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terça-feira, 26 de julho de 2022

Edital Amazônia+10 destinará R$ 52 milhões para projetos de pesquisa colaborativa

Pesquisadores interessados em desenvolver pesquisa colaborativa e interdisciplinar com foco no desenvolvimento sustentável da Amazônia têm até o próximo dia 10 de agosto para submeter propostas à primeira chamada da iniciativa Amazônia+10.

O edital, que envolve fundações de amparo à pesquisa (FAPs) de 20 Estados brasileiros, contará com R$ 52 milhões, dos quais R$ 30 milhões serão alocados pela FAPESP.

“A reunião de 20 Estados do país para tratar da questão da Amazônia demonstra que somos capazes de abordar e buscar resolver conjuntamente esse e outros temas de interesse nacional”, afirmou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, na abertura do encontro on-line de apresentação e de esclarecimento de dúvidas sobre o edital, no dia 21 de julho.


Chamada envolverá pesquisadores de 20 Estados brasileiros no desenvolvimento de projetos relacionados ao território, povos da Amazônia e cadeias produtivas sustentáveis (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A chamada está estruturada em três grandes eixos temáticos: territórios como infraestrutura e logística que facilitem o desenvolvimento sustentável em dimensão multiescalar; povos da Amazônia como protagonistas do conhecimento e da valorização da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas; e fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis pelos amazônidas.

A cada um desses eixos estão associados problemas considerados prioritários e que deverão pautar os projetos a serem submetidos ao edital. “Há uma diversidade territorial em termos de questões fundiárias, culturais e de uso da terra na região amazônica que precisa ser considerada nas propostas. Queremos propostas que ofereçam soluções para um determinado município, por exemplo, mas que talvez não se apliquem a outros com diferentes identidades e naturezas”, exemplificou Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP.

As propostas devem ter a participação de pesquisadores de pelo menos três dos 20 Estados atendidos pelas FAPs que aderiram à chamada, sendo que um deles deve ser obrigatoriamente vinculado a instituições de ensino superior ou pesquisa situadas nos Estados da Amazônia Legal.

Cada proposta deve ser constituída por um único projeto de pesquisa preparado conjuntamente pelos proponentes. O projeto deverá ser submetido pelos pesquisadores responsáveis às FAPs de seus respectivos Estados.

Os pesquisadores responsáveis de cada projeto receberão financiamento da FAP correspondente a seu Estado de origem. O valor mínimo dos projetos apoiados é de R$ 300 mil e o prazo para a sua conclusão é de, no máximo, 36 meses.

Outros critérios que serão considerados na avaliação das propostas são a transdisciplinaridade, o caráter inovador e a coconstrução. “A população local – pesquisadores e comunidade – deve ser protagonista do uso e da produção do conhecimento. Eles conhecem os impactos da destruição da biodiversidade e dos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Devem estar envolvidos em discussões sobre soluções”, exemplificou o diretor científico da FAPESP.

“Também é muito importante que os projetos tenham um plano de comunicação científica, porque não queremos que resultem apenas em artigos científicos, mas que tenham impacto. E isso depende fortemente de uma comunicação científica bem estruturada”, avaliou Mello.

A seleção será feita por um painel de especialistas com base no enquadramento das propostas. O resultado será anunciado em 11 de novembro de 2022.

“Sabemos que os prazos da chamada são curtos, mas imprescindíveis para a assinatura dos termos de outorga e a implementação dos projetos selecionados ainda este ano”, disse Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP.

Amazônia: uma “questão nacional”

“O que possibilitou a convergência de 20 FAPs nessa iniciativa foi o fato de que a Amazônia representa uma questão nacional em função de sua sociobiodiversidade [bens e serviços gerados por meio da conexão entre a diversidade biológica, a prática de atividades sustentáveis e o manejo de recursos extraídos da floresta] e os imensos desafios que envolvem a região”, disse Marcia Perales, diretora-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e vice-presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), que participou do evento de apresentação do edital.

Constituída em novembro de 2021, a iniciativa Amazônia+10 é um programa de desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I) para a Amazônia Legal que envolve parceria com os conselhos nacionais de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti) e das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap).

Inicialmente composto pela FAPESP e os nove Estados da região amazônica, a iniciativa Amazônia+10 já envolve a participação de 20 FAPs no primeiro edital: São Paulo, Amazonas, Rio de Janeiro, Pará, Paraná, Maranhão, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Amapá, Distrito Federal, Alagoas, Goiás, Paraíba, Pernambuco, Rondônia, Espírito Santo, Piauí, Santa Catarina, Acre e Tocantins.

“Essa iniciativa mostra que, definitivamente, a Amazônia é de interesse de todos e que é preciso desenvolver pesquisas sobre temas relacionados a questões não só acima do dossel [o topo da floresta], como abaixo dele, que são de interesse dos 25 milhões de pessoas que vivem na Amazônia brasileira”, disse Marcelo Botelho, diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa).

A iniciativa, que já conta com R$ 100 milhões da FAPESP para os próximos cinco anos, apoiará projetos de pesquisa em colaboração voltados à conservação da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas, à proteção de populações e comunidades tradicionais, aos desafios urbanos e à bioeconomia como política de desenvolvimento econômico na Amazônia.

A expectativa é que os recursos para o financiamento de pesquisa atinjam a marca dos R$ 500 milhões com a adesão de governos, empresas e organizações sociais.

A chamada está disponível em fapesp.br/15531.

O evento poderá ser assistido na íntegra no canal da Agência FAPESP no YouTube.






Autor: Elton Alisson
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 25/07/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/edital-amazonia10-destinara-r-52-milhoes-para-projetos-de-pesquisa-colaborativa/39186/

terça-feira, 5 de julho de 2022

Iniciativa Amazônia +10 lança primeira chamada

FAPESP e outras 19 fundações de amparo à pesquisa aportarão R$ 50 milhões em cooperações em ciência com vistas ao desenvolvimento sustentável amazônico

A Iniciativa Amazônia +10 lança hoje (24/06) sua primeira chamada de propostas, que apoiará projetos de pesquisa colaborativa voltados à conservação da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas, à proteção de populações e comunidades tradicionais, aos desafios urbanos e à bioeconomia como política de desenvolvimento econômico na Amazônia.


Inicialmente composto pela FAPESP e os nove estados da região amazônica, a Iniciativa Amazônia +10, por ocasião deste primeiro edital, envolve agora a participação de vinte fundações de amparo à pesquisa estaduais (FAPs): São Paulo, Amazonas, Rio de Janeiro, Pará, Paraná, Maranhão, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Amapá, Distrito Federal, Alagoas, Goiás, Paraíba, Pernambuco, Rondônia, Espírito Santo, Piauí, Santa Catarina, Acre e Tocantins.

Criada pela FAPESP em novembro de 2021 – mês em que a Fundação emitiu comunicado anunciando a missão e o caráter multilateral da empreitada – a Iniciativa Amazônia +10 é um programa de desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I) para a Amazônia Legal que envolve parceria com os conselhos nacionais de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti) e das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap).

A iniciativa mantém-se aberta para que outras FAPs e também demais instituições interessadas participem desta chamada, bastando que manifestem seu interesse junto ao Confap até 15 de julho.

Na chamada, serão recebidas propostas que apresentem pesquisa científica com foco na resolução de problemas considerados imprescindíveis para o avanço do desenvolvimento sustentável na região. Os problemas estarão organizados de acordo com três eixos prioritários:

I. Territórios como infraestrutura e logística que facilitam o desenvolvimento sustentável em dimensão multi escalar
II. Povos da Amazônia como protagonistas do conhecimento e da valorização da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas
III. Fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis pelos amazônidas

As propostas devem ter a participação de pesquisadores responsáveis de pelo menos três estados das FAPs que aderiram à chamada, sendo que um deles deve ser obrigatoriamente vinculado a instituições de ensino superior ou pesquisa situadas nos estados da região amazônica. Cada proposta deve ser constituída por um único projeto de pesquisa preparado conjuntamente pelos proponentes.

O prazo para envio das propostas é 10 de agosto. Submissões devem ser feitas às FAPs dos respectivos estados que estão participando do projeto, sempre pelo pesquisador responsável em cada estado.

Os pesquisadores responsáveis de cada projeto receberão financiamento da FAP que corresponda a seu estado de origem. Os aportes de cada fundação não devem ser obrigatoriamente iguais, e sim devem refletir as necessidades e os objetivos da pesquisa sob responsabilidade da equipe local. Os projetos podem ser apoiados por no mínimo R$ 300 mil (100 mil de cada FAP), e suas pesquisas podem se estender por no máximo 36 meses.

A seleção será feita por um painel de especialistas com base no enquadramento das propostas a critérios considerados relevantes na Iniciativa como co-construção, inter e transdisciplinaridade, inovação, impactos e sustentabilidade, recursos humanos de CT&I, comunicação e equilíbrio de projetos entre os eixos prioritários.

O orçamento total da chamada totaliza mais de R$ 50 milhões, dos quais R$ 30 milhões foram alocados pela FAPESP. Os proponentes deverão observar as diretrizes das diferentes signatárias envolvidas quanto a critérios de elegibilidade, o escopo de itens financiáveis referente à modalidade de apoio válido para a chamada, e o total de recursos disponibilizados para apoio a projetos.

A chamada está disponível em fapesp.br/15531.







