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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Degelo do permafrost pode liberar bactérias e vírus

Degelo do permafrost pode liberar bactérias e vírus
O degelo rápido do permafrost no Ártico tem o potencial de liberar bactérias resistentes a antibióticos, vírus não descobertos e até mesmo resíduos radioativos de reatores nucleares e submarinos

Pela Agência Espacial Europeia*

Ao considerar as implicações do degelo do permafrost, nossas preocupações iniciais provavelmente se voltarão para a grande questão do metano sendo liberado na atmosfera e exacerbando o aquecimento global ou problemas para as comunidades locais conforme o solo e a infraestrutura se tornam instáveis. Embora isso seja ruim o suficiente, uma nova pesquisa revela que os efeitos potenciais do degelo do permafrost também podem representar sérias ameaças à saúde.

Como parte do Arctic Methane and Permafrost Challenge da ESA – NASA , uma nova pesquisa revelou que o degelo rápido do permafrost no Ártico tem o potencial de liberar bactérias resistentes a antibióticos, vírus não descobertos e até mesmo resíduos radioativos de reatores nucleares e submarinos da Guerra Fria.

O permafrost, ou terra permanentemente congelada, cobre cerca de 23 milhões de quilômetros quadrados no hemisfério norte. A maior parte do permafrost no Ártico tem até um milhão de anos – normalmente, quanto mais profundo, mais antigo.

Além de micróbios, ele abrigou uma ampla gama de compostos químicos ao longo de milênios, seja por meio de processos naturais, acidentes ou armazenamento deliberado. No entanto, com a mudança climática fazendo com que o Ártico aqueça muito mais rápido do que o resto do mundo, estima-se que até dois terços do permafrost próximo à superfície pode ser perdido até 2100.

O degelo do permafrost libera gases de efeito estufa – dióxido de carbono e metano – para a atmosfera, além de causar mudanças abruptas na paisagem.

No entanto, uma pesquisa , publicada recentemente na Nature Climate Change , descobriu que as implicações do declínio do permafrost poderiam ser muito mais difundidas – com potencial para a liberação de bactérias, vírus desconhecidos, lixo nuclear e radiação e outros produtos químicos preocupantes.


Armazenamento de riscos no permafrost ártico

O artigo descreve como o permafrost profundo, a uma profundidade de mais de três metros, é um dos poucos ambientes na Terra que não foi exposto aos antibióticos modernos. Mais de 100 microrganismos diversos no permafrost profundo da Sibéria foram considerados resistentes a antibióticos. Conforme o permafrost descongela, há potencial para que essas bactérias se misturem com a água do degelo e criem novas cepas resistentes a antibióticos.

Outro risco diz respeito aos subprodutos de combustíveis fósseis, que foram introduzidos em ambientes permafrost desde o início da revolução industrial. O Ártico também contém depósitos de metais naturais, incluindo arsênio, mercúrio e níquel, que foram extraídos por décadas e causaram grande contaminação de resíduos em dezenas de milhões de hectares.

Poluentes e produtos químicos agora banidos, como o inseticida dicloro-difenil-tricloroetano, DDT, que foram transportados para o Ártico atmosférico e com o tempo ficaram presos no permafrost, correm o risco de permear novamente a atmosfera.

Além disso, o aumento do fluxo de água significa que os poluentes podem se dispersar amplamente, danificando espécies de animais e pássaros, bem como entrando na cadeia alimentar humana.

Há também maior possibilidade de transporte de poluentes, bactérias e vírus. Mais de 1000 assentamentos, sejam de extração de recursos, projetos militares e científicos, foram criados em permafrost durante os últimos 70 anos. Isso, junto com a população local, aumenta a probabilidade de contato ou liberação acidental. Apesar das descobertas da pesquisa, ele diz que os riscos de microrganismos emergentes e produtos químicos dentro do permafrost são mal compreendidos e em grande parte não quantificados. Afirma que uma investigação mais aprofundada na área é vital para obter uma melhor compreensão dos riscos e para desenvolver estratégias de mitigação.

O autor principal da revisão, Kimberley Miner, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, disse: “Temos uma compreensão muito pequena de que tipo de extremófilos – micróbios que vivem em muitas condições diferentes por um longo tempo – têm o potencial de ressurgir. Esses são micróbios que co-evoluíram com coisas como preguiças gigantes ou mamutes, e não temos ideia do que eles poderiam fazer quando liberados em nossos ecossistemas.

“É importante entender os impactos secundários e terciários dessas mudanças em grande escala da Terra, como o degelo do permafrost. Embora alguns dos riscos associados ao degelo de até um milhão de anos de material tenham sido capturados, estamos muito longe de sermos capazes de modelar e prever exatamente quando e onde eles acontecerão. Esta pesquisa é crítica. ”

Diego Fernandez, da ESA, acrescentou: “A pesquisa conduzida como parte do Desafio de Metano Ártico e Permafrost da ESA – NASA no âmbito do nosso programa Ciência para a Sociedade é vital para compreender a ciência do Ártico em mutação. O descongelamento do permafrost claramente apresenta enormes desafios, mas são necessárias mais pesquisas. A NASA e a ESA estão unindo forças para promover a colaboração científica em todo o Atlântico para garantir o desenvolvimento de ciência e conhecimento sólidos para que os tomadores de decisão estejam armados com as informações corretas para ajudar a resolver esses problemas. ”

Referência:

Miner, K.R., D’Andrilli, J., Mackelprang, R. et al. Emergent biogeochemical risks from Arctic permafrost degradation. Nat. Clim. Chang. 11, 809–819 (2021). https://doi.org/10.1038/s41558-021-01162-y

Henrique Cortez *, tradução e edição.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2021







Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 26/10/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/10/26/degelo-do-permafrost-pode-liberar-bacterias-e-virus/

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Suco de Laranja e a Necessidade de um Mercado Sustentável de Frutas



Suco de Laranja e a Necessidade de um Mercado Sustentável de Frutas

Jose Rodrigues Filho *
Maria da Guia Rodrigues Pessoa **
Robson Rogério Pessoa Coelho ***

O Brasil e o mundo são carentes de educação alimentar e alimentos, o que fragiliza a saúde e a vida de muitos.
Como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, temos um bom percentual de brasileiros passando fome. Exportamos as frutas de boa qualidade e muitas vezes comemos o que sobra. Não estamos vivenciando um mercado sustentável, que já prejudica as gerações atuais e sem pensar nas gerações futuras.

Num mundo com possibilidades de grandes pandemias, como no momento, temos que pensar numa educação alimentar sustentável e, também, num mercado sustentável de alimentos – não este que está aí.

Pesquisa realizada na Europa recentemente mostrou que menos de 40% dos profissionais de saúde conheciam o conteúdo dos sucos de frutas. Foi mostrado que profissionais médicos tinham menos de 24 horas de treinamento em nutrição durante seus anos de estudo, quando comparado com o alto conhecimento dos que tinham formação em nutrição. A população mundial gradualmente está mudando de um sistema de saúde de cura para um modelo de cuidados, onde a educação e segurança alimentar é de fundamental importância, principalmente nas empresas produtoras de alimentos. Percebe-se, assim, o desconhecimento da grande maioria da população sobre o conteúdo dos alimentos.

Estamos vendo no momento o suco de laranja tomar as páginas de revistas científicas, mostrando sua importância para o tratamento do COVID-19 (1-2). Muitos, como eu, via no suco de laranja apenas a vitamina C. As laranjas doces chamadas cientificamente de Citrus Sinensis são ricas em hesperidina, que é um antibacteriano, anti-inflamatório e antioxidante potente. A atividade antiviral da hesperidina é sugerida para medicamentos. Este componente químico não está em todas as laranjas, mas faz parte da composição de laranjas como a pera, bahia, além das clementinas e tangerinas. Assim, um copo de suco de laranja por dia aumenta a nossa imunidade, podendo proteger nosso pulmão contra uma carga viral do coronavírus, graças a hesperidina. A natureza tem de tudo para nos proteger a um custo baixo.

Na Europa, por exemplo, todos os sucos vendidos são regularmente auditados para se averiguar a segurança e composição durante o processo de produção. Com isto fica assegurado que os sucos de laranja fabricados e vendidos nos supermercados contêm um bom teor de hesperidina, se forem 100% suco de laranja e não simplesmente bebidas açucaradas, como no passado. No Brasil já se avançou muito na fiscalização, mas muito precisa ainda ser feito, quando se observa que em muitos alimentos se esconde o conteúdo de açúcar. Chupar a laranja e comer o bagaço, que contém um elevado teor de hesperidina, é uma boa opção. Lembrar, ainda, que a casca destas laranjas é rica em hesperidina e outros componentes químicos.

Em média um copo de 150ml de suco de laranja puro oferece 67,5 mg de vitamina C, que é mais de 80% do valor de referência nutricional, recomendado diariamente para a saúde. Outros valores de referência são mencionados para o folato e potássio, mas desconhecidos da maioria dos profissionais de saúde. É possível que o consumo de suco de laranja e de hesperidina seja baixo tanto na Europa como no Brasil. Já existem muitas pesquisas realizadas mostrando os nutrientes e riqueza de outros alimentos para a saúde e tratamento de doenças, mas desconhecidas dos consumidores. O conhecimento destas informações pode ampliar em muito um mercado sustentável de frutas no Brasil.

A agroindústria no Brasil tem tudo para tornar o país um grande produtor de alimentos de qualidade, visando ser um mercado sustentável fortalecendo a boa saúde dos consumidores, que já se preocupam não só com os nutrientes alimentares, mas com aditivos químicos, agrotóxicos e açucares bastante prejudiciais à saúde. Consumir já é uma grande preocupação da geração atual e, nesta era dos micróbios, bactérias, fungos e vírus, precisamos de muitas inovações para construir uma estrutura formada de plantas, frutas e alimentos para a melhoria da saúde humana. Neste caso, a segurança e educação alimentar devem ser a prioridade urgente desta nação.

Por fim, observou-se que os consumidores conhecem muito pouco do conteúdo das frutas como produtos que oferecem um grande potencial de mercado. A inovação é um importante conceito no setor agrícola que contribui para o alcance de sustentabilidade numa perspectiva econômica, social e ambiental. As informações aqui colocadas podem ser úteis aos especialistas da indústria de frutas e stakeholders interessados em investir em inovação e desenvolvimento de produtos alimentares.

1.Haggad, Y.A et al. Is hesperidin essential for prophylaxis and treatment of COVID-19 infection? Medical Hypotheses, n.144, 2020.
2.Bellavite, P & Donzelli, A. Hesperidin and SARS-COV-2: New Light on the Healthy Function of Citrus Fruits, Antioxidants, n.9, 2020.

