalentadas e uma renda per capita menor do que a de 2013, a população empobrecida não aguenta o alto preço das passagens e dos fretes, nem os efeitos generalizados do alto preço da gasolina, do gás e do diesel. A energia barata é essencial para o aumento da qualidade de vida, mas qualquer solução requer uma análise de custo e benefício. O incremento do preço dos combustíveis sempre está associado com o aumento das revoltas e dos protestos. O alto preço da energia leva à carestia.

Mas não se trata simplesmente de diminuir o preço dos combustíveis fósseis. O Brasil assinou o Acordo de Paris, em 2015, prometendo reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Porém, as emissões brasileiras de carbono estão aumentando e, no quadro da realidade climática internacional, o mundo caminha para uma situação catastrófica com a elevação da temperatura global do Planeta. Matéria publicada no Ecodebate (24/05/2018) apresenta uma análise feita por uma equipe de cientistas da China que mostra que o clima da Terra pode aumentar em 4°C, comparado aos níveis pré-industriais, antes do final do século XXI. Isto traria um quadro ambiental apocalíptico, que afetaria completamente a vida humana e não humana no mundo e no Brasil.

Assim, qualquer política energética tem que pensar o local e o global. Estamos a quatro meses das eleições presidenciais de 2018 e nenhum candidato até agora apresentou um plano minimamente coerente e ousado para o Brasil fazer sua parte na superação da era dos combustíveis fósseis e para avançar na construção de uma matriz energética a partir da articulação das fontes vindas do sol, do vento e da água. O Brasil está atrasado no aumento da capacidade instalada de energias eólica e, principalmente, solar. Está muito atrasado também no planejamento do futuro renovável.

Um mundo 100% renovável até 2050 é tecnicamente possível. Uma equipe de pesquisadores, liderada pelo engenheiro ambiental da Universidade de Stanford, Mark Jacobson, lançou um roteiro para que 139 países possam alcançar a meta de 100% de energias renováveis até meados do século. O plano leva em consideração as circunstâncias únicas de cada um dos países, que, no conjunto, representam 99% das emissões mundiais de dióxido de carbono. Para desenvolver o roteiro, os pesquisadores primeiro analisaram cada país e analisaram a quantidade de recursos de energia renovável bruta que cada um produz e determinaram o número de geradores de energia eólica, água e energia solar necessários para que esse país alcance 80% de dependência de energia renovável até 2030 e 100% até 2050 (Trata-se do enfoque “vento, água, e solar”, ou WWS na sigla em inglês).

Para Jacobson, além de eliminar as emissões e evitar o aquecimento global superior a 1,5º graus Celsius, a transição eliminaria 4 a 7 milhões de mortes por poluição atmosférica a cada ano e criaria mais de 24 milhões de empregos no longo prazo. Para o autor, a novidade do estudo é que examina não só os benefícios climáticos da redução de carbono, mas também os benefícios da redução da poluição do ar e os benefícios na geração de trabalho decente. O mundo poderia economizar mais de US$ 20 trilhões em custos de saúde e clima a cada ano. Como cada um desses 139 países tem as suas próprias peculiaridades, os caminhos para 100% de energia renovável são únicos também. O potencial de geração de empregos verdes é enorme (Ver Alves 26/03/2014 e 30/10/2017).

Neste ano eleitoral, o Brasil deveria discutir o seu plano de médio e longo prazo para abandonar os combustíveis fósseis e transformar a matriz energética, das fontes fósseis e centralizadas para as fontes renováveis, descentralizadas e democráticas, fortalecendo a figura do PROSSUMIDOR (consumidor + produtor) e contribuindo para a geração de empregos decentes. Todavia, no Brasil, existe ainda uma mitificação dos “poderes milagrosos” do petróleo e da “empresa mãe”. Em vez de olhar para o futuro, o Brasil fica preso a um combustível e a uma tecnologia do passado, enquanto a Petrobras se afunda em meio às disputas corporativistas e politiqueiras.

As forças que apoiam o governo Temer acusam a presidenta Dilma e o Partido dos Trabalhadores de terem manipulado e congelado o preço dos combustíveis, de terem endividado a Petrobras, feito investimentos sem possibilidade de retorno financeiro, usado a empresa com fins eleitoreiros e terem instalado um amplo esquema de corrupção na empresa. Dão como exemplo de corrupção e ineficiência da companhia em diversos fatos, como a compra da refinaria de Pasadena no Texas, o mal planejamento das refinarias Premium I e Premium II, de Bacabeira (MA) e São Gonçalo do Amarante (CE), que foram abandonadas com grande prejuízo para o país, a refinaria Abreu e Lima, em Suape (PE), que foi planejada com um custo de US$ 2,3 bilhões, teve seu orçamento revisado para US$ 20,1 bilhões e, mesmo sendo a refinaria mais cara do mundo, não está pronta para pleno funcionamento, além do fracasso completo do alto custo inútil do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí.

Em contraponto, as forças neodesenvolvimentistas que criticam o governo Temer dizem que o esquema de corrupção da Petrobras é muito antigo e que a atual gestão da empresa não vê o “uso social da propriedade estatal” e que a política de aumento dos preços dos combustíveis está preocupada apenas com a lucratividade dos acionistas e com a venda de ativos visando a privatização total da empresa, numa atitude entreguista que não vê o petróleo como fonte de recursos para financiar o desenvolvimento industrial, educacional e cultural brasileiro.

