
Discussões também abordaram os desafios da produção e da segurança de nanomedicamentos (Foto: VPPVB/Fiocruz)
Na abertura do evento, a vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB) da Fiocruz, Alda Maria da Cruz – por meio de vídeo pré-gravado –, a coordenadora-geral para Promoção do Complexo Industrial da Saúde do Ministério da Saúde, Zênia Maciel, a diretora-executiva da Fiotec, Cristiane Sedim, os coordenadores da Rede Fio-Nano, Fabio Formiga e Carlos Calzavara, e o consultor científico do Programa de Pesquisa Translacional (PPT) da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz), Wim Degrave, destacaram o papel estratégico da nanotecnologia como área capaz de impulsionar a inovação em saúde. Eles pontuaram também a importância de fortalecer novos projetos e parcerias, a captação de recursos, o papel do pesquisador como empreendedor e as tendências emergentes da nanotecnologia e da nanomedicina como áreas de vanguarda para inovação em saúde e para as políticas públicas brasileiras. A coordenação do evento coube ao PPT.
A conferência de abertura foi ministrada por Juan Manuel Irache, da Universidade de Navarra, na Espanha, que apresentou pesquisas com nanopartículas produzidas a partir da zeína, uma das proteínas extraídas dos grãos de milho. Biocompatíveis, biodegradáveis e abundantes, essas nanopartículas vêm sendo investigadas como sistemas de transporte de fármacos e como adjuvantes para imunização por mucosas, o que amplia seu potencial de aplicação em vacinas e sua relevância para a indústria farmacêutica. Os dados apresentados indicaram resultados promissores tanto para o aprimoramento de vacinas quanto para o controle glicêmico e a redução da resistência à insulina.
Nanomedicamentos e plataformas tecnológicas
As discussões também abordaram os desafios da produção e da segurança de nanomedicamentos. A pesquisadora Eder Lilia Romero, da Universidade Nacional de Quilmes, da Argentina, apresentou estratégias para simplificar a produção industrial de medicamentos por meio do uso de biomateriais inovadores. Já Diego Martinez, do Laboratório Nacional de Nanotecnologia do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, defendeu uma abordagem integrada para o desenvolvimento de nanomateriais, considerando aspectos de inovação, sustentabilidade e segurança ao longo de todo o ciclo de vida desses sistemas. Em sua apresentação, destacou a necessidade de evitar a nanopoluição e de incorporar os princípios do conceito de saúde única para promover inovação com segurança. Ele acrescentou haver ainda iniciativas importantes para a nanoagricultura e trabalhos com instituições europeias em campos como nanoinformática e inteligência artificial.
A pesquisadora Heloisa Bordallo, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, abordou aspectos do desenho de nanopartículas, estudos com células cancerosas e o papel da água nas interações entre o organismo e drogas anticâncer. Utilizando técnicas de espalhamento de nêutrons, foi possível observar que a água atua como participante ativa nos mecanismos envolvidos na ação de medicamentos e no comportamento de sistemas nanoestruturados, ampliando a compreensão sobre processos fundamentais da nanomedicina.
As discussões também concentraram-se nas aplicações farmacêuticas da nanotecnologia. Representando a Croda Pharma, empresa fornecedora de componentes químicos, Letícia Marques apresentou avanços no desenvolvimento de lipídios de alta pureza utilizados em nanopartículas lipídicas, empregadas em vacinas de RNA mensageiro, como as utilizadas contra a Covid-19. Marques comentou iniciativas de colaboração entre as universidades públicas e a indústria para o desenvolvimento de novos sistemas de entrega de medicamentos. Uma das parcerias da Croda Pharma é com a Universidade Federal do Ceará para melhorar a eficiência da encapsulação de medicamentos.
As possibilidades da nanotecnologia para o enfrentamento de doenças socialmente determinadas foram uma das ênfases da apresentação de Ariane Batista, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Coppe/UFRJ. A pesquisadora mostrou o trabalho com engenharia de nanopartículas e como as nanopartículas podem transformar abordagens terapêuticas. Ela analisou resultados obtidos com micropartículas capazes de promover a liberação prolongada de fármacos, reduzindo a necessidade de múltiplas aplicações e minimizando efeitos adversos. Entre os exemplos, citou o tratamento da leishmaniose, incluindo as formulações e os sistemas de liberação controlada do medicamento com potencial de impacto para o SUS.
