quinta-feira, 28 de junho de 2018

Mais ações nos setores da indústria, transporte e construção são necessárias para atingir as metas climáticas de Paris

Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK)*

Energia do carvão versus energia solar e eólica – os debates sobre as metas climáticas de Paris geralmente se concentram no fornecimento de eletricidade.

No entanto, mesmo em um mundo de políticas climáticas rigorosas e uma geração de energia limpa, o uso remanescente de combustíveis fósseis na indústria, transporte e aquecimento em edifícios ainda poderia causar emissões de CO2 suficientes para pôr em perigo as metas climáticas acordadas pela comunidade internacional, uma comunidade internacional. equipe de pesquisadores encontra.


Devido às emissões residuais de combustíveis fósseis que permaneceriam mesmo com políticas climáticas rigorosas promulgadas a partir de 2020, as chamadas tecnologias de emissão negativa para remover o dióxido de carbono da atmosfera serão necessárias para cumprir o limite de 1,5 ° C. Crédito: PIK / Luderer & Wodinski. Imagem: ScienceDaily


Publicado em Nature Climate Change, o estudo é o primeiro a focalizar especificamente as emissões residuais de combustíveis fósseis de setores que não são tão facilmente descarbonizados quanto a geração de energia.

“Queríamos decifrar o que realmente faz a diferença em termos de orçamentos de carbono e emissões residuais. Para identificar gargalos cruciais de descarbonização em direção à estabilização de 1,5-2 ° C, focamos no papel das emissões de combustíveis fósseis que se originam em indústrias como cimento ou siderurgia, abastecemos nosso setor de transporte de carros a fretes e aviação para aquecimento de nossos prédios ” explica Shinichiro Fujimori, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos Ambientais (NIES) e da Universidade de Kyoto, no Japão. “Esses setores são muito mais complicados de descarbonizar do que o nosso suprimento de energia, já que não existem opções óbvias disponíveis como a geração de eletricidade eólica e solar”.

Acontece que estas são as atividades que determinam crucialmente quanto dióxido de carbono será emitido dentro deste século; se e quanto o mundo terá que depender de emissões negativas e, em última instância, se as metas climáticas acordadas internacionalmente podem ser cumpridas.
Para o limite de temperatura de 1,5 ° C, as emissões negativas não são mais uma opção, mas uma necessidade

As metas de Paris de manter o aquecimento global bem abaixo de 2 ° C e possivelmente a 1,5 ° C implicam um limite apertado para as emissões cumulativas de CO2 até 2100. Para colocar isso em perspectiva: o orçamento remanescente para a meta de 1,5 ° C pode ser tão baixo quanto 200 Gigatons de CO2, o que está em contraste com os 4.000 Gigatons de CO2 que seriam emitidos se as tendências atuais continuarem.

Os esforços de mitigação prometidos até agora são inadequados para reduzir suficientemente as emissões. Isso gera preocupações sobre a crescente dependência de tecnologias incertas e potencialmente arriscadas para as chamadas emissões negativas de CO2, retirando gases de efeito estufa da atmosfera, ampliando, por exemplo, as plantações de bioenergia ou a captura e armazenamento de carbono (CCS).

Assim, os pesquisadores exploraram diferentes caminhos de descarbonização para as metas climáticas de Paris. Com resultados preocupantes: “Descobrimos que, mesmo com enormes esforços de todos os países, incluindo o fortalecimento antecipado e substancial das contribuições nacionais determinadas, os nossos cálculos mostram que as emissões residuais de carbono permanecerão em cerca de 1000 Gigatons de CO2” explica Gunnar Luderer, do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático (PIK, membro da Associação Leibniz), principal autor do estudo. “Esta parece ser uma extremidade inferior do que pode ser alcançado até mesmo com as políticas climáticas mais rigorosas, porque muitas das emissões residuais já estão presas ao sistema devido às infraestruturas e dependências existentes nos combustíveis fósseis. Para apontar para o ambicioso 1.” Luderer ressalta. “Então, as emissões negativas não são mais uma escolha, mas sim uma necessidade”.

A equipe de modeladores de toda a Europa, EUA e Japão trabalhou com sete estruturas avançadas de Modelagem de Avaliação Integrada (IAM) com tecnologia avançada – sofisticadas simulações computacionais descrevendo as interações sociais e econômicas que determinam a mudança climática, bem como as opções para estabilizar o clima reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, levando em conta as metas de temperatura, os custos econômicos e as opções tecnológicas. Seu estudo é a primeira comparação de multi-modelos à luz do Acordo de Paris que contrasta cenários de fortalecimento antecipado da ambição política em linha com as metas de 1,5 a 2 ° C com cenários que pressupõem o não fortalecimento das promessas climáticas do país antes de 2030 .
Um fracasso em aumentar a ambição trancaria o mundo ainda mais em infraestruturas baseadas em fósseis.