Em vários pontos, os dois lados têm razão. Como diz o ditado: “Em casa onde falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. Uns querem o petróleo para fortalecer o mercado e a lucratividade dos detentores do capital. Outros querem o petróleo para fortalecer o Estado e os privilégios corporativos e políticos, em nome de subsidiar o desenvolvimento nacional. O fato é que a Petrobras tem sido um joguete nas mãos de forças políticas com interesses opostos, mas com uma prática comum de manter a ineficiência na gestão e a permanente dependência brasileira aos combustíveis fósseis. Quem paga a conta é o povo brasileiro.

O Brasil tem a segunda gasolina mais cara do mundo. Com a queda do preço internacional do petróleo a população e os agentes econômicos conseguiram suportar a alta carga do preço da energia. Mas a desvalorização cambial e o aumento do preço internacional do petróleo ocorrida nos últimos dois meses foram a “gota d’água” para o gatilho da inflação energética. As pessoas começaram a perceber que o custo da política energética brasileira é muito elevado. Todos os cidadãos se perguntam: onde estão os benefícios do pré-sal?

Na verdade, a economia brasileira não apresentou melhoras desde que as jazidas abissais de hidrocarbonetos foram descobertas e começaram a ser exploradas. Ao contrário, a década de 2011 a 2020 será a segunda década perdida da economia brasileira. O PIB brasileiro cresce muito menos do que o PIB mundial e o Brasil tem ficado atrás não só das economias avançadas e dos países emergentes da Ásia, mas também fica atrás dos países da África e dos demais países da América Latina. O PRÉ-SAL se revelou um passaporte para o FUTURO DO PRETÉRITO.

Evidentemente, o passaporte para o futuro tem que ser renovável. O bilhete premiado não vem das profundezas salgadas do pré-sal, mas sim do sol, do vento e da água, elementos que o Brasil tem de sobra, mas não está sabendo aproveitar. Por exemplo, o Chile – que é uma economia muito menor do que a brasileira – tem uma capacidade instalada de energia solar superior à brasileira. Enquanto o mundo aumentou a capacidade instalada de energia solar em quase 100 GW em 2017, o Brasil não contribuiu nem com 1% deste total.

O gráfico abaixo mostra que a capacidade instalada de energia solar global em 2017 foi maior do que a do conjunto dos combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo). As estimativas para os próximos anos mostram o predomínio das energias renováveis.




Além do aumento da capacidade instalada de energias renováveis, o mundo está passando por uma revolução na indústria automotiva, com a transição dos carros de motor de combustão interna para os carros elétricos. A indústria automobilística não está passando simplesmente por uma época de mudanças, mas sim por uma mudança de época. A mudança da época do motor à combustão interna, com base nos combustíveis fósseis para a época dos carros elétricos, com base na energia renovável.

O crescimento do mercado de carros elétrico tem sido bastante significativo. Em 2016, houve um aumento de 750 mil veículos e o número de carros elétricos no mundo em circulação ultrapassou o limiar de 2 milhões de unidades. O gráfico abaixo mostra alguns cenários de crescimento do mercado de carros elétricos. Em qualquer alternativa o avanço deve ser expressivo, podendo o estoque chegar a 60 milhões no mínimo ou até 200 milhões em 2030. De acordo com a Bloomberg New Energy Finance (BNEF), pelo menos um terço de todos os veículos vendidos no mundo, até 2030, serão elétricos.





A Noruega é o país mais avançado na transição para o uso de carros elétricos, pois, segundo a Bloomberg, mais de um terço de todos os carros novos são totalmente elétricos ou híbridos plug-in, mais de 10 vezes a proporção nos EUA. Até 2025, o governo norueguês planeja eliminar a venda de carros a gasolina ou a diesel, só elétricos. A fabricante sueca Volvo anunciou, em julho de 2017, que vai encerrar a produção de carros a motor de combustão a partir de 2019. Todos os carros lançados a partir de 2019 terão um motor elétrico, marcando um “fim histórico” para o motor de combustão interna. Na mesma semana em que a Volvo anunciou sua decisão, o governo da França disse que vai encerrar as vendas de veículos a gasolina e diesel até 2040. Mas a dianteira na produção de carros elétricos pertence à China, que pretende liderar a produção e as inovações no mercado dos carros elétricos. A cidade de Shenzhen, megalópole do sul da China, anunciou no final do ano passado que eliminou todos os ônibus movidos a diesel e apresentou uma frota de 16.359 ônibus elétricos, mostrando que já é possível ter uma frota de ônibus 100% eletrificada. O próximo passo seria uma frota de ônibus e caminhões elétricos e autônomos.

Enquanto o mundo avança, o Brasil continua totalmente dependente dos combustíveis fósseis e fica exposto à poluição, aos altos custos da gasolina e do diesel. Fica também permanentemente exposto à chantagem das empresas de transporte. Sem querer entrar no mérito do evento, a greve dos caminhoneiros – que, além da paralisação do transporte, inclui o bloqueio de refinarias e distribuidoras – está mostrando como o Brasil é refém de uma política energética equivocada. Depois de quatro dias de greve, mais de 400 bloqueios de estradas em 23 estados e no Distrito Federal, o país começa a ter desabastecimento generalizado de gasolina nos postos, voos cancelados por falta de combustível, ônibus fora de circulação, linhas de montagem paralisadas, desabastecimento e alta no preço de alimentos e hortaliças, etc.

