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terça-feira, 29 de novembro de 2022

Efeito de antidepressivos na gravidez ainda é pouco compreendido, dizem cientistas

A depressão pode afetar até 15% das mulheres grávidas. Com a ajuda de medicamentos antidepressivos, a maioria recupera o bem-estar. Porém, ainda que o uso desses medicamentos durante a gestação seja seguro e tenha o aval da ciência, os efeitos dessas substâncias no neurodesenvolvimento ainda são pouco compreendidos e deveriam ser estudados com auxílio de tecnologias mais avançadas que permitem avaliar aspectos genômicos. A conclusão é de um grupo de cientistas brasileiros que analisou mais de uma centena de trabalhos científicos sobre a exposição pré-natal a essas substâncias, com destaque para a sertralina, o remédio mais prescrito no mundo.


Pesquisadores brasileiros sugerem testes com minicérebros para investigar o impacto desses medicamentos no neurodesenvolvimento dos bebês (foto: Astrid Pereira/Pixabay)

“A maior parte dos trabalhos que encontramos são pesquisas observacionais e estudos feitos em laboratório com culturas de células e animais, cujo desenvolvimento cerebral difere muito do que ocorre em humanos. Não oferecem dados suficientes para levar a resultados conclusivos”, afirma o neurocientista Alexandre Kihara, do Laboratório de Neurogenética da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo. “Por isso, estamos propondo um modelo experimental de ensaios com a utilização de células-tronco humanas de pluripotência induzida [hiPSC] para investigar o que acontece com as células nervosas em desenvolvimento no útero de mulheres durante o tratamento com antidepressivos”, diz a doutora em epigenética Luciana Rafagnin Marinho, também da UFABC. Ela e Kihara estão entre os principais autores de um artigo sobre o tema publicado on-line na revista Seminars in Cell & Developmental Biology e futuramente disponível na versão impressa. O estudo foi realizado com apoio da FAPESP.

As células hiPSC podem gerar organoides cerebrais ou minicérebros. Há perspectivas de que os organoides cerebrais humanos possam ser usados para investigar condições neurodegenerativas, como as doenças de Parkinson e Alzheimer, e em testes com medicamentos de ação neurológica.

“Com essas estruturas seria possível testar diferentes concentrações de medicamentos e acompanhar a evolução das células cerebrais até o terceiro trimestre de desenvolvimento”, explica o neurocientista e coautor do estudo Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia (UCSD), nos Estados Unidos. À frente de um laboratório de genética que leva seu nome, Muotri é pioneiro no desenvolvimento de organoides cerebrais e no estudo do autismo e síndromes relacionadas. “Na verdade, podemos acompanhar os organoides por até um ano. Nesse período, é possível observar aspectos do seu desenvolvimento como a morfologia e a eletrofisiologia dos neurônios individuais ou em formação de redes”, detalha o pesquisador, também cofundador de uma startup de biotecnologia no Brasil, a Tismoo.

Para exemplificar os avanços possíveis, Marinho menciona o único trabalho entre os mais de cem estudos avaliados que recorreu aos organoides celulares. “Ainda inicial, um estudo que avaliou o impacto do uso do antidepressivo paroxetina identificou diminuição do crescimento de neuritos [ramificações neuronais que permitem a aproximação com outros neurônios] e da população de oligodendrócitos, responsáveis pela produção da bainha de mielina de neurônios e, portanto, importantes para o trânsito de informações no sistema nervoso”, descreve a pesquisadora.

Os cientistas alertam também para a necessidade de empregar recursos como a análise da expressão gênica completa (transcriptoma) em célula única (single-cell RNAseq), neste caso, de um organoide. “Essa tecnologia permite conhecer o impacto da exposição a um antidepressivo sobre diferentes tipos celulares, como as células progenitoras, células da glia e neurônios”, relata Kihara. “Isso é particularmente importante porque as alterações podem não estar restritas aos neurônios. Precisamos conhecer essas implicações.”

O tema, naturalmente, exige muita cautela. “Não estamos dizendo, de maneira alguma, que não se deve usar antidepressivos na gestação. Estamos propondo um modelo experimental e ressaltando a necessidade de estudar sua ação no neurodesenvolvimento com os recursos mais avançados que temos na atualidade para, inclusive, gerenciar as potenciais alterações”, enfatiza o neurocientista Kihara.

O artigo The impact of antidepressants on human neurodevelopment: Brain organoids as experimental tools pode ser conferido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1084952122002695?via%3Dihub.




