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terça-feira, 21 de junho de 2022

Peste Negra: DNA em dentes de 6 séculos revela onde epidemia começou, diz estudo



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

A bactéria 'Yersinia pestis' é a causadora da peste bubônica


Pesquisadores acreditam ter descoberto as origens da Peste Negra, mais de 600 anos depois de ela ter matado dezenas de milhões de pessoas na Europa, Ásia e norte da África.


A catástrofe sanitária de meados do século 14 é um dos capítulos mais significativos em termos de pandemia da história humana.

Mas, apesar de anos de pesquisa, os cientistas ainda não haviam sido capazes de identificar onde a peste bubônica começou.

Agora, análises sugerem que foi no Quirguistão, na Ásia central, na década de 1330.

Uma equipe de pesquisa da Universidade de Stirling, na Escócia, e do Instituto Max Planck e da Universidade de Tubingen, na Alemanha, analisaram amostras antigas de DNA de dentes de corpos enterrados em cemitérios perto do Lago Issyk Kul, no Quirguistão.


Eles escolheram essa região depois de notar um aumento significativo nos sepultamentos ocorridos lá em 1338 e 1339.


Maria Spyrou, pesquisadora da Universidade de Tubingen, disse que a equipe sequenciou o DNA de sete esqueletos.

A equipe da BBC News Brasil lê para você algumas de suas melhores reportagens

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Eles analisaram os dentes porque, de acordo com Spyrou, contêm muitos vasos sanguíneos e oferecem aos pesquisadores "uma grande chance de detectar patógenos transmitidos pelo sangue que podem ter causado a morte dos indivíduos".


A equipe de pesquisa conseguiu encontrar a bactéria da peste, Yersinia pestis, em três deles.


"Nosso estudo resolve uma das maiores e mais fascinantes questões da história e determina quando e onde o assassino mais notório e infame dos seres humanos começou", afirmou Philip Slavin, historiador da Universidade de Stirling, sobre a descoberta.


A pesquisa tem, no entanto, algumas limitações — incluindo o pequeno tamanho da amostra.


Michael Knapp, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, que não estava envolvido no estudo, elogiou o trabalho como sendo "realmente valioso", mas observou:


"Dados de bem mais indivíduos, épocas e regiões... ajudariam realmente a esclarecer o que os dados apresentados aqui significam de fato."


O trabalho dos pesquisadores foi publicado na revista científica Nature, com o seguinte título: "The source of the Black Death in fourteenth-century central Eurasia" ("A fonte da Peste Negra na Eurásia central do século 14", em tradução literal).

O que é a peste bubônica?


A peste é uma doença infecciosa potencialmente letal, causada por uma bactéria chamada Yersinia pestis que vive em alguns animais — principalmente roedores — e nas pulgas que carregam em seus pelos.


A peste bubônica é a forma mais comum da doença que as pessoas podem contrair. O nome deriva dos sintomas que causa — um inchaço doloroso nos nódulos linfáticos, formando uma espécie de bolha, conhecida como "bubão", na virilha ou axila.


De 2010 a 2015, foram reportados 3.248 casos em todo o mundo, incluindo 584 mortes.


Historicamente, também foi chamada de Peste Negra, em referência ao fato de causar gangrena em certas partes do corpo, como nos dedos das mãos e dos pés, que acabam escurecendo.


- Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-61813064







Autor: Malu Cursino
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 16/06/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-61813064

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A ameaça de epidemia que surge de nova espécie de mosquito Aedes detectada pela 1ª vez nas Américas



Biovigilância de mosquitos em Guantánamo encontrou em 2019 o Aedes vittatus pela primeira vez no hemisfério ocidental — Foto: Ben Pagac


Durante a noite de 18 de junho de 2019, na base americana em Guantánamo, Cuba, um intruso foi pego por uma armadilha.


Soldados dali estão acostumados a se preparar contra eventuais tentativas de fuga de prisioneiros. A base é conhecida como um lugar onde os EUA aprisionam, por tempo indeterminado e muitas vezes sem julgamento, suspeitos de envolvimento em planos extremistas na chamada "guerra ao terror".


É incomum que um intruso seja avistado ali. E, para complicar, nunca ninguém havia visto um intruso daqueles naquela região.


Trata-se do Aedes vittatus, uma das 3,5 mil espécies de mosquitos encontradas ao redor do mundo — e, assim como o Aedes aegypti (transmissor da dengue e zika, por exemplo), capaz de carregar parasitas ou patógenos perigosos à saúde humana.


O perigo adicional é que o Aedes vittatus consegue carregar quase todas as perigosas doenças transmitidas por todos os mosquitos, com exceção da malária.



"Estar em contato próximo com esses mosquitos não é uma boa notícia", diz Yvonne-Marie Linton, pesquisadora-diretora da Walter Reed Biosystematics Unit e curadora de quase 2 milhões de espécimes na coleção de mosquitos do Instituto Smithsonian, nos EUA.




O Aedes vittatus é endêmico no subcontinente indiano, na Ásia, e até agora nunca havia sido avistado no continente americano.



Ele é "comprovadamente um vetor de vírus de chikungunya, zika, dengue, febre amarela e muitas outras doenças", segundo a equipe que o identificou.


O mais provável é que as primeiras espécimes tenham viajado para Cuba na forma de ovos em algum contêiner de navio ou em uma aeronave. Provavelmente, sua proliferação no Caribe e sul dos EUA será também intermediada pelo homem: as mudanças climáticas estão encurtando os invernos da América do Norte, permitindo que os mosquitos procriem muito mais vezes em uma única temporada — consequentemente, espalhando mais vírus.




Aedes vittatus encontrado em Cuba; ele é vetor para doenças como febre amarela, zika e chikungunya — Foto: Ben Pagac


Mosquitos chamam muito menos atenção do que, por exemplo, as chamadas "vespas assassinas" identificadas em 2020 na América do Norte. Originárias do Japão, elas se espalharam pela região do Pacífico Noroeste norte-americano, matando colônias de abelhas.


"Há um paralelo entre as vespas assassinas e o Aedes vittatus no fato de que vieram de fora - estão em uma área onde não existiam antes", afirma Ben Pagac, entomologista do Comando de Saúde Pública do Exército americano, que conduz biovigilância na região do Caribe.


O deslocamento do mosquito, diz ele, é uma lição a respeito dos perigos que o comércio e as viagens humanas oferecem à dispersão de doenças zoonóticas pelo planeta.



Doenças transmitidas por mosquitos matam mais de 1 milhão de pessoas e infectam quase 700 milhões por ano — quase 1 em cada dez pessoas na Terra.


E seu efeito é historicamente devastador. O historiador Timothy C. Winegard, autor do livro O Mosquito, de 2019, acredita que esses insetos chegaram a ser usados como arma biológica: na guerra do Peloponeso, de 415 a 413 a.C., os espartanos atraíram os atenienses a pântanos repletos de mosquitos. "A malária matou ou incapacitou mais de 70% das tropas (atenienses)", escreve Winegard.


Alguns dos guerreiros mais conhecidos da história foram mortos por doenças transmitida por mosquitos, como Genghis Khan e (segundo uma teoria) Alexandre, o Grande.


E, à medida que as mudanças climáticas deixam os invernos da América do Norte mais curtos e menos frios, Linton e seus colegas advertem em seu estudo que mosquitos podem, em breve, causar "epidemias que seriamente ameaçam a saúde pública".




Uma guerra diferente




Militares americanos já enfrentam mosquitos desde a Segunda Guerra Mundial e pesquisam os insetos desde os anos 1950, afirma Linton.



"Mais soldados morreram na Guerra do Vietnã de doenças transmitidas por mosquitos do que em combate ou por tiros", diz a pesquisadora. Mesmo hoje, "20 das 50 principais doenças que afetam os militares são transmitidas por vetores".




Muitos dos quase 200 mil soldados americanos na ativa alocados no exterior estão em áreas tropicais onde nunca haviam estado antes, o que significa que não têm imunidade para os patógenos dessas regiões.


Quinhentos anos atrás, a situação era reversa. Foram Cristóvão Colombo e seus acompanhantes europeus que trouxeram os mosquitos ao chamado Novo Mundo, espalhando novos patógenos entre os nativos do continente americano.


"Cientistas concordam que as Américas passaram milhares de anos livres de malária até os europeus chegarem", escreve Sonia Shah em seu livro The Fever (A Febre, em tradução livre).



Além disso, parasitas trazidos por colonos vindos da Inglaterra aos EUA nos anos 1600 se espalharam das pessoas aos mosquitos — e deles de volta às pessoas.


Navios que viajavam pelo Caribe carregavam mosquitos que transmitiam a febre amarela e a malária pela costa do Atlântico. Essas doenças foram devastadoras para as comunidades nativas, e também para colonos.


"Antes da Revolução (que levou à independência americana), havia ao menos 30 grandes focos de epidemia de febre amarela nas colônias britânicas norte-americanas, afetando todos os grandes centros urbanos e portos na costa que vai da Nova Scotia (província do Canadá) à Geórgia (Estado ao sul dos EUA)", escreve Winegard.


Graças a pesticidas e medidas como drenagem de pântanos, as doenças transmitidas por mosquitos reduziram consideravelmente no século 20. No entanto, desde 1999, epidemias nas Américas voltam a colocar os mosquitos no centro das atenções.


Primeiro, foi o vírus do Nilo Ocidental, que passou de pássaros infectados a mosquitos e deles a humanos, matando centenas de americanos entre 1999 e 2003. Até hoje, são registrados centenas de casos por ano da doença.


Depois, temos a dengue, a chikungunya e a zika — este último causou uma epidemia em 2016, resultando no nascimento de centenas de bebês com síndrome congênita pelo vírus da zika no Brasil. Até o fim de 2016, segundo a OMS, 48 países e territórios do continente americano registraram mais de 175 mil casos confirmados da doença transmitida pelo mosquito no continente americano.


E a dengue infectou no Brasil, apenas no ano passado, mais de 970 mil pessoas, segundo contagem até novembro do Ministério da Saúde.