O presidente da Petrobras, Pedro Parente, que tinha uma pose de executivo independente, teve que engolir a redução no preço do diesel e não se mostrou à altura dos desafios na área. O senador Cássio Cunha Lima e o deputado Paulinho da Força pediram a cabeça de Parente. As ações da Petrobras caíram e as perspectivas para a economia brasileira pioraram. Já se fala até na queda do presidente Michel Temer e a eleição indireta de um presidente tampão para cumprir o mandato até o final do ano. De modo geral, desde o apagão de 2001, os sucessivos governos brasileiros tem sido vítimas de suas próprias incompetências e inépcias energéticas.

No meio de tantas incertezas, existem duas coisas certas: a primeira é que o Brasil vai ter alguns meses de muita confusão e imprevisibilidade até um novo governo assumir o mandato para o quadriênio 2019-2022; a segunda, é que o país precisa ter um plano para abandonar a dependência dos combustíveis fósseis, democratizar e universalizar o uso de uma energia eficiente e mais limpa e se preparar para um futuro 100% renovável.

Referências:

ALVES, JED. Roteiro para 139 países alcançarem 100% de energias renováveis ??até 2050, Ecodebate, 30/10/2017 https://www.ecodebate.com.br/2017/10/30/roteiro-para-139-paises-alcancarem-100-de-energias-renovaveis-ate-2050-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. 100% Energia Renovável. Ecodebate, 26/03/2014
http://www.ecodebate.com.br/2014/03/26/100-energia-renovavel-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ECODEBATE. Mudanças Climáticas: Em nova análise, cientistas projetam um aquecimento global de quatro graus até 2084, Redação: 24/05/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/05/24/mudancas-climaticas-em-nova-analise-cientistas-projetam-um-aquecimento-global-de-quatro-graus-ate-2084/

ECODEBATE. Podemos obter 100% da nossa energia a partir de fontes renováveis? Sim, dizem cientistas internacionais em novo artigo. Redação: 22/05/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/05/22/podemos-obter-100-da-nossa-energia-a-partir-de-fontes-renovaveis-sim-dizem-cientistas-internacionais-em-novo-artigo/

Simon Evans. Global solar capacity grew faster than fossil fuels in 2017. Skeptical Science, 17/05/2018 https://skepticalscience.com/solar-faster-fossil-fuels-2017.html
Lulu Xue and Weimin Zhou. How Did Shenzhen, China Build World’s Largest Electric Bus Fleet? WRI, April 04, 2018 http://www.wri.org/blog/2018/04/how-did-shenzhen-china-build-world-s-largest-electric-bus-fleet


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/25/a-greve-dos-caminhoneiros-e-o-brasil-100-renovavel-e-sem-combustiveis-fosseis-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Neuralgia do trigêmeo atinge mais mulheres que homens

Uma dor inesquecível. Este é o relato das pessoas que já passaram por um quadro de neuralgia do trigêmeo, a mais comum entre as neuralgias faciais, descrita com uma das piores dores que um ser humano pode sentir.

A dor é descrita como um choque de curta duração, frequentemente envolvendo o maxilar. Além disso, é uma dor que costuma atingir apenas um lado da face, normalmente o direito. Pode ocorrer diversas vezes ao dia ou algumas vezes no mês, afetando de forma significativa a qualidade de vida do paciente.

Segundo o neurocirurgião Dr. Iuri Weinmann, do Centro Neurológico Weinmann, o nervo trigêmeo leva este nome porque se divide em três ramos na face: o oftálmico, o maxilar e o mandibular. A neuralgia do trigêmeo, portanto, pode afetar todas essas regiões. “O trigêmeo é um nervo misto, pois possui uma raiz motora e uma raiz sensitiva. Ou seja, ele é responsável tanto pelos movimentos musculares da face, quanto pela sensibilidade na maior parte da cabeça”.

Origem ainda é desconhecida

A etiologia, ou seja, porque a neuralgia do trigêmeo acontece, ainda é um mistério para a medicina. Há algumas hipóteses, como a compressão de vasos sanguíneos sobre as raízes nervosas do trigêmeo, que representaria de 80 a 90% dos casos. “Mas, a maioria dos casos é idiopática, ou seja, sem causa conhecida. Entretanto, temos os casos em que a neuralgia é resultado de uma outra condição médica, como tumores, anormalidades cranianas, malformações arteriovenosas e esclerose múltipla”, comenta Dr. Iuri.

A neuralgia do trigêmeo é mais prevalente nas mulheres. Cerca de 60% dos casos acometem o sexo feminino. A idade também é um fator de risco, já que há maior prevalência em pessoas com mais de 40 anos, sendo ainda mais comum entre os 60 e 70 anos. Outro fato curioso é que pessoas com hipertensão têm um risco aumentado para desenvolver a neuralgia do trigêmeo. Mas, a condição pode afetar pessoas mais jovens também.

Dor é principal sintoma

A dor é o principal sintoma da neuralgia do trigêmeo e pode ocorrer várias vezes por dia, algumas vezes por semana ou por mês. “A dor costuma ser desencadeada por certas situações cotidianas, como escovar os dentes, beber, comer, falar ou tocar no rosto. A crise dolorosa dura de um a dois minutos, mas há casos em que pode durar até 15 minutos. É descrita como um dor aguda, intensa, repentina e lancinante”, descreve o neurocirurgião.

