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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Micróbios funcionam como fertilizante natural em solo pobre e têm potencial para aplicação na agricultura

Um estudo apoiado pela FAPESP, publicado no ISME Journal ontem (19/12), identificou 522 genomas (entre arqueias e bactérias) associados às raízes e ao solo de duas espécies vegetais nativas dos Campos Rupestres. Centenas de microrganismos que até então eram desconhecidos para a ciência foram identificados, evidenciando que a biodiversidade brasileira ainda abriga uma enorme quantidade de novos organismos.



Foi preciso martelo e cinzel para retirar amostras do terreno onde vive a Barbacenia macranta; no caso, a rocha exposta (Foto: Rafael Soares Correa de Souza/GCCRC)

A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de substitutos biológicos para os fertilizantes químicos usados na agricultura, principalmente os que contêm fósforo.

“O fósforo normalmente está presente no solo, mas nem sempre na forma que pode ser aproveitado pelas plantas. O que a maioria dos microrganismos que encontramos faz é tornar esse elemento solúvel para que as plantas possam absorvê-lo”, explica Antônio Camargo, primeiro autor do artigo, realizado durante doutorado no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) com bolsa da FAPESP.

O estudo ocorreu no âmbito do Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC), um Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE) constituído pela FAPESP e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na Unicamp.

Uma das plantas, Vellozia epidendroides, vive em solos rasos, enquanto Barbacenia macranta foi encontrada vivendo sobre rochas expostas. Ambas fazem parte da família Velloziacea e foram coletadas em uma área particular adjacente ao Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais.

Ao comparar os microrganismos das plantas que crescem no solo e na rocha, os pesquisadores constataram se tratar de comunidades diferentes, porém, com muitas espécies compartilhadas. De modo geral, foram encontrados microrganismos bastante especializados no transporte do fósforo e na conversão da versão não solúvel para a solúvel do mineral, que é absorvida pelas plantas.

“As comunidades microbianas também mostraram papel importante na disponibilização de nitrogênio, outro nutriente essencial para as plantas”, afirma Camargo, atualmente pesquisador do Joint Genome Insitute, do Departamento de Energia dos Estados Unidos, onde foi realizado o sequenciamento dos genomas.

Novas soluções

“Os estudos realizados até então normalmente focaram nos mecanismos de adaptação das plantas às duras condições dos Campos Rupestres, por vezes ignorando os microrganismos. Mostramos que os microrganismos têm um potencial funcional essencial na adaptação vegetal às condições extremas desse ambiente. Em especial, ao fornecerem fósforo para o crescimento vegetal” conta Rafael Soares Correa de Souza, pesquisador associado ao GCCRC que foi apoiado pela FAPESP e é um dos coautores do estudo.

A expectativa dos pesquisadores é que as descobertas possam contribuir para a criação de produtos que substituam os adubos químicos à base de fósforo, um dos nutrientes mais utilizados na adubação de lavouras no Brasil. Hoje, mais da metade do fertilizante fosfatado utilizado no país é importado, sobretudo do Marrocos, mas também da Rússia, Egito, China e Estados Unidos.

Além da dependência de importação, os fertilizantes fosfatados têm como desvantagem a possibilidade de poluição de corpos d’água e por emitir gases de efeito estufa na sua extração. Estima-se que para cada quilo de fósforo retirado na natureza, um quilo desses gases vá para a atmosfera. Fora isso, trata-se de um recurso natural não renovável. Portanto, com prazo para acabar.

Os fertilizantes biológicos já são uma realidade no Brasil, com 80% da área plantada de soja fazendo uso desses produtos para a disponibilização de outro nutriente, o nitrogênio. Um estudo publicado anteriormente por pesquisadores do GCCRC estimou que US$ 10 bilhões sejam economizados anualmente pela substituição dos fertilizantes nitrogenados por inoculantes biológicos (leia mais em: https://agencia.fapesp.br/39156/).

“O estudo chama a atenção ainda para a necessidade de conservação dos ecossistemas brasileiros, que podem fornecer muitas outras soluções baseadas na natureza como essa”, lembra Souza, cofundador da Symbiomics, startup de biotecnologia focada no desenvolvimento de biológicos de nova geração.