*Jose Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá. https://jrodriguesfilho.blogspot.com/
** Maria da Guia Rodrigues Pessoa é nutricionista, com experiência executiva em Gestão de Alimentos, Marketing e Pesquisa em Dietas Sustentáveis.
*** Robson Rogério Pessoa Coelho é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutor em Engenharia de Alimentos e experiência em Armazenamento de Alimentos.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/02/2021




Autor: Jose Rodrigues Filho
Maria da Guia Rodrigues Pessoa
Robson Rogério Pessoa Coelho
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 12/02/21
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/02/12/suco-de-laranja-e-a-necessidade-de-um-mercado-sustentavel-de-frutas/

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Vírus encontrado em porcos na China é identificado em criança no Brasil


Há uma enorme quantidade de vírus ativos no mundo que ainda não foi descrita. O que foi tratado no estudo infecta o verme Ascaris suum, que fica alojado no intestino de porcos, e foi descrito por pesquisadores brasileiros e dos Estados Unidos. O trabalho, porém, não permite concluir que ele tenha sido trazido da China para o Brasil nem que seja o agente causador da doença – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Um vírus que infecta o verme Ascaris suum, que fica alojado no intestino de porcos na China, foi encontrado no Brasil. O agente patogênico foi descoberto nas fezes de uma criança acometida de gastroenterite e descrito por pesquisadores de várias instituições brasileiras e dos Estados Unidos. O assunto foi tema de artigo publicado na revista Virus Genes.

As análises ainda não permitem concluir que o vírus em questão – denominado WLPRV/human/BRA/TO-34/201 – tenha sido trazido da China para o Brasil por alguém que comeu carne de porco infectada e nem que ele tenha sido o causador da gastroenterite.”Analisamos amostras de fezes de uma criança com diarreia cujo agente patogênico não tinha sido identificado e foi descoberto um vírus que só havia sido sequenciado anteriormente uma única vez, na China. Porém, é cedo para afirmar que o vírus tenha sido trazido da China para o Brasil. Como ele acabou de ser descrito, pode ser – e é bem provável – que, com o tempo, seja encontrado também em outros lugares. E que isso permita estabelecer uma sequência da propagação. Mas, por enquanto, não sabemos se o vírus veio da China. Tudo o que temos são duas sequências genômicas semelhantes”, explica a coordenadora do estudo, Ester Cerdeira Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMT) e professora do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

A pesquisa foi apoiada pela Fapesp por meio dos projetos Investigando a evolução de cepas animais de rotavírus infectando humanos e Metagenômica viral de dengue, Chikungunya e Zika vírus: acompanhar, explicar e prever a transmissão e distribuição espaço-temporal no Brasil. Segundo o pós-doutorando Antonio Charlys da Costa, há uma enorme quantidade de vírus ativos no mundo que ainda não foi descrita.

“Tendo em vista o número de seres eucariontes presentes na Terra, estima-se que existam aproximadamente 87 milhões de vírus para serem descritos. Atualmente, o Comitê Internacional de Taxonomia Viral (ICTV) reconhece 4.404 espécies de vírus em eucariotos – o que significa que mais de 99,99% dos vírus permanecem desconhecidos ou não classificados. Apesar de ser uma estimativa, acreditamos neste número devido à grande diversidade viral que encontramos em amostras sequenciadas até o momento”, disse Costa, bolsista de pós-doutorado no IMT com bolsa da Fapesp.

Um dos focos da pesquisa que Costa desenvolve é identificar e sequenciar vírus ainda não descritos. O estudo epidemiológico – contemplando a distribuição dos vírus, a frequência de ocorrência na população, as enfermidades associadas etc. – é algo posterior.

“O que fizemos foi investigar amostras de fezes humanas, colhidas durante a ocorrência de gastroenterites, cujos agentes patogênicos não tinham sido identificados. Encontramos inúmeros agentes presentes e agora estamos descrevendo esses achados. A metodologia utilizada é a metagenômica viral, que permite identificar qualquer agente infeccioso. Isso não quer dizer que os agentes encontrados sejam responsáveis pela gastroenterite. Mas esse levantamento permite iniciar uma correlação para estudos futuros”, explicou Sabino.

Como os vírus são o objeto do estudo, várias etapas precisam ser cumpridas durante a pesquisa. O primeiro passo é filtrar a amostra em escala micrométrica, de modo a bloquear e descartar células, parasitas, fungos e bactérias.

Mesmo assim, pedaços de DNA e RNA livres conseguem passar pelo filtro. E precisam ser eliminados. Para isso, são utilizadas nucleases – enzimas que digerem DNA e RNA. O ácido nucleico do vírus (DNA ou RNA) não é digerido, pois se encontra protegido no interior do capsídeo viral. Mas o ácido nucleico livre, sim. Depois de tudo isso, a partícula viral passa pelo processo de lise celular, destruição ou dissolução da célula causada pela rotura da membrana plasmática. Por fim, o material genético é liberado e sequenciado.

“Isso produz bilhões de sequências pequenas, que precisam ser alinhadas na tentativa de reconstruir os genomas virais. Uma vez obtidas as sequências maiores, o passo seguinte é buscar, por meio de bioinformática, algo semelhante no banco de dados – o que, em geral, demanda muito tempo de processamento e poder computacional. Sequenciamos todos os vírus possíveis nas amostras. E, depois, procuramos ver se as sequências obtidas coincidem com as de vírus conhecidos”, disse Sabino.
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Novos agentes virais

Segundo os autores da pesquisa, o principal agente viral de diarreias no Brasil costumava ser o rotavírus. Mas, à medida que as rotaviroses passaram a ser prevenidas por meio da vacinação, é possível que outros agentes virais possam estar causando as gastroenterites.

Sabino conta que pode ocorrer, por exemplo, de dois vírus não patogênicos produzirem um vírus patogênico por recombinação. Na recombinação, um pedaço de um vírus se junta a um pedaço de outro para formar um terceiro.

“Desconhecemos a etiologia de muitas doenças humanas. Para diarreias, por exemplo, em mais de 50% dos casos a causa é ignorada. Então, há muitos agentes a serem descobertos. Antes, não conseguíamos ir atrás desses agentes, porque era muito difícil e caro sequenciar. Com os sequenciadores de nova geração, ficou fácil. Mas há uma grande distância entre achar um agente e provar que ele é o causador da doença”, afirmou a pesquisadora.

Também participaram do artigo Adriana Luchs, Elcio de Souza Leal, Shirley Vasconcelos Komninakis, Flavio Augusto de Padua Milagres, Rafael Brustulin, Maria da Aparecida Rodrigues Teles, Danielle Elise Gill, Xutao Deng e Eric Delwart.

O artigo Wuhan large pig roundworm virus identified in human feces in Brazil pode ser lido na edição da Virus Genes.

José Tadeu Arantes/Agência Fapesp




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 30/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/virus-encontrado-em-porcos-na-china-e-identificado-em-crianca-no-brasil/

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Estudo mostra como vírus transmitido por mosquito se replica na célula


Pesquisadores acreditam que a febre oropouche é uma doença subnotificada, sendo muitas vezes confundida com outras transmitidas por insetos no Norte do País. Apesar de ser considerada de baixa gravidade, ainda não se sabe quais as consequências da infecção para o sistema nervoso no longo prazo – Foto: Divulgação / Ibcmed


A febre oropouche é uma doença transmitida por mosquitos, de ocorrência em regiões como o Norte do Brasil, produzindo sintomas parecidos com os da dengue. Pesquisadores da USP descreveram pela primeira vez a estratégia usada pelo vírus oropouche para se replicar dentro de células humanas. Os resultados estão em artigo com colaboradores publicado na revista PLOS Pathogens.

Como mostra o estudo, logo após invadir a célula, o patógeno “sequestra” a organela conhecida como complexo de Golgi, que se transforma em uma verdadeira fábrica de vírus. Para isso, o oropouche recruta complexos proteicos da célula hospedeira chamados ESCRT (pronuncia-se “escort”), que têm a capacidade de deformar a membrana da organela, permitindo a entrada do genoma viral.

“Essa forma de sequestro do complexo de Golgi, por meio do uso de proteínas ESCRT, nunca havia sido demonstrado para nenhum outro vírus. É uma descoberta que aponta novos alvos a serem explorados na tentativa de barrar a infecção”, disse Natalia Barbosa, doutoranda na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e primeira autora do artigo. O trabalho é coordenado por Eurico Arruda e Luis L. P. da Silva, membros do Centro de Pesquisa em Virologia da FMRP e coautores do artigo.

De acordo com Silva, muito pouco é conhecido sobre os mecanismos de replicação dos vírus da família Peribunyaviridae, à qual pertence o oropouche.

“São patógenos importantes do ponto de vista da saúde pública. No Brasil, apenas o oropouche causa doenças, mas em outras regiões do mundo também são endêmicos o vírus da encefalite de La Crosse e o Crimeia-Congo, causador de febre hemorrágica. Há também membros dessa família que causam doenças em gado”, disse.

No caso do oropouche, os sintomas são parecidos com os da dengue: dores nas articulações, na cabeça e atrás dos olhos, além de febre aguda. A diferença é que em cerca de metade dos casos ocorre uma recidiva da doença após a melhora dos sintomas.

O vírus é transmitido por um mosquito de hábitos urbanos, o Culicoides paraensis, popularmente conhecido como borrachudo ou maruim. Estima-se em mais de meio milhão os casos de infecção por oropouche em surtos ocorridos em vilarejos e cidades da Amazônia, mas ele tem aparecido também em outras regiões do País, sendo considerado por especialistas um vírus emergente.

“Certamente essa doença é subnotificada, sendo muitas vezes confundida com outras arboviroses. É considerada de baixa gravidade, mas o preocupante é que ainda não sabemos quais as possíveis consequências da infecção para o sistema nervoso no longo prazo”, disse Silva.

Em experimentos in vitro, o grupo da FMRP observou que o vírus é capaz de infectar neurônios de camundongos e hamsters. Agora tentam reproduzir o experimento com células nervosas humanas.

“Aparentemente, o oropouche é capaz de infectar diversos tipos celulares, ou seja, consegue interagir com diferentes receptores encontrados na superfície das células humanas. Mas ainda não conhecemos quais são os receptores usados por nenhum membro da família Peribunyaviridae”, disse Silva.
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Metodologia

Para desvendar os mecanismos de replicação do oropouche, os pesquisadores fizeram experimentos in vitro com uma linhagem de células HeLa, a mais antiga e a mais usada em laboratórios, derivadas de células de um tumor de colo de útero humano.

