sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A distância entre negociadores e a sociedade civil na COP25 se torna evidente

O senso de urgência é realmente mais palpável entre algumas empresas presentes na COP25 do que entre os negociadores.

Por Aline Robert* | EURACTIV.fr




À medida que a sociedade civil busca mais ambição no combate às mudanças climáticas, o ritmo lento das negociações na cúpula da COP25 em Madri frustra ativistas.

Com mais de 20.000 pessoas reunidas em Madri, a COP25 já é um sucesso em termos de mobilização e organização.

Mas a comunidade de “observadores”, na qual ONGs, ativistas, empresas e grupos de reflexão estão confusos, ficou chocada com a atitude dos serviços de segurança, pois bloquearam temporariamente seu acesso na quarta-feira (11 de dezembro) e expulsaram 300 ativistas de COP após uma demonstração um pouco barulhenta por parte dos jovens.

Os serviços das Nações Unidas forneceram uma explicação e tudo voltou ao normal. Mas o episódio destaca a frustração da sociedade civil, que veio em massa para apoiar os negociadores, mas acabou se sentindo excluída.

No entanto, há muito mais locais de reunião do que antes, e os jovens, assim como os representantes das minorias, foram convidados a falar em sessões plenárias em várias ocasiões ao lado dos funcionários.

Mas esses convites são, no entanto, mais prontamente dados ao ex-secretário de Estado dos EUA John Kerry, que falou em Madri na quinta-feira, do que aos ativistas.

“Há mais porosidade entre os diferentes círculos, os compromissos de empresas e autoridades locais são regularmente citados e elogiados”, disse Lola Vallejo, especialista em clima do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (IDDRI).

Mas a ambição não é uma prioridade para todos. Por exemplo, como as regras da ONU exigem unanimidade, a recusa da Arábia Saudita em mencionar os trabalhos do IPCC ou dos direitos humanos nos textos finais pareceu atrapalhar o fluxo das negociações.

O senso de urgência é mais palpável entre algumas empresas presentes na COP25 do que entre os negociadores. Embora os mais ambiciosos mantenham firmemente sua posição, como lembrou o eurodeputado Bas Eickhout, chefe da delegação do Parlamento Europeu na COP25.

“Nenhum acordo é melhor que um mau acordo”, disse o eurodeputado holandês, insistindo que a integridade do Acordo Climático de Paris não deve ser posta em causa pela discussão sobre a compensação de carbono.

Lola Vallejo alertou, no entanto, que “esta COP não deve ser julgada pelo Artigo 6”, pois o lento progresso das negociações nos termos a serem usados na seção do tratado que trata de perdas e danos, mas também em ambição futura, criou mais problemas além da complicada questão dos créditos de carbono.

Enquanto isso, os jovens decidiram exercer alguma pressão no último dia da cúpula climática. Furiosa com o tratamento da sociedade civil, a organização Sextas para o Futuro chegou a convocar uma greve internacional em 13 de dezembro.


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2019




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/a-distancia-entre-negociadores-e-a-sociedade-civil-na-cop25-se-torna-evidente/

Usina solar “vertical” será instalada em barragem nos Alpes a 2.500 metros de altura



Um projeto proposto pela empresa suíça Axpo prevê a instalação de uma usina solar vertical com 2 Megawatts de capacidade em uma barragem hidrelétrica no país.

Com mais de 1 km de extensão, a barragem do Lago Muttsee é maior de toda a Europa e está situada a uma altitude de quase 2.500 metros do nível do mar.

Segundo a empresa, as 6.000 placas de energia solar fotovoltaica serão fixadas em uma área de 10 mil m² da parede da barragem.

A sua posição não será exatamente vertical e seguirá a inclinação da obra, com ângulos de 77° para a faixa de placas superiores e 55° na faixa inferior.

De acordo com os responsáveis, o local apresenta fatores ideais para a construção do projeto, que terá uma capacidade de produção anual estimada de 2,7 Gigawatts-hora.

As temperaturas mais baixas, que aumentam o desempenho das placas, o efeito reflexivo da neve e a ausência de neblina são algumas das condições favoráveis apontadas.

Fora isso, a barragem está voltada ao sul, posição ideal para a instalação de placas solares em países do hemisfério Norte, sendo o contrário em países do hemisfério austral, como o Brasil.