“Nossa análise mostra que, além de uma descarbonização rápida do fornecimento de energia, a estabilização do aquecimento na faixa de 1,5?2 ° C também requer reduções substanciais nos setores de demanda de energia, como indústria, transporte e edifícios”, enfatiza Zoi Vrontisi da E3MLab da National Technical Universidade de Atenas. “Para alcançar as reduções adicionais de combustível fóssil necessárias para a estabilização de 1,5 ° C, precisamos acelerar as melhorias de eficiência energética e uma eletrificação generalizada da demanda de energia.” Os pesquisadores também mostram que o não fortalecimento dos NDCs antes de 2030 não aumentaria apenas Emissões a longo prazo, mas também prejudica os potenciais de redução de emissões a longo prazo, pois bloqueia ainda mais os investimentos em infra-estruturas baseadas em fósseis e deixa o mundo despreparado para se virar para a descarbonização, de acordo com seu estudo.

“A mitigação climática pode ser um desafio complexo, mas se resume a uma matemática bastante simples: se as metas de Paris devem ser cumpridas, as futuras emissões de CO2 devem ser mantidas dentro de um orçamento finito”, resume Elmar Kriegler, do Potsdam- Instituto de Pesquisa sobre o Impacto Climático. “Quanto mais o orçamento é excedido, mais relevantes serão as tecnologias de remoção de dióxido de carbono, e essas vêm com grandes incertezas. Embora ainda seja difícil determinar o orçamento exato de CO2 remanescente para 1,5 ° C, uma coisa é muito clara: as ambições para reduzir as emissões de combustíveis fósseis têm que aumentar substancialmente e em breve manter as portas abertas para atender às metas de Paris. ”

Video: https://www.youtube.com/watch?v=zn_h9eTitNs


Referência:
Gunnar Luderer, Zoi Vrontisi, Christoph Bertram, Oreane Y. Edelenbosch, Robert C. Pietzcker, Joeri Rogelj, Harmen Sytze De Boer, Laurent Drouet, Johannes Emmerling, Oliver Fricko, Shinichiro Fujimori, Petr Havlík, Gokul Iyer, Kimon Keramidas, Alban Kitous, Michaja Pehl, Volker Krey, Keywan Riahi, Bert Saveyn, Massimo Tavoni, Detlef P. Van Vuuren, Elmar Kriegler (2018): Residual fossil CO2 emissions in 1.5-2°C pathways. Nature Climate Change [DOI: 10.1038/s41558-018-0198-6]
https://doi.org/10.1038/s41558-018-0198-6


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/06/2018



Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 28/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/28/mais-acoes-nos-setores-da-industria-transporte-e-construcao-sao-necessarios-para-atingir-as-metas-climaticas-de-paris/

Sistemas urbanos flexíveis, Parte 2/2 (Final), artigo de Roberto Naime

MASSARA (2005) continua refletindo sobre flexibilidade e espaço urbano. Assinala que os sistemas urbanos orientam a distribuição e a localização das mais importantes centralidades urbanas em relação às infraestruturas de geração de energia e articulação de fluxos, às estruturas para lazer e turismo e reequilíbrio ambiental.

É uma proposta de convergência entre sistemas urbanos flexíveis e espaços urbanos.

A metápolis apreende a região da Catalunha a partir de uma leitura que busca organizar todo o território como uma única especialidade integrada, cujos sistemas não podem ser separados.
Caracterizam a Catalunha como uma grande multi-cidade descontínua ou uma geourbanidade interconectada.

O conceito de “metápolis” se relaciona a uma estratégia de aproximação de escalas, de utilizar os atributos territoriais num nível regional.

A partir desta concepção, se analisa a condição do espaço urbano atual diante de um quadro de crescimento de sistemas urbanos flexíveis.

A crescente difusão dos sistemas de telecomunicação, seguidas da constituição de redes sociais e de prestação de serviços remotos vêm produzindo, segundo o arquiteto holandês Winy Maas, alterações significativas na nossa condição urbana.

Ele se refere principalmente à crescente especialização das atividades regionais, bem como a interdependência entre elas e o aumento da população que é seguido de uma concentração urbana elevada, levando em conta os fenômenos que ocorrem no território holandês.

Maas utiliza a definição “metacity” para se referir a um tipo de espacialidade física resultante da crescente interferência dos sistemas de comunicação, informação, circulação na organização das atividades no espaço urbano atual.

“Devido à sempre crescente expansão das redes de comunicação e a incomensurável teia de inter-relacionamentos que ela gera, o mundo tem presenciado o anacronismo do “global-village”, se transformando no estágio mais avançado da metacity” afirma o holandês.

O atributo “meta” aplicado ao caso das cidades está atrelado à uma condição existencial crítica do espaço urbano na qual ele não se revela através de seus edifícios ou vias de circulação e espaços públicos, mas em capacidade de articulação em um sistema urbano ampliado.

Maas propõe o mapeamento desta condição a partir de um processo de levantamento de dados relativos às cidades, processo por ele denominado de “datatown”.

Que é um método de quantificação de dados que pretende descrever as cidades sem dar relevância ao contexto físico, como as questões topográficas ou ambientais e outras.