“Assim que as células são infectadas, o vírus começa a produzir proteínas que atraem os complexos ESCRT da hospedeira para a membrana externa do complexo de Golgi. Essas proteínas ESCRT então pressionam a membrana da organela em direção ao interior e levam consigo o genoma viral. Desse modo o vírus brota para dentro do complexo. O mais provável é que, após algum tempo, essa organela modificada e cheia de vírus acabe se fundindo com a membrana plasmática e liberando os patógenos para o meio extracelular”, disse Silva.

Era sabido que outros vírus são capazes de recrutar a maquinaria ESCRT para se replicar, entre eles o HIV. O patógeno causador da Aids usa essas proteínas para atravessar a membrana plasmática, que separa o meio intracelular do meio extracelular. “Mas esse mecanismo nunca havia sido descrito para a invasão do complexo de Golgi por vírus”, disse Silva.

Constituída por dobras de membranas e vesículas, essa organela tem como função primordial o processamento, armazenamento e distribuição de proteínas.

“Não sabemos ao certo qual é a consequência do sequestro do complexo de Golgi para a célula hospedeira. Mas cerca de 36 horas após serem infectadas as células HeLa morrem”, disse Silva.

Em estudo anterior, coordenado por Arruda, o grupo havia mostrado que o oropouche é capaz de produzir uma proteína – chamada NSs – que induz a célula hospedeira a entrar em um processo de morte programada conhecido como apoptose.

“Essa não é uma proteína que faz parte da estrutura do vírus e não sabemos qual é a vantagem para o patógeno em matar a célula hospedeira por apoptose, mas pode ser resultado de um mecanismo de defesa. A proteína NSs é isoladamente capaz de causar apoptose, e poderia vir a ser explorada, por exemplo, para matar células tumorais”, disse Arruda.
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Possíveis alvos

Em um dos ensaios descritos no artigo da PLOS Pathogens, os pesquisadores manipularam células HeLa para elas não mais expressarem uma importante proteína do complexo ESCRT: a Tsg101. Para isso, usaram uma técnica conhecida como RNA de interferência, que consiste em inserir na célula uma pequena molécula de RNA que impede a expressão do gene de interesse.

“Essa intervenção tornou as células HeLa mais resistentes à infecção pelo oropouche. Elas demoram mais para morrer e ficam com uma carga viral bem mais baixa. Existem drogas experimentais que inibem a Tsg101 e vamos agora testar contra o oropouche”, disse Silva.

Por se tratar de uma proteína importante para o funcionamento da célula humana normal, ponderou Silva, talvez não seja possível usar no tratamento de pacientes drogas inibidoras de Tsg101 ou de outros membros do complexo ESCRT. O risco de efeitos adversos é alto.

“Mas é possível que exista uma molécula capaz de inibir a interação do vírus com a proteína humana sem barrar a atividade de Tsg101 na célula. É algo que ainda precisa ser estudado”, disse.

Outro objetivo do grupo é investigar quais são as proteínas produzidas pelo oropouche para recrutar o complexo ESCRT. “Elas também seriam potenciais alvos a serem explorados para barrar a infecção”, disse Silva.

O artigo ESCRT machinery components are required for Orthobunyavirus particle production in Golgi compartments, de Natalia S. Barbosa, Leila R. Mendonça, Marcos V. S. Dias, Marjorie C. Pontelli, Elaine Z. M. da Silva, Miria F. Criado, Mara E. da Silva-Januário, Michael Schindler, Maria C. Jamur, Constance Oliver, Eurico Arruda e Luis L. P. da Silva, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plospathogens/article?id=10.1371/journal.ppat.1007047

Adaptado de Karina Toledo / Agência Fapesp




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 22/08/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/estudo-mostra-como-virus-transmitido-por-mosquito-se-replica-na-celula/


terça-feira, 31 de julho de 2018

Tecnologia indica qual composto inibe vírus da febre amarela

Laboratório Phenotypic Screening Platform foi reformado por meio de uma parceria com a empresa Eurofarma – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Há um ano e meio, o Brasil enfrentou um surto de febre amarela. Neste período, o grupo de pesquisa Phenotypic Screening Platform, coordenado pelo professor Lucio Freitas-Junior, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, em São Paulo, descobriu que drogas utilizadas no tratamento da hepatite C poderiam funcionar para combater o vírus causador da febre amarela.

Essa descoberta foi realizada graças à tecnologia de triagem fenotípica, conhecida como High Content Screening, na qual moléculas químicas ou fármacos já existentes são identificados como possíveis combatentes de um determinado patógeno, como vírus, parasitas ou bactérias.

De acordo Freitas-Junior, um dos órgãos mais afetados pelo vírus da febre amarela é o fígado. Por isso, os pesquisadores utilizaram as células humanas derivadas do órgão para fazer os testes e descobrir quais compostos impediriam a infecção pelo patógeno.

Em uma placa de ensaio com 384 poços foi colocada cultura de células infectadas com o vírus. Cada uma delas ainda recebeu diferentes compostos químicos com ação desconhecida contra o causador da febre amarela e, em algumas divisórias, foram colocados fármacos com atividade antiviral conhecida.

“Esses fármacos são utilizados como controle, ou seja, a análise automatizada feita pelo instrumento identifica qual dos compostos apresentou atividade semelhante ao antiviral já utilizado contra o vírus”, explica o pesquisador.Grupo de pesquisa Phenotypic Screening Platform, do ICB, onde são realizadas as análises de triagem fenotípica – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A diferenciação é feita pela máquina a partir de um software adaptado pelo grupo de pesquisa do ICB, que distingue as células humanas infectadas das não infectadas.

“A triagem fenotípica torna possível determinar de forma automatizada quais das novas substâncias teve desempenho semelhante, ou melhor ao dos fármacos conhecidos”, disse Freitas-Junior.

Ele ressalta que com essa tecnologia se economiza muito tempo para colocar uma droga no mercado. “Geralmente, são cerca de 10 anos, com a triagem, esse número reduz para três ou quatro. Reposicionamento de fármacos é uma estratégia que pode ter muito sucesso.”

Freitas-Junior ainda completa: “Quando a gente pensa em uma doença como a febre amarela, com letalidade de até 50%, dezenas de pessoas nos hospitais morrendo, essa tecnologia traz uma esperança muito grande.”

A triagem fenotípica pode ser aplicada para outras doenças humanas e de animais, como infecções por nematoides intestinais em bovinos. Giovana Cintra, uma das alunos do grupo de pesquisa, utilizou a técnica para descobrir quais compostos poderia matar um verme de vida livre muito parecido com o patógeno bovino.

“Incubamos os vermes e dois corantes diferentes indicam se ele está vivo ou morto. Após analisar qual composto é mais interessante, são feitas diversas melhorias na molécula para deixá-la mais seletiva ou mais potente”, explica Giovana.Placa de ensaio com os 384 poços para analisar a reação de compostos ao vírus da febre amarela – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Triagem fenotípica no Brasil

O pesquisador Lucio Freitas-Junior teve contato com a técnica na Coreia do Sul, onde trabalhou por oito anos com a indústria farmacêutica internacional. Em 2016, ele trouxe a triagem fenotípica para o Brasil por ver o potencial para o estudo de doenças negligenciadas, como dengue, zika, febre amarela e chikungunya.

As doenças negligenciadas são causadas por agentes infecciosos e são consideradas endêmicas, principalmente, em populações de baixa renda. Essas enfermidades também apresentam baixos investimentos, seja em pesquisas, produção de medicamentos e em seu controle.
O pesquisador Lucio Freitas Junior analisa material no laboratório – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“O Brasil é endêmico para as doenças as quais pesquiso, mas carente de pesquisa biomédica aplicada em interação com a indústria”, segundo o cientista

O grupo de pesquisa coordenado por Freitas-Junior ganhou um novo espaço para dar continuidade aos estudos com a tecnologia. No dia 28 de junho, em parceria com a Eurofarma, o ICB inaugurou olaboratório Phenotypic Screening Platform. “Não tínhamos financiamento público disponível para financiar a reforma do espaço, então precisávamos da iniciativa privada. Ter um comprometimento desses da indústria farmacêutica é fantástico.”

A parceria com a Eurofarma ocorreu por meio de um programa chamado Parceiros do ICB. Além da reforma do laboratório, o grupo de Freitas-Junior também está desenvolvendo um projeto de pesquisa de descoberta de fármacos em parceria com a mesma empresa. “Esperamos que este seja o primeiro de muitos projetos em parceria com a indústria.”




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data de Publicação: 30/07/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/universidade/tecnologia-indica-qual-composto-inibe-virus-da-febre-amarela/

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Entenda o ebola, vírus de nova epidemia na República Democrática do Congo




Imagem do vírus ebola observado em um microscópio eletrônico (Foto: Frederick Murphy/CDC via AP)

O Ministério da Saúde da República Democrática do Congo anunciou nesta terça-feira (8) uma nova epidemia da doença. Foram 21 casos de febre hemorrágica e 17 mortes. Oficialmente, a doença já havia atingido quatro pessoas em 2017.



Ebola: entenda a doença (Foto: Betta Jaworski/G1)

O que é o ebola?


Causador da febre hemorrágica, o vírus é um dos mais mortais que existem. Ele mata até 90% dos infectados e ainda não há vacina nem medicamento disponível para uso na população.


Qual é o período de incubação? E quais os sintomas?


Após um período de incubação, que pode demorar até 3 semanas, os sintomas começam: febre, dores pelo corpo, cansaço, fraqueza, dores de cabeça e de garganta, diarreia e vômitos. O quadro em geral se agrava com a ocorrência de hemorragias, que levam à falência orgânica e morte. Isso tudo em alguns dias.


Há grupos de risco? Como é o contagio?


Este vírus mortal pode acometer qualquer pessoa. Não há grupos de risco. A contaminação se dá pelo contato direto com sangue, saliva ou secreções de quem estiver contaminado. Por isso, médicos e profissionais de saúde devem tomar muito cuidado, pois ficam altamente expostos à infecção.


Quando ele foi detectado no mundo?


Ele foi registrado nos primeiros seres humanos em 1976, em Yambuku, uma aldeia na República Democrática do Congo, às margens do Rio Ebola. Desde então, mais de 20 surtos da doenças ocorreram em países da África Central e Ocidental.


O Brasil já teve algum caso de ebola?


Não. Existe o registro de um caso suspeito em novembro de 2015, mas exames descartaram a possibilidade de o paciente ter a doença.


Tem tratamento? Tem vacina?