Considerados hotspots de biodiversidade, com muitas espécies exclusivas, os Campos Rupestres estão contidos em mosaicos que totalizam aproximadamente 26,5 mil quilômetros quadrados distribuídos em áreas de Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. As principais ameaças a esses ecossistemas são a mineração e a pecuária.

O próximo passo da pesquisa é a realização de estudos para testar os benefícios de alguns dos microrganismos encontrados em uma cultura agrícola. Os experimentos estão sendo realizados na sede do GCCRC em Campinas.

O artigo Plant microbiomes harbor potential to promote nutrient turnover in impoverished substrates of a Brazilian biodiversity hotspot pode ser lido em: https://doi.org/10.1038/s41396-022-01345-1.






Autor: André Julião
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data: 20/12/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/microbios-funcionam-como-fertilizante-natural-em-solo-pobre-e-tem-potencial-para-aplicacao-na-agricultura/40344/

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Pesquisa avalia o uso da cama de aviário como adubo na agricultura

A carne de frango é a proteína animal cuja produção e consumo mais cresceram no Brasil e no mundo nos últimos 40 anos. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil é o segundo maior produtor mundial de frangos, superado apenas pelos Estados Unidos. A partir de 2003, o País passou a ser o maior exportador mundial, com embarques superiores a quatro milhões de toneladas, e, desde 2006, a carne de frango tornou-se a mais consumida pela população brasileira. Recentemente a produção nacional ultrapassou a marca de 13 milhões de toneladas/ano, e segundo projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, é esperado um aumento de 30% na produção no período de 2018 a 2028.

A avicultura gera um importante subproduto, a cama de aviário. Composta por uma mistura de material orgânico utilizado para forrar o piso dos galpões de produção (serragem, palha de arroz, feno de capim, entre outros), que absorve a umidade e promove conforto térmico, a cama acumula fezes e urina das aves, restos de ração, produtos veterinários e penas, ao longo do ciclo de 45 a 50 dias de produção dos frangos de corte. Devido à presença de altos teores de matéria orgânica e de macronutrientes, principalmente nitrogênio, mas também fósforo e potássio, a cama de aviário é utilizada amplamente como fertilizante em solos agrícolas.

Recentemente, pesquisadores do Programa de Biofísica Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com a colaboração de pesquisadores dos Institutos de Microbiologia (IMPG) e de Saúde Coletiva (IESC), também da UFRJ; da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e da Universidade de Guanajuato, no México, publicaram artigo no Chemosphere, periódico especializado em química ambiental da editora Elsevier, com os resultados das investigações sobre as altas concentrações de antibióticos em amostras de cama de aviário e solos agrícolas, além de sua contribuição para a emergência de resistência aos antibióticos.

Desdobramento da tese de doutorado do biólogo Cláudio Ernesto Taveira Parente, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ – orientado pelo biofísico Olaf Malm, que recebe apoio da FAPERJ para suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado –, o artigo confirma uma preocupação de nível mundial em relação ao uso de antibióticos na produção animal. A pesquisa alerta para a possibilidade de contaminação do solo e dos recursos hídricos (rios, lagos para irrigação e poços para consumo humano) em áreas agrícolas. O estudo foi realizado na Região Serrana do Rio de Janeiro, em especial no município de São José do Vale do Rio Preto. Maior produtor de frangos e ovos do estado, o município é, portanto, o maior fornecedor de cama de aviário usada como fertilizante agrícola em municípios da Região Serrana, como Nova Friburgo e Teresópolis, grandes abastecedores de legumes e verduras para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. De acordo com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Rio de Janeiro, São José do Vale do Rio Preto produz anualmente 15 milhões de frangos e quase quatro milhões de dúzias de ovos, o que gera em torno de 30 mil toneladas de cama de aviário por ano.