O projeto também poderá aproveitar a rede de transmissão já existente da hidrelétrica, a Linthal 2015, como no caso da usina solar flutuante de Sobradinho, inaugurada este ano.

Durante o inverno, a produção de energia na Suíça é significativamente menor do que o seu consumo, o que levou o governo do país a apostar em fontes de energia renováveis em seu plano energético para 2050.

Várias usinas solares foram construídas no planalto suíço durantes os últimos anos, mas a sua capacidade de produção ainda não foi suficiente para resolver a queda de produção no inverno.

Embora a baixa capacidade do projeto piloto da Axpo não torne a usina uma solução em si, ela servirá como base de avaliação para o potencial de geração nessa região do país, abrindo caminho para projetos maiores.

Teoricamente, o potencial existe e foi divulgado em um recente estudo realizado pelo Instituto Federal Suíço de Tecnologia.

Segundo a Swisssolar, associação solar fotovoltaica da Suíça, o país precisa de 50 Gigawatts de nova capacidade solar instalada para atender seu consumo de forma sustentável no futuro.

A usina solar vertical da Axpo pode ser uma luz para guiar essa transformação energética do país.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2019



Autor: Ruy Fontes – Agência #movidos
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/usina-solar-vertical-sera-instalada-em-barragem-nos-alpes-a-2-500-metros-de-altura/

Aquecimento no Sudeste foi causado em grande parte por gases de efeito estufa, aponta estudo



Elton Alisson | Agência FAPESP – A temperatura média no Sudeste do Brasil tem aumentado nas últimas décadas, fato que contribui para elevar a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos, como inundações, secas e ondas de calor.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) tem afirmado há anos que, em escala global, o aumento da temperatura média observado nos últimos cem anos está relacionado com o crescimento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera resultante de ações humanas. Já na escala regional, como é o caso da região Sudeste, ainda há muita incerteza em relação às causas. Segundo especialistas, fatores como urbanização e mudanças no uso da terra para agropecuária, por exemplo, também podem ter impactos significativos na temperatura local.

Agora, um grupo de pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e da Universidade de Edimburgo, do Reino Unido, conseguiu obter um indício contundente de que o aumento detectado de 1,1 ºC na temperatura da região entre 1955 e 2004 se deve, principalmente, ao efeito estufa.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram publicados na revista Geophysical Research Letters.

O projeto integra o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

As conclusões se baseiam em observações climáticas da superfície e em 34 simulações da temperatura no Sudeste do Brasil nas últimas décadas, obtidas de modelos climáticos do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, Fase 5 (CMIPC5), usado pelo IPCC.

Esses dados foram submetidos a um método estatístico de detecção e atribuição de impacto de mudanças climáticas, proposto em 2017 por cientistas franceses e canadenses.

“Esse método de atribuição, aplicado no Sudeste, utiliza informações da resposta dos modelos climáticos a variações da temperatura por causas naturais, pelos aerossóis ou pelo efeito estufa separadamente”, disse à Agência FAPESP Humberto Ribeiro da Rocha, professor do IAG-USP e coordenador do projeto.

Uma vez detectada alguma variação de temperatura, é comparada a contribuição das diferentes causas, como as naturais, incluídas as incertezas envolvidas. Entre as causas naturais destacam-se a variabilidade da radiação solar que chega à Terra e os efeitos de atividades vulcânicas.

“Esses fenômenos naturais controlam os climas regionais. Além disso, todo o sistema climático está se reorganizando em razão do aquecimento global. O oceano é um grande exemplo, que eventualmente se aquece muito em episódios sobre determinadas regiões do planeta, o que afeta os climas regionais de forma diferente em um continente extenso como a América do Sul”, explicou Rocha.

O método de atribuição incorpora as incertezas estatísticas amostrais, a variabilidade interna dos modelos e as observações de superfície, para prover margem de confiança ao resultado.

Os resultados indicaram que o aumento das concentrações de gases de efeito estufa contribuíram substancialmente para o aumento de 1,1 ºC na temperatura da região detectada no período de 1955 a 2004.

Os cálculos foram feitos pelo meteorologista Rafael Cesário de Abreu durante seu doutorado no IAG-USP, em andamento, sob orientação de Rocha.

