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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Micróbios funcionam como fertilizante natural em solo pobre e têm potencial para aplicação na agricultura

Um estudo apoiado pela FAPESP, publicado no ISME Journal ontem (19/12), identificou 522 genomas (entre arqueias e bactérias) associados às raízes e ao solo de duas espécies vegetais nativas dos Campos Rupestres. Centenas de microrganismos que até então eram desconhecidos para a ciência foram identificados, evidenciando que a biodiversidade brasileira ainda abriga uma enorme quantidade de novos organismos.



Foi preciso martelo e cinzel para retirar amostras do terreno onde vive a Barbacenia macranta; no caso, a rocha exposta (Foto: Rafael Soares Correa de Souza/GCCRC)

A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de substitutos biológicos para os fertilizantes químicos usados na agricultura, principalmente os que contêm fósforo.

“O fósforo normalmente está presente no solo, mas nem sempre na forma que pode ser aproveitado pelas plantas. O que a maioria dos microrganismos que encontramos faz é tornar esse elemento solúvel para que as plantas possam absorvê-lo”, explica Antônio Camargo, primeiro autor do artigo, realizado durante doutorado no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) com bolsa da FAPESP.

O estudo ocorreu no âmbito do Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC), um Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE) constituído pela FAPESP e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na Unicamp.

Uma das plantas, Vellozia epidendroides, vive em solos rasos, enquanto Barbacenia macranta foi encontrada vivendo sobre rochas expostas. Ambas fazem parte da família Velloziacea e foram coletadas em uma área particular adjacente ao Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais.

Ao comparar os microrganismos das plantas que crescem no solo e na rocha, os pesquisadores constataram se tratar de comunidades diferentes, porém, com muitas espécies compartilhadas. De modo geral, foram encontrados microrganismos bastante especializados no transporte do fósforo e na conversão da versão não solúvel para a solúvel do mineral, que é absorvida pelas plantas.

“As comunidades microbianas também mostraram papel importante na disponibilização de nitrogênio, outro nutriente essencial para as plantas”, afirma Camargo, atualmente pesquisador do Joint Genome Insitute, do Departamento de Energia dos Estados Unidos, onde foi realizado o sequenciamento dos genomas.

Novas soluções

“Os estudos realizados até então normalmente focaram nos mecanismos de adaptação das plantas às duras condições dos Campos Rupestres, por vezes ignorando os microrganismos. Mostramos que os microrganismos têm um potencial funcional essencial na adaptação vegetal às condições extremas desse ambiente. Em especial, ao fornecerem fósforo para o crescimento vegetal” conta Rafael Soares Correa de Souza, pesquisador associado ao GCCRC que foi apoiado pela FAPESP e é um dos coautores do estudo.

A expectativa dos pesquisadores é que as descobertas possam contribuir para a criação de produtos que substituam os adubos químicos à base de fósforo, um dos nutrientes mais utilizados na adubação de lavouras no Brasil. Hoje, mais da metade do fertilizante fosfatado utilizado no país é importado, sobretudo do Marrocos, mas também da Rússia, Egito, China e Estados Unidos.

Além da dependência de importação, os fertilizantes fosfatados têm como desvantagem a possibilidade de poluição de corpos d’água e por emitir gases de efeito estufa na sua extração. Estima-se que para cada quilo de fósforo retirado na natureza, um quilo desses gases vá para a atmosfera. Fora isso, trata-se de um recurso natural não renovável. Portanto, com prazo para acabar.

Os fertilizantes biológicos já são uma realidade no Brasil, com 80% da área plantada de soja fazendo uso desses produtos para a disponibilização de outro nutriente, o nitrogênio. Um estudo publicado anteriormente por pesquisadores do GCCRC estimou que US$ 10 bilhões sejam economizados anualmente pela substituição dos fertilizantes nitrogenados por inoculantes biológicos (leia mais em: https://agencia.fapesp.br/39156/).

“O estudo chama a atenção ainda para a necessidade de conservação dos ecossistemas brasileiros, que podem fornecer muitas outras soluções baseadas na natureza como essa”, lembra Souza, cofundador da Symbiomics, startup de biotecnologia focada no desenvolvimento de biológicos de nova geração.

Considerados hotspots de biodiversidade, com muitas espécies exclusivas, os Campos Rupestres estão contidos em mosaicos que totalizam aproximadamente 26,5 mil quilômetros quadrados distribuídos em áreas de Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. As principais ameaças a esses ecossistemas são a mineração e a pecuária.

O próximo passo da pesquisa é a realização de estudos para testar os benefícios de alguns dos microrganismos encontrados em uma cultura agrícola. Os experimentos estão sendo realizados na sede do GCCRC em Campinas.

O artigo Plant microbiomes harbor potential to promote nutrient turnover in impoverished substrates of a Brazilian biodiversity hotspot pode ser lido em: https://doi.org/10.1038/s41396-022-01345-1.