Eventos como a epidemia de 2013-14 da chikungunya no Caribe e a de zika no Brasil devem se tornar cada vez mais frequentes. E, quando se chega ao nível de uma epidemia, costuma ser tarde demais para contê-la.




"É algo inesperado. Acontece como foi com a Covid-19. Pega todos de surpresa", afirma Linton. E, quando governos reagem tentando comprar e distribuir insumos e medicamentos, se veem disputando esses itens entre si, ela agrega.




Daí a importância, ressalta a pesquisadora, em estarmos mais preparados, fazendo o que ela chama de biovigilância: "ativamente procurar por vetores que possam ser problemáticos".


"Se você não conhecer seu inimigo, não conseguirá combatê-lo", diz.


Esse é justamente o trabalho de Linton: identificar, classificar e avaliar os riscos causados por mosquitos a soldados americanos nos EUA e fora.


"E foi assim que descobrimos o (mosquito Aedes vittatus) em Cuba", conta.




Aedes vittatus




Desde 2016, especialistas em medicina preventiva colecionam amostras de mosquitos encontradas ao redor da base de Guantánamo. A cada semana, é colocada uma armadilha, geralmente perto dos locais onde civis e militares dormem. A armadilha atrai os insetos com luz, e um ventilador os suga a um compartimento. Às vezes, são sugados até 3 mil insetos.


Depois de uma triagem, os mosquitos são enviados a um laboratório militar em Maryland, nos EUA, onde são analisados por pesquisadores.


Em junho de 2019, "olhando pelo microscópio, vimos que um deles parecia diferente", explica Pagac.



"Tinha um padrão (de manchas brancas) no tórax que era completamente diferente de qualquer coisa que tivéssemos visto antes."




Era o Aedes vittatus.


"Isso nos deixou de olhos esbugalhados: não era apenas algo estranho, mas que poderia ter sérias implicações de saúde."



Depois de triagem em Guantánamo, mosquitos são levados para análise em laboratórios dos EUA — Foto: Ben Pagac



Imediatamente, Pagac alertou Linton.


A dupla então comparou o DNA desse espécime com o de outras populações de mosquitos e concluiu que sua provável origem é a Índia.


"Sabia que isso não era bom", diz Linton. "Sabia que (o mosquito) era invasivo, nunca tinha sido visto nas Américas antes e é um vetor muito eficiente de dengue, chikungunya, zika e febre amarela."


A descoberta do mosquito levantou uma questão importante: será que esse intruso em Guantánamo ser o culpado pelos surtos recentes de zika, dengue e outras doenças no Caribe?




Viagens globais




Para responder essa pergunta, Linton e sua equipe primeiro precisavam entender como o mosquito havia chegado a Guantánamo.


Eventos naturais, como furacões, são conhecidos por transportar mosquitos entre as ilhas caribenhas. Mas humanos, com seus caminhões, navios e aviões, podem inadvertidamente levar pequenos vetores de doenças como mosquitos de modo mais rápido e mais longe do que qualquer tempestade.


Linton e Pagac sabiam também que o Aedes vittatus é o que entomologistas chamam de "reprodutor em contêineres".



"Seus ovos toleram a desidratação, podem ser levados de um lugar a outro e, assim que chegam em uma superfície de água, eles emergem", conta Linton. "Se o clima for quente e úmido, eles sobrevivem."




Essa característica fez Linton se recordar de outra espécie de mosquito que, 40 anos atrás, se espalhou da mesma maneira: o Aedes albopictus, o mosquito tigre asiático. No sul da Ásia, o mosquito havia sido vetor de dengue, febre amarela e chikungunya. Daí, em 1979, alguns de seus ovos foram transportados acidentalmente à Albânia em um carregamento de pneus usados, que costumam ficar largados em portos acumulando água — e criando um ambiente perfeito para o mosquito proliferar.


"Desde então, ele viajou e se estabeleceu em quase todos os países do mundo", conta Linton.


Ela e seus colegas acreditam que possa estar acontecendo o mesmo com o Aedes vittatus. Cuba, afinal, é uma ilha - e contêineres de navios são perfeitos para transportar não só produtos, como ovos de mosquitos.





Como impedir o vittatus de avançar




Imediatamente após a identificação do mosquito, a Unidade de Medicina Preventiva da Marinha americana em Guantánamo começou a pulverizar inseticidas em duas áreas residenciais perto do local onde os primeiros espécimes foram encontrados. E também passaram a coletar mais amostras dos mosquitos, com a ajuda de armadilhas especiais.


Ainda assim, os mosquitos não pararam de aparecer. Em dezembro de 2019, larvas do Aedes vittatus foram encontradas a menos de 50 m do local original. Em laboratório, produziram dez espécimes masculinos e sete femininos. Em 24 de fevereiro de 2020, outra fêmea do vittatus foi encontrada na armadilha, seguida por outros quatro mosquitos em 2 de março, a 1 km do local original.


Em 18 de abril, o temor dos cientistas de que o mosquito pudesse se espalhar para além de Cuba se concretizou: o inseto foi identificado na República Dominicana, a 206 km de Cuba. E o mais alarmante é que esses espécimes não tinham a mesma composição molecular dos de Guantánamo, o que significa que parecem ter vindos por conta própria do Sudeste Asiático.


"Parece ter uma rota de comércio global trazendo esses mosquitos ao Caribe", afirma Linton, que teme que outros espécimes do vittatus estejam "se escondendo bem diante dos nossos olhos" em outras ilhas caribenhas.


"Se ele está na República Dominicana, também com certeza está no Haiti (os dois países compartilham uma ilha)", diz ela. "Presumimos que também esteja na Jamaica, Puerto Rico e pode já estar na Flórida" ou em outros Estados do sul dos EUA.



Para especialistas, só biovigilância coordenada (como a feita acima em Guantánamo) é capaz de evitar proliferação de mosquitos perigosos à saúde humana — Foto: Alexandra Spring



Se não houver ação rápida de equipes de saúde pública, pode ser apenas uma questão de tempo até que o mosquito se espalhe mais. Essa ação tem de incluir a destruição de ambientes onde o mosquito procria, a pulverização de químicos ou bactérias em águas paradas e o uso de armadilhas.


Mas parte do que torna os mosquitos tão difíceis de serem contidos é que "eles se adaptam ao habitat e aos objetos humanos", explica Linton. "Colocamos fontes de passarinhos e piscinas infantis nos jardins, e ali o mosquito aparece."


Para dificultar, o vittatus pica durante o dia, o que significa que métodos tradicionais — como fechar portas e janelas e usar mosquiteiros para dormir - são ineficientes.


E apenas pulverizar inseticida não vai resolver o problema, adverte Pagac. É preciso incorporar medidas ao dia a dia, como eliminar todos os locais que possam armazenar água parada.




Mudanças climáticas




A mudança climática acelerada pela ação humana também está ajudando o vittatus — que adora climas quentes e úmidos — a continuar a avançar.


Um mosquito costuma botar ovos 36 horas depois de picar sua vítima e, se esse hospedeiro estiver infectado, o vírus passará adiante. Em seguida, serão produzidos 100 a 120 ovos infectados, já carregando a doença.


Normalmente, há talvez seis novas gerações de mosquito ao longo de um ano qualquer. Mas isso está mudando.


"Esses invernos brandos e estações mais longas que estamos tendo significam que mosquitos têm a chance de produzir dez gerações (no ano), em vez de seis", adverte Linton. "Isso significa que eles têm mais tempo de adquirir vírus" antes de serem impedidos pelo frio do inverno.


Os humanos, no entanto, não estão à deriva no combate. Processos de biovigilância como o sendo feito em Guantánamo podem ajudar a prever (e daí enfrentar) o local de onde as doenças se espalham. Mas a não ser que programas robustos e coordenados de biovigilância sejam implementados ao redor do mundo, quando de fato um novo vetor for encontrado, pode já ser tarde demais para contê-lo, diz Linton.



Um bom ponto de partida é focar em "hubs" de viagem. Em anos recentes, por exemplo, a Inglaterra registrou casos da chamada "malária de aeroporto" — casos de malária causados por mosquitos que chegaram ao país com aviões.


Hoje, aeroportos ao redor do mundo são equipados com armadilhas de luz para esses mosquitos.


Mas, mesmo assim, "atualmente há oito vezes mais pacientes de malária em clínicas e hospitais da Europa do que nos anos 1970", escreve Shah.


Já no caso do Aedes vittatus, "pode ser um dos poucos exemplos em que (ainda) estamos na dianteira" para contê-lo, adverte Pagac. E financiamento a pesquisas permitiria monitorar e antecipar o avanço de mosquitos, para que então governos nacionais e locais possam pôr em prática campanhas com métodos conhecidos, como pulverização, combate a água parada e ensinamentos a pessoas sob risco (por exemplo, uso de repelentes e roupas que cubram braços e pernas).


Em um mundo abalado pela Covid-19, tudo isso pode parecer um desafio complexo. Mas, para Linton e Pagac, não podemos deixar que seja uma oportunidade perdida para impedir a próxima potencial pandemia.


*Esta reportagem é parte da série Stopping the Next One (ou Impedindo a Próxima), que analisa quais doenças têm o potencial de causar a próxima pandemia global e os cientistas que estão tentando impedir que isso aconteça. Para ler a versão original desta reportagem em inglês na BBC Future, clique aqui. Esta reportagem foi apoiada com financiamento do Pulitzer Center.




Autor: Jacob Kushner, BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1
Data: 22/01/21
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/

quarta-feira, 9 de maio de 2018

República Democrática do Congo declara nova epidemia do ebola e confirma 17 mortes




Pessoas passam por outdoor com alerta sobre o ebola na cidade de Freetown, em Serra Leoa (Foto: AP Photo/Aurelie Marrier d'Unienville)

A República Democrática do Congo "enfrenta uma nova epidemia de ebola", que já matou 17 pessoas na província de Equateur, no noroeste do país, informou nesta terça-feira (8) o Ministério da Saúde.

"Vinte e um casos de febre com sinais hemorrágicos e 17 mortes", uma taxa de letalidade de 80%, foram notificados ao Ministério da Saúde em 3 de maio, indicou o comunicado, referindo-se a "uma emergência de saúde pública internacional".