“Essa constatação corrobora a hipótese de que mudanças na temperatura estão em curso e controlando fortemente a escala regional do Sudeste, seguindo uma tendência global”, disse Rocha.

Falta de estudos regionais

De acordo com o pesquisador, outros estudos de detecção de aquecimento de longo prazo foram feitos no Brasil, mas não havia um resultado de atribuição em escala regional, como este do Sudeste, com resultados mais contundentes e que incorporassem incertezas e distinguissem causas diferentes. Além disso, há no mundo poucos estudos regionais de detecção e atribuição de causas de mudanças climáticas induzidas pelo efeito estufa antropogênico.

Os estudos anteriores foram feitos para sub-regiões na China, Canadá e Inglaterra, baseados em métodos estatísticos semelhantes ao utilizado no Sudeste.

Essa região do país é especialmente vulnerável às mudanças climáticas, uma vez que abriga mais de 40% da população brasileira e é responsável por 50% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, com uma ampla gama de atividades econômicas, ressaltam os autores do estudo.

“Em comum, esses estudos mostram que a indicação do IPCC de que a temperatura média global aumentou 0,85 ºC entre 1880 e 2012 não se aplica regionalmente e, principalmente, em estudos locais, como de cidades”, afirmou Rocha.

Em São Paulo, por exemplo, já se notou um aumento de temperatura de, aproximadamente, 3 ºC entre 1940 e 2010, e não se pode afirmar categoricamente se foi causado predominantemente pelo efeito estufa, ressalvou o pesquisador.

“Na área rural, há outros fatores que influenciam. O desmatamento de florestas e cerrados também pode explicar aumento de temperatura, mas confinado em efeitos de escala local, que, por sua vez, não são geralmente diagnosticados pelos modelos do CMIP5/IPCC”, afirmou.

O artigo Attribution of detected temperature trends in Southeast Brazil (DOI: 10.1029/2019GL083003), de R. C. de Abreu, S. F. B. Tett, A. Schurer e H. R. Rocha, pode ser lido na revista Geophysical Research Letters em agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2019GL083003.


Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2019



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/aquecimento-no-sudeste-foi-causado-em-grande-parte-por-gases-de-efeito-estufa-aponta-estudo/

Diversidade e produtividade das plantas não se recuperam significativamente após uso agrícola



Décadas após o abandono das terras agrícolas, a diversidade de plantas e a produtividade lutam para se recuperar. Isso foi demonstrado por uma nova pesquisa, publicada na revista Nature Ecology & Evolution .

Pesquisadores do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv), do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) e da Universidade de Minnesota examinaram a diversidade e a produtividade das plantas em campos que foram arados e abandonados para uso agrícola. Embora a diversidade de plantas das pastagens locais tenha aumentado ao longo do tempo, a produtividade das plantas não se recuperou significativamente.

A equipe internacional de pesquisadores examinou 37 anos de dados vinculados à diversidade de plantas (riqueza de espécies, ou seja, número de espécies) e à produtividade das plantas (ou seja, biomassa ou quantidade de plantas) relacionadas a 21 pradarias e savanas em Minnesota. A maioria desses campos havia sido arada e abandonada para uso agrícola entre um e 91 anos antes. Os pesquisadores compararam as parcelas com as terras próximas que não foram significativamente afetadas pela atividade humana.

Eles descobriram que um ano após o abandono, os campos tinham, em média, 38% da diversidade de plantas e 34% da produtividade das plantas para a terra que nunca foi arada. 91 anos após o abandono, os campos possuíam 73% da diversidade de plantas e 53% da produtividade das plantas. Isso mostra que a diversidade de plantas de pastagem local aumentou significativamente ao longo do tempo, mas se recuperou incompletamente. A produtividade da planta não se recuperou significativamente.

Os pesquisadores sugerem que a recuperação lenta e incompleta de espécies em terras agrícolas abandonadas em Minnesota provavelmente está ocorrendo em ecossistemas ao redor do mundo, onde a terra foi limpa para agricultura, exploração madeireira ou outras atividades humanas.