Não há um tratamento específico. Um medicamento já foi experimentalmente utilizado, mas ainda sem comprovação científica confirmada. E também não há vacina.


Por isso, autoridades mundiais tomam todas as medidas sanitárias apropriadas para tentar isolar o trânsito de pessoas em regiões onde há epidemia do vírus.


Posso viajar para a República Democrática do Congo?


O Itamaraty recomenda que sejam evitadas viagens não-essenciais ao país. Essa recomendação leva em consideração o contexto de infraestrutura, segurança e saúde, devido às doenças.



Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 08/05/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/ebola/noticia/entenda-o-ebola-virus-de-nova-epidemia-na-republica-democratica-do-congo.ghtml

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Gripes H2N3 e H3N2: virologista esclarece dúvidas sobre os tipos de vírus em circulação

Tradicionalmente, o inverno é tempo de gripe e de problemas respiratórios. A chegada da estação, em junho, traz com ela o aumento do número de casos de adoecimento provocados pelo vírus Influeza. Em 2018, porém, têm causado preocupação boatos que circulam nas redes sociais e apontam a entrada no Brasil de um sorotipo responsável por milhares de casos nos Estados Unidos, o H3N2, e ocorrência de óbitos associados a outro sorotipo do vírus, o H2N3.

Em nota oficial, no entanto, o Ministério da Saúde já esclareceu que não existe circulação de vírus Influenza H2N3 no Brasil. A entidade reforçou que mantém vigilância sobre as variantes de Influenza presentes no país, a partir de uma rede de unidades sentinelas, e destacou que a vacina anualmente oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) protege contra as variações mais comuns em circulação dos vírus Influenza H1N1, H3N2 e Infleunza B. A campanha de vacinação de 2018 teve início na última segunda-feira (23/4).

Em entrevista para o Portal Fiocruz, o virologista Fernando Motta, pesquisador do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), reforçou que a variante H2N3 não circula entre a população humana e explicou detalhes sobre a disseminação do vírus Infleunza A (H3N2) em nosso território.



O que é o vírus H3N2 e quais os sintomas da gripe que ele provoca?

Fernando Motta (IOC/Fiocruz): O vírus H3N2 é um dos subtipos do vírus influenza A, por isso chamamos de influenza A(H3N2). Os sintomas provocados por este vírus são os clássicos da clínica de gripe: febre alta com início agudo, cefaleia, dores articulares, constipação nasal e inflamação de garganta e tosse. Em alguns casos pode haver vômito e diarreia, sendo estas manifestações pouco frequentes e mais comuns em crianças.

Quais são as cepas de Influenza mais associadas aos casos de "gripe comum" no Brasil? O H3N2 é uma delas?

Todos os anos, as epidemias de influenza são provocadas por variantes de três vírus principais, dois do tipo A: influenza A(H1N1)pdm09 e A(H3N2), e o influenza B, que não tem subtipos. Estes são os vírus que circulam na população humana, podendo haver maior circulação de um ou de outro. O vírus H3N2 tem circulado de modo preponderante desde 2015 no Brasil e no mundo. Por ser um vírus que há décadas adaptado à população humana, ele apresenta um perfil clássico de acometimento de pessoas nos extremos de faixa etária, crianças e idosos, que podem apresentar complicações com necessidade de internação.

Então a entrada no H3N2 no Brasil não é inédita?

Na verdade, os vírus do subtipo H3N2 são bem conhecidos da população humana, em todos os países, inclusive nos EUA e no Brasil. São considerados sazonais desde a pandemia de 1968 (gripe de Hong Kong), quando foram introduzidos na população humana. Logo, são os vírus influenza mais bem adaptados, após quatro décadas de convivo com o ser humano. Não há ineditismo, nesse sentido.

Na sua visão, no que se refere à circulação desse vírus, há motivo para mais preocupação do que nos invernos anteriores?

Apesar de conhecido, a cada ano pequenas mutações podem gerar alterações nos vírus e dar origem a cepas com diferentes comportamentos. Cada epidemia deve ser acompanhada nas diferentes regiões do país. Porém não há motivo para alarmes. A rede de vigilância de Influenza do Ministério da Saúde acompanha semanalmente os casos e a evolução dos vírus de modo a estar apto a intervir no caso de uma mudança de cenário. Enquanto referência nacional em Influenza junto ao Ministério da Saúde, nosso Laboratório atua diretamente nessas atividades de monitoramento.

Então a variante em circulação do vírus H3N2 não é mais agressiva do que o normal?

Trata-se apenas de um boato. Não há qualquer evidência nesse sentido.

O vírus H3N2 poderia causar uma pandemia como a do Infleunza A (H1N1) em 2009?

O vírus H3N2 foi introduzido há décadas na população humana por um processo similar ao que ocorreu em 2009, em um evento de abrangência global – em uma pandemia. A transmissão dos dois é a mesma e o H3N2 só provocaria uma nova pandemia se ocorresse a recombinação de material genético oriundo de uma variante de influenza não humano (por exemplo, se ocorresse um rearranjo genético com amostras de influenza suínas ou aviárias).

Outro boato em circulação, desmentido pelo Ministério da Saúde, fala sobre casos associados ao Influenza H2N3 no Brasil. Esse vírus pode identificar populações humanas?

Não. Isso também não passa de boato. O vírus H2N3 é outro subtipo do vírus influenza A. No entanto, sua circulação está restrita a animais. Nunca foi identificado em humanos em nenhuma região do mundo.

Boatos como esse sempre causam medo de uma pandemia na população. Você poderia explicar como esse tipo de episódio acontece?

Novas cepas do vírus influenza que aparecem em pandemias tiveram algum tipo de rearranjo genético, a partir da mistura entre vírus. Isso pode ocorrer no processo de replicação do vírus quando um mamífero (uma pessoa ou um animal) está infectado por mais de um vírus de Influenza ao mesmo tempo: nesse caso, a célula infectada pode misturar o material genético dos vírus, dando origem a um novo vírus. Isso é diferente do processo de evolução que os vírus Influenza estão constantemente sofrendo, pequenas mutações que ocorrem naturalmente no ambiente e não são capazes de gerar um vírus com potencial pandêmico.

A vacina contra a gripe oferecida pelo SUS no Brasil imuniza contra os vírus de gripe mais comuns em circulação? O Infleunza H3N2 está entre eles?

Sim. A vacina oferecida no Sistema Único de Saúde (SUS) prevê cepas dos subtipos A(H1N1, A(H3N2) e B, ajustadas para serem as mais próximas possíveis dos vírus circulantes na população. Por isso, é importante a vacinação a cada nova campanha, para sempre se estar imunizado com o vírus mais próximo possível daqueles circulantes no país.

Quem tomou a vacina no ano passado ou nos anos anteriores deve se vacinar novamente contra a gripe?

Sim. As vacinas são atualizadas para cada epidemia, e mesmo que apenas um componente seja alterado é importante a renovar a vacinação. Outro aspecto desejado com a nova vacinação é o efeito de 'boost' provocado pela nova vacina, reforçando as defesas ativadas no ano anterior.

A campanha de vacinação é indicada para idosos acima de 60 anos, crianças entre seis meses e cinco anos, gestantes, mulheres até 45 dias após o parto, trabalhadores de saúde, povos indígenas, portadores de doenças crônicas e professores da rede pública e particular. Quem não está nesses grupos, como deve se prevenir?

A vacina pode ser tomada por toda a população salvo contra indicação médica ou alergia a componentes da vacina (a vacina é produzida em ovos). Ela é oferecida pelo Sistema Único de Saúde, gratuitamente, nos postos de saúde. Também pode ser encontrada em clínicas especializadas. Nesse caso, é importante estar atento para a validade do produto e se realmente tem a composição recomendada pela OMS para aquele ano epidêmico. Para todas as pessoas, a recomendação de prevenção é lavar constantemente as mãos com água e sabão, cobrir a boca ao tossir, evitar o contato com pessoas doentes e aglomerações.

Qual é o tratamento indicado para a gripe do H3N2?

O subtipo H3 segue a mesma recomendação preconizada para todos os influenza sazonais humanos. Acompanhamento de suporte pra casos sem complicação e sendo necessário, internação e uso de medicamento antiviral específico.


Autor: Marcelo Garcia
Fonte: Portal Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 25/04/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/gripes-h2n3-e-h3n2-virologista-esclarece-duvidas-sobre-os-tipos-de-virus-em-circulacao

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Pesquisadores da UFMG descobrem o maior vírus do mundo




Descoberto por pesquisadores da UFMG, maior vírus do mundo é brasileiro
O maior vírus do mundo foi descoberto por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Chamado de tupanvirus, ele não faz mal a seres humanos e pode, no futuro, ajudar a diagnosticar várias doenças.


Amostras de sedimentos da Bacia de Campos, no Rio de Janeiro e de lagoas salinas no Pantanal, em Mato Grosso do Sul, foram analisadas em laboratório.


“A gente nunca imaginava que pudesse ser tão diferente, que pudesse ser tão grandioso o vírus que a gente conseguiu isolar. Então, assim, foi sensacional ver pela primeira vez aquele vírus todo diferente, com uma cauda, que nunca tinha sido descrito, daquele tamanho”, disse a pesquisadora Thalita Arantes.


Os supervírus são os maiores já encontrados no planeta. São dois muito semelhantes e que parecem microfones peludos. A descoberta foi publicada na revista científica britânica Nature Communications.


“Quando nós fizemos o sequenciamento completo, nós percebemos que, além da estrutura, que já era fantástica, o genoma era fantástico. Codificava genes nunca vistos antes no planeta. E cerca de 30% dos genes eram completamente novos”, disse o professor Jônatas Abrahão, professor pesquisador da UFMG.


Segundo os pesquisadores, os novos vírus chegam a ser 50 vezes maiores que os comuns. Os da dengue, zika e febre amarela são pequenininhos como uma cabeça de alfinete. Depois de três anos de estudo, a equipe descobriu que esses gigantes têm carga genética complexa, o que é de grande interesse científico.


Os supervírus são capazes de produzir proteínas, elementos biológicos bastante usados na identificação de doenças. Esse é o próximo passo da pesquisa do tupan.


“A produção de proteínas é importante pra uma série de testes de diagnóstico pra doenças infecciosas. Então, alguns testes por exemplo pra detecção de anticorpos em pacientes que já tiveram dengue, já tiveram zika ou até mesmo febre amarela muitos são baseados na presença de proteínas”, explicou o professor Jônatas Abrahão.


Os pesquisadores alertam que ninguém precisa ter medo do vírus gigante. Já está comprovado que ele não infecta seres humanos, e é uma grande conquista para a ciência.