"O plano de resposta adotado pelo Ministério da Saúde foi aprovado pelo governo", indicou um relatório do Conselho de Ministros.

"Desde a notificação dos casos em 3 de maio, nenhuma nova morte foi relatada", aponta o comunicado do ministério, sem especificar a data de início da epidemia.

Uma equipe do Ministério da Saúde, apoiada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelos Médicos Sem Fronteiras, visitou a cidade de Bikoro, epicentro da epidemia.

"Nossa maior prioridade é ir a Bikoro para trabalhar com o governo da República Democrática do Congo e parceiros para reduzir a perda de vidas e sofrimento associados a este novo surto de ebola", indicou o Dr. Peter Salama, diretor-geral adjunto da OMS em um comunicado.

A epidemia na República Democrática do Congo é o nono surto de Ebola no país desde a descoberta deste vírus em seu solo, em 1976.

A doença foi detectada em uma área de floresta equatorial, na fronteira com o Congo-Brazzaville, e localizada a cerca de 600 km a noroeste de Kinshasa.

"Cinco amostras de casos suspeitos foram enviados para análise no Instituto Nacional de Pesquisas Biológicas (INRB) de Kinshasa em 6 de maio. Dois deram positivos", afirmou o ministério em seu comunicado.

A última epidemia de ebola na República Democrática do Congoremonta a 2017. Rapidamente controlada, matou oficialmente quatro pessoas.

Uma terrível epidemia atingiu a África Ocidental entre o final de 2013 e 2016, causando mais de 11,3 mil mortes em cerca de 29 mil casos, mais de 99% na Guiné, na Libéria e em Serra Leoa.



Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 08/05/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/ebola/noticia/republica-democratica-do-congo-declara-nova-epidemia-por-ebola-e-confirma-17-mortos.ghtml

Entenda o ebola, vírus de nova epidemia na República Democrática do Congo




Imagem do vírus ebola observado em um microscópio eletrônico (Foto: Frederick Murphy/CDC via AP)

O Ministério da Saúde da República Democrática do Congo anunciou nesta terça-feira (8) uma nova epidemia da doença. Foram 21 casos de febre hemorrágica e 17 mortes. Oficialmente, a doença já havia atingido quatro pessoas em 2017.



Ebola: entenda a doença (Foto: Betta Jaworski/G1)

O que é o ebola?


Causador da febre hemorrágica, o vírus é um dos mais mortais que existem. Ele mata até 90% dos infectados e ainda não há vacina nem medicamento disponível para uso na população.


Qual é o período de incubação? E quais os sintomas?


Após um período de incubação, que pode demorar até 3 semanas, os sintomas começam: febre, dores pelo corpo, cansaço, fraqueza, dores de cabeça e de garganta, diarreia e vômitos. O quadro em geral se agrava com a ocorrência de hemorragias, que levam à falência orgânica e morte. Isso tudo em alguns dias.


Há grupos de risco? Como é o contagio?


Este vírus mortal pode acometer qualquer pessoa. Não há grupos de risco. A contaminação se dá pelo contato direto com sangue, saliva ou secreções de quem estiver contaminado. Por isso, médicos e profissionais de saúde devem tomar muito cuidado, pois ficam altamente expostos à infecção.


Quando ele foi detectado no mundo?


Ele foi registrado nos primeiros seres humanos em 1976, em Yambuku, uma aldeia na República Democrática do Congo, às margens do Rio Ebola. Desde então, mais de 20 surtos da doenças ocorreram em países da África Central e Ocidental.


O Brasil já teve algum caso de ebola?


Não. Existe o registro de um caso suspeito em novembro de 2015, mas exames descartaram a possibilidade de o paciente ter a doença.


Tem tratamento? Tem vacina?


Não há um tratamento específico. Um medicamento já foi experimentalmente utilizado, mas ainda sem comprovação científica confirmada. E também não há vacina.


Por isso, autoridades mundiais tomam todas as medidas sanitárias apropriadas para tentar isolar o trânsito de pessoas em regiões onde há epidemia do vírus.


Posso viajar para a República Democrática do Congo?


O Itamaraty recomenda que sejam evitadas viagens não-essenciais ao país. Essa recomendação leva em consideração o contexto de infraestrutura, segurança e saúde, devido às doenças.



Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 08/05/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/ebola/noticia/entenda-o-ebola-virus-de-nova-epidemia-na-republica-democratica-do-congo.ghtml

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Vacina da gripe disponível no Brasil protege contra vírus H3N2, que provocou epidemia nos EUA



Enfermeiro vacina mulher contra gripe em posto de saúde no Distrito Federal (Foto: André Borges/Divulgação)


A vacina da gripe disponível no Brasil nessa temporada contém proteção contra versão do H3N2, vírus que circulou com força no hemisfério norte em janeiro desse ano. Por lá, essa forma do vírus puxou o número de infectados pelo influenza para 47 mil, o dobro do registrado em 2017. Em laboratórios da rede privada, o imunizante já está disponível a um preço médio de R$ 130.


Na rede pública, o Ministério da Saúde informa que a campanha nacional destinada aos mais vulneráveis deve começar na segunda quinzena de abril.


Geralmente, as vacinas contra o influenza são disponibilizadas no Brasil entre abril e maio para proteção em junho, período em que o vírus da gripe começa a circular com mais força. Os vírus utilizados para a confecção da vacina são atualizados anualmente e, esse ano, a vacina brasileira ganhou essa nova forma do H3N2 que ajudou a provocar a epidemia mais grave registrada nos EUA nos últimos 13 anos.


No hemisfério norte, a vacina acabou por não ser atualizada em tempo e, por isso, o vírus acabou fazendo mais vítimas, explica o infectologista e pediatra Renato Kfouri. "Normalmente, há um pareamento entre o vírus circulante e a vacina, mas isso acabou não acontecendo no hemisfério norte e houve um aumento expressivo no número de casos", diz Kfouri.



"Por aqui, a vacina brasileira já vai conter a forma do vírus que circulou no hemisfério norte, mas ainda precisamos ver se vai haver esse pareamento entre a vacina e a forma circulante", explica o especialista.




O médico detalha que os vírus influenza conseguem sofrer pequenas mutações que, embora não tão diferentes do ponto de vista morfológico, são suficientes para "enganar" o sistema imunológico e provocar infecções mais graves.



"Essa forma que circulou nos EUA foi mais virulenta, o que significa dizer que foi mais agressiva que as demais", aponta Kfouri.





O H3N2 já fez 10 vítimas no Brasil em 2018 -- não há confirmação, no entanto, se os óbitos ocorreram por essa forma circulante nos Estados Unidos. Segundo o Ministério da Saúde, o país registrou 228 casos de influenza e 28 óbitos. Do total, 57 casos e 10 óbitos foram por H3N2. Em relação ao vírus H1N1, foram registrados 84 casos e 8 óbitos.


Ainda foram registrados 50 casos e 6 óbitos foram por influenza B. A pasta informa que os outros 37 casos e 4 óbitos foram provocados por influenza A sem subtipo definido. Em 2017 (ano todo), foram registrados 2.691 casos e 498 óbitos por influenza.





EUA têm 47 mil casos de gripe no início de inverno, o dobro de 2017


Vacina da gripe no Brasil em 2018


Na rede privada, laboratórios já estão oferecendo a vacina com os novos vírus recomendados para essa temporada.


Em laboratórios do Grupo Dasa, que administra redes no Brasil inteiro, as vacinas tri e tetravalente estão sendo oferecidas a um preço que varia entre 90 e 160 reais. Em farmácias em São Paulo, a vacina trivalente é oferecida a um preço médio de R$ 130.


A Agência Nacional de Saúde Suplementar informa que os planos de saúde não estão obrigados a oferecer e cobrir a vacina contra a gripe. Segundo a ANS, todo o programa de imunizações fica a cargo do Ministério da Saúde.



Já o Ministério da Saúde informa que a campanha nacional contra o vírus será definida nos próximos dias, mas deve ocorrer ainda esse mês. A vacina é oferecida gratuitamente pelo governo para pessoas que podem desenvolver reações mais graves ao vírus.



Crianças de 6 meses a 5 anos de idade;
Gestantes; puérperas, isto é, mães que deram à luz há menos de 45 dias;
Idosos;
Profissionais de saúde, professores da rede pública ou privada, portadores de doenças crônicas, povos indígenas e pessoas privadas de liberdade.




Como o imunizante consegue induzir o sistema imunológico com um vírus morto, não há risco de reações graves e a vacina é indicada para pessoas com problemas de imunidade, diz Kfouri. Ele explica que, embora a vacina na campanha nacional seja destinada aos mais vulneráveis, a indicação é que todos que puderem procurem o imunizante.



Doutora Ana Responde: Gripe 2018: devemos nos vacinar?




Doses de vacinas contra a gripe no Brasil (Foto: Reprodução/ EPTV)


Vírus definidos pela OMS



Todos os anos, a Organização Mundial de Saúde define quais tipos de vírus as vacinas contra a gripe devem conter a partir dos vírus mais circulantes no ano anterior. No hemisfério Sul, ficou definido que a vacina trivalente (com três vírus) deve conter:


- um vírus similar ao vírus influenza A/Michigan/45/2015 (H1N1)pdm09;



- um vírus similar ao vírus influenza A/Singapore/INFIMH-16-0019/2016 (H3N2);


- um vírus similar ao vírus influenza B/Phuket/3073/2013.


Já as vacinas quadrivalentes, podem conter também o influenza B da forma Brisbane/60/2008.



"Há uns 9 anos mais ou menos, não era comum ter a circulação simultânea de dois tipos de influenza B. Essa situação mudou e, por isso, começaram a surgir as vacinas com quatro subtipos do vírus", diz Kfouri.




Ilustração representa vírus influenza (Foto: Centers for Disease Control and Prevention/Divulgação)



Entenda os tipos de influenza e mutações



O infectologista Renato Kfouri explica que o vírus influenza é dividido em tipos, subtipos e linhagens. Todas essas variações correspondem a diferenças encontradas no material genético do vírus.


