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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A ameaça de epidemia que surge de nova espécie de mosquito Aedes detectada pela 1ª vez nas Américas



Biovigilância de mosquitos em Guantánamo encontrou em 2019 o Aedes vittatus pela primeira vez no hemisfério ocidental — Foto: Ben Pagac


Durante a noite de 18 de junho de 2019, na base americana em Guantánamo, Cuba, um intruso foi pego por uma armadilha.


Soldados dali estão acostumados a se preparar contra eventuais tentativas de fuga de prisioneiros. A base é conhecida como um lugar onde os EUA aprisionam, por tempo indeterminado e muitas vezes sem julgamento, suspeitos de envolvimento em planos extremistas na chamada "guerra ao terror".


É incomum que um intruso seja avistado ali. E, para complicar, nunca ninguém havia visto um intruso daqueles naquela região.


Trata-se do Aedes vittatus, uma das 3,5 mil espécies de mosquitos encontradas ao redor do mundo — e, assim como o Aedes aegypti (transmissor da dengue e zika, por exemplo), capaz de carregar parasitas ou patógenos perigosos à saúde humana.


O perigo adicional é que o Aedes vittatus consegue carregar quase todas as perigosas doenças transmitidas por todos os mosquitos, com exceção da malária.



"Estar em contato próximo com esses mosquitos não é uma boa notícia", diz Yvonne-Marie Linton, pesquisadora-diretora da Walter Reed Biosystematics Unit e curadora de quase 2 milhões de espécimes na coleção de mosquitos do Instituto Smithsonian, nos EUA.




O Aedes vittatus é endêmico no subcontinente indiano, na Ásia, e até agora nunca havia sido avistado no continente americano.



Ele é "comprovadamente um vetor de vírus de chikungunya, zika, dengue, febre amarela e muitas outras doenças", segundo a equipe que o identificou.


O mais provável é que as primeiras espécimes tenham viajado para Cuba na forma de ovos em algum contêiner de navio ou em uma aeronave. Provavelmente, sua proliferação no Caribe e sul dos EUA será também intermediada pelo homem: as mudanças climáticas estão encurtando os invernos da América do Norte, permitindo que os mosquitos procriem muito mais vezes em uma única temporada — consequentemente, espalhando mais vírus.




Aedes vittatus encontrado em Cuba; ele é vetor para doenças como febre amarela, zika e chikungunya — Foto: Ben Pagac


Mosquitos chamam muito menos atenção do que, por exemplo, as chamadas "vespas assassinas" identificadas em 2020 na América do Norte. Originárias do Japão, elas se espalharam pela região do Pacífico Noroeste norte-americano, matando colônias de abelhas.


"Há um paralelo entre as vespas assassinas e o Aedes vittatus no fato de que vieram de fora - estão em uma área onde não existiam antes", afirma Ben Pagac, entomologista do Comando de Saúde Pública do Exército americano, que conduz biovigilância na região do Caribe.


O deslocamento do mosquito, diz ele, é uma lição a respeito dos perigos que o comércio e as viagens humanas oferecem à dispersão de doenças zoonóticas pelo planeta.



Doenças transmitidas por mosquitos matam mais de 1 milhão de pessoas e infectam quase 700 milhões por ano — quase 1 em cada dez pessoas na Terra.


E seu efeito é historicamente devastador. O historiador Timothy C. Winegard, autor do livro O Mosquito, de 2019, acredita que esses insetos chegaram a ser usados como arma biológica: na guerra do Peloponeso, de 415 a 413 a.C., os espartanos atraíram os atenienses a pântanos repletos de mosquitos. "A malária matou ou incapacitou mais de 70% das tropas (atenienses)", escreve Winegard.


Alguns dos guerreiros mais conhecidos da história foram mortos por doenças transmitida por mosquitos, como Genghis Khan e (segundo uma teoria) Alexandre, o Grande.


E, à medida que as mudanças climáticas deixam os invernos da América do Norte mais curtos e menos frios, Linton e seus colegas advertem em seu estudo que mosquitos podem, em breve, causar "epidemias que seriamente ameaçam a saúde pública".




Uma guerra diferente




Militares americanos já enfrentam mosquitos desde a Segunda Guerra Mundial e pesquisam os insetos desde os anos 1950, afirma Linton.



"Mais soldados morreram na Guerra do Vietnã de doenças transmitidas por mosquitos do que em combate ou por tiros", diz a pesquisadora. Mesmo hoje, "20 das 50 principais doenças que afetam os militares são transmitidas por vetores".




Muitos dos quase 200 mil soldados americanos na ativa alocados no exterior estão em áreas tropicais onde nunca haviam estado antes, o que significa que não têm imunidade para os patógenos dessas regiões.


Quinhentos anos atrás, a situação era reversa. Foram Cristóvão Colombo e seus acompanhantes europeus que trouxeram os mosquitos ao chamado Novo Mundo, espalhando novos patógenos entre os nativos do continente americano.


"Cientistas concordam que as Américas passaram milhares de anos livres de malária até os europeus chegarem", escreve Sonia Shah em seu livro The Fever (A Febre, em tradução livre).



Além disso, parasitas trazidos por colonos vindos da Inglaterra aos EUA nos anos 1600 se espalharam das pessoas aos mosquitos — e deles de volta às pessoas.


Navios que viajavam pelo Caribe carregavam mosquitos que transmitiam a febre amarela e a malária pela costa do Atlântico. Essas doenças foram devastadoras para as comunidades nativas, e também para colonos.


"Antes da Revolução (que levou à independência americana), havia ao menos 30 grandes focos de epidemia de febre amarela nas colônias britânicas norte-americanas, afetando todos os grandes centros urbanos e portos na costa que vai da Nova Scotia (província do Canadá) à Geórgia (Estado ao sul dos EUA)", escreve Winegard.


Graças a pesticidas e medidas como drenagem de pântanos, as doenças transmitidas por mosquitos reduziram consideravelmente no século 20. No entanto, desde 1999, epidemias nas Américas voltam a colocar os mosquitos no centro das atenções.


Primeiro, foi o vírus do Nilo Ocidental, que passou de pássaros infectados a mosquitos e deles a humanos, matando centenas de americanos entre 1999 e 2003. Até hoje, são registrados centenas de casos por ano da doença.


Depois, temos a dengue, a chikungunya e a zika — este último causou uma epidemia em 2016, resultando no nascimento de centenas de bebês com síndrome congênita pelo vírus da zika no Brasil. Até o fim de 2016, segundo a OMS, 48 países e territórios do continente americano registraram mais de 175 mil casos confirmados da doença transmitida pelo mosquito no continente americano.


E a dengue infectou no Brasil, apenas no ano passado, mais de 970 mil pessoas, segundo contagem até novembro do Ministério da Saúde.


Eventos como a epidemia de 2013-14 da chikungunya no Caribe e a de zika no Brasil devem se tornar cada vez mais frequentes. E, quando se chega ao nível de uma epidemia, costuma ser tarde demais para contê-la.




"É algo inesperado. Acontece como foi com a Covid-19. Pega todos de surpresa", afirma Linton. E, quando governos reagem tentando comprar e distribuir insumos e medicamentos, se veem disputando esses itens entre si, ela agrega.




Daí a importância, ressalta a pesquisadora, em estarmos mais preparados, fazendo o que ela chama de biovigilância: "ativamente procurar por vetores que possam ser problemáticos".


"Se você não conhecer seu inimigo, não conseguirá combatê-lo", diz.


Esse é justamente o trabalho de Linton: identificar, classificar e avaliar os riscos causados por mosquitos a soldados americanos nos EUA e fora.


"E foi assim que descobrimos o (mosquito Aedes vittatus) em Cuba", conta.




Aedes vittatus




Desde 2016, especialistas em medicina preventiva colecionam amostras de mosquitos encontradas ao redor da base de Guantánamo. A cada semana, é colocada uma armadilha, geralmente perto dos locais onde civis e militares dormem. A armadilha atrai os insetos com luz, e um ventilador os suga a um compartimento. Às vezes, são sugados até 3 mil insetos.


Depois de uma triagem, os mosquitos são enviados a um laboratório militar em Maryland, nos EUA, onde são analisados por pesquisadores.


