segunda-feira, 8 de junho de 2026

Biodetergente promete prolongar a vida útil de frutas e legumes

As perdas ao longo da cadeia de produção de alimentos são um gargalo a ser superado e geram prejuízos que podem alcançar US$ 540 bilhões em 2026, segundo a consultoria Datagro. Mais de 30% do volume de alimentos entre a colheita e a chegada ao consumidor se perdem, gerando um prejuízo equivalente no faturamento anual da cadeia de suprimentos. No caso de alimentos perecíveis como frutas, legumes e verduras, dados da Embrapa indicam perdas de 30% em média na etapa pós-colheita, principalmente por manuseio, transporte e armazenamento inadequados. Isso, num país tropical como o Brasil, pode acelerar o ataque de fungos e bactérias e a deterioração dos alimentos.

Mas a pesquisa pode mudar este cenário. O Laboratório de Biotecnologia Microbiana do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaBiM/IQ/UFRJ), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu um biodetergente capaz de prolongar a vida útil de frutas e legumes, contribuindo diretamente para a redução do desperdício de alimentos. O produto consegue impedir a ação dos fungos. “É como se o biossurfactante ‘desorganizasse’ a estrutura do fungo, impedindo sua proliferação e aumentando o tempo de prateleira das frutas”, explica a professora titular do Instituto de Química Denise Maria Guimarães Freire. Nos testes, laranjas foram infectadas com injeções de fungos e depois protegidas com o biodetergente aplicado na casca. Após 10 dias, de cada 12 laranjas testadas, 11 ficaram intactas.


Biodetergente criado no laboratório prolongou a vida útil da laranja inoculada com fungo. Após 10 dias, de 12 laranjas testadas, 11 ficaram intactas


A pesquisadora conta que os estudos tiveram início em 2009, época em que a Petrobras identificou uma bactéria em poços de petróleo com potencial para mitigar o efeito de derramamento de petróleo e metais pesados em ambientes terrestres e aquosos. Foi no Laboratório que a bactéria começou a ser estudada em diferentes meios de cultivo e mostrou possuir “1001 utilidades, um verdadeiro Bombril”, alega a pesquisadora, que é Cientista do Nosso Estado da FAPERJ e já contou com diversos apoios da Fundação para conduzir suas pesquisas, como do Programa de Apoio a Projetos Temáticos no Estado do Rio de Janeiro.

Denise Freire explica que não há mais dúvida quanto à eficácia do biodetergente, mas que a produção atual de 100 litros no LaBiM é totalmente insuficiente para atender ao mercado. No caso das laranjas, por exemplo, o produto poderia ser adicionado pelas indústrias à água da lavagem das frutas no pós-colheita, protegendo toda a produção. “Chegamos num estágio em que não conseguimos avançar sem apoio financeiro para viabilizar os testes em campo. É como se estivéssemos à beira de um rio caudaloso, sem ponte para atravessar”, afirma Denise, que já foi procurada por cinco agricultores, incluindo produtores de mamão e morango, interessados no biodetergente. Segundo ela, o próximo passo, também em parceria com a Embrapa, será o teste em grãos como soja, feijão e milho.

Essa pesquisa está alinhada às pesquisas do Hub de Inovação Aberta em Bioprodutos do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT HOI-B), que desenvolve tecnologias limpas e inovadoras para síntese, recuperação, concentração e purificação de bioprodutos. Social e ambientalmente sustentáveis, as tecnologias limpas reduzem resíduos, priorizam sistemas aquosos de baixa toxicidade e biodegradáveis, alinhados à Química Verde e à Economia Circular, como opção aos produtos químicos usualmente utilizados nas mesmas aplicações. O INCT HOI-B atua no desenvolvimento de soluções estratégicas em biotecnologia industrial, integração academia-indústria no modelo de inovação aberta e valorização de recursos renováveis, promovendo pesquisa aplicada com impacto científico, tecnológico e social.

A coordenadora do HOI-B diz que outros antifúngicos estão sendo pesquisados no laboratório, como a levedura Metschnikowia pulcherrima e a substância obtida de outro microrganismo, chamada cerulenina. Ambas se mostraram bastante promissoras nos testes in vitro de biocontrole pós-colheita. Denise destaca outras pesquisas desenvolvidas no Laboratório, como a encomendada pela Sinochem, estatal chinesa especializada em petroquímica, agricultura e energia, entre outros, que, no Brasil, atua principalmente na exploração de petróleo e gás através da Sinochem Petróleo Brasil. A empresa necessitava de um produto que separasse melhor o óleo e a proteína, aumentando a recuperação de ambos sem afetar a produção de etanol à base de milho. Essa pesquisa resultou no registro de duas patentes da UFRJ com a empresa. Em parceria com a empresa de ingredientes para cosméticos Assessa, o LaBiM vem desenvolvendo, com o apoio do INCT, ingredientes sustentáveis a partir de resíduos agroindustriais, promovendo a valorização desses resíduos e a geração de produtos de alto valor agregado.