Primeiro, em relação ao tipo, o influenza é dividido em A, B e C. O vírus A e B são os que infectam seres humanos; já o tipo C, não é incluído em vacinas e não tem relevância para a saúde pública até o momento.


Já essas formas H3N2, H1N1, dentre outras, referem-se aos subtipos do influenza A. As letras H e N referem-se a proteínas encontradas na superfície do vírus, respectivamente, neuraminidase e hemaglutinina.


Os números, por sua vez, são referentes a maneira como essa proteína é apresentada, como uma haste mais longa, por exemplo.


Já o influenza B é dividido em duas linhagens, que passaram a circular simultaneamente nos últimos anos.



Autor: Monique Oliveira
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 09/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/vacina-da-gripe-disponivel-no-brasil-protege-contra-virus-que-provocou-epidemia-nos-eua.ghtml

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

As 3 teses que tentam explicar como a febre amarela rompeu fronteiras da Amazônia e atingiu o Sudeste


Image captionEspecialistas têm diferentes teses sobre migração do vírus da febre amarela | Foto: Josué Damacena/IOC/Fiocruz

Como a febre amarela rompeu os limites da Floresta Amazônica e alcançou o Sudeste, atingindo parques e matas próximos de grandes centros urbanos de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo?

Cientistas se debruçam sobre três teses que tentam explicar o fenômeno. A partir do ano passado, o número de casos da doença alcançou níveis sem precedentes nos últimos 50 anos, provocando correrias a postos de saúde - inclusive de pessoas que não se encontram em áreas de risco.

Segundo o Ministério da Saúde, desde o início de 2017 foram confirmados 779 casos, 262 deles resultando em mortes - o maior surto de febre amarela silvestre (ou seja, transmitida em área de floresta) da história. Outros 435 registros ainda estão sob investigação.

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Casos de pessoas infectadas no Sudeste começaram a ser registrados no início dos anos 2000, afirmam especialistas, e já havia a indicação de que a doença estava progressivamente migrando para o litoral leste do país. O que pegou alguns pesquisadores de surpresa foi a rapidez com que o vírus se espalhou.

De acordo com uma das teorias que tentam explicar essa migração, um humano infectado na Amazônia teria se deslocado em seguida para alguma região de Mata Atlântica, possivelmente em Minas Gerais, e sido picado lá por outros mosquitos, que teriam depois espalhado a doença.

Uma segunda hipótese é a de que insetos que adquiriram o vírus na Amazônia foram se deslocando progressivamente para o sul do país, por meio de corredores de floresta e rios, passando por Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro. A estimativa é que um mosquito seja capaz de voar por cerca de 3 km por dia.

Uma terceira teoria aponta desequilíbrios ambientais causados pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), como fator responsável por multiplicar casos de contaminação por febre amarela. Segundo essa teoria indica, o desastre ambiental eliminou predadores dos mosquitos, aumentando a população desses insetos.

Descobrir o que provocou a chegada do vírus ao Sudeste e o aumento inesperado de casos é importante, segundo especialistas, para detectar por onde a doença ainda deve passar e adotar medidas de prevenção contra novos surtos, com campanhas de vacinação e de eliminação de focos de mosquito.
Como tudo começou...

O vírus da febre amarela existe no Brasil desde os tempos coloniais.

Os navios portugueses vindos da África no século 17 e 18 não trouxeram ao Brasil somente africanos escravizados e mercadorias. Dois inimigos silenciosos do homem vieram junto - o vírus da febre amarela, presente no corpo dos passageiros, e o mosquito Aedes aegypti, que também transmite dengue, chikungunya e zika.

As consequências foram uma série de surtos de febre amarela urbana no Brasil, com milhares de mortos. Diferentemente do que ocorre hoje, a doença predominava nas cidades, não nas florestas, e era transmitida pelo Aedes aegypti, não por mosquitos silvestres (que vivem em matas).

No século 20, campanhas de erradicação do Aedes aegypti conseguiram acabar com a febre amarela urbana. Mas o vírus já tinha migrado - pelo trânsito de pessoas infectadas - para zonas de floresta na região Amazônica, e passou a ser transmitido apenas por mosquitos silvestres de duas categorias, Haemagogus e Sabethes.


Image captionUma das teses aponta o desaste de Mariana como responsável por espalhar a doença | Foto: Josué Damacena/IOC/Fiocruz

"A partir da febre amarela urbana, as pessoas, entrando na mata, introduziram o vírus no ambiente silvestre. O fato é que, na Amazônia, o vírus ficou até hoje. Na Mata Atlântica, ficou até 1940, quando se extinguiu o ciclo silvestre na região", explica Falqueto.
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No início dos anos 2000, alguns casos de febre amarela começaram a ressurgir em áreas da Mata Atlântica, segundo o pesquisador Ricardo Lourenço, do Instituto Oswaldo Cruz. A partir de dezembro de 2016, o número de infectados explodiu em algumas regiões de Minas Gerais e Espírito Santo, caracterizando um surto. E, entre 2017 e 2018, registros de febre amarela cresceram rapidamente no Rio de Janeiro e em São Paulo.


Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionPesquisadores dizem que governo ignorou alerta de que o vírus chegaria a regiões do Sudeste
Teoria 1 - vírus trazido pelo homem

Alguns pesquisadores argumentam que o vírus desceu do Norte para o Sudeste do país porque um ser humano infectado na Amazônia foi para a Mata Atlântica e acabou sendo picado por outros mosquitos silvestres que espalharam a doença.

"A minha teoria é o elemento urbano. Muitas pessoas migram para a Amazônia sem tomar vacina. Uma pessoa pegou o vírus na Amazônia e entrou na Mata Atlântica depois, possivelmente na altura de Montes Claros, em Minas Gerais, onde surgiram casos de macacos e pessoas infectadas", defende o professor Aloísio Falqueto, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

O pesquisador destaca que, uma vez na Mata Atlântica, o vírus se espalhou rapidamente, já que lá havia uma grande quantidade de alimentos para os mosquitos - sangue de macacos. E os primatas dessa floresta estavam vulneráveis - não tinham desenvolvido anticorpos, uma vez que o vírus havia desaparecido da região na década de 1940.

Os mosquitos Sabethes e Haemagogus, atuais transmissores da febre amarela, moram na copa das árvores e preferem o sangue dos macacos. Essa preferência vem de um processo de adaptação genética, ao longo de anos de evolução das espécies.

"Aqui é um barril de pólvora. A força de transmissão é muito maior, porque já havia o vetor - mosquitos que moravam na Mata Atlântica - e uma diversidade ampla de macacos vulneráveis à febre amarela que nunca tinham desenvolvido anticorpos", afirma Falqueto.

Nos últimos meses, macacos têm sido mortos não apenas em decorrência da febre amarela, mas também por seres humanos que temem contrair a doença. Mas pesquisadores alertam que o massacre desses bichos é um "tiro no pé": se muitos macacos começarem a morrer, a tendência é que cresça a chance de contaminação de humanos.

Sem ter primatas para picar na copa das árvores, os mosquitos buscarão alimento em outras localidades - e o homem vira a próxima opção como fonte de sangue. Como o homem é um animal que se assemelha ao macaco, naturalmente se torna alternativa para o mosquito da febre amarela, que buscará instintivamente um bicho geneticamente próximo.


Image captionO vírus da febre amarela existe no Brasil desde os tempos coloniais | Foto: Josué Damacena/IOC/Fiocruz
Teoria 2 - viagem do mosquito

Outros pesquisadores argumentam que os mosquitos silvestres que transmitem a febre amarela se deslocaram do Norte do país para o Sudeste aos poucos, voando ao longo de rios e corredores de mata.

Conforme foram picando macacos na Mata Atlântica, e esses bichos foram morrendo, os mosquitos teriam se deslocado mais ao sul, passando de Minas Gerais e Espírito Santo para São Paulo e Rio de Janeiro.

"É possível que (a migração do vírus) tenha sido causada por mosquitos que voaram entre manchas de mata. Os mosquitos se dispersam por dois motivos: para achar lugar para colocar ovo e para achar fonte de alimentação sanguínea", explica o pesquisador Ricardo Lourenço, do Instituto Oswaldo Cruz.

"Se começa a morrer macaco, o mosquito começa a buscar sangue em outro lugar. E ele vai voar distâncias maiores para colocar seus ovos. O deslocamento dessas espécies de mosquito pode alcançar 3 km por dia."

Tanto o homem quanto o macaco, quando picados, só carregam o vírus da febre amarela em quantidades suficientes para infectar outros mosquitos por cerca de três dias. Depois disso, o organismo passa a produzir anticorpos, e a concentração do vírus diminui. Em cerca de dez dias, primatas e humanos terão morrido ou se curado da doença, ficando imunes a ela.

Já o mosquito permanece com o vírus da febre amarela para sempre, segundo Ricardo Lourenço. Eles podem até passar o vírus para os ovos e, consequentemente, para os filhotes que nascerem.


Direito de imagemREUTERSImage captionPesquisadores estimam que mais de 700 pessoas tenham sido infectadas pelo vírus da febre amarela desde julho de 2017
Teoria 3 - rompimento da barragem em Mariana

Já o professor da Universidade de São Paulo (USP) Eduardo Massad, que também leciona na London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido, acredita que o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), em 2015, teve papel relevante na disseminação acelerada da doença no Sudeste do país.

Essa tese aponta que a destruição do habitat natural de diferentes espécies, além da morte de peixes e outros animais, pode ter reduzido os predadores naturais dos mosquitos. Ao mesmo tempo, a tragédia ambiental pode ter afetado o sistema imunológico dos macacos, tornando-os mais suscetíveis ao vírus da febre amarela.

"A grande surpresa foi a velocidade com que a doença se espalhou no Sudeste. Tenho quase certeza de que esse surto se iniciou como resultado do desastre em Mariana, em Minas Gerais, quando houve um grande desequilíbrio ecológico e algum fator causou o espalhamento rápido da doença no macaco", diz Massad, que é infectologista.

Segundo o professor, da USP, em um ano - de janeiro de 2017 a janeiro de 2018 - houve um volume de casos comparável ao registrado em um período de 30 anos.