Em junho de 2019, "olhando pelo microscópio, vimos que um deles parecia diferente", explica Pagac.



"Tinha um padrão (de manchas brancas) no tórax que era completamente diferente de qualquer coisa que tivéssemos visto antes."




Era o Aedes vittatus.


"Isso nos deixou de olhos esbugalhados: não era apenas algo estranho, mas que poderia ter sérias implicações de saúde."



Depois de triagem em Guantánamo, mosquitos são levados para análise em laboratórios dos EUA — Foto: Ben Pagac



Imediatamente, Pagac alertou Linton.


A dupla então comparou o DNA desse espécime com o de outras populações de mosquitos e concluiu que sua provável origem é a Índia.


"Sabia que isso não era bom", diz Linton. "Sabia que (o mosquito) era invasivo, nunca tinha sido visto nas Américas antes e é um vetor muito eficiente de dengue, chikungunya, zika e febre amarela."


A descoberta do mosquito levantou uma questão importante: será que esse intruso em Guantánamo ser o culpado pelos surtos recentes de zika, dengue e outras doenças no Caribe?




Viagens globais




Para responder essa pergunta, Linton e sua equipe primeiro precisavam entender como o mosquito havia chegado a Guantánamo.


Eventos naturais, como furacões, são conhecidos por transportar mosquitos entre as ilhas caribenhas. Mas humanos, com seus caminhões, navios e aviões, podem inadvertidamente levar pequenos vetores de doenças como mosquitos de modo mais rápido e mais longe do que qualquer tempestade.


Linton e Pagac sabiam também que o Aedes vittatus é o que entomologistas chamam de "reprodutor em contêineres".



"Seus ovos toleram a desidratação, podem ser levados de um lugar a outro e, assim que chegam em uma superfície de água, eles emergem", conta Linton. "Se o clima for quente e úmido, eles sobrevivem."




Essa característica fez Linton se recordar de outra espécie de mosquito que, 40 anos atrás, se espalhou da mesma maneira: o Aedes albopictus, o mosquito tigre asiático. No sul da Ásia, o mosquito havia sido vetor de dengue, febre amarela e chikungunya. Daí, em 1979, alguns de seus ovos foram transportados acidentalmente à Albânia em um carregamento de pneus usados, que costumam ficar largados em portos acumulando água — e criando um ambiente perfeito para o mosquito proliferar.


"Desde então, ele viajou e se estabeleceu em quase todos os países do mundo", conta Linton.


Ela e seus colegas acreditam que possa estar acontecendo o mesmo com o Aedes vittatus. Cuba, afinal, é uma ilha - e contêineres de navios são perfeitos para transportar não só produtos, como ovos de mosquitos.





Como impedir o vittatus de avançar




Imediatamente após a identificação do mosquito, a Unidade de Medicina Preventiva da Marinha americana em Guantánamo começou a pulverizar inseticidas em duas áreas residenciais perto do local onde os primeiros espécimes foram encontrados. E também passaram a coletar mais amostras dos mosquitos, com a ajuda de armadilhas especiais.


Ainda assim, os mosquitos não pararam de aparecer. Em dezembro de 2019, larvas do Aedes vittatus foram encontradas a menos de 50 m do local original. Em laboratório, produziram dez espécimes masculinos e sete femininos. Em 24 de fevereiro de 2020, outra fêmea do vittatus foi encontrada na armadilha, seguida por outros quatro mosquitos em 2 de março, a 1 km do local original.


Em 18 de abril, o temor dos cientistas de que o mosquito pudesse se espalhar para além de Cuba se concretizou: o inseto foi identificado na República Dominicana, a 206 km de Cuba. E o mais alarmante é que esses espécimes não tinham a mesma composição molecular dos de Guantánamo, o que significa que parecem ter vindos por conta própria do Sudeste Asiático.


"Parece ter uma rota de comércio global trazendo esses mosquitos ao Caribe", afirma Linton, que teme que outros espécimes do vittatus estejam "se escondendo bem diante dos nossos olhos" em outras ilhas caribenhas.


"Se ele está na República Dominicana, também com certeza está no Haiti (os dois países compartilham uma ilha)", diz ela. "Presumimos que também esteja na Jamaica, Puerto Rico e pode já estar na Flórida" ou em outros Estados do sul dos EUA.



Para especialistas, só biovigilância coordenada (como a feita acima em Guantánamo) é capaz de evitar proliferação de mosquitos perigosos à saúde humana — Foto: Alexandra Spring



Se não houver ação rápida de equipes de saúde pública, pode ser apenas uma questão de tempo até que o mosquito se espalhe mais. Essa ação tem de incluir a destruição de ambientes onde o mosquito procria, a pulverização de químicos ou bactérias em águas paradas e o uso de armadilhas.


Mas parte do que torna os mosquitos tão difíceis de serem contidos é que "eles se adaptam ao habitat e aos objetos humanos", explica Linton. "Colocamos fontes de passarinhos e piscinas infantis nos jardins, e ali o mosquito aparece."


Para dificultar, o vittatus pica durante o dia, o que significa que métodos tradicionais — como fechar portas e janelas e usar mosquiteiros para dormir - são ineficientes.


E apenas pulverizar inseticida não vai resolver o problema, adverte Pagac. É preciso incorporar medidas ao dia a dia, como eliminar todos os locais que possam armazenar água parada.




Mudanças climáticas




A mudança climática acelerada pela ação humana também está ajudando o vittatus — que adora climas quentes e úmidos — a continuar a avançar.


Um mosquito costuma botar ovos 36 horas depois de picar sua vítima e, se esse hospedeiro estiver infectado, o vírus passará adiante. Em seguida, serão produzidos 100 a 120 ovos infectados, já carregando a doença.


Normalmente, há talvez seis novas gerações de mosquito ao longo de um ano qualquer. Mas isso está mudando.


"Esses invernos brandos e estações mais longas que estamos tendo significam que mosquitos têm a chance de produzir dez gerações (no ano), em vez de seis", adverte Linton. "Isso significa que eles têm mais tempo de adquirir vírus" antes de serem impedidos pelo frio do inverno.


Os humanos, no entanto, não estão à deriva no combate. Processos de biovigilância como o sendo feito em Guantánamo podem ajudar a prever (e daí enfrentar) o local de onde as doenças se espalham. Mas a não ser que programas robustos e coordenados de biovigilância sejam implementados ao redor do mundo, quando de fato um novo vetor for encontrado, pode já ser tarde demais para contê-lo, diz Linton.



Um bom ponto de partida é focar em "hubs" de viagem. Em anos recentes, por exemplo, a Inglaterra registrou casos da chamada "malária de aeroporto" — casos de malária causados por mosquitos que chegaram ao país com aviões.


Hoje, aeroportos ao redor do mundo são equipados com armadilhas de luz para esses mosquitos.


Mas, mesmo assim, "atualmente há oito vezes mais pacientes de malária em clínicas e hospitais da Europa do que nos anos 1970", escreve Shah.


Já no caso do Aedes vittatus, "pode ser um dos poucos exemplos em que (ainda) estamos na dianteira" para contê-lo, adverte Pagac. E financiamento a pesquisas permitiria monitorar e antecipar o avanço de mosquitos, para que então governos nacionais e locais possam pôr em prática campanhas com métodos conhecidos, como pulverização, combate a água parada e ensinamentos a pessoas sob risco (por exemplo, uso de repelentes e roupas que cubram braços e pernas).


Em um mundo abalado pela Covid-19, tudo isso pode parecer um desafio complexo. Mas, para Linton e Pagac, não podemos deixar que seja uma oportunidade perdida para impedir a próxima potencial pandemia.


*Esta reportagem é parte da série Stopping the Next One (ou Impedindo a Próxima), que analisa quais doenças têm o potencial de causar a próxima pandemia global e os cientistas que estão tentando impedir que isso aconteça. Para ler a versão original desta reportagem em inglês na BBC Future, clique aqui. Esta reportagem foi apoiada com financiamento do Pulitzer Center.