Autor: FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 24/06/2022
Publicação Original: https://fapesp.br/15554/iniciativa-amazonia-10-lanca-primeira-chamada

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Futuro da Amazônia pode depender da restauração de áreas degradadas

Futuro da Amazônia pode depender da restauração de áreas degradadas

Restaurar 10% de áreas degradadas da Amazônia pode gerar receita de R$ 132 bilhões – Aproximadamente 2,6 bilhões de toneladas de CO2 podem ser retirados da atmosfera com a restauração otimizada

Por Amazônia 2030

A Amazônia pode salvar a própria Amazônia. Isso é o que aponta o estudo sobre a restauração de áreas prioritárias da floresta, desenvolvido pelos pesquisadores Bernardo Strassburg, Paulo Branco e Álvaro Iribarrem. A pesquisa mostra que, se apenas 10% da área degradada da Amazônia fosse restaurada de forma otimizada, uma receita de até R$ 132 bilhões poderia ser gerada. Abrindo a possibilidade de novos financiamentos com essa receita.

Isso ocorreria porque, com a restauração priorizada, cerca de 2,6 bilhões de toneladas de Co2 seriam retirados da atmosfera. “Se você comercializa esse potencial crédito de carbono vindo dessas áreas, por exemplo, você tem um cenário que é bom para muita coisa ao mesmo tempo. Ou seja: você gera receita a partir de carbono obtido com a restauração”, explica Strassburg, que é diretor executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). Ele ainda argumenta que é possível usufruir desse dinheiro em benefício da própria floresta.

“A gente sabe que mais ou menos metade desse valor seria destinado aos fazendeiros por custo de restauração, para os locais e para quem faz essa restauração. Mas ainda sobra 50%, são R$ 66 bilhões. Esse valor poderia ser usado para investir em política pública, para financiar programas de desenvolvimento sustentável, para buscar caminhos mais sustentáveis para o desenvolvimento da própria Amazônia”, defende o pesquisador.

PRIORIDADES

A recuperação de áreas desmatadas e degradadas é uma prioridade para a superação de desafios globais, como a mitigação das mudanças do clima. No Brasil, a meta estabelecida através do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg, 2017) é de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa em todos os biomas brasileiros até 2030. Se considerarmos que a Amazônia Legal brasileira ocupa quase 60% do território nacional (IBGE, 2019), a recuperação florestal da região deve ser vista como uma questão, sobretudo, estratégica, tendo em vista as elevadas taxas de desmatamento e o alto potencial de regeneração natural do bioma.

Os resultados do estudo, entretanto, mostram que a restauração isolada, sem o planejamento de áreas prioritárias, pode ser uma escolha nada inteligente.

“Um estudo anterior ao nosso mostra que se restaurar 10% da Amazônia sem priorização, sem planejamento, o processo é muito menos eficiente. O custo é até 10 vezes mais efetivo se você seguir a priorização”, ressalta Strassburg. Ele ainda aponta que, se os gestores escolherem apenas pelo fator de custo, ou seja, por onde seria mais barato restaurar, ao invés de ir para fatores como clima ou biodiversidade, o resultado dessa restauração pode ser oito vezes menor. “Então, com o mesmo trabalho, ao invés de retirar 2,6 bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera, como se fôssemos pelas áreas prioritárias, conseguiríamos apenas 330 milhões de toneladas. Estamos falando da mesma área, ainda restaurando os 10% do que foi perdido, a mesma dimensão de esforço, mas em locais diferentes por conta da prioridade”, destaca o diretor do IIS.

CRITÉRIOS

Três critérios são utilizados para definir quais são as áreas prioritárias para recuperação florestal no Bioma Amazônia: 1. Conservação da biodiversidade, que visa a redução no risco de extinção das espécies ameaçadas e/ou endêmicas da Amazônia; 2. Mitigação de mudanças do clima, que busca otimizar o potencial de sequestro de carbono; 3. Retorno socioeconômico, que tem como objetivo desenvolver a restauração por meio de baixos custos e, ao mesmo tempo, aumentar a geração de emprego e renda na região. A ideia, então, é encontrar soluções balanceadas, simultaneamente, entre os três benefícios.

Nos casos de mudanças climáticas e potencial de retorno socioeconômico, as áreas prioritárias se concentram, em grande parte, no “arco do desmatamento” (região em que o desmatamento se concentra historicamente –território que vai do Oeste do Maranhão e sul do Pará, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre). Por outro lado, para a redução do risco de extinção de espécies, as áreas prioritárias estão concentradas mais ao Norte e nas margens do rio Amazonas. Isso acaba por evidenciar uma relação de “perde-e-ganha” entre os critérios utilizados e aponta a necessidade de um cenário multicritério, como o utilizado pela pesquisa, que leva em consideração todas essas relações juntas. Ao comparar os custos desse cenário com outros, ele se mostrou extremamente vantajoso, representando uma economia de aproximadamente R$ 43 bilhões por ano.

Além disso, a priorização ‘multicritério’ oferece subsídios para a tomada de decisão para definir por qual área começar a recuperação florestal. Como consequência, se torna de grande utilidade no processo de construção e aprimoramento de políticas públicas e também em processos de tomada de decisão no âmbito do poder público, do setor privado e da sociedade civil.

“O interessante desse estudo é que ele reforça, realça e quantifica o impacto gigantesco que a restauração pode trazer para esses desafios locais e globais quando feita de forma planejada. Além disso, a gente consegue quantificar e mapear e, a partir disso, atuar diretamente nas escolhas que os tomadores de decisão devem ter quando forem restaurar uma área. Isso porque a gente consegue quantificar os benefícios de cada área, ver qual, juntando os fatores, é mais benéfica de ser restaurada. Você mapear ajuda demais na tomada de decisão, porque mostra as prioridades e sai de algo genérico para algo concreto. Você passa a argumentar com dados”, defende Strassburg.

E QUAIS SÃO AS ÁREAS PRIORITÁRIAS?

Como resultado, a pesquisa conclui que há áreas prioritárias por toda a Amazônia. Algumas são mais importantes para a conservação da biodiversidade, clima, impacto social e, em alguns casos, são importantes para todos esses fatores juntos.



“Os resultados mostram que a restauração em regiões próximas a calha e foz do rio Amazonas, Bragantina no Pará e Colíder no Mato Grosso são de altíssima importância para a conservação da biodiversidade, enquanto que o Sudeste Paraense, Nordeste Mato-grossense e região de Ji-Paraná em Rondônia, tem alto potencial para sequestro de carbono”, destaca Strassburg, acrescentando que “tais regiões também seriam prioritárias para impactos socioeconômicos”.

Os mapas elaborados pela pesquisa também apontam por onde começar a implementação da recuperação, levando em conta os diferentes cenários descritos. É possível perceber, a partir da delimitação por estados, que há regiões de alta prioridade em toda a Amazônia.

“É interessante notar que todos os estados Amazônicos possuem regiões de altíssima prioridade para estes três critérios, reforçando a mensagem de que todos podem contribuir e se beneficiar de um programa de restauração em larga escala em áreas prioritárias”.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/02/2022





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 16/02/2022
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2022/02/16/futuro-da-amazonia-pode-depender-da-restauracao-de-areas-degradadas/

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Amazônia: Agropecuária demite trabalhadores enquanto aumenta a área de pastagens e cultivos

Amazônia: Agropecuária demite trabalhadores enquanto aumenta a área de pastagens e cultivos
Novo estudo mostra descolamento entre o crescimento da agropecuária na Amazônia e a geração de empregos. Desde 2012, agricultores não qualificados foram os que mais perderam espaço.

Na Amazônia legal, a agropecuária demite trabalhadores ao mesmo tempo em que aumenta a área destinada a pastagens e cultivos. É o que revela um novo estudo, conduzido por pesquisadores do projeto Amazônia 2030. O trabalho mostra que entre 2012 e 2019, a agropecuária na região perdeu cerca de 322 mil postos de trabalho: uma queda de 16%. O desempenho contrasta com o cenário geral da região onde, no mesmo período, foram criados mais de 500 mil empregos (um crescimento de 5% em sete anos.)

As conclusões foram sintetizadas no relatório “Dinamismo Recente do Emprego na Amazônia Legal – Agropecuária“. O documento é o primeiro de uma série, ainda em preparação, destinada a examinar como se comportaram os empregos e os salários na Amazônia – quais ocupações empregaram mais, e quais mais demitiram – durante o período analisado. A pesquisa é liderada pelo economista Gustavo Gonzaga, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio)

Para avaliar o dinamismo do mercado de trabalho na Amazônia, os pesquisadores analisaram dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD contínua). Os números se referem a um cenário econômico que precede a crise deflagrada pelo novo coronavírus.

Nos sete anos examinados pela equipe, enquanto os postos de trabalho na agropecuária minguavam, a área ocupada pela atividade cresceu: um aumento de 8,4%, de acordo com dados do MapBiomas. No mesmo período, a região registrou recordes de desmatamento: nos anos analisados, a área desmatada aumentou significativamente de 4.571 km2 para 10.129 km2.



Menos empregos e alta informalidade

A agropecuária envolve um conjunto de atividades que incluem agricultores com diferentes níveis de qualificação, pecuaristas e extrativistas florestais.

Hoje, o setor está entre os que mais ocupam pessoas na Amazônia: 1,7 milhão de trabalhadores, ou 15,9% das pessoas ocupadas. Mas faz uma curva descendente.