Autor: Bom Dia Minas, Belo Horizonte
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 12/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/pesquisadores-da-ufmg-descobrem-o-maior-virus-do-mundo.ghtml

sexta-feira, 23 de março de 2018

Vacina contra o vírus zika será testada em Minas Gerais

Pesquisadores do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade George Washington (EUA) e da Fiocruz Minas estão participando de um grande estudo clínico de fase 2/2b de uma vacina experimental contra a infecção pelo vírus zika, em Belo Horizonte. Feita com parte do material genético do vírus, a vacina poderá produzir anticorpos capazes de promover uma resposta contra a infecção num indivíduo que é imunizado.




A partir da esquerda, o imunologista Jeffrey Berthony, pesquisador da Fiocruz Minas e da George Washington (GWU), a infectologista Flávia Ribeiro, pesquisadora do Centro de Pesquisas do Hospital das Clínicas, e o infectologista David Diemert, professor da GWU (Foto: Fiocruz Minas)

Chamada de “vacina de DNA contra zika”, a substância experimental já foi testada em seres humanos nos EUA, e o estudo clínico foi aprovado pelos comitês de ética e agências regulatórias nacionais e internacionais. Agora, será avaliada numa população expandida com a finalidade de estudar novos dados sobre a sua eficácia e segurança. Para essa nova fase, serão recrutados voluntários sadios, entre 15 e 35 anos, que morem em Belo Horizonte ou Região Metropolitana e que tenham disponibilidade para participar do estudo pelos próximos dois anos.

Os voluntários serão selecionados após a realização de uma avaliação clínica e de exames laboratoriais que serão oferecidos gratuitamente pela equipe do Hospital das Clínicas. Já a Fiocruz Minas ficará responsável pelo processamento do sangue e urina de todos os participantes da pesquisa, que serão testados para avaliar a eficácia, a resposta imune, e os efeitos da vacina no organismo.

“Faremos o processamento e armazenamento dos amostras dos participantes. Um dos objetivos do estudo é verificar se a vacina induz anticorpos que protejam contra o vírus zika”, explica o pesquisador e coordenador do estudo na Fiocruz Minas, Rodrigo Corrêa Oliveira.

Para se tornarem aptos a realizar o processamento das amostras, profissionais do Grupo de Imunologia Molecular e Celular da Fiocruz Minas passaram por um treinamento rigoroso e receberam um certificado internacional, habilitando-lhes a realizar esse tipo de trabalho. “É uma atividade que envolve uma série de protocolos a serem seguidos e, por isso, requer todo um preparo. No Brasil, pouquíssimas pessoas estão autorizadas a desenvolver esse tipo de processamento de amostras”, afirma o pesquisador Jeffrey Michael Bethony, da Universidade de George Washington, que há cerca de 15 anos desenvolve projetos em parceria com a Fiocruz Minas como pesquisador visitante.

O estudo é liderado pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas do National Institutes of Health (NIH), organização do governo americano. Em Minas Gerais, a pesquisa está sob coordenação da infectologista Flávia Ribeiro, pesquisadora-chefe e coordenadora-técnica do Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG. Informações adicionais sobre o vírus zika e a pesquisa clínica poderão ser obtidas por meio do telefone 0800 035 66 35 ou pelo email vacinazikabh@gmail.com.

A doença

A zika é uma doença viral aguda, transmitida principalmente por mosquitos, tais como Aedes aegypti. Entre os sintomas podem estar erupção cutânea, acompanhada de coceira intensa, bem como febre intermitente, hiperemia conjuntival não purulenta e sem prurido (olhos vermelhos e lacrimejantes), dor nas articulações, dor muscular e dor de cabeça. A doença apresenta evolução benigna, e os sintomas geralmente desaparecem espontaneamente após três a sete dias.

Entretanto, embora a infecção pelo vírus zika possa passar sem causar grandes transtornos, os casos confirmados de microcefalia indicam que as mães foram infectadas pelo vírus nos primeiros meses de gravidez. A criança é considerada portadora de microcefalia, quando seu perímetro cefálico é menor do que 32 cm. Estudos indicam também uma ligação entre o zika e a Síndrome de Guillain-Barré, doença autoimune que provoca fraqueza muscular e paralisia que, nos casos mais graves, pode colocar a vida do paciente em risco.

Ainda não há cura ou vacina para prevenir a infecção pelo zika. A principal medida de prevenção, atualmente, é o controle dos mosquitos transmissores.


Autor: Keila Maia
Fonte: Fiocruz MG
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 22/03/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/vacina-contra-o-virus-zika-sera-testada-em-minas-gerais

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Projeto busca vírus que possam causar pandemias globais

A revista Science publicou, nesta sexta-feira (23/2), artigo que descreve o Projeto Viroma Global (PVG), iniciativa internacional que propõe uma estratégia absolutamente diversa da que tem sido adotada ao combate dos riscos virais. O objetivo do PVG é identificar e caracterizar os vírus com potencial de risco, gerando conhecimento que possibilite prever as próximas epidemias e mitigar seus danos. O projeto se baseia na estimativa de que há aproximadamente 1,6 milhão de vírus desconhecidos no mundo, entre eles, de 600 a 800 mil deles podem infectar o homem. Os cientistas do PVG querem saber quem são eles e qual caminho podem seguir. Para isso, pretendem caracterizar os patógenos emergentes, identificar práticas e comportamentos que levam a propagação e ampliação da doença e propor conjunto de medidas para caso de emergências.

A proposta, embora audaciosa, está sustentada em evidências robustas coletadas pelo Predict – um projeto piloto, conduzido pela Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional (USAIDS) com foco no fortalecimento de competências e estruturas laboratoriais para detectar e prever pandemias a partir de vírus que são transmitidos da relação entre animais e humanos. Para alcançar seu objetivo, o PVG pretende ampliar e fortalecer laboratórios de virologia existentes e criar uma base de dados de larga escala em ecologia e genética de vírus de alto risco propondo transformar a ciência básica em virologia em uma área de conhecimento baseada em big data.

O Predict, em oito anos, com U$ 170 milhões e mais de 30 países parceiros, conseguiu coletar aproximadamente 250 mil amostras de mais de 90 mil origens e identificou aproximadamente mil novos vírus. Capacitou mais de 4 mil profissionais e tem 50 laboratórios em plena atividade. Os números demonstram o acerto na abordagem OneHealth, que considera a intrínseca relação entre a população, animais e o meio ambiente para o mapeamento de vírus que representam perigo para a saúde.

De fato, 75% dos patógenos emergentes é transmitido por animais. De acordo com o artigo publicado na Science, o PVG estima que a maioria da diversidade viral de nossos reservatórios zoonóticos podem ser descobertos, caracterizados e avaliados em um prazo de dez anos. De acordo com o artigo, a iniciativa dependerá da adoção de tecnologias de ponta para sequenciamento além da colaboração entre virologistas, epidemiologistas e modeladores, novas estratégias para avaliar as relações entre vírus e hospedeiros, e conhecimento nas áreas de biologia evolutiva, modelagem de biodiversidade, veterinária, entre outras.

O Brasil faz parte dessa iniciativa. O coordenador do Centro de Desenvolvimento de Tecnologias em Saúde (CDTS/Fiocruz), Carlos Morel, é co-autor do artigo da Science e participa da governança do projeto ao lado do diretor da Unidade de Desenvolvimento e Segurança da Saúde Global da Agência Americana para Ajuda Internacional, Dennis Carroll. O Brasil é um hotspot para pesquisas e coleta de amostras dada a alta probabilidade de extrapolação dos vírus de seus reservatórios para o ser humano. Além disso, o país tem cientistas com importantes contribuições para a compreensão e prevenção de doenças emergentes virais, como o especialista em virologia do CDTS Thiago Moreno, que a partir do sequenciamento e análise do comportamento do vírus da zika identificou a trajetória da epidemia e testa medicamentos já aprovados para tratar a doença e evitar que a transmissão do vírus para o feto. O Brasil tem biodiversidade, liderança, ciência e experiência em alianças internacionais.

Os organizadores do PVG estão estabelecendo um desenho de gestão transparente e com participação equitativa de cada país envolvido. Questões éticas, sociais, legais pautam as atividades científicas. Na prática, isso representa um esforço para construir protocolos de acesso a biodiversidade e patrimônio genético em conformidade com Protocolo de Nagoya e as regras dos países envolvidos, acordos para o compartilhamento de amostras, dados e potenciais benefícios na hipótese de desenvolvimento e comercialização de produtos e serviços, além de políticas de proteção da propriedade intelectual e compliance que estabelecem, de antemão, os valores e princípios que os parceiros devem observar, garantindo a proteção das populações e o meio ambiente e a primazia do interesse público e o bem comum. A estratégia de vigilância orientada e baseada no risco, voltada para a detecção de vírus no seu ambiente natural pode conduzir a intervenções eficientes antes do contágio de pessoas ou animais alimentares.

O custo da empreitada foi avaliado em US$ 1,2 bilhão, para aumentar a capacidade de identificação de patógenos, fortalecer capacidades e laboratórios existentes, colher dados e gerar conhecimento. Entre os benefícios, mais conhecimento pode oferecer respostas mais eficientes e rápidas aos surtos, nortear o desenvolvimento e aprimoramento de diagnósticos, medicamentos e vacinas. Entendendo como o vírus se comporta, é possível, inclusive, evitar que se espalhe e criar consciência global e regional e informar políticas para evitar ou mitigar a disseminação dos vírus.

Para fins de comparação, um recente estudo na área da economia da saúde avaliou que o Brasil gastou R$ 2,3 bilhões com dengue, chikungunya e zika, apenas em 2016. Considerado conservador pelos próprios autores, o estudo calculou custos diretos, como atendimento e medicamentos e ausência no trabalho, e indiretos, como o combate ao mosquito vetor, mas excluiu, por exemplo, despesas com tratamento da microcefalia e anos de vida perdidos. Pode-se dizer que o Brasil pagou o preço alto pela inação.

O Boletim Epidemiológico 3/2018 do Ministério da Saúde divulgou que mais de 3 mil crianças nasceram com malformação em virtude do vírus zika entre os anos de 2015 e 2017. Por malformação compreende-se microcefalia, comprometimento do sistema nervoso central, epilepsia, deficiências auditivas e visuais, dificuldade de desenvolvimento psicomotor, além de prejuízos nos ossos e articulações. Entre mais de 15 mil notificações de suspeitas de zika, 507 crianças morreram, desconsiderando abortos e natimortos.