Aqui é lícito citar a região americana de Norfolk, principal base marítima daquele país. Grandes autoestradas ligam territórios, com aglomerações comerciais, residenciais e industriais ocorrendo ligadas pelas auto-pistas.

Um modelo análogo com a Catalunha, Holanda e Brasília na sua concepção original.

O mundo da conexão permanente, da efervescência e da instantaneidade influencia o “lógus” do uso e da ocupação do espaço.

Referências:

MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo; COSTA, Heloisa S. M. Inovações tecnológicas e novas espacialidades: evidências e tendências recentes. In: ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS, 20., 1996, Caxambu.

MITCHELL, Willian. E-topia: a vida urbana mas não como a conhecemos. Tradução: Ana Carmen Martins Guimarães. São Paulo: SENAC, 2002, p. 45-47.

CASTELLS. A sociedade em rede, 1999, p. 503.

GUALLART, Vicente et al. HyperCatalunya: research territories. Barcelona: IAAC, Generalitat e ACTAR, 2003.

MAAS, Winy et al. Metacity Datatown. Rotterdam: MVRDV/010, 1999, p. 16-19.

MASSARA, Bruno. Sistemas urbanos flexíveis e seus impactos no espaço urbano. (in) MASSARA, Bruno. Interfaces Gráficas e Cidades: Tecnologia Digital na Visualização de Dinâmicas Espaciais en Grande Escala. Dissertação de Mestrado. NPGAU/EAU/UFMG, NOV. 2005, p. 30-36. Disponível em <http://www.territorios.org/teoria/H_C_sistemas.html> Acessado em: 26/12/2015.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.



Nota da Redação: Sugerimos que leia, também, o artigo anterior desta série:

Sistemas urbanos flexíveis, Parte 1/2



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/06/2018




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 28/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/28/sistemas-urbanos-flexiveis-parte-22-final-artigo-de-roberto-naime/

Presidente Prudente, SP, realiza mutirão anual de coleta do lixo eletrônico e sua destinação correta

Entre as 50 melhores do Brasil em qualidade de vida, a cidade realiza mutirão de coleta e destinação correta


Componentes eletroeletrônicos contêm pesadas substâncias tóxicas. Mutirão de 2018 arrecada 70 toneladas, 10 a mais que em 2016. Crédito: João Paulo Barbosa

Presidente Prudente encontrou um meio que tem se mostrado eficiente para a destinação correta do descarte de produtos eletroeletrônicos, capaz de servir como referência para São Paulo e o Brasil. É um mutirão de coleta do lixo eletrônico e sua destinação correta. Evento que envolve o poder público municipal e a Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), que promove mobilização da população e que em dez anos está consolidado como ação prática de educação ambiental, de tal forma a ganhar o apoio institucional da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cestesb), agência vinculada à Secretaria de Estado do Meio Ambiente.

Uma realização que tem influenciado para a cidade estar entre as 50 melhores do Brasil em qualidade de vida, conforme o Observatório das Metrópoles, coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2016), com levantamento realizado em 5.565 municípios brasileiros. Também está entre as 50 melhores do Brasil para sobreviver, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM, 2016), ocupando o 25º lugar conforme dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud/ONU).

Iniciado em 2009 com duas edições, no sábado (9) foi realizado o 11º Mutirão do Lixo Eletrônico, com a maior parte da coleta centralizada no Parque do Povo, extensa área verde e de lazer com 24 alqueires, servida por vias de trânsito rápido, o que facilita o acesso da população de 225.271 moradores, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2017). Em 11 edições passam de 700 toneladas coletadas, com arrecadação de 70 toneladas (10 a mais que em 2017) e cerca de 2 mil pessoas, representando suas famílias ou empresas, que atenderam o apelo dos organizadores.

No balanço divulgado nesta segunda-feira (11) foi constatado que a cada ano aumenta o número de participantes e neste ano foram 3,14% a mais que no ano anterior. Como 37% foram pela primeira vez, isso sinaliza a existência de rodízio por parte da população e muitos que levaram no anterior não tinham o que levar neste ano cuja média ficou em 35 Kg por pessoa. Na realização estiveram envolvidos 290 voluntários, dos quais 240 estudantes universitários de 19 cursos de graduação e do Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional.

A logística contou com a recepção e separação entre objetos maiores e menores, a exemplo de televisores e pilhas, para serem acondicionados em ecobags colocadas, por empilhadeiras, em quatro carretas destinadas pela Silcon Ambiental, empresa de Cerqueira César/SP que possui certificação para gerenciamento e tratamento de resíduos industriais. Junto ao evento foram promovidas ações de educação ambiental, envolvendo alunos de escolas municipais do primeiro ciclo do ensino fundamental, com foco sobre possíveis formas de reaproveitamento, incluindo a produção de objetos de arte.