Autor: Mônica Tarantino
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 28/11/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/efeito-de-antidepressivos-na-gravidez-ainda-e-pouco-compreendido-dizem-cientistas/40152/

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Antidepressivos podem interferir na perda de peso?

mão segurando medicamentos antidepressivos, com outros ao fundo

Uma das grandes preocupações dos médicos que possuem pacientes em tratamento psiquiátrico e que estão com sobrepeso ou obesidade é a interferência da medicação, principalmente antidepressivos e antipsicóticos, no peso. Por isso, um recente estudo canadense, publicado no Obesity, visou comparar a perda de peso em pacientes que tomam alguma dessas classes de medicamentos, ou ambas, com quem não toma.

O estudo analisou mais de 17 mil pessoas inscritas em um programa de mudança de estilo de vida, supervisionado por médicos da Wharton Medical Clinic, em Ontário, no Canadá. Desses, cerca de 23% estavam em uso de pelo menos um medicamento psiquiátrico: 3457 participantes tomavam antidepressivos, 172 usavam antipsicóticos e 465, ambos.
Medicações psiquiátricas interferem na perda de peso?

Os resultados mostraram que a perda de peso entre os pacientes psiquiátricos e aqueles que não usavam nenhuma medicação do tipo foi bem parecida. Depois de 21 meses, a perda média foi de 3,4 kg (2,9% do peso corporal inicial), com os homens perdendo cerca de 1 kg a mais que as mulheres. Em resumo, cerca de 28% dos participantes do estudo perderam 5% ou mais do peso corporal inicial, e 10% perderam 10% ou mais.

Apesar de todos perderam uma quantidade significativa de peso (P <0,0001), quando foi separado por sexo, os homens tiveram uma diferença maior: aqueles que tomavam antidepressivos perderam um pouco menos de peso que os que usavam as duas classes de medicamentos ou nenhuma delas (3,2 ± 0,3 kg vs. 5,6 ± 0,9 kg e 4,3 ± 0,1 kg; P <0,05). Enquanto isso, as mulheres com uso de uma ou duas das classes de medicamentos psiquiátricos tiveram uma perda de peso semelhante às que não usavam nenhum dos medicamentos (P> 0,05).


Por ser uma preocupação comum que os fármacos antidepressivos e antipsicóticos possam interferir no peso, muitas vezes os médicos não insistem na mudança de hábito de pacientes com sobrepeso ou obesidade. Os resultados do estudo, porém, mostram que, apesar de alguns medicamentos possuírem efeitos adversos relacionados ao peso, se o paciente utilizar estratégias para perda de peso e mudanças para hábitos saudáveis, os medicamentos não possuem tanta interferência.

Assim, os profissionais de saúde não devem ter receio de encorajar esses pacientes a se envolver em programas de emagrecimento, focando sempre na importância do acompanhamento médico. Além disso, como o estudo não se aprofundou nos fármacos, na hora da escolha é importante avaliar de acordo com os efeitos, para que cada paciente possa ter o tratamento correto sem interferir tanto em outras questões da sua saúde.


Referência bibliográfica:
Wharton S, et al. Effectiveness of a Community‐Based Weight Management Program for Patients Taking Antidepressants and/or Antipsychotics. Obesity. V 27, n 9, september 2019. P 1539-1544. https://doi.org/10.1002/oby.22567


Autor: PEBMED
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 23/09/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/antidepressivos-podem-interferir-na-perda-de-peso/

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Injeções para enxaqueca têm bons resultados em estudos; especialista fala em 'salto no tratamento'





Injeções são feitas de anticorpos monoclonais. Essas drogas clonam células de defesa humana. Na imagem, estrutura tridimensional de um linfócito B (Foto: Blausen Medical - BruceBlaus)



Uma nova classe de drogas contra enxaqueca mostrou resultados promissores em dois estudos publicados nesta quinta-feira (30) no 'The New England Journal of Medicine". Desenvolvidas na forma de injeção, elas são o primeiro tratamento produzido especificamente para a prevenção da condição que, quando crônica, pode ocorrer 15 vezes ao mês, com duração de horas a dias em alguns pacientes.


Hoje, médicos usam medicamentos "emprestados" de outras condições, como o uso de anticonvulsionantes (topiramato e divalproato). Antidepressivos (amitriptilina) e medicamentos contra a hipertensão (propanolol) também pode são usados em alguns casos.