Autor: Jacob Kushner, BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1
Data: 22/01/21
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/

terça-feira, 7 de abril de 2020

Combate ao Aedes Aegypti: prevenção e controle da Dengue, Chikungunya e Zika

Combate ao Aedes Aegypti - #CombataOMosquito

Combate ao Aedes Aegypti: dengue, zika, febre amarela e chikungunya
O Ministério da Saúde convoca a população brasileira a continuar, de forma permanente, com a mobilização nacional pelo combate ao mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya, doenças que podem gerar outras enfermidades, como microcefalia e Guillain-Barré, o Aedes Aegypti.
O período do verão é o mais propício à proliferação do mosquito Aedes aegypti, por causa das chuvas, e consequentemente é a época de maior risco de infecção por essas doenças. No entanto, a recomendação é não descuidar nenhum dia do ano e manter todas as posturas possíveis em ação para prevenir focos em qualquer época do ano.
Por isso, a população deve ficar atenta e redobrar os cuidados para eliminar possíveis criadouros do mosquito. Essa é a única forma de prevenção. Faça a sua parte. #CombateAedes
DENUNCIE FOCOS DO MOSQUITO AEDES AEGYPTI:  Quando o foco do mosquito Aedes Aegypti é detectado e não pode ser eliminado pelos moradores ou pela população, como em terrenos baldios ou lixos acumulados na rua, a Secretaria Municipal de Saúde deve ser acionada para remover os possíveis focos/criadouros. Faça sua parte!


Autor: Ministerio da Saúde
Fonte: Ministerio da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministerio da Saúde
Data: 07/04/2020
Publicação Original: https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/combate-ao-aedes

sexta-feira, 5 de abril de 2019

No STF, MPF reitera que pulverização aérea para conter mosquito Aedes Aegypti é inconstitucional

A pulverização aérea para conter o mosquito Aedes Aegypti é inconstitucional – Manifestação foi durante julgamento de ação direta de inconstitucionalidade proposta pela Procuradoria-Geral da República em 2016




Foto: João Américo/Secom/PGR

Em sessão no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quinta-feira (4), o subprocurador-geral da República Antônio Carlos Bigonha – representando a procuradora-geral da República, Raquel Dodge – defendeu que a pulverização aérea para conter o mosquito Aedes Aegypti é inconstitucional. O tema entrou em debate durante o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.592, proposta em setembro de 2016 pela Procuradoria-Geral da República. A ação questiona a pulverização de substâncias químicas por aeronaves para conter doenças causadas pelo mosquito Aedes Aegypti, autorizada pela Lei 13.301/2016. O julgamento foi suspenso por falta de quórum e não há data para ser retomado.

Em sustentação oral, Bigonha reiterou os argumentos da ação, de que a norma contida no artigo 1º, parágrafo 3º, inciso IV da Lei 13.301/2016, ofende a preservação do meio ambiente e traz riscos à saúde humana. Segundo o subprocurador, “a previsão legal está em total descompasso com preceitos constitucionais, entre os quais, o dever do Estado de preservar e promover ambiente equilibrado”. Ele também ressaltou que é duvidosa a efetividade da dispersão aérea de substâncias para reduzir a reprodução do mosquito vetor das doenças dengue, chikungunya e zica.

“A atuação legislativa ocorreu na contramão de estudos técnicos e do posicionamento de entidades públicas e privadas, contrários à pulverização de produtos químicos com os mesmos princípios ativos daqueles utilizados na agricultura por aeronaves, como mecanismo de combate ao Aedes Aegypti”, argumentou. Para o representante do MPF, a previsão legal constitui evidente violação ao dever da União de manutenção do equilíbrio ambiental e ao princípio da vedação de retrocesso socioambiental.

Saúde – Antonio Bigonha também sustentou que a pulverização aérea de produtos químicos, além de não contribuir de maneira eficaz para combater o Aedes Aegypti, provoca importantes malefícios à saúde humana. “Substâncias tóxicas serão pulverizadas diretamente sobre regiões habitadas e atingirão residências, escolas, creches, hospitais, clubes de esporte, feiras, comércio de rua e ambientes naturais, meios aquáticos como lagos e lagoas e centrais de fornecimento de água para consumo humano”, apontou. De acordo com o subprocurador, é incompatível com a ordem constitucional previsão legal que admita medida cujos efeitos positivos à saúde e ao ambiente não tenham sido comprovados, e que a maior parte da informação disponível sugere que seja ineficiente e danosa.

Fonte: Procuradoria-Geral da República

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/04/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: Procuradoria-Geral da República
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 05/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/05/no-stf-mpf-reitera-que-pulverizacao-aerea-para-conter-mosquito-aedes-aegypti-e-inconstitucional/

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Música eletrônica reduz picadas e reprodução do mosquito Aedes aegypti, aponta estudo



Mosquito Aedes aegypti — Foto: Pixabay/Divulgação


Pesquisadores da Universidade Malaysia Sarawak, na Malásia, estudaram os efeitos da música eletrônica no mosquito Aedes Aegypti, transmissor de doenças como dengue, zika, febre amarela e chikungunya. Para o teste, eles escolheram a música "Scary Monsters and Nice Sprites", do produtor Skrillex (ouça abaixo), e constataram que enquanto a música tocava os mosquitos se reproduziram menos e também picaram menos.


Em insetos, vibrações de baixa frequência facilitam a hora do acasalamento, mas barulhos podem atrapalhar sua percepção de sinais vindos de outros insetos e de humanos.


"No caso dos mosquitos, o som emitido por eles vem do batimento das asas (o mesmo zumbido que escutamos no ouvido) e o batimento das asas possui uma frequência específica tanto para os machos quanto para as fêmeas. Para a cópula, essas frequências podem ser alteradas e 'acertadas' entre machos e fêmeas, para que entrem numa sintonia", explica ao G1 Tamara Lima-Câmara, do Departamento de Epidemiologia da USP, que não participou do estudo.


Outros estudos tentaram entender como é a resposta de mosquitos às músicas, já que é conhecido que eles respondem à frequências sonoras além das mais básicas. Porém, nenhum estudo havia tentado entender o impacto da música como possível agente repelente.


Segundo Tamara, as antenas dos mosquitos funcionam como órgãos sensoriais que percebem vibração e são sensíveis a ondas sonoras, por isso existe a ideia de repelentes ultrassônicos, que não são perceptíveis aos ouvidos humanos, mas afastariam os mosquitos.


"Um desses sons ultrassônicos imitaria, por exemplo, o batimento das asas de predadores de mosquitos. Entretanto, não há confirmação científica da eficiência desse método de repelência", diz.



Abaixa o som!



Para a pesquisa, os cientistas, criaram dois ambientes: um com e outro sem música e compararam as taxas de visitação, alimentação e reprodução dos mosquitos em cada um.


As fêmeas de Aedes expostas à música visitaram o ambiente mais tarde que o normal, menos vezes e também se alimentaram menos. Além disso, os mosquitos expostos à música copularam muito menos do que os mosquitos no ambiente sem música.


O estudo pode abrir caminho para que novas formas de repelentes ultrassônicos sejam testadas, mas Tamara alerta que é preciso mais avanços.


"Associações entre música e animais já foram feitas anteriormente. No caso dos mosquitos, por perceberem ondas sonoras, talvez a música seja percebida também. Mas é importante lembrar que o experimento foi realizado com a música tocando bem próxima dos mosquitos, o que invalida a ideia de colocar som alto dentro de casa para espantar as picadas".




Autor: G1 Saúde
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data: 04/04/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/04/musica-eletronica-reduz-picadas-e-reproducao-do-mosquito-aedes-aegypti-aponta-estudo.ghtml

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Vírus Zika compromete a capacidade de voo do Aedes aegypti

A edição de outubro da revista ‘Memórias do Instituto Oswaldo Cruz’ está disponível para acesso gratuito online. O periódico reúne oito artigos sobre temas de importância para a saúde pública. Entre os destaques, está um estudo sobre os efeitos da infecção pelo vírus Zika no comportamento do mosquito Aedes aegypti. Os pesquisadores analisaram os impactos na atividade locomotora, produção e viabilidade de ovos. Fêmeas do mosquito foram infectadas por via oral com o vírus, por meio de um alimentador artificial, e mantidas em gaiolas para oviposição e contagem dos ovos. A atividade locomotora foi verificada em uma média de 5, 6 e 7 dias após a alimentação.