O subproduto dos aviários é utilizado como fertilizante agrícola em municípios produtores de hortigranjeirtos da Região Serrana


Segundo Cláudio Parente, o uso de antibióticos na produção animal tem sido objeto de preocupação na Organização Mundial da Saúde (OMS) e na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Além de serem administrados aos frangos com objetivos terapêuticos e profiláticos, os antibióticos também são usados como promotores de crescimento. Ações com o objetivo de reduzir o uso de antibióticos veterinários tiveram início na Suécia, em 1986, com a proibição do uso dos promotores de crescimento, seguida por toda a União Europeia em 2006 e, mais recentemente, pelos Estados Unidos, com estratégias para a redução do consumo de antibióticos junto ao setor agropecuário. Nesse sentido, o Ministério da Saúde brasileiro, em sua Agenda de Prioridades de Pesquisa, publicada em 2018, aponta como prioritários os estudos sobre a contaminação por antibióticos em mananciais brasileiros e suas consequências para a saúde humana. “No âmbito estadual, o governo do Estado do Rio de Janeiro está financiando pesquisas como a nossa, que podem nortear políticas e ações mitigadoras, e isso é fundamental. O apoio da FAPERJ em pesquisas de ponta ajuda a antecipar soluções para problemas mundiais, mas que devem ser solucionados localmente”, reconhece Cláudio Parente.

O trabalho da equipe do Instituto de Biofísica investigou a presença de antibióticos no solo, em decorrência do uso da cama de aviário como adubo. Foram avaliados solos naturais, que nunca tiveram contato com a cama de aviário; solos de lavouras que utilizaram esse fertilizante no período de apenas um ano e solos onde foi aplicada a cama como adubo por 30 anos. Os pesquisadores confirmaram a presença de genes resistentes aos antibióticos nos solos com 30 anos de aplicação da cama. Os resultados sugerem que o uso da cama por um longo período contribui para a ocorrência de bactérias resistentes nos solos agrícolas.

Entre os antibióticos de uso veterinário, a enrofloxacina, do grupo das fluoroquinolonas, é bastante difundida na produção avícola, devido ao seu amplo espectro antimicrobiano. Segundo o estudo, a enrofloxacina, de uso restrito veterinário, pode ser biotransformada no trato digestivo dos animais em ciprofloxacina, um antibiótico muito difundido pela medicina humana. A classe das fluoroquinolonas (que inclui ambos antibióticos) é considerada pela OMS de “importância crítica para a saúde humana”. “Antibióticos e bactérias resistentes presentes no solo podem ser lixiviadas (carregadas) para os reservatórios ou cursos d’ água utilizados para a irrigação de lavouras, podendo também contaminar os hortigranjeiros cultivados ou expor trabalhadores que lidam diretamente com a terra, em sua maioria da agricultura familiar”, explica Parente. Além disso, acrescenta o pesquisador, há impactos sobre a atividade bacteriana do solo, podendo afetar diretamente a ciclagem de nutrientes e a fertilidade do solo. A pesquisa incluiu, ainda, a investigação sobre a contribuição do uso da cama de aviário como fonte de metais pesados como cobre, cromo, zinco, chumbo e manganês para o solo, afetando também a qualidade de ambientes agrícolas.

“A contaminação ambiental por antibióticos contribui diretamente para a seleção de bactérias resistentes. Além da exposição ambiental, principalmente por residentes e trabalhadores em áreas rurais, consumidores de alimentos contaminados com resíduos de antibióticos ou com cepas bacterianas resistentes aos antibióticos podem estar expostos, mesmo a quilômetros de distância, como por exemplo, em áreas urbanas”, explica o pesquisador. No caso de bactérias patogênicas, a seleção da resistência aos antibióticos pode dificultar a ação terapêutica dos medicamentos disponíveis, aumentando o tempo e o custo da internação de pacientes. Na opinião de Parente, o fenômeno da multirresistência aos antibióticos e a seleção das superbactérias é um tema de grande relevância, uma vez que abrange as esferas da qualidade ambiental, segurança alimentar e saúde pública.


Claudio Parente: “São muitos os desafios para produzir alimentos de forma sustentável para atender as necessidades da população global ainda com tendência de aumento nas próximas décadas"

“Reconhecer que existe um problema e que ele é uma preocupação global já é um grande passo”, alega o pesquisador, acrescentando que outros grupos de pesquisa também vêm buscando alternativas para solucionar o problema. Ele lembra que algumas empresas já vêm oferecendo frangos e ovos produzidos sem o uso de antibióticos e até mesmo totalmente orgânicos, e que este é um mercado em franca expansão. Por outro lado, destaca que esse tipo de produto ainda está restrito à população de maior poder aquisitivo.