Autor: André Julião
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data: 20/12/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/microbios-funcionam-como-fertilizante-natural-em-solo-pobre-e-tem-potencial-para-aplicacao-na-agricultura/40344/

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Suco de Laranja e a Necessidade de um Mercado Sustentável de Frutas



Suco de Laranja e a Necessidade de um Mercado Sustentável de Frutas

Jose Rodrigues Filho *
Maria da Guia Rodrigues Pessoa **
Robson Rogério Pessoa Coelho ***

O Brasil e o mundo são carentes de educação alimentar e alimentos, o que fragiliza a saúde e a vida de muitos.
Como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, temos um bom percentual de brasileiros passando fome. Exportamos as frutas de boa qualidade e muitas vezes comemos o que sobra. Não estamos vivenciando um mercado sustentável, que já prejudica as gerações atuais e sem pensar nas gerações futuras.

Num mundo com possibilidades de grandes pandemias, como no momento, temos que pensar numa educação alimentar sustentável e, também, num mercado sustentável de alimentos – não este que está aí.

Pesquisa realizada na Europa recentemente mostrou que menos de 40% dos profissionais de saúde conheciam o conteúdo dos sucos de frutas. Foi mostrado que profissionais médicos tinham menos de 24 horas de treinamento em nutrição durante seus anos de estudo, quando comparado com o alto conhecimento dos que tinham formação em nutrição. A população mundial gradualmente está mudando de um sistema de saúde de cura para um modelo de cuidados, onde a educação e segurança alimentar é de fundamental importância, principalmente nas empresas produtoras de alimentos. Percebe-se, assim, o desconhecimento da grande maioria da população sobre o conteúdo dos alimentos.

Estamos vendo no momento o suco de laranja tomar as páginas de revistas científicas, mostrando sua importância para o tratamento do COVID-19 (1-2). Muitos, como eu, via no suco de laranja apenas a vitamina C. As laranjas doces chamadas cientificamente de Citrus Sinensis são ricas em hesperidina, que é um antibacteriano, anti-inflamatório e antioxidante potente. A atividade antiviral da hesperidina é sugerida para medicamentos. Este componente químico não está em todas as laranjas, mas faz parte da composição de laranjas como a pera, bahia, além das clementinas e tangerinas. Assim, um copo de suco de laranja por dia aumenta a nossa imunidade, podendo proteger nosso pulmão contra uma carga viral do coronavírus, graças a hesperidina. A natureza tem de tudo para nos proteger a um custo baixo.

Na Europa, por exemplo, todos os sucos vendidos são regularmente auditados para se averiguar a segurança e composição durante o processo de produção. Com isto fica assegurado que os sucos de laranja fabricados e vendidos nos supermercados contêm um bom teor de hesperidina, se forem 100% suco de laranja e não simplesmente bebidas açucaradas, como no passado. No Brasil já se avançou muito na fiscalização, mas muito precisa ainda ser feito, quando se observa que em muitos alimentos se esconde o conteúdo de açúcar. Chupar a laranja e comer o bagaço, que contém um elevado teor de hesperidina, é uma boa opção. Lembrar, ainda, que a casca destas laranjas é rica em hesperidina e outros componentes químicos.

Em média um copo de 150ml de suco de laranja puro oferece 67,5 mg de vitamina C, que é mais de 80% do valor de referência nutricional, recomendado diariamente para a saúde. Outros valores de referência são mencionados para o folato e potássio, mas desconhecidos da maioria dos profissionais de saúde. É possível que o consumo de suco de laranja e de hesperidina seja baixo tanto na Europa como no Brasil. Já existem muitas pesquisas realizadas mostrando os nutrientes e riqueza de outros alimentos para a saúde e tratamento de doenças, mas desconhecidas dos consumidores. O conhecimento destas informações pode ampliar em muito um mercado sustentável de frutas no Brasil.

A agroindústria no Brasil tem tudo para tornar o país um grande produtor de alimentos de qualidade, visando ser um mercado sustentável fortalecendo a boa saúde dos consumidores, que já se preocupam não só com os nutrientes alimentares, mas com aditivos químicos, agrotóxicos e açucares bastante prejudiciais à saúde. Consumir já é uma grande preocupação da geração atual e, nesta era dos micróbios, bactérias, fungos e vírus, precisamos de muitas inovações para construir uma estrutura formada de plantas, frutas e alimentos para a melhoria da saúde humana. Neste caso, a segurança e educação alimentar devem ser a prioridade urgente desta nação.

Por fim, observou-se que os consumidores conhecem muito pouco do conteúdo das frutas como produtos que oferecem um grande potencial de mercado. A inovação é um importante conceito no setor agrícola que contribui para o alcance de sustentabilidade numa perspectiva econômica, social e ambiental. As informações aqui colocadas podem ser úteis aos especialistas da indústria de frutas e stakeholders interessados em investir em inovação e desenvolvimento de produtos alimentares.