Os resultados mostraram que não houve diferença significativa no número ou na viabilidade de ovos. A diminuição da atividade locomotora apontada pela pesquisa pode reduzir a mobilidade dos mosquitos. Este fator pode explicar o agrupamento de casos em domicílios relatado durante os surtos de Zika, como aconteceu no Rio de Janeiro, em 2015. No entanto, a pesquisa destaca que os mosquitos ainda são capazes de disseminar e transmitir o vírus, especialmente em locais onde existem muitas opções de criadouros.

O periódico também apresenta pesquisa sobre um patógeno emergente, a bactéria Raoultella planticola, associada a casos raros de infecções do trato biliar e do trato urinário, e bacteremia (presença bacteriana no sangue). O estudo apresenta avanços no conhecimento do genoma do microrganismo, que acomete, em geral, pacientes imunocomprometidos, como receptores de órgãos transplantados, e indivíduos com câncer ou diabetes.

A edição traz, ainda, um estudo que buscou otimizar a detecção, pela técnica de PCR multiplex, do fungo Histoplasma capsulatum, responsável por uma infecção micótica sistêmica conhecida como histoplasmose.

Clique aqui e acesse todos os artigos.

Reportagem: Lucas Rocha
03/10/2018
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)



Autor: Lucas Rocha
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 03/10/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/virus-zika-compromete-capacidade-de-voo-do-aedes-aegypti

terça-feira, 19 de junho de 2018

Jovem brasileira cria gel de combate ao Aedes aegypti


Luisa Hamra desenvolveu um método de baixo custo para o controle da população do mosquito Aedes aegypt

A população de Aedes aegypti é uma preocupação anual para grande parte das cidades e municípios brasileiros. Durante o verão, quando as altas temperaturas e os índices pluviométricos são maiores em lugares de clima tropical e subtropical, as condições se tornam favoráveis para a reprodução do mosquito e para eclosão dos ovos depositados previamente, que podem resistir até 450 dias sem contato direto com a água.


O crescimento populacional do mosquito gera, como consequência, o aumento no número de casos das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti: chikungunya, dengue, febre amarela e zika. Segundo o boletim da Secretaria de Vigilância e Saúde, somente nas três primeiras semanas de 2018, foram registrados 9.399 casos prováveis de dengue no Brasil, 43,3% deles na região Sudeste.

Nascida em Catanduva, no interior do Estado de São Paulo, Luisa Hamra, 19 anos, presenciou no início de 2015 a maior epidemia de dengue da história do município. Naquele ano, foram registrados, até o final de março, mais de 10.000 casos da doença, em uma população de 118 mil habitantes, ou seja, um cidadão infectado para cada 11 moradores. Somente na família de Luisa, mais da metade teve dengue. “Tenho 11 parentes na cidade e sete já foram contaminados. Logo, existia o dobro do risco de contraírem a doença de novo, que é quando ela fica muito mais séria e pode ser até a versão hemorrágica.”

Luisa conta que, diante da situação, decidiu estudar por conta própria a morfologia e o comportamento do Aedes aegypti. Em suas pesquisas, descobriu não só que o mosquito consegue identificar locais com potencial para se tornarem focos de água parada como também que a forma mais utilizada de combate ao mosquito, o fumacê, um veículo com pulverizador de inseticida acoplado, é ineficaz. “O Aedes aegypti é extremamente resistente e tem uma capacidade de mutação genética muito grande. O fumacê só atinge mosquitos que estiverem voando, mas o hábito da espécie é passar a maior parte do tempo parada. Logo, isso [o fumacê] só faz com que eles fiquem mais resistentes e não elimina os criadouros”, explica Luisa. Para piorar, em março de 2015, um dos componentes utilizados no inseticida, Malathion, foi classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como potencial cancerígeno.

Depois de identificar os hábitos e a estrutura morfológica da larva do mosquito, Luisa, que em 2015 tinha 16 anos e cursava o segundo ano do ensino médio, chegou a um método para combater a proliferação do Aedes aegypti. Ao somar os conhecimentos em química adquiridos na escola às suas pesquisas na internet, a estudante desenvolveu no banheiro de sua casa, com equipamentos caseiros e componentes encontrados em produtos de supermercados, um gel adesivo capaz de matar as larvas do Aedes aegypti.


O gel, fixado em locais propícios para se tornarem focos de proliferação, tem comportamento similar ao ovo do mosquito, já que só é ativado quando em contato direto com a água. O produto tem a capacidade de destruir as larvas do Aedes aegypti em menos de 24 horas e de repelir o mosquito com a ação da citronela. Desta forma, evita que haja nova desova no local onde está o adesivo. Segundo a estudante, uma única unidade pode manter o lugar livre da praga por, pelo menos, duas semanas.

A iniciativa da jovem repercutiu internacionalmente. Em 2016, entre 73 inscritos, Luisa teve seu projeto premiado pelo concurso Village to Raise a Child, promovido pelo núcleo de colaboração e inovação social da Universidade de Harvard. A competição contemplou cinco iniciativas de jovens empreendedores que propuseram soluções a problemas enfrentados por suas comunidades. Em 2017, os estudantes escolhidos passaram por uma semana de capacitação na Universidade de Harvard, receberam recursos para o financiamento de seus projetos, além de apresentarem suas ideias no Igniting Innovation Summit, evento que aborda inovações sociais.

No momento, o produto desenvolvido pela jovem está em fase de patente, com previsão de finalização ainda neste ano. Para a estudante, a viabilidade de fabricação do adesivo é alta, devido ao baixo custo de produção e a simplicidade do processo.

Luisa, que estuda administração graças a um financiamento do programa Líderes, da Fundação Estudar, organização sem fins lucrativos criada pelo empresário Jorge Paulo Lemann, diz que atualmente procura empresas do segmento de produtos de limpeza para uma possível parceria na produção do gel. “Não vejo o produto como farmacêutico porque ele não é tratamento, mas sim prevenção. Eu o encaro mais como um item de limpeza. Uma pessoa que vai à farmácia está, boa parte das vezes, doente, à procura de um remédio. Já uma pessoa que vai ao supermercado, na seção de produtos de limpeza, quer manter o local limpo e prevenir doenças.”




Autor: Forbes Brasil
Fonte: Forbes Brasil
Sítio Online da Publicação: Forbes Brasil
Data de Publicação: 24/04/2018
Publicação Original: http://forbes.uol.com.br/negocios/2018/04/jovem-brasileira-cria-gel-de-combate-ao-aedes-aegypti/

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Estudo associa a cor da casca do ovo do Aedes aegypti com sua sobrevivência em locais secos


Comparação entre os níveis de melanina de diferentes mosquitos: à esq., no alto, detalhe da casca de ovo preta do Aedes aegypti, ao lado de ovo marrom escuro do Anopheles; e, abaixo, de casca marrom clara, do Cullex (Foto: Divulgação/Uenf)


Uma relação inusitada pode ajudar a compreender melhor o ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti – transmissor de doenças como a dengue, chikungunya, febre amarela e zika – e, quem sabe assim, levar a soluções mais eficazes para combatê-lo: quanto mais escura é a casca do ovo de um mosquito, mais tempo ele sobrevive em ambientes secos. E justamente por ser bem escura, a casca do Aedes aegypti parece proteger melhor o mosquito e fazer com que ele resista mais tempo fora da água, por até um ano. Essa característica, de resistir tanto tempo em ambientes secos, dificulta bastante o combate ao mosquito. Essa foi a conclusão de um estudo interinstitucional, que envolve pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, e que teve como desdobramento a publicação de artigo na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases (confira o link aqui).

“Uma das causas da maior resistência do Aedes aegypti, quando comparamos com outras espécies de mosquito, é a grande quantidade de melanina presente na casca dos seus ovos. Esse pigmento, também encontrado na pele humana, é responsável pela cor escura dos ovos, que são pretos”, resumiu o coordenador do estudo, o biomédico e professor Gustavo Lazzaro Rezende, do Centro de Biociências e Biotecnologia da Uenf. Também fazem parte do grupo de pesquisa as doutoras Denise Valle – que foi a orientadora de doutorado de Gustavo – e Luana Farnesi, ambas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), além da doutoranda Helena Vargas, do Programa de Pós-Graduação em Biociências e Biotecnologia da Uenf.