Quem já passou por ela, afirma que se trata de uma dor insuportável, em queimação, com pontadas, choque ou ardência nos lábios, gengiva, bochechas e região do maxilar inferior. “Com o passar do tempo, sem o tratamento adequado, há um menor espaçamento entre as crises. Assim, há um aumento da frequência e da intensidade da dor”, explica Dr. Iuri.

Uma das principais características da neuralgia do trigêmeo é que não há sinais de perda da sensibilidade. Pelo contrário, alguns pacientes podem ter hiperestesia facial, ou seja, ter um excesso de sensibilidade em partes do rosto, assim como lacrimejamento em apenas um dos olhos.

Diagnóstico precisa ser apurado

Um dos principais problemas é que o paciente pode pensar que a dor tem relação com algum problema dentário, o que pode atrasar o diagnóstico. A investigação do diagnóstico é clínica, com base em um anamnese minuciosa e a exclusão de outras causas, como problemas dentários, cefaleia, tumores, etc. Pode ser feita por um neurocirurgião ou ainda por um neurologista.

A princípio, o tratamento adotado será o conservador, ou seja, a primeira opção é usar medicamentos e fisioterapia. Entretanto, quando o paciente que não responde à terapia medicamentosa, pode ser necessário realizar uma cirurgia.

De acordo com Dr. Iuri, atualmente os procedimentos cirúrgicos mais usados para tratar a neuralgia do trigêmeo são a descompressão neurovascular, a rizotomia por radiofrequência ou glicerol e balão no Glânglio Gasseriano. Cada método tem uma indicação e isso é avaliado de forma individual.

“A descompressão é uma técnica que apresenta um alívio da dor por tempo prolongado em cerca de 70% dos pacientes com mais de 10 anos de acometimento. Normalmente é indicada para pacientes jovens. É uma técnica que retira irregularidades nos ossos da base do crânio que estão perto do nervo trigêmeo, ou ainda que remove vasos sanguíneos que podem pulsar e desencadear a dor”, explica Dr. Iuri.

Já a rizotomia é uma técnica que destrói as fibras nervosas que causam a dor de forma irreversível. Embora a taxa de sucesso é alta, 97% nos anos iniciais, a pessoa irá perder a sensibilidade em boa parte da face. Por fim, o Balão de compressão é uma técnica que oferece remissão da dor por mais tempo quando comparado aos outros métodos. É um procedimento rápido, feito com anestesia local e sem cortes. O neurocirurgião insere um cateter dentro da bochecha do paciente e um balão pequeno é inflado para comprimir o gânglio do trigêmeo, eliminando a dor em 98% dos casos.


Colaboração de Leda Sangiorgio, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2018



Autor: Leda Sangiorgio
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/25/neuralgia-do-trigemeo-atinge-mais-mulheres-que-homens/

Controle biológico como alternativa ao consumo excessivo de agrotóxicos

Controle biológico como alternativa ao consumo excessivo de agrotóxicos. Entrevista especial com José Roberto Parra

IHU

Para reduzir a aplicação de agrotóxicos na agricultura brasileira, o Brasil precisa avançar no controle biológico das culturas agrícolas e um dos seus principais desafios consiste em criar um modelo de controle biológico que seja adequado para a agricultura brasileira, diz o engenheiro agrônomo José Roberto Postali Parra. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o pesquisador explica que o “controle biológico é um fenômeno natural que consiste na regulação de plantas e animais por agentes de mortalidade biótica”, ou seja, um tipo de produto seletivo que mata pragas, mas preserva os inimigos naturais das culturas agrícolas, evitando o desequilíbrio biológico.

Entre os principais desafios do Brasil na expansão da aplicação de controle biológicona agricultura, o primeiro deles, segundo Parra, “é a cultura do agricultor, porque o agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos. Isso é algo que passou de pai para filho, o agricultor está acostumado a utilizar produtos químicos e, obviamente, utiliza muito mais controle químico do que biológico”. De acordo com o pesquisador, embora o Brasil tenha “expertise” no manejo de controle biológico, que já tem sido aplicado às culturas de cana-de-açúcar, o país dispõe de um número muito pequeno de “inimigos naturais”, que são micro e macrorganismos responsáveis pelo processo biológico. Parra informa ainda que enquanto alguns países têm cerca de 350 espécies, no Brasil o número é de aproximadamente 30. O baixo número de espécies disponíveis, explica, gera outro problema: a falta de insetos disponíveis para todos que querem aplicar esse tipo de manejo.

Defensor da aplicação desses produtos na agricultura, Parra adverte que “o controle biológico não irá substituir os produtos químicos na totalidade. Então, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situações em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- açúcar”.



José Parra | Foto: USP


José Roberto Parra é graduado em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo – USP, mestre e doutor em Entomologia também pela USP. Atualmente é professor sênior do Departamento de Entomologia e Acarologia da ESALQ/USP. É membro da Academia Brasileira de Ciências desde 2000 e membro da Academy of Science for the Developing World – TWAS desde 2002. Recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2002 e pertence à Classe da Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2010.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — O que é o controle biológico e como ele pode contribuir para evitar os desequilíbrios biológicos causados pelo uso de agrotóxicos?

