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quinta-feira, 3 de maio de 2018

Influenza: conheça os subtipos existentes e saiba como evitar a contaminação

A chegada do inverno é também o início da temporada de gripes e resfriados. Este ano a preocupação dos infectologistas é grande porque no inverno do ano passado, no hemisfério norte, houve um notório aumento dos casos de Influenza. Somente nos Estados Unidos o subtipo H3N2 infectou mais de 47 mil pessoas, causando a morte principalmente em crianças e idosos.

O Brasil já está se prevenindo para uma possível epidemia da doença. O Ministério da Saúde vem se mantendo vigilante quanto à circulação de vírus Influenza e tem informado que o país conta com uma rede de três estações-sentinela: o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e o Instituto Evandro Chagas, em Belém do Pará, que fazem exames em indivíduos infectados para descobrir quais são as cepas virais que mais circulam em cada região.

A vacina contra a Influenza já está adaptada para essa temporada e a campanha de vacinação começou, em todo território nacional, no dia 23 de abril. A meta do Governo Federal é vacinar 54 milhões de pessoas até 1º de junho e, para alcançar esse número, foram adquiridas cerca de 60 milhões de vacinas.

O público-alvo para receber as doses gratuitamente no SUS são pessoas a partir de 60 anos, crianças de seis meses a cinco anos, trabalhadores da área de saúde, professores das redes pública e privada, mulheres gestantes e puérperas, indígenas, pessoas privadas de liberdade (incluindo adolescentes cumprindo medidas socioeducativas), profissionais do sistema prisional e portadores de doenças que aumentam o risco de complicações em decorrência da Influenza. A escolha desse grupo ocorre por eles serem mais vulneráveis aos efeitos da gripe e sofrerem mais com seus sintomas e desdobramentos. A vacina é contraindicada para quem tem alergia severa a ovo.

Existem três tipos de vírus Influenza circulando no Brasil: A, B e C. O tipo C causa apenas infecções respiratórias brandas, não possui impacto na Saúde Pública e não estando relacionado com epidemias. Já os vírus da Influenza A e B são responsáveis por epidemias sazonais, sendo o vírus Influenza A responsável pelas pandemias que ocorrem de tempos em tempos. A vacina contra a gripe ofertada no Sistema Único de Saúde (SUS) protege contra as Influenzas A e B.

Confira a entrevista com o médico infectologia e chefe do Laboratório de Pesquisa em Imunização e Vigilância em Saúde do INI, José Cerbino Neto, para conhecer melhor o que são os subtipos de Influenza existentes, o possível risco de epidemia no Brasil, saber que medidas devemos adotar para evitar a contaminação pelo vírus e entender porque é fundamental se vacinar contra a doença.

Cada ano temos uma sigla diferente para o vírus da Influenza. Por que isso? São todos o mesmo vírus?


José Cerbino Neto: Na realidade o que temos são subtipos de vírus. O vírus Influenza circula todo ano com alguns subtipos predominantes. Nós temos a Influenza A, com os subtipos H1N1 e H3N2, e a Influenza B. De tempos em tempos ocorrem grandes mudanças nos vírus, como a que provocou a pandemia que ocorreu em 2009 com o H1N1, e também acontecem pequenas variações de um ano para o outro que fazem com que ele não seja tão bem reconhecido assim pelo nosso sistema imunológico, tornando a vacina do ano anterior menos eficaz.

As vacinas de 2018 já contemplam essas variações?
José Cerbino Neto: Sim. Por conta dessas variações nos vírus, as vacinas são adaptadas todo o ano. Pode ocorrer de não mudarmos a vacina porque o vírus não sofreu alteração, mas não é o caso agora. Por exemplo, tivemos de 2016 a 2017 uma mudança no subtipo do H1N1. Era o mesmo vírus que sofreu algumas pequenas variações que foram incluídas na vacina para proteger melhor contra o vírus que estava em circulação na época. Esse ano temos uma mudança no H3N2, justamente porque o vírus que circulou em 2017 no hemisfério norte já não era tão bem adaptado para a vacina. Isso fez com que tivéssemos um número maior de casos de infecção pelo H3N2, inclusive de casos graves. Esse H3N2 foi um subtipo que se comportou com maior gravidade, principalmente nas faixas etárias avançadas, trazendo um aumento de mortalidade associada a ele. Então a vacina que vamos usar esse ano contra o H3N2 já não é a mesma que foi utilizada no hemisfério norte ou a utilizada em 2017 aqui no Brasil. Ela foi modificada para casar melhor com o subtipo que está circulando atualmente.