Segundo o relatório, a maioria dos ocupados – 81% – é de trabalhadores informais. Além disso, os salários são baixos. Em 2019, o trabalhador do setor recebeu, em média, R?829,00 mensais. Menos da metade da média para a Amazônia Legal, de R?1692,00.

Os números mostram ainda que, nos sete anos analisados:

– Caiu o número de agricultores não qualificados ocupados na região. Agricultores não qualificados são aqueles cujas atividades não exigem qualificações específicas. Essa foi a categoria que mais perdeu postos de trabalho: uma perda de 59%. Sua diminuição é reflexo da crescente mecanização das lavouras.

– Agricultores qualificados também perderam espaço: uma queda de 6,7% no número de trabalhadores ocupados.

– O número de extrativistas florestais em atividade seguiu trajetória semelhante: decréscimo de 28%.

– O contraste fica à cargo da pecuária. Aumentou o número de pessoas ocupadas pela atividade: um acréscimo de 2%. Tímido, comparado à queda geral no número de pessoas ocupadas.

– Para entender a dinâmica da ocupação da agropecuária na região, é importante olhar para dois estados em especial: Mato Grosso e Pará. Juntos, eles reúnem 48% do número total de pessoas ocupadas na Amazônia Legal. Têm realidades muito díspares: em 2019, no Mato Grosso, o rendimento médio do trabalhador da agropecuária era de R?1.790, 142% maior do que o rendimento médio no Pará (R? 739), o que provavelmente reflete um grau de mecanização e de qualificação da mão-de-obra superior neste setor no Mato Grosso.

Sobre o Amazônia 2030

O projeto Amazônia 2030 é uma iniciativa conduzida por pesquisadores brasileiros para desenvolver um plano de ações para a Amazônia. Seu objetivo é apontar caminhos para que a região dê um salto de desenvolvimento econômico e humano, mantendo a floresta em pé, nos próximos dez anos.

O projeto é uma iniciativa do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos situados em Belém, com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, localizados no Rio de Janeiro.

Leia o estudo completo em: https://amazonia2030.org.br/dinamismo-de-emprego-e-renda-na-amazonia-legal-agropecuaria/

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/08/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 17/08/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/08/17/amazonia-agropecuaria-demite-trabalhadores-enquanto-aumenta-a-area-de-pastagens-e-cultivos/

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Desmatamento pela mineração ilegal na Amazônia aumenta em 90% no período de 2017 a 2020


O aumento do garimpo ilegal já causou grandes impactos nas florestas, por meio da degradação florestal, da poluição dos rios e dos ecossistemas aquáticos Foto: Welington Pedro de Oliveira/Fotos Públicas
Desmatamento pela mineração ilegal na Amazônia aumenta em 90% no período de 2017 a 2020
Crescimento causado por atividade clandestina foi observado entre os anos de 2017 e 2020 e, segundo Juliana Siqueira, impacta rios, vida subaquáticas e também a saúde das populações ribeirinha e indígena

Jornal da USP no Ar 1ª edição / Rádio USP

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Escola Politécnica da USP concluiu que houve um crescimento de mais de 90% no desmatamento em áreas de mineração ilegal no período de 2017 a 2020, passando de 52 km² para 101 km² de áreas desmatadas. A tendência de crescimento não foi observada na mesma proporção nos projetos de mineração oficialmente autorizados.

“A grande questão que apontamos no estudo é a gravidade desse avanço para o meio ambiente”, diz a engenheira ambiental Juliana Siqueira, uma das autoras do artigo, ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição. O aumento documentado, segundo ela, já causou grandes impactos nas florestas, por meio da degradação florestal, da poluição dos rios e dos ecossistemas aquáticos e também na saúde da população ribeirinha e das comunidades indígenas que têm suas terras ocupadas por garimpeiros.

“Esses impactos, dada a proximidade desses garimpos, se dão de forma acumulativa”, explica Juliana. A atuação dos garimpeiros se concentra em regiões específicas e fixas, muitas vezes próximas a bacias hidrográficas. “Temos um avanço das atividades frente à simplificação das legislações ambientais. Então, o que reforçamos é a necessidade justamente de revisitar essa tendência que estamos presenciando para o fortalecimento.”

No estudo, os pesquisadores trazem a ideia da certificação para rastreabilidade do ouro lavrado em atividades ilegais. Ou seja, rastrear a fonte e coibir que esse metal de origem ilegal seja comercializado. “Certamente eles [os certificados] são o que nós temos de mais importante de alternativa para rastrear a origem desse ouro que é comercializado, para coibir a comercialização desse ouro ilegal”, afirma a engenheira, destacando que ainda são necessários estudos científicos e práticos que precisam ser feitos para aplicar a certificação.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/07/2021

 

Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 09/07/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/07/09/desmatamento-pela-mineracao-ilegal-na-amazonia-aumenta-em-90-no-periodo-de-2017-a-2020/

Deter: Alertas de desmatamento na Amazônia não param de crescer e junho tem novo recorde

DETER confirma tendência de aumento dos alertas de desmatamentos e junho tem novo recorde; Foram 326Km de área desmatada somente na última semana do mês

Por Karen Mota, Greenpeace

Dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje demonstram que os alertas de desmatamento na Amazônia não param de crescer. Os dados do mês de junho mostram uma área destruída de 1.062 Km2, que representa um aumento de 1,8% na área com alertas de desmatamento em relação aos registrados em junho de 2020. Somente na última semana do mês passado foram 326 Km2 e o acumulado no ano já soma 3.610 Km2, 17,1% maior que o mesmo período de 2020.


Gráfico: Área dos alertas de desmatamento para o mês de junho, segundo o Programa DETER-B/INPE. Consultado às 07:00am em 09/07/2021

Apesar dos números crescentes, o governo federal insiste em manter uma operação cara e comprovadamente ineficaz em lidar com o problema, enviando as tropas militares através da GLO, para combater o desmatamento. Dessa forma, validando a política antiambiental do atual governo que fragilizou órgãos de fiscalização, como Ibama e ICMBio.

“É mais um triste recorde para a floresta e seus povos, esse número só confirma que o Governo Federal, não tem capacidade de combater toda essa destruição ambiental. Enviar o exército à Amazônia, somente neste momento em que o fogo e a devastação estão, mais uma vez, avançando sobre a floresta, é uma estratégia tardia e equivocada, deixando evidente que na verdade não há interesse em combater o desmatamento”, declara Rômulo Batista, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace.

Esse tipo de operação vem, há dois anos, mobilizando recursos públicos muitas vezes superiores ao orçamento anual do IBAMA para fiscalização e um grande número de militares, sem efetividade na prevenção do desmatamento e queimadas, o resultado é o aumento desses números. Além de não evitar o desmatamento, o próprio governo divulgou os 26 municípios onde atuarão as Forças Armadas, o que compromete o “elemento surpresa” necessário para encontrar e punir criminosos.

Estamos vivendo uma crise climática que se agrava com esses recordes de queimadas e desmatamentos, os reflexos no Brasil já podem ser vistos, como por exemplo a crise hídrica, causando o aumento da conta de luz e a aumento no preço dos alimentos. Mas ao invés de prevenir e combater o crime ambiental, esquemas organizados e patrocinados por grandes proprietários e grileiros de terra encontram-se amparados pelo esvaziamento das políticas de proteção ambiental, das atividades de fiscalização e pelas sinalizações vindas também do Congresso Nacional, que vem atuando para legalizar o ilegal. Exemplo são os Projetos de Lei 2633/2020 e 490/2017 que anistia grileiros e abre terras indígenas para atividades predatórias – respectivamente.

“Ao invés dos parlamentares estarem focados em conter os impactos da pandemia e combater o crime que avança na floresta, e que não só queima nossas riquezas naturais, mas também a imagem e a economia do país, eles tentam aprovar projetos que irão acelerar ainda mais o desmatamento, os conflitos no campo e a invasão de terras públicas. Nosso país não precisa da aprovação destes projetos, e o Presidente da Câmara dos deputados, Arthur Lira, não deve pautar o PL da grilagem e muito menos o PL 490 que é um ataque direto aos direitos dos povos indígenas. O que precisamos é de vontade política para avançar no combate ao desmatamento, queimadas e grilagem de terras”, finaliza Rômulo.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/07/2021





Autor: Karen Mota, Greenpeace
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 09/07/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/07/09/deter-alertas-de-desmatamento-na-amazonia-nao-param-de-crescer-e-junho-tem-novo-recorde/

Desmatamento da Amazônia cresceu 17% no primeiro semestre


Foto de arquivo
Desmatamento da Amazônia cresceu 17% no primeiro semestre
Os alertas de desmatamento para a Amazônia em junho mostram um crescimento de 17% em relação ao primeiro semestre do ano passado, com uma área de 3.610 km2 desmatada em 2021.

Foram 1.062 km2 apenas em junho, o que faz deste montante o maior valor aferido no sexto mês pelo menos desde 2016. Apenas o estado do Pará, que perdeu 438 km2 de florestas, responde por 41% de todo o desmatamento na região durante o mês de junho.

