quinta-feira, 16 de julho de 2026

Agricultura do milho sustentou grandes aldeias pré-coloniais do Cerrado


Pesquisa revela, pela primeira vez, as estratégias de subsistência alimentar dessas comunidades, com práticas sofisticadas de uso da terra, envolvendo diversas espécies. Até então acreditava-se que essas populações teriam sido caçadoras-coletoras ou agricultoras de monocultura


Luciana Constantino | Agência FAPESP – O cultivo de milho foi fundamental para o sustento e o desenvolvimento de grandes aldeias que povoaram o Cerrado brasileiro no período pré-colonial, entre os séculos 9 e 17, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira (dia 15) na revista Science Advances. Liderada por arqueólogos da Universidade de São Paulo e apoiada pela FAPESP, a pesquisa revela, pela primeira vez, como eram as estratégias de subsistência dessas comunidades de alta densidade populacional, com práticas sofisticadas de uso da terra, envolvendo o cultivo de diversas espécies (policultura), e uma ênfase especial no milho. Até agora, a ciência trabalhava com a possibilidade de que elas teriam sido caçadoras-coletoras, predominantemente móveis, ou agricultoras de monocultura.

Além de contribuir para a compreensão da história da influência humana em uma das savanas tropicais mais biodiversas do planeta, o trabalho ajuda a entender a produção de alimentos e as estratégias de uso da terra que moldaram as paisagens do Cerrado como o conhecemos hoje.

Também destaca a importância do bioma na compreensão de inovações biotecnológicas usadas pelas sociedades indígenas pré-coloniais do Brasil – neste caso, a adaptação do milho às condições ambientais da savana brasileira; bem diferentes do local de origem da planta. Pesquisas anteriores já haviam tratado da caracterização e dispersão do milho na América Latina, mostrando que ele chegou ao país pelo sudoeste da floresta amazônica, há pelo menos 6 mil anos, a partir do México, onde se originou 9 mil anos atrás, sendo, depois, levado a outras regiões.

As conclusões do estudo são baseadas na análise de pequenas variações químicas preservadas em ossos e dentes humanos, que permitiram identificar quais tipos de plantas e outros alimentos eram consumidos, em uma espécie de “registro” da alimentação ao longo da vida.

“Costumo dizer que o ser humano é o que come, mantendo um registro na composição química de ossos e dentes. Por meio disso, conseguimos identificar o consumo de milho comparável ao de populações maias ou andinas, algo completamente inesperado nesse contexto. Também detectamos uma variabilidade entre duas sociedades distintas, ou seja, tradições arqueológicas com dietas marcadamente diferentes, corroborando uma diversidade social e cultural”, diz à Agência FAPESP Eliane Chim, pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e primeira autora do artigo, que é parte de sua tese de doutorado.

“Há mais de um século a arqueologia brasileira debate o papel do milho nas sociedades pré-coloniais, especialmente as que tinham grandes densidades demográficas e produziam cerâmicas mais elaboradas. É a primeira vez que se consegue demonstrar no Brasil o papel central dele na subsistência dessas populações. Assim como nos Andes e na Mesoamérica, o cultivo aqui está associado àquelas sociedades com demografia mais expressiva e marcas na paisagem mais evidentes”, destaca o arqueólogo André Strauss, coordenador do projeto e orientador de Chim. Ele é professor do MAE-USP e um dos autores correspondentes do artigo, juntamente com Patrick Roberts, do Instituto Max Planck (Alemanha).

O estudo é considerado pelos pesquisadores um marco na arqueologia nacional, pelo fato de estar publicado em uma revista de alto impacto, com primeiro e último autores brasileiros. A pesquisa foi financiada pela FAPESP por meio do programa Jovem Pesquisador concedido a Strauss, de bolsas para Chim e outros integrantes do grupo (20/04402-0, 23/06749-5, 22/05420-7, 20/06729-6) e de dois projetos, incluindo um deles que subsidiou a publicação na revista (19/15914-4 e 26/12048-8).

Dente coletado em um sítio arqueológico na Lapa Pintada, em Montes Claros (MG), com 570 a 680 anos de idade, segundo análises realizadas pelo grupo de pesquisa (foto: Eliane Chim)

O ‘valor’ dos ossos

Os cientistas analisaram isótopos estáveis de carbono, nitrogênio e oxigênio em dentes e ossos de mais de cem indivíduos de 37 sítios arqueológicos do Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Em média, as amostras datam de um período entre 1.100 e 400 anos atrás e foram obtidas de escavações feitas pelo grupo de pesquisa e de coleções arqueológicas montadas desde os anos 1970.