Como são feitas essas mudanças nas vacinas?
José Cerbino Neto: Essas mudanças são definidas pela Organização Mundial de Saúde. A OMS tem uma rede de laboratórios de referência espalhados pelo mundo inteiro, e a Fiocruz é um desses laboratórios, localizado no Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Esses laboratórios vão isolando os vírus ao longo do ano e enviam para a OMS os subtipos para ela definir que cepa deve ser contemplada na vacina trivalente (H1N1, H3N2, Influenza B) e os laboratórios fabricam em cima dessa recomendação.

Isso explica o porquê a vacina não foi tão bem casada no hemisfério norte esse ano e ocorreu o aumento de casos de H3N2. Isso porque tem um tempo entre a identificação do vírus que está em circulação e a OMS informar para os laboratórios qual a cepa deve conter a vacina e os laboratórios produzirem a vacina que será utilizada no ano seguinte. Nesse intervalo de tempo o vírus pode sofrer uma mudança e já não ser exatamente o mesmo que vinha circulando antes.

Nós produzimos a vacina no Brasil?
José Cerbino Neto: Sim, essa produção fica a cargo do Instituto Butantan.

Como podemos diferenciar o H1N1 ou H3N2 de um resfriado?
José Cerbino Neto: Temos vários estudos que mostram que é uma diferenciação difícil do ponto de vista clínico. Muitas vezes o médico pensa ser Influenza e não é. O oposto também ocorre. O que usamos como principal diferencial entre resfriado e gripe é a presença da febre.

Se você parar para pensar nos últimos anos quando ficou gripado, você não teve febre. Teve outros sintomas como coriza, nariz entupido, espirrou, mas não teve febre. Você estava resfriado, não gripado, na verdade. Embora esse comportamento não seja observado em 100% dos casos, a febre ainda é o melhor marcador clínico que temos para diferenciar uma da outra. É uma das coisas, inclusive, que as pessoas confundem quando recebem a vacina e acham que ficam gripadas.

Exatamente. Essa é uma afirmação constante: “tomei a vacina e fiquei gripado”. Isso procede?
José Cerbino Neto: Não, não procede. Na verdade a vacina protege contra, no caso, três subtipos de Influenza (H1N1, H3N2, Influenza B), mas existem outros subtipos que estão circulando em menor frequência e têm outros vírus respiratórios que causam resfriado, que também estão em circulação e a vacina não protege contra eles.

Se uma pessoa vai ficar resfriada ou gripada por algum desses outros subtipos durante o ano, o mais provável é que isso ocorra logo depois de tomar a vacina, porque ela é administrada justamente antes desses vírus circularem para a pessoa ficar protegida. O que acontece é uma associação temporal. Se eu tomo a vacina e 10 ou 15 dias depois fico resfriado, eu penso que a culpa é da vacina, mas essa vacina não contém o vírus vivo. Ela pode trazer reações adversas como qualquer vacina ou medicamento, mas desenvolver a gripe não é uma das reações associadas à vacina porque ela não contém o vírus vivo. Então é impossível, biologicamente falando, uma pessoa ficar gripada porque tomou a vacina.

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil tivemos, até o começo do mês de abril de 2018, 71 casos e 12 mortes confirmadas por conta do H3N2. Como é o tratamento de uma pessoa com Influenza. Ela deve ser isolada?
José Cerbino Neto: É importante destacar que além da vacina nós temos o antiviral, que é um medicamento específico para o tratamento das pessoas gripadas. Esse antiviral tem que ser iniciado rapidamente para que ele surta efeito. O ideal é que seja iniciado nas primeiras 48 horas dos sintomas e, no máximo, até quatro dias de doença para que ele tenha realmente alguma eficácia.

No momento que você tem o sintoma respiratório deve procurar a assistência médica para que o diagnóstico seja rápido, principalmente se você tem alguns fatores de risco para as formas graves, se é idoso, uma criança muito nova, se tem alguma outra comorbidade ou doença.

A gripe começa a ser transmitida antes dos sintomas. Então, do ponto de vista de convívio social, não há uma restrição de você ter que ficar isolado em casa. Mas uma coisa importante, e issa é uma mudança cultural que precisamos reforçar, é que a criança doente não pode ir para a escola e que a pessoa gripada não pode trabalhar porque isso é o que amplia a disseminação da doença. Em um ambiente de trabalho ou na escola, a taxa de aglomeração é muito maior do que em casa. Em casa você convive com mais uma, duas ou três pessoas e no trabalho, 200 pessoas.