Os ovos do Aedes aegypti são bem pequenos – medem cerca de 0,6 mm – e adquirem rapidamente resistência contra a perda de água. Passadas apenas 15 horas da postura, eles já são capazes de resistir a longos períodos de ressecamento, podendo sobreviver por até um ano em ambientes secos. Assim, por essa resistência, os ovos aguentam mesmo quando são transportados a longas distâncias, em recipientes secos, e são capazes de sobreviver por muitos meses até o verão seguinte, quando o clima quente e chuvoso oferece condições propícias para que ocorra sua eclosão e a formação das larvas e, em seguida, do mosquito adulto. Para se ter ideia, uma fêmea adulta pode dar origem a mil mosquitos durante a sua vida, que dura, em média, apenas 30 dias.


A partir da esq., Denise, Gustavo, Luana e a doutoranda Helena:
trabalho em equipe e publicação de artigo na PLOS (Foto: Divulgação)


Um dado inédito no estudo foi a comparação da resistência dos ovos do Aedes aegypti, em ambientes secos, com a de outras espécies. “Vimos que os ovos dos mosquitos do gênero Culex, que transmitem filariose, sobrevivem por apenas cinco horas. Já os dos mosquitos do gêneroAnopheles, transmissores da malária, resistem por cerca de um dia. Não por acaso, a cor da casca do ovo do Aedes aegypti é preta, enquanto a do Anopheles é marrom escuro e a do Culex é marrom muito clara”, contou Gustavo, que conta com apoio da FAPERJ em suas pesquisas, por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado.

No trabalho, os pesquisadores demonstraram que essas diferenças de sobrevivência no seco estão relacionadas com o grau de melanização da casca dos ovos. “Quanto mais escuros são os ovos, mais resistentes no seco. Confirmamos que a melanina aumenta a sobrevivência dos ovos fora da água ao estudar um mosquito mutante do gênero Anopheles, que não é capaz de melanizar corretamente, durante pesquisa realizada por Luana Farnesi no período em que fez doutorado-sanduíche na Universidade da Flórida. Essa colaboração científica foi importante, pois esse mosquito mutante só existe nos Estados Unidos, e por ser uma espécie natural América do Norte não poderia ser trazida para o Brasil”, explicou.

Mas qual a relação entre a cor dos ovos e o tempo de sobrevivência do mosquito? Os cientistas ainda não sabem exatamente ao certo. Gustavo explica que uma das hipóteses é de que a melanina pode atuar como uma molécula hidrofóbica, que repele as moléculas de água, e ajudaria a evitar a perda de água do ovo, que ocorre naturalmente pela casca, quando os ovos estão no seco. “Aliada à presença de uma fina película que se desenvolve debaixo da casca, denominada cutícula serosa, a melanina então exerceria o papel de uma “barreira” biológica”, conclui Gustavo, que dará continuidade nos estudos investigando, dessa vez, a relação hídrica dos ovos na linha de evolução dos insetos, comparando, por exemplo, colêmbolos, besouros e libélulas.




Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 07/06/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3579.2.4

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Aedes aegypti pode ser coinfectado por dengue e zika




Um estudo realizado pelo Grupo de Entomologia Médica da Fiocruz Minas, em parceria com a Fundação Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado, mostrou que o Aedes aegypti pode ser infectado simultaneamente por vírus da zika e da dengue. Os pesquisadores também descobriram que, ao picar um hospedeiro vertebrado, o mosquito coinfectado transmite preferencialmente o vírus da zika. O estudo foi publicado recentemente na revista Journal of Infectious Diseases, órgão oficial da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores coletaram 2501 ovos do mosquito, utilizando-os para iniciar uma colônia. As larvas resultantes da eclosão desses ovos – um total de 600- foram criadas até a fase adulta, quando foram separadas em 3 grupos. Um grupo passou a ser alimentado por sangue contaminado pelos vírus da dengue; outro recebeu sangue infectado por Zika; e o terceiro com as duas doenças. Posteriormente, os insetos passaram por um teste que comprovou que quase a totalidade dos coinfectados (por zika e dengue) estava contaminada pelos dois vírus.

“Um dos méritos desse estudo foi comprovar que o Aedes aegypti pode se contaminar por vírus de dengue e zika ao mesmo tempo. Isso significa que certamente temos mosquitos circulando no Brasil coinfectados por vírus dessas duas doenças, uma vez que nosso país é área endêmica para ambas”, afirma o pesquisador da Fiocruz Minas Paulo Pimenta, que, juntamente com a pesquisadora Nágila Secundino, coordenou o estudo.

Igualmente relevante foram os resultados que se referem ao potencial de transmissão desses dois vírus. Segundo o estudo, camundongos submetidos à picada dos mosquitos coinfectados tiveram uma taxa de contaminação pelo zika de 100%. O percentual contrasta com a taxa de transmissão da dengue, que foi de 20%. Além disso, esses 20% infectados por dengue também estavam por Zika, indicando que o Aedes pode transmitir, para um mesmo indivíduo, as duas doenças.

“Por que o zika vírus tem sido mais eficaz em transmissão ainda é uma incógnita. Vimos, pelas nossas análises, que a intensidade da infecção nos mosquitos coinfectados foi maior para o zika do que para o vírus da dengue. Assim, uma das hipóteses é que haja uma maior disponibilidade do vírus da zika na saliva do vetor para ser injetado no hospedeiro”, observa o pesquisador.

Outra possibilidade, segundo os coordenadores da pesquisa, é que o vírus da zika, por ter entrado mais recentemente no Brasil, seja mais agressivo ao entrar no organismo do mosquito, tendo a capacidade de se multiplicar mais rapidamente.

“Em todas as análises feitas, sempre encontramos nos mosquitos infectados, inclusive naqueles que só receberam um tipo de vírus, maior quantidade de zika presente nos órgãos do mosquito em comparação com o dengue. Pode ser que, devido ao fato de os dois vírus terem um ciclo similar, a entrada de um segundo vírus seria bloqueada -neste caso, o da dengue-, que teria sua multiplicação mais retardada”, destaca Pimenta.

Os questionamentos gerados pelo estudo vão além. A coinfecção comprovada nesta pesquisa levanta a possibilidade real de que o fenômeno possa ocorrer também com outros vírus, como o chikungunya. Já existe na literatura a demonstração da coinfecção dele com o da dengue.

“Será que, neste caso, também existe interferência viral e a preferência de um dos vírus no momento da picada?”, questionam os pesquisadores. Segundo eles, são perguntas que ainda precisam ser respondidas e que remetem a várias outras, uma vez que os vírus da dengue, zika, e chikungunya estão circulando, simultaneamente, em grandes áreas geográficas.

“Uma pessoa pode ser infectada tanto pela picada de um único mosquito coinfectado ou por dois mosquitos monoinfectados por vírus distintos. A coinfecção por mais de um arbovírus terá implicações epidemiológicas importantes. Infecções mistas nos seres humanos poderão apresentar sintomas ainda mais complexos, tornando o diagnóstico clínico e até mesmo o manejamento desses pacientes um desafio ainda maior”, ressalta.

Intitulado Coinfection with Zika and Dengue Viruses results in preferential Zika transmission by vector bite to vertebrate host, o estudo foi realizado no município de Manaus, no final do ano passado. A pesquisa é fruto da tese de doutorado de Bárbara Chaves, aluna do curso de pós-graduação da Universidade Estadual de Manaus e FMT-HVD, orientada pelos pesquisadores da Fiocruz Minas Paulo Pimenta e Nágila Secundino, que também atuam como professores na unidade manauense. Também participaram do estudo a Johns Hopkins Bloomber School of Public Healthdos EUA, entre outras instituições nacionais e internacionais. A pesquisa foi financiada pela Renezika, através do MCTI-CNPq/ MEC-Capes/ MS-Decit. Publicado no final de abril, o artigo já conta com 1800 visualizações, 200 downloads e 63 tweeters.