Esse número ganha corpo com a história de Henrique, de 2 anos. Diagnosticado com microcefalia causada pela zika, tem dificuldades de se manter de pé, sentar ou sustentar a cabeça. Pouco fala e mal enxerga. As atividades de fisioterapia, fonoaudiologia, estimulação visual e terapia ocupacional que o menino faz desde o nascimento não têm promovido melhoras expressivas e a mãe de Henrique, apesar da esperança, pouco sabe sobre seu futuro.

Cientistas vêm descobrindo e descrevendo os efeitos das epidemias virais na medida em que seus danos ocorrem. Do mesmo modo que autoridades administrativas na área da saúde tomam decisões no auge dessas emergências. A fragilidade das ações em saúde pública que reagem a propagação de vírus novos e reemergentes não é exclusividade do Brasil. Agora mesmo, assistimos os EUA definindo como lidar com o H3N2, um tipo de influenza A, no meio da crise.

Há muito ainda para ser desenvolvido em termos de tecnologias para diagnósticos e tratamentos. Medicamentos e vacinas levam de 10 a 20 para seu desenvolvimento completo. É um processo longo, complexo, custoso e de alto risco. Por outro lado, aproximadamente três novas doenças virais surgem a cada ano. De acordo com o Ministério da Saúde, em apenas dois anos o número de mortos pelo chikungunya subiu de 14 (2015) para 173 pessoas (2017).

As tecnologias disponíveis não dão conta dos efeitos causados pelas doenças virais emergentes, seja porque pensadas para um grupo limitado de pacientes ou por falta de capacidade de produção e distribuição que garanta o acesso imediato de alto volume de tratamento ou vacinas. O vírus H1N1, por exemplo, foi detectado em 2009 e infectou quase 2 bilhões de pessoas em 73 países. Nesse mesmo prazo, como resposta sanitária, apenas 17% da população global foi imunizada.

Pensar em política públicas de saúde e desenvolver medidas de reparação após a dispersão do vírus expõe a população a danos trágicos, como os de Henrique. Estudos recentes estimam que o mundo conhece apenas 1% dos vírus que podem causar doenças. Mudanças demográficas e ambientais, além do mercado global e trânsito internacional de pessoas, contribuem para o aumento e propagação de vírus novos e reemergentes, como HIV, ebola, Mers, síndrome respiratória aguda grave (SARS), dengue, chikungunya, zika etc.

Detecção precoce é elemento imprescindível para combater as doenças virais emergentes. Nossa capacidade de lidar com as próximas epidemias está limitada pelo desconhecimento sobre essas ameaças. O PVG pretende abastecer a comunidade global com informações necessárias para detectar, prevenir e agir de maneira proativa às epidemias emergentes, mitigando o risco de futuras epidemias reduzindo o impacto das doenças como a zika, que afetou Henrique e sua família. Se o objetivo for alcançado, o preço é insignificante.

Autor: Renata Curl Hauegen
Fonte: CDTS/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 23/02/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/projeto-busca-virus-que-possam-causar-pandemias-globais

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Vírus da febre amarela é detectado em urina e sêmen quase um mês após a infecção


Constatação sugere que período de transmissibilidade do vírus pode ser maior do que se imaginava, aponta estudo feito por pesquisadores da USP, dos institutos Butantan e de Infectologia Emílio Ribas e da PUC-SP (foto: Erskine Palmer / CDC)

A presença do vírus da febre amarela em amostras de urina e de sêmen de um paciente que sobreviveu à doença foi detectada quase um mês após ele ter sido infectado. A descoberta foi feita por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), em colaboração com colegas dos institutos Butantan, de Infectologia Emílio Ribas e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A constatação, feita no âmbito de projetos realizados com apoio da FAPESP, foi descrita em um artigo publicado na revista Emerging Infectious Diseases, do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), agência de proteção à saúde do governo dos Estados Unidos.

“Essa detecção é bastante preocupante porque sugere, primeiramente, que o período de transmissibilidade [contágio] do vírus da febre amarela pode ser mais extenso do que o esperado em uma infecção aguda [com duração de, no máximo, 10 dias]”, disse Paolo Zanotto, professor do ICB-USP e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.

Segundo o conceito atual, o período de transmissibilidade da febre amarela inicia-se entre 24 e 48 horas antes do aparecimento dos primeiros sintomas e vai até três a sete dias após o início da manifestação da doença. Na maioria dos casos, os sintomas desaparecem após três ou quatro dias.

Um baixo percentual de pessoas infectadas entra em uma segunda fase mais tóxica no espaço de 24 horas após a recuperação dos sintomas iniciais, e metade delas morre em um período de sete a 10 dias.

Os pesquisadores acompanharam um paciente de 65 anos natural de São Paulo e que não entrou na fase tóxica da doença. Detectaram a presença de RNA (material genético) do vírus em quantidade significativa em amostras de urina e do sêmen 15 e 25 dias após o surgimento dos sintomas iniciais de febre amarela.

O genoma do vírus isolado da amostra de urina do paciente foi sequenciado. A análise do sequenciamento apontou que o vírus se agrupou a genótipos isolados na América do Sul, incluindo dois isolados em 2017 no Espírito Santo.

“Em um trabalho feito em colaboração com o grupo do professor Edison Durigon [do ICB-USP], já tínhamos identificado a presença dos vírus da dengue e de Zika na urina de pacientes infectados e, no caso do Zika, também no sêmen. Por isso, decidiu-se verificar se isso também ocorria com o vírus da febre amarela”, disse Zanotto.

“Essa descoberta, agora, sugere que o vírus da febre amarela também é um arbovírus [vírus transmitidos por vetores artrópodes hematófagos, que têm como hospedeiros animais vertebrados, como macacos e o homem] com capacidade de ser excretado pelo sistema urinário”, disse.

Os pesquisadores ainda não sabem quais podem ser as implicações da presença do vírus da febre amarela em amostras de urina e sêmen, além de com que frequência e por quanto tempo ele persiste nesses materiais biológicos, uma vez que analisaram um único paciente.

No caso do Zika, estudos anteriores, conduzidos em colaboração pelos grupos de Durigon e de Zanotto, mostraram que o vírus permanece no sêmen de pacientes durante meses e, depois, começa a decair lentamente. Além disso, também se confirmou que o vírus pode ser transmitido sexualmente.

“Ainda não temos uma boa amostragem para determinar por quanto tempo o vírus da febre amarela pode ser detectado na urina e no sêmen. Mas nossa estimativa, feita com base no acompanhamento do paciente que avaliamos durante um período de 21 dias após a observação dos sintomas iniciais da doença, é de que o vírus pode ser detectado nesses materiais biológicos pelo menos quase um mês após a infecção”, disse Zanotto.

Melhoria do diagnóstico

Na avaliação dos pesquisadores, os testes da presença do vírus da febre amarela, principalmente em amostras de urina de pacientes com suspeita de terem sido infectados, podem facilitar e melhorar o diagnóstico da doença.

Hoje, a confirmação clínica da infecção por febre amarela na fase precoce é baseada na detecção de RNA do vírus no sangue por sorologia, pela técnica de PCR de transcrição reversa (RT-PCR) ou pelo ensaio de imunoabsorção enzimática (ELISA, na sigla em inglês) – um teste que permite a detecção no plasma sanguíneo de anticorpos específicos, como a imunoglobulina M (IgM), que o organismo produz quando entra em contato com algum tipo de microrganismo invasor.

Esses testes são realizados geralmente quando pacientes com suspeita de terem sido infectados chegam aos hospitais. Mais de 50% dos infectados pelo vírus da febre amarela, porém, não apresentam sintomas da doença, como febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça e muscular, além de náuseas e vômitos.

“As pessoas que têm sido hospitalizadas são as que apresentam os sintomas da doença. Esses casos graves representam apenas a ponta do iceberg do problema da infecção por febre amarela no país, uma vez que grande parte dos infectados é assintomática”, disse Zanotto.

Eventualmente, a detecção do vírus por amostras de urina pode facilitar e agilizar o diagnóstico desses pacientes assintomáticos, principalmente em locais onde foram registradas mortes por febre amarela, indicaram os pesquisadores.

Os testes de diagnóstico de febre amarela em urina e sêmen também podem contribuir para reduzir os resultados falso-negativos e fortalecer a confiabilidade dos dados epidemiológicos durante surtos da doença, como o que ocorre atualmente em São Paulo e Minas Gerais, apontaram os pesquisadores.

“A detecção de vírus em amostras de urina já tem sido utilizada para confirmar infecções por outros flavivírus, como o vírus do Nilo Ocidental, o vírus Zika e o da dengue. No caso do vírus da dengue, esse método ainda não deve se tornar padrão, porque até agora não sabemos certamente quantas pessoas infectadas, de fato, apresentam o vírus na urina. Mas isso precisa ser estudado”, apontou.

Por não ser invasiva, como o diagnóstico sanguíneo, a detecção do vírus da febre amarela na urina tem se mostrado útil e já está sendo integrada na rotina de vários grupos de pesquisadores envolvidos no estudo do surto atual da doença em São Paulo, segundo Zanotto.

Transmissão urbana

Os pesquisadores do ICB-USP, em colaboração com o professor Amaro Nunes Duarte Neto e vários outros pesquisadores do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP – liderados pelo professor Paulo Saldiva – estão verificando a presença do vírus da febre amarela em material de necrópsias, como diversos tecidos celulares, de pacientes diagnosticados com febre amarela que entraram na fase tóxica da doença.

As análises preliminares desses materiais indicam a presença do vírus em quantidades significativas em diferentes órgãos, inclusive no cérebro.

“Estamos encontrando o vírus praticamente em todas as amostras geradas pelo professor Duarte Neto de órgãos desses pacientes infectados que não resistiram à doença. Vários testes de identificação viral em órgãos estão sendo replicados no Instituto Adolfo Lutz, no Departamento de Gastroentrologia da Faculdade de Medicina da USP e no ICB para que se tenha maior confiança nos resultados” contou Zanotto.

Com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), os pesquisadores do ICB-USP estão sequenciando e tentando isolar o vírus para estudar in vitro a variabilidade viral nos diferentes tecidos e analisar o que eventuais diferenças possam significar em termos de comportamento e capacidade de infecção em células humanas e vetores.

“Em colaboração com o grupo do professor João Renato Rebello Pinho, do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP, estamos comparando a diversidade viral entre pacientes que vieram a óbito e os que se recuperaram”, disse Zanotto.

