sexta-feira, 15 de maio de 2026

Cafeína, remédios e cocaína em tubarões das Bahamas mostram impacto da ação humana

Cafeína, remédios e cocaína foram detectados no sangue de tubarões das Bahamas, no Caribe. Pesquisa realizada pela Fiocruz em colaboração com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e instituições nacionais e internacionais identificou a contaminação em 28 de 85 amostras analisadas.



Em estudo anterior, no Rio de Janeiro, cocaína foi identificada em tubarões Rhizoprionodon lalandii, popularmente conhecidos como “tubarão-bico-fino-brasileiro" ou “cação-frango” (foto: IOC/Fiocruz)


A cafeína foi a substância mais frequente, encontrada em 27 tubarões. O diclofenaco (remédio anti-inflamatório) foi identificado em dez, enquanto paracetamol (medicamento analgésico) e cocaína foram detectados em dois.

Segundo os autores do estudo, as substâncias são consideradas contaminantes de preocupação emergente. “Este é um indicativo de impacto da atividade humana. Essas moléculas são exclusivas de uso humano e chegam ao ambiente principalmente pelo esgoto. A contaminação dos animais aponta falta de tratamento adequado do esgoto”, afirma o pesquisador do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Enrico Saggioro.

Publicado na revista científica Environmental Pollution, o trabalho representa a primeira detecção de cafeína e paracetamol em tubarões no mundo e a primeira identificação de diclofenaco e cocaína em animais das Bahamas, após o achado pioneiro de cocaína em tubarões do Rio de Janeiro, também realizado pelo IOC/Fiocruz.

As três espécies de tubarões analisadas nas Bahamas – tubarão-de-recife-do-Caribe (Carcharhinus perezi), tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e tubarão-limão (Negaprion brevirostris) – vivem em águas costeiras. De acordo com os cientistas, os achados em tubarões juvenis ou que não têm hábito migratório sinaliza para contaminação local.

“Esse resultado foi uma surpresa porque existem poucos estudos sobre contaminação nas Bahamas. Acredita-se que é um ambiente prístino, limpo, mas há muito movimento turístico na região”, comenta a pesquisadora do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC/Fiocruz, Rachel Ann Hauser Davis.

A coleta de amostras foi liderada pela professora da UFPR, Natascha Wosnick, que também é pesquisadora do Instituto Cape Eleuthera, das Bahamas, e da Associação MarBrasil, do Paraná. Os pesquisadores do IOC/Fiocruz, Enrico e Rachel, coordenaram as análises de contaminantes, realizadas em parceria com Rodrigo Hoff, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O estudo também contou com colaboração de cientistas da Universidade Mayor, do Chile, e das universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e do Ceará (UFCE).

Possíveis efeitos nos animais

Segundo os cientistas, não é possível afirmar que as substâncias são nocivas para os animais, mas a análise de componentes do sangue mostrou alterações nos tubarões contaminados. Por exemplo, redução de triglicerídeos e níveis alterados de ureia e lactato, que sugerem possíveis impactos no metabolismo e na resposta ao estresse.

“Essas moléculas são marcadores de saúde do animal. Não é possível garantir que as alterações são causadas pela contaminação, mas os padrões bioquímicos sugerem que os animais são afetados. Para verificar a amplitude desse efeito são necessários experimentos em laboratório, que pretendemos fazer no futuro”, explicou Rachel, citando também outro estudo realizado pelo mesmo grupo de cientistas, que apontou possíveis efeitos de contaminação por metais nos tubarões das Bahamas.

“Analisamos o nível sanguíneo de metais, que indica exposição recente. Chamou atenção o impacto de metais de preocupação emergente, como lítio, que vem sendo associado com descarte de lixo eletrônico em regiões costeiras”, contou Rachel.



Rachel Hauser Davis e Pedro Magno de Araújo analisam uma raia-ticonha (Rhinoptera brasiliensis) (foto: Gutemberg Brito)


Ao considerar que a contaminação ambiental pode impactar a saúde de animais e a própria saúde humana, os pesquisadores destacam a importância de pesquisas sobre contaminantes de preocupação emergente, que ainda não sofrem regulamentação. No Brasil, atualmente, os cientistas realizam estudos sobre presença de drogas, pesticidas e remédios em mexilhões, tubarões e raias. Em breve, deve ser iniciada também análise de amostras de golfinhos.

“Estamos afetando ambiente de maneiras que nem imaginamos. Não se trata de parar de tomar café ou de usar paracetamol, precisamos compreender o impacto dessas substâncias e criar barreiras para que elas não cheguem ao ambiente", declarou Enrico.



 
Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 14/05/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/cafeina-remedios-e-cocaina-em-tubaroes-das-bahamas-mostram-impacto-da-acao-humana

Lado oculto da jaqueira: árvore invasora empobrece chão da Mata Atlântica e afeta sapos


Estudo realizado na Uerj investiga como a presença das jaqueiras altera a estrutura do chão da floresta e afeta diferentes espécies de sapos que vivem na serapilheira (Foto: Divulgação)


Espécies invasoras são uma das principais ameaças à biodiversidade no mundo. Ao se espalharem fora de sua área de origem, elas alteram habitats, reduzem a diversidade nativa e comprometem o funcionamento dos ecossistemas. Na Mata Atlântica brasileira, uma dessas espécies é a jaqueira. Seus impactos sobre a vegetação já são conhecidos. No entanto, ainda sabemos pouco sobre o que acontece com os animais que vivem no chão da floresta, um dos ambientes mais sensíveis e importantes para a biodiversidade tropical.

Um grupo de cientistas do Departamento de Ecologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicou recentemente um estudo no periódico Biological Invasion sobre uma pesquisa realizada na Reserva Biológica de Duas Bocas, no Espírito Santo.

Coordenado pela pesquisadora na área de ecologia de comunidades e conservação da biodiversidade, Juliane Pereira Ribeiro, o estudo investiga como a presença da jaqueira altera a estrutura do chão da floresta e como essas mudanças afetam diferentes espécies de sapos que vivem na serapilheira.

Efeito cascata sobre a fauna

Os resultados mostram que a jaqueira simplifica o habitat, reduz recursos essenciais e desencadeia efeitos em cascata sobre a fauna. E nem todas as espécies respondem da mesma forma. "Áreas dominadas por jaqueiras apresentam uma camada de folhas mais rasa e menor abundância de artrópodes, como insetos e outros invertebrados. Esses organismos são fundamentais para o funcionamento do ecossistema. Eles também servem de alimento para muitos pequenos vertebrados", afirma Juliane.



A Rhinela crucifer foi uma das três espécies de sapos analisadas no estudo conduzido por pesquisadores da Uerj (Foto: Divulgação)


Ela explica que quando a serapilheira diminui, o ambiente fica mais simples. Micro-hábitats desaparecem. A retenção de umidade cai. As condições se tornam menos estáveis para espécies sensíveis. Ou seja, mesmo quando a floresta parece verde por cima, o que acontece no chão conta outra história. "Analisamos três espécies de sapos com diferentes exigências ecológicas. As respostas foram distintas. Uma espécie mais generalista, conhecida pelo nome científico de Rhinella crucifer, e tolerante a ambientes alterados, foi registrada com maior frequência em áreas invadidas.

Já a espécie Haddadus binotatus, reconhecida como mais dependente de micro-hábitats úmidos e estáveis, apresentou queda acentuada onde a densidade de jaqueiras era maior. A terceira espécie que estudamos foi a Proceratophrys schirchi e percebemos que não foi afetada diretamente pela presença da árvore. No entanto, sua ocorrência estava associada à profundidade da serapilheira e à diversidade de artrópodes. Como esses dois fatores diminuem em áreas invadidas, a espécie acaba sendo afetada indiretamente", conta.

De acordo com Juliane, isso mostra que o impacto pode ocorrer por caminhos menos visíveis. A árvore modifica o habitat. O habitat modifica as espécies. Segundo ela, é importante destacar que o fato de uma espécie persistir em áreas invadidas não significa que a invasão seja benéfica. Muitas vezes, o que ocorre é um favorecimento de espécies mais tolerantes à degradação, enquanto as mais especializadas desaparecem.