Denise Freire: segundo a pesquisadora, é como se o biossurfactante ‘desorganizasse’ a estrutura do fungo, impedindo sua proliferação e aumentando o tempo de prateleira das frutas


“O estudo explora o uso de biossurfactantes como uma solução ‘dois em um’: além de aumentar a extração de compostos antioxidantes de coprodutos, eles também atuam como agentes tensoativos na formulação, com menor toxicidade e maior sustentabilidade em comparação aos surfactantes convencionais”.

O grande desafio está no apoio dos editais e programas de fomento à transição das pesquisas que já estão em fase de TRL (Technology Readiness Level) alta, ou seja, alto nível de maturidade para o mercado. Este é o caso da produção do biodetergente que já se encontra em TRL 6. O próximo desafio é desenvolver uma formulação inovadora com o biodetergente para ser testada em larga escala. Destaque no ranking Research.com como uma das pesquisadoras mais influentes do mundo em sua respectiva área de conhecimento, a engenheira química Denise Freire destaca que o investimento em novas tecnologias pode gerar retornos muito superiores ao valor inicialmente aportado na pesquisa.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 03/06/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1026.7.6

Estado do Rio cria Marco Legal Mães na Ciência e fortalece políticas de apoio à permanência de mulheres na pesquisa


O Estado do Rio de Janeiro passa a contar com um novo instrumento de promoção da equidade de gênero na produção científica. O governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, sancionou a lei nº 11.213, publicada no Diário Oficial desta segunda-feira, dia 8 de junho, que institui o Marco Legal Mães na Ciência. A legislação cria diretrizes para garantir apoio às mães e adotantes na graduação e na pós-graduação, assegurando condições mais justas para a permanência e a progressão acadêmica.



As universidades públicas estaduais e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) devem adotar mecanismos de equidade e reconhecimento no âmbito do Marco Legal Mães na Ciência. A lei observará a autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira das instituições de ensino superior e os objetivos do Programa Estadual de Incentivo ao Protagonismo das Mulheres na Ciência.

Nos processos seletivos e de renovação de bolsas de pesquisa, ensino e extensão, a lei veda a adoção de critérios discriminatórios contra candidatas por motivo de gestação, parto, nascimento de filho, adoção ou guarda judicial para fins de adoção. Proíbe, ainda, a formulação de perguntas sobre planejamento familiar em entrevistas, avaliações ou documentos de inscrição, salvo quando a candidata manifestar a intenção de tratar do tema.

A iniciativa avança no reconhecimento do trabalho de cuidado, especialmente da maternidade e da adoção, na avaliação de mérito acadêmico, produtividade científica e análise curricular, para fins de pontuação em processos seletivos de bolsas e editais de monitoria, iniciação científica, extensão, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Para a presidente da FAPERJ, Caroline Alves, a nova lei reforça iniciativas da Fundação que caminham no mesmo sentido de fortalecer a atuação das mulheres em prol do avanço da ciência no estado. "A sanção do Marco Legal Mães na Ciência representa um avanço histórico para a ciência fluminense e para a equidade de gênero na produção do conhecimento no estado, pois sabemos que a maternidade e a adoção impõem desafios reais às trajetórias acadêmicas de inúmeras pesquisadoras", disse.



Na mais recente medida em apoio à participação das mulheres na pesquisa fluminense, a FAPERJ lançou, no início de março, o edital Programa de Apoio à Jovem Cientista Mulher – Dra. Tatiana Sampaio, em homenagem à cientista, cujo trabalho pioneiro trouxe contribuições importantes para o campo da regeneração da medula espinhal em pacientes tetraplégicos.

* Com informações da Assessoria de Comunicação do Governo do Estado do Rio de Janeiro

Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data:08/06/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1038.7.3

Meninas na robótica: projeto incentiva presença feminina nas áreas tecnológicas

Imagine poder desfrutar de uma lixeira ultrassônica, projetada por sua filha, que abre a tampa automaticamente ao detectar a aproximação da mão. E já pensou em implantar em casa uma horta com irrigação automatizada que une tecnologia e sustentabilidade também projetada e instalada por sua filha?

Esses são apenas dois dos miniprojetos direcionados especialmente para meninas interessadas pelas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Os miniprojetos são ensinados em oficinas oferecidas entre as atividades do projeto Meninas na Robótica, do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ), campus Nova Iguaçu. A iniciativa é apoiada pelo edital Meninas e Mulheres nas Ciências Exatas e da Terra, Engenharias e Computação da FAPERJ.

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o percentual de mulheres graduadas em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) no Ensino Superior no Brasil era de 37%.

Dentro da perspectiva da divisão sexual do trabalho, dados mostram uma presença ainda reduzida das mulheres nessas áreas. Além disso, mulheres costumam receber salários menores do que homens e têm maior probabilidade de sofrer discriminação de gênero.