Para o diretor estadual de controle de licenciamento ambiental Geraldo do Amaral Filho, com mais de 40 anos de serviços prestados à Cetesb, o mutirão é um evento raro, se não for o único, já que outros eventos tratam do genérico e não especificamente do eletroeletrônico que é um resíduo muito agressivo ao meio ambiente. Entende que a iniciativa é altamente eficiente por envolver a comunidade e sua força está no empenho do poder público chancelado pela universidade, “que coloca ciência por trás disso e constrói credibilidade”.

O prefeito Nelson Roberto Bugalho (PTB), promotor público do meio ambiente e que foi vice-presidente da Cetesb, disse que o objetivo é evitar a contaminação ambiental com substâncias tóxicas, como são os casos de mercúrio, chumbo e cádmio, entre outras que podem prejudicar o solo, águas superficiais e subterrâneas. O fato das pessoas guardarem o lixo eletrônico e fazer o descarte somente no mutirão, é visto pelo prefeito como um importante componente de educação ambiental.

O pensamento do prefeito é compartilhado pelo pró-reitor de pesquisa, pós-graduação e extensão da Unoeste Dr. Adilson Eduardo Guelfi que analisa o evento como modelo estadual e nacional, dentro de um contexto de preocupação global, considerando que a indústria eletroeletrônica gera por ano 44,7 milhões de toneladas de resíduos, com apenas 20% tratado de maneira apropriada, de acordo com o Programa das Nações Unidades para o Meio Ambiente (Pnuma/ONU), sendo o restante jogado no lixo e reciclado sem cuidados com a manipulação e segurança, causando prejuízos ao meio ambiente e à saúde humana.

Colaboração de Homéro Ferreira, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/06/2018



Autor: Homéro Ferreira
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 13/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/13/presidente-prudente-sp-realiza-mutirao-anual-de-coleta-do-lixo-eletronico-e-sua-destinacao-correta/

Mudanças Climáticas: População chinesa será mais exposta a ondas de calor ou temperaturas menos confortáveis

Institute of Atmospheric Physics, Chinese Academy of Sciences*

Uma das principais preocupações nos estudos de mudança climática é como as condições térmicas para o ambiente de vida dos seres humanos vão mudar no futuro. Em um artigo publicado recentemente na Atmospheric and Oceanic Science Letters , o professor GAO Xuejie, do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências, e seus coautores tentam responder a essa pergunta com base em seu conjunto de alta resolução recentemente concluído e sem precedentes das simulações de alterações climáticas do século XXI. Essas simulações foram produzidas usando o modelo climático regional RegCM4, impulsionado por quatro simulações de modelos globais sobre a China – o país com a maior população do mundo.

O índice de temperatura efetiva (effective temperature – ET), que considera os efeitos agregados de temperatura, umidade relativa e vento na percepção térmica humana é usado na análise. “Com base nos valores de ET, classificamos a percepção térmica em diferentes categorias, variando de ‘muito quente’, ‘quente’, ‘quente’, ‘confortável’, ‘frio’, ‘frio’ e ‘muito frio’”, explica GAO.

Os autores descobriram que um aumento geral no ET no futuro leva a um grande aumento na exposição da população a dias muito quentes, um aumento de seis vezes na China em “pessoa-dia” até o final do século 21 sob o cenário RCP4.5. O maior aumento em pessoas-dia muito quentes é encontrado na região que se estende do vale do rio Yangtze ao norte da China, juntamente com as costas do sul e a bacia de Sichuan.

“Para ser mais específico”, diz o GAO, “o número de pessoas sem exposição a dias muito quentes cairá do atual número de 0,6 bilhão para 0,2 bilhão, enquanto aqueles com exposição a mais de 1 e 2 meses de muito dias quentes aumentarão de 2,7 milhões e zero para 165,7 e 22,7 milhões, respectivamente ”.

Enquanto isso, uma diminuição nas condições de dias confortáveis em 22% por pessoa-dia é encontrada, apesar de um aumento nos dias confortáveis baseados no clima (12%). Isso mostra que menos pessoas se beneficiarão das melhores condições térmicas. De fato, a população com mais de 2 meses de dias confortáveis até o final do século está projetada para ser apenas 55% do valor atual. Uma diminuição geral nos dias frios, frios e muito frios é encontrada, como esperado neste país dominado por condições térmicas frias.

“Assim, em geral, até mesmo um cenário de aquecimento de nível médio é encontrado para aumentar o estresse térmico sobre a China”, diz Gao, “embora haja uma forte dependência geográfica neste resultado”.

Referência

Gao, X. J., J. Wu, Y. Shi, J. Wu, Z. Han, D. F. Zhang, Y. Tong, R. K. Li, Y. Xu, and F. Giorgi, 2018. Future changes in thermal comfort conditions over China based on multi-RegCM4 simulations. Atmospheric and Oceanic Science Letters 11. doi: 10.1080/16742834.2018.1471578.
http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/16742834.2018.1471578


Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/06/2018



Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 13/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/13/mudancas-climaticas-populacao-chinesa-sera-mais-exposta-a-ondas-de-calor-ou-temperaturas-menos-confortaveis/

O desalento de 4,3 milhões de pessoas que desistiram de procurar trabalho

IBGE/Revista Retratos

No Brasil, no 4º trimestre de 2017, os desalentados chegaram a 4,3 milhões de pessoas, o maior contingente desde o início da série histórica da Pnad Contínua, iniciada no 1º trimestre de 2012, quando os desalentados somavam 1,9 milhão. É o caso de Alane Nascimento e Andressa Estrela, que têm em comum, além da idade (23 anos), o mesmo sentimento em relação ao mercado de trabalho: o desânimo. As estudantes, que moram em Salvador (BA), desistiram de procurar emprego depois de se candidatarem a diversas vagas e não serem chamadas sequer para a entrevista, mas não hesitariam em aceitar uma vaga, caso aparecesse a possibilidade de voltar a trabalhar.