Juliane Ribeiro: para a coordenadora do estudo, resultados obtidos pela pesquisa reforçam que a jaqueira representa uma ameaça real à biodiversidade da Mata Atlântica (Foto: Divulgação)


"Esse processo pode levar à chamada homogeneização biológica. Comunidades passam a se parecer cada vez mais entre si, dominadas por poucas espécies generalistas. A diversidade funcional diminui. Na prática, a jaqueira atua como um filtro ecológico. Ela empobrece o habitat e seleciona quais espécies conseguem persistir. O resultado é uma floresta menos diversa, menos complexa e potencialmente menos resiliente a mudanças futuras", diz.

Para Juliane, os resultados reforçam que a jaqueira representa uma ameaça real à biodiversidade da Mata Atlântica. Sua presença altera não apenas a vegetação, mas também o funcionamento do ecossistema. Ela destaca que o manejo de espécies invasoras precisa considerar esses efeitos indiretos sobre a fauna. A remoção continua sendo fundamental, especialmente em áreas protegidas. Mas deve ser acompanhada por ações que restaurem a complexidade do habitat, como a recuperação da serapilheira e da vegetação nativa do sub-bosque. Sem esse cuidado, há o risco de resolver um problema e criar outro.

Para a pesquisa, Juliane contou com o apoio de uma bolsa de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ e da Rufford Foundation.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 14/05/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1019.7.6

Química Orgânica rende à pesquisadora da UFF mais um prêmio internacional




Vanessa Nascimento nasceu em Casca, uma pequena cidade pertencente à região de Passo Fundo, no Planalto Central do Rio Grande do Sul, com cerca de nove mil habitantes, em sua maioria descendentes de imigrantes italianos. Ela lembra que desde criança se compadecia das dificuldades que os moradores do pequeno município enfrentavam para terem acesso a tratamento médico e fármacos. Seu sonho sempre foi ajudar a comunidade e a medicina parecia ser o caminho mais natural. Mas quando presenciou uma cirurgia em seu próprio pé, desistiu da ideia, passando a se interessar pela química, estimulada por um professor.

Ela se formou em Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria (2009), cursou mestrado e doutorado em Química na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com um período sanduíche na Universidade de Perugia (Itália). Fez estágio pós-doutoral na própria UFSC, sob orientação do professor Faruk Nome e, em seu primeiro concurso público, conquistou uma vaga de professora adjunta do Departamento de Química Orgânica da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ali, Vanessa lidera o grupo de pesquisa do laboratório SupraSelen, fundado por ela, onde comanda estudos pioneiros ligados à obtenção de moléculas e supramoléculas contendo selênio para as mais diversas aplicações (antioxidantes, anti-inflamatórios, catalisadores etc.). Mãe de dois meninos gêmeos de sete anos, sempre que pode, Vanessa leva os filhos para os eventos profissionais, o que, ela garante, já vem despertando nas crianças o interesse pela Química.

“Um dos motivos que contribuíram para que eu permanecesse no Rio de Janeiro foi o constante apoio da FAPERJ”, afirma Vanessa, que teve três projetos aprovados pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE), o primeiro em 2019, e, agora, concorre ao edital de Apoio à Jovem Cientista Mulher Dra. Tatiana Sampaio. A pesquisadora também foi uma das vencedoras do Prêmio FAPERJ de Pesquisa e Inovação, lançado em 2025, na categoria “Pesquisa de Impacto”.

Suas pesquisas são alinhadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) – plano de ação global estabelecido pela ONU em 2015 –, ao contemplar a redução de resíduos e o uso de matérias-primas renováveis e solventes mais seguros. As quinonas são compostos orgânicos presentes na natureza como a vitamina K. Já o selênio é um mineral essencial ao organismo, com ação antioxidante, anti-inflamatória, capaz de combater os radicais livres. “Nossa ideia foi juntar essas características biológicas das quinonas e do selênio para reduzir a toxidade dos fármacos e potencializar sua atividade”, explica Vanessa.

Segundo ela, por meio de parcerias e colaborações, como a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), sua equipe desenvolveu moléculas que, inicialmente, foram testadas no tratamento da tuberculose, uma doença grave com tratamento longo que, se não for executado de forma correta, pode levar o paciente à morte. Segundo a pesquisadora, os medicamentos desenvolvidos para o combate da tuberculose têm mais de 50 anos e, muitas vezes, não matam as bactérias porque, ao longo do tempo, o organismo já adquiriu resistência a eles. Por ser uma doença que, em geral, acomete a população de baixa renda, as indústrias não se interessam em desenvolver novos fármacos. É justamente para atender a essa necessidade que a equipe da pesquisadora desenvolveu novas moléculas para o tratamento mais rápido e eficaz da doença, trabalho que lhe rendeu o “PeerJ Award” em 2019, em um evento realizado em Perúgia, na Itália, que reuniu centenas de cientistas de mais de 40 universidades de diversos países.

Em um segundo momento de sua pesquisa, Vanessa e sua equipe organizaram uma quimioteca de compostos com essa combinação. Em colaboração com a UFF/campus Nova Friburgo, uma das classes de compostos foi testada no tratamento de câncer de boca, com excelentes respostas, e as moléculas com os melhores resultados já estão sendo testadas in vivo. Segundo a pesquisadora, não existem fármacos específicos para o câncer de boca, que possui uma tendência de aumentar devido ao excesso do uso dos cigarros eletrônicos (ou vapes). Em reportagem da revista Translational Cancer Research, uma revisão bibliográfica considerou quase uma centena de artigos sobre o “potencial carcinogênico oral dos cigarros eletrônicos”. O estudo indica que análises químicas de cigarros eletrônicos mostraram a presença de compostos orgânicos voláteis com potencial carcinogênico. Com base nas evidências da literatura publicada, o cigarro eletrônico pode ser considerado um fator de risco potencial para o câncer oral devido à presença de componentes carcinogênicos e à sua capacidade de induzir alterações prejudiciais às células orais, embora ainda haja carência de estudos prospectivos de longo prazo e de estudos de caso-controle em larga escala. O selênio também vem sendo testado em bancada como antioxidante e, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma terceira classe de moléculas vem sendo testada para o tratamento da tuberculose.

Vanessa Nascimento: para a pesquisadora, atender as necessidades da população por meio das pesquisas é uma forma de retribuir à sociedade


Outra molécula desenvolvida pelo seu laboratório tem potencial para o tratamento da esporotricose, doença negligenciada causada por um fungo do gênero Sporothrix, cujo principal transmissor é o gato doméstico. Os felinos desenvolvem feridas profundas que não cicatrizam e o tratamento com fungicida pode levar seis meses, sem garantia de cura. A esporotricose é transmitida aos humanos pelo contato direto com o fungo ou arranhões/mordidas de gatos doentes. Segundo Vanessa, a zoonose, que pode causar desde lesões na pele até infecções graves, tem apresentado um crescimento preocupante, principalmente no estado do Rio de Janeiro. Com este trabalho Vanessa Nascimento conquistou o prêmio "Para Mulheres na Ciência", promovido pelo Grupo L’Oréal em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a Unesco, na categoria Ciências Químicas. O prêmio valoriza a produção científica de mulheres que enfrentam desafios contemporâneos.

Além de reconhecer o olhar para as doenças negligenciadas, o prêmio também considerou o aperfeiçoamento e a sustentabilidade do método para a obtenção das moléculas. Segundo Vanessa, o laboratório vem utilizando a fotocatálise, também chamada de luz visível (luz de LED), cuja irradiação nas moléculas acelera o processo e aumenta o potencial das reações. O fotorreator, desenvolvido pela equipe em 2022, tornou o processo mais seletivo, com menor gasto de energia, reduziu a produção de resíduos e acelerou o processo (dias gastos na bancada para horas no fotorreator).

“Sempre digo para meus alunos que necessitamos sobreviver da pesquisa e, para isso, precisamos ter números, mas realizar a pesquisa buscando atender às necessidades da população é uma forma de retribuir à sociedade, que paga nossos salários. Um olhar para as doenças negligenciadas é também uma forma de olhar para a população”, alega Vanessa.