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Autor: Fiocruz Minas
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 17/05/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/aedes-aegypti-pode-ser-coinfectado-por-dengue-e-zika

sexta-feira, 16 de março de 2018

Estudo desenvolvido na UFRRJ testa controle biológico com fungos do mosquito Aedes aegypti



Amostra dos fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana, utilizados no controle natural de mosquitos (Foto: Divulgação/UFRRJ)


Alguns fungos podem ajudar, naturalmente, no combate a mosquitos, como o Aedes aegypti, transmissor de vírus que causam doenças como dengue, zika, febre amarela urbana e chikungunya, e o inseto conhecido popularmente como “mosquito-palha”, do gênero Lutzomyia, responsável pela transmissão do agente etiológico da leishmaniose. Denominados fungos entomopatogênicos, pela capacidade de parasitar e até de matar esses insetos, agindo como “inseticidas” biológicos, eles são o objeto de um estudo desenvolvido na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), no município fluminense de Seropédica, sob a coordenação da professora e médica veterinária Isabele da Costa Angelo, que é Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ.

“O objetivo da pesquisa é testar a eficácia de isolados fúngicos, selecionando os mais virulentos, que tenham potencial de controle sobre os mosquitos Aedes aegypti e Lutzomyia sp”, diz Isabele, professora do Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública. No Laboratório de Controle Microbiano, localizado no Instituto de Veterinária da UFRRJ e chefiado pela médica veterinária Vânia Bittencourt, que é Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, a equipe envolvida no projeto testa os efeitos da aplicação dos fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana, considerados promissores no controle biológico de diferentes espécies de invertebrados, incluindo mosquitos e carrapatos.

Ao entrarem em contato com esses invertebrados, os fungos normalmente aderem à superfície externa do corpo deles, na forma de esporos microscópicos – geralmente esporos assexuados, denominados conídios. Quando submetidos a condições adequadas de temperatura e umidade elevada, esses esporos germinam, desenvolvem hifas e colonizam a cutícula do inseto, podendo perfurá-la e atingir a cavidade corporal do inseto, causando sua morte.


A partir da esq., as pesquisadoras Vânia Bittencourt, Isabele Angelo e Patrícia Gôlo (Foto: Divulgação/UFRRJ)

“Estamos desenvolvendo uma formulação líquida, à base de fungos e óleo natural de aroeira, que protege os fungos contra a radiação solar, para ser adicionada em locais de risco, que costumam acumular água e onde nascem as larvas de mosquitos. No laboratório, estamos testando a virulência de isolados de fungos, nas formas de conídio e blastosporos. Os resultados preliminares já indicam que os blastosporos são ainda mais virulentos quando comparados com os conídios”, conta Isabele. “Em uma segunda etapa do projeto, ao longo desse ano de 2018, vamos testar também a eficácia dessa formulação no combate a mosquitos na fase adulta”, acrescentou.

A grande vantagem da pesquisa é propor a utilização de um método de controle biológico desses mosquitos, totalmente natural. “O desenvolvimento de formulações que potencializem a virulência desses fungos é um passo extremamente importante para a implementação de novas estratégias de controle desses mosquitos. A ideia não é substituir totalmente o uso de produtos químicos, mas pelo menos minimizar o seu uso, a partir de um manejo integrado de controle. Reduzir o uso de inseticidas artificiais é importante para gerar menos impactos ambientais e evitar danos a humanos e animais, além de ser bastante eficaz”, destacou.

Inseticidas sintéticos têm sido utilizados para o controle de larvas e adultos de Aedes aegypti, entretanto vários estudos mostraram a resistência desse mosquito a três importantes grupos de inseticidas: organofosforado, piretroides e carbamatos. “O uso indiscriminado de pesticidas químicos também apresenta essa desvantagem. Já o controle biológico não gera resistência por parte dos insetos e têm se mostrado uma alternativa importante para reduzir a sobrevivência desses mosquitos, que são vetores de diversas doenças tropicais que representam um enorme prejuízo à saúde pública”, concluiu.

Além de Vânia e Isabele, participam da equipe: na UFRRJ, a professora Patrícia Gôlo, o professor Douglas Chaves, a pós-doutoranda Mariana Guedes Camargo, o doutorando Ricardo O. B. Bitencourt, a mestranda Fernanda Souza Faria e as doutorandas Nathália Alves de Senne e Jéssica de Paulo Fiorotti; na Universidade Federal de Goiás (UFG), os professores Everton Kort Kamp Fernandes e Caio Marcio de Oliveira Monteiro; na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRCB), o professor Wendell Marcelo de Souza Perinotto; e na Utah University State/USA, o doutor Donald Roberts.



Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 15/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3538.2.3

quinta-feira, 15 de março de 2018

Nova evidência sobre a alta resistência dos ovos do Aedes aegypti à desidratação

Após uma bateria de análises que envolveu mais de 20 mil ovos de quatro espécies de mosquitos, incluindo o Aedes aegypti, pesquisadores identificaram que o grau de presença de melanina, relacionada à pigmentação escura, na casca do ovo influencia diretamente sua resistência à dessecação: quanto mais escuro, mais o ovo conseguirá sobreviver em ambientes secos. Como o ciclo de vida dos mosquitos depende de uma fase aquática – é em ambientes com água que os ovos são depositados – entender a resistência do ovo à dessecação significa responder questões sobre a própria sobrevivência das espécies em ambientes hostis e sua manutenção na natureza mesmo após períodos de seca prolongada. Conduzida por especialistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, em colaboração com a Universidade da Flórida, a pesquisa foi publicada na revista internacional ‘Plos Neglected Tropical Diseases’.

Inicialmente, foram comparados ovos das espécies Aedes aegypti (transmissor de zika, dengue e chikungunya), Anopheles aquasalis (malária) e Culex quinquefasciatus (filariose linfática e vírus do Oeste do Nilo). Estudos anteriores já haviam demonstrado que os ovos do gênero Aedes apresentam um traço peculiar: são capazes de resistir de oito a 15 meses sem nenhum contato com a água. Ou seja, os ovos permanecem viáveis para eclodir e dar origem a mosquitos adultos mesmo um ano mais tarde. A pesquisa atual preenche uma lacuna na literatura científica apontando a melanina da casca de ovos de insetos, especialmente do Aedes, como uma das razões que explica essa elevada resistência ao ressecamento.

Primeira autora do artigo, a bióloga, especialista em Entomologia Médica, Luana Farnesi, que atualmente desenvolve o pós-doutorado no Laboratório de Biologia Molecular de Insetos do IOC e realizou o estudo ao longo do curso de doutorado no Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do Instituto, explica que o resultado pode lançar luz ao desenvolvimento de novas estratégias de controle do mosquito. Afinal, hoje não existem produtos disponíveis para impedir o desenvolvimento do vetor ainda na fase de ovo – e as alternativas de inseticidas para controle de larvas e de mosquitos adultos esbarram no desafio crescente da resistência por conta do uso indiscriminado. “Ao gerar novos conhecimentos sobre o papel da melanina para a resistência dos ovos, avançamos no conhecimento básico desta fase do ciclo biológico do mosquito que, comparativamente com as outras fases, ainda é pouco estudada. Avanços no conhecimento dos ovos podem abrir um possível caminho para o controle”, salientou.


Luana Farnesi analisando alguns dos mais de 20 mil ovos de mosquitos (Foto: Josué Damacena)

Ao mesmo tempo, a descoberta reforça o papel fundamental da prevenção, a partir da ação semanal em nossas casas, com a remoção manual de potenciais criadouros onde esses ovos podem ser depositados. A evidência trazida pelo estudo em relação ao alto grau de resistência à dessecação dos ovos, que permite que eles sejam transportados a grandes distâncias em recipientes secos, sem serem percebidos justamente por serem escuros, demonstra a necessidade do combate continuado aos criadouros, em todas as estações do ano. “Este achado reforça a orientação sobre a necessidade de não apenas jogarmos fora a água encontrada em um recipiente, mas de esfregarmos a parede do local com a parte verde da esponja. Isso irá esmagar os ovos, inviabilizando que chegue à fase de mosquito adulto, capaz de transmitir doenças a partir da picada”, alerta a pesquisadora Denise Valle, do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC, que juntamente com o biomédico Gustavo Rezende, da UENF, orientou Luana. “É mais fácil controlar o Aedes em suas fases aquáticas - de ovo, larva e pupa –, pois está confinado em um local, do que na fase adulta, quando pode voar e se esconder”, completa. A bióloga Helena Martins Vargas, da UENF, também assina o artigo.

