quinta-feira, 7 de maio de 2026

Estudo analisa transformação de casas para incorporar espaços de trabalho e sociabilidade


O projeto desenvolvido pela pesquisadora Ana Slade (Prourb/FAU/UFRJ) acompanhou as adaptações feitas por moradores dos subúrbios cariocas, que transformaram suas residências em espaços mistos para moradia e trabalho
 (Fotos: Divulgação/Ana Slade)

A necessidade de empreender, de buscar alternativas à falta de oportunidades no mercado de trabalho e até mesmo de oferecer serviços vêm estimulando moradores da periferia e dos subúrbios cariocas – no plural, devido à diversidade dos bairros – a adaptar suas residências, transformando-as em espaços de uso misto voltados à moradia e ao trabalho. Essa iniciativa, que muitas vezes ignora a legislação, ganhou força nos últimos anos e pode ser analisada sob diferentes olhares, já que traz impactos na geração de renda, na oferta de serviços, às vezes escassos, e até mesmo na redução de deslocamentos casa-trabalho entre o subúrbio – tradicionalmente destinado à moradia – e os locais que concentram a maior parte das atividades econômicas e dos empregos, como o Centro e as áreas mais nobres da cidade.

Essas transformações espontâneas feitas pelos moradores dos subúrbios têm sido acompanhadas de perto pela pesquisadora Ana Slade, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ) e do Programa de Pós-graduação em Urbanismo (Prourb/FAU/UFRJ). Ana vem estudando as mudanças no uso e a adaptação da arquitetura de modo a conjugar trabalho e moradia nas casas.

“É comum, nas áreas residenciais periféricas, as casas serem modificadas pelos residentes para adaptar usos comerciais e produtivos mesmo que à revelia das legislações, se misturando com casas de uso estritamente residencial. Os moradores desses locais vão resolvendo do seu jeito o que não foi planejado”, explica Ana, doutora em Urbanismo pelo Prourb/FAU/UFRJ.

É interessante voltar no tempo e lembrar que as unidades habitacionais utilizadas para moradia e trabalho, conhecidas no Rio de Janeiro como “sobrados”, eram muito comuns no início do século XX. Nessas edificações, a moradia ocupava o pavimento superior e o comércio, o térreo, com acesso pela rua. Entretanto, com o passar do tempo, os sobrados foram dando lugar a casas e edifícios estritamente residenciais. 

A figura reproduz uma esquina do bairro de Irajá, onde foram criados três estabelecimentos comerciais conjugados a imóveis residenciais (Ilustração: Vinícius Medeiros)

Um dos principais aspectos investigados no projeto é o intenso volume de deslocamentos casa-trabalho-casa característico das metrópoles contemporâneas, e que se constitui em um dos grandes desafios para o planejamento urbano. O estudo propõe a discussão sobre possíveis alternativas: investir em soluções para a mobilidade ou optar por uma reestruturação dos bairros, apostando em espaços que atendam às necessidades de moradia e de trabalho e, desta forma, reduzindo as viagens diárias.  

“O trabalho nos estimula a refletir sobre estratégias que possam colaborar para a redução dos deslocamentos nas cidades e para a qualificação de bairros residenciais em subúrbios e nas periferias, a partir da aproximação de moradia e trabalho e do incremento da mistura de usos. O planejamento urbano deve olhar com atenção para essa alternativa”, explica Ana, que participa do núcleo de pesquisa Urbanismo, Crítica e Arquitetura (UrCA) do Prourb/FAU.

O processo de transformação ocorrido no subúrbio carioca pode trazer respostas para que o poder público, gestores, arquitetos e urbanistas possam repensar o projeto arquitetônico, as leis e o planejamento urbano da cidade. Várias dessas respostas estão presentes no livro “Aprendendo com os subúrbios cariocas”, lançado por Ana Slade em 2025. Baseada em sua tese de doutorado, a obra, de 192 páginas, foi publicada pela editora Rio Books, por meio do Programa de Apoio à Editoração da FAPERJ.




Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 30/04/2024
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1005.7.8

Hantavírus: que vírus é este e qual o risco real para os portugueses?


No início de maio de 2026, o nome hantavírus voltou a dominar as notícias em todo o mundo. O navio de cruzeiro MV Hondius, com bandeira holandesa, partiu da Argentina com 150 passageiros a bordo rumo a Cabo Verde, mas chegou ao destino com um surto a bordo.

Três pessoas morreram e outras ficaram gravemente doentes.

Com um dos tripulantes português, o navio ficou retido ao largo do Porto da Praia, com os passageiros impedidos de desembarcar para proteger a população local, enquanto equipas médicas visitavam a embarcação.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmou que pelo menos uma das mortes foi causada pelo hantavírus, com o número de casos a subir para sete.

Até 4 de maio de 2026, foram identificados sete casos (dois casos de hantavírus confirmados em laboratório e cinco casos suspeitos), que incluem três vítimas mortais, um doente em estado grave e três pessoas que relataram sintomas ligeiros.

Comunicou a OMS, nesta segunda-feira.

Ainda que o vírus tenha sido uma surpresa para muitos, os especialistas conhecem-no bem.

Afinal, o que é o hantavírus?
O hantavírus não é uma doença nova. Trata-se de uma família de vírus transmitidos principalmente por ratos e ratazanas, conhecida há décadas e com registos de surtos na Ásia e na Europa que remontam a séculos.

Existem pelo menos 38 espécies diferentes de hantavírus identificadas a nível global, das quais 24 têm capacidade de provocar doença em seres humanos.


Ratos
A principal via de transmissão é a inalação de partículas microscópicas presentes na urina, nas fezes ou na saliva de roedores infetados, como ratos e ratazanas.

Não é uma doença que se apanha na rua ao passar ao lado de alguém. É necessário contacto direto com o ambiente contaminado pelos roedores.

Casos de transmissão entre humanos existem, mas são extremamente raros e estão maioritariamente documentados entre cônjuges, em contexto da estirpe sul-americana.

Dois vírus, dois órgãos-alvo
Nem todos os hantavírus são iguais. Dependendo da estirpe e da região geográfica, o vírus pode afetar de formas distintas o organismo humano. Os especialistas dividem-nos em dois grandes grupos.

Os hantavírus do hemisfério ocidental, sobretudo os encontrados na América do Sul e do Norte, tendem a atacar o sistema respiratório, causando a chamada Síndrome Pulmonar por Hantavírus.

Nesta, os pulmões enchem-se de líquido, a respiração torna-se impossível sem suporte médico, e a taxa de mortalidade pode atingir os 40%. É esta a estirpe que estará por detrás do surto no MV Hondius, dado que o navio partiu da Argentina, um país considerado endémico para o hantavírus.

Já as estirpes predominantes na Europa e na Ásia afetam sobretudo os rins, causando Febre Hemorrágica com Síndrome Renal. São geralmente menos letais, embora continuem a ser doenças sérias que exigem hospitalização.

Na Europa, a Finlândia é o país com maior número de casos registados, associados a uma espécie de rato comum nas florestas do norte do continente.

Os sintomas podem enganar
Um dos maiores perigos do hantavírus é precisamente a sua fase inicial, pois não há nenhum sinal de alarme imediato que leve um médico a suspeitar logo de hantavírus, sobretudo em regiões onde o vírus não é endémico.

E uma pandemia?
Perante o alarme mediático, outra questão inevitável surge e procura saber se o hantavírus pode tornar-se a próxima pandemia global.

Segundo os especialistas, o vírus não se transmite facilmente entre pessoas, não sofre mutações rápidas que alterem o seu comportamento e depende de uma exposição muito específica para infetar humanos.

Ainda que grave e letal, o hantavírus não se propaga de forma eficiente em populações humanas. O surto no cruzeiro foi, muito provavelmente, resultado de condições específicas a bordo, como o contacto com roedores ou materiais contaminados durante a viagem pela América do Sul.



Autor: sapo
Fonte: sapo
Sítio Online da Publicação: sapo
Data: 05/05/2024