Culturalmente, temos aquele pensamento de que quem está gripado e quer ficar em casa está fazendo “corpo mole” para não ir trabalhar. A gente precisa mudar essa cultura. Isso tem que ser corrigido. A pessoa que está gripada não pode ir trabalhar. Não só por ele, mas pelas pessoas que ele pode estar colocando em risco. Não que ele precise ficar em isolamento, mas ele não deve frequentar locais com grandes aglomerações, principalmente locais de trabalho e escolas.

Existe algum grupo mais afetados pela Influenza?
José Cerbino Neto: O risco de infecção é igual para todo mundo, mas existem grupos que possuem o risco da forma mais grave da Influenza, como os idosos, as crianças até cinco anos, as gestantes e as pessoas com outras doenças, principalmente doenças pulmonares ou cardiovasculares.

Podemos dizer que a vacina não imuniza contra o vírus da Influenza, mas que ela minimiza os sintomas caso a pessoa venha a ficar doente?
José Cerbino Neto: Não, a vacina imuniza sim contra o vírus, mas nenhuma vacina é 100% eficaz. Em alguns casos ela não impede totalmente que você se infecte pelo vírus, mas ela reduz muito o risco, principalmente de formas graves.

Quais as medidas preventivas que podemos adotar para evitar a transmissão da doença?
José Cerbino Neto: As duas principais medidas são as lavagens das mãos e evitar o contato com as mucosas. Existem até campanhas que falam dos sete buracos da cabeça (olhos, ouvidos, narinas e boca) e se você evitar o contato com eles, não terá transmissão da Influenza por essa via, principalmente em regiões tropicais como a nossa. Existem trabalhos que mostram que aqui a transmissão pelo contato é até mais importante que a transmissão aérea.

“Ah, mas a transmissão não é respiratória? ”, a pessoa pode perguntar. Ela ocorre por gotículas respiratórias, mas não é necessariamente aérea. Por exemplo, o computador é um clássico para transmissão de gripe. Você está ali trabalhando, tosse, espirra ou fala em cima do teclado, outra pessoa vem, usa aquele teclado e como o vírus sobrevive algum tempo no ambiente, pode se infectar.
Como expliquei, em regiões tropicais isso pode ser até mais importante do que em locais mais frios. O vírus sobrevive um tempo no ambiente, mas isso varia de acordo com a umidade, a temperatura do local. etc.
Então, lavagem das mãos é importante, o uso de álcool gel também. Esse tipo de higiene é fundamental, além de se manter os ambientes sempre bem arejados.

Vamos começar a campanha de vacinação agora no Brasil. O risco é alto assim para nosso país em ter uma epidemia como a que ocorreu nos Estados Unidos?
José Cerbino Neto: Existe sim. A gente vai ter uma vacina que teoricamente está mais adaptada para esse vírus H3N2 que causou milhares de mortes nos Estados Unidos, então a expectativa é que ela funcione melhor aqui e que a gente não tenha tanto problema quanto eles tiveram no hemisfério norte.

A gente pode reforçar que a vacina está melhor adaptada ao vírus H3N2, mas como é uma situação dinâmica não temos como prever, teoricamente, qual vai ser a efetividade dela.

No Brasil, alguma região pode ser mais afetada do que a outra pelo vírus? Por exemplo, o Sul por ser mais frio, pode ser uma região mais problemática para a doença?
José Cerbino Neto: O interessante no Brasil que é um fator que dificulta o controle da Influenza, e a OMS passou a considerar isso de uns anos para cá, é que há uma diferença na epidemiologia da doença entre as regiões tropicais e temperadas. Isso foi demonstrado em diversos artigos publicados por pesquisadores, inclusive aqui da Fiocruz e do nosso grupo no INI.

Essa sazonalidade da doença muito marcada é uma característica das regiões temperadas. No hemisfério sul temos uma grande concentração de casos no inverno, no período de maior frio, e isso é um espelho do que acontece no hemisfério norte. Entretanto, na nossa região mais tropical e subtropical, que pega as regiões Norte, Nordeste, principalmente, essa sazonalidade não é tão marcante.

Não é uma questão de um número maior ou menor de casos, mas o fato de não estar tão concentrada no tempo. Estamos tendo casos no Ceará antes da vacina estar disponível, porque lá a doença não obedece essa sazonalidade como aqui no Rio de Janeiro. O Ministério da Saúde antecipou, esse ano, a vacinação em Goiás porque os casos já estavam acontecendo por lá e se analisarmos a série histórica da doença, ela segue o regime de chuvas nessa região. A Influenza não segue um regime de inverno ou verão nessas áreas.