O ritmo de desmatamento da Amazônia em 2021 indica que pelo terceiro ano consecutivo a floresta perderá em torno de 10 mil km2. Esse patamar é 60% superior à média da década anterior ao seu governo (2009-2018), que era de 6,4 mil km2. A meta apresentada pelo General Hamilton Mourão para a nova fase de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Amazônia não altera esse cenário. A redução de 12% em relação a 2020, proposta pelo Vice-presidente, permitiria apenas retroceder ao nível de desmatamento alcançado em 2019, quando o desmatamento havia crescido quase 30% em relação ao ano anterior.

Com o Cerrado, a situação não é diferente: a destruição do segundo maior bioma do Brasil, considerado a caixa d’água do país devido ao grande número de bacias hidrográficas que nascem nele, cresceu 16,9% em junho e 6,3% no acumulado do primeiro semestre, na comparação com 2020. A área natural perdida em junho e nos primeiros seis meses deste ano é de 511 km2 e 2.638 km2, respectivamente.

“É rápido desconstruir. O governo Bolsonaro perdeu duas décadas de combate ao desmatamento em dois anos. Provavelmente precisaremos de outras duas para recuperar o legado desse desmonte”, ressalta Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil. “A destruição da Amazônia e do Cerrado coloca em risco a segurança hídrica do país e, por consequência, nossa segurança energética, com sérias consequências para toda a economia. Essa provavelmente será a herança deste governo”, completa.

Fonte: WWF Brasil

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/07/2021






Autor: EcoDebate
Fonte: WWF Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 09/07/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/07/09/desmatamento-da-amazonia-cresceu-17-no-primeiro-semestre/

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Novo recorde em alertas de desmatamento na Amazônia mostra que crime ditará taxa de desmate


Foto de Arquivo
Novo recorde em alertas de desmatamento na Amazônia mostra que crime ditará taxa de desmate
Com Ibama desmontado, ICMBio ameaçado de extinção e ministro correndo da polícia, dados do Inpe mostram pior maio da série.

Por Solange A. Barreira

Os alertas de desmatamento na Amazônia em apenas 28 dias de maio atingiram a marca de 1.180 km2, um aumento de 41% em relação ao mesmo mês de 2020. É a maior área de alertas desde o início da série do sistema Deter-B, do Inpe, em 2016, e a primeira vez que o número ultrapassa 1.000 km2 para esse mês.

O dado é preocupante, porque o mês de maio marca o início da estação seca, quando a devastação se intensifica, em grande parte da região amazônica. A permanecer a tendência nos próximos dois meses, a taxa oficial de desmatamento de 2021 (medida de agosto a julho) poderá terminar com uma inédita quarta alta consecutiva. O comportamento da curva dependerá exclusivamente de quem hoje dá as cartas na região: o crime ambiental.

O regime Bolsonaro se dedica há dois anos e meio a desmontar as políticas de controle de desmatamento, enterrando o único plano que conseguiu reduzir a destruição, o PPCDAm (Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia). A fiscalização do Ibama foi manietada; como mostraram neste ano documentos produzidos pelos próprios agentes, a gestão do antiministro Ricardo Salles virtualmente parou as operações do órgão — cuja cúpula acaba de ser afastada por suspeita de operar para madeireiros.

O Instituto Chico Mendes, que fiscaliza as unidades de conservação federais, está ameaçado de extinção. A fracassada Operação Verde Brasil 2, do general Hamilton Mourão, saiu de cena em abril e não deixou nada no lugar. O plano de Salles de criar uma espécie de milícia na floresta usando homens da Força Nacional foi interrompido pelo fato prosaico de que o ministro, com dois inquéritos contra si no STF, dedica seu tempo hoje a fugir da polícia.

No acumulado desde agosto, vem caindo rápido a diferença entre a área recorde de alertas do ano passado e a deste ano: em janeiro o desmatamento em 2021 era 21% menor que em 2020. Agora a diferença é de 8%, e ainda pode cair mais.

Nesse quadro de ausência completa do governo federal, os R$ 270 milhões que o Congresso conseguiu na semana passada para a fiscalização dificilmente produzirão resultado. “O grande problema da fiscalização e do combate ao desmatamento não é apenas falta de dinheiro; o que falta é governo”, afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

O combate ao desmatamento está quase exclusivamente nas mãos dos Estados. O problema é que alguns governadores parecem estar do lado dos desmatadores. Em Rondônia, o Coronel Marcos Rocha (PSL), aliado de Jair Bolsonaro, deu em maio um presente aos grileiros ao reduzir duas unidades de conservação no Estado.

“O desmatamento neste ano será o que os madeireiros ilegais, garimpeiros criminosos e grileiros quiserem que seja. E, neste momento, eles não têm nenhum motivo para se controlar, já que o próprio governo federal, que deveria coibir a ilegalidade, os incentiva com atos e discursos”, conclui Astrini.

* Sobre o Observatório do Clima: rede formada em 2002, composta por 68 organizações não governamentais e movimentos sociais. http://oc.eco.br.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/06/2021



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 04/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/04/novo-recorde-em-alertas-de-desmatamento-na-amazonia-mostra-que-crime-ditara-taxa-de-desmate/

Temporada seca começa com recorde de queimadas e devastação em alta na Amazônia e no Cerrado


Temporada seca começa com recorde de queimadas e devastação em alta na Amazônia e no Cerrado
Na véspera do Dia do Meio Ambiente, dados oficiais mostram desmatamento em aceleração e o maior número de incêndios dos últimos 14 anos para o mês de maio

Por Sandra Miyashiro e Rita Silva

Em 2021, a temporada de seca mal começou e as notícias já são ruins: em maio, o número de focos de incêndios na Amazônia e no Cerrado já é o maior desde 2007, superando inclusive maio do ano passado, quando foi registrado o maior recorde de queimadas em uma década, chamando a atenção da imprensa internacional. Nos maiores biomas brasileiros, as queimadas começam a se intensificar ao longo do mês de junho e chegam ao auge em agosto e setembro.

Além disso, o desmatamento está em aceleração nos dois biomas: entre 1 e 28 de maio, foram devastados 1.180 km2 da floresta amazônica – o maior número para o período desde 2016 e um aumento de 83% em comparação aos 645 km2 desmatados em maio de 2020. No Cerrado, a aceleração é ainda maior. Entre 1 e 27 de maio, foram desmatados 870 km2, um aumento de 142% em comparação aos 360 km2 registrados no mesmo período em 2020.

“Os números mostram uma situação extremamente crítica. Em um ambiente de estímulo ao desmatamento pelo discurso retórico do governo federal e de enfraquecimento total da fiscalização ambiental, a seca deste ano se soma às altíssimas taxas de desmatamento formando um cenário muito propício para grandes queimadas, tanto na Amazônia quanto no Cerrado”, destaca Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil.

Na Amazônia, foram registrados 1.166 focos de fogo entre 1 e 31 de maio – número 44% maior que o registrado no mesmo período em 2020 (829). Já no Cerrado, foram detectados 2.649 focos de queimadas em maio, um total 87% maior que o registrado no mesmo mês em 2020 (1.481).

Em todo o Brasil, entre 1 de janeiro e 31 de maio de 2021, já foram registrados 15.492 focos de queimadas. No Pantanal, o número de queimadas ainda permanece baixo no início de junho, mas a preocupação é grande porque a seca deste ano no bioma é mais severa e generalizada que a de 2020, que influenciou diretamente o recorde histórico de incêndios no Pantanal naquele ano. No ano passado o fogo destruiu 30% do Pantanal, com mais de 22 mil focos de incêndio no bioma, número superior à soma dos três anos anteriores.

Seca e fogo – De acordo com especialistas, a seca extrema de 2021 também causa preocupação na Amazônia. No bioma, a estação chuvosa deste ano – que vai de novembro a abril – foi ainda mais seca que a de 2020, em partes do sul do bioma, especialmente na região conhecida como o “arco do desmatamento”. Algumas regiões do bioma receberam apenas 60% de sua média histórica de chuvas.

“Embora o uso do fogo seja uma prática comum a vários produtores e comunidades tradicionais, é importante lembrar que esse uso tradicional ocorre em áreas muito pequenas, necessárias à subsistência. No caso da floresta amazônica, que é um bioma úmido, as queimadas em grande escala são resultado de ação criminosa, associada ao desmatamento ilegal e grilagem de terras”, explica Voivodic.

De acordo com estimativas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), até o final de 2021 o fogo poderá destruir mais de 5 mil quilômetros quadrados de florestas na Amazônia.

Em 2020, o Brasil teve o maior número de focos de queimadas em uma década, de acordo com o Inpe. No ano passado, o país registrou 222.797 focos, contra 197.632 em 2019, um aumento de 12,7%.

Os números de 2020 só não foram piores que os de 2010, quando o país registrou cerca de 319 mil focos. A pior situação foi a do Pantanal, onde foram registrados 22.116 focos de queimadas em 2020, pior marca da série histórica do Inpe, iniciada em 1998 e cerca de 120% a mais que em 2019.

Estudos de atribuição têm mostrado que além dos fenômenos climáticos como La Niña, já é possível detectar a assinatura da crise climática na seca de 2021. Estudo publicado em artigo no periódico científico PNAS mostra que a conversão da floresta amazônica em grandes plantações comerciais produz efeitos significativos sobre o clima local da Amazônia, criando áreas até 3C mais quentes e com menos chuva. As conclusões resultam do acompanhamento de áreas em Rondônia e Mato Grosso dos anos 1990 até meados dos anos 2010, e da comparação desses locais com regiões amazônicas que não sofreram desmate intenso. A aceleração da destruição da floresta nos últimos dois contribui para essa tendência.

