
Em estudo anterior, no Rio de Janeiro, cocaína foi identificada em tubarões Rhizoprionodon lalandii, popularmente conhecidos como “tubarão-bico-fino-brasileiro" ou “cação-frango” (foto: IOC/Fiocruz)
A cafeína foi a substância mais frequente, encontrada em 27 tubarões. O diclofenaco (remédio anti-inflamatório) foi identificado em dez, enquanto paracetamol (medicamento analgésico) e cocaína foram detectados em dois.
Segundo os autores do estudo, as substâncias são consideradas contaminantes de preocupação emergente. “Este é um indicativo de impacto da atividade humana. Essas moléculas são exclusivas de uso humano e chegam ao ambiente principalmente pelo esgoto. A contaminação dos animais aponta falta de tratamento adequado do esgoto”, afirma o pesquisador do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Enrico Saggioro.
Publicado na revista científica Environmental Pollution, o trabalho representa a primeira detecção de cafeína e paracetamol em tubarões no mundo e a primeira identificação de diclofenaco e cocaína em animais das Bahamas, após o achado pioneiro de cocaína em tubarões do Rio de Janeiro, também realizado pelo IOC/Fiocruz.
As três espécies de tubarões analisadas nas Bahamas – tubarão-de-recife-do-Caribe (Carcharhinus perezi), tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e tubarão-limão (Negaprion brevirostris) – vivem em águas costeiras. De acordo com os cientistas, os achados em tubarões juvenis ou que não têm hábito migratório sinaliza para contaminação local.
“Esse resultado foi uma surpresa porque existem poucos estudos sobre contaminação nas Bahamas. Acredita-se que é um ambiente prístino, limpo, mas há muito movimento turístico na região”, comenta a pesquisadora do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC/Fiocruz, Rachel Ann Hauser Davis.
A coleta de amostras foi liderada pela professora da UFPR, Natascha Wosnick, que também é pesquisadora do Instituto Cape Eleuthera, das Bahamas, e da Associação MarBrasil, do Paraná. Os pesquisadores do IOC/Fiocruz, Enrico e Rachel, coordenaram as análises de contaminantes, realizadas em parceria com Rodrigo Hoff, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O estudo também contou com colaboração de cientistas da Universidade Mayor, do Chile, e das universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e do Ceará (UFCE).
Possíveis efeitos nos animais
Segundo os cientistas, não é possível afirmar que as substâncias são nocivas para os animais, mas a análise de componentes do sangue mostrou alterações nos tubarões contaminados. Por exemplo, redução de triglicerídeos e níveis alterados de ureia e lactato, que sugerem possíveis impactos no metabolismo e na resposta ao estresse.
“Essas moléculas são marcadores de saúde do animal. Não é possível garantir que as alterações são causadas pela contaminação, mas os padrões bioquímicos sugerem que os animais são afetados. Para verificar a amplitude desse efeito são necessários experimentos em laboratório, que pretendemos fazer no futuro”, explicou Rachel, citando também outro estudo realizado pelo mesmo grupo de cientistas, que apontou possíveis efeitos de contaminação por metais nos tubarões das Bahamas.
“Analisamos o nível sanguíneo de metais, que indica exposição recente. Chamou atenção o impacto de metais de preocupação emergente, como lítio, que vem sendo associado com descarte de lixo eletrônico em regiões costeiras”, contou Rachel.

Rachel Hauser Davis e Pedro Magno de Araújo analisam uma raia-ticonha (Rhinoptera brasiliensis) (foto: Gutemberg Brito)
Ao considerar que a contaminação ambiental pode impactar a saúde de animais e a própria saúde humana, os pesquisadores destacam a importância de pesquisas sobre contaminantes de preocupação emergente, que ainda não sofrem regulamentação. No Brasil, atualmente, os cientistas realizam estudos sobre presença de drogas, pesticidas e remédios em mexilhões, tubarões e raias. Em breve, deve ser iniciada também análise de amostras de golfinhos.
“Estamos afetando ambiente de maneiras que nem imaginamos. Não se trata de parar de tomar café ou de usar paracetamol, precisamos compreender o impacto dessas substâncias e criar barreiras para que elas não cheguem ao ambiente", declarou Enrico.
Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 14/05/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/05/cafeina-remedios-e-cocaina-em-tubaroes-das-bahamas-mostram-impacto-da-acao-humana
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