quinta-feira, 11 de junho de 2026

Pesquisa busca novo tratamento para esquistossomose

Uma pesquisa liderada pela Fiocruz, destacada na capa da revista científica internacional ACS Infectious Diseases, aponta caminhos para desenvolver novos fármacos ativos contra o verme Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose. Popularmente conhecida como “xistose", “barriga d’água” ou “doença dos caramujos”, a infecção é considerada uma doença negligenciada e está ligada à falta de saneamento.


A análise de imagens de microscopia do verme 'Schistosoma mansoni' foi um dos métodos utilizados para avaliar efeitos de compostos sobre suas formas juvenis (foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz)

No Brasil, cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas com transmissão da doença, segundo o Ministério da Saúde. No mundo, a população sob risco chega a 700 milhões, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo liderado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) investiga a atividade de moléculas derivadas do praziquantel, remédio atualmente indicado no tratamento da esquistossomose.

Em uso há cerca de 40 anos, o praziquantel é eficaz, mas o tamanho grande do tablete e o sabor amargo dificultam sua administração, especialmente para crianças. Além disso, em condições experimentais, cientistas já observaram vermes que desenvolveram resistência ao fármaco, embora casos desse tipo nunca tenham sido identificados a partir de trabalhos de campo de forma a serem considerados um problema de saúde pública.

“É importante buscar alternativas ao praziquantel. Nosso objetivo é chegar a medicamentos que possam ser otimizados do ponto de vista farmacológico, facilitando a administração e garantindo uma opção na eventualidade de resistência”, afirma o chefe do Laboratório de Bioquímica Experimental e Computacional de Fármacos do IOC/Fiocruz e primeiro autor do estudo, Floriano Paes.

Através de ensaios em laboratório e análises computacionais, os cientistas identificaram três moléculas com atividade contra o verme da esquistossomose, em níveis semelhantes ao medicamento de referência. Além disso, a pesquisa revelou uma característica inesperada, relacionada ao mecanismo de ação dos compostos, que pode orientar a criação de novos fármacos.

“Dados de diversos trabalhos indicavam que o praziquantel se liga quase perfeitamente a uma proteína do parasito, que atua como um receptor. Porém, nós observamos que este receptor tem plasticidade, ou seja, ele consegue abrir espaço para ligação com moléculas um pouco diferentes. Isso abre possibilidade de explorar novos caminhos para desenhar compostos que superem deficiências do praziquantel”, explica Floriano.

A pesquisa foi realizada em parceria com Faculdade de Medicina de Wisconsin, nos Estados Unidos; Universidade Aberystwyth, no Reino Unido; e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Desenho racional de fármacos

As oito moléculas testadas no estudo possuem estrutura química semelhante ao praziquantel com pequenas modificações realizadas pelos cientistas. Nos experimentos, três compostos se destacaram por apresentarem atividade contra os diferentes estágios do ciclo de vida do S. mansoni presentes no ser humano: vermes adultos, formas juvenis e larvas (que são chamadas de esquistossômulos).


As oito moléculas testadas no estudo possuem estrutura química semelhante ao praziquantel com pequenas modificações realizadas pelos cientistas (foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz)

Os testes também demonstraram que estas substâncias atuam de forma semelhante ao medicamento de referência, por meio da ligação à proteína do verme conhecida pela sigla TRPM. Segundo os pesquisadores, as substâncias não se mostraram mais potentes que o praziquantel contra vermes adultos, mas características observadas as tornam interessantes para otimização estrutural.

“Com base nos resultados, podemos propor modificações mais racionais na estrutura desses compostos para atuar na forma como eles se ligam ao receptor, aumentando a afinidade”, declara Floriano, acrescentando que a pesquisa também deve seguir com ensaios experimentais in vivo.

“No modelo de infecção em roedores, queremos investigar como essas moléculas se comportam no organismo em comparação ao praziquantel e verificar se é possível melhorar aspectos farmacológicos”, diz o pesquisador.



Autor: fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 11/06/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/06/pesquisa-busca-novo-tratamento-para-esquistossomose

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