"É uma classe específica de prevenção da enxaqueca que traz uma outra perspectiva para o tratamento. Hoje, há medicamentos específicos, a classe dos triptanos, mas eles são usados para interromper a crise quando ela já ocorreu. Não são preventivos", diz Mário Peres, neurologista e professor do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e da Faculdade de Ciências da Saúde do Hospital Albert Einstein.




Mário Peres, que acompanha os estudos com a molécula, estima que uma das injeções (erenumabe) seja aprovada no primeiro semestre de 2018 no FDA (Food And Drug Administration, órgão que regula medicamentos nos Estados Unidos) e no segundo semestre pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).


Peres destaca que a principal vantagem das novas drogas é a tolerabilidade e a quase ausência de efeitos colaterais. Ele explica que medicamentos usados hoje para a prevenção podem causar perda de peso, problemas de memória (topiramato) ou ganho de peso (amitriptilina), dentre outros efeitos.




Injeção poderá ser aplicada mensalmente ou trimestralmente. Estudos ainda avaliam melhor periodicidade. (Foto: Freeimages)





O achado da molécula CGRP




As injeções foram produzidas tendo em vista um achado da ciência: pesquisas anteriores demonstraram que pacientes com enxaqueca produziam maior quantidade de uma molécula: a CGRP (sigla para 'Calcitonin gene-related peptide').


Essa molécula é formada por 37 aminoácidos e foi descoberta há 30 anos. Localizada no cromossomo 11, ela tem sua produção mediada por um gene homônimo - por isso, o nome faz alusão ao gene (algo como 'peptídeo relacionado ao gene da calcitocina').



"Todas pessoas têm essa molécula, mas ela está presente em maior quantidade em indivíduos com enxaqueca", explica Peres.




Estudo de revisão do "Physiological Review" publicado em 2014 menciona a função vasodilatadora da molécula. Ela aumenta o diâmetro de vasos sanguíneos, mecanismo que também está associado à enxaqueca. Esse alargamento do vaso, junto com outras substâncias químicas, deflagra o circuito de dor. A molécula também é conhecida por mediar outros processos de dor.


O neurologista Mário Peres cita que, hoje, há quatro laboratórios com drogas em teste visando o bloqueio da CGRP.




Como funcionam as injeções




As injeções são anticorpos monoclonais. Essa classe de medicamentos já é usada para o tratamento do câncer e tem um comportamento curioso. Pesquisadores 'clonam' um anticorpo humano, que depois é treinado para reconhecer qualquer estrutura de interesse e eliminá-la -- assim como fazem os anticorpos humanos. A estratégia ganhou o prêmio Nobel de 1984.


Cientistas, então, treinaram anticorpos para reconhecer CGRP e, então, bloquear a ação da molécula, diminuindo a dor. No "New England Journal of Medicine", os estudos testaram duas injeções: o Erenumabe e o Fremanezumabe.




1 - Resultados do erenumabe




Na pesquisa com o erenumabe, foram recrutadas 955 pessoas: 317 receberam uma injeção subcutânea de 70mg; 319 receberam 140mg do medicamento; e 319 receberam placebo (substância sem a droga).


Pacientes que receberam 140mg do medicamento relataram uma redução de 50% ou mais no número médio de dias de crises de enxaqueca por mês. Já o grupo de 70 mg relatou redução de 43,3%, e o grupo placebo relatou redução de 26,6%.



Também pacientes relataram melhora na capacidade de realizar as atividades diárias, redução da intensidade da crise e diminuição no número de medicamentos utilizados para interromper a dor.


De modo geral, pacientes toleraram o medicamento e relataram dor no local da aplicação da injeção.




2 - Resultados do fremanezumabe




Já com o fremanezumabe, cientistas recrutaram 1130 pacientes: 376 receberam o fremanezumabe trimestralmente, 379 receberam o medicamento mensalmente e 375 receberam um medicamento placebo.


Pacientes que tomaram a injeção trimestralmente relataram diminuição de 50% no número médio de crises de enxaqueca por mês. No grupo que tomou uma vez por mês, a redução foi de 41%, e no grupo placebo a redução foi de 18%.


Além de dor no local da injeção, foram observadas anormalidades de função hepática em 5 pacientes em cada grupo que recebeu o medicamento e de 3 pacientes no grupo placebo.




Autora: g1.globo
Fonte: g1.globo
Sítio Online da Publicação: g1.globo
Data de Publicação: 30/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/injecoes-para-enxaqueca-tem-bons-resultados-em-estudos-especialista-fala-em-salto-no-tratamento.ghtml