Image captionMosquitos Sabethes transmitem febre amarela em regiões de mata | Foto: Josué Damacena/IOC/Fiocruz
E para onde o vírus anda vai?

E a "viagem" da febre amarela não deve terminar em São Paulo. O professor Aloisio Falqueto, da Ufes, prevê que o vírus continuará seguindo por corredores de mata e chegará ao Sul do país.

"A essa altura já devíamos estar vacinando as populações de determinadas áreas do Paraná e de Santa Catarina", diz. A "migração" do vírus até o Sul, segundo o pesquisador, ocorrerá a partir do voo dos mosquitos silvestres que transmitem a doença e que transitam por áreas de floresta em busca de alimentos.

Para Falqueto, o número de pessoas infectadas pela febre amarela desde que os casos começaram a aumentar rapidamente, em 2016, poderia ter sido menor se governo estaduais tivessem planejado melhor a imunização de zonas rurais, conforme o mapeamento dos "caminhos" possíveis do vírus.

É possível, segundo ele, prever o trajeto levando em conta corredores de floresta a existência de populações de macacos. "Temos clamado desde o início do ano passado para vacinarem a população das áreas rurais em contato com a Mata Atlântica. Eles despejaram muitas vacinas nas áreas urbanas quando não precisava. E faltou vacina para quem estava exposto", diz Falqueto.

O professor Eduardo Massad, da USP, diz que elaborou, em 2014, um plano de imunização para o Estado de São Paulo depois que 11 pessoas morreram vítimas de febre amarela em Botucatu, em 2009.

Mas, segundo ele, a Secretaria Estadual de Saúde não implementou a campanha de vacinação nas áreas onde havia risco de chegada do vírus.

"Eu fiz cálculos matemáticos para determinar qual seria a proporção da população nas áreas não vacinadas que deveria ser imunizada, considerando os riscos de efeitos adversos da vacina", conta.

"Infelizmente a Secretaria de Saúde não adotou essa estratégia. Os casos estão acontecendo exatamente nas áreas onde eu havia recomendado a vacinação. A Secretaria está correndo atrás do prejuízo."

Desde julho de 2017, foram contaminadas mais de 100 pessoas em São Paulo - mais de 40 pessoas morreram.
Vacinar ou não vacinar?

Por sua vez, o chefe da Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo, Marcos Boulos, também infectologista e professor da USP, argumenta que teria sido "irresponsabilidade" vacinar moradores em áreas que, na época, não era consideradas foco do vírus da febre amarela.

Boulos afirma que a vacinação também traz riscos e, portanto, deve ser promovida com cautela. "Em Botucatu tivemos 11 mortos pela febre amarela e 4 mortos por efeitos colaterais de vacina. Quando você usa a vacina em regiões onde não tem epidemia, você só aumenta os riscos."

Ele também afirmou que, a partir dos primeiros casos de febre amarela no Estado, em 2017, a Secretaria de Saúde promoveu vacinação em áreas onde se previa que o vírus iria passar.

"No ano passado, vacinamos com cuidado, seguindo as rotas de macacos e corredores de floresta. De cinco milhões de vacinas, tivemos dois efeitos com morte."

Ele argumenta que houve mais casos de febre amarela em Mairiporã e Atibaia porque tratam-se de cidades repletas de moradias em meio a florestas. Além disso, acrescenta, o aumento do reflorestamento criou novos corredores de floresta entre Minas Gerais e São Paulo, possibilitando novas rotas de migração do vírus.

"A entrada foi por área de reflorestamento. Houve 16% do aumento de florestas e se formou continuidades de mata. A entrada por Campinas foi por reflorestamento na fronteira com Minas Gerais", disse.

"Sabíamos que um dia poderia chegar próximo ao litoral, mas se acreditava que seria em mais sete ou 14 anos, e que daria para vacinar progressivamente. Estávamos visitando as casas e vacinando."
'Decisão difícil'

O pesquisador Ricardo Lourenço reconhece que não é fácil tomar a decisão de promover campanhas de vacinação em áreas onde ainda não há alerta de febre amarela, já que, embora considerada segura, a vacinação sempre gera alguns riscos.

A vacina contém uma dose ativa, porém enfraquecida do vírus, e estimula o corpo a produzir anticorpos contra a doença. Em alguns casos, pessoas desenvolvem os sintomas mais leves da febre amarela, como febre baixa e dor no corpo. Em casos mais raros, há o aparecimento dos sintomas graves - icterícia (amarelamento da pele e dos olhos), inflamação dos rins e fígado, hemorragias e, eventualmente, falência múltipla dos órgãos.

Uma dose imuniza a pessoa para a vida toda, conforme a Organização Mundial da Saúde. A dose fracionada adotada atualmente dura, segundo o Ministério da Saúde, por pelo menos oito anos.

A conclusão do tempo de duração da dose fracionada vem, segundo Lourenço, de um estudo feito com 700 pessoas que tomaram essa dose menor e que vêm sendo monitoradas há oito anos.

"Se a cada um milhão de pessoas vacinadas, uma pode ter uma infecção com doença grave, para que arriscar? Essa é a pergunta que se faz. Mas o aviso de que a febre está se aproximando está ocorrendo há muito tempo", diz Lourenço.

"Se a febre amarela tivesse sido controlada há mais tempo, se tivesse sido feita uma avaliação e um estímulo maior para vacinar a população limítrofe das últimas epidemias em Minas e em São Paulo, não teríamos tantas pessoas infectadas hoje. Muita gente nasceu em áreas sem febre amarela e morreu disso, porque era tarde demais", defende.

Para o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, os governos locais "não foram sensíveis e rápidos para comunicar e perceber o início da epidemia. E o governo federal não produziu a campanha no tempo necessário."

O Ministério da Saúde defende as ações de imunização adotadas. Em nota, a pasta afirmou que, "desde 2016, os Estados e municípios vêm sendo orientados para a necessidade de intensificar as medidas de prevenção."

"Foram reforçados os estoques de vacinação nas áreas atingidas - só no ano passado, o ministério enviou aos Estados 45 milhões de doses da vacina - e realizadas videoconferências com os gestores das regiões afetadas para programar ações para contingência e a realização da maior campanha de vacina fracionada do mundo, agora em curso", diz o Ministério da Saúde.

"É importante lembrar ainda que a estratégia de vacinação já faz parte da rotina de 21 Estados brasileiros e também é recomendado para pessoas de outras regiões que vão se deslocar para áreas de mata nessas localidades. O Ministério da Saúde, ao longo de décadas, vem mantendo os estoques de vacina e ampliando as áreas de vacinação conforme a necessidades apontadas pelo monitoramento constante", afirmou a pasta na nota enviada à BBC Brasil.

A orientação é de que pessoas em áreas de risco se vacinem.

Clique aqui para conferir se há recomendação de vacinação na sua cidade.

Autor: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data de Publicação: 06/02/2017
Publicação Original: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42919243

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Os ratos são inocentes: pesquisa aponta que humanos espalharam a peste negra, epidemia mais mortal da história




Pulgas de roedores têm sido historicamente culpadas pela transmissão da peste bubônica (Foto: Heinz-Peter Bader/Reuters)



Os ratos não foram os culpados pela propagação da peste bubônica na Europa do século 14, no surto que ficou conhecido como peste negra.


Até então, acreditava-se que os roedores e suas pulgas tivessem sido responsáveis pela transmissão da praga, levando a uma série de surtos no Velho Continente dos séculos 14 a 19.


Mas uma equipe das universidades de Oslo, na Noruega, e Ferrara, na Itália, agora diz que o primeiro destes surtos, a peste negra, pode ser "largamente atribuído a pulgas e piolhos humanos".


O estudo, publicado no periódico científico Proceedings of the National Academy of Science, utiliza registros sobre os padrões de disseminação e a dimensão da epidemia.


Estima-se que a peste negra tenha matado 25 milhões de pessoas, mais de um terço da população da Europa, entre 1347 e 1351.


"Temos bons dados da mortalidade pelos surtos em nove cidades da Europa", disse Nils Stenseth, da Universidade de Oslo, à BBC.


"Então, fomos capazes de construir modelos da dinâmica da doença (naqueles cenários)."




Explicação mais plausível




Stenseth e seus colegas fizeram simulações de surtos da doença em cada uma dessas cidades, criando três modelos onde a praga era disseminada por:


- Ratos


- Transmissão aérea


- Pulgas e piolhos que vivem em seres humanos e suas roupas


Em sete das nove cidades estudadas, o "modelo do parasita humano" se mostrou uma explicação muito mais adequada para o surto.


O modelo refletiu a rapidez com que a praga se espalhou e o volume de pessoas afetadas.



"A conclusão foi muito clara", diz Stenseth. "O modelo dos piolhos se encaixa melhor."




"Seria improvável que (a doença) tivesse se espalhado tão rápido com a transmissão por ratos", acrescenta.


"Teria que ter passado por ciclos extras nos roedores, em vez de se espalhar de pessoa para pessoa."




Transmissões na atualidade





O professor diz que o interesse prioritário do estudo foi histórico, ou seja, de forma a usar os conhecimentos modernos sobre a doença para entender uma das mais devastadoras pandemias da história humana.


No entanto, ele ressalta, "entender o máximo possível sobre o que se passa durante uma epidemia é sempre bom para reduzir a mortalidade (no futuro)".


A praga ainda é endêmica em alguns países da Ásia, África e Américas, onde persiste em "reservatórios" de roedores infectados.


De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), de 2010 a 2015 houve 3.248 casos da doença registrados em todo o mundo, incluindo 584 óbitos.


Se não for tratada, a doença tem um índice de mortalidade de 30% a 60%. Antibióticos, contudo, são efetivos se há diagnóstico precoce.


O mal pode ser difícil de identificar em seus estágios iniciais, porque os sintomas, que normalmente se desenvolvem após sete dias, parecem com o de uma gripe comum - um teste de laboratório pode confirmar o diagnóstico. A peste afeta os nódulos linfáticos e causa gangrena.


Em 2001, um estudo que decodificou o genoma da peste usou uma bactéria que havia infectado um veterinário nos Estados Unidos.