No setor de produção, ele destaca a possibilidade de uso de biodigestores para tratamento da cama de aviário, medida que não só gera energia para o produtor utilizar no aquecimento dos galpões como também o material resultante da biodigestão pode ser usado na adubação. A compostagem do resíduo de aviário também tem sido uma opção utilizada no campo, mas alguns estudos identificaram que ambos os processos reduzem os níveis de contaminação, mas não o solucionam completamente.

Diante da complexidade do tema, o conceito “One Health” formado por um conjunto de ações preconizadas por organismos internacionais, dentre eles OMS e FAO tem como objetivo integrar ações de áreas ligadas à segurança alimentar, ao controle de zoonoses e ao combate à resistência aos antibióticos. “São muitos os desafios para produzir alimentos de forma sustentável para uma população global ainda com tendência de aumento para as próximas décadas. Nesse contexto, o desenvolvimento de pesquisas e de ações públicas integradas é fundamental para a busca de soluções”, finaliza Parente.



Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 19/12/2019
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3892.2.0

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Agricultura, pecuária e garimpos: as causas do desmatamento na Amazônia Legal

Agricultura, pecuária e garimpos: as causas do desmatamento na Amazônia Legal. Entrevista especial com Antônio Victor Fonseca

Por, João Vitor e Patricia Fachin, IHU

O aumento de 4% do desmatamento na Amazônia Legal entre agosto de 2018 e junho de 2019, registrado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon, “indica uma pressão dos atores econômicos” que atuam na região para ampliar o plantio de grãos e zonas de pecuária, diz o coordenador técnico do Sistema de Alerta de Desmatamento – SAD, Antônio Victor Fonseca, à IHU On-Line.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele informa que os estados do Pará e Amazonas foram os “líderes de desmatamento” nesse período. “No Pará, a pecuária tem grande contribuição da conversão da floresta em áreas de pastagem, além da crescente incidência de alertas de desmatamento em áreas de garimpo no município de Itaituba, localizado no sudoeste paraense. No estado do Amazonas, há o deslocamento da fronteira agrícola que ocupava áreas de Mato Grosso e Rondônia e estão se movendo para a região sul amazonense, onde há um cinturão de áreas protegidas que tem impedido que o desmatamento avance”, explica.

Segundo ele, projetos de infraestrutura, como a construção de hidrelétricas e abertura de novas rodovias, também “impulsionam o desmatamento no bioma Amazônia por atraírem um grande fluxo migratório de pessoas para a região, valorizando as terras onde esses empreendimentos são instalados”.

Antônio Victor Fonseca é graduado em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Pará – UEPA. É pesquisador do Imazon e atua no programa de Monitoramento da Amazônia como coordenador técnico do Sistema de Alerta de Desmatamento – SAD.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – Recentemente o Imazon divulgou dados do Sistema de Alerta de Desmatamento – SAD, informando que entre agosto de 2018 e junho de 2019 houve um desmatamento de 3.767 km² na Amazônia Legal. O que o aumento de 4% do desmatamento na Amazônia Legal significa? Como interpretam esse dado?

Antônio Victor Fonseca – Esse número é referente ao total desmatado, detectado pelo SAD, no período de agosto de 2018 a junho de 2019. O aumento, comparando o período atual com o mesmo período do ano anterior, é de 158 km². A tendência de crescimento do desmatamento no período indica uma pressão dos atores econômicos para conversão da floresta nos diversos usos, como plantio de grãos e a expansão das áreas de pecuária.



(Fonte: ISA)



IHU On-Line – Por que os estados do Pará e Amazonas são os líderes em desmatamento, registrando 30% e 26% do total de desmatamento?

Antônio Victor Fonseca – Pará e Amazonas foram os estados líderes de desmatamento no mês de junho de 2019 e apresentam causas distintas do aumento de perda de floresta. No Pará, a pecuária tem grande contribuição da conversão da floresta em áreas de pastagem, além da crescente incidência de alertas de desmatamento em áreas de garimpo no município de Itaituba, localizado no sudoeste paraense. No estado do Amazonas, há o deslocamento da fronteira agrícola que ocupava áreas de Mato Grosso e Rondônia e estão se movendo para a região sul amazonense, onde há um cinturão de áreas protegidas que tem impedido que o desmatamento avance. No entanto, alertas de desmatamento mensais de anos anteriores têm indicado a ocorrência de desmatadores nessas áreas de preservação.