“Devido, inclusive, a observações feitas pelos pesquisadores do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, precisamos verificar se o vírus que circula em São Paulo é o mesmo ou é uma variante do que identificamos na urina e no sêmen do paciente que estudamos e que sobreviveu à doença, que é um vírus que causou um surto em Minas Gerais, veio para São Paulo e que agora está em volta da cidade”, disse Zanotto.

Esta semana os pesquisadores também devem iniciar pesquisas de campo, junto com equipes de outras unidades da USP, os grupos do pesquisador Renato de Souza, da Unidade de Arbovirologia do Instituto Lutz, e da pesquisadora Margareth Capurro, do Departamento de Parasitologia do ICB-USP, com o objetivo de verificar se tem ocorrido a transmissão urbana do vírus da febre amarela – por meio do mosquito Aedes aegypti – em São Paulo.

“Apesar da situação que temos vivido, com um grande número de casos de infecção na capital, ainda não temos evidência concreta e inequívoca de que tem ocorrido transmissão urbana da doença”, disse Zanotto. “Essa é uma informação crucial para poder avaliar possíveis estratégias de resposta ao vírus, inclusive estratégias de vacinação. Tentaremos obter essas respostas nas próximas semanas.”

O artigo Yellow fever vírus DNA in urine and semen of convalescent patient, Brazil (doi: 10.3201/eid2401.171310), de Carla M. Barbosa, Nicholas Di Paola, Marielton P. Cunha, Mônica J. Rodrigues-Jesus, Danielle B. Araujo, Vanessa B. Silveira, Fabyano B. Leal, Flávio S. Mesquita, Viviane F. Botosso, Paolo M.A. Zanotto, Edison L. Durigon, Marcos V. Silva e Danielle B.L. Oliveira, pode ser lido em wwwnc.cdc.gov/eid/article/24/1/17-1310_article.

Autor: Elton Alisson
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 08/02/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/virus_da_febre_amarela_e_detectado_em_urina_e_semen_quase_um_mes_apos_a_infeccao/27111/

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Vacinas para vírus emergentes

Vacinas para vírus emergentes

Identificação de uma nova linhagem do vírus do Nilo Ocidental, feita por pesquisadores do Brasil e do Senegal, pode levar ao desenvolvimento de vacinas (imagem: PLOS e CDC)
Dengue, Zika e chikungunya são nomes que passaram a fazer parte do dia a dia dos brasileiros. A busca por vacinas, tratamentos e métodos de prevenção contra a infeção dos chamados vírus emergentes está entre os grandes desafios da epidemiologia mundial. E novos agentes patológicos continuam a surgir. É o caso do arbovírus que causa a febre do Nilo Ocidental.

A doença afeta milhares de pessoas todos os anos e é assintomática em 80% dos casos. Cerca de um em cada cinco infectados desenvolve febre e outros sintomas. Em menos de 1% dos casos, especialmente entre idosos e crianças, a doença provoca consequências neurológicas importantes, afetando o sistema nervoso central, causando meningite, encefalite e, em casos extremos, paralisia aguda, levando à morte.

O vírus do Nilo Ocidental foi identificado pela primeira vez em Uganda, em 1937, e em seguida, nos anos 1950, no Egito (daí seu nome). A doença não tinha grande importância epidemiológica. Nos anos 1990, isso mudou. Levado por aves migratórias da África à Europa, o vírus se espalhou da França à Rússia. Em 1999, chegou aos Estados Unidos. Diversos surtos ocorreram desde então. A partir de 1999, foram contabilizados mais de 20 mil casos na América do Norte, com quase 1,8 mil óbitos. Ainda não existe vacina contra o vírus.

“O vírus do Nilo Ocidental ainda não chegou ao Brasil, mas é apenas uma questão de tempo até que isso venha a ocorrer”, alerta o virologista Paolo Zanotto, chefe do Laboratório de Evolução Molecular e Bioinformática do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

Daí a importância de uma nova pesquisa que tem Zanotto como um dos autores e cujos resultados acabam de ser publicados. O trabalho sinaliza o desenvolvimento de uma vacina nos próximos anos. Isso se deve à constatação de que a linhagem 8 do vírus, descoberta em 1992, é pouco virulenta e seus efeitos são especialmente brandos.

O artigo foi publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases e é resultado de uma colaboração entre virologistas do Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de São Carlos. Contou com apoio da FAPESP, do CNPq e de órgãos de financiamento da União Europeia.

São conhecidas nove linhagens do vírus do Nilo Ocidental. O desenvolvimento de uma vacina feita com os vírus brandos da linhagem 8 poderia, em tese, “ensinar” o sistema imunológico a se defender de todas as outras linhagens – em especial as linhagens 1 e 2, que são as mais disseminadas, e a de número 7, a pior de todas.

Trata-se de um estratégia de defesa imunológica semelhante à empregada na vacina da gripe, que mistura as linhagens mais recentes do vírus influenza para combater a gripe do ano, sempre causada por uma cepa recém-evoluída e, portanto, nova, contra a qual não se tem imunidade.

O vírus do Nilo Ocidental já provocou surtos no Canadá (1999-2007), nos Estados Unidos (1999 a 2012) e no México (2003). Ele é transmitido por picadas de mosquitos, que infectam, além de humanos, as aves migratórias.

“Quanto tempo vai levar para que aves migratórias que passam o verão na América do Norte tragam o vírus para os seus refúgios de inverno na América Central? O vírus do Nilo Ocidental está chegando”, disse Zanotto.

O professor e seu aluno de doutoramento Nicholas Di Paola (bolsista da FAPESP) estão entre os autores do trabalho que faz um levantamento das características biológicas e filogenéticas das linhagens do vírus do Nilo Ocidental presentes no Oeste da África.

Os investigadores principais são Di Paola e sua colega senegalesa Gamou Fall. Zanotto divide a responsabilidade científica pelo trabalho com o colega Amadou Alpha Sall, diretor do Instituto de Dakar.

A pesquisa faz parte do trabalho de doutoramento de Di Paola, um nova-iorquino filho de brasileira e norte-americano que, nos últimos quatro anos, divide seu tempo entre São Paulo e o Senegal, onde coletou as amostras do vírus. “Levei um ano e meio para aprender as técnicas necessárias para a coleta e análise do material”, disse Di Paola.

O vírus do Nilo Ocidental pertence à família flavivírus, a mesma dos vírus da hepatite e do Zika. O vírus do Nilo Ocidental infecta um grande espectro de animais. Ele já foi isolado em 65 espécies de mosquitos e carrapatos, assim como em 225 espécies de aves e outras 29 espécies de vertebrados, como cavalos e primatas, entre eles humanos.

“Uma novidade do trabalho foi que pela primeira vez isolamos o vírus da linhagem 7 a partir de carrapatos”, disse Di Paola.

Imunidade contra linhagens perigosas

O estudo consistiu no sequenciamento de três genes isolados em amostras do vírus coletadas na África Ocidental por Di Paola e Fall. Os genes sequenciados são representantes das linhagens mais disseminadas globalmente (linhagem 1), da mais virulenta (7) e da menos virulenta (8).

Uma vez sequenciados, os genes foram comparados com as 862 sequências genéticas do vírus do Nilo Ocidental armazenadas no GenBank – sendo que 770 delas são provenientes da América do Norte, todas da linhagem 1A.

Para reduzir o tempo de processamento computacional, optou-se por excluir as sequências da linhagem 1A, diminuindo o universo de análise a 95 sequências, a partir das quais foi possível estabelecer a análise filogenética do vírus. Entre os resultados descobriu-se duas características importantes das linhagens 7 e 8.

No caso da linhagem 8, a menos virulenta, detectou-se a substituição do gene P122S, o que induz mutações que podem estar relacionadas às baixas taxas de replicação desta linhagem, o que explicaria a sua baixa virulência.

“É por isso que a linhagem 8 é ideal para a eventual produção de uma vacina”, disse Zanotto. Segundo o professor, o desenvolvimento de uma vacina a partir de um vírus com baixíssima virulência teria a capacidade de conferir imunidade contra as linhagens mais perigosas, 1, 2 e 7, sem o risco do desenvolvimento de sintomas da doença.

No caso da linhagem 7, os virologistas brasileiros e senegaleses foram capazes de identificar uma mutação (no gene S653F NS5) que está associada com a resistência aumentada desta linhagem ao interferon, a proteína produzida pelas células brancas do sistema imune e que são responsáveis por interferir na replicação dos patógenos invasores. Tal mutação pode ajudar a explicar a alta virulência da linhagem 7.

“Com exceção de uma única possível infestação acidental, que ocorreu no laboratório na África, a linhagem 7 nunca foi isolada em humanos. Mas nos testes in vivo no laboratório ela foi devastadora entre as cobaias”, disse Zanotto.

A baixa virulência da linhagem 8 e a alta virulência da linhagem 7 foram testadas, comprovadas e aferidas em experimentos tanto in vitro em células infectadas, quanto in vivo, inoculando camundongos no laboratório de Dakar. No caso da linhagem 8, ela mostrou pouca capacidade de replicação in vitro e praticamente nenhuma virulência entre as cobaias.

As equipes de virologistas da USP e do Senegal têm uma história de mais de 20 anos de colaboração científica, estabelecida a partir de estudos em conjunto sobre os vírus da dengue, do famigerado ebola e, mais recentemente, do vírus Zika.

A existência de surtos desses vírus emergentes no Brasil e no Senegal possibilitou ao Instituto de Ciências Biomédicas da USP e ao Instituto Pasteur de Dakar formarem quadros e aprenderem técnicas a ponto de se tornarem duas instituições de ponta no que concerne às pesquisas com arbovírus, os vírus transmitidos por insetos.

Prova disso foi a quantidade e a qualidade dos trabalhos desenvolvidos nos dois institutos durante o auge do surto de Zika em 2015. “Em 2015, o Instituto Pasteur de Dakar e a equipe da USP publicaram uma quantidade de pesquisas relevantes superior àquela feita até mesmo pelos pesquisadores do Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos”, disse Zanotto.

O artigo Biological and phylogenetic characteristics of West African lineages of West Nile vírus (doi: https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0006078), de Gamou Fall, Nicholas Di Paola, Martin Faye, Moussa Dia, Caio César de Melo Freire, Cheikh Loucoubar, Paolo Marinho de Andrade Zanotto, Ousmane Faye e Amadou Alpha Sall, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0006078.