Devastação dos grandes biomas brasileiros – O desmatamento também está crescendo rapidamente na Amazônia e no Cerrado em 2021. Entre 1 e 28 de maio, foram devastados 1.180 km2 da floresta amazônica – o maior número para o período desde 2016 e um aumento de 83% em comparação aos 645 km2 desmatados em maio de 2020. No Cerrado, a aceleração é ainda maior. Entre 1 e 27 de maio, foram desmatados 870 km2, um aumento de 142% em comparação aos 360 km2 registrados no mesmo período em 2020.

No acumulado do ano, os números também são os maiores desde 2016 na Amazônia. Entre 1 de janeiro até 28 de maio, foram desmatados 2.337 km2, um aumento de 26% em relação ao mesmo período em 2020 (1.849km2). No Cerrado, foram destruídos 2.065km2 entre 1 de janeiro e 27 de maio deste ano, contra 1.685km2 no mesmo período do ano passado – um aumento de 22%.

A aceleração da devastação também é evidente quando se considera o acumulado desde agosto – quando começa a contagem oficial da temporada de desmatamento. De agosto até o fim de maio, o desmatamento da Amazônia acumulado é apenas 5% menor que o detectado no período em 2020. A diferença era bem maior, mas vem caindo rapidamente com a explosão do desmatamento nos primeiros meses de seca. Considerando-se o acumulado desde o início de agosto, o Cerrado teve 3.868 km2 destruídos, um aumento de 30% em comparação ao mesmo período em 2020, quando foram desmatados 2.981km2.

Retrocesso e pacote de destruição – O aumento do desmatamento dos grandes biomas brasileiros tem relação direta com o desmonte ambiental promovido pelo governo Bolsonaro. Embora a tendência de alta no desmatamento da Amazônia venha desde 2016, foi nos últimos dois anos, quando o governo se colocou claramente ao lado dos criminosos que ocupam e desmatam ilegalmente, que a destruição da floresta atingiu números recordes.

A cada ano, o bioma fica mais perto do ponto de inflexão a partir do qual a floresta não se sustenta e se converte em um ambiente altamente degradado. Cientistas calculam que o ponto de virada poderá acontecer entre 20% e 25% de desmatamento e já estamos perto dos 20%. Além de perdas de biodiversidade incalculáveis, o modo de vida dos povos da floresta estaria condenado ao desaparecimento. Como a Amazônia tem importância comprovada sobre o regime de chuvas do continente, seu desaparecimento condenaria também todo o grande agronegócio que se estende pelas regiões centro-oeste, sudeste e sul do país.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/06/2021





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 04/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/04/temporada-seca-comeca-com-recorde-de-queimadas-e-devastacao-em-alta-na-amazonia-e-no-cerrado/

terça-feira, 1 de junho de 2021

Maio registra maior número de queimadas na Amazônia e Cerrado desde 2007

Maio registra maior número de queimadas na Amazônia e Cerrado desde 2007
Amazônia e Cerrado – Os 3.815 focos de calor nos dois biomas representam um aumento de 65% em relação ao ano passado e é o pior índice dos últimos 14 anos.

Por Macarena Mairata, Greenpeace Brasil

Dados divulgados na noite desta segunda-feira (31/05), pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), apontam que o mês de maio teve o pior índice de focos de calor na Amazônia e Cerrado desde 2007. Os satélites mostram que na Amazônia foram 1.186 focos de calor, um aumento de 40,6% em relação ao ano passado. No Cerrado, foram 2.649 focos, uma alta de 78,8% em relação ao mesmo período de 2020.

“Infelizmente esses recordes no mês de maio não podem ser considerados uma surpresa, tendo em vista a continuidade da política antiambiental do governo Bolsonaro, onde pela primeira vez na história, um ministro do Meio Ambiente é investigado por possíveis crimes contra o meio ambiente”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Para os próximos meses, o cenário previsto dificilmente será diferente do que aconteceu nos últimos dois anos. Com números altos de queimadas e desmatamento, o cenário pode ser agravado com o fim do inverno amazônico – diminuição ainda mais das chuvas em regiões da Amazônia -, e previsão do fenômeno La Ninã mais forte no segundo semestre.


Fonte: Imagem de satellite planet, compilada por Greenpeace Brasil

A tendência desse contexto é catastrófica, não somente pela perda da biodiversidade nesses biomas, mas também para as populações que vivem na Amazônia. Nesse período, as populações locais são afetadas pela redução das chuvas e pela alta incidência de doenças respiratórias, que resultam da queda na umidade relativa do ar, das fuligens e fumaças provenientes das queimadas, tudo isso enquanto ainda lutamos contra a pandemia de Covid-19.

“O mês de maio deveria nos levar a uma profunda reflexão sobre o futuro que queremos. Além do recorde de fogo na Amazônia e Cerrado, somente neste mês, o Rio Negro bate recorde de inundação em Manaus, enquanto o centro oeste e sudeste sofrem com déficit de chuvas, que deixam os reservatórios com metade da média histórica de volume d’agua para o período, ameaçando até o fornecimento de energia. Tudo isso está evidenciando, cada vez mais, a crise climática, a violência contra os povos indígenas e suas lideranças numa escalada inadmissível, até mesmo com ataques a tiros e casas queimadas em diferentes territórios. Enquanto isso, em Brasília, o Congresso se apressa para tentar passar a boiada, com PLS como o Projeto de Lei 191/2020 e o Projeto de Lei 490/2007, que irão aumentar ainda mais o desmatamento e a violência contra os povos indígenas”, complementa Rômulo.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/06/2021




Autor: Macarena Mairata, Greenpeace Brasil
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 01/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/01/estudo-inedito-detecta-agrotoxicos-em-alimentos-ultraprocessados/

terça-feira, 25 de maio de 2021

Agricultores familiares utilizam técnicas de manejo sustentável na Amazônia



O programa Florestas de Valor leva técnicas de sistemas agroflorestais e outras como o Roça sem Fogo, promovendo o manejo do solo sem o uso do fogo, evitando incêndios e reduzindo emissões de gases do efeito estufa

Programa Florestas de Valor, do Imaflora, apoia 150 famílias no Pará com o desenvolvimento de sistemas agroflorestais

O Dia do Trabalhador Rural, comemorado na data de 25 de maio, busca reconhecer o trabalho feito por milhões de agricultores em todo o Brasil. E uma parcela importante desses trabalhadores são formados por produtores da agricultura familiar. Segundo dados da mais recente edição do Censo Agropecuário, de 2017, cerca de 3,8 milhões de estabelecimentos agropecuários são classificados como sendo da agricultura familiar, o que representa 77% do total.

Em termos de área, na época da pesquisa a agricultura familiar ocupava 80,9 milhões de hectares, ou 23% da área total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros. São mais de 10 milhões de famílias nessa atividade, que é responsável por gerar renda para 67% dos brasileiros que trabalham no campo.

Valdenilton Lopes de Nina é um desses agricultores. Ele possui um lote de 20 hectares no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PSD) Paraíso, um assentamento de colonização e reforma agrária localizado em Alenquer, no Pará. Com 48 anos de idade, sua vida toda foi no campo, lidando com a terra. Mas, há 11 anos, estimulado pelo programa Florestas de Valor, do Imaflora, desenvolve seu plantio seguindo o sistema agroflorestal (SAF), que reúne espécies agrícolas e florestais.

Nesse modelo, é possível diversificar a produção, gerando uma maior opção de renda para os agricultores, além de promover a soberania alimentar das famílias, que têm acesso a uma variedade maior de alimentos. Além disso, a plantação próxima de árvores gera benefícios econômicos e ambientais. As frutas das árvores podem ser comercializadas, e as árvores sequestram o carbono contribuindo com a regulação climática do planeta.

O Florestas de Valor leva técnicas de sistemas agroflorestais e outras como o Roça sem Fogo, promovendo o manejo do solo sem o uso do fogo, evitando incêndios e reduzindo emissões de gases do efeito estufa. As ações beneficiam cerca de 150 famílias nos municípios de Oriximiná, em comunidades quilombolas, e Alenquer, no PDS Paraíso, na região conhecida como Calha Norte do Rio Amazonas, no norte do Pará. Cerca de 150 hectares de terra já foram preparados com técnicas de sistemas agroflorestais e Roça sem Fogo desde o início do programa, em 2010.

Vadenilton consegue tirar sua renda da plantação de mandioca e da coleta e comercialização de sementes de cumaru, e produz também espécies como laranja, limão, cacau e feijão que, durante dois anos, forneceu para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Ao mesmo tempo que produz, Vadenilton garante a conservação do meio ambiente, ressaltando a importância do modelo de agroflorestas e também de Roça sem Fogo. “Com certeza melhorou muito após os SAFs. Com o projeto a gente conseguiu trabalhar com áreas mecanizadas, e dá para reaproveitar a mesma área. A gente fica mais tranquilo pra plantar cumaru e ir variando o plantio, porque sabe que no ano seguinte não vai ter fogo”, explica o agricultor. Quando não havia o sombreamento dos SAFs, todo ano era preciso abrir uma nova área para o plantio. “Agora parou. Mais da metade do terreno é floresta, e a gente vai botando outras espécies”, conta Valdenilton. O forte da produção é a mandioca e o cumaru, e as demais plantações servem para a variação de cultura.