Alertas de desmatamento mensais de anos anteriores têm indicado a ocorrência de desmatadores nessas áreas de preservação – Antônio Victor Fonseca

IHU On-Line – Ao analisar a geografia do desmatamento, o Imazon também informa que 56% das áreas desmatadas são privadas, 26% são em assentamentos, 13% em Unidades de Conservação e 5% em Terras Indígenas. Como interpretam esses dados, particularmente o desmatamento em áreas de assentamentos e Unidades de Conservação?

Antônio Victor Fonseca – A identificação de onde os alertas de desmatamento estão ocorrendo é o primeiro diagnóstico para direcionar quais órgãos de fiscalização ambientais devem planejar as operações para identificação e responsabilização dos infratores. Desmatamentos em áreas protegidas, como parques e florestas nacionais, são de responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBIO, enquanto que as áreas de assentamento são de competência dos órgãos de regularização fundiária, como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. As Áreas Protegidas, em particular, têm sofrido pressão por desmatamento internamente e no seu entorno para que sofram redução dos seus limites com alegação de serem áreas consolidadas de uso.

As Áreas Protegidas, em particular, têm sofrido pressão por desmatamento internamente e no seu entorno para que sofram redução dos seus limites com alegação de serem áreas consolidadas de uso – Antônio Victor Fonseca

IHU On-Line – Quais são as causas do aumento do desmatamento na Amazônia Legal?

Antônio Victor Fonseca – As causas de perda de floresta na Amazônia são diversas e estão atreladas principalmente à conversão da floresta para os diversos tipos de uso, como agricultura, pastagem, extração de madeireira e minério, além da grilagem de terras e a expectativa de redução dos limites ou tipo de proteção de Unidades de Conservação.

Não há mais justificativas para a destruição da vegetação nativa do país – Antônio Victor Fonseca

IHU On-Line – Quais são os projetos de desenvolvimento em curso no país que tendem a elevar as taxas de desmatamento?

Antônio Victor Fonseca – Os projetos de infraestrutura, como construção de hidrelétricas e abertura e pavimentação de rodovias, são exemplos históricos de iniciativas que impulsionam o desmatamento no bioma Amazônia por atraírem um grande fluxo migratório de pessoas para a região, valorizando as terras onde esses empreendimentos são instalados. Entretanto, na maioria das vezes, as cidades não possuem infraestrutura adequada para receber esse grande número de pessoas durante e após as obras de implementação desses projetos, gerando uma ocupação desordenada nos centros urbanos e comunidades vizinhas, além de absorver parte da mão de obra em atividades predatórias, como garimpos e extração ilegal de madeira.

Desmatar não ajuda a competitividade da agropecuária; ao contrário, a coloca em risco – Antônio Victor Fonseca

IHU On-Line – Nos últimos anos houve um debate no país sobre o desmatamento zero. Alguns ambientalistas defendem essa meta e outros afirmam que ela é irrazoável. Na sua avaliação, essa meta é razoável? Quais são as dificuldades de colocá-la em prática?

Antônio Victor Fonseca – Não há mais justificativas para a destruição da vegetação nativa do país. Continuar a devastação resulta em desequilíbrio do clima global e nacional, afeta a biodiversidade e os recursos hídricos, além de comprometer a saúde e o bem-estar da população. Além disso, desmatar não ajuda a competitividade da agropecuária; ao contrário, a coloca em risco. Extinguir de vez o desmatamento ilegal e legal é, por fim, um imperativo ético — uma dívida que a atual geração tem consigo própria e com as próximas.

(EcoDebate, 12/08/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 12/08/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/08/12/agricultura-pecuaria-e-garimpos-as-causas-do-desmatamento-na-amazonia-legal/

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Impactos ambientais da agricultura, artigo de Roberto Naime


Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


Impactos ambientais da agricultura assustam numa primeira aproximação, mas podem ser listados e discutidos sem sobressaltos.