Então a dificuldade que a gente tem no país em relação a essas áreas do norte e nordeste, principalmente, é que não se tem essa mesma distribuição de casos que encontramos nas regiões sul ou sudeste e, por conta disso, não há a vacina disponível antes do início do surgimento dos casos. Temos etapas para cumprir como identificar o vírus, fazer a proposta que vai estar na vacina, produzir a vacina e disponibilizar para a rede de saúde. Então, em algumas regiões do Brasil, e isso é valido para todas as regiões tropicais, o vírus se antecipa e começa a circular antes da vacina estar disponível. Isso acaba gerando algum problema de cobertura e, consequentemente, o aumento de casos porque as pessoas ainda não estão imunizadas.

Para encerrarmos e deixar um alerta bem claro: existe a variante do vírus da Influenza H2N3 como propagado nas redes sociais?
José Cerbino Neto: Não existe a variação H2N3 do vírus da Influenza. Isso é notícia falsa, conforme foi notificado em campanha na internet veiculada pelo Ministério da Saúde.



Autor: Antonio Fuchs
Fonte: INI/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 02/05/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/influenza-conheca-os-subtipos-existentes-e-saiba-como-evitar-contaminacao

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Gripes H2N3 e H3N2: virologista esclarece dúvidas sobre os tipos de vírus em circulação

Tradicionalmente, o inverno é tempo de gripe e de problemas respiratórios. A chegada da estação, em junho, traz com ela o aumento do número de casos de adoecimento provocados pelo vírus Influeza. Em 2018, porém, têm causado preocupação boatos que circulam nas redes sociais e apontam a entrada no Brasil de um sorotipo responsável por milhares de casos nos Estados Unidos, o H3N2, e ocorrência de óbitos associados a outro sorotipo do vírus, o H2N3.

Em nota oficial, no entanto, o Ministério da Saúde já esclareceu que não existe circulação de vírus Influenza H2N3 no Brasil. A entidade reforçou que mantém vigilância sobre as variantes de Influenza presentes no país, a partir de uma rede de unidades sentinelas, e destacou que a vacina anualmente oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) protege contra as variações mais comuns em circulação dos vírus Influenza H1N1, H3N2 e Infleunza B. A campanha de vacinação de 2018 teve início na última segunda-feira (23/4).

Em entrevista para o Portal Fiocruz, o virologista Fernando Motta, pesquisador do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), reforçou que a variante H2N3 não circula entre a população humana e explicou detalhes sobre a disseminação do vírus Infleunza A (H3N2) em nosso território.



O que é o vírus H3N2 e quais os sintomas da gripe que ele provoca?

Fernando Motta (IOC/Fiocruz): O vírus H3N2 é um dos subtipos do vírus influenza A, por isso chamamos de influenza A(H3N2). Os sintomas provocados por este vírus são os clássicos da clínica de gripe: febre alta com início agudo, cefaleia, dores articulares, constipação nasal e inflamação de garganta e tosse. Em alguns casos pode haver vômito e diarreia, sendo estas manifestações pouco frequentes e mais comuns em crianças.

Quais são as cepas de Influenza mais associadas aos casos de "gripe comum" no Brasil? O H3N2 é uma delas?

Todos os anos, as epidemias de influenza são provocadas por variantes de três vírus principais, dois do tipo A: influenza A(H1N1)pdm09 e A(H3N2), e o influenza B, que não tem subtipos. Estes são os vírus que circulam na população humana, podendo haver maior circulação de um ou de outro. O vírus H3N2 tem circulado de modo preponderante desde 2015 no Brasil e no mundo. Por ser um vírus que há décadas adaptado à população humana, ele apresenta um perfil clássico de acometimento de pessoas nos extremos de faixa etária, crianças e idosos, que podem apresentar complicações com necessidade de internação.

Então a entrada no H3N2 no Brasil não é inédita?

Na verdade, os vírus do subtipo H3N2 são bem conhecidos da população humana, em todos os países, inclusive nos EUA e no Brasil. São considerados sazonais desde a pandemia de 1968 (gripe de Hong Kong), quando foram introduzidos na população humana. Logo, são os vírus influenza mais bem adaptados, após quatro décadas de convivo com o ser humano. Não há ineditismo, nesse sentido.

Na sua visão, no que se refere à circulação desse vírus, há motivo para mais preocupação do que nos invernos anteriores?