O trabalho do Imaflora envolve também subsídios, treinamentos, fornecimento de mudas e sementes para a produção. Com isso, a experiência de agricultores como Valdenilton pode servir de exemplo e alcançar outros produtores. “Com os treinamentos, muitos agricultores tornam-se multiplicadores, passando as técnicas adiante”, explica Leonardo Ferreira, Coordenador de Projetos do Imaflora.

Florestas de Valor

O programa Florestas de Valor, do Imaflora, busca fomentar atividades agroextrativistas e agrícolas de base ecológica na Amazônia para consolidar áreas protegidas, conservar recursos naturais e valorizar as populações tradicionais e agricultores familiares. O programa atua em mais de 4 milhões de hectares de áreas protegidas da Amazônia, nos territórios da Calha Norte do Rio Amazonas e no município de São Félix do Xingu, no Pará, contando com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental e recursos do Fundo Amazônia/BNDES. O território da Calha Norte no Norte do estado do Pará concentra o maior bloco de áreas protegidas de floresta tropical do mundo, abrangendo uma área superior a 20 milhões de hectares, abrangendo grande diversidade biológica e social, com povos indígenas, comunidades tradicionais e extrativistas.

Fonte: Imaflora, http://www.imaflora.org


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2021





Autor: EcoDebate
Fonte: Imaflora
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 25/05/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/05/25/agricultores-familiares-utilizam-tecnicas-de-manejo-sustentavel-na-amazonia/

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Amazônia: mapeamento inédito identifica 2,7 mil projetos de restauração



CRÉDITO, FLÁVIO FORNER/DIVULGAÇÃO
Legenda da foto,

A foto mostra um Sistema Agroflorestal dentro da reserva Chico Mendes, no estado do Acre, e, ao fundo, uma floresta


Enquanto de um lado avança o desmatamento na Amazônia, de outro 2.773 projetos promovem hoje no Brasil a restauração da maior floresta tropical do mundo, mas cobrindo ainda uma área ínfima dos milhões de hectares com potencial para serem recuperados.


São iniciativas tocadas por organizações da sociedade civil, empresas, agricultores, instituições de pesquisa e governos que foram mapeadas pela primeira vez pela Aliança pela Restauração na Amazônia, em documento lançado nesta quarta-feira (09/12) e antecipado à BBC News Brasil.


É o caso do projeto Café Apuí, no Amazonas, em que 59 famílias produzem café orgânico em 33 hectares de sistemas agroflorestais — método de cultivo em que coexistem na mesma área o cultivo agrícola e outras vegetações.


A iniciativa, que já plantou 32 mil árvores, recuperou antigos cafezais que estavam abandonados por baixa produtividade devido a degradação do solo. A melhor qualidade do café produzido sob a sombra da vegetação mais alta replantada permitiu um aumento de 300% da renda das famílias envolvidas, destaca a publicação.



Os 2.773 projetos mapeados, no entanto, cobrem 113,5 mil hectares, uma pequena área frente ao acelerado ritmo de destruição da floresta. Apenas entre agosto de 2019 e julho de 2020, foram desmatados 1,1 milhão de hectares da Amazônia (alta de 9,5% ante os doze meses anteriores), segundo dados oficiais preliminares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — cada hectare equivale a aproximadamente um campo profissional de futebol.


Por isso, a publicação traz dez recomendações para que a restauração ganhe escala no Brasil, ao mesmo tempo que alerta que esses projetos não substituem a preservação da floresta ainda de pé, com o combate ao desmatamento, que é majoritariamente ilegal na Amazônia.


Segundo Danielle Celentano, secretária executiva da Aliança pela Restauração na Amazônia, a recuperação da floresta e o combate ao desmatamento são estratégias que caminham juntas para evitar que a Amazônia chegue ao "ponto de não retorno" (tipping point, em inglês), um patamar de destruição em que a floresta perderia a capacidade de se regenerar e haveria mudanças drásticas e permanentes do ecossistema (como redução das chuva e aumento da seca).


Cientistas como Carlos Nobres calculam que esse ponto irreversível deve ocorrer quando o desmatamento atingir algo entre 20% a 25% da floresta original. Em entrevista à BBC News Brasil em setembro, ele disse que já foi perdido de 16% a 17% da floresta, e que o "ponto de não retorno" será atingido no intervalo de 15 a 30 anos, permanecendo a taxa de desmatamento atual.



CRÉDITO, ECOPORÉ-RO/DIVULGAÇÃO
Legenda da foto,

O plantio de mudas também é uma das técnicas usadas para a restauração de paisagens florestais


"A Amazônia está chegando perto do tipping point. Então, é agora ou nunca: tem que parar de desmatar e recuperar o passivo (o que foi desmatado ilegalmente), promovendo uma nova economia de base florestal", afirma Celentano, que é também gerente sênior de restauração de paisagens florestais da Conservação Internacional, uma das 80 instituições que integram a Aliança pela Restauração.


Ela ressalta que uma das formas de ampliar a recuperação da Amazônia é promover o cumprimento da lei. O Código Florestal, de 2012, estabeleceu que apenas 20% das propriedades na Amazônia podem ser desmatadas e determinou a restauração das áreas de floresta que foram suprimidas ilegalmente, mas o prazo para cumprimento tem sido sucessivamente adiado.


Segundo a publicação da Aliança, a área que deve ser recuperada por esses proprietários para legalizar suas terras é estimada em 8 milhões de hectares, sendo que 5 milhões são passíveis de serem restaurados (a diferença pode ser compensada através de outros mecanismos previstos na lei).


Sem o cumprimento da lei pelos donos de terra, a maioria das iniciativas de restauração são tocadas por organizações da sociedade civil (87,5% dos projetos mapeados). Em seguida estão empresas (5,6%), agricultores (3,8%), instituições de pesquisa (2,4%) e governos (0,7%).


São os projetos de empresas, porém, que respondem pela maior área em recuperação (52% do total). O levantamento mostra ainda que Rondônia concentra o maior número de iniciativas (1.658), mas responde por apenas 9% da área em restauração. Já o Pará concentra 49% da área total mapeada e Mato Grosso, 27%.

Floresta se recupera sozinha, mas é desmatada de novo


Os projetos mapeados cobrem uma diversidade de técnicas de restauração, que podem variar de acordo com o nível de degradação da área e a finalidade buscada com a recuperação.


O desmatamento acumulado da Amazônia é calculado em 80,3 milhões de hectares. Parte da floresta consegue se recuperar sozinha, quando a área destruída fica depois abandonada, mas essa vegetação secundária não tem a mesma riqueza de biodiversidade da mata nativa e é também mais vulnerável a ser novamente desmatada, destaca a publicação.


Estimativa do MapBiomas é de que, em 2018, 14,9 milhões de hectares da Amazônia estavam cobertos com vegetação secundária, mas o desmatamento nessas áreas têm sido, em média, 40% maior do que em florestas primárias.



CRÉDITO, REUTERS
Legenda da foto,

Estimativas apontam que Amazônia pode sofrer dano ambiental irreversível em até 30 anos


Por isso, o documento da Aliança considera como área em restauração apenas os espaços de vegetação secundária que estão em "regeneração natural assistida". Ou seja, que recebem interferência humana para evitar novos desmatamentos e aumentar a biodiversidade. Segundo o documento, há 147 projetos desse tipo, que cobrem 12% do território mapeado.


Já espaços com baixo potencial de regeneração natural demandam intervenções ativas, normalmente mais custosas, como o plantio de sementes e mudas. O levantamento identificou 734 iniciativas desse tipo, que cobrem a maior parte da área em restauração (59%).


A semeadura direta é uma forma mais barata, considerada promissora, mas ainda usada em pequena dimensão (são 185 projetos que cobrem 3% da área mapeada). Uma dessas técnicas, batizada de muvuca, consiste em plantar com máquinas agrícolas uma mistura de sementes agrícolas e florestais, de espécies de ciclo curto, médio e longo.


"Mistura de sementes nativas e de adubação verde com areia que forma um insumo homogêneo propício para a formação da estrutura da floresta, a muvuca consegue colocar o dobro ou até dez vezes mais árvores por hectare e com metade do custo do que seria um plantio com mudas", diz o portal do Instituto Socioambiental, que usa a técnica em projetos de restauração em parceria com produtores rurais nas bacias dos rios Xingu e Araguaia, no Mato Grosso.

Restauração com produção para frear novos desmatamentos


A maioria das iniciativas, porém, é de sistemas agroflorestais (1.643 ou 59% do total, cobrindo 14% da área mapeada), técnica de restauração florestal produtiva que garante retorno econômico, servindo como instrumento importante para evitar novos desmatamentos.


Um desses projetos, o Cacau Floresta, envolve 250 famílias que desde 2013 já restauraram mais de 500 hectares da Amazônia nos municípios de São Félix do Xingu e Tucumã (Pará), cidades que estão no chamado Arco do Desmatamento (região com maiores taxas de destruição da floresta que engloba partes do Maranhão, Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre).


A iniciativa, que alia o cultivo de cacau com outras espécies nativas, recuperando áreas degradadas pela pecuária extensiva, é desenvolvido pela The Nature Conservancy (TNC) — organização que atua com preservação em mais de 60 países e também integra a Aliança pela Restauração na Amazônia.