A produção de alimentos é um dos maiores desafios do mundo moderno. A agricultura hoje produz alimentos para uma população estimada em 7 bilhões de pessoas em todo o planeta.

O crescimento populacional excessivo tem feito com que o ser humano consuma quase tudo aquilo que o planeta tem para oferecer. Com uma população tão grande, é quase utópico imaginarmos uma produção de alimentos suficiente e sem impacto algum.

Os impactos causados pelo ser humano são muitos, mas é possível reduzi-los. O ideal é que daqui a algum tempo, os nossos estudos e pesquisas consigam descobrir uma forma de produzir alimentos de forma eficiente e sem impactos no meio ambiente

Para que se possam buscar soluções aos problemas do mundo moderno, é preciso conhecer ao menos os maiores impactos causados pela atividade de maior alteração no meio ambiente que é a agricultura.

A atividade agropecuária exige desmatamento, que é a derrubada de matas originais. Não se planta e não se cria em áreas florestadas. Este fato vem sendo a causa dos maiores impactos ambientais.

Erosão que é a perda de solo causada pela associação do uso incorreto do solo associado com as chuvas e ventos. Essa perda é relevante e está retirando todas as camadas superiores do solo, chegando até as rochas, tornando o solo não-agricultável.

A terra que escorre com as chuvas, causa colmatação em rios e lagos, comprometendo sua vazão e qualidade da água.

A perda de biodiversidade é o desaparecimento por qualquer motivo de qualquer espécie animal ou vegetal devido a sua carga genética específica.

As espécies formadas durante muitos milhares de anos estão simplesmente desaparecendo com o desmatamento. Essas espécies podem ter carga genética muito peculiar e serem necessárias para a produção de medicamentos no futuro. É o fato mais relevante dentre outros incrementos para a evolução da civilização humana.

Muito se enganam os que pensam que o consumo doméstico gera os maiores gastos de água. Mais de 60% da água doce é utilizada na irrigação de campos agrícolas. O esgotamento da água doce, é outro relevante impacto ambiental.

Por mais que a produção de material vegetal capture carbono da atmosfera, o carbono liberado por atividades relacionadas supera a quantidade capturada. Esse carbono é liberado pela queima de diesel dos tratores, produção de fertilizantes e defensivos agrícolas, além da decomposição de restos de cultura. Tudo isto configura outro impacto ambiental que é a poluição atmosférica.

O uso descontrolado de adubos e defensivos agrícolas vem causando sérios problemas de contaminação de águas por resíduos e materiais lixiviados no solo, que podem causar problemas inclusive como a eutrofização e a contaminação de águas potáveis. Logo, poluição de mananciais hídricos configura relevante impacto ambiental.

O uso inadequado do solo, hoje liderado pela produção de gado e outros animais, vem desgastando os solos de forma espantosa, tornando-os quase totalmente inférteis. A utilização de mecanização rural em solos inapropriados vem causando mortandade vegetal em muitas destas áreas, que se tornam desertas. Esse é um processo muitas vezes irreversível e se denomina “desertificação”.

O avanço da agricultura sobre as matas nativas causa destruição das nascentes, por soterramento, colmatação e impermeabilização, entre outros fatores. A este fenômeno se denomina “destruição de mananciais hídricos”.

Por derradeiro, a geração de resíduos na produção animal é uma das maiores causas de impactos ambientais, principalmente devido às fezes animais geradas em animais criados em confinamento.

As fezes dos porcos, chamadas de chorume de porco e as fezes de frango, chamadas de cama de frango, entre outras, estão dentre as principais poluidoras de ambientes rurais.

Existem muitos outros impactos ambientais que a agricultura, assim como toda permanência do homem, causa. Conhecendo esses problemas, é possível buscar novas soluções para o futuro.

A civilização humana determinará nova autopoiese sistêmica, na acepção de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio. Que é um sistema instável, muito frágil e vulnerável. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.


Referência:
http://agriculturanaturaleorganica.weebly.com/impactos-ambientais.html


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 14/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/14/impactos-ambientais-da-agricultura-artigo-de-roberto-naime/

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Impactos ambientais da agricultura, artigo de Roberto Naime


Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)



Impactos ambientais da agricultura assustam numa primeira aproximação, mas podem ser listados e discutidos sem sobressaltos.