Os isótopos são variantes naturais de cada um dos elementos químicos, que diferem no número de nêutrons. No caso do carbono, indicam quais tipos de plantas predominavam na dieta, distinguindo, por exemplo, o milho de outros frutos e plantas típicas do Cerrado. O nitrogênio ajuda a estimar a quantidade de proteína animal consumida e a posição dos indivíduos na cadeia alimentar. Já o oxigênio fornece dados relacionados à água consumida e às condições ambientais.

Como diferentes alimentos têm assinaturas isotópicas distintas, essas marcas ficam “registradas” nos tecidos do corpo e podem ser usadas para reconstruir a alimentação de populações antigas, permitindo identificar se a dieta era baseada principalmente em milho ou em outros alimentos, e se havia consumo de proteína animal.

Além disso, os cientistas realizaram datações por radiocarbono (uma técnica que permite determinar a idade de vestígios orgânicos) no colágeno de cerca de 40% dos ossos que ainda preservavam a proteína e usaram registros paleoecológicos para reconstruir as dietas. Esses registros são vestígios preservados na natureza, como sementes, sedimentos e restos de plantas e animais, que permitem entender como eram a vegetação, o clima e o ambiente em diferentes períodos.

As amostras são provenientes de aldeias das tradições Aratu, que viviam a céu aberto, e Una, um dos primeiros horticultores ceramistas do Cerrado, que frequentavam abrigos rochosos, normalmente próximos a leitos de rios ou lagoas.

Nas populações Aratu, o colágeno ósseo e o esmalte dentário dos indivíduos mais antigos indicaram o consumo de milho. Além disso, outros estudos registraram marcas de desgaste em vasilhames de cerâmica compatíveis com a fermentação de bebidas alcoólicas, apontando, assim, um papel mais amplo das plantas cultivadas no cotidiano das aldeias. Sinaliza que o milho poderia ser usado na base da dieta e, possivelmente, em práticas comunitárias ou rituais.

“Não se fala tanto deles, mas esses grupos Aratu tinham presença única no Cerrado”, destaca Strauss. Segundo ele, as aldeias Aratu chegavam a ter 2 mil habitantes, população semelhante à de maior parte das cidades europeias da mesma época.

Por outro lado, as populações de abrigos rochosos, da cultura Una, ingeriam alimentos mais diversificados, com menor consumo de milho. De acordo com os cientistas, como esses grupos ocupavam ambientes semelhantes aos de aldeias Aratu, as diferenças não são explicadas apenas pela ecologia – em vez disso, indicam que havia uma coexistência de tradições culturais e estratégias econômicas distintas dentro do bioma. Ambas praticavam a policultura, mas no caso das comunidades Aratu, mais populosas, o milho era uma fonte primordial de subsistência.

Localização da área de estudo, dos biomas e dos sítios. Elaborado para este estudo utilizando o QGIS 3.32.0 e o Natural Earth, adaptado do artigo (Chim et al., 2026)

Construção coletiva

Ao todo, o projeto vem sendo desenvolvido há mais de dez anos. Reuniu 31 pesquisadores de dez universidades brasileiras, em colaboração com o Max Planck e instituições de Portugal, Polônia e Estados Unidos.

“A arqueologia tem uma outra temporalidade. Em seis meses não se consegue fazer quase nada. É preciso ir a campo, escavar, voltar para o laboratório, fazer a curadoria para, só então, ter início a fase propriamente analítica do trabalho. Usamos isso também como um mecanismo de treinamento de recursos humanos e a Eliane [Chim] é um exemplo disso”, afirma Strauss.

Para Chim, um dos desafios de realizar esse tipo de estudo é a preservação do material arqueológico, especialmente quando ela precisou analisar o colágeno. Foram avaliadas mais de 270 peças para conseguir obter a amostra utilizada no trabalho.

“Pretendemos retomar a pesquisa de campo nesses sítios arqueológicos e tentar encontrar onde eram as roças, onde as pessoas estavam cultivando. Conhecemos os cemitérios, os campos de urna, sabemos o tamanho de algumas aldeias, mas precisamos encontrar os outros espaços ocupados por essas pessoas”, completa Chim, apontando o futuro do trabalho.

Urna funerária Aratu, escavada no sítio Vale Verde, na Bahia (foto: Mario Spock Fernandez)

O artigo Maize-based polyculture, not monoculture, sustained precolonial societies in the Brazilian Cerrado pode ser lido em: science.org/doi/10.1126/sciadv.aef7066.



Autor: fapesp
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data: 15/07/2026

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