1.Haggad, Y.A et al. Is hesperidin essential for prophylaxis and treatment of COVID-19 infection? Medical Hypotheses, n.144, 2020.
2.Bellavite, P & Donzelli, A. Hesperidin and SARS-COV-2: New Light on the Healthy Function of Citrus Fruits, Antioxidants, n.9, 2020.

*Jose Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá. https://jrodriguesfilho.blogspot.com/
** Maria da Guia Rodrigues Pessoa é nutricionista, com experiência executiva em Gestão de Alimentos, Marketing e Pesquisa em Dietas Sustentáveis.
*** Robson Rogério Pessoa Coelho é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutor em Engenharia de Alimentos e experiência em Armazenamento de Alimentos.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/02/2021




Autor: Jose Rodrigues Filho
Maria da Guia Rodrigues Pessoa
Robson Rogério Pessoa Coelho
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 12/02/21
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/02/12/suco-de-laranja-e-a-necessidade-de-um-mercado-sustentavel-de-frutas/

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Poluição do ar acidifica oceanos e ameaça vida marinha, diz estudo

Toda a vida marinha será afetada por causa das emissões de gás carbônico, que vêm elevando a acidez dos oceanos no mundo, revela um novo estudo. A pesquisa, que durou oito anos, foi conduzida por mais de 250 cientistas. Os resultados apontam que criaturas marinhas em estágio inicial de desenvolvimento devem ser as mais prejudicadas pelas mudanças. Um exemplo é o bacalhau. Segundo os cientistas, com a acidificação dos oceanos, 25% dos filhotes chegariam à fase adulta - no pior cenário, apenas 12% sobreviveriam. As constatações foram feitas pelo projeto Bioacid, liderado pela Alemanha. O resumo das principais descobertas do estudo será apresentado a negociadores do clima em novembro, numa cúpula em Bonn, no oeste alemão.


Mas nem todas as espécies estão ameaçadas. Os impactos biológicos da acidificação dos oceanos, explicam os cientistas, podem beneficiar diretamente alguns animais. Ainda assim, mesmo esses podem ser afetados com as alterações na cadeia alimentar marinha. Esse processo de acidificação tende a se agravar com mudanças climáticas, poluição, desenvolvimento urbano no litoral, uso de fertilizantes agrícolas e pesca predatória. O nível de acidez está aumentando porque, à medida que o dióxido de carbono de combustíveis fósseis se dissolve na água do mar, produz ácido carbônico e reduz o pH da água. O pH médio identificado na superfície da água caiu de 8,2 para 8,1, o que representa um aumento na acidez de cerca de 26%. O estudo foi liderado pelo professor Ulf Riebesell, do Centro Helmholtz de Pesquisas Oceânicas (Geomar) em Kiel, no norte da Alemanha. Considerado uma das maiores autoridades do mundo no assunto, ele tem mantido a cautela ao falar sobre efeitos da acidificação. À BBC, ele disse que todos os grupos marinhos serão afetados pelas mudanças químicas, ainda que em diferentes níveis.

Desde 2009, pesquisadores que trabalham no programa Bioacid têm estudado como espécies marinhas estão sendo afetadas pela acidificação em diferentes fases da vida e seu impacto na cadeia alimentar. Também tentam verificar se há como reduzir os efeitos pela adaptação evolutiva da fauna e flora. O estudo foi conduzido em laboratório e também nos mares do Norte, Báltico, no Oceano Ártico e na Papua Nova Guiné. Um resumo de mais de 350 publicações acadêmicas sobre os efeitos da acidificação - que será apresentado no próximo mês - revelou que quase metade da fauna marinha testada reagiu de forma negativa ao aumento, ainda que moderado, da concentração do dióxido de carbono. Entre as espécies ainda em crescimento no Atlântico, bacalhau, mexilhão-azul, estrela-do-mar, ouriço e borboleta-marinha aparecem como as mais afetadas pela mudança no pH da água. 

Um experimento com os cirrípedes (tipo de crustáceo) mostrou que eles não são sensíveis à acidificação e algumas plantas - como algas que usam carbono para a fotossíntese - podem até se beneficiar. Carol Turley, especialista em acidificação oceânica no Reino Unido, avaliou a pesquisa como "extremamente importante". "A pesquisa contribuiu com importantes dados sobre os impactos que a acidificação pode gerar em uma ampla gama de organismos marinhos, de micróbios a peixes", concluiu.


DADOS DA NOTÍCIA

Autora: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 23/10/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/poluicao-do-ar-acidifica-oceanos-e-ameaca-vida-marinha-diz-estudo.ghtml