O homem, morto em 1992, tentava resgatar um gato preso sob a estrutura de uma casa quando o animal espirrou, transmitindo a doença.



"Nosso estudo sugere que, para evitar uma eventual nova transmissão, a higiene é o mais importante", alerta Stenseth.




"Também sugere que, se você está doente, deve evitar ter contato com muitas pessoas. Então, se você está doente, fique em casa."



Autor: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data de Publicação: 16/01/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/os-ratos-sao-inocentes-pesquisa-aponta-que-humanos-espalharam-a-peste-negra-epidemia-mais-mortal-da-historia.ghtml

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Médico que percorreu a América Latina coletando esses patógenos transmitidos por artrópodes fala sobre o desempenho do Brasil durante a epidemia de zika




Tesh: Não é realista esperar que alguma nova tecnologia leve à erradicação do Aedes aegypti e das doenças transmitidas por ele

ntecipar grandes ameaças virais à saúde pública é extremamente difícil, mesmo para alguém como o médico e virologista norte-americano Robert Tesh, que há mais de cinco décadas estuda a diversidade mundial dos arbovírus, os vírus transmitidos por insetos e outros artrópodes. “Sempre podem acontecer surpresas”, conta Tesh, que é professor emérito da Divisão Médica da Universidade do Texas (UTMB). “Quem é que pensaria no vírus zika como uma ameaça 20 anos atrás?”

Durante décadas, Tesh dirigiu o Centro de Referência Mundial para Vírus e Arbovírus Emergentes da Organização Mundial da Saúde, instalado na UTMB. Ali, estão armazenadas 7 mil amostras de vírus de todo o planeta, disponíveis para serem estudadas por pesquisadores em busca de pistas sobre as possíveis epidemias atuais e futuras e de caminhos para combatê-las. Ele próprio participou da coleta de muitos desses patógenos realizada em boa parte da América Latina. Hoje com 81 anos, Tesh já perdeu a conta de quantas vezes esteve no Brasil, onde passou temporadas como pesquisador visitante no Instituto Evandro Chagas, no Pará, e no Adolfo Lutz, em São Paulo.

Mais recentemente o virologista e seus colegas acompanharam o lento avanço do zika pela Ásia e pelas ilhas do Pacífico antes que chegasse ao Brasil e infectasse um número grande de pessoas. Para ele, a confusão e o pânico que acompanharam a epidemia não teriam sido muito diferentes se ela tivesse ocorrido nos Estados Unidos ou em outro país desenvolvido. Ainda segundo sua opinião, não é realista esperar que alguma nova tecnologia leve à erradicação do Aedes aegypti e das doenças transmitidas por ele, uma vez que tanto o vírus quanto o mosquito são versáteis e podem se adaptar às tentativas de interferência humana. “Em resumo, a luta vai ser longa”, afirma.

No início de junho, Tesh esteve em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, para participar da São Paulo School of Advanced Science in Arbovirology, realizada com apoio da FAPESP. Pouco antes de partir para uma viagem de passeio no Pantanal, ele conversou com Pesquisa FAPESP sobre a história e o futuro dos arbovírus nas Américas e no mundo.

Quanto sabemos e o que ainda falta conhecer sobre a diversidade dos arbovírus no Brasil e no mundo?
Quando falamos de arbovírus, estamos falando de vírus que são transmitidos por artrópodes que sugam sangue, como carrapatos, pernilongos ou mosquitos-palhas. De todos os arbovírus conhecidos, o maior número vem da América do Sul [região de origem de cerca de 150 das mais de 500 espécies conhecidas].

Superando os originários da África?
Sim, em parte provavelmente porque o trabalho mais intensivo de identificação foi feito na América do Sul.

O fato de se conhecer mais arbovírus da América do Sul, então, decorre de uma questão de amostragem?
Tem a ver com as regiões em que os laboratórios, em especial os financiados pela Fundação Rockefeller, foram procurar esses vírus. Pouquíssimos eram conhecidos antes dos anos 1930, como os causadores da febre amarela, da dengue e de uma ou duas das encefalites. A Fundação Rockefeller criou um programa voltado à procura de novos vírus, o que aumentou muito a descoberta de arbovírus. Mas há muito mais deles a serem descobertos. Estamos começando a entender que há um enorme número de vírus disseminados por mosquitos e outros vetores que são exclusivos de insetos e nunca chegam a vertebrados, embora possuam um parentesco muito próximo com os arbovírus.

Por que eles voltaram a parecer mais ameaçadores nas últimas décadas?
Os vírus têm se deslocado mais rapidamente com o aumento da mobilidade dos seres humanos. Hoje, pode-se entrar em um avião e, em menos de 24 horas, ir a Tóquio ou à China. Com essa capacidade de viajar tanto em tão pouco tempo, vírus como o zika e o chikungunya, que antes tinham uma distribuição restrita, espalharam-se rapidamente depois de chegar ao Novo Mundo. Outro exemplo é o do vírus do Oeste do Nilo, que chegou à América do Norte em 1999. Ele tinha sido isolado na África nos anos 1930 e também estava presente no Oriente Médio, mas, de repente, lá está ele no Novo Mundo.

É possível dizer que subestimamos o zika quando apareceu no Brasil pela primeira vez? Era inevitável que se tornasse um problema tão grave?
Nós tínhamos interesse no zika porque é um arbovírus. Em 2010, isolei uma cepa obtida de uma criança do Camboja. Sabíamos que ele estava presente no Sudeste Asiático e na África, mas não havia muitos registros de casos em seres humanos, em parte, porque o zika causa sintomas muito parecidos com os da dengue e da febre chikungunya. Clinicamente é muito difícil diferenciar os sintomas provocados por um dos vírus dos causados pelos outros, e há casos assintomáticos. Eventualmente a infecção por zika era até diagnosticada, mas a maioria dos laboratórios não tentava identificar o vírus, até que ele chegou a algumas ilhas do Pacífico, como a Polinésia Francesa, e causou um surto enorme.

Incluindo casos de microcefalia, certo?
Sim, microcefalia e síndrome de Guillain-Barré [reação autoimune que pode afetar seriamente o sistema nervoso dos adultos]. Depois que o vírus se espalhou pelo Pacífico e chegou à ilha de Páscoa, pensei: “Bom, pode ser que chegue ao Chile”. Mas acabou aparecendo no Brasil, o que foi uma surpresa. Os especialistas estavam de olho nele, mas não esperavam que fosse provocar os efeitos que causou nem que se espalhasse por todo lado. Olhando a situação da perspectiva atual e considerando que o ciclo do zika é muito parecido com o da dengue e envolve o Aedes aegypti, talvez não seja surpreendente que ele tenha se espalhado tanto e originado um número tão grande de casos, uma vez que encontrou uma população virgem, na qual ninguém tinha sido infectado antes. Depois, aconteceu o que todos sabem. Do Brasil foi para a Colômbia, e de lá para o Caribe, a América Central e o México, com muitos casos em Porto Rico, Haiti, República Dominicana e Honduras e alguns casos na Flórida e em Cuba.

Como está a situação nessas regiões?
Em Porto Rico, os casos começaram a diminuir. Chega-se a um ponto no qual a proporção de pessoas imunizadas [por já terem tido a doença] é tão grande que ocorre o que se chama de imunidade de manada. Cada vírus é um caso, mas, depois que 50% das pessoas tiveram a infecção, fica mais difícil para o vírus circular, porque diminui o número de indivíduos suscetíveis. Durante a sua curta vida, o mosquito infectado precisa picar outra pessoa não imunizada para que o ciclo continue. De agora em diante, não acho que o zika vá desaparecer do Brasil ou das Américas, mas certamente haverá poucos casos.

Mesmo quando nascer uma nova geração de crianças que ainda não teve a doença?
Nesse ponto a infecção por zika deve se tornar como a por dengue. Há quatro sorotipos da dengue. Em certos anos, o vírus do sorotipo 1 ou 2 está em alta, as pessoas são infectadas e desenvolvem imunidade contra ele. Alguns anos depois, é a vez de os casos de dengue tipo 3 ou 4 aumentarem. O vírus nunca desaparece de vez, embora possa ir para outras áreas e depois ser reintroduzido em uma região em que já circulou.

As pessoas ainda estão tentando entender por que o zika causou efeitos tão graves durante a gestação.
Essa foi a grande surpresa. Há um vírus chamado akabane, que ocorre no Japão e na Austrália e causa malformações em ovelhas, semelhantes às que o zika provoca nos membros de crianças infectadas durante a gestação. Esse vírus também pode levar a abortos. Mas não conhecíamos outros arbovírus que se comportassem dessa maneira. O zika parece persistir por bastante tempo no feto. No caso de homens infectados, permanece por longos períodos nos testículos, algo parecido com o que verificaram no caso do ebola. Homens que contraíram o vírus continuaram capazes de infectar outras pessoas pela via sexual durante meses.

Melhorou a nossa capacidade de evitar esse tipo de epidemia ou de detê-la em sua fase inicial?
Se há um vírus novo, para o qual não há vacinas e há muitos transmissores, como o Aedes aegypti, é muito complicado fazer o controle.


© ARQUIVO PESSOAL



O pesquisador, em seu antigo laboratório nos Estados Unidos

Ao menos em princípio, seria possível evitar esse tipo de epidemia?
É muito difícil controlar mosquitos. É algo que as pessoas têm tentado fazer desde que perceberam a ligação entre eles e essas doenças, mas não houve muito sucesso. Avançamos muito no caso da febre amarela, mas isso também teve a ver com o desenvolvimento de uma vacina. Conseguimos eliminar o Aedes aegypti do meio urbano por um tempo, mas não erradicamos a febre amarela silvestre, que envolve a infecção de macacos. Muita gente agora tenta novas técnicas para controlar mosquitos que não envolvem inseticidas. São estratégias como a infecção de mosquitos com bactérias do gênero Wolbachia ou a criação de mosquitos transgênicos. Sou cético em relação a essas abordagens. No caso dos transgênicos, são introduzidos nos machos genes, que tornam sua prole estéril. A geração seguinte vai morrer sem deixar descendentes, mas, depois, é preciso introduzir mais machos geneticamente modificados na população. Não é impossível que os vírus ou os mosquitos, por meio da seleção natural, encontrem maneiras de burlar essas estratégias, mais ou menos como a resistência a antibióticos emerge entre as bactérias. Em resumo, a luta vai ser longa.