“Colocava currículo para trabalhar em lojas, shoppings, em vagas de caixa, telemarketing, e não era chamada. Acredito que tenha sido pela falta de experiência, já que eu trabalhei apenas em uma empresa, como jovem aprendiz”, supõe Andressa, que procurou novas oportunidades, sem êxito, durante três anos e desistiu da busca há dez meses.

Já Alane tentou uma vaga de emprego formal durante quatro anos, desde que seu contrato como jovem aprendiz foi encerrado, em 2014. A desistência de bater à porta das empresas aconteceu há cerca de oito meses. “Durante todo esse tempo coloquei uns 60 currículos. Quando eu via que ninguém me chamava para entrevista eu desanimava e desistia, depois tentava de novo. Mas em agosto de 2017 eu decidi parar de procurar”, conta Alane. As duas jovens estão entre as 663 mil pessoas que estavam fora da força de trabalho na Bahia por uma das seguintes razões: não conseguiam trabalho, ou não tinham experiência, ou eram muito jovens ou idosas, ou não encontraram trabalho na localidade – e que, se tivessem conseguido trabalho, estariam disponíveis para assumir a vaga. É a chamada população desalentada.



Jovens, pouco experientes e desalentadas

Em Minas Gerais, Indira de Oliveira, 24 anos, desistiu de procurar emprego e, por conta disso, também teve que desistir de casar e construir seu próprio lar. Desde que a pequena empresa de telemarketing em que trabalhava fechou, no final de 2015, Indira não consegue uma recolocação formal no mercado de trabalho. E não foi por falta de tentativa: entre outubro de 2015 e novembro de 2017 a jovem contabilizou o envio de 358 currículos para a Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Desse total, no máximo umas 15 empresas marcaram entrevistas. Poucas retornaram o contato”, lamenta. Cansada de sofrer com a expectativa de conseguir o emprego, ela decidiu dar uma pausa nas buscas no final do ano passado.

Somando as pessoas que não desistiram de procurar emprego – os 12,3 milhões de desocupados, e os 6,5 milhões de subocupados por insuficiência de horas – e as 7,6 milhões de pessoas que estão fora da força de trabalho, a subutilização mostrou que falta trabalho para 26,4 milhões de brasileiros. “Essa desagregação mostra que, não só gerar posto de trabalho, mas a gente tem que se preocupar também com as mulheres que não têm com quem deixar o filho, a dificuldade que os jovens têm de se inserir no mercado de trabalho. O desalento mostra muito isso, com parte expressiva apontando para os jovens, as mulheres, a população de cor preta ou parda e principalmente pessoas de escolaridade mais baixa”, explica o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE Cimar Azeredo.



Dificuldades para recomeçar

Outra faixa da população atingida pelo desalento são as pessoas mais velhas. Com 54 anos e mais de duas décadas depois de parar de trabalhar, a pernambucana Jô Fontes tentou se inserir novamente no mercado de trabalho em 2015. Desde os 18, ela foi funcionária de grandes lojas do Recife e só parou de trabalhar aos 30, depois que uma das filhas nasceu. “Tive bebê, ela teve coqueluche, aquela coisa… realmente tive que sair para tomar conta dela”, lembra. Jô ficou fora da força de trabalho até se divorciar, quando começou a procurar emprego. Atualizou o currículo e entregou em várias lojas, mas veio a decepção: silêncio, preconceito, nãos, até que desistiu. “Vi que não tinha mais chances e parei. O problema era a idade e, a cada dia, eu vou envelhecendo, o que eu poderia fazer?”, questiona. “Fica chato você procurar uma coisa, procurar, procurar… aí alguém vê uma foto e acha que você não tem possibilidade de ter aquele emprego”, lamenta.


Repórter: Alana Lima, Helena Tallmann, Marília Loschi e Rita de Cássia
Imagem: Rita de Cássia Martins
Arte: Simone Mello

Do IBGE, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/06/2018




Autor: IBGE
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 04/6/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/04/o-desalento-de-43-milhoes-de-pessoas-que-desistiram-de-procurar-trabalho/

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Conhecimento para todos

O biólogo Filipe Oliveira interrompeu o doutorado na Finlândia para iniciar projeto de democratização da ciência no Brasil



Microscópio acoplado a celular construído a partir de resíduos eletrônicos durante uma das oficinas do Conector CiênciaImagem: arquivo pessoal

O biólogo Filipe Oliveira começou a se interessar pela biologia evolutiva do desenvolvimento em 2009, após um curso de verão na Universidade de São Paulo (USP). Na época, esse campo das ciências biológicas que compara os processos de desenvolvimento dos embriões para entender a origem ancestral de padrões biológicos ainda era incipiente no Brasil. Oliveira estava na graduação na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e encontrou na Universidade de Uppsala, na Suécia, a oportunidade de se aprofundar sobre o assunto em um mestrado no âmbito do Programa Erasmus Mundus, financiado pela União Europeia.