Em busca de evidências
Para alcançar os resultados, foi preciso percorrer um longo caminho de experimentos no laboratório. Primeiro, uma comparação entre os ovos das espécies Aedes aegypti, Culex quinquefasciatus e Anopheles aquasalis evidenciou diferenças significativas na fase da embriogênese, quando o ovo, colocado pela fêmea, ainda está concluindo sua formação. O experimento consistiu em retirá-los do contato com a água em diferentes momentos do desenvolvimento embrionário e colocá-los em um ambiente seco. Os ovos de Aedes levaram a melhor: foram muito mais resistentes que os de Culex e os de Anopheles.



Em detalhe, ovos do mosquito Aedes aegypti (Foto: Josué Damacena)

Como no momento de mudança de ambiente todos os ovos já haviam produzido sua cutícula serosa, uma espécie de película protetora que está envolvida na retenção da água dentro do ovo, os especialistas precisavam, ainda, descobrir o fator adicional que configurava ao Aedes essa característica avançada. Neste momento, foi levantada a possibilidade de que a cor do ovo influenciaria em sua sobrevida fora d’água. Comparados aos ovos do Aedes que eram os mais escuros, os ovos de Anopheles e Culex apresentavam 80% e 40% de taxa de melanização, respectivamente.

Foi então que entrou no experimento uma nova espécie, o Anopheles quadrimaculatus. Para testar a hipótese de que a cor interfere na resistência ao ressecamento, foram analisadas uma linhagem selvagem do mosquito, que deposita ovos de coloração escura, e uma linhagem geneticamente modificada, que também tem a cutícula serosa, mas que produz ovos de coloração clara. Os testes realizados com as três espécies inicialmente contempladas no estudo – Aedes aegypti, Anopheles aquasalis e Culex quinquefasciatus – foram repetidos com as duas linhagens do Anopheles quadrimaculatus na Universidade da Flórida, onde Luana cursou parte do doutorado. O resultado não deixou dúvidas: a resistência do ovo à dessecação nos mosquitos é fortemente dependente da formação da cutícula serosa, ao mesmo tempo em que a melanização da casca do ovo afeta positivamente sua sobrevivência fora da água.

“A introdução dessas duas linhagens na pesquisa foi fundamental para respondermos à pergunta biológica sobre a importância da melanização como indicador da resistência dos ovos à perda de água. Vimos que a casca de ovos da espécie geneticamente modificada, que possuía coloração mais clara, perdia água mais rapidamente do que a casca de ovo da linhagem selvagem, de cor escura. De todos os testes que realizamos, essa foi a única diferença biológica entra elas, evidenciando o importante papel da melanina para a manutenção da espécie”, explicou Luana, que, desde 2003, desenvolve estudos sobre os mecanismos ligados à impermeabilidade de ovos do Ae. aegypti.

De olho no controle do Aedes
O estudo gera novas pistas sobre uma das numerosas características evolutivas que conferem ao Aedes uma elevada taxa de sobrevivência. Silencioso e de medida milimétrica, ele é capaz de picar uma pessoa e passar despercebido. A saliva das fêmeas, que se alimentam de sangue como parte do processo de maturação dos ovos, possui substâncias anestésicas e anticoagulantes que a possibilitam sugar até duas vezes seu peso em sangue sem ser incomodada. Com essa alimentação, ela é capaz de dar à luz uma geração com cerca de 1500 novos mosquitos, ao longo de seus pouco mais de 30 dias de vida. Essa família extensa é derivada de uma estratégia, digamos, interessante: os ovos, de cor escura, são distribuídos por diversos criadouros, muitos também de cores escuras, como vasos de plantas e pneus; de difícil acesso, como calhas, caixas d’água e bandejas de ar-condicionado; ou não convencionais, como vasilhas de água de animais.

Para mais informações, conheça a iniciativa 10 Minutos Contra o Aedes e acompanhe o conjunto de videoaulas Aedes aegypti: introdução aos aspectos científicos do vetor.

Autor: Vinicius Ferreira
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 14/03/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/nova-evidencia-sobre-alta-resistencia-dos-ovos-do-aedes-aegypti-desidratacao

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Consultoria estima que Brasil perdeu R$ 2,3 bilhões em um ano com doenças do Aedes





Mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, morto sobre o dedo de uma mulher. doença, vetor, inseto, transmissores, contágio, mosquitos. -HN- (Foto: Betina Carcuchinski/PMPA)


Um levantamento divulgado nesta terça-feira (30) estimou o prejuízo na economia brasileira devido à transmissão de zika, dengue e chikungunya em 2016. De acordo com a empresa de consultoria e pesquisa Sense Company, o impacto direto e indireto chegou a R$ 2,3 bilhões. Naquele ano, o Brasil teve quase 2 milhões de casos de doenças relacionadas ao Aedes aegypti.


Estimativa do impacto devido a dengue, zika e chikungunya por região

Região Combate ao vetor Custos médicos diretos Custos indiretos
Sudeste R$ 487 milhões R$ 110 milhões R$ 180 milhões
Nordeste R$ 477 milhões R$ 104,9 milhões R$ 178 milhões
Norte R$ 178,5 milhões R$ 8,2 milhões R$ 13,2 milhões
Centro-Oeste R$ 120,7 milhões R$ 26,7 milhões R$ 43,1 milhões
Sul R$ 128,2 milhões R$ 9,1 milhões R$ 15,1 milhões

Fonte: Sense Company


Os dados foram pedidos à consultoria pela empresa Oxitec, que trabalha com estratégias de controle a insetos transmissores de doenças. Os resultados mostram que o dinheiro investido no combate ao vetor – repasses federais e compra de pesticidas – representou 64,6% do valor total. Os custos médicos diretos, que estão relacionados ao tratamento das doenças nas fases agudas, são 16,4% dos gastos. Já os custos indiretos, que impactam devido às faltas dos trabalhadores e à perda da produtividade, significam 18,9% do prejuízo do país.


O Nordeste, apesar de concentrar mais casos de zika e chikungunya, perdeu menos dinheiro que o Sudeste, onde houve uma maior concentração de dengue. Os pesquisadores responsáveis dizem que o número total de R$ 761 milhões em perdas no Nordeste é "uma cifra conservadora", já que não leva em conta os custos dos tratamentos da síndrome congênita do vírus da zika, em que uma das consequências é a microcefalia.




"A gente incluiu os custos de tratamento agudo dos episódios de zika, mas a gente não incluiu os custos das complicações de longo prazo", disse a pesquisadora Vanessa Teich, autora do estudo.


Metodologia


A consultoria demorou cerca de cinco meses para conseguir as informações. Para levantar os repasses para o combate ao vetor, Vanessa disse que os valores foram retirados de fontes oficiais, de portarias do Ministério da Saúde que definem verbas para os estados e municípios.


"Existem alguns repasses, entre eles o Piso Fixo de Vigilância em Saúde. Essa é uma verba que é usada no combate para todas as doenças. Nós conseguimos algumas estimativas de que 60% a 70% desse dinheiro é usado no combate ao Aedes", explicou.
Estados com mais gastos referentes às doenças do Aedes
Valores em milhões de reais são apenas do ano de 2016
Estado323,9323,9255,4255,4192,4192,4157,3157,3128,2128,2Minas GeraisSão PauloBahiaRio de JaneiroPernambuco050100150200250300350

São Paulo
R$ 255,4

Fonte: Sense Company


Com base nessas estimativas de 60% a 70%, retiradas de reportagens, Vanessa e os pesquisadores somaram o total usado pelos órgãos públicos no combate aos vetores. O gasto com inseticidas e larvicidas, informado pelo governo federal, também está incluído neste número.


Já os custos médicos foram contabilizados de acordo com os números do Sistema Único de Saúde (SUS) disponíveis.


"Estamos considerando em nosso estudo todos os casos de arboviroses tratados pelo SUS, com os dados hospitalares disponíveis", informou Vanessa.



Já os custos indiretos, que representam o prejuízo devido às faltas dos pacientes infectados ao trabalho e a queda na produtividade, foram calculados de acordo com uma metologia usada em um estudo internacional.