Qual o vírus mais assustador que já enfrentou?
Não é um arbovírus. Estive envolvido no estudo da febre hemorrágica venezuelana, causada por um arenavírus, o guanarito, do mesmo grupo do vírus junin, que causa febre hemorrágica argentina, ou do machupo, presente na região de Beni, na Bolívia. No caso do vírus da febre hemorrágica venezuelana, um cientista daquele país o isolou e mandou amostras para mim. Também trabalhei por cinco anos na Venezuela, coletando roedores para entender o ciclo de vida do vírus. Esses vírus são muito perigosos, com uma taxa de mortalidade em torno de 25%. Ainda não há tratamentos disponíveis para a infecção que causam, embora já exista uma vacina para o junin que é usada na Argentina.

Como são transmitidos?
Por aerossol [gotículas suspensas no ar]. Certos roedores selvagens são o reservatório natural desses vírus e os carregam ao longo de toda a vida, algo parecido com o que ocorre com os hantavírus. Esses animais liberam o vírus no ambiente por meio da urina e da saliva. Não há transmissão de pessoa para pessoa, embora as equipes dos hospitais possam se contaminar com o sangue de pacientes infectados.

O Brasil tem feito a lição de casa no que diz respeito aos vírus emergentes e ao próprio zika?
O Brasil foi o primeiro país a ter uma epidemia de zika de grande magnitude. Se a mesma situação tivesse acontecido nos Estados Unidos e de forma tão explosiva quanto foi aqui, algumas das mesmas coisas teriam ocorrido. Talvez as coisas sejam um pouco mais organizadas nos Estados Unidos e seria um pouco mais fácil enfrentar o problema, mas é um tipo de emergência que causa muito pânico nas pessoas. Honestamente, não sei se conseguiríamos nos sair muito melhor que o Brasil.

Existe uma ligação entre o desaparecimento da febre amarela urbana no Brasil e o avanço da dengue? Os vírus estariam competindo entre si no organismo do mosquito, o que explicaria por que a febre amarela não volta com tudo?
Para começar, não costuma haver simultaneamente a infecção de mosquitos com dois vírus muito aparentados. Não é possível infectá-los com dengue tipo 1 e tipo 4 ao mesmo tempo, por exemplo, e não acho que seja possível com dengue e febre amarela. Já a coinfecção de chikungunya e dengue em um mesmo inseto pode ocorrer porque o primeiro é um alfavírus e o segundo é um flavivírus, que são bem diferentes. O desaparecimento da febre amarela urbana pode ser explicado como resultado de uma ação da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), que, depois da Segunda Guerra Mundial, decidiu tentar erradicar o Aedes aegypti das Américas. A Opas criou um programa que, após 20 anos de esforço, foi bem-sucedido. Quase toda a América do Sul e a América Central ficaram livres do mosquito. Na Venezuela, porém, optou-se por vacinar toda a população e deixar de lado a erradicação dos mosquitos, o que não foi bom para os demais países, já que os insetos conseguem atravessar fronteiras. No Caribe, a erradicação também não aconteceu. Os Estados Unidos tentaram por 10 anos e desistiram. Então, nos anos 1970, decidiram não dar mais dinheiro para o programa. Com o abandono do programa, o mosquito voltou a se espalhar país por país, e hoje a situação voltou a ser a de antes ou está até pior. Ao mesmo tempo, uma vacina foi desenvolvida e usada no Brasil com sucesso. A combinação entre o uso da vacina e a erradicação temporária dos mosquitos praticamente acabou com a febre amarela urbana no país. A dengue não desapareceu porque o Aedes aegypti voltou e não havia, e ainda não há, uma vacina antidengue disponível.

Existe o risco de surgir alguma epidemia viral em breve que cause danos significativos?
Os especialistas sempre dizem que temos de nos preocupar com os vírus influenza, causadores da gripe. Atualmente há uma cepa de influenza na China que é bastante virulenta. Se houver uma pandemia de influenza como a que tivemos em 1918, milhões de pessoas podem morrer, em especial os idosos que sofrem de outros problemas respiratórios ou cardiovasculares.

Embora a gripe espanhola de 1918 tenha matado muita gente jovem.
Sim, e por isso foi especialmente ruim. Um vírus desse tipo, que pode ser transmitido facilmente de pessoa para pessoa, pode chegar a qualquer lugar do planeta. Outros vírus que as pessoas estão observando de perto são os causadores da síndrome respiratória do Oriente Médio, a Mers, e o vírus da síndrome respiratória severa aguda, a Sars. Mas sempre podem acontecer surpresas. Quem pensaria no zika como uma ameaça 20 anos atrás? As pessoas acham que podemos prever o que acontecerá nos próximos anos, mas sou cético a respeito disso.




Autor: REINALDO JOSÉ LOPES | ED. 257 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: JULHO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/07/18/robert-tesh-cacador-de-arbovirus/?cat=ciencia

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

HIV e Aids: veja lista do G1 com dúvidas, mitos e verdades








Por Luiza Garonce, G1 DF

01/12/2017 06h05 Atualizado há menos de 1 minuto




Esta sexta-feira, 1º de dezembro, é Dia Mundial de Luta Contra a Aids e, por isso, o G1 preparou uma lista para tirar dúvidas e desmistificar algumas “falsas verdades” sobre a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.


Para começar, Aids não é doença, não está relacionada à orientação sexual ou identidade de gênero e também não ficou restrita às décadas de 1980 e 1990, quando grandes nomes da cultura e da intelectualidade brasileiras, como Cazuza, Renato Russo e o sociólogo Betinho, morreram em razão dela.


A síndrome está condicionada à infecção pelo vírus HIV, e o Brasil vive um momento de epidemia, segundo o Ministério da Saúde. A pasta estima que 830 mil pessoas sejam portadoras do vírus em todo o país – 84% delas já foram diagnosticadas. A recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU) é de 90%.




Teste rápido para detecção do vírus HIV (Foto: Secom/Divulgação)


Se o leitor confunde Aids com HIV, antes de começar a leitura, é preciso que tome conhecimento. A Aids é a manifestação sintomática do Vírus da Imunodeficiência Adquirida (HIV) e, portanto, só aparece quando ele não é controlado. O que ocorre é uma queda no sistema imunológico, que fica vulnerável a doenças como pneumonia e tuberculose.


Até os anos 1990, casos de infecção pelo vírus eram descobertos somente quando as pessoas já haviam atingido o estágio da Aids. Naquela época, o Brasil ainda estava em fase de descoberta do vírus e desenvolvia as primeiras formas de tratamento. Hoje, com a detecção precoce do HIV, o número de casos de Aids tende a ser cada vez menor.



Outro ponto importante é que a principal forma de transmissão do HIV é o sexo, desde que sem camisinha. Qualquer relação sexual desprotegida, seja homossexual ou heterossexual, está suscetível à contaminação pelo vírus.




Então HIV não é Aids?





(Foto: Editoria de Arte/G1)


O Vírus da Imunodeficiência Adquirida (HIV) é um tipo de retrovírus que ataca as células do sistema imunológico, responsável pela defesa do corpo contra organismos invasores, como bactérias, fungos e, claro, os vírus. Quando o HIV entra na circulação sanguínea, ele ataca os linfócitos T-CD4+, que também são chamados de glóbulos brancos, e altera o DNA deles para que possa se multiplicar.


Uma vez no sangue, o HIV não é eliminado – por enquanto, a ciência ainda não desenvolveu tecnologias capazes de extinguir o vírus. O que se pode fazer é reduzir a carga viral com o chamado “coquetel antirretroviral”, ou seja, diminuir taxa de multiplicação do HIV pelo uso de um combinado de medicamentos. Assim, esse índice pode chegar próximo de zero, quando o vírus fica indetectável – ou seja, com chance de transmissão quase nula.


Para funcionar, no entanto, os remédios – tenofovir, lamivudina e dolutegravir – precisam ser tomados diariamente, sempre no mesmo horário, e o mais precoce possível desde o diagnóstico da presença do vírus no sangue. Quanto antes, melhor a chance de atingir à carga viral indetectável.





Posso ter HIV e não ter Aids?





(Foto: Editoria de Arte/G1)


Somente quando o vírus HIV não é tratado, a pessoa infectada desenvolve a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), que é provocada pela queda da capacidade de combate do sistema imunológico. As principais doenças associadas à Aids são respiratórias, como a pneumonia e a tuberculose, além de insuficiência renal, doenças cardíacas, tumores e cânceres.


Por isso, o Ministério da Saúde alerta sobre a importância de se fazer o teste anti-HIV, especialmente depois de uma situação de risco, como relação sexual desprotegida, compartilhamento de seringas ou uso de materiais cortantes não esterilizados (veja abaixo como e onde fazer).


Além do risco pessoal, o desconhecimento sobre a infecção pode ser um perigo para os parceiros sexuais. Como o HIV é um tipo de vírus cujo período de incubação é prolongado – o que significa que os sintomas costumam demorar a aparecer – é possível que pessoas infectadas sequer tenham conhecimento da própria condição.



Preservativos masculino e feminino distribuídos em Centro de Testagem e Aconselhamento do DF (Foto: Mariana Raphael/Agência Brasília)





Casos no DF




Somente em Brasília, de janeiro até a segunda quinzena de novembro, foram registrados 836 casos de HIV – destes, 269 também estavam associados à Aids. A Secretaria de Saúde estima que 75% das pessoas que têm o vírus no Distrito Federal estejam diagnosticadas.


Diante dos dados, a presidente da Sociedade de Infectologia no DF, Valéria Paes Lima, disse ao G1 que o principal motivo para que um terço dos casos de HIV tenham evoluído para a Aids está no desconhecimento sobre a própria saúde.


“A pessoa que faz o tratamento tem bom resultado. Ela consegue chegar à carga viral zero e não transmite mais o vírus. Então, a transmissão está acontecendo justamente entre as pessoas que não sabem que estão [com o HIV].”