“A quantidade de terra usada para fins agrícolas tem diminuído lentamente, deixando cerca de 18 milhões de quilômetros quadrados de campos antigos e recuperando florestas em todo o planeta”, disse o co-autor Dr. Adam Clark, atualmente pesquisador de pós-doutorado no Helmholtz Center para Pesquisa Ambiental (UFZ) e o Centro Alemão para Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv). “Nesses espaços, esforços de restauração ativos muitas vezes podem ser necessários para restaurar a biodiversidade e impedir a extinção de espécies.”

As táticas de restauração podem incluir o uso de queimaduras prescritas, a dispersão de sementes, o uso do feno para remover os nutrientes adicionados pela fertilização e a reintrodução de outros na cadeia alimentar (por exemplo, herbívoros, predadores) empurrados para fora da área.

“Quando coletados em escala global, registros fósseis indicam que espécies de plantas estão extintas a taxas centenas de vezes mais rápidas que a taxa de extinção natural”, disse o primeiro autor, professor Forest Isbell, professor assistente da Faculdade de Ciências Biológicas (CBS). “Nesse nível localizado, estamos vendo como a atividade humana pode impactar a perda de espécies.”

Referência:

Forest Isbell, David Tilman, Peter Reich, and Adam T. Clark. “Deficits of biodiversity and productivity linger a century after agricultural abandonment“. Nature Ecology and Evolution 3:1533–1538, 2019. DOI: 10.1038/s41559-019-1012-1


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

Informe do German Centre for Integrative Biodiversity Research (iDiv), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/12/2019



Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/diversidade-e-produtividade-das-plantas-nao-se-recuperam-significativamente-apos-uso-agricola/

Estudo confirma que os modelos climáticos acertaram nas mudanças de temperatura projetadas

Por Ben Geman*, Axios

Os modelos que os cientistas climáticos usaram nas últimas décadas para projetar mudanças de temperatura geralmente têm sido muito precisos, conclui um novo estudo revisado por pares .

Por que é importante: serve para refutar os oponentes conservadores de propostas que visam reduzir as emissões, que há muito argumentam que os modelos não acertaram como parte de ataques mais amplos à ciência climática.


O que eles descobriram: O estudo da Geophysical Research Letters revisou o desempenho de 17 modelos publicados entre 1970 e 2007.


“Não encontramos evidências de que os modelos climáticos avaliados neste artigo tenham superestimado sistematicamente ou subestimado o aquecimento durante o período de projeção”, afirma o documento.


“Em geral, as projeções de modelos climáticos anteriores avaliadas nesta análise foram hábeis em prever o subsequente aquecimento [temperatura média da superfície global] nos anos após a publicação”.


Alguns, no entanto, mostraram muito e outros muito pouco.

O quadro geral: os modelos climáticos analisam a relação física entre as emissões de gases de efeito estufa e a temperatura, além de outros fatores, incluindo variáveis ​​de emissões influenciadas pelo homem, como crescimento econômico e mudança tecnológica.


Como Vox coloca , trata-se de “prever física versus prever humanos”.


Se você simplesmente observar o quão bem os modelos previram mudanças de temperatura que ocorreram mais tarde, 10 de 17 foram essencialmente precisos – “praticamente indistinguíveis das observações”, como observa esta história do Washington Post .


Mas se você observar o desempenho dos modelos na avaliação da relação entre a alteração das concentrações e da temperatura da estufa, eles se saíram ainda melhor.


14 dos 17 eram “consistentes com as observações”, observa o artigo e “estatisticamente indistinguíveis do que realmente ocorreu”, escreve o co-autor Gavin Schmidt em um post no blog.



Indicadores Climáticos

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2019


Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/estudo-confirma-que-os-modelos-climaticos-acertaram-nas-mudancas-de-temperatura-projetadas/