Neste ano de 2026, Vanessa foi surpreendida com o prêmio “Martin D. Rudd Early Career Researcher Prize”, concedido pela revista Phosphorus, Sulfur, and Silicon and the Related Elements, que reconhece jovens pesquisadores de destaque no mundo. Vanessa não sabia que havia sido indicada pelo seu ex-orientador do doutorado-sanduíche na Itália. O prêmio é concedido a um pesquisador avaliado como promissor, convidado a apresentar seu trabalho no workshop anual da Rede de Redox e Catálise de Selênio e Enxofre (WSeS), que este ano será realizado em setembro, no Japão.


Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 14/05/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1015.7.4

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Projeto sobre mobilidade propõe hubs de Planejamento Inteligente


Para debater soluções para a mobilidade urbana, projeto promove evento de escuta em Cabo Frio com a participação de gestores públicos (Foto Divulgação/Acervo de Pesquisa)


Uma profusão de motociclistas se equilibrando por entre os carros, bicicletas elétricas, motocicletas, cruzando sinais vermelhos, transitando pela contramão, falando ao celular. Quem nunca viu situação semelhante numa grande cidade brasileira que atire a primeira pedra. A percepção que se tem é a de que o trânsito está cada dia mais confuso e violento. E os números confirmam a escalada de acidentes nos últimos anos e que não se trata, porém, apenas de percepção.

O País registrou em 2024 o maior número de mortes no trânsito em oito anos, contabilizando 37.150 óbitos, 6,5% a mais do que os 34.881 de 2023, de acordo com dados do DataSUS, do Ministério da Saúde. Sendo que deste total, as motos respondem por 40%, como indicam dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em novembro do ano passado.

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. Dados do Corpo de Bombeiros, divulgados pelo site de notícias G1 em abril, mostram crescimento no número de ocorrências nos quatro primeiros meses deste ano em comparação ao mesmo período de 2025. Na cidade do Rio, sete em cada dez atendimentos por trauma envolvem acidentes com motocicletas. De janeiro a abril, a rede municipal de saúde realizou mais de 10 mil atendimentos. No período de um ano, entre 2024 e 2025, a cidade do Rio de Janeiro teve um aumento de 702% no número de atendimentos a pacientes envolvidos em acidentes com veículos de micromobilidade – patinetes elétricos, autopropelidos, ciclomotores –, de acordo com levantamento da Comissão de Segurança no Ciclismo do RJ, com base em dados da Secretaria Municipal de Saúde.

Para o especialista na área de transportes, novas tecnologias e mobilidade urbana Matheus Henrique de Sousa Oliveira, pesquisador do Programa de Engenharia de Transportes (PET), do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), a melhora na mobilidade, seja nas grandes, médias ou pequenas cidades, passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana.

Matheus Oliveira: para o pesquisador da Coppe/UFRJ, a melhora na mobilidade nas cidades passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana (Foto: Acervo pessoal)


O pesquisador, que recebeu apoio da FAPERJ para a realização de seus estudos por meio do Programa de Apoio a Projetos Científicos e Tecnológicos em Mobilidade Urbana, vem desenvolvendo o trabalho de pesquisa e implementação de hubs inteligentes de planejamento em todo o estado, intitulado “Mob 4.0 – Hub de Planejamento Inteligente da Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro”. A proposta consiste na criação de "laboratórios vivos de inovação" aplicados à mobilidade e, através deles, apoiar o planejamento inteligente das cidades. Matheus enfatiza “que o apoio dos gestores nesse trabalho é imprescindível para que o desenho saia do papel e tenha êxito”.

“Como é que a gente constrói ferramentas tecnológicas capazes de colocar na mesma arena o decisor, a população e os dados que representam o problema?”, questiona ele. Para encontrar a resposta, o pesquisador acrescenta que existem diversas etapas para formar o que ele chama de "ecossistema de inovação da gestão urbana" e que garante essa governança: a fase de escuta ou coleta de dados; o controle sobre esses dados; a transparência sobre os dados; e o monitoramento.

Até o momento, foram duas as cidades que já receberam o hub de inovação: Campos dos Goytacazes e Cabo Frio. Entre estudos, análises e propostas, o tempo de implementação do projeto em cada cidade é de cerca de um ano e segue uma metodologia própria. Primeiro, vem a escuta, etapa em que são ouvidos a sociedade civil organizada e o cidadão comum, a academia e também os gestores, através de audiências públicas e reuniões. Essa análise serve para entender quais são as dores, os gargalos e as possibilidades de intervenção e mobilidade em cada local. A partir desta análise, vêm as sugestões propostas no estudo e sua implementação, que sugerem a melhoria do fluxo e mobilidade. “Em Cabo Frio, por exemplo, a gente entendeu que um sistema aquaviário entre o bairro Ogiva e o Centro – já que a cidade é entrecortada por uma lagoa –, e também a ampliação da ciclovia à beira-mar poderiam funcionar, desafogando o trânsito de veículos nas ruas e ampliando as possibilidades de deslocamento para os moradores,” relata. Ele ressalta que a ideia é que o projeto se estenda para mais cidades do estado, sempre observando as potencialidades e particularidades de cada local.

Numa análise mais ampla sobre o trânsito nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro, e sobre o aumento exponencial na circulação de motocicletas, ciclomotores e bicicletas elétricas, Matheus observa que o crescimento da frota de veículos individuais é fruto de um histórico processo de degradação no transporte público que vem ocorrendo desde o final dos anos 90 e tem o seu ápice em meados de junho de 2013, com o crescimento real das tarifas. Processo esse que se intensificou com a pandemia, havendo uma redução drástica na oferta de transportes coletivos e uma mudança de hábitos provocados pelo distanciamento social, como o crescimento da demanda por motos, entregas e deslocamentos individuais. Soma-se a esse cenário, um aumento da disponibilidade de motocicletas, veículos elétricos leves, com baterias duráveis, custo mais acessíveis e com boa autonomia para circular pela cidade em pequenas ou longas distâncias, gerando economia de tempo e dinheiro.

Em Campos dos Goytacazes, população participa de evento de escuta para debater soluções visando a melhora da mobilidade urbana (Foto: Divulgação Acervo de Pesquisa)


Para ele, a solução começa na repactuação do sistema, dando prioridade ao coletivo, com a ampliação de ciclovias, criação de espaços pedonais de qualidade, construção de passarelas e implementação da tarifa zero no transporte público. “A gente precisa entender que o financiamento do transporte público não pode sair do bolso do usuário e existem diversos modelos mundo afora que deram certo e estudos consistentes no Brasil, abordando estimativas de custo, formas de financiamento e sua implementação que demonstram que é possível e viável.”

Outro ponto que o pesquisador defende para a construção de um trânsito mais seguro, menos caótico e menos violento é a redução dos limites de velocidade nas vias urbanas, acompanhado de melhorias das placas de sinalização e redesenho dos espaços e vias públicas, priorizando sempre os pedestres. Ele cita como exemplo e referência mundial o caso da cidade de Fortaleza, que investiu em mobilidade sustentável e conseguiu reduzir pela metade as mortes no trânsito em dez anos.

“Quando a gente investe em ações e iniciativas para uma mobilidade sustentável e reduz os índices de acidentes e mortalidade no trânsito das nossas cidades, estamos falando de economia em saúde pública, em redução nas filas do SUS, nas indenizações e aposentadorias por invalidez. Dinheiro este que pode ser reinvestido em ciclovias, passarelas, travessias, calçadas, ou seja, reorganizar o espaço viário de forma a dar prioridade e segurança ao mais fraco”, pontua.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 07/05/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1013.7.3

A Hantavirose é uma zoonose viral aguda, cuja infecção em humanos, no Brasil, se apresentam na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus.

A Hantavirose é uma zoonose viral aguda, cuja infecção em humanos, no Brasil, se apresentam na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus. Na América do Sul, foi observado importante comprometimento cardíaco, passando a ser denominada de Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH). Os hantavírus possuem como reservatórios naturais alguns roedores silvestres, que podem eliminar o vírus pela urina, saliva e fezes. Os roedores podem carregar o vírus por toda a vida sem adoecer. A Hantavirose é causada por um vírus RNA, pertencente à família Hantaviridae, gênero Orthohantavirus. Os membros desse gênero e família podem ser chamados de, simplesmente, Hantavirus.