Como se pega o HIV?





Usar preservativo ainda é a melhor maneira de prevenir a Aids (Foto: Asscom/Sesa ES)


Qualquer pessoa que tenha tido uma relação sexual sem camisinha pode ter contraído o vírus HIV, “não importa idade, estado civil, classe social, identidade de gênero, orientação sexual, credo ou religião”, explica o Ministério da Saúde.


Outras formas de infecção são uso de seringa por mais de uma pessoa ou de instrumentos cortantes não esterilizados, de mãe para filho – na chamada “transmissão vertical” – e por transfusão de sangue contaminado.





Veja lista do Ministério da Saúde sobre como se “pega” e como “não se pega” o HIV:






Beijo?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)




Sexo oral?





Sim (Foto: Editoria de Arte/G1)


Desde que sem camisinha.




Suor e lágrima?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)





Sexo vaginal ou anal?




Sim (Foto: Editoria de Arte/G1)


Desde que sem camisinha.




Picada de inseto?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)




Tatuagem?





Sim (Foto: Editoria de Arte/G1)



Desde que a agulha não esteja esterilizada.




Aperto de mão?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)




Abraço?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)




Compartilhar sabonete, toalha e lençóis?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)





Compartilhar seringa?





Sim (Foto: Editoria de Arte/G1)




Usar mesmo talher ou copo?




Não (Foto: Editoria de Arte/G1)




Sentar no mesmo banco?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)





Instrumentos que cortam?





Sim (Foto: Editoria de Arte/G1)


Desde que não estejam esterilizados.




Nadar na piscina?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)




Respirar o mesmo ar?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)





Como funciona o teste anti-HIV?




A recomendação para quem esteve em alguma situação de risco é procurar uma unidade pública de saúde para fazer o teste anti-HIV. O exame pode ser tanto de sangue, quando pela coleta de mucosa da boca, chamado “teste rápido”, que mostra o resultado em cerca de 30 minutos.


O ideal é buscar o diagnóstico, no mínimo, 15 dias após a situação de risco por conta da “janela imunológica”, período de falso negativo, entre a infecção pelo vírus e o momento em que o organismo começa a produzir anticorpos – quando exames sorológicos dão conta de detectá-lo.



Teste rápido é feito com a saliva recolhida da boca (Foto: Hildeberto Jr./G1)


Em 1985, durante os primeiros experimentos diagnósticos do HIV, a janela variava de 6 semanas a 2 meses. Hoje, a média é de 15 dias, segundo o Ministério da Saúde. Segundo o Hemocentro de Brasília, há tecnologias capazes de obter resultados confiáveis em prazo ainda menor – dentro de dez dias.


Atenção: No período da janela imunológica, ainda que vírus não seja detectado pelos exames, ela já pode ser transmitido.


No DF, é possível fazer o teste rápido em qualquer uma das 170 unidades básicas de saúde e no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que fica no mezanino da Rodoviária do Plano Piloto e funciona das 8h às 18h. A pessoa não precisar se identificar e pode pedir ajuda de uma equipe de profissionais para interpretar o resultado.



Para saber os endereços, horários de funcionamento e tirar dúvidas, basta ligar no Disque Saúde (136).




Posso ter HIV e não transmitir?





Sim (Foto: Editoria de Arte/G1)


Isso ocorre quando a pessoa portadora do HIV chega a um ponto do tratamento em que a carga viral fica próxima de zero. Na prática, isso significa que a quantidade de vírus no sangue é tão baixa que ele fica “indetectável”.


Neste estágio, as chances de transmissão do são quase nulas, segundo o Ministério da Saúde. Para alcançar esta condição, no entanto, é preciso que o coquetel antirretroviral seja administrado conforme a recomendação médica.




Como é o tratamento?




O tratamento contra o vírus HIV é recomendado o quanto antes após o diagnóstico. Atualmente, são três os medicamentos que compõem o chamado “coquetel antirretroviral”: tenofovir e lamivudina associados em um comprimido e dolutegravir em outro.


O combo de remédios precisa ser tomado de acordo com a recomendação médica, no mesmo horário todos os dias. Quanto mais precoce for iniciado o tratamento e maior o comprometimento da pessoa que tem o HIV, melhores as chances de chegar à carga viral zero.


Os efeitos colaterais, segundo a infectologista Valéria Lima, que também trabalha no Hospital Universitário de Brasília (HUB), são poucos. “A maioria dos meus pacientes diz que tolera muito bem, que parece que não está tomando nada. Mas pode dar enjoo, soltar o intestino solto e afetar um pouco o sono”.





Aids é coisa de gay?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)


Esse estigma, que vem da década de 1980, ainda persiste sobre a população homossexual, mas a ciência não reconhece o vírus HIV como mais propenso às relações sexuais homoafetivas. Isso porque a transmissão ocorre por meio do sangue, ou seja, por meio de pequenas fissuras provocadas na pele e mucosas durante a relação sexual sem camisinha – o que pode acontecer tanto durante o sexo homossexual, quanto heterossexual.


Há quase 40 anos, o vírus HIV chegou a ser chamado de "Imunodeficiência Gay", quando ainda não se sabia de onde ele vinha, como era transmitido e de que forma era possível controlá-lo. Na época, casos de artistas e intelectuais homossexuais ganharam repercussão nacional, como do Cazuza, do Renato Russo, do cartunista Henfil, do sociólogo Betinho e do ator Lauro Corona. No entanto, hoje é de conhecimento público que o vírus nunca foi seletivo.


Mesmo assim, "homens que têm relação sexual com outros homens" são tratados como grupo de "risco" pelo Ministério da Saúde, ainda que o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) adote o termo "grupo chave" e use o termos "risco" para falar de comportamentos. Profissionais do sexo e usuário de drogas também estão neste grupo.



Os dados do último boletim epidemiológico disponível no site do Ministério da Saúde sobre HIV e Aids apontam que os homossexuais representam 47,2% dos casos registrados de Aids entre 2007 e junho de 2016, contra 38,5% dos heterossexuais – os 9,5% restantes correspondem aos bissexuais.


Apesar disso, a pasta informa que não é possível fazer uma análise rigorosa com relação às tendências da infecção pelo vírus no Brasil, porque a notificação compulsória entrou em vigor somente em 2013. Ou seja, antes disso, nem todo diagnóstico de HIV era registrado.




Então não se morre de Aids?





Não (Foto: Editoria de Arte/G1)


A Aids é a síndrome provocada pelo vírus HIV que debilita o sistema imunológico e abre espaço para as chamadas doenças oportunistas. São essas doenças que podem levar à morte, como pneumonia, tuberculose e cânceres. A Aids por si só, segundo especialistas ouvidos pelo G1, não tem potencial para matar, por isso, sequer é considerada uma doença.


Chegar ao estágio da Aids, no entanto, não é um caminho sem volta, uma sentença de morte. A presidente da Sociedade de Infectologia no DF, Valéria Paes Lima, explica que é possível reverter o quadro com medicação e fortalecer as células de defesa do corpo.


“Com as medicações é possível reduzir a carga viral, mas enquanto a imunidade melhora, a pessoa fica sujeita a doenças oportunistas. O prazo varia muito de pessoas pra pessoa, conforme idade e até mesmo por outras doenças que a pessoa já tenha, como diabetes ou pressão alta.”



Segundo a infectologista, a Aids costuma ser identificada a partir do sintoma de uma doença oportunista, mas, principalmente, pelo nível de CD4 no sangue, que é um componente da membrana do linfócito T-CD4+. A taxa considerada saudável fica entre 800 e 1.200 células/mm3. Quem tem Aids, ficam com cerca de 200 células/mm3.




Profilaxias pré e pós-exposição




O que é PEP?


A chamada PEP é a Profilaxia Pós-Exposição, uma série de medicamentos que devem ser tomados para evitar que o HIV se instale no organismo após uma situação de risco. Popularmente é conhecida como a “pílula do dia seguinte do HIV”. A diferença é que não basta tomar um comprimido, são necessárias 28 doses – uma por dia.


O ideal é que a PEP seja iniciada logo nas primeiras horas após a exposição ao vírus. O prazo máximo para que tenha efeito é de 72 horas. A profilaxia é recomendada especialmente nos casos de violência sexual, para profissionais da saúde que tenham se acidentado, para profissionais do sexo e pessoas que se relacionam com parceiros soropositivos.


No entanto, quem tiver tido uma relação sexual consentida sem camisinha também pode buscar o pronto-socorro e solicitar a PEP. “Lá, essa pessoa vai ser orientada sobre a importância do uso do preservativo e as precauções que precisa tomar para evitar nova exposição”, explicou a infectologista Valéria Lima.


O que é Prep?




Pílula do medicamento Truvada, usado na profilaxia pré-exposição (PrEP) contra o HIV (Foto: Paul Sakuma/AP)



A PREP é a Profilaxia Pré-Exposição, ou seja, uma prevenção à infecção pelo vírus. Diferente de uma vacina, a PREP não torna a pessoa que toma o medicamento imune ao HIV, mas evita que ele se instale no sistema sanguíneo.


O público prioritário para este tipo de profilaxia, segundo o Ministério da Saúde, compreende os homossexuais, homens que fazem sexo com outros homens, transexuais, profissionais do sexo e parceiros sorodiscordantes – quando um tem o vírus e o outro não.


A adoação da PREP havia sido anunciada pelo governo federal em maio, quando foi publicada uma portaria que determinava prazo de seis meses para aplicação da medida em todo o país.


No DF, a profilaxia começou a ser distribuída nesta sexta-feira (1º) no Hospital Dia, que fica na 508/509 Sul. A unidade é considerada o maior centro de referência em tratamento do HIV e da Aids em Brasília.


Desde 2014, a PREP é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para pessoas em risco considerável de se infectarem com HIV e sua eficácia foi comprovada por quatro estudos clínicos.


Veja mais notícias sobre a região no G1 DF.




Autora: g1.globo
Fonte: g1.globo
Sítio Online da Publicação: g1.globo
Data de Publicação: 01/12/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/hiv-e-aids-veja-lista-do-g1-com-duvidas-mitos-e-verdades.ghtml