A produção de alimentos é um dos maiores desafios do mundo moderno. A agricultura hoje produz alimentos para uma população estimada em 7 bilhões de pessoas em todo o planeta.

O crescimento populacional excessivo tem feito com que o ser humano consuma quase tudo aquilo que o planeta tem para oferecer. Com uma população tão grande, é quase utópico imaginarmos uma produção de alimentos suficiente e sem impacto algum.

Os impactos causados pelo ser humano são muitos, mas é possível reduzi-los. O ideal é que daqui a algum tempo, os nossos estudos e pesquisas consigam descobrir uma forma de produzir alimentos de forma eficiente e sem impactos no meio ambiente

Para que se possam buscar soluções aos problemas do mundo moderno, é preciso conhecer ao menos os maiores impactos causados pela atividade de maior alteração no meio ambiente que é a agricultura.

A atividade agropecuária exige desmatamento, que é a derrubada de matas originais. Não se planta e não se cria em áreas florestadas. Este fato vem sendo a causa dos maiores impactos ambientais.

Erosão que é a perda de solo causada pela associação do uso incorreto do solo associado com as chuvas e ventos. Essa perda é relevante e está retirando todas as camadas superiores do solo, chegando até as rochas, tornando o solo não-agricultável.

A terra que escorre com as chuvas, causa colmatação em rios e lagos, comprometendo sua vazão e qualidade da água.

A perda de biodiversidade é o desaparecimento por qualquer motivo de qualquer espécie animal ou vegetal devido a sua carga genética específica.

As espécies formadas durante muitos milhares de anos estão simplesmente desaparecendo com o desmatamento. Essas espécies podem ter carga genética muito peculiar e serem necessárias para a produção de medicamentos no futuro. É o fato mais relevante dentre outros incrementos para a evolução da civilização humana.

Muito se enganam os que pensam que o consumo doméstico gera os maiores gastos de água. Mais de 60% da água doce é utilizada na irrigação de campos agrícolas. O esgotamento da água doce, é outro relevante impacto ambiental.

Por mais que a produção de material vegetal capture carbono da atmosfera, o carbono liberado por atividades relacionadas supera a quantidade capturada. Esse carbono é liberado pela queima de diesel dos tratores, produção de fertilizantes e defensivos agrícolas, além da decomposição de restos de cultura. Tudo isto configura outro impacto ambiental que é a poluição atmosférica.

O uso descontrolado de adubos e defensivos agrícolas vem causando sérios problemas de contaminação de águas por resíduos e materiais lixiviados no solo, que podem causar problemas inclusive como a eutrofização e a contaminação de águas potáveis. Logo, poluição de mananciais hídricos configura relevante impacto ambiental.

O uso inadequado do solo, hoje liderado pela produção de gado e outros animais, vem desgastando os solos de forma espantosa, tornando-os quase totalmente inférteis. A utilização de mecanização rural em solos inapropriados vem causando mortandade vegetal em muitas destas áreas, que se tornam desertas. Esse é um processo muitas vezes irreversível e se denomina “desertificação”.

O avanço da agricultura sobre as matas nativas causa destruição das nascentes, por soterramento, colmatação e impermeabilização, entre outros fatores. A este fenômeno se denomina “destruição de mananciais hídricos”.

Por derradeiro, a geração de resíduos na produção animal é uma das maiores causas de impactos ambientais, principalmente devido às fezes animais geradas em animais criados em confinamento.

As fezes dos porcos, chamadas de chorume de porco e as fezes de frango, chamadas de cama de frango, entre outras, estão dentre as principais poluidoras de ambientes rurais.

Existem muitos outros impactos ambientais que a agricultura, assim como toda permanência do homem, causa. Conhecendo esses problemas, é possível buscar novas soluções para o futuro.

A civilização humana determinará nova autopoiese sistêmica, na acepção de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio. Que é um sistema instável, muito frágil e vulnerável. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.



Referência:
http://agriculturanaturaleorganica.weebly.com/impactos-ambientais.html



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 1402/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/14/impactos-ambientais-da-agricultura-artigo-de-roberto-naime/