"Inicialmente, fizemos uma estimativa de anos de vida perdidos. Mas isso traz muita incerteza. Então, fomos mais conservadores e consideramos o custo indireto apenas com relação aos dias que o indivíduo falta ao trabalho", completou.


Autor: Carolina Dantas, G1
Fonte: G1
Sítio Online da Publicação: G1
Data de Publicação: 26/01/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/aedes-aegypti/noticia/consultoria-estima-que-brasil-perdeu-r-23-bilhoes-em-um-ano-com-doencas-do-aedes.ghtml

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Febre amarela, do século XIX a 2018: o que Oswaldo Cruz faria nos dias de hoje? artigo de Sucena Shkrada Resk

Final do século XIX e 2018. Neste ir e vir da história, a questão sanitária no Brasil é ainda o calcanhar de aquiles que permeia a condução da gestão pública no país. Hoje o aumento do número de casos comprovados e suspeitos de febre amarela silvestre (pelos vetores Haemagogus ou o Sabethes, que transmitem o vírus RNA) acenderam a luz amarela para a versão urbana da doença, sobre a qual não há registros desde 1942, cujo vetor é o Aedes Aegypti.

Por que a situação exige extrema vigilância? O Brasil enfrenta um surto, em especial, em municípios do Sudeste que se tornaram pautas recorrentes das manchetes dos grandes veículos de imprensa, como a de hoje – “Sobe para 13 o número de mortos por febre amarela, desde o ano passado…” ou “Minas Gerais tem 21 cidades com alto risco de febre amarela”. Em 2018, o país continua a computar uma estatística de perda de vidas por causa da doença. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou no ano passado alterações do genoma viral da febre amarela, o que está requerendo aprofundamento, segundo os pesquisadores. O Ministério da Saúde chegou a anunciar em 2017, que o país estava livre do surto, mas vimos que a situação é outra. Entre dezembro do ano anterior e agosto de 2017, houve a confirmação de 777 casos, sendo que 261 resultaram em óbito.

A vacina entra no calendário vacinal. A necessidade de prevenção se amplia, porque as regiões mais afetadas têm alta densidade demográfica e retratam que o desenvolvimento à custa de uma precária infraestrutura de saneamento ambiental é um dos pontos mais fragilizados dos governos. Afinal, nas áreas urbanas, onde o vetor da doença é o Aedes Aegypti, há maior temor, pois a época de chuvas começou e o perigo da existência de centenas de criadouros é grande. Fazendo uma retrospectiva, seria interessante saber o que sanitaristas pioneiros como Oswaldo Cruz (1872-1917) e Emílio Ribas (1862-1925) diriam a respeito deste cenário atual, não é?

Ações consorciadas

Oswaldo Cruz tinha uma visão racional do que era necessário realizar ações consorciadas para combater as causas e efeitos da doença, no ano de 1903, como é descrito em sua biografia. Apesar de muitos considerarem que sua postura era radical, as suas ações foram de relevante importância em um país que vivia sucessivas epidemias. Tanto que uma das primeiras medidas que tomou no Rio de Janeiro, que sofria com a febre amarela, foi de iniciar uma campanha e incorporar à Diretoria da Saúde Pública, o pessoal médico e da limpeza pública do município. Com isso, o número de mortes caiu consideravelmente.

O sanitarista se pautava em uma visão holística do problema. Para isso, adotava o critério de multas e intimações a proprietários que não zelavam pela higiene e condições sanitárias dos imóveis; ao mesmo tempo, brigadas anti-mosquitos para atuar na limpeza dos possíveis criadouros e encaminhamento dos doentes para devido tratamento.

As medidas que tomava eram inspiradas na então teoria do médico cubano Carlos Finlay de que o transmissor da doença (nas áreas urbanas) era o mosquito Aedes aegypti, na época conhecido como Stegomyia fasciata ou Culex aegypti, nestes últimos anos tão conhecido por nós associado também à Dengue, à Febre chikungunya e ao Zika Vírus. Um questionamento pertinente: onde está o gargalo da vigilância sanitária no país? Será uma política que lida só com sazonalidades e não é de longo prazo? Ficam as perguntas.

Agora, nas áreas silvestres, o Haemagogus ou o Sabethes, que estão causando apreensão em municípios principalmente do Sudeste, desencadearam os processos de vacinação em massa em várias regiões. Os animais silvestres (primatas) contaminados estão sento sentinelas, de certa forma. Infelizmente as suas mortes revelam o perigo presente. Pode parecer óbvio, mas o contágio a humanos pelos mosquitos perde fronteiras, desde que o mesmo esteja infectado. A circulação de pessoas pelo país é uma constante.

O Ministério da Saúde fez um acompanhamento maior da doença pela última vez, em 2008, quando à época houve uma campanha nacional. Agora a atenção a este novo surto aciona o MS, principalmente com o encaminhamento das vacinas a todos os estados, em especial para a BA, ES, MG, RJ e SP. Cerca de 40 milhões de doses até o momento. Agora, não é mais só uma exigência quando viajamos às então chamadas áreas de riscos.

Neste processo histórico, é interessante observar que a vacina começou a ser fabricada, nos anos 40, pela Fiocruz, com financiamento do então empresário norte-americano Rockfeller (e não, por investimento interno). O cerco contra a doença se estabelecia e agora vimos se repetir a necessidade, no século XXI. Falar em febre amarela não está circunscrito mais à região amazônica e cerrado principalmente. A chamada febre amarela urbana, por via de transmissão pelo Aedes Aegypti, passa a ser uma possibilidade iminente, segundo especialistas. Diante da proliferação da mosquito-fêmea nos últimos anos e a incidência de chuvas, que facilita a eclosão dos ovos, a preocupação redobra.

E fica a pergunta: como o sanitarista Oswaldo Cruz avaliaria e agiria, no contexto atual da febre amarela no país? Talvez seja preciso recobrar o ontem para avaliar as conduções do hoje…

* Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 26 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.







in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/01/2018




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 11/01/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/01/11/febre-amarela-do-seculo-xix-2018-o-que-oswaldo-cruz-faria-nos-dias-de-hoje-artigo-de-sucena-shkrada-resk/

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Projeto da Fiocruz PE sobre controle do Aedes é indicado para prêmio

O projeto Tecnologias integradas para controle biológico, mecânico e genético de Aedes aegypti, coordenado pela Fiocruz PE, foi indicado pela Facepe e Secretaria de Saúde do Estado (SES/PE) como o representante de Pernambuco para disputar o Prêmio de Incentivo em Ciência, Tecnologia e Inovação para o SUS – 2017. O trabalho, coordenado pela pesquisadora do departamento de Entomologia Alice Varjal, está classificado na categoria “Experiências exitosas do programa pesquisa para o SUS: gestão compartilhada em saúde – PPSUS”. Na próxima e última etapa os vencedores serão escolhidos por uma comissão julgadora.






















A coordenadora Alice Varjal, à frente, e a equipe envolvida na pesquisa (Foto: Fiocruz Pernambuco


O prêmio visa valorizar a comunidade científica que contribui para o desenvolvimento das políticas públicas de saúde no país. Em sua décima sexta edição, contou com 522 projetos inscritos em cinco categorias: Trabalho Científico Publicado; Tese de Doutorado; Dissertação de Mestrado; Produtos e Inovação em Saúde e Experiência Exitosa do Programa Pesquisa para o SUS: gestão compartilhada em saúde – PPSUS. A divulgação dos premiados acontecerá durante o evento Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde 2017: conectando pesquisas e soluções, no dia 29 de novembro, às 19h, em São Paulo. Acesse a lista completa dos classificados para a segunda etapa do prêmio, em todas as categorias.


Sobre o projeto - O objetivo do estudo Tecnologias integradas para controle biológico, mecânico e genético de Aedes aegypti é avaliar tecnologias inovadoras, mais seletivas e ambientalmente seguras, que possam ser integradas ao sistema de controle do Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya.




DADOS DA NOTÍCIA

Autora: Solange Argenta
Fonte: Fiocruz Pernambuco
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 19/10/2017
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/projeto-da-fiocruz-pe-sobre-controle-do-aedes-e-indicado-para-premio