Rodrigo Freire, vice-gerente de restauração florestal na TNC Brasil, explica que fazendas de gado só atingem maior rentabilidade com uso mais intensivo de tecnologia, o que é não é o caso de pequenos produtores da região do Arco do Desmatamento, onde o ganho anual por hectare com pecuária de corte varia de R$ 50 a R$ 200.



CRÉDITO, KEVIN ARNOLD/DIVULGAÇÃO
Legenda da foto,

Projeto Cacau Floresta alia o cultivo de cacau com outras espécies nativas em seu sistema agroflorestal


Segundo ele, o investimento para converter esses pastos em agrofloresta é de R$ 15 mil (sendo R$ 6 mil o valor da própria mão de obra) por hectare, investimento que costuma ser recuperado em quatro a cinco anos, usando inicialmente cultivos de ciclo mais curto, como milho, mandioca e banana. Depois, com o aumento da produção de cacau, produto de alto valor agregado vendido para a indústria de chocolate, é possível chegar a uma rentabilidade anual de R$ 7 mil a R$ 10 mil por hectare, diz.


"A partir do momento que o produtor viu mais rentabilidade naquela agrofloresta do que no pasto, ele abre a percepção também para a importância das árvores em pé e desses recursos ecológicos como umidade, água, fertilidade do solo (que são recuperados com a restauração da floresta)", nota ele.


Freire reconhece que a agrofloresta é menos diversa que a mata nativa, podendo chegar a 50 espécies por hectare, ante mais de 140 por hectare na floresta original da Amazônia. Apesar disso, diz que a área restaurada consegue recuperar parte da biodiversidade e retomar "suas funções ecológicas, seus serviços ecossistêmicos".


"Em área de pasto, quando tem chuva forte, a água escorre muito rápido pela superfície, causando assoreamento, o carregamento de nutrientes que são removidos do solo, pois a vegetação do pasto é muito rala, pouco profunda", ressalta.


"Quando você abre espaço para uma agrofloresta, com muitas árvores, de diferentes espécies e alturas, volta a ter uma estrutura de floresta de proteção do solo. E as próprias folhas e galhos quando caem fazem com que o solo volte a ter fertilidade muito maior", compara.


Essa recuperação da vegetação e do solo garante mais produtividade e contribui para a preservação das fontes de água da propriedade e da região. Além disso, a nova estrutura de floresta acaba atraindo novamente a fauna para a área antes degradada.


"Passarinhos, por exemplo, fazem ninhos nas copas do cacaueira. Também vemos a anta, maior mamífero terrestre nativo (do Brasil), voltando a ocupar o plantio de cacau, usando o sistema agroflorestal como refúgio de migração entre os fragmentos florestais locais", conta.

Implementação da lei, mais crédito e compromisso do setor privado


Para que a restauração ganhe escala na Amazônia, a publicação diz que é preciso priorizar o cumprimento do Acordo de Paris, no qual o Brasil assumiu o compromisso em 2015 de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.



CRÉDITO, UFRA-PA/DIVULGAÇÃO
Legenda da foto,

O monitoramento ecológico da restauração é feito periodicamente para garantir o sucesso. Na foto, a técnica usada foi regeneração natural assistida


O governo Jair Bolsonaro, porém, não tem dado andamento à Política Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg), ferramenta criada em 2017 que traz diretrizes para alcançar essa meta.


O documento recomenda também que o os governos estaduais implementem os Programas de Regularização Ambiental (PRAs), previstos no Código Florestal, passo fundamental para que propriedades que desmataram mais de 20% na Amazônia recuperem a área destruída ilegalmente.


A publicação destaca ainda a necessidade de criar e regulamentar mecanismos de "pagamentos por serviços ambientais", como o mercado de crédito de carbono, para que as áreas restauradas, que têm grande capacidade de capturar e armazenar carbono da atmosfera, possam gerar retorno aos proprietários.


Outra recomendação é o aumento das linhas de crédito para financiar esses projetos, assim como compromissos mais ambiciosos de empresas e bancos para não realizar negócios com fornecedores que não estão com suas propriedades legalmente restauradas.


"Sabemos que só a obrigatoriedade não motiva ninguém. Cumprir a lei deve ser o básico de qualquer sociedade coerente, responsável, mas precisa ter incentivos também (para os proprietários se regularizarem), principalmente quando boa parte dessa restauração florestal custa, exige investimento, trabalho, tecnologia e insumos", afirma Rodrigo Freire.


"E faz parte da abordagem da restauração (ter) uma solução para o desmatamento. Não dá para desmatar em um lugar e ficar restaurando no outro. Vai ter perda de biodiversidade, não é isso que a gente quer", reforçou.





Autor: Mariana Schreiber - @marischreiber
Fonte: BBC News Brasil em Brasília
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/12/20
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55243098

terça-feira, 21 de julho de 2020

Gado criado ilegalmente na Amazônia é encontrado na cadeia de fornecimento da JBS


• Dados do governo indicam forte aumento da pecuária bovina comercial ilegal em áreas protegidas da Amazônia brasileira

• Pecuária comercial ilegal impulsiona apropriações de terras, violência e ameaças contra povos indígenas e moradores tradicionais de reservas extrativistas

• JBS é instada a implementar sistema de monitoramento efetivo até o final de 2020

Gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas da floresta amazônica brasileira entrou na cadeia de fornecimento da maior produtora de carne bovina do mundo, a JBS, disse a Anistia Internacional em relatório de 72 páginas, Da Floresta à Fazenda .

Ao não monitorar efetivamente a entrada de gado bovino em sua cadeia indireta de fornecimento, a JBS falha na adoção de um processo adequado de devida diligência como estabelecido nos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos . De acordo com os Princípios Orientadores da ONU, a JBS contribui para abusos de direitos humanos dos povos indígenas e comunidades tradicionais residentes em reservas extrativistas ao participar nos incentivos econômicos para o gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas, afirma a Anistia Internacional.

“Desde pelo menos 2009 a JBS tem conhecimento dos riscos de gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas entrar em sua cadeia de fornecimento”, disse Richard Pearshouse, diretor de Crises e Meio Ambiente da Anistia Internacional.

“A JBS deixou de implementar um sistema de monitoramento efetivo em sua cadeia de fornecimento, inclusive de seus fornecedores indiretos. Ela precisa reparar os danos causados e imediatamente implementar sistemas para evitar que isso volte a ocorrer”.

Ainda que a Anistia Internacional não tenha encontrado evidências de envolvimento direto da JBS em abusos de direitos humanos nos três locais investigados, pôde constatar que gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingressou na cadeia de fornecimento da empresa. A organização exorta a JBS a adotar medidas até o final de 2020 para reparar essa situação.
Maior exportadora mundial de carne bovina

O Brasil tem cerca de 214 milhões de bovinos, mais que qualquer outro país. Sua indústria de carne bovina movimenta R﹩ 618 bilhões (US﹩ 124 bilhões), sendo responsável por 8% do PIB nacional .

Cerca de três quartos da carne bovina brasileira é consumida no país, mas o quarto remanescente entra na cadeia de fornecimento global em quantidades suficientes para fazer do país o maior exportador mundial de carne bovina. Os principais destinos da carne brasileira incluem China, Hong Kong, Egito, Chile, União Europeia, Emirados Árabes Unidos e Rússia.

A região amazônica vem assistindo a maior expansão da indústria brasileira da pecuária bovina. Desde 1988 o número de bovinos na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões em 2018 – 40% do total nacional. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida situada em terras indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo, 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 virou pastagem para gado bovino – uma superfície cinco vezes a de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo com detalhes em um briefing em novembro de 2019.

De acordo com dados governamentais, as terras indígenas na Amazônia perderam 497km² de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 91% em relação ao período anterior.
Abusos de direitos humanos em três áreas protegidas

A Anistia Internacional visitou três locais em sua investigação: a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau e as reservas extrativistas Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto, todas no estado de Rondônia.

A organização não encontrou qualquer evidência que indicasse envolvimento direto da JBS em abusos de direitos humanos nos três locais investigados.

Contudo, em todas as três áreas, recentes apropriações ilegais de terras levaram a uma perda de terras tradicionais, protegidas pela legislação brasileira. Os direitos dos povos indígenas às suas terras são protegidos sob o direito internacional dos direitos humanos. A pecuária bovina comercial é proibida por lei nos três locais.

Ameaças, intimidações e violência frequentemente acompanham essas apropriações ilegais de terras, que ocorrem em um contexto mais amplo de violência no campo. Segundo uma estimativa, em 2019 houve sete assassinatos, sete tentativas de assassinato e 27 ameaças de morte contra indígenas na região amazônica brasileira.

Em dezembro de 2019, alguns indígenas Ueu-Eu-Wau-Wau, enquanto patrulhavam seu território, encontraram uma área de cerca de 200 hectares desmatada e queimada recentemente. Araruna, um Uru-Eu-Wau-Wau de cerca de 20 anos, disse à Anistia Internacional:

“Nos últimos meses estamos preocupados com as invasões que vêm aumentando cada vez mais e chegando mais perto das aldeias. Vimos uma grande derrubada, imensa, recente. Vimos um helicóptero semeando capim para que eles possam colocar gado futuramente”.

Em janeiro de 2019, outro grupo de Uru-Eu-Wau-Wau se deparou com cerca de 40 invasores armados, provavelmente grileiros, na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, a apenas dois quilômetros de uma aldeia indígena. Outros descreveram anteriormente que ouviram tiros durante a noite ou que receberam ameaças de morte às suas crianças.

