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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Clima mais quente pode tornar os fungos mais perigosos para a nossa saúde


Esta fotomicrografia mostra Cryptococcus neoformans, um patógeno fúngico que vem causando um número crescente de infecções com risco de vida. As pessoas com AIDS e aquelas que usam drogas imunossupressoras são as mais vulneráveis.
Crédito: U.S. Centers for Disease Control / Duke University

Clima mais quente pode tornar os fungos mais perigosos para a nossa saúde

Estudo descobriu que temperaturas elevadas fazem com que um fungo patogênico conhecido como Cryptococcus deneoformans acelere a transformação de suas respostas adaptativas

Por Karl Leif Bates*, Duke University

O mundo está cheio de pequenas criaturas que nos acham deliciosos. Bactérias e vírus são os vilões óbvios, condutores de pandemias globais mortais e infecções irritantes. Mas os patógenos com os quais não tivemos que lidar tanto – ainda – são os fungos.

Fungos patogênicos (Candida, Aspergillus, Cryptococcus e outros) são notórios assassinos de pessoas imunocomprometidas. Mas, na maioria das vezes, as pessoas saudáveis não precisam se preocupar com eles, e a grande maioria dos fungos potencialmente patogênicos do planeta não se dá bem com o calor de nossos corpos.

Mas tudo isso pode estar prestes a mudar.

Um novo estudo da Duke University School of Medicine descobriu que temperaturas elevadas fazem com que um fungo patogênico conhecido como Cryptococcus deneoformans acelere a transformação de suas respostas adaptativas. Isso aumenta o número de alterações genéticas, algumas das quais presumivelmente podem levar a uma maior resistência ao calor e outras talvez a um maior potencial causador de doenças.

Especificamente, o calor mais alto faz com que mais elementos transponíveis do fungo, ou genes saltadores, se levantem e se movam dentro do DNA do fungo, levando a mudanças na maneira como seus genes são usados e regulados. As descobertas foram publicadas na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

“É provável que esses elementos móveis contribuam para a adaptação no ambiente e durante uma infecção”, disse a pesquisadora de pós-doutorado Asiya Gusa Ph.D. de Genética Molecular e Microbiologia na Duke School of Medicine. “Isso pode acontecer ainda mais rápido porque o estresse térmico acelera o número de mutações que ocorrem”.

Isso pode soar familiar aos telespectadores da nova série da HBO “The Last of Us”, onde uma paisagem infernal distópica é precipitada por um fungo adaptado ao calor que assume o controle dos humanos e os transforma em zumbis. “É exatamente desse tipo de coisa que estou falando – menos a parte do zumbi!” disse Gusa, que acabou de assistir ao primeiro episódio e que se juntará ao corpo docente da Duke como professor assistente ainda este ano.

“Estas não são doenças infecciosas no sentido transmissível; não transmitimos fungos uns aos outros”, disse Gusa. “Mas os esporos estão no ar. Inspiramos esporos de fungos o tempo todo e nosso sistema imunológico está equipado para combatê-los”.

Os esporos de fungos são geralmente maiores que os vírus, portanto, seu estoque existente de máscaras faciais contra a Covid provavelmente seria suficiente para detê-los. Isso e o calor do seu corpo, por enquanto.

“As doenças fúngicas estão aumentando, em grande parte devido ao aumento do número de pessoas com sistema imunológico enfraquecido ou problemas de saúde subjacentes”, disse Gusa. Mas, ao mesmo tempo, fungos patogênicos também podem estar se adaptando a temperaturas mais altas.

Trabalhando no laboratório da professora Sue Jinks-Robertson, Gusa conduziu uma pesquisa focada em três elementos transponíveis que eram particularmente ativos sob estresse térmico em C. deneoformans. Mas existem facilmente outros 25 ou mais elementos transponíveis nessa espécie que poderiam ser mobilizados, disse ela.

A equipe usou o sequenciamento de DNA de ‘leitura longa’ para ver mudanças que, de outra forma, poderiam ter sido perdidas, disse Gusa. A análise computacional permitiu que eles mapeassem os transposons e depois vissem como eles se moveram. “Agora melhoramos as ferramentas para ver esses movimentos que antes estavam escondidos em nossos pontos cegos.”

O estresse térmico acelerou as mutações. Após 800 gerações de crescimento em meio de laboratório, a taxa de mutações transposônicas foi cinco vezes maior em fungos criados à temperatura corporal (37 graus Celsius) em comparação com fungos criados a 30°C.