José Roberto Postali Parra — Vou explicar primeiro o que é controle biológico para depois falar sobre desequilíbrios. O controle biológico é um fenômeno natural que consiste na regulação de plantas e animais por agentes de mortalidade biótica. Então, em toda planta e em todo animal têm seus inimigos naturais. No caso da agricultura, esse equilíbrio foi quebrado pela necessidade de se ter alimentos. Assim, hoje temos grandes áreas plantadas como algodoeiro, soja etc. e, portanto, o equilíbrio natural foi quebrado. Desse modo, o objetivo do controle biológico é restituir o equilíbrio que no início existia — é um controle biológico aplicado.

O uso de inseticida gera um controle imediato das pragas, mas também é possível fazer esse controle rápido quando falamos de controle biológico aplicado, que é a liberação de grande quantidade de inimigos naturais na agricultura. Pode-se, também, aplicar um tipo de controle a longo prazo, que se chama controle biológico clássico, isto é, ao se liberar pequenas quantidades de inimigos naturais, com o tempo esses inimigos vão aumentando e geram um controle a longo prazo. Isso é seletivo porque serve só para culturas que permanecem sempre no campo, ou seja, culturas perenes ou semiperenes. Existe ainda a forma conservativa, que é uma alternativa em que se conserva o que já existe na natureza, evitando a aplicação de inseticidas. Então, existe o controle biológico aplicado, o controle biológico clássico e controle biológico conservativo. Para utilizar esse controle biológico tem que ter o mínimo de inseticidas possível. Entretanto, existem produtos seletivos, que matam as pragas e não matam os inimigos naturais. Então, é possível conciliar a utilização de produtos químicos com controle biológico desde que se usem produtos seletivos.

Em outros países existem tabelas indicando quais são esses produtos seletivos, que podem ser utilizados em determinadas espécies vegetais, não matando certos inimigos naturais que serão preservados. Isso irá reduzir a aplicação de produtos químicos. Por exemplo, os piretroides, que são uma categoria de inseticidas que matam as pragas e os inimigos naturais, o que causa problemas de desequilíbrios biológicos com explosões populacionais de insetos e ácaros. Como se causa o desequilíbrio natural? O inseticida, uma vez aplicado, vai matar a praga e os inimigos naturais, e com isso surgem os desequilíbrios. Por este motivo, em determinadas culturas, como na soja e no algodoeiro, não é recomendada a aplicação de piretroides, justamente para permitir que cresça a população de inimigos naturais. Então, os desequilíbrios são fruto dessa morte dos agentes de controle biológico, aumentando assim a população de praga, que se vê livre dos inimigos naturais.

IHU On-Line — É possível fazer o controle de pragas somente com o controle biológico sem o uso de pesticidas?

No Brasil são plantados nove milhões de hectares de cana-de-açúcar e quase metade da área plantada é controlada biologicamente – José Parra



José Roberto Postali Parra — O controle biológico não irá substituir os produtos químicos na totalidade. Então, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situações em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- açúcar. No Brasil são plantados nove milhões de hectares de cana-de-açúcar e quase metade da área plantada é controlada biologicamente — a broca da cana é controlada por uma vespinha importada de Trinidad e Tobago, chamada Cotesia flavipes, e por um parasitoide de ovos chamado Trichogramma galloi. E, além disso, é utilizado um fungo chamado metarhizium anisopliae, que é usado para controlar a cigarrinha-das-raízes, que ocorre em São Paulo e em outras regiões, mas principalmente ela se tornou mais problemática quando se deixou de queimar a cana-de-açúcar. Com isso formou-se um microclima muito favorável e essa população de insetos explodiu. Para termos uma ideia, nos últimos anos a vespinha Cotesia flavipes foi liberada em 3,5 milhões de hectares, o Trichogramma galloi em 500 mil hectares e o fungo foi aplicado em áreas maiores que dois milhões de hectares.

Em outras culturas o controle biológico deveria ser incorporado em programas de manejo, e existem casos em que individualmente ele pode funcionar. Mas a intenção não é substituir o químico totalmente por controle biológico, mesmo porque isso seria impossível em função da grande área plantada no Brasil, pelo menos a curto prazo, não havendo disponibilidade de agentes de controle biológico para toda essa área plantada.

IHU On-Line — O manejo integrado com o controle biológico e agrotóxicos reduziria em que percentual o uso de agrotóxico na agricultura?

José Roberto Postali Parra — A agricultura brasileira é muito grande, e o Brasil usa muito inseticida, sem dúvida alguma, mas existem países desenvolvidos que usam mais do que o Brasil por unidade de área, como a Holanda e o Japão — o Brasil fica na quinta posição em termos de utilização por unidade de área.

Nós somos favoráveis à racionalização do uso de inseticidas, que seria essa integração diminuindo a aplicação exagerada que se faz de forma irracional. O controle biológicopode dar controles ótimos, até superiores a 80%, como vem ocorrendo nas plantações de cana. A vantagem do controle biológico é que não traz problemas ao ambiente, à água, ao solo, ao homem, aos animais, não causa os desequilíbrios biológicos, e não há resistência a determinados produtos, como frequentemente ocorre com os químicos, e não deixa resíduos nos alimentos. Tudo isso faz com que pensemos nessa possibilidade, que é muito boa. Eu, logicamente, trabalhando no controle biológico, sou extremamente favorável à sua utilização.