Importante: Nas Américas, a hantavirose se manifesta sob diferentes formas, desde doença febril aguda inespecífica, até quadros pulmonares e cardiovasculares mais severos e característicos, podendo evoluir para a síndrome da angústia respiratória (SARA).

Transmissão


A infecção humana por hantavirose ocorre mais frequentemente pela inalação de aerossóis, formados a partir da urina, fezes e saliva de roedores infectados. As outras formas de transmissão, para a espécie humana, são:Percutânea, caracterizada pela entrada de agentes infecciosos por lesões na pele, como escoriações ou mordeduras de roedores.
Contato do vírus com mucosa (conjuntival, da boca ou do nariz), por meio de mãos contaminadas com excretas (urina, fezes e saliva) de roedores;
Transmissão pessoa a pessoa, relatada, de forma esporádica, na Argentina e Chile, sempre associada ao hantavírus Andes.

O período de transmissibilidade do hantavírus no homem é desconhecido. Estudos sugerem que o período de maior viremia seria alguns dias que antecedem o aparecimento dos sinais/sintomas.

Já o período de incubação do vírus, ou seja, o período que os primeiros sintomas começam a aparecer a partir da infecção, é, em média, de 1 a 5 semanas, com variação de 3 a 60 dias.

Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homens e roedores silvestres.

Viajantes

Não há evidências de que viagens para áreas de transmissão devam ser restringidas. No entanto, esse perfil de população deve adotar algumas medidas para reduzir, ao mínimo, a possibilidade de infecção pelo hantavírus:Cabanas ou abrigos que tenham permanecido fechados ou com sinais evidentes de presença de roedores só devem ser usados depois de arejados, limpos e descontaminados;
Acampamentos devem ser montados em lugares afastados de onde haja presença de roedores. Ninhos, escombros, lixões, acúmulos de lenha ou produtos agrícolas, palha ou outros materiais são habitats preferenciais desses animais, evitando-se também escorpiões, aranhas, serpentes e carrapatos, entre outros;
Não se deve repousar ou deitar diretamente no solo. Aconselha-se o uso de barraca com piso impermeável;
Nesses acampamentos, devem-se manter os alimentos e os resíduos em vasilhames fechados. O lixo deve ser acondicionado em recipientes à prova de roedores durante a estadia, ressaltando que todo resíduo produzido durante essas atividades deve ser recolhido e depositado em local apropriado.

Sintomas


Na fase inicial, a hantavirose causa os seguintes sintomas:Febre;
Dor nas articulações;
Dor de cabeça;
Dor lombar;
Dor abdominal;
Sintomas gastrointestinais.

Na fase cardiopulmonar, os sintomas da hantavirose são:Febre;
Dificuldade de respirar;
Respiração acelerada;
Aceleração dos batimentos cardíacos;
Tosse seca;
Pressão baixa.

Importante: Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homense roedores silvestres.

Transporte de paciente

Dada a evolução rápida e progressiva do quadro prodrômico para insuficiência respiratória grave e, até mesmo, choque circulatório, para evitar óbito, o paciente com hantavirose deve ser transportado acompanhado de médico habilitado e em condições que assegurem:Estabilidade hemodinâmica;
Parâmetros ventilatórios adequados, com oxigenioterapia e suporte ventilatório mecânico, se necessários;
Acesso venoso, sem administração excessiva de líquidos;
Controle cardiovascular com uso de aminas vasoativas em doses adequadas;
Normas de biossegurança;
Mobilização apenas quando necessária e sem desgaste físico do paciente.


Diagnóstico

Atualmente, os exames laboratoriais para diagnóstico específico da hantavirose são realizados em laboratórios de referência. Os exames estão disponíveis na rede pública de laboratórios para confirmação ou descarte dos casos. O diagnóstico é feito, basicamente, por meio da sorologia. O Ministério da Saúde disponibiliza os kits necessários para testes sorológicos. Saiba mais

Tratamento


Não existe um tratamento específico para as infecções por hantavírus. As medidas terapêuticas são fundamentalmente as de suporte, ministradas conforme cada caso por um médico profissional.

Por tratar-se de uma doença aguda e de rápida evolução, a hantavirose / hantavírus (síndrome cardiopulmonar por hantavírus), é de notificação compulsória imediata, devendo portanto, ser notificada em até 24h tanto para as Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde, quanto para o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS).

Como a hantavirose é uma doença com transmissão respiratória, profissionais que possam estar expostos, como principalmente trabalhadores rurais, assim como profissionais de saúde que irão realizar investigação à procura do local provável de infecção, devem utilizar os seguintes equipamentos de proteção individual:Máscara pff3;
Luva;
Avental;
Óculos de proteção.

Todo profissional potencialmente exposto ao risco deve ser orientado sobre as formas de transmissão, os períodos de incubação e sinais/sintomas da doença. Quando possível, deve-se, previamente, determinar o nível de risco para cada atividade profissional e identificar as respectivas medidas de prevenção.


Importante: Trabalhadores que apresentem febre ou qualquer doença respiratória em um período de até 60 dias após uma possível exposição ou situação de risco devem buscar, imediatamente, assistência médica e relatar ao profissional de saúde a sua história epidemiológica.

Prevenção


A prevenção das hantavirose baseia-se na utilização de medidas que impeçam o contato do homem com os roedores silvestres e suas excretas (resíduos eliminados do organismo).

As medidas de controle devem conter ações que impeçam a aproximação dos roedores, como, por exemplo, roçar o terreno em volta da casa, dar destino adequado aos entulhos existentes, manter alimentos estocados em recipientes fechados e à prova de roedores, além de outras medidas que impeçam a interação entre o homem e roedores silvestres, nos locais onde é conhecida a presença desses animais.




Autor: gov br
Fonte: gov br
Sítio Online da Publicação: gov br
Data: 12/05/2026
Publicação Original: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hantavirose

Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profi…

Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profissionais do sistema de saúde. Esta Orientação, hoje publicada, surge da necessidade de definir procedimentos a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação ao surto de [...]


Conheça o guia rápido da DGS relativo à Orientação sobre Hantavírus, para profissionais do sistema de saúde.

Esta Orientação, hoje publicada, surge da necessidade de definir procedimentos a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação ao surto de Hantavírus no navio de cruzeiro MV Hondius.

No entanto, não existe qualquer alteração da avaliação do risco. O risco para Portugal mantém-se muito baixo, pelo que não há medidas preventivas a implementar a nível nacional para a população.

A Orientação está disponível aqui https://www.dgs.pt/normas-orientacoes-e-informacoes/orientacoes-e-circulares-informativas/orientacao-n-0012026-de-11052026-hantavirus-andes-procedimentos-para-gestao-de-contactos-no-ambito-do-surto-no-navio-cruzeiro-mv-hondius-.aspx.

#DGS #SaúdePública #Saúde #Hantavírus





Autor: sapo
Fonte: sapo
Sítio Online da Publicação: sapo
Data: 11/05/2026
Publicação Original: https://sapo.pt/artigo/conheca-o-guia-rapido-da-dgs-relativo-a-orientacao-sobre-hantavirus-para-profi-6a024961f00315c827965b8c

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo da Fiocruz registra expansão do vírus oropouche no Nordeste


Um estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz identificou a expansão e o estabelecimento da transmissão do vírus oropouche (Orov) no Nordeste do Brasil entre 2024 e 2025. Historicamente associado à região amazônica, o vírus passou a circular de forma contínua em estados nordestinos, atingindo áreas onde não havia registros anteriores de oropouche. De acordo com a pesquisa, foram confirmados 2.806 casos no período, distribuídos em 170 municípios de oito dos nove estados da região. A análise mostra que a disseminação ocorreu de forma heterogênea: a maioria das cidades apresentou poucos registros, enquanto um grupo menor concentrou incidências mais elevadas. O estudo foi publicado em abril de 2026 na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases


Ilustração do inseto transmissor do vírus oropouche, o Culicoides paraensis (Imagem: Ademildo Mendes/MS)

Os dados também revelam uma mudança no perfil geográfico da transmissão. Em 2024, os casos estavam mais concentrados em áreas do bioma Mata Atlântica. Em 2025, a maior parte das ocorrências foi registrada em zonas úmidas da Caatinga, indicando a presença do vírus em diferentes contextos ambientais dentro do Nordeste. O trabalho contou com a participação do Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE), do Laboratório Central de Saúde Pública da Paraíba (Lacen-PB), além do Serviço de Referência em Arboviroses, do Núcleo de Plataformas Tecnológicas e do Núcleo de Bioinformática, todos da Fiocruz Pernambuco.