Um dos elementos transponíveis, chamado T1, tinha tendência a se inserir entre os genes codificadores, o que poderia levar a mudanças na forma como os genes são controlados. Um elemento chamado Tcn12 frequentemente aterrissava na sequência de um gene, potencialmente interrompendo a função desse gene e possivelmente levando à resistência aos medicamentos. E um terceiro tipo, Cnl1, tendia a pousar perto ou nas sequências de telômeros nas extremidades dos cromossomos, um efeito que Gusa disse não ser totalmente compreendido.

A mobilização de elementos transponíveis também pareceu aumentar mais em fungos que vivem em camundongos do que em cultura de laboratório. “Vimos evidências de todos os três elementos transponíveis se mobilizando no genoma do fungo em apenas dez dias após a infecção do camundongo”, disse Gusa. Os pesquisadores suspeitam que os desafios adicionais de sobrevivência em um animal com respostas imunes e outros estressores podem levar os transposons a serem ainda mais ativos.

“Este é um estudo fascinante, que mostra como o aumento da temperatura global pode afetar a evolução dos fungos em direções imprevisíveis”, disse Arturo Casadevall MD, PhD, presidente de microbiologia molecular e imunologia da Universidade Johns Hopkins. “À medida que o mundo esquenta, os transposons nos fungos do solo, como o Cryptococcus neoformans, podem se tornar mais móveis e aumentar as mudanças genômicas de maneiras que podem aumentar a virulência e a resistência aos medicamentos. Mais uma coisa para se preocupar com o aquecimento global!”

O trabalho de Gusa foi auxiliado pela colaboração com os laboratórios Duke, que também estudam fungos, o laboratório Joseph Heitman na escola de medicina e o laboratório Paul Magwene na Trinity Arts & Sciences.

A próxima fase desta pesquisa será olhar para patógenos de pacientes humanos que tiveram uma infecção fúngica recidivante. “Sabemos que essas infecções podem persistir e depois voltar com possíveis alterações genéticas”.

É hora de levar a sério os fungos patogênicos, disse Gusa. “Esses tipos de mudanças estimuladas pelo estresse podem contribuir para a evolução de características patogênicas em fungos tanto no ambiente quanto durante a infecção. Eles podem estar evoluindo mais rápido do que esperávamos.”

Esta pesquisa foi apoiada pelos Institutos Nacionais de Saúde (R35-GM118077, R21-AI133644, 5T32AI052080, 2T32AI052080, 1K99-AI166094-01, R01-AI039115-24, R01-AI050113-17, R01-AI133654-05)

Referência:

“Genome-Wide Analysis of Heat Stress-Stimulated Transposon Mobility in the Human Fungal Pathogen Cryptococcus deneoformans,” Asiya Gusa, Vikas Yadav, Cullen Roth, Jonathan Williams, Evan Meil Shouse, Paul Magwene, Joseph Heitman, Sue Jinks-Robertson. Proceedings of the National Academy of Sciences, Jan. 20, 2023. DOI: 10.1073/pnas.2209831120

Henrique Cortez *, tradução e edição.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 01/02/2023
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2023/02/01/clima-mais-quente-pode-tornar-os-fungos-mais-perigosos-para-a-nossa-saude/

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Coleção de Fungos da Fiocruz completa 100 anos de história

Final de 1922. O cientista Olympio da Fonseca Filho retornava ao Brasil após se especializar em micologia [estudo dos fungos] nos Estados Unidos. Consigo, desembarcava um acervo com mais de 800 exemplares desses organismos que daria origem a atual Coleção de Culturas de Fungos Filamentosos (CCFF) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).



Coleção de Fungos do IOC/Fiocruz abriga amostras históricas e mantém exemplares centenários conservados em sua técnica original (foto: Gutemberg Brito)

Nos últimos dias de 2022, quando celebrou seu primeiro centenário, a CCFF manteve viva não apenas milhares de amostras conservadas nos armários do Pavilhão Rocha Lima, no campus Manguinhos-Maré da Fiocruz (RJ), como também a visão inovadora de encontrar nos fungos as mais distintas formas de contribuição para a sociedade.