Mas hoje também existem fatores que dificultam muito a utilização de químicos, por exemplo: para sintetizar um produto químico, o custo é de entre 300 e 350 milhões de dólares e o Brasil, hoje, é um grande exportador de commodities e frutas. E como os mercados exigem cada vez mais produtos sem resíduos, existe grande pressão para que se use cada vez menos produtos químicos. Além disso, no Brasil são utilizados produtos químicos que já foram banidos do mercado internacional há muitos anos, logo, eles têm que sair do mercado. Então, alguns problemas favorecem pensarmos na utilização do controle biológico.

O Brasil tem expertise, tem muitos profissionais se formando nos últimos anos, as pesquisas são grandes na área de controle biológico, mas nós temos desafios, a começar pelo fato de que o Brasil faz agricultura em campos abertos. Por isso, não raro temos plantações de soja em 20 ou 50 mil hectares e até 100 mil hectares, o que é completamente diferente da forma de produzir de um produtor na Europa, como na Holanda e na Espanha, que usam muitos produtos biológicos, mas na grande maioria em casas de vegetação. Nós temos que desenvolver um modelo de controle biológicopara regiões tropicais e para isso há alguns desafios a serem vencidos. Não adianta falarmos que somos líderes em agricultura tropical — e nós somos realmente líderes —, mas para controle biológico temos que desenvolver um modelo adequado à nossa agricultura.

IHU On-Line — O que seria um modelo de controle biológico adequado para a agricultura brasileira?

O agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos – José Parra



José Roberto Postali Parra — Tem um grande número de desafios nesse sentido. O primeiro deles é a cultura do agricultor, porque o agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos. Isso é algo que passou de pai para filho, o agricultor está acostumado a utilizar produtos químicos e, obviamente, utiliza muito mais controle químico do que biológico. O controle biológico é, ainda, algo muito pequeno, mas nos últimos anos estamos avançando mais do que o resto do mundo nesse sentido. Quando falo em últimos anos eu me refiro aos “últimos anos” mesmo. Em 2013 apareceu um inseto no país e foi registrado como Helicoverpa armigera. Ele ocorre no mundo inteiro e apareceu no Brasil Central, na região de Goiás. Não tinha controle para ele, e só oproduto biológico poderia salvar a situação. Então, tinha um vírus Trichogramma, que é um parasitoide que controla os ovos. O pessoal começou a mudar a sua visão, porém à época não havia disponibilidade de inimigos naturais para todos os produtores. Isso acontece hoje ainda, pois nós temos poucas empresas de controle biológico em relação a outros países.

Se formos olhar os trabalhos mais modernos, veremos que no mundo há grande disponibilidade de inimigos naturais, cerca de 350 espécies. No Brasil temos, incluindo macro e microrganismos, cerca de 30 agentes de controle biológico. Isso tudo é bastante limitante. Existem, comercializando hoje, 26 empresas de micro e 21 de macro — microrganismos são as coisas que não vemos, como vírus, bactérias, fungos, e os macrorganismos são aqueles controles que vemos, como um inseto controlando outro inseto, um ácaro controlando outro ácaro ou inseto. Existe hoje uma tendência maior de usar microrganismos. As multinacionais estão comprando firmas menores de controle biológico e muitas delas estão investindo em microrganismos, que são mais facilmente aceitos pelos agricultores, porque um microrganismo é como se fosse um inseticida, é misturado com água e aplicado. Um macrorganismo exige mais tecnologia, é preciso saber quando vai nascer, e ele morre logo; além disso, é preciso uma logística de armazenamento e transporte. Hoje estão usando bastante microrganismos, e podemos encontrar milhões de hectares sendo tratados com vários desses microrganismos.

No entanto, hoje um dos grandes problemas é que não existem insetos disponíveis para todos que queiram utilizá-los para controle biológico. Novas empresas estão entrando nesse mercado, entre elas a Koppert Brasil, da Holanda, que recentemente comprou uma pequena empresa que tinha sido originária do meu laboratório, a BUG Agentes Biológicos. Está acontecendo muito isto: as grandes empresas comprando as pequenas empresas. Por que, então, não avançamos tanto? Porque tem um número pequeno de empresas no Brasil com apenas sete macrorganismos e 22 microrganismos registrados, com grande número de agentes de controle biológicos aguardando registro.

O segundo desafio é em relação à amostragem, pois quando vamos controlar uma praga, é preciso saber quanto dela existe numa cultura para aplicar um produto químico, por exemplo. Como as áreas são muito grandes, é difícil saber isso no momento em que se vai aplicar o inimigo natural. Por isso estão propondo coisas novas, como o levantamento com feromônios sexuais, sensoriamento remoto, ou seja, é preciso aparatos mais sofisticados do que os que existem hoje. Um problema nesse sentido é que o Brasil é muito pobre em transferência de tecnologia; às vezes tem a tecnologia, mas ela não chega ao agricultor.

Outra dificuldade é sobre a disponibilidade do insumo; será que terá para todo mundo? Estão falando agora em uma vespinha para controlar o percevejo-marrom-da-soja; isso funciona muito bem, mas tem limites de disponibilidade. Por exemplo, temos mais de 34 milhões de hectares de soja plantados no país, e para fornecer para todo mundo, tem que se ter enormes fábricas e mais fábricas do que se tem hoje. E, muitas vezes, esse controle biológico não é trivial, demanda tecnologia, mas como o pessoal se entusiasma rapidamente, podem surgir empresas que nem sempre serão de boa qualidade.