Por territórios livres de mineração, artigo de Gilvander Moreira

Por territórios livres de mineração

Por Gilvander Moreira1

Dias 1º e 2 de dezembro último (2019), estivemos no município do Serro, na região do Alto Jequitinhonha, MG, participando da luta para impedir a instalação da mineradora Herculano no município do Serro. Fizemos reuniões com comunidades nos distritos de São Gonçalo do Rio das Pedras e em Milho Verde, duas comunidades que são ainda verdadeiros paraísos naturais, com muitas cachoeiras, ar puro e bioma do cerrado ainda preservado, mas agora sob ameaça das mineradoras. Na cidade do Serro participamos de uma Assembleia Popular contra a mineração. A luta contra a chegada de mineração no município do Serro, em MG, só cresce. Em 2015, o povo organizado rechaçou a instalação da mineradora Anglo American que queria expandir a devastação que está causando no município de Conceição do Mato Dentro, município vizinho. O povo está descobrindo os enormes impactos socioambientais que a mineração poderá causar na região, caso se instale. O povo está vendo as imensas violências que a mineradora Anglo American está causando no município vizinho de Conceição do Mato Dentro. Uma série de mentiras das mineradoras está sendo desmascarada. Dom Vicente Ferreira, bispo da região de Brumadinho, MG, integrante da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB2, está repetindo: “A mineração em Minas Gerais está sendo criminosa”. É mentira, por exemplo, dizer que mineração gera emprego, pois na realidade gera muito mais desemprego do que emprego. É mentira dizer que mineração traz progresso, porque na realidade traz é miséria e violência para os territórios. O empobrecimento dos municípios onde há mineradoras é comprovado por pesquisas científicas. A exploração minerária provoca colapso no abastecimento de água, destrói a agricultura familiar, aumenta a insegurança da população, destrói as condições objetivas para o turismo e afeta o patrimônio histórico cultural da região.

Estamos na luta para conquistarmos a anulação da declaração de conformidade para o empreendimento minerário concedida pelo prefeito do município do Serro, Guilherme Simões Neves. Exigimos a realização de estudos independentes que analisem criticamente as informações apresentadas pela mineradora Herculano e a garantia de participação popular nos processos de decisão sobre a mineração no município do Serro. O povo já percebeu que minerar no Serro faz parte dos interesses mercadológicos da mineradora Anglo American que insiste em expandir para além de Conceição do Mato Dentro.

Na Assembleia Popular contra a mineração no Serro, em MG, tivemos a alegria e a responsabilidade de estar ao lado de Mateus Mendonça Leite, professor de Direito na PUC/MG, e advogado da Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais. Mesmo ameaçado de morte e processado pela mineradora Herculano, o Dr. Mateus Mendonça denunciou, mais uma vez, que a implantação de um empreendimento minerário predatório, coloca em risco a segurança hídrica da população serrana, o patrimônio cultural formado pelo conjunto arquitetônico e urbanístico do centro histórico da cidade do Serro e o modo de ser e viver das comunidades quilombolas de Queimadas. A mineradora tentou judicialmente proibir o advogado Mateus Mendonça de falar contra a instalação de mineração no Serro, mas o TJMG3 garantiu o direito do advogado Mateus Mendonça continuar alertando o povo sobre as violências que a mineração trará ao município do Serro, caso seja instalada.

Mateus Mendonça recordou Sobral Pinto, grande advogado do povo brasileiro nos anos de chumbo da ditadura de 1964. Ao ser questionado sobre o que é o advogado, Sobral Pinto respondeu: “O advogado só é advogado quando tem coragem de se opor aos poderosos de todo gênero que se dedicam à opressão pelo poder. É dever do advogado defender o oprimido. Se não o faz, está apenas se dedicando a uma profissão que lhe dá sustento e à sua família. Não é advogado“. Essa resposta de Sobral Pinto é uma luz a todos/as que se engajam na luta pela superação das violências e opressões da sociedade capitalista/colonial.

Faço questão de reproduzir aqui o que o advogado Mateus Mendonça disse na Assembleia Popular no Serro contra a mineração: “Sou advogado e continuarei a defender o respeito aos direitos étnicos e territoriais das comunidades quilombolas contra as opressões provenientes do agronegócio, da mineração e da especulação imobiliária. Jamais disponibilizarei minhas habilidades de advogado para defender a iniquidade, a injustiça e a opressão. Tenho verdadeira ojeriza daqueles operadores do direito (que não merecem ser chamados de advogados) que defendem qualquer causa se lhe forem garantidos bons honorários advocatícios. A luta das comunidades quilombolas do Serro, que tenho a honra de dar minha contribuição, é a continuidade da resistência histórica à opressão, é a continuação da revolta dos escravos acontecida na região do Serro em 1864, há mais de 150 anos. Continuamos na luta para honrar os ancestrais quilombolas.”