“Tudo começou quando Carlos Chagas – então diretor do IOC – enviou Olympio da Fonseca para estudar micologia no exterior. O jovem médico retornou ao país não apenas com novos conhecimentos, mas também com um amplo acervo, que no decorrer de 100 anos foi mantido por curadores que adaptaram seu uso ao longo do tempo conforme as necessidades vigentes da comunidade científica”, conta Áurea Maria Lage de Moraes, atual curadora da Coleção e chefe do Laboratório de Taxonomia, Bioquímica e Bioprospecção de Fungos do IOC/Fiocruz.

Em constante processo de manutenção e renovação, a Coleção preserva atualmente centenas de espécies de fungos filamentosos, com suas características biomorfológicas e genéticas originais, mantidas em técnicas de óleo mineral estéril, liofilização e criopreservação – a depender da necessidade de cada organismo.

“Aqui temos um testemunho das fases científicas não apenas da instituição, como também do país. Conseguimos ver as mudanças nos temas de interesse que predominavam nas diferentes épocas através dos depósitos das amostras e, ainda, vemos a evolução tecnológica por meio dos métodos de conservação”, acentua Aurea.


A liofilização é uma das técnicas de conservação das amostras, que garante a manutenção de propriedades do fungo através de congelamento (foto: Gutemberg Brito)

As cepas depositadas na CCFF são provenientes do solo, ar, material vegetal, animal e humano e possuem representação geográfica variada, com predomínio da América do Sul. De acordo com a curadora, a diversidade do material é um reflexo da expansão nos conceitos da micologia.

“Os primeiros exemplares reunidos por Olympio da Fonseca eram oriundos de alimentos, que também era a especialidade de Charles Thom, com quem Olympio se especializou em micologia. Em seguida, a Coleção teve um período no qual o depósito de amostras clínicas predominava. Mais recentemente, os depósitos passaram a ter origens diversas”, descreve.

História que vale ouro

Entre os espécimes depositados na Coleção, está a histórica cepa original do fungo Penicillium notatum, cedida pelo Instituto Butantan, usada por Alexander Fleming na descoberta da penicilina (medicamento administrado contra infecções bacterianas). Também compõem o acervo os materiais utilizados pelo cientista norte-americano Charles Thom para escrever o clássico livro The Penicillium, publicado em 1930, no qual há várias referências à CCFF.

“Além dessas cepas mais históricas, temos exemplares que são indicadores de biomas que não existem mais, muito importantes para o registro da biodiversidade. Esses fungos podem ajudar pesquisadores a entenderem melhor como eram determinadas regiões”, conta Simone Quinelato Bezerra, curadora adjunta da Coleção.

A valorosa diversidade de organismos vivos sob a guarda da CCFF tem servido de base também para a criação de outros acervos, como os da coleção da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e do Instituto Bacteriológico do Departamento de Higiene de Buenos Aires.

Prestação de serviço que perpassa gerações

O fornecimento de materiais biológicos e suas informações associadas também foi útil para a reconstituição da micoteca do Instituto Pasteur de Paris, afetada pela falta de profissionais ao longo da primeira guerra mundial, e a ampliação da Coleção do Boreau of Chemistry do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

“A prestação de serviços faz parte da história da Coleção de Fungos do IOC, mesmo antes da sua consolidação. Cepas eram fornecidas a laboratórios ainda quando Olympio reunia amostras para seu acervo durante viagens pela América do Norte e Europa. O fornecimento de material biológico é um serviço que prestamos até os dias atuais, agora de forma institucionalizada”, comenta Simone.



Aurea (esq.) e Simone observam o exemplar original do fungo ‘Penicillium notatum’ utilizado por Alexander Fleming (foto: Ricardo Schmidt)

Outros serviços que fazem parte da rotina da CCFF são caracterização taxonômica, isolamento, identificação e autenticação de fungos, assessoramento técnico-científico, fornecimento de procedimentos, consultoria e formação de recursos humanos. “A Coleção não é apenas um local para depósito de espécimes. Aqui se trabalha com os diferentes potenciais do nosso material biológico nos campos da ciência, educação, gestão e, mais recentemente, em projetos ligados à biotecnologia. Aqui se produz ciência”, destaca Simone.

A Coleção também está envolvida em colaborações interinstitucionais. No viés de restauração e manutenção, a CCFF avalia a presença de fungos em objetos históricos (como quadros, esculturas e livros) e a possibilidade de contaminação pelo ar. “Temos parcerias com organizações, museus, bibliotecas e universidades. Um dos principais exemplos é o Arquivo Nacional, que frequentemente nos procura para manutenção da boa qualidade do ar, imprescindível no armazenamento de papéis”, lembra Aurea.