Além disso, temos a questão da logística de armazenamento e transporte; como será liberado esse inimigo natural? Tem pessoas liberando com drones e, logicamente, se for usar um inimigo natural, temos que usar produtos seletivos e nós ainda somos muito iniciantes em termos de legislação para agentes de controle biológico. Tudo isso atrapalha um pouco, mas com o tempo a situação vai melhorando.

Sou muito esperançoso com relação à possibilidade do avanço do controle biológicoa médio e longo prazos. De todo modo, o uso do controle biológico não pode ser muito precipitado, porque se tentarmos fazer tudo de forma corrida, surgirão produtos de má qualidade e o controle biológico cairá no descrédito, que é justamente o que não queremos que aconteça. Preferimos que seu desenvolvimento seja devagar, mas com firmeza, por isso não podemos querer que isso ocorra na próxima safra; isso não acontecerá. É preciso ir mudando a mentalidade aos poucos.

IHU On-Line — Qual é a receptividade desse manejo integrado, para além do cultivo de cana-de-açúcar?

A Espanha é o maior produtor de pimentão do mundo e só usa o controle biológico porque o pessoal tem extremo rigor com relação a resíduos de produtos químicos – José Parra



José Roberto Postali Parra — É difícil, mas o pessoal vai aderir. Isso é fruto de necessidade. Falei anteriormente que na Espanha e na Holanda se usa muito produto biológico, mas por que se usa? A Espanha é o maior produtor de pimentão do mundo e só usa o controle biológicoporque o pessoal tem extremo rigor com relação a resíduos de produtos químicos e proibiu a aplicação de produtos químicos em pimentão. Então, o produtor tem que fazer controle biológico. Mas para fazer algo assim é preciso ter disponibilidade de insumo, não adianta falar que não deve mais usar o produto químico se o produtor não tem alternativa.

Nós temos uma biodiversidade fantástica, mal explorada e pouco conhecida, mas tem muitas pessoas e empresas, tanto de macro quanto de microrganismos, interessadas nesse campo, e elas estão começando a trabalhar. Se tivermos um pouco de paciência, acredito que vai melhorar muito esse mercado e surgirão grandes oportunidades. Tem vários agentes potenciais que serão utilizados nos próximos anos. Começaram a surgir empresas e startups. Por exemplo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp financia projetos de incentivo às pequenas empresas, com isso já foram criadas 12 startups em controle biológico, e há novas empresas surgindo. Além disso, as grandes multinacionais estão adquirindo empresas. Sem dúvida precisa haver essa disponibilidade de insumo para que a coisa venha a funcionar.

IHU On-Line — Qual é a atual situação das pesquisas sobre controle biológico no país? As pesquisas são feitas em que direção? Como parcerias entre universidade, empresas e agricultores podem favorecer o desenvolvimento das pesquisas sobre controle biológico?

José Roberto Postali Parra — O grande avanço dessa área foi a criação, na década de 1960, de cursos de pós-graduação. Houve épocas em que de 20% a 25% dos pesquisadores eram formados em controle biológico. Nós temos uma massa crítica razoável e hoje já existem núcleos no Brasil que trabalham com controle biológico, todos saídos de centros mais avançados. Por exemplo, temos grupos trabalhando no Espírito Santo, no Nordeste e no Sul do país. Em São Paulo existe uma concentração maior, mas existem grupos muito importantes. No Rio Grande do Sultem grupos fortes trabalhando com controle biológico na Embrapa.

Como tudo na vida, esse projeto exige investimentos em pesquisa, e como vivemos um período ruim na economia, não há tanto investimento, não tem dinheiro, mas existem possibilidades futuras. Vejo como possibilidades o financiamento de órgãos como a Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial – Embrapii, que financia um grande projeto nosso, os biocontroladores, que se referem a macro e a microrganismos. Também existem outras possibilidades via Fapesp, que está abrindo portas para que se forme um centro de controle biológico. Assim, os recursos começam a aparecer especificamente para isso. A Embrapii, a Fapesp e o CNPq estão financiando esse tipo de pesquisa e a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] também está interessada em financiar programas de controle biológico.

Nesta semana haverá uma reunião no Rio de Janeiro, no Ministério de Ciência e Tecnologia, com o governo alemão para firmar um convênio sobre controle biológico. Os recursos começam a aparecer e, onde existem recursos, os processos começam a funcionar, logicamente se forem feitos de forma correta. Eu sou professor aposentado da USP, mas continuo em atividade normal porque trabalhei a vida inteira para chegar num bom momento, e hoje nos encontramos neste bom momento. O movimento para o uso de controle biológico é mundial. A China, por exemplo, neste ano está investindo 350 milhões de dólares em sustentabilidade, então o controle biológico, em última análise, implica em sustentabilidade e “está caindo cada vez mais no gosto da população brasileira”.