Apesar de conhecido, a cada ano pequenas mutações podem gerar alterações nos vírus e dar origem a cepas com diferentes comportamentos. Cada epidemia deve ser acompanhada nas diferentes regiões do país. Porém não há motivo para alarmes. A rede de vigilância de Influenza do Ministério da Saúde acompanha semanalmente os casos e a evolução dos vírus de modo a estar apto a intervir no caso de uma mudança de cenário. Enquanto referência nacional em Influenza junto ao Ministério da Saúde, nosso Laboratório atua diretamente nessas atividades de monitoramento.

Então a variante em circulação do vírus H3N2 não é mais agressiva do que o normal?

Trata-se apenas de um boato. Não há qualquer evidência nesse sentido.

O vírus H3N2 poderia causar uma pandemia como a do Infleunza A (H1N1) em 2009?

O vírus H3N2 foi introduzido há décadas na população humana por um processo similar ao que ocorreu em 2009, em um evento de abrangência global – em uma pandemia. A transmissão dos dois é a mesma e o H3N2 só provocaria uma nova pandemia se ocorresse a recombinação de material genético oriundo de uma variante de influenza não humano (por exemplo, se ocorresse um rearranjo genético com amostras de influenza suínas ou aviárias).

Outro boato em circulação, desmentido pelo Ministério da Saúde, fala sobre casos associados ao Influenza H2N3 no Brasil. Esse vírus pode identificar populações humanas?

Não. Isso também não passa de boato. O vírus H2N3 é outro subtipo do vírus influenza A. No entanto, sua circulação está restrita a animais. Nunca foi identificado em humanos em nenhuma região do mundo.

Boatos como esse sempre causam medo de uma pandemia na população. Você poderia explicar como esse tipo de episódio acontece?

Novas cepas do vírus influenza que aparecem em pandemias tiveram algum tipo de rearranjo genético, a partir da mistura entre vírus. Isso pode ocorrer no processo de replicação do vírus quando um mamífero (uma pessoa ou um animal) está infectado por mais de um vírus de Influenza ao mesmo tempo: nesse caso, a célula infectada pode misturar o material genético dos vírus, dando origem a um novo vírus. Isso é diferente do processo de evolução que os vírus Influenza estão constantemente sofrendo, pequenas mutações que ocorrem naturalmente no ambiente e não são capazes de gerar um vírus com potencial pandêmico.

A vacina contra a gripe oferecida pelo SUS no Brasil imuniza contra os vírus de gripe mais comuns em circulação? O Infleunza H3N2 está entre eles?

Sim. A vacina oferecida no Sistema Único de Saúde (SUS) prevê cepas dos subtipos A(H1N1, A(H3N2) e B, ajustadas para serem as mais próximas possíveis dos vírus circulantes na população. Por isso, é importante a vacinação a cada nova campanha, para sempre se estar imunizado com o vírus mais próximo possível daqueles circulantes no país.

Quem tomou a vacina no ano passado ou nos anos anteriores deve se vacinar novamente contra a gripe?

Sim. As vacinas são atualizadas para cada epidemia, e mesmo que apenas um componente seja alterado é importante a renovar a vacinação. Outro aspecto desejado com a nova vacinação é o efeito de 'boost' provocado pela nova vacina, reforçando as defesas ativadas no ano anterior.

A campanha de vacinação é indicada para idosos acima de 60 anos, crianças entre seis meses e cinco anos, gestantes, mulheres até 45 dias após o parto, trabalhadores de saúde, povos indígenas, portadores de doenças crônicas e professores da rede pública e particular. Quem não está nesses grupos, como deve se prevenir?

A vacina pode ser tomada por toda a população salvo contra indicação médica ou alergia a componentes da vacina (a vacina é produzida em ovos). Ela é oferecida pelo Sistema Único de Saúde, gratuitamente, nos postos de saúde. Também pode ser encontrada em clínicas especializadas. Nesse caso, é importante estar atento para a validade do produto e se realmente tem a composição recomendada pela OMS para aquele ano epidêmico. Para todas as pessoas, a recomendação de prevenção é lavar constantemente as mãos com água e sabão, cobrir a boca ao tossir, evitar o contato com pessoas doentes e aglomerações.

Qual é o tratamento indicado para a gripe do H3N2?

O subtipo H3 segue a mesma recomendação preconizada para todos os influenza sazonais humanos. Acompanhamento de suporte pra casos sem complicação e sendo necessário, internação e uso de medicamento antiviral específico.


Autor: Marcelo Garcia
Fonte: Portal Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 25/04/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/gripes-h2n3-e-h3n2-virologista-esclarece-duvidas-sobre-os-tipos-de-virus-em-circulacao