Na área de engenharia para sustentabilidade, a CCFF tem cooperado com o Núcleo de Ensino e Pesquisa em Materiais e Tecnologias de Baixo Impacto Ambiental na Construção Sustentável da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Numast/Poli/Coppe/UFRJ). “Em um dos projetos do Numast, foram desenvolvidos blocos para construção e argamassas com resíduos da indústria, como pedaços de bambu e casca de arroz. Devido à base orgânica, fomos convidados para avaliar situações como biodegradação e contaminação. Nos ensaios que desempenhamos, vimos quais fungos já acompanhavam esses resíduos e contaminamos os produtos finalizados com outros fungos para testar a resistência do material”, rememora Aurea.

De olho no futuro

A perspectiva contemporânea de aproveitamento do potencial dos fungos conduz a trajetória secular e tradicional da CCFF para uma nova etapa. De acordo com as curadoras, o novo passo da Coleção é se adequar ao formato de Centro de Recursos Biológicos (CRB) – prestadores de serviço com acervos de material biológico cultivável e autenticado, com banco de dados contendo informações moleculares, fisiológicas e estruturais.

Para alcançar tal meta, o atual espaço que abriga a Coleção passará por reformas de adequação da infraestrutura. “O projeto da obra contempla o novo modelo, seguindo normas e viabilizando futuras acreditações”, revela Simone.

“Estamos trabalhando há alguns anos neste planejamento estratégico. Já nos enxergamos como um CRB em preparação e estamos profissionalizando a equipe para a nova etapa. Vamos oferecer o máximo do potencial deste rico acervo”, conclui Aurea.

Vilões ou mocinhos?

Na laranja estragada ou no jardim de casa. Na floresta ou em pratos de restaurantes. Agente etiológico de micoses em praias ou aliado na produção de medicamentos. Os fungos estão por toda parte e possuem grande diversidade.



Simone segura exemplar de fungo filamentoso cultivado em placa de Petri no Laboratório (foto: Ricardo Schmidt)

“Eles podem ser microscópicos, visíveis através de algum instrumento com lente de aumento, como o mofo que dá na laranja, ou macroscópicos, como cogumelos que aparecem no jardim. Os dois são fungos, porém pertencem a famílias e tipos diferentes”, explica Aurea.

Os fungos fazem parte de um grupo tão amplo e único que possuem classificação própria entre os cinco reinos da biologia: o Reino Fungi. No entanto, nem sempre foi assim. Os fungos já estiveram classificados junto com plantas, o que ainda causa confusão no senso comum. “Até o final da década de 1960, eles eram definidos como parte do Reino Plantae. Porém, são organismos com características próprias. Não são animais, nem plantas”, pontua a curadora.

Apesar de comumente serem lembrados por causa de espécies tóxicas, que causam doenças ou que estão relacionadas à degradação, os fungos estão presentes no cotidiano humano, geralmente de forma benéfica. “Ainda em um período não muito distante, quando se falava em fungo na divulgação científica, era devido a doenças de pele, micoses e alergias provocadas por algumas espécies. Quase não havia difusão de informação sobre o fato de também serem amplamente usados nas indústrias alimentícia, farmacêutica e têxtil, por exemplo”, frisa Aurea.

“Nas feiras de ciência e tecnologia que a CCFF participa, promovemos momentos de ludicidade com o público e mostramos que, dependendo da espécie, um fungo pode ser considerado ‘vilão’ ou ‘mocinho’, e apresentamos o que podem trazer de bom ou de ruim”, acrescenta Simone.


Fungos da Coleção cultivados em placas de Petri (foto: Gutemberg Brito)

Na versão “mocinhos”, estão presentes na alimentação em sua forma macroscópica com os cogumelos (shiitake, shimeji e champignon, entre os mais populares) e na forma microscópica com o exemplo das leveduras, usadas na confecção de pão e pizza, e do ácido cítrico, nos refrigerantes. Algumas espécies de fungos também são usadas para a produção de metabólitos que são utilizados na estilização do tecido jeans, para o desbotamento da cor sem agredir a fibra.