Oliveira mudou-se para a Suécia no início de 2010, aos 23 anos. O programa permitia cursar alguns semestres em diferentes instituições. Optou pelas universidades de Munique Ludwig-Maximilians, na Alemanha, e Harvard, nos Estados Unidos. “Defendi duas dissertações”, ele conta. “Uma na Alemanha, sobre a evolução das vértebras cervicais em aves, e outra, feita nos Estados Unidos e defendida em Uppsala, sobre a evolução do bico das aves.”

Com o fim dos mestrados, em 2012, Oliveira voltou ao Brasil para participar de um curso sobre evolução orgânica oferecido pela Escola São Paulo de Ciência Avançada (Espca), modalidade de apoio da FAPESP destinada a pós-doutorandos e a alunos de mestrado e doutorado do Brasil e do exterior. Poucas semanas depois, ele se envolveu em um novo projeto, com bolsa do Departamento de Biologia Geral da UFV, de estudo da mandíbula de embriões de abelhas com microscopia de varredura.

“Paralelamente, eu e alguns estudantes da graduação criamos o folhetim Miró em Darwin, que se transformou em uma oportunidade de colocar em prática meu interesse em conectar ciência e sociedade”, diz.



Microscópio acoplado a celular construído a partir de resíduos eletrônicos durante uma das oficinas do Conector CiênciaImagem: arquivo pessoal

O biólogo ficou pouco tempo em Viçosa. Em 2013, candidatou-se para uma vaga de assistente de pesquisa no Instituto de Biotecnologia da Universidade de Helsinki, na Finlândia, onde meses depois iniciou o doutorado no estudo do crânio de embriões de serpentes e lagartos. “No projeto, aprofundei minhas atividades acadêmicas com museus na Finlândia, Alemanha e Estados Unidos”, relembra. “Essas experiências me estimularam a pensar em processos que conectassem as pessoas à ciência e às suas tecnologias”, relembra.

No Lungi, programa de empreendedorismo da Helsinki Think Company, ele conseguiu estruturar suas ideias sobre o projeto social. Em 2016, Oliveira trancou o doutorado e decidiu voltar para o Brasil para iniciar seu empreendimento, o Conector Ciência. Ele e o companheiro, o designer finlandês Tuomas Saikkonen, instalaram-se em Lençóis, na Chapada Diamantina, Bahia, onde desenvolveram os primeiros projetos sociais de democratização da ciência nas escolas a partir da reutilização de microprocessadores e sensores na montagem de tecnologias.

“A ideia era promover oficinas com a comunidade escolar e colocar em prática a criatividade e o pensamento inovador, por meio da experimentação científica e tecnológica”, explica o biólogo. Ao todo, mais de 34 oficinas já foram realizadas, com pouco mais de 800 participantes. E o projeto que começou em Lençóis vai aos poucos ampliando seu alcance. Com sede no Rio de Janeiro, o Conector Ciência já promoveu oficinas em universidades, escolas e unidades do Sesc pelo país.

Mais recentemente, eles firmaram uma parceria com a Prometheus Science, da Alemanha. “Estamos agora focados na fabricação e no uso de microscópios digitais de qualidade didática e científica. O objetivo é estimular a capacidade das pessoas em desenvolver produtos, pesquisas e negócios inovadores”, ele destaca. “Queremos engajar jovens, crianças, pais e educadores na construção de uma ciência mais prática nas escolas.”




Autor: Rodrigo de Oliveira Andrade
Fonte: Revista Pesquisa Faperj
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa Faperj
Data de Publicação: 24/6/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/04/19/conhecimento-para-todos/

Genes em silêncio

Ferramenta molecular baseada na técnica de RNA de interferência pode auxiliar no combate a pragas agrícolas

O setor agrícola conta com uma nova ferramenta biotecnológica para combater pragas agrícolas, que causam grandes perdas às lavouras no mundo todo. As multinacionais norte-americanas Monsanto, recém-adquirida pela alemã Bayer, e DowDuPont obtiveram no ano passado aprovação para uso comercial nos Estados Unidos de uma semente transgênica feita com a técnica de silenciamento gênico por RNA (ácido ribonucleico) de interferência, ou simplesmente RNAi. Com efeito inseticida, ela foi criada para controlar a larva-alfinete americana (Diabrotica virgifera), fase larval de um besouro que é a principal ameaça às plantações de milho naquele país. É a primeira vez que moléculas de RNAi são usadas no combate a pragas do campo.