(EcoDebate, 25/05/2018) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/25/controle-biologico-como-alternativa-ao-consumo-excessivo-de-agrotoxicos/

Em audiência pública na Câmara, Ibama, Fiocruz, Idec e outras entidades se manifestam contra mudança na lei de agrotóxicos

Em audiência pública na Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara, entidades dizem que efeitos dos pesticidas incluem contaminação de alimentos, da água e do ar e relacionam uso desses produtos a problemas de saúde

Will Shutter/Câmara dos Deputados


Jacimara Guerra, do Ibama, afirma que o órgão é contrário ao projeto, que coloca o Ministério da Agricultura como único responsável pelo registro dos pesticidas

Participantes de audiência pública sobre os impactos dos agrotóxicos na cidades foram unânimes em condenar a proposta que altera a legislação do uso dos pesticidas no Brasil (PL 6299/02 e apensados). A votação do substitutivo do deputado Luiz Nishimori (PR-PR) na comissão especial que analisa a matéria está prevista para o próximo dia 29. O debate foi promovido pela Comissão de Desenvolvimento Urbano nesta quarta-feira (23) e não contou com expositores ou parlamentares favoráveis à proposta.

A diretora de Qualidade Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jacimara Guerra Machado, ressaltou a posição do órgão – contrária ao projeto. Pelo texto, o Ministério da Agricultura será o único responsável por conceder o registro dos pesticidas, retirando as atuais atribuições do Ibama e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Caberá a estes órgãos apenas homologar avaliações de risco sobre os produtos.

Jacimara ressaltou que os impactos do uso de agrotóxicos nas cidades incluem resíduos dos produtos na água, no ar e nos alimentos oferecidos à população. Segundo ela, por conta dos ventos e da proximidade, a pulverização aérea pode atingir as populações urbanas. Para a redução dos impactos, o Ibama hoje dá preferência aos produtos com menor toxicidade, ao analisar a liberação de agrotóxicos.

Interesse de empresas
A representante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, Carla Bueno, ressaltou que 370 organizações da sociedade civil se manifestaram contra o que chama de “Pacote do veneno”. Para ela, a proposta atende aos interesses de grandes empresas transnacionais, ao facilitar novos registros de agrotóxicos.

Ela citou pesquisa divulgada pelo Greenpeace em outubro do ano passado, segundo a qual 36% dos alimentos analisados tinham maior quantidade de resíduos de agrotóxicos do que o permitido ou tinham substâncias proibidas no Brasil. “Isso afeta toda a população, seja do campo ou da cidade”, disse. “Há uma opção pelo capital transnacional em detrimento da saúde da população brasileira”, opinou.

Impactos na saúde
Especialista de Saúde, Ambiente e Sustentabilidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Guilherme Franco Netto também acredita que proposta visa reduzir custos para o setor produtivo, desconsiderando os impactos para a saúde.

Ele ressaltou que dados da Organização Mundial da Saúde mostram 25 milhões casos de envenenamento por agrotóxicos por ano, com 20 mil mortes registradas. “No Brasil, ainda com uma subnotificação enorme – porque nós não temos todos os recursos alocados de maneira adequada para fazer vigilância em saúde –, temos crescimento exponencial do número de casos de intoxicação por agrotóxicos, acumulando nos últimos dez anos mais de 100 mil casos, com praticamente 3.500 mortes”, completou.

Segundo ele, muitos estudos relacionam a ingestão de resíduos de agrotóxicos com problemas como câncer, a fertilidade, malformação congênita, desregulação hormonal, além de efeitos neurológicos, como a ligação com a doença de Parkison e a depressão. “Pelo projeto, esses efeitos deixarão de ser proibitivos na regulação dos agrotóxicos”, disse.

Para o especialista, esses riscos estão sendo ocultados na proposta. Ele destacou que o texto muda o nome agrotóxico para defensivo fitossanitário – palavra que significa planta saudável. “Há aí uma redução do significado do risco”, avaliou.

Isenções fiscais
Representante do Instituto de Defesa do Consumidor, Rafael Arantes também considera a aprovação do PL 6299/02 um “tremendo retrocesso”. Ele lembrou que o Instituto Nacional do Câncer (Inca) também tem posicionamento contrário à proposta. Além disso, condenou as isenções fiscais que estados concedem para os agrotóxicos.

Coordenador do Fórum Nacional de Combate ao Uso Abusivo de Agrotóxico, o procurador regional do Trabalho Pedro Luiz Serafim lembrou que o Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos. Para ele, o Congresso deve aprovar uma política nacional de redução dos agrotóxicos (prevista no Projeto de Lei 6670/16). “É o que está acontecendo na União Europeia”, observou.

A audiência foi pedida pelos deputados João Daniel (PT-SE) e Nilto Tatto (PT-SP). Daniel considera o debate um dos mais importantes que ocorrem no Brasil hoje. “Nós sabemos dos grandes interesses que estão por trás da indústria de agrotóxicos hoje”, afirmou. Para Tatto, é preciso repensar o modelo da agricultura brasileira, que hoje é dependente de agrotóxico, privilegiando a agricultura familiar, responsável pela produção de alimentos diversos e sadios. “Não queremos só comer soja e milho”, disse.

ÍNTEGRA DA PROPOSTA:
PL-6299/2002
PL-6670/2016
Reportagem – Lara Haje
Edição – Ana Chalub

Da Agência Câmara de Notícias, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2018



Autor: Agência Câmara de Notícias
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/25/em-audiencia-publica-na-camara-ibama-fiocruz-idec-e-outras-entidades-se-manifestam-contra-mudanca-na-lei-de-agrotoxicos/