Em outros lugares, comunidades inteiras foram expulsas da terra e temem a morte, caso voltem. A maioria dos moradores da Reserva Extrativista do Rio Jacy-Paraná foi expulsa nas duas últimas décadas para dar lugar a fazendas de gado bovino. Segundo uma antiga moradora, restam apenas três pessoas entre as cerca de 60 famílias que antes habitavam a reserva.

“Virou tudo fazenda”, contou Sara, antiga moradora da reserva que foi expulsa de sua terra em 2017, à Anistia Internacional.

Imagens de satélite analisadas pela Anistia Internacional corroboram os depoimentos dos antigos moradores: gado bovino e bebedouros de água agora são visíveis em terras que antes estavam cobertas por florestas.

Os dados não mentem

A lei brasileira exige que agências estaduais coletem dados detalhados sobre a pecuária bovina. Esses dados incluem informações sobre a localização das fazendas de gado bovino, inclusive das que se situam em áreas protegidas; o número, faixa etária e sexo dos bovinos do rebanho, e as movimentações de animais entre fazendas. Apesar desses dados serem de interesse público, eles não estão atualmente disponíveis ao público.

A Anistia Internacional registrou junto à IDARON, a agência de defesa sanitária animal de Rondônia, sete pedidos de informação com base na Lei de Acesso à Informação.

Os dados fornecidos pela IDARON indicam uma expansão forte da pecuária bovina comercial em áreas protegidas em que a atividade é ilegal. Entre novembro de 2018 e abril de 2020, o número de bovinos subiu 22%, de 125.560 para 153.566 animais.

Dados da IDARON também mostram que ao longo de 2019 foram transferidos 89.406 bovinos de fazendas situadas em áreas protegidas em que a pecuária bovina comercial é ilegal. A grande maioria desses animais é enviada para outras fazendas antes de ir para o abate. Isso significa que mesmo o gado bovino de fazendas em situação legal pode ter sido criado anteriormente de modo ilegal em áreas protegidas.

A Anistia Internacional considera que agências estaduais de defesa sanitária animal como a IDARON efetivamente facilitam a pecuária bovina comercial ilegal. Elas facilitam ao registrar fazendas comerciais de gado bovino e emitir documentos para movimentações de gado bovino apesar das fazendas estarem situadas em uma reserva extrativista ou terra indígena.

“Os dados que acessamos e analisamos – fornecidos pelos próprios órgãos governamentais – fazem soar o alarme”, disse Richard Pearshouse “Essa informação não deve ficar escondida do olhar público”.

“Como acabar com a criação ilegal de gado bovino na Amazônia brasileira? Um bom ponto de partida seria parar oficialmente de registrar fazendas comerciais em áreas protegidas e parar de emitir guias de trânsito para o gado bovino oriundo dessas fazendas”.

A cadeia de fornecimento contaminada da JBS

O gado bovino brasileiro frequentemente é transferido entre diferentes fazendas. As fazendas que vendem gado aos frigoríficos são chamadas de fornecedores diretos, e outras fazendas em que o gado pastou antes disso são conhecidas como fornecedores indiretos. Pesquisadores estimam que até 91%-95% das fazendas compram gado de fornecedores indiretos.

A Anistia Internacional, em colaboração com a ONG Repórter Brasil, analisou documentos oficiais de controle de saúde animal que revelam que a JBS comprou gado bovino diretamente de uma fazenda situada na Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto em duas ocasiões em 2019.

Além disso, em 2019 a JBS comprou gado bovino várias vezes de dois fazendeiros que operam tanto fazendas ilegais em áreas protegidas, quanto fazendas legais fora dessas áreas. Um dos fazendeiros cria gado ilegalmente na Reserva Extrativista do Rio Jacy-Paraná e o outro na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau.

Em ambos os casos, os fazendeiros registraram movimentações de gado bovino de uma fazenda no interior de uma das áreas protegidas para uma fazenda fora da área protegida e, em seguida, registraram movimentações separadas de gado bovino da fazenda legal para a JBS.

Em duas ocasiões, a segunda movimentação foi registrada apenas minutos após a primeira. As duas movimentações envolveram um número idêntico de animais, da mesma faixa etária e do mesmo sexo. Os animais tinham mais de 36 meses de idade, uma faixa etária comum do gado bovino que é levado para o abate. De acordo com especialistas entrevistados pela Anistia Internacional, isso pode ser indício da prática de lavagem de gado.

A lavagem de gado – transferir gado entre fazendas intermediárias para dar uma aparência de legalidade aos animais – burla os sistemas de monitoramento existentes.

A Anistia Internacional buscou informações específicas da JBS para saber se em 2019 a empresa processou animais vindos de fazendas situadas nas três áreas protegidas. A empresa respondeu: “Não compramos gado bovino de qualquer fazenda envolvida na pecuária ilegal em áreas protegidas” e disse ainda que a empresa adota uma “abordagem inequívoca de desmatamento zero em toda sua cadeia de fornecimento”.

Ela também afirmou: “A JBS monitora de perto seus fornecedores para verificar o cumprimento de todos os aspectos de nossa Política de Compra Responsável e não identificou previamente quaisquer problemas relacionados a abusos de direitos humanos de comunidades indígenas ou outros grupos protegidos”.

A JBS não respondeu a uma pergunta sobre o monitoramento de seus fornecedores indiretos, destacando em lugar disso que “a rastreabilidade de toda a cadeia de fornecimento é um desafio de toda a indústria e uma tarefa complexa”.

A JBS tem conhecimento dos riscos de que gado bovino ilegal entre em sua cadeia de fornecimento – em 2009 a empresa assinou dois acordos contra o desmatamento com o Ministério Público Federal e, em separado, com o Greenpeace –, mas tomou medidas insuficientes para resolver o problema. Auditorias externas observaram que a JBS não monitora seus fornecedores indiretos.

A Anistia Internacional exorta a JBS a adotar prontamente um sistema de monitoramento efetivo, inclusive de seus fornecedores indiretos, e a garantir que gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas durante alguma etapa de sua vida não entre na cadeia de fornecimento da empresa. No mais tardar, esse sistema deve ser implementado até o final de 2020.

Um procurador federal no Pará concluiu em 2019 que: “Hoje nenhuma empresa que compra da Amazônia pode afirmar que não tem gado de desmatamento em sua atividade produtiva (…) Nenhuma empresa frigorífica e nenhum supermercado também”.

“Com o desmatamento na Amazônia no nível mais alto em uma década, cabe agora à JBS e outros frigoríficos no Brasil adotar processos de diligência devida para garantir que seus fornecedores diretos e indiretos não estejam contribuindo para abusos de direitos humanos contra povos indígenas e moradores tradicionais da Amazônia”, disse Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil.

Notas:
Sobre o uso de nomes

Por preocupações com a segurança, foram utilizados pseudônimos para identificar pessoas indígenas e moradores tradicionais de reservas extrativistas.

Neste relatório, a Anistia Internacional também omitiu os nomes dos fazendeiros de gado bovino em áreas protegidas e outras informações que os identificassem para proteger a segurança de pessoas que compartilharam informações sobre pecuária bovina comercial em áreas protegidas.
Sobre a pesquisa da Anistia Internacional

A investigação realizada pela Anistia Internacional ao longo de 18 meses abrangeu vários estados da região amazônica brasileira. Foram entrevistados 24 indígenas e moradores tradicionais de reservas extrativistas, além de 18 representantes de órgãos públicos e outros especialistas. A organização também analisou imagens de satélite de áreas desmatadas recentemente e analisou dados oficiais de registro de animais e de movimentações de gado bovino fornecidos por vários órgãos estaduais.

Este relatório dá continuidade à pesquisa anterior realizada pela Anistia Internacional em 2019 em áreas protegidas da Amazônia, a lertando para o risco iminente de conflitos e desmatamento , documentando violência contra povos indígenas e expondo a pecuária bovina como o principal fator que impulsiona a nova onda de desmatamento da floresta.


Sobre a JBS

A JBS é uma empresa multinacional brasileira fundada em 1953 no estado de Goiás. Ela se descreve como “uma das líderes globais da indústria de alimentos”. Sendo a maior produtora mundial de carne bovina, a JBS ocupa uma posição única para exercer influência e controle para prevenir ou mitigar os impactos de sua cadeia de fornecimento sobre os direitos humanos.

O segundo maior acionista da JBS é o BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, com 21% das ações da JBS.

Em 2019, a JBS afirmou que opera 37 plantas de processamento de carne no Brasil, com capacidade total de abate de 33.500 bovinos por dia. No mesmo ano, a JBS registrou receita líquida de RS﹩ 32 bilhões (US﹩6 bilhões) a partir da venda de carne bovina e produtos relacionados. Seus produtos de carne bovina são vendidos (no Brasil e em mercados externos) sob marcas diferentes, incluindo Friboi, Maturatta Friboi, Do Chef Friboi, Swift Black e 1953 Friboi.

A Anistia Internacional escreveu à JBS em junho de 2020 para apresentar seus resultados e uma lista de perguntas específicas. Principais partes da resposta da JBS estão incluídos no relatório.

Informe da Anistia Internacional, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/07/2020


Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 21/07/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/07/21/gado-criado-ilegalmente-na-amazonia-e-encontrado-na-cadeia-de-fornecimento-da-jbs/