Para entender a dinâmica da disseminação, os pesquisadores integraram dados epidemiológicos com análises genômicas do vírus. Foram sequenciados 65 genomas a partir de amostras coletadas em Pernambuco, Paraíba e Sergipe. A partir da informação genética, foi possível reconstruir a trajetória de circulação do Orov e identificar múltiplas introduções independentes na região ao longo de 2024.

Segundo o pesquisador do Departamento de Entomologia da Fiocruz Pernambuco e um dos autores do estudo, Gabriel Wallau, o trabalho documenta o estabelecimento do vírus na região. “Esse estudo caracterizou o estabelecimento do vírus oropouche no Nordeste em múltiplos estados, algo que até então não tinha sido descrito de forma ampla. Era um vírus típico da bacia amazônica, com registros pontuais em outras regiões, mas sem essa dinâmica de transmissão sustentada que observamos agora”, afirma.

Em Pernambuco, o estudo identificou duas linhagens distintas do vírus. A primeira, originada na região central do Amazonas, apresentou maior capacidade de dispersão e foi associada à propagação para estados vizinhos, como Sergipe e Paraíba. A segunda permaneceu restrita ao estado.

O município de Jaqueira, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, foi destacado como um dos principais pontos de disseminação regional. A partir dessa localidade, o vírus se espalhou para outros municípios do estado e avançou para estados vizinhos. “A gente conseguiu caracterizar dois grandes surtos no Nordeste, um em Pernambuco e outro na Paraíba, em anos diferentes, mostrando como o vírus se espalha e se estabelece em novos territórios”, explica Wallau.

A pesquisa também identificou padrões temporais na ocorrência dos casos. Em Pernambuco, o aumento das notificações ocorreu a partir de abril de 2024, com pico em junho, próximo ao final do período chuvoso. Em outros estados, como Ceará e Alagoas, o crescimento dos casos foi observado ao longo do segundo semestre do mesmo ano. Já na Paraíba, a transmissão local foi registrada no fim de 2024, com aumento expressivo no início de 2025. Outro ponto observado foi a relação entre a ocorrência da doença e fatores ambientais. Os períodos de maior incidência coincidiram, em geral, com meses de maior precipitação.

De acordo com o pesquisador, a distribuição dos casos também está relacionada ao tipo de vetor envolvido na transmissão. “Diferentemente de outras arboviroses, o oropouche não está associado principalmente ao Aedes aegypti. O principal vetor são os maruins, que se proliferam em áreas de mata e ambientes rurais. Isso ajuda a explicar por que os maiores surtos ocorreram em municípios pequenos e com interfaces com ambiente mais silvestre”, diz.

A análise espacial mostrou que cidades de menor porte apresentaram, proporcionalmente, maiores taxas de incidência. Em contrapartida, grandes centros urbanos registraram menor impacto relativo. Além disso, os resultados indicam que o vírus pode ter circulado sem detecção por semanas ou meses antes do reconhecimento dos primeiros surtos. “Existe um intervalo entre a introdução do vírus e o aumento do número de casos. Isso sugere uma circulação silenciosa antes da identificação dos surtos”, afirma o pesquisador.

O estudo também reúne evidências de que a expansão do vírus não se restringe mais à Amazônia. “O que a gente observa é que há condições ambientais e populacionais favoráveis para a ocorrência de novos surtos em outras regiões do país. Isso amplia o número de pessoas potencialmente expostas ao vírus”, ressalta Wallau.

A febre de oropouche é uma arbovirose que apresenta sintomas como febre alta, dor de cabeça, dores musculares e articulares, podendo ser confundida com outras doenças como dengue, zika e chikungunya. Além disso, casos raros de abortos e partos precoces em mulheres grávidas também foram registrados neste último grande surto (2023-2025) no Brasil.




Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 12/05/2026

Fiocruz deposita patente de dispositivo inovador de coleta não invasiva e indolor de pele


A Fiocruz deu mais um passo no fortalecimento da inovação em saúde ao realizar o depósito, junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), de um novo pedido de patente voltado à coleta de amostras cutâneas. Intitulada Dispositivo de coleta e armazenamento de pele, sistema e método de coleta e armazenamento de pele, a tecnologia propõe uma alternativa eficiente, padronizada e não invasiva para obtenção de biomarcadores relevantes. O projeto foi desenvolvido no contexto do projeto NAPI Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (Napi) Proteômica da Fundação Araucária.

O dispositivo desenvolvido permite a coleta de material da superfície da pele com potencial para análise de proteínas, DNA e RNA, ampliando as possibilidades de aplicação em diferentes técnicas laboratoriais. A inovação pode contribuir diretamente para o diagnóstico de doenças dermatológicas, reduzindo a necessidade de procedimentos invasivos e aumentando a precisão das análises.

De acordo com o pesquisador da Fiocruz Paraná Paulo Carvalho, o depósito do pedido de patente marca um avanço importante no desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas à saúde. “Trata-se de uma ferramenta que pode facilitar significativamente o acesso a biomarcadores cutâneos, com impacto direto na qualidade e na agilidade dos diagnósticos”, destaca.

A invenção foi desenvolvida no contexto do doutorado de Amanda Camillo no Programa de Pós-Graduação em Biociências e Biotecnologia (PPGBB) da Fiocruz Paraná, juntamente com os pesquisadores Marlon Dias e Paulo Carvalho, que ressaltam o potencial de aplicação da tecnologia. “Buscamos desenvolver uma solução que, além de eficiente, fosse clinicamente aplicável, reduzindo a necessidade de procedimentos invasivos e ampliando a possibilidade de monitoramento de biomarcadores cutâneos em diferentes contextos, desde pesquisa até potencial uso diagnóstico”, explica.

A Assessoria de Novos Negócios e Inovação (Anni) acompanhou o projeto desde as etapas iniciais, oferecendo suporte no processo de proteção intelectual. Para a analista Fabricia Pimenta, a iniciativa reflete o amadurecimento da cultura de inovação na instituição. “O depósito desse pedido de patente demonstra o potencial da Fiocruz Paraná em gerar tecnologias com impacto real para a sociedade. Nosso papel é garantir que essas soluções sejam protegidas e tenham caminho para chegar à população”, afirmou.

Após o protocolo no INPI, o pedido de patente passa por etapas de exame formal e técnico. Somente após a verificação de critérios como novidade, atividade inventiva e aplicação industrial é que a patente pode ser concedida. Com mais este depósito, a Fiocruz reforça sua atuação estratégica no desenvolvimento científico e tecnológico, consolidando seu compromisso com a geração de soluções inovadoras que contribuam para a melhoria da saúde pública e da qualidade de vida da população.




Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/05/2026

EPSJV/Fiocruz realiza 3ª Jornada Nacional de Iniciação Científica da Rede Provoc

A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) promove, no dia 28 de maio, a 3ª Jornada Nacional de Iniciação Científica da Rede Provoc. O evento, que integra as comemorações de 40 anos do Programa de Vocação Científica (Provoc), vai reunir pesquisadores, professores e cerca de 280 estudantes de diversos estados e do Distrito Federal. A Jornada destaca o compromisso da Fiocruz com a difusão do conhecimento científico e tecnológico, atuando também como agente de cidadania, e tem como objetivos debater políticas públicas para a juventude e promover a iniciação científica no Ensino Médio.

Este é o terceiro ano que a EPSJV reúne jovens de diversas regiões do país para um intercâmbio científico e cultural por meio da Rede Provoc. Instituída a partir de 2022, a Rede Provoc Luiz Fernando Rocha Ferreira da Silva reúne estudantes de 30 escolas de 10 estados onde a Fiocruz está presente.