Também dedicada ao desenvolvimento tecnológico, a professora Eliana Lima, da Universidade Federal de Goiás (UFG), ressaltou que a nanomedicina translacional já é uma realidade no país, mas depende da integração entre diferentes áreas do conhecimento. Segundo ela, o sucesso dessas tecnologias está associado não apenas ao medicamento, mas às nanopartículas responsáveis por protegê-lo, transportá-lo e direcioná-lo ao local de ação. Lima esclareceu que as nanopartículas não apenas protegem o medicamento no organismo, mas também contribuem para reduzir seus efeitos indesejados ao controlar sua distribuição e liberação.
Especialistas do Reino Unido, Alemanha e Brasil apresentaram avanços em nanometrologia e nanotoxicologia. Eles discutiram desde o papel das ferramentas para caracterização de nanopartículas até modelos alternativos aos testes em animais. Nesse contexto, as nanofibras sintéticas foram apontadas como uma alternativa promissora por possibilitarem a criação de modelos de tecidos humanos aplicáveis a pesquisas com intestino, pulmão, coração, córnea, ossos, pele e mucosa nasal.
Nanomedicina translacional e financiamento da pesquisa
No segundo dia, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Scripps (Estados Unidos), do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), da UFMG, da UFRGS, da Universidade de Groningen (Holanda), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e do Instituto Fraunhofer de Pesquisa em Silicatos (Alemanha) discutiram o papel das plataformas tecnológicas no aumento da precisão e da efetividade de terapias avançadas. A programação abordou temas como terapias regenerativas e o uso de nanopartículas para entrega de ácidos nucleicos, uma das estratégias promissoras para o desenvolvimento de medicamentos baseados em RNA e DNA. Também foram apresentadas inovações em bioimpressão 3D para medicamentos, uso de robôs e desenvolvimento de nanomateriais.
Além de colocar luz sobre esses temas, o simpósio abriu espaço para refletir sobre as formas de financiamento da pesquisa e as condições necessárias para consolidar a nanomedicina translacional no Brasil. O tema foi debatido em uma mesa-redonda composta por representantes de instituições responsáveis pelo financiamento, pela regulação e pelo fomento da pesquisa científica no país. Participaram da discussão Camila Moreira, da Anvisa; Silvia Fialho, da Fundação Ezequiel Dias (Funed); Monica Felts, do CNPq; Letícia Koester, da Capes; e André Daher, da VPPCB, responsável pela mediação da mesa. Os participantes destacaram a necessidade de fortalecer a cultura de acompanhamento de chamadas nacionais e internacionais voltadas para financiamento da pesquisa. Também foi reforçada a dimensão translacional do simpósio com a abertura da exposição de pôsteres, valorizando a difusão de pesquisas, de metodologias e dos resultados.
No último dia, o foco esteve nas aplicações da nanomedicina em desafios prioritários da saúde pública. Os destaques foram para a nanomedicina no combate ao câncer, com foco em terapias mais direcionadas e menos tóxicas, e o potencial da nanotecnologia para enfrentar as doenças infecciosas e as determinadas socialmente, temática de grande relevância para países da América Latina.
A diversidade das sessões científicas demonstrou que os avanços da nanotecnologia não são resultado de uma única disciplina. A área se constrói na convergência entre medicina, biologia, física, farmácia, química e engenharia. Trata-se de um campo essencialmente interdisciplinar, cujos avanços dependem da articulação entre diferentes saberes e de um esforço coletivo capaz de compreender fenômenos complexos e transformar descobertas científicas em aplicações clínicas.
Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 23/06/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/06/simposio-internacional-debate-avancos-e-desafios-da-nanotecnologia-na-saude-publica
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 23/06/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/06/simposio-internacional-debate-avancos-e-desafios-da-nanotecnologia-na-saude-publica
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