Autor: Peter Moon
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 23/01/2018
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/vacinas_para_virus_emergentes/27024/

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Especialistas da Fiocruz explicam vacina da febre amarela e circulação do vírus

ABr

Diante do avanço da febre amarela no país, com aumento do número de casos confirmados e de mortes, a preocupação com a doença tem aumentado e levado a uma corrida pela vacina em alguns estados. A situação levou inclusive o governo a fracionar a vacina contra a febre amarela em algumas regiões e antecipar a campanha de imunização de 19 de fevereiro para 25 de janeiro nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ouvidos pela Agência Brasil explicam as mudanças no protocolo de vacinação contra a doença e como ocorre a circulação do vírus no país:

Prazo da vacina

O assessor científico sênior de Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-manguinhos)/Fiocruz, Akira Homma, destaca que em 2013 a Organização Mundial de Saúde (OMS) mudou a recomendação de tomar a vacina da febre amarela a cada dez anos para uma única dose na vida. A decisão foi anunciada após uma reunião do grupo específico de vacinas da organização.

“Analisando os dados de duração de imunidade que dispunham de todo o mundo, especialmente na África, chegaram à conclusão que uma dose é o suficiente para imunizar a pessoa para a vida inteira. E essa recomendação também foi endossada pela OMS e pela Organização Pan-Americana de Saúde [Opas]. Depois, o Ministério da Saúde também adotou esse critério. É resultado de uma análise e inúmeros estudos no mundo que mostram que uma dose é o suficiente para a vida inteira”, explicou.


De acordo com a Fiocruz, estudos comprovam a eficácia da dose fracionada da vacina. Foto: OMS/ONU/Divulgação

Na época da decisão, segundo Homma, também havia um desabastecimento da vacina contra a febre amarela no continente africano, como ocorre atualmente em algumas regiões do Brasil. “Então, em vez de imunizar uma pessoa três ou quatro vezes, o grupo [da OMS] decidiu que era melhor imunizar a população inteira uma vez. Agora vem aparecendo a mesma situação aqui no Brasil, então o ministério [da Saúde] resolveu seguir essa recomendação da OMS”.

Após a determinação, a Fiocruz iniciou estudos clínicos para confirmar a imunização plena contra febre amarela com apenas uma dose integral da vacina. Os resultados, no entanto, devem ser conhecidos a partir de 2020.

Fracionamento

Quanto ao fracionamento das doses da vacina contra a febre amarela – medida adotada por estados como São Paulo e Rio Janeiro para ampliar a imunização –, o cientista explica a medida é emergencial, tomada quando é necessário vacinar uma população grande em um curto espaço de tempo. No caso do Brasil, o uso da dose fracionada foi decidido diante da expansão de novas áreas de risco da febre amarela nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

“É uma área que tem 20 milhões de habitantes e é preciso vacinar todo mundo num prazo muito curto”, avalia.

Segundo ele, o método já foi usado anteriormente, na África, em 2016, quando houve uma epidemia de febre amarela no continente que deixou os países sem doses suficientes. Homma destaca que estudos conduzidos no Brasil pela Fiocruz há oito anos mostraram que a dose reduzida da vacina oferece proteção “no mesmo nível da dose total”.


Postos de saúde amanhecem com filas para a vacinação contra a febre amarela no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Cada frasco da vacina contra febre amarela contém cinco doses integrais, com 0,5 mililitro (ml) cada. Na dose fracionada, é aplicado 0,1 mililitro em cada pessoa.

“Quer dizer, com um frasco de cinco doses nós podemos vacinar 25 pessoas. O fracionamento é feito na hora na aplicação, essa é a vantagem. O processo de produção é o mesmo, toda a vacina é igualzinha, você faz a reconstituição da vacina da mesma forma, não muda nada. Todos os operadores já sabem fazer isso há anos. Só que, em vez de usar 0,5 ml, que é a dose plena, usando uma seringa especial vai permitir retirar 0,1ml de uma forma muito precisa”.

Restrições à vacina


De acordo com o especialista da Fiocruz, grávidas só devem se vacinar contra a febre amarela se estiverem em uma zona endêmica, de alta circulação de vírus, e se houver recomendação médica, já que a vacina é feita com vírus vivo atenuado e pode atingir o feto. Crianças menores de 9 meses também não devem ser vacinadas, assim como idosos. Entre 9 meses e 2 anos, será aplicada a dose integral, bem em pessoas que viajarão para países que exigem a certificação internacional da vacina.

A imunização também não é recomendada para pessoas com doenças que comprometem o sistema imunológico, como aids, em tratamento quimioterápico, com doença hematológica ou que foi submetida a transplante de células-tronco.

O Laboratório de Bio-Manguinhos é o único produtor de vacina da febre amarela da América Latina e um dos quatro no mundo qualificados pela OMS. No ano passado, a produção na unidade foi de 64 milhões de doses, a pedido do Ministério da Saúde. Em anos normais, são feitas de 15 a 20 milhões de doses. Pare este ano, o ministério já solicitou cerca de 50 milhões de doses, segundo Homma.

Ciclos do vírus

O coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, Rivaldo Venâncio, explica que todos os casos registrados no Brasil atualmente são do ciclo silvestre da doença, quando o vírus circula na natureza, entre mosquitos que vivem nas copas das árvores, dos gêneros Sabethes e, principalmente, Haemagogus.

“Nas áreas de mata, o mosquito transita o vírus com primatas não humanos. Acidentalmente o homem pode ser infectado quanto adentra esses ciclos e é picado por um mosquito desses que normalmente se alimenta desses macacos. O que vemos hoje no Brasil é esse ciclo silvestre, são pessoas que acidentalmente são infectadas porque adentraram no ciclo silvestre”.


Macacos também são infectados pelo vírus, mas não transmitem a doença. Foto: Fábio Massalli/Arquivo/Agência Brasil

Na febre amarela urbana, sem registros no Brasil desde 1942, os infectados são os humanos e os vetores são os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. No mundo, o registro mais recente de grande número de casos de febre amarela urbana ocorreu em Angola, em 2016, quando morreram mais de 350 pessoas.

Segundo Rivaldo Venâncio, por causa da proximidade de algumas cidades com regiões de Mata Atlântica, com zonas de floresta, há risco de reintrodução do vírus da febre amarela em áreas urbanas. O especialista explica que os macacos não transmitem a doença e que são aliados na detecção da circulação do vírus porque servem de alerta.

“Os macacos que adoecem infectados pelo vírus da febre amarela servem como uma sirene para os epidemiologistas e autoridades sanitárias saberem que naquela região está circulando o vírus. Os macacos são nossos amigos, eles, diretamente, não infectam o ser humano em hipótese alguma. No ciclo urbano também, o humano não transmite diretamente para outro, é necessário o mosquito transmissor”.

Surtos

Segundo Venâncio, surtos de febre amarela costumam se repetir a cada oito ou dez anos e uma das hipóteses é que os ciclos estejam relacionadas a mudanças no meio ambiente. “Alguns pesquisadores apontam a influência da ampliação das fronteiras agrícolas do país, onde passamos a cultivar soja e outras coisas, por exemplo, em Tocantins e no interior do Nordeste, Centro-Oeste, que estaria forçando a movimentação dos primatas e com eles os mosquitos que deles se alimentam. Outros falam que, para além da ampliação da fronteira agrícola, o uso do maquinário, presença humana e uso de agrotóxicos também estaria forçando essa movimentação. Outros pesquisadores falam nas alterações climáticas, dentre as quais uma certa mudança no padrão das chuvas e de elevação de temperaturas, o chamado aquecimento global”, lista.

Segundo o coordenador da Fiocruz, pesquisas também investigam a ligação entre o avanço atual da febre amarela no país e o rompimento Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em novembro de 2015, em Mariana (MG), que liberou cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeito no Rio Doce.

Sintomas e transmissão

Causada por vírus e transmitida por vetores, a febre amarela é uma doença infecciosa grave. Os sintomas aparecem de forma repentina, com febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos por cerca de três dias. Na forma mais grave da doença pode ocorrer insuficiências hepática e renal, icterícia (olhos e pele amarelados), hemorragia e cansaço intenso.

De acordo com a OMS, há registros da doença em 47 países das Américas do Sul e Central e da África. A transmissão é feita por mosquitos em áreas urbanas ou silvestres. Em áreas florestais, o vetor é principalmente o mosquito Haemagogus e no meio urbano a febre amarela é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo da dengue.

Ao ser picada por um mosquito infectado e contrair o vírus, a pessoa pode se tornar fonte de infecção em locais com a presença dos mosquitos vetores, já que a doença não é transmitida diretamente de uma pessoa para outra. O vírus da febre amarela também atinge outros vertebrados, como macacos, que podem desenvolver a forma silvestre da doença sem apresentar sintomas, mas com carga viral suficiente para infectar mosquitos.

Por Akemi Nitahara, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/01/2018


Autor: Akemi Nitahara
Fonte: Agência Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 22/01/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/01/22/especialistas-da-fiocruz-explicam-vacina-da-febre-amarela-e-circulacao-do-virus/

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Surto de vírus provocou morte de botos na Baía de Sepetiba, RJ, diz laudo





Mortandade de botos assusta pesquisadores em Sepetiba (Foto: Instituto Boto Cinza)



Um boletim técnico indicou que um surto de mobilivírus provocou a mortandade de cerca de 170 botos cinza na Baía de Sepetiba desde o fim de novembro. O documento foi preparado por pesquisadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (MAQUA/UERJ) e do Laboratório de Patologia Comparada de Animais Selvagens da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (LAPCOM/FMVZ/USP).


Segundo o documento, os vírus dessa família não costumam ser transmitidos dos animais para os humanos, ou seja, cada um tem seu grupo próprio de hospedeiros. É a primeira vez que um surto causado por morbilivírus dos cetáceos é detectado na América do Sul.


Ainda de acordo com o boletim, não se sabe quanto tempo o surto pode durar. Tipicamente os surtos duram enquanto houver animais suscetíveis. Os fatores que contribuíram para o início do surto ainda são desconhecidos e estão sendo investigados.


Morbilivírus (Morbillivirus) é o gênero de um vírus da família Paramyxoviridae. Algumas espécies de morbilivírus são muito estudadas por causar doenças conhecidas, como o sarampo (nos humanos), a cinomose (nos cães e focas) e a peste dos pequenos ruminantes (em cabras e ovelhas). Recentemente, o morbilivírus também foi associado à doença renal em gatos. O morbilivírus dos cetáceos afeta botos, golfinhos e baleias. No Brasil, o vírus foi detectado em golfinhos da espécie boto-cinza (Sotalia guianensis).



Autor: G1 Rio
Fonte: G1 Rio
Sítio Online da Publicação: G1 Rio
Data de Publicação: 10/01/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/surto-de-virus-provocou-morte-de-botos-na-baia-de-sepetiba-rj-diz-laudo.ghtml