Já no lado “vilões”, está o cogumelo amanita, que devido à sua toxicidade é bastante representado na cultura pop, aparecendo frequentemente em jogos e desenhos animados. Também estão os fungos causadores de doenças, como a esporotricose. Endêmica no estado do Rio de Janeiro, ela é causada por espécies do gênero Sporothrix.

No entanto, as pesquisadoras destacam que, apesar de serem responsáveis por diversas outras infecções, os fungos são constantemente esquecidos em diagnósticos clínicos. “O diagnóstico de doenças fúngicas ainda é um pouco difícil. Há várias infecções provocadas por esses organismos que, devido à dificuldade inicial na identificação, os médicos costumam investigar primeiro a presença de outros agentes etiológicos. Esse espaço de tempo pode ser crucial no agravamento do quadro”, salienta Aurea.

“Os fungos são oportunistas e algumas síndromes, como a Aids ou a Covid-19, enfraquecem o sistema imunológico do paciente, tornando-o suscetível a infecções oportunistas, que podem até levar à morte”, completa Simone.

Recentemente, um artigo liderado pelo IOC/Fiocruz relatou o primeiro registro de meningoencefalite no Brasil causada pelo fungo Penicillium chrysogenum. O microrganismo provocou infecção grave no cérebro e meninges de uma paciente no município do Rio de Janeiro, levando-a a óbito.




Autor: Max Gomes (IOC/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 10/01/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/colecao-de-fungos-da-fiocruz-completa-100-anos-de-historia

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Suco de Laranja e a Necessidade de um Mercado Sustentável de Frutas



Suco de Laranja e a Necessidade de um Mercado Sustentável de Frutas

Jose Rodrigues Filho *
Maria da Guia Rodrigues Pessoa **
Robson Rogério Pessoa Coelho ***

O Brasil e o mundo são carentes de educação alimentar e alimentos, o que fragiliza a saúde e a vida de muitos.
Como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, temos um bom percentual de brasileiros passando fome. Exportamos as frutas de boa qualidade e muitas vezes comemos o que sobra. Não estamos vivenciando um mercado sustentável, que já prejudica as gerações atuais e sem pensar nas gerações futuras.

Num mundo com possibilidades de grandes pandemias, como no momento, temos que pensar numa educação alimentar sustentável e, também, num mercado sustentável de alimentos – não este que está aí.

Pesquisa realizada na Europa recentemente mostrou que menos de 40% dos profissionais de saúde conheciam o conteúdo dos sucos de frutas. Foi mostrado que profissionais médicos tinham menos de 24 horas de treinamento em nutrição durante seus anos de estudo, quando comparado com o alto conhecimento dos que tinham formação em nutrição. A população mundial gradualmente está mudando de um sistema de saúde de cura para um modelo de cuidados, onde a educação e segurança alimentar é de fundamental importância, principalmente nas empresas produtoras de alimentos. Percebe-se, assim, o desconhecimento da grande maioria da população sobre o conteúdo dos alimentos.

Estamos vendo no momento o suco de laranja tomar as páginas de revistas científicas, mostrando sua importância para o tratamento do COVID-19 (1-2). Muitos, como eu, via no suco de laranja apenas a vitamina C. As laranjas doces chamadas cientificamente de Citrus Sinensis são ricas em hesperidina, que é um antibacteriano, anti-inflamatório e antioxidante potente. A atividade antiviral da hesperidina é sugerida para medicamentos. Este componente químico não está em todas as laranjas, mas faz parte da composição de laranjas como a pera, bahia, além das clementinas e tangerinas. Assim, um copo de suco de laranja por dia aumenta a nossa imunidade, podendo proteger nosso pulmão contra uma carga viral do coronavírus, graças a hesperidina. A natureza tem de tudo para nos proteger a um custo baixo.

Na Europa, por exemplo, todos os sucos vendidos são regularmente auditados para se averiguar a segurança e composição durante o processo de produção. Com isto fica assegurado que os sucos de laranja fabricados e vendidos nos supermercados contêm um bom teor de hesperidina, se forem 100% suco de laranja e não simplesmente bebidas açucaradas, como no passado. No Brasil já se avançou muito na fiscalização, mas muito precisa ainda ser feito, quando se observa que em muitos alimentos se esconde o conteúdo de açúcar. Chupar a laranja e comer o bagaço, que contém um elevado teor de hesperidina, é uma boa opção. Lembrar, ainda, que a casca destas laranjas é rica em hesperidina e outros componentes químicos.