O percentual das mulheres na ativa e nas áreas de STEM vem aumentando aos poucos, mas ainda representa uma proporção bastante desfavorável. Vale destacar que 50% da população mundial é composta por mulheres e meninas.

Desconstrução da ideologia patriarcal

Diante disso, incentivar meninas para as áreas das Ciências Exatas é essencial para melhorar esse índice e contribuir para a desconstrução de uma ideologia patriarcal que ainda interdita, mesmo em níveis simbólicos, a atuação das mulheres em determinados campos laborais.

A ideia do projeto, coordenado pela professora Rafaelli de Carvalho Coutinho, do Departamento de Engenharia de Controle e Automação do Cefet/RJ, é atuar no combate e na prevenção à discriminação e à falta de representatividade feminina nas áreas tecnológicas. "Por isso, resolvemos promover a participação, o incentivo e a formação de estudantes, especialmente meninas do segundo segmento do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano) e do Ensino Médio, em conhecimentos básicos de robótica e programação. O foco é no empoderamento feminino em escolas públicas da Educação Básica na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Desde 2019, já conseguimos beneficiar cerca de 500 alunos, em 11 escolas", explica Coutinho.

Para além do ambiente da sala de aula, as ações elaboradas potencializam o desenvolvimento individual das estudantes a partir de uma proposta de aprendizagem baseada em projetos pequenos e simples de robótica.

Além de dialogar com um conhecimento técnico, há a reflexão e a potencialização de mensagens sobre o contexto do empoderamento feminino na ciência, a fim de incentivar o ingresso de meninas na área.
Projeto motiva o interesse das estudantes pelas carreiras tecnológicas, como Engenharia e Ciência da Computação, e ajuda a integrar o ecossistema de inovação e empreendedorismo do Cefet/RJ


Rafaelli Coutinho explica que durante a participação em capacitações formativas são apresentados às alunas temas relevantes como violência de gênero, assédio, relações étnico-raciais, saúde sexual e reprodutiva. "Estas temáticas são consideradas fundamentais para refletir sobre a condição das mulheres na sociedade, permitindo que as jovens confrontem suas concepções iniciais, ampliem seu repertório de informações e se posicionem de forma mais qualificada diante de situações presentes no cotidiano social", afirma.

Tecnologia aplicada ao cotidiano

Coutinho conta que, além da lixeira ultrassônica e da horta automatizada, foram elaboradas outras atividades. "Uma delas utiliza sensores para demonstrar como a tecnologia pode ser aplicada no dia a dia para garantir a saúde das plantas, evitando tanto a seca quanto o excesso de água no solo. Dentro do universo da robótica, também criamos atividades para a montagem de um carrinho ultrassônico, demonstrando como a tecnologia pode ser aplicada à mobilidade inteligente. Outra proposta foi a criação de um carrinho controlado por bluetooth", explica.

Ela ainda conta sobre uma outra iniciativa implantada que foi a criação de um ventilador. Nesse caso, o objetivo é mostrar como funcionam os circuitos elétricos simples e a conversão de energia elétrica em movimento, por meio de um motor que aciona a hélice do equipamento. "Com a implantação dessas atividades, percebemos melhorias no aprendizado e na mitigação de dificuldades relacionadas à concentração, ao pensamento analítico e ao planejamento de tarefas no cotidiano dessas jovens adolescentes", conta.

Formação e impacto social

Além de despertar o interesse das estudantes por cursos como Engenharia de Controle e Automação, Engenharia Mecânica, Engenharia de Produção, Ciência da Computação, Engenharia da Computação e Sistemas de Informação, o projeto desenvolvido no Cefet/RJ integra o ecossistema de inovação e empreendedorismo do campus.

O projeto teve origem na equipe de robótica do campus Nova Iguaçu do Cefet/RJ, a Bodetronic. E o principal objetivo foi aplicar a robótica em projetos que dialoguem com a sociedade e causem impacto social. "Completando 10 anos de existência em 2026, nosso projeto tem um exitoso histórico de financiamentos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela FAPERJ", comenta.

Atualmente, a iniciativa, que conta ainda com a participação de Carla Romão, Cristiano Carvalho, Fabrício Lopes e Silva, Thiago de Moura Prego, Laura Silva de Assis, Diego Nunes Brandão, Helga Dolorico Babi, Kele Teixeira Belloze, Carmen Lucia Asp de Queiroz, Mayara Midori Omai e do professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Ubiratam Carvalho de Paula Junior, tem o apoio de ambas as agências de fomento e, até 2027, espera expandir suas ações, levando iniciativas de inclusão, formação técnica e impacto social para além da Baixada Fluminense, chegando também à Região Serrana e à cidade do Rio de Janeiro.

"Lugar de meninas e mulheres é onde elas quiserem. Precisamos desmistificar que áreas como as das Ciências Exatas sejam uma espécie de reserva de mercado para eles (meninos e homens) e incentivar todas aquelas que também tenham interesse", conclui Rafaelli Coutinho.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data:03/06/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1032.7.0