No Brasil, a empresa Tropical Melhoramento & Genética (TMG), com sede no Paraná e especializada em melhoramento genético de soja e algodão, espera dispor ainda este ano de uma molécula de RNAi para uso contra o percevejo-da-soja (Euschistus heros), importante praga da oleaginosa. O desenvolvimento da tecnologia está sendo feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também já criou um feijão transgênico com a técnica de RNAi, mas para controle de um vírus, conhecido como mosaico-dourado, que ataca esse plantio. Embora já aprovado desde 2011 pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), o produto ainda não foi comercializado.

Criadas em laboratório, as moléculas de RNAi neutralizam a ação de um gene-alvo em um organismo qualquer – daí a expressão silenciamento gênico. Seu mecanismo de ação é similar ao que ocorre naturalmente em todos os seres vivos ao lutar contra ataques virais. Quando isso ocorre, as defesas do organismo tentam neutralizar a ação do invasor, silenciando seus genes. De modo análogo, a tecnologia de RNAi faz com que a célula ataque o produto de seu próprio gene, como se estivesse destruindo o material genético viral, num processo similar ao de uma resposta autoimune. No uso agrícola, o RNAi é programado para inativar genes específicos de pragas e patógenos associados a processos essenciais à sua sobrevivência.

A descoberta de que o processo de interferência por RNA poderia ser usado a favor do organismo humano rendeu aos pesquisadores Andrew Fire e Craig Mello, do Instituto Carnegie, de Washington, o prêmio Nobel de Medicina de 2006. O achado foi promissor porque revelou uma nova forma de assumir o comando celular, abrindo um amplo leque de aplicações. Desde então, a ferramenta é aplicada na pesquisa básica para estudo da função gênica e, na área da saúde, é vista como uma promessa para o tratamento de doenças genéticas (ver Pesquisa FAPESP nº 133).

Para entender como essa nova tecnologia funciona é preciso lembrar de processos da biologia celular, especificamente o mecanismo de expressão genética. Genes são segmentos da molécula de DNA que controlam as funções metabólicas das células, principalmente por meio da produção de proteínas. “Nossa informação genética está toda armazenada em nosso DNA. Para dar vida e uso a essa informação, o DNA deve, inicialmente, ser transcrito em RNA. Em seguida, esse RNA mensageiro é traduzido para proteínas. Esse é o processo básico de expressão gênica”, explica o biólogo Alexandre Garcia, gestor de pesquisa da TMG.



Como o nome deixa claro, a molécula sintética de RNAi interfere no processo de tradução do RNA mensageiro em proteína, fragmentando-o. Ela intercepta e destrói as informações celulares conduzidas pelo RNA dentro da célula antes que sejam processadas e originem proteínas. Dessa forma, o processo de expressão gênica que dependia dos dados contidos naquele RNA não irá mais ocorrer.

Milho pioneiro

O milho transgênico lançado pela Monsanto e DowDuPont foi batizado internamente de DvSnf7 e seu nome comercial é SmartStax. A sopa de letras é formada pelas iniciais da lagarta Diabrotica virgifera e o nome do gene-alvo, Snf7. Quando o inseto se alimenta da planta, a molécula de RNAi entra em seu organismo e silencia o gene Snf7, impedindo a produção de uma proteína que é vital para o funcionamento de tecidos da larva-alfinete americana. O resultado é a morte do inseto, conhecido como “o besouro de US$ 1 bilhão” por causa do enorme prejuízo causado aos agricultores norte-americanos. A química brasileira Renata Bolognesi integrou a equipe da Monsanto que criou o milho transgênico.

“A aplicação da tecnologia de RNAi na agricultura é bastante promissora”, destaca o engenheiro-agrônomo Henrique Marques-Souza, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e líder de um grupo de pesquisa nacional sobre silenciamento gênico. Ele se especializou no tema durante o doutorado na Universidade de Colônia, na Alemanha, concluído em 2007, e o pós-doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos, realizado entre 2008 e 2010. De volta ao Brasil, passou a lecionar na Unicamp, onde criou o Brazilian Laboratory on Silencing Technologies (Blast) e derivou seus estudos sobre silenciamento gênico para a agricultura.

Em 2012, Marques-Souza e o engenheiro-agrônomo Antonio Vargas de Oliveira Figueira, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade
de São Paulo (Cena-USP), montaram um banco de sequências da traça-do-tomateiro (Tuta absoluta) e realizaram ensaios de silenciamento gênico para diversos genes do inseto. “Esse trabalho deu visibilidade ao nosso grupo. Hoje, podemos desenvolver a tecnologia de RNAi para virtualmente qualquer praga de qualquer cultura”, afirma o pesquisador da Unicamp. No ano passado, a técnica foi licenciada para a TMG pela Inova, a agência de inovação da Unicamp.