Em média um copo de 150ml de suco de laranja puro oferece 67,5 mg de vitamina C, que é mais de 80% do valor de referência nutricional, recomendado diariamente para a saúde. Outros valores de referência são mencionados para o folato e potássio, mas desconhecidos da maioria dos profissionais de saúde. É possível que o consumo de suco de laranja e de hesperidina seja baixo tanto na Europa como no Brasil. Já existem muitas pesquisas realizadas mostrando os nutrientes e riqueza de outros alimentos para a saúde e tratamento de doenças, mas desconhecidas dos consumidores. O conhecimento destas informações pode ampliar em muito um mercado sustentável de frutas no Brasil.

A agroindústria no Brasil tem tudo para tornar o país um grande produtor de alimentos de qualidade, visando ser um mercado sustentável fortalecendo a boa saúde dos consumidores, que já se preocupam não só com os nutrientes alimentares, mas com aditivos químicos, agrotóxicos e açucares bastante prejudiciais à saúde. Consumir já é uma grande preocupação da geração atual e, nesta era dos micróbios, bactérias, fungos e vírus, precisamos de muitas inovações para construir uma estrutura formada de plantas, frutas e alimentos para a melhoria da saúde humana. Neste caso, a segurança e educação alimentar devem ser a prioridade urgente desta nação.

Por fim, observou-se que os consumidores conhecem muito pouco do conteúdo das frutas como produtos que oferecem um grande potencial de mercado. A inovação é um importante conceito no setor agrícola que contribui para o alcance de sustentabilidade numa perspectiva econômica, social e ambiental. As informações aqui colocadas podem ser úteis aos especialistas da indústria de frutas e stakeholders interessados em investir em inovação e desenvolvimento de produtos alimentares.

1.Haggad, Y.A et al. Is hesperidin essential for prophylaxis and treatment of COVID-19 infection? Medical Hypotheses, n.144, 2020.
2.Bellavite, P & Donzelli, A. Hesperidin and SARS-COV-2: New Light on the Healthy Function of Citrus Fruits, Antioxidants, n.9, 2020.

*Jose Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá. https://jrodriguesfilho.blogspot.com/
** Maria da Guia Rodrigues Pessoa é nutricionista, com experiência executiva em Gestão de Alimentos, Marketing e Pesquisa em Dietas Sustentáveis.
*** Robson Rogério Pessoa Coelho é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutor em Engenharia de Alimentos e experiência em Armazenamento de Alimentos.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/02/2021




Autor: Jose Rodrigues Filho
Maria da Guia Rodrigues Pessoa
Robson Rogério Pessoa Coelho
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 12/02/21
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/02/12/suco-de-laranja-e-a-necessidade-de-um-mercado-sustentavel-de-frutas/

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Os desenhos de Da Vinci têm bactérias, fungos e DNA humano

Os desenhos de Da Vinci são famosos por serem elaborados com várias nuances e ideias tecnológicas avançadas. Mas uma nova pesquisa revelou outro nível de complexidade para as obras de arte de Leonardo Da Vinci: um mundo oculto de minúsculas formas de vida.

Pesquisadores relataram que as descobertas podem ajudar a construir um “catálogo” do microbioma para obras de arte. Cada uma das peças tinha uma coleção única de micróbios que poderiam ser identificados mais tarde, por meio de um estudo de sua biologia microscópica.

De modo importante, os microbiomas dos desenhos de Da Vinci tinham elementos-chave em comum suficientes para ajudar a identificar falsificações com base nas diferenças entre cada microbioma. Ou mesmo desenhos autênticos que foram armazenados em diferentes condições ao longo dos séculos.
Microbioma nos desenhos de Da Vinci



Além desses dados, os pesquisadores também mostraram que os desenhos de Da Vinci tinham um microbioma bem diferente do esperado, com várias bactérias e DNA humano. Provavelmente, por causa de séculos de manipulação pelos restauradores de arte e outras pessoas.


Desenhos estudados. Imagens: (Pinar et al., Frontiers, 2020)

Aliás, o papel dos restauradores é considerado mais importante, porque estiveram presentes os micróbios conhecidos por fazerem o papel de degradar com o tempo esses desenhos.

Portanto, o estudo é um exercício de prova de conceito, demonstrando futuramente como os microbiomas podem revelar histórias inesperadas de certas obras de arte e ajudar a detectar falsificações. Com isso, os pesquisadores examinaram o material biológico microscópico, vivo e morto, em sete dos desenhos emblemáticos do mestre.


