O projeto desenvolvido pela pesquisadora Ana Slade (Prourb/FAU/UFRJ) acompanhou as adaptações feitas por moradores dos subúrbios cariocas, que transformaram suas residências em espaços mistos para moradia e trabalho (Fotos: Divulgação/Ana Slade) |
A necessidade de empreender, de buscar alternativas à falta de oportunidades no mercado de trabalho e até mesmo de oferecer serviços vêm estimulando moradores da periferia e dos subúrbios cariocas – no plural, devido à diversidade dos bairros – a adaptar suas residências, transformando-as em espaços de uso misto voltados à moradia e ao trabalho. Essa iniciativa, que muitas vezes ignora a legislação, ganhou força nos últimos anos e pode ser analisada sob diferentes olhares, já que traz impactos na geração de renda, na oferta de serviços, às vezes escassos, e até mesmo na redução de deslocamentos casa-trabalho entre o subúrbio – tradicionalmente destinado à moradia – e os locais que concentram a maior parte das atividades econômicas e dos empregos, como o Centro e as áreas mais nobres da cidade.
Essas transformações espontâneas feitas pelos moradores dos subúrbios têm sido acompanhadas de perto pela pesquisadora Ana Slade, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ) e do Programa de Pós-graduação em Urbanismo (Prourb/FAU/UFRJ). Ana vem estudando as mudanças no uso e a adaptação da arquitetura de modo a conjugar trabalho e moradia nas casas.
“É comum, nas áreas residenciais periféricas, as casas serem modificadas pelos residentes para adaptar usos comerciais e produtivos mesmo que à revelia das legislações, se misturando com casas de uso estritamente residencial. Os moradores desses locais vão resolvendo do seu jeito o que não foi planejado”, explica Ana, doutora em Urbanismo pelo Prourb/FAU/UFRJ.
É interessante voltar no tempo e lembrar que as unidades habitacionais utilizadas para moradia e trabalho, conhecidas no Rio de Janeiro como “sobrados”, eram muito comuns no início do século XX. Nessas edificações, a moradia ocupava o pavimento superior e o comércio, o térreo, com acesso pela rua. Entretanto, com o passar do tempo, os sobrados foram dando lugar a casas e edifícios estritamente residenciais.
![]() |
| A figura reproduz uma esquina do bairro de Irajá, onde foram criados três estabelecimentos comerciais conjugados a imóveis residenciais (Ilustração: Vinícius Medeiros) |
Um dos principais aspectos investigados no projeto é o intenso volume de deslocamentos casa-trabalho-casa característico das metrópoles contemporâneas, e que se constitui em um dos grandes desafios para o planejamento urbano. O estudo propõe a discussão sobre possíveis alternativas: investir em soluções para a mobilidade ou optar por uma reestruturação dos bairros, apostando em espaços que atendam às necessidades de moradia e de trabalho e, desta forma, reduzindo as viagens diárias.
“O trabalho nos estimula a refletir sobre estratégias que possam colaborar para a redução dos deslocamentos nas cidades e para a qualificação de bairros residenciais em subúrbios e nas periferias, a partir da aproximação de moradia e trabalho e do incremento da mistura de usos. O planejamento urbano deve olhar com atenção para essa alternativa”, explica Ana, que participa do núcleo de pesquisa Urbanismo, Crítica e Arquitetura (UrCA) do Prourb/FAU.
O processo de transformação ocorrido no subúrbio carioca pode trazer respostas para que o poder público, gestores, arquitetos e urbanistas possam repensar o projeto arquitetônico, as leis e o planejamento urbano da cidade. Várias dessas respostas estão presentes no livro “Aprendendo com os subúrbios cariocas”, lançado por Ana Slade em 2025. Baseada em sua tese de doutorado, a obra, de 192 páginas, foi publicada pela editora Rio Books, por meio do Programa de Apoio à Editoração da FAPERJ.

Nenhum comentário:
Postar um comentário