O maior desafio para a criação de um inseticida com RNAi para aplicação tópica é a reduzida estabilidade da molécula no ambiente

O primeiro produto a ser desenvolvido com a ferramenta pela empresa será destinado a controlar o percevejo-da-soja, uma das maiores ameaças à sojicultora nacional. “Esperamos ter definido até o fim do ano as melhores moléculas de RNA. Todo o trabalho será feito em caráter experimental e por meio de estudos controlados”, conta Garcia, da TMG, destacando que o caminho para essas moléculas se tornarem um produto comercial é longo e depende tanto da tecnologia usada para promover sua aplicação como do cenário de aprovações legais.

Segundo Marques-Souza, há duas formas de fazer com que as moléculas de RNAi entrem em contato com as pragas: pela criação de plantas transgênicas, como a Monsanto e a DowDuPont procederam com o milho DvSnf7, ou pelo desenvolvimento de produtos inseticidas. Essa é a escolha da TMG, que planeja criar um produto para aplicação tópica, como, por exemplo, um pulverizador. “Além de diminuir o tempo gasto para a produção de uma planta transgênica, o RNAi tópico pode ser considerado um produto natural, pois se trata de uma molécula biológica que não causa alterações genéticas na cultura de interesse ou no organismo desejado”, explica Marques-Souza.

A criação de um inseticida com RNAi, no entanto, não é trivial, e alguns obstáculos precisam ser superados. “Essas moléculas se degradam rapidamente no ambiente, o que dificulta a criação de um produto para aplicação na lavoura. Por isso, já existem investigações que buscam empregar recursos da nanotecnologia para proteger a molécula de RNAi [ver Pesquisa FAPESP nº 266] e elevar sua estabilidade”, destaca o biólogo Fernando Luís Cônsoli, do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, interior paulista.

O nanoencapsulamento de moléculas de RNAi é o tema do projeto de doutorado do biólogo Cyro von Zuben, aluno do IB-Unicamp orientado por Marques-Souza. Até o fim do ano deverão ser realizados ensaios com nanopartículas de argila, em conjunto com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), do governo paulista, e com o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), para diversas espécies-alvos em estudo no laboratório Blast. Na Austrália, um grupo de pesquisa publicou há pouco tempo um artigo descrevendo o uso de nanopartículas que garantem a integridade e a entrega de RNAi por 30 dias.


Cônsoli também alerta que o processo de seleção de moléculas de RNAi deve considerar o risco de elas afetarem a própria planta ou organismos não alvo da tecnologia, inclusive o homem. De acordo com Marques-Souza, essa é uma preocupação real, mas que pode ser superada. “Quando se seleciona um gene-alvo para atingir o organismo de uma praga, devemos ter o cuidado de não escolher uma sequência gênica que seja complementar a um gene da planta ou de qualquer outro organismo que se alimente dela. Se este cuidado for tomado, o silenciamento gênico só ocorrerá no organismo-alvo”, diz. “A garantia de que o RNAi não terá nenhum efeito em humanos só virá com muito estudo.”

Alexandre Garcia reforça: “A tecnologia é baseada em sequências de RNA. Todos os seres vivos possuem sequências em comum, mas as espécies têm inúmeras sequências únicas que as diferenciam de outras espécies”. Hoje, com a quantidade de informações e bases de dados de genomas à disposição, é possível achar sequências que são exclusivas da espécie-alvo e desenhar moléculas que irão atuar apenas nessas sequências. “Dessa forma, todo o processo se torna específico e exclusivo para o organismo-alvo”, sustenta.

Norma da CTNBIO

Um passo importante para a regulamentação do uso do RNAi tópico no Brasil foi dado no início do ano quando a CTNBio publicou uma normativa definindo a tecnologia como um método que não envolve transgenia e classificando-a de Técnica Inovadora de Melhoramento de Precisão (Timp). Com isso, ela não estará necessariamente sujeita aos mesmos critérios de aprovação exigidos para organismos geneticamente modificados.

“O processo para gerar uma planta transgênica e passar por todos os mecanismos regulatórios globais para aprovar seu cultivo comercial é extremamente caro e demorado, podendo ultrapassar os US$ 100 milhões e 15 anos”, diz Garcia. “O uso da tecnologia de RNAi como produto de aplicação tópica, para o caso do percevejo-da-soja, é mais promissor. Essa tecnologia deverá estar à disposição dos agricultores brasileiros em alguns anos.”

Projeto

RNAi para controle de Tuta absoluta em tomateiro (nº 11/12869-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Antônio Vargas de Oliveira Figueira (USP); Investimento R$ 153.800,39.


Artigos científicos
PARTHASARATHY, R. et al. Physiological and cellular responses caused by RNAi-mediated suppression of Snf7 orthologue in western corn rootworm (Diabrotica virgifera virgifera) larvae. PLOS ONE. On-line. 18 jan. 2013.
CAMARGO, R. A. et al. RNA interference as a gene silencing tool to control Tuta absoluta in tomato (Solanum lycopersicum). PeerJ. On-line. 15 dez. 2016.



Autor: Revista Pesquisa Faperj
Fonte: Revista Pesquisa Faperj
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa Faperj
Data de Publicação: 24/6/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/06/18/genes-em-silencio/