Parodiando Sobral Pinto, digo que é dever de todo padre e de todo pastor defender os oprimidos e explorados. Líder religioso que não defende os injustiçados se torna falso pastor, falso sacerdote, falso profeta. Defender os explorados se faz não apenas sendo solidário, mas engajando em lutas por justiça, pois se fica só na solidariedade não se mexe nas causas geradoras das injustiças. Na Bíblia, os profetas Jeremias e Ezequiel esbravejam contra os falsos pastores: “Ai dos pastores que expulsam minhas ovelhas … e não cuidam delas” (Jeremias 23,1-4). “Ai dos pastores que cuidam apenas de si mesmos. […] Vocês dominam com violência e opressão. […]” (Ezequiel 34,1-10). Os padres, bispos, pastores e leigos com poder religioso que amputam a dimensão social do Evangelho de Jesus Cristo, que desencarnam a mensagem bíblica desvinculando a relação intrínseca existente entre fé e problemas sociais se tornam muitas vezes cúmplices das opressões que se abatem sobre o povo, pois, em vez de animar o povo para se organizar e lutar pelos direitos sociais, ficam atraindo o povo para “tocas religiosas” – oásis em contextos de cruéis opressões políticas e econômicas – e, assim, reproduzem a ideologia dominante na sociedade que tenta justificar a imensa desigualdade social reinante no nosso país.

O grito geral do povo do Serro é “Mineração aqui, NÃO!” Esse grito está sendo ecoado em todos os territórios que estão sendo violentados pelas mineradoras em conluio com o Estado. Propositivamente, o povo exige: “Queremos nosso território livre de mineração!”.

Com o papa Francisco, com o Sínodo para a Amazônia, com os ensinamentos e testemunho de Jesus Cristo e de todos os/as mártires devemos seguir lutando pela construção de uma sociedade do Bem Viver e Conviver, o que passa pela superação do capetalismo, essa máquina de moer vidas humanas e vidas de todos os seres vivos. Quando eu era criança, sobrevivendo escravizado em latifúndios, trabalhando à meia, cortei muitas árvores com machado ou foice. Arrependo-me disso. Hoje não tenho mais coragem de cortar nenhuma árvore, porque descobri que as árvores são usinas produtoras de oxigênio e fábricas de assimilação de gás carbônico. Portanto, quanto mais árvores houver mais oxigênio teremos no ar e menos gás carbônico teremos no ar. E, ao contrário, quanto menos árvores, menos oxigênio e mais gás carbônico no ar. As árvores também são sagradas. Assim como a água, o irmão oxigênio é fonte de vida. O Deus da vida pede de nós a preservação das condições objetivas de vida. Por isso lutamos por territórios livres de mineração.

Obs.: Os filmes e vídeos nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 – Filme documentário “Vidas Barradas” – crime/tragédia da Vale e do Estado a partir de Brumadinho.

https://www.youtube.com/watch?v=A-zATqACHqU

2 – Lama o crime vale no Brasil – A tragédia de Brumadinho

https://www.youtube.com/watch?v=Sok8jGWpPIY

3 – VALE e Poder Judiciário: Desrespeito aos atingidos/as! Até quando? 28/11/2019

https://www.youtube.com/watch?v=Nw0Gxv-q8cA

Belo Horizonte, MG, 10/12/2019.



1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III

2 Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.


3 Tribunal de Justiça de Minas Gerais.



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/por-territorios-livres-de-mineracao-artigo-de-gilvander-moreira/

Mudanças climáticas podem trazer insegurança alimentar para 90% da população mundial, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Somos de uma geração em que as decisões que tomamos nos próximos 10 anos podem significar a diferença na morte de 100 milhões ou 400 milhões de pessoas”
Jane Fonda


“Nossa guerra contra a natureza precisa parar”
António Guterres





A produção de alimento libera gases de efeito estufa (GEE) que contribuem para aumentar o aquecimento global, enquanto este reduz as chances de aumento da oferta de comida. As projeções demográficas indicam uma população global em torno de 11 bilhões de habitantes em 2100 e a produção de bens de subsistência, em um quadro de agravamento da crise climática, pode ser insuficiente para garantir a segurança alimentar de todo este contingente de pessoas.