Surpreendentemente, encontraram uma diversidade de bactérias, fungos e DNA humano.
A história que os materiais biológicos contam


A maior parte desse material coletado possivelmente pousou nos desenhos de Da Vinci bem depois de sua morte, 501 anos atrás. Então, o DNA (ou a boa concentração dele, pelo menos) vem de outras pessoas que manipularam os desenhos ao longo dos séculos.

Mas os novos materiais biológicos têm histórias para contar. A maior surpresa, relatada pelos pesquisadores, foi a alta concentração de bactérias nas obras de arte, especialmente comparando aos fungos.

A descoberta foi considerada excepcional, porque estudos anteriores mostraram fungos com a tendência de dominar microbiomas nos objetos de papel como esses desenhos. Entretanto, nesse caso, uma quantidade alta de bactérias de humanos e insetos (provavelmente, moscas que depositaram suas fezes) estavam presentes.


Excrementos de insetos. (Pinar et al., Frontiers, 2020)

“Ao todo, insetos, restauradores e a localização geográfica parecem ter deixado um traço invisível aos olhos nos desenhos”, disseram os pesquisadores em comunicado. Só é difícil dizer se alguns desses contaminantes são originários da época em que Leonardo Da Vinci estava os esboçando.



Realmente, a maior parte do DNA veio de pessoas que restauraram a obra a partir do século 15. Porém, a equipe ainda não analisou o material genético de forma detalhada para ver de quem especificamente pode ter vindo.

Concluindo, os pesquisadores usaram uma nova ferramenta chamada Nanopore, método de sequenciamento genético que decompõe e analisa rapidamente o material genético para estudar detalhadamente os diferentes materiais biológicos.

Estudo publicado na revista Frontiers in Microbiology .




Autor: AMANDA DOS SANTOS
Fonte: socientifica
Sítio Online da Publicação: socientifica
Data: 22/11/20
Publicação Original: https://socientifica.com.br/desenhos-de-da-vinci/

sexta-feira, 16 de março de 2018

Estudo desenvolvido na UFRRJ testa controle biológico com fungos do mosquito Aedes aegypti



Amostra dos fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana, utilizados no controle natural de mosquitos (Foto: Divulgação/UFRRJ)


Alguns fungos podem ajudar, naturalmente, no combate a mosquitos, como o Aedes aegypti, transmissor de vírus que causam doenças como dengue, zika, febre amarela urbana e chikungunya, e o inseto conhecido popularmente como “mosquito-palha”, do gênero Lutzomyia, responsável pela transmissão do agente etiológico da leishmaniose. Denominados fungos entomopatogênicos, pela capacidade de parasitar e até de matar esses insetos, agindo como “inseticidas” biológicos, eles são o objeto de um estudo desenvolvido na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), no município fluminense de Seropédica, sob a coordenação da professora e médica veterinária Isabele da Costa Angelo, que é Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ.

“O objetivo da pesquisa é testar a eficácia de isolados fúngicos, selecionando os mais virulentos, que tenham potencial de controle sobre os mosquitos Aedes aegypti e Lutzomyia sp”, diz Isabele, professora do Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública. No Laboratório de Controle Microbiano, localizado no Instituto de Veterinária da UFRRJ e chefiado pela médica veterinária Vânia Bittencourt, que é Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, a equipe envolvida no projeto testa os efeitos da aplicação dos fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana, considerados promissores no controle biológico de diferentes espécies de invertebrados, incluindo mosquitos e carrapatos.

Ao entrarem em contato com esses invertebrados, os fungos normalmente aderem à superfície externa do corpo deles, na forma de esporos microscópicos – geralmente esporos assexuados, denominados conídios. Quando submetidos a condições adequadas de temperatura e umidade elevada, esses esporos germinam, desenvolvem hifas e colonizam a cutícula do inseto, podendo perfurá-la e atingir a cavidade corporal do inseto, causando sua morte.


A partir da esq., as pesquisadoras Vânia Bittencourt, Isabele Angelo e Patrícia Gôlo (Foto: Divulgação/UFRRJ)

“Estamos desenvolvendo uma formulação líquida, à base de fungos e óleo natural de aroeira, que protege os fungos contra a radiação solar, para ser adicionada em locais de risco, que costumam acumular água e onde nascem as larvas de mosquitos. No laboratório, estamos testando a virulência de isolados de fungos, nas formas de conídio e blastosporos. Os resultados preliminares já indicam que os blastosporos são ainda mais virulentos quando comparados com os conídios”, conta Isabele. “Em uma segunda etapa do projeto, ao longo desse ano de 2018, vamos testar também a eficácia dessa formulação no combate a mosquitos na fase adulta”, acrescentou.