Programação
A programação tem início às 8h30, com recepção na Tenda Arena da EPSJV, seguida da mesa de abertura do evento, às 9h. Em seguida, serão realizadas homenagens a diretores e pesquisadores de outras unidades da Fiocruz, além de coordenadores, diretores de instituições conveniadas e participantes do Provoc. Ainda pela manhã, estudantes apresentam seus trabalhos de iniciação científica, atividade que se estende também para o período da tarde.

Para a coordenadora do Provoc, Cristiane Braga, o evento ultrapassa o caráter acadêmico. “Realizar a 3ª Jornada é um marco que transborda o aspecto acadêmico; é, essencialmente, um encontro de gerações comprometidas com o futuro da ciência para a sociedade”, afirma. Segundo ela, a presença de jovens de diferentes regiões do país reafirma o impacto da iniciação científica em suas trajetórias. “Ver jovens reunidos, compartilhando pesquisas, expectativas e sonhos, reafirma o papel transformador que a iniciação científica exerce em suas vidas”, destaca.

Por fim, Cristiane reforça o compromisso do Provoc e da Escola Politécnica como um todo com o futuro da ciência: “Que possamos ampliar cada vez mais o alcance deste programa e seguir possibilitando a vivência do cotidiano da pesquisa a esses jovens, fortalecendo o compromisso com uma ciência cidadã, crítica e inclusiva.”


Um programa pioneiro

Criado em 1986, o Programa de Vocação Científica (Provoc) da Fiocruz é coordenado pela Escola Politécnica. Pioneiro no Brasil, o Provoc inicia estudantes do Ensino Médio na pesquisa científica em saúde. “Este ano, a Jornada ganha um significado ainda mais profundo e especial ao celebrarmos os 40 anos do Provoc, este programa pioneiro que serviu de modelo e inspiração para diversas iniciativas em todo o país. São quatro décadas colaborando na formação de jovens pesquisadores e fortalecendo o trabalho de quem faz a educação e a ciência acontecerem no dia a dia”, destaca Cristiane.

Em 40 anos, mais de três mil estudantes das redes pública e privada, além de organizações sociais dos Complexos da Maré e de Manguinhos, no Rio de Janeiro, já passaram pelo Programa e, muitos deles, se tornaram pesquisadores. Ao longo desse tempo, o modelo de iniciação científica que constitui o Provoc não apenas se reproduz pelas instituições da Fiocruz, mas também se qualifica como uma referência para a iniciação científica em território nacional. A partir de 2022, o programa se expandiu com a criação da Rede Provoc Luiz Fernando da Rocha Ferreira da Silva, nomeada em homenagem a um dos idealizadores do Provoc e fundadores da EPSJV.



Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/05/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/epsjv-fiocruz-realiza-3a-jornada-nacional-de-iniciacao-cientifica-da-rede-provoc

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Fiocruz obtém patente para tratamento contra malária resistente

A Fiocruz obteve a patente de um método de tratamento considerado promissor contra a malária, sobretudo nos casos resistentes aos medicamentos tradicionais. A concessão foi feita pelo escritório norte-americano United States Patent and Trademark Office (USPTO) e pesquisadores da Fiocruz Minas são os responsáveis pela inovação. O método utiliza o composto DAQ, que apresentou ação contra cepas resistentes do Plasmodium falciparum, parasita responsável pelas formas mais graves da doença.


“A recente aprovação da patente do método de tratamento contra parasitos da malária é um marco importante, pois além de ter baixo custo, essa molécula possui mecanismo único de superar a resistência desenvolvida pelo P. falciparum, parasito causador da malária humana letal caso não seja tratada adequadamente”, afirma a pesquisadora Antoniana Krettli, coordenadora do estudo.

A malária segue como um grave problema de saúde pública global, com milhões de casos anuais. Embora a DAQ não seja uma molécula inédita, uma vez que sua atividade antimalárica já havia sido descrita na década de 1960, o diferencial do estudo foi revisitar o composto à luz de abordagens contemporâneas. “Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasito, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, explica o pesquisador colaborador da Fiocruz Minas, Wilian Cortopassi.

Assim como a cloroquina, o DAQ interfere em um processo essencial para a sobrevivência do parasito. Durante a digestão da hemoglobina, o microrganismo produz uma substância tóxica que normalmente é neutralizada. O composto bloqueia esse mecanismo, levando à morte do parasito. Estudos indicam que o DAQ é eficaz contra cepas sensíveis e resistentes do Plasmodium falciparum, com ação rápida nas fases iniciais da infecção.

A pesquisadora Anna Caroline Aguiar ressalta que o composto também demonstrou atividade contra o Plasmodium vivax, espécie responsável pela maioria dos casos de malária no Brasil, reforçando o potencial da molécula em contextos epidemiológicos relevantes para o país. “Nós vimos que a molécula funcionou tanto para falciparum quanto para vivax, o que é extremamente relevante”, afirma a pesquisadora, que participou de uma série de experimentos durante o mestrado e doutorado, realizados sob orientação de Antoniana Krettli.

Outro aspecto relevante é o baixo custo da molécula, uma característica especialmente importante, considerando que a malária afeta majoritariamente países de baixa e média renda. “Esse fator amplia o potencial de aplicação da tecnologia em contextos de maior vulnerabilidade”, ressalta Cortopassi.

Os estudos contaram com a colaboração de instituições como a University of California San Francisco (UCSF), por meio do programa Catalyst Awards, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). As pesquisas seguem em andamento, com novos estudos conduzidos em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Próximos passos

Apesar dos resultados promissores, o desenvolvimento do DAQ como medicamento ainda exige uma série de etapas. Será necessário avançar nos estudos de toxicidade, definir a dose mais segura e eficaz e desenvolver a formulação adequada. Segundo a equipe, apenas a fase pré-clínica já demanda investimentos significativos.

Nesse cenário, a proteção intelectual se torna estratégica para viabilizar o avanço da tecnologia. De acordo com a coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), Ana Paula Granato, a patente representa um diferencial competitivo e um passo importante na prospecção de parcerias com a indústria farmacêutica. “É, sem dúvida, um reconhecimento importante, pois demonstra a ineditismo e o potencial da tecnologia”, afirma. Concedida em março deste ano, a patente tem validade até 05 de setembro de 2041.

Antoniana Krettli destaca o papel estratégico da Fiocruz nesse processo. “A instituição tem forte atuação na Amazônia, com diagnóstico e acompanhamento de pacientes, além de experiência em testes clínicos. Isso facilita parcerias e o avanço de novos medicamentos”, afirma.

Para os pesquisadores, o estudo também acende um alerta. Embora ainda existam tratamentos eficazes, o parasito continua evoluindo, o que reforça a necessidade de desenvolver novas alternativas desde já, evitando um cenário de escassez terapêutica nos próximos anos.



Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 087/05/2024
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/fiocruz-obtem-patente-para-tratamento-contra-malaria-resistente

OMS designa Fiocruz como Centro Regional de Treinamento em Biofabricação nas Américas

A Fiocruz foi designada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como Centro Regional de Treinamento em Biofabricação para a região das Américas. A iniciativa faz parte do desenvolvimento da Rede Global de Força de Trabalho em Biofabricação da OMS, criada em 2023, que tem por objetivo promover a qualificação de recursos humanos, fundamental para o fortalecimento da segurança sanitária global e para o acesso equitativo a produtos de saúde. A designação ocorre próxima aos aniversários de 50 anos do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), reforçando o reconhecimento da trajetória da Fundação como ator fundamental na consolidação do Complexo Econômico e Industrial da Saúde (Ceis) brasileiro. Além da Fiocruz, também foram designados outros seis centros para a África, Europa, Mediterrâneo e Sudeste asiático.



Além da Fiocruz para as Américas, também foram designados outros seis centros para a África, Europa, Mediterrâneo e Sudeste asiático (imagem: OMS)

Durante a celebração dos 50 anos de Bio-Manguinhos/Fiocruz, nesta quarta-feira (6/5), o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, destacou, em mensagem de vídeo, a importância do trabalho da Fiocruz para as Américas e as expectativas no âmbito da Rede da OMS. “Esta designação da Fiocruz fortalecerá as competências em produção, qualidade e ciência regulatória da Rede nas Américas, bem como o desenvolvimento clínico e o aumento da escala de biofabricação”, afirmou Tedros. Ele ainda declarou: “Das vacinas e anticorpos monoclonais aos medicamentos biológicos avançados, os imunobiológicos estão transformando a prevenção e o cuidado. Mas seu impacto depende da qualidade, equidade e confiança. As desigualdades persistem no acesso a esses produtos que salvam vidas, tanto dentro como entre as regiões. Fechar essas lacunas requer sistemas fortes e integrados em toda a cadeia de valor e, acima de tudo, equipes qualificadas, resilientes e sustentáveis”.

Vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Priscila Ferraz elucidou alguns fatores para a designação da instituição. "A Fiocruz apresenta uma trajetória de excelência na formação de capacidades produtivas e inovativas no campo das vacinas e medicamentos biológicos, fruto de uma história bem-sucedida de internalização de tecnologia, desenvolvimento tecnológico e produção de insumos estratégicos de saúde para países do Sul-Global. Destaco a tradição da Fiocruz no campo da formação, ressaltando experiências exitosas na capacitação de países na América Latina, em parceria com a [Organização Pan-Americana da Saúde] Opas, e na África", afirmou.

Junto com a Fiocruz, também foram designados os seis centros de treinamento regionais: o Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, e o Conselho para Pesquisa Científica e Industrial, na África do Sul, ambos para a região africana; o Instituto de Ciência e Tecnologia Translacional em Saúde, na Índia, para a região do Sudeste asiático; o Instituto Nacional de Pesquisa e Treinamento em Bioprocessamento, na Irlanda, para a região europeia; o Centro de Desenvolvimento Profissional Continuado, Autoridade Egípcia de Medicamentos, no Egito, para a região do Mediterrâneo Oriental; e a Universidade de Pequim, na China, para a região do Pacífico Ocidental.

Impacto regional para a Rede Global de Força de Trabalho em Biofabricação da OMS

Os centros regionais de treinamento recém-designados deverão operar como parte da rede global coordenada, oferecendo treinamento específico e alinhado às prioridades regionais, aos ambientes regulatórios e aos idiomas. O objetivo é ampliar o acesso ao treinamento e o desenvolvimento de força de trabalho qualificada e sustentável, a partir do estabelecimento de parcerias entre a academia e a indústria, fortalecendo a expertise regional e estimulando a colaboração entre nações. A OMS visa equacionar desigualdades históricas no acesso a produtos de saúde e garantir que os países estejam mais bem preparados para responder, de forma rápida e eficaz, a futuras emergências sanitárias.

Embora operem de forma independente, pretende-se que o trabalho também seja realizado em estreita colaboração com o Centro Global de Treinamento em Biofabricação (GTH-B). Estabelecido em 2022 a partir de uma parceria do Ministério da Saúde e Bem-Estar da República da Coreia com a OMS, GTH-B oferece programas de treinamento padronizados que combinam experiência prática e aprendizado em sala de aula. O Centro já oferece apoio a iniciativa da OMS por meio de programas de formação.




Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 07/05/2024
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/oms-designa-fiocruz-como-centro-regional-de-treinamento-em-biofabricacao-nas

Risco de morte em hospitalização é duas vezes maior para indivíduos vulneráveis no espectro autista

Publicada no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, uma pesquisa da Fiocruz, da Universidade de Harvard e do Instituto Autism Speaks (Estados Unidos) aponta que pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam o dobro do risco de óbito durante uma internação hospitalar, especialmente entre as mulheres. A análise utilizou dados administrativos de saúde vinculados aos registros do sistema de assistência social (CadÚnico), uma vez que taxas de mortalidade mais elevadas entre indivíduos com TEA têm sido associadas a fatores de risco como baixa renda, um dos critérios para fazer parte do programa.



Conduzido por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), o estudo (intitulado Taxas de mortalidade entre indivíduos hospitalizados com transtorno do espectro autista ao longo de um período de 10 anos na Coorte Brasileira de 100 Milhões) incluiu 948 indivíduos hospitalizados com diagnóstico de TEA, comparando com os indivíduos não hospitalizados, entre os anos de 2008 e 2018. Os resultados também indicaram que os mais jovens, com idade entre 11 e 24 anos, estão no grupo que mais morreu em internação, assim como pessoas com TEA sem comorbidade. Para chegar aos resultados encontrados, foram cruzados os dados do CadÚnico com os do Sistema de Informação Hospitalar (SIH) e do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM).

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento, que podem englobar alterações na comunicação, na interação social e no comportamento. Quando comparadas com a população em geral, pessoas com TEA têm um risco aumentado para determinadas doenças - como respiratórias e neurológicas -, aumentando assim as chances de internação hospitalar.

De acordo com o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), de 2022, foram identificados 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico TEA, correspondendo a 1,2% da população brasileira. A maioria dos indivíduos no espectro foram homens e na faixa entre 5 e 9 anos. Apesar do aumento no diagnóstico na população negros (pardos e pretos), ainda assim a prevalência é maior em brancos.

Causas das mortes

Ao analisar os dados de óbito, o estudo evidencia que pessoas hospitalizadas com TEA morreram com maior frequência por doenças respiratórias (24%) e neurológicas (20%), enquanto indivíduos não hospitalizados morreram com maior frequência por doenças circulatórias (27,8%) e neoplasias (17,1%).

Problemas gastrointestinais, embora não estejam entre as maiores causas de morte, são uma das comorbidades que mais levam indivíduos com TEA à hospitalização. Uma explicação para esse fenômeno pode ser a seletividade alimentar observada com frequência nesse grupo, o que pode levar à constipação, refluxo e diarreia crônica, entre outros sintomas.

Questões neurológicas também são comuns em indivíduos com o transtorno, como epilepsia, por exemplo, levando a maior internação.

Desafio ao sistema de saúde

O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza atendimento gratuito para pessoas com TEA através da Rede de Atenção Psicossocial há aproximadamente 20 anos, porém, ainda há uma oferta insuficiente desses serviços, tornando os hospitais um recurso comum de última instância. Segundo a pesquisadora associada do Cidacs/Fiocruz Bahia, Camila Bonfim, que faz parte do estudo, esses achados refletem o baixo acesso da assistência à saúde, indicando uma lacuna no cuidado a indivíduos com TEA, especialmente os que vivem em contexto de vulnerabilidade social. Os hospitais e a ambulatórios estão nos grandes centros urbanos, não nos interiores e zonas rurais, o que torna pessoas com TEA de determinadas localidades ainda mais vulneráveis por ter menos acesso à saúde.

“A gente precisa prestar atenção a esse público, na fragilidade dessa rede de atenção psicossocial para o cuidado das pessoas com autismo, porque o que a gente está vendo é que elas estão agravando questões de saúde”, explicou a pesquisadora.
Essa rede de atenção está disponível em todas as regiões, mas as grandes cidades e capitais, especialmente aquelas localizadas nas regiões Sul e Sudeste, têm uma maior concentração de serviços especializados e hospitais equipados para atender pessoas com deficiência, incluindo TEA.

“É importante reconhecer também que este estudo é um dos poucos que incluem apenas indivíduos hospitalizados com TEA que estão cadastrados no CadÚnico, o principal sistema de solicitação de benefícios sociais como o Programa Bolsa Família, e, portanto, representa o grupo de menor renda da população brasileira”, acrescenta Camila.

Atenção para as comorbidades

Apesar do grupo com maior risco de morte não possuir comorbidade, esse fato requer uma atenção maior. Esses resultados podem ser explicados por algumas hipóteses, como o grupo sem TEA não apresentar dificuldades de comunicação semelhantes às dos indivíduos com TEA, o que pode levá-los a buscar atendimento médico com mais frequência e ter mais registros de hospitalização devido a comorbidades e óbitos.

Outro fator pode ser que no grupo com TEA, as hospitalizações devido a comorbidades foram registradas principalmente como diagnósticos secundários e, como essa informação não é obrigatória no SIH, pode refletir uma entrada de dados inadequada.


A presença de comorbidades no grupo com TEA pode levar a uma maior utilização dos serviços de saúde, o que poderia ter contribuído para um risco reduzido de mortalidade em comparação com aqueles que não foram hospitalizados por comorbidade. Ao priorizar o treinamento de equipes de saúde da família para detectar comorbidades precocemente, o sistema de saúde não apenas previne internações evitáveis, como também assegura uma gestão financeira mais eficiente.




Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 07/05/2024
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/risco-de-morte-em-hospitalizacao-e-duas-vezes-maior-para-individuos-vulneraveis-no

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Estudo analisa transformação de casas para incorporar espaços de trabalho e sociabilidade


O projeto desenvolvido pela pesquisadora Ana Slade (Prourb/FAU/UFRJ) acompanhou as adaptações feitas por moradores dos subúrbios cariocas, que transformaram suas residências em espaços mistos para moradia e trabalho
 (Fotos: Divulgação/Ana Slade)

A necessidade de empreender, de buscar alternativas à falta de oportunidades no mercado de trabalho e até mesmo de oferecer serviços vêm estimulando moradores da periferia e dos subúrbios cariocas – no plural, devido à diversidade dos bairros – a adaptar suas residências, transformando-as em espaços de uso misto voltados à moradia e ao trabalho. Essa iniciativa, que muitas vezes ignora a legislação, ganhou força nos últimos anos e pode ser analisada sob diferentes olhares, já que traz impactos na geração de renda, na oferta de serviços, às vezes escassos, e até mesmo na redução de deslocamentos casa-trabalho entre o subúrbio – tradicionalmente destinado à moradia – e os locais que concentram a maior parte das atividades econômicas e dos empregos, como o Centro e as áreas mais nobres da cidade.

Essas transformações espontâneas feitas pelos moradores dos subúrbios têm sido acompanhadas de perto pela pesquisadora Ana Slade, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ) e do Programa de Pós-graduação em Urbanismo (Prourb/FAU/UFRJ). Ana vem estudando as mudanças no uso e a adaptação da arquitetura de modo a conjugar trabalho e moradia nas casas.

“É comum, nas áreas residenciais periféricas, as casas serem modificadas pelos residentes para adaptar usos comerciais e produtivos mesmo que à revelia das legislações, se misturando com casas de uso estritamente residencial. Os moradores desses locais vão resolvendo do seu jeito o que não foi planejado”, explica Ana, doutora em Urbanismo pelo Prourb/FAU/UFRJ.

É interessante voltar no tempo e lembrar que as unidades habitacionais utilizadas para moradia e trabalho, conhecidas no Rio de Janeiro como “sobrados”, eram muito comuns no início do século XX. Nessas edificações, a moradia ocupava o pavimento superior e o comércio, o térreo, com acesso pela rua. Entretanto, com o passar do tempo, os sobrados foram dando lugar a casas e edifícios estritamente residenciais. 

A figura reproduz uma esquina do bairro de Irajá, onde foram criados três estabelecimentos comerciais conjugados a imóveis residenciais (Ilustração: Vinícius Medeiros)

Um dos principais aspectos investigados no projeto é o intenso volume de deslocamentos casa-trabalho-casa característico das metrópoles contemporâneas, e que se constitui em um dos grandes desafios para o planejamento urbano. O estudo propõe a discussão sobre possíveis alternativas: investir em soluções para a mobilidade ou optar por uma reestruturação dos bairros, apostando em espaços que atendam às necessidades de moradia e de trabalho e, desta forma, reduzindo as viagens diárias.  

“O trabalho nos estimula a refletir sobre estratégias que possam colaborar para a redução dos deslocamentos nas cidades e para a qualificação de bairros residenciais em subúrbios e nas periferias, a partir da aproximação de moradia e trabalho e do incremento da mistura de usos. O planejamento urbano deve olhar com atenção para essa alternativa”, explica Ana, que participa do núcleo de pesquisa Urbanismo, Crítica e Arquitetura (UrCA) do Prourb/FAU.

O processo de transformação ocorrido no subúrbio carioca pode trazer respostas para que o poder público, gestores, arquitetos e urbanistas possam repensar o projeto arquitetônico, as leis e o planejamento urbano da cidade. Várias dessas respostas estão presentes no livro “Aprendendo com os subúrbios cariocas”, lançado por Ana Slade em 2025. Baseada em sua tese de doutorado, a obra, de 192 páginas, foi publicada pela editora Rio Books, por meio do Programa de Apoio à Editoração da FAPERJ.




Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 30/04/2024
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1005.7.8

Hantavírus: que vírus é este e qual o risco real para os portugueses?


No início de maio de 2026, o nome hantavírus voltou a dominar as notícias em todo o mundo. O navio de cruzeiro MV Hondius, com bandeira holandesa, partiu da Argentina com 150 passageiros a bordo rumo a Cabo Verde, mas chegou ao destino com um surto a bordo.

Três pessoas morreram e outras ficaram gravemente doentes.

Com um dos tripulantes português, o navio ficou retido ao largo do Porto da Praia, com os passageiros impedidos de desembarcar para proteger a população local, enquanto equipas médicas visitavam a embarcação.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmou que pelo menos uma das mortes foi causada pelo hantavírus, com o número de casos a subir para sete.

Até 4 de maio de 2026, foram identificados sete casos (dois casos de hantavírus confirmados em laboratório e cinco casos suspeitos), que incluem três vítimas mortais, um doente em estado grave e três pessoas que relataram sintomas ligeiros.

Comunicou a OMS, nesta segunda-feira.

Ainda que o vírus tenha sido uma surpresa para muitos, os especialistas conhecem-no bem.

Afinal, o que é o hantavírus?
O hantavírus não é uma doença nova. Trata-se de uma família de vírus transmitidos principalmente por ratos e ratazanas, conhecida há décadas e com registos de surtos na Ásia e na Europa que remontam a séculos.

Existem pelo menos 38 espécies diferentes de hantavírus identificadas a nível global, das quais 24 têm capacidade de provocar doença em seres humanos.


Ratos
A principal via de transmissão é a inalação de partículas microscópicas presentes na urina, nas fezes ou na saliva de roedores infetados, como ratos e ratazanas.

Não é uma doença que se apanha na rua ao passar ao lado de alguém. É necessário contacto direto com o ambiente contaminado pelos roedores.

Casos de transmissão entre humanos existem, mas são extremamente raros e estão maioritariamente documentados entre cônjuges, em contexto da estirpe sul-americana.

Dois vírus, dois órgãos-alvo
Nem todos os hantavírus são iguais. Dependendo da estirpe e da região geográfica, o vírus pode afetar de formas distintas o organismo humano. Os especialistas dividem-nos em dois grandes grupos.

Os hantavírus do hemisfério ocidental, sobretudo os encontrados na América do Sul e do Norte, tendem a atacar o sistema respiratório, causando a chamada Síndrome Pulmonar por Hantavírus.

Nesta, os pulmões enchem-se de líquido, a respiração torna-se impossível sem suporte médico, e a taxa de mortalidade pode atingir os 40%. É esta a estirpe que estará por detrás do surto no MV Hondius, dado que o navio partiu da Argentina, um país considerado endémico para o hantavírus.

Já as estirpes predominantes na Europa e na Ásia afetam sobretudo os rins, causando Febre Hemorrágica com Síndrome Renal. São geralmente menos letais, embora continuem a ser doenças sérias que exigem hospitalização.

Na Europa, a Finlândia é o país com maior número de casos registados, associados a uma espécie de rato comum nas florestas do norte do continente.

Os sintomas podem enganar
Um dos maiores perigos do hantavírus é precisamente a sua fase inicial, pois não há nenhum sinal de alarme imediato que leve um médico a suspeitar logo de hantavírus, sobretudo em regiões onde o vírus não é endémico.

E uma pandemia?
Perante o alarme mediático, outra questão inevitável surge e procura saber se o hantavírus pode tornar-se a próxima pandemia global.

Segundo os especialistas, o vírus não se transmite facilmente entre pessoas, não sofre mutações rápidas que alterem o seu comportamento e depende de uma exposição muito específica para infetar humanos.

Ainda que grave e letal, o hantavírus não se propaga de forma eficiente em populações humanas. O surto no cruzeiro foi, muito provavelmente, resultado de condições específicas a bordo, como o contacto com roedores ou materiais contaminados durante a viagem pela América do Sul.



Autor: sapo
Fonte: sapo
Sítio Online da Publicação: sapo
Data: 05/05/2024