Artigo coordenado por Lauric Thiault, da Universidade de Ciências e Letras de Paris, publicado na revista Science Advances (27/11/2019), analisa os riscos da produção de alimentos, até o final do século, levando em conta dois cenários: no primeiro, ocorre um esforço significativo para conter as emissões GEE e, no outro, o chamado “negócio como de costume” as diversas sociedades continuam sem cortes significativos das emissões.

Os autores avaliam os efeitos da crise climática sobre 4 lavouras que são a base da alimentação da população (milho, arroz, soja e trigo), como também consideram o que pode acontecer com a pesca em água salgada, outra fonte crucial de nutrientes.

No cenário “negócio como de costume”, as mudanças no clima serão sempre negativas – perda de produção agrícola e diminuição da pesca – para 90% da população mundial. Nos trópicos – América do Sul, boa parte da África e do Sudeste Asiático – numa situação de “tempestade perfeita”, haverá perdas em ambos os quesitos e haverá aumento da insegurança alimentar. O Brasil será particularmente afetado e o agronegócio brasileiro será prejudicado caso houver aumento do aquecimento global.

Os autores concluem mostrando que a vulnerabilidade aos impactos climáticos das sociedades e das futuras gerações exige ações imediatas de mitigação por parte de todos os países e, principalmente, lideradas pelos principais emissores de CO2. Também são necessárias ações de adaptação para esta nova realidade que já está presente no dia-a-dia de vários países.

Por exemplo, os problemas ambientais da China impactam todo o mundo. O Índice de Preços dos Alimentos da FAO teve uma média de 177,2 pontos em novembro de 2019; subiu 4,7 pontos (2,7%) em relação a outubro e 15,4 pontos (9,5%) em relação ao período correspondente do ano passado. A alta de novembro em relação ao mês anterior, principalmente impulsionada por aumentos significativos nos preços de carnes e óleos vegetais.





O documento assinado por mais de 11 mil cientistas “World Scientists’ Warning of a Climate Emergency”, publicado na revista BioScience (05/11/2019), afirma que: “O crescimento econômico e populacional está entre os mais importantes fatores do aumento das emissões de CO2 em decorrência da combustão de combustíveis fósseis”. Em consequência, diz o seguinte sobre a questão demográfica: “Ainda crescendo em torno de 80 milhões pessoas por ano, ou mais de 200.000 por dia, a população mundial precisa ser estabilizada – e, idealmente, reduzida gradualmente – dentro de uma estrutura que garante a integridade social”.

O fato é que a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta e não dá para continuar explorando e exigindo grandes retornos dos ecossistemas degradados e sobrecarregados. É impossível a economia ser maior do que a ecologia. A humanidade tem que limitar sua presença e seu espaço no mundo natural ou arcará com consequências desagradáveis.

Como mostrou Giorgos Kallis (26/11/2019), “a autolimitação do modo como vejo não se trata de restringir, mas de definir coletivamente – como sociedade – nossos limites. A autolimitação coletiva é a essência da democracia”.

Somente o decrescimento demoeconômico pode criar as condições necessárias para que haja aumento de qualidade de vida da população e da comunidade biótica.

Insistir no sonho do crescimento econômico infinito só vai gerar pesadelo para as pessoas e para as forças vivas da natureza.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

Lauric Thiault et. al. Escaping the perfect storm of simultaneous climate change impacts on agriculture and marine fisheries, Science Advances, Vol. 5, no. 11, eaaw9976, 27/11/2019
https://advances.sciencemag.org/content/5/11/eaaw9976

Giorgos Kallis. Defending Degrowth is not Malthusian, Resilience, 26/11/2019
https://www.resilience.org/stories/2019-11-26/defending-degrowth-is-not-malthusian/

FAO Food Price Index
http://www.fao.org/worldfoodsituation/foodpricesindex/en/

WILLIAM J RIPPLE, et. al. World Scientists’ Warning of a Climate Emergency, BioScience, 05/11/2019
https://academic.oup.com/bioscience/advance-article/doi/10.1093/biosci/biz088/5610806

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2019



Autor: José Eustáquio Diniz Alves
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/mudancas-climaticas-podem-trazer-inseguranca-alimentar-para-90-da-populacao-mundial-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/