A grande vantagem da pesquisa é propor a utilização de um método de controle biológico desses mosquitos, totalmente natural. “O desenvolvimento de formulações que potencializem a virulência desses fungos é um passo extremamente importante para a implementação de novas estratégias de controle desses mosquitos. A ideia não é substituir totalmente o uso de produtos químicos, mas pelo menos minimizar o seu uso, a partir de um manejo integrado de controle. Reduzir o uso de inseticidas artificiais é importante para gerar menos impactos ambientais e evitar danos a humanos e animais, além de ser bastante eficaz”, destacou.

Inseticidas sintéticos têm sido utilizados para o controle de larvas e adultos de Aedes aegypti, entretanto vários estudos mostraram a resistência desse mosquito a três importantes grupos de inseticidas: organofosforado, piretroides e carbamatos. “O uso indiscriminado de pesticidas químicos também apresenta essa desvantagem. Já o controle biológico não gera resistência por parte dos insetos e têm se mostrado uma alternativa importante para reduzir a sobrevivência desses mosquitos, que são vetores de diversas doenças tropicais que representam um enorme prejuízo à saúde pública”, concluiu.

Além de Vânia e Isabele, participam da equipe: na UFRRJ, a professora Patrícia Gôlo, o professor Douglas Chaves, a pós-doutoranda Mariana Guedes Camargo, o doutorando Ricardo O. B. Bitencourt, a mestranda Fernanda Souza Faria e as doutorandas Nathália Alves de Senne e Jéssica de Paulo Fiorotti; na Universidade Federal de Goiás (UFG), os professores Everton Kort Kamp Fernandes e Caio Marcio de Oliveira Monteiro; na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRCB), o professor Wendell Marcelo de Souza Perinotto; e na Utah University State/USA, o doutor Donald Roberts.



Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 15/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3538.2.3

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Estudo identifica 23 mil fungos e bactérias em celulares; risco vai de micoses até infecções respiratórias





Um estudo feito com celulares identificou nos equipamentos a presença de até 23 mil fungos e bactérias que podem provocar doenças como micoses, conjuntivite, intoxicações alimentares, além de infecções respiratórias e urinárias. A pesquisa da Devry Metrocamp, em Campinas (SP), alerta para a necessidade de limpeza dos produtos e indica quais são os grupos mais vulneráveis.


"As crianças têm hábito de pegar os celulares dos pais, e principalmente as pessoas que já estão com sistema imunológico debilitado", explica a biomédica e doutora em ciências de alimentos Rosana Siqueira, orientadora da pesquisa realizada pela aluna Claudia Tonetti.


Durante a análise, foram usados 20 celulares, cinco tablets e as capas de proteção dos aparelhos, além de 12 teclados e respectivos mouses. Entre as 74 amostras, diz o estudo, o microorganismo predominante foi a bactéria Staphylococcus aureus, presente em 43% dos objetos avaliados. O micro-organismo costuma estar associado às infecções de pele, como furúnculo, além de abcessos e infecções das vias aéreas superiores, entre elas, otites e sinusites. Em alguns casos, pode causar até meningite. Além disso, foram constatadas as presenças de bolores e coliformes fecais nos telefones avaliados.



O que pode ser feito?



A especialista em biomedicina destaca que a contaminação não ocorre pelo uso do telefone e atribui o problema à falta de higienização das mãos após contato do usuário com o equipamento.


"Às vezes você vai se alimentar, vai preparar um alimento, corre o risco de coçar os olhos com as mãos contaminadas, têm pessoas que têm hábito de roer as unhas, então isso acaba sendo prejudicial", alerta Rosana.


Entre as outras formas de prevenção contra as enfermidades, diz a pesquisa, estão: uso do álcool em gel, limpar os acessórios com álcool isopropílico - que não danifica as partes elétricas - e mantê-los em local seco e arejado.


Autora: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 06/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/estudo-identifica-23-mil-fungos-e-bacterias-em-celulares-risco-vai-de-micoses-ate-infeccoes-respiratorias.ghtml