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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Estudo mostra impactos do desmatamento e queimadas na biodiversidade da Amazônia


Anel de fogo: a fumaça sobe pelo sub-bosque de uma floresta na região amazônica. As plantas e os animais da floresta tropical evoluíram em grande parte sem o fogo, por isso carecem das adaptações necessárias para lidar com ele. Foto: Paulo Brando


Estudo mostra impactos do desmatamento e queimadas na biodiversidade da Amazônia

À medida que os incêndios invadem o coração da bacia amazônica, onde a biodiversidade é maior, seus impactos terão efeitos mais terríveis

A combinação de um extenso mapeamento de espécies com registros de sensoriamento remoto de desmatamento e fogo revela que a biodiversidade da Amazônia é extraordinariamente vulnerável a mudanças no manejo florestal e na aplicação de políticas.

Por Daniel Stolte*, University of Arizona

Um novo estudo, de coautoria com pesquisadores da Universidade do Arizona e publicado na edição de 1º de setembro da Nature, fornece a primeira avaliação quantitativa de como as políticas ambientais de desmatamento, junto com incêndios florestais e secas, impactaram a diversidade de plantas e animais na Amazônia.

Os pesquisadores usaram registros de mais de 14.500 espécies de plantas e vertebrados para criar mapas de biodiversidade da região amazônica. Sobrepor os mapas com observações históricas e atuais de incêndios florestais e desmatamento nas últimas duas décadas permitiu que a equipe quantificasse os impactos cumulativos sobre as espécies da região.

Eles descobriram que, desde 2001, entre 40.000 e 73.400 milhas quadradas da floresta amazônica foram impactadas por incêndios, afetando 95% de todas as espécies amazônicas e até 85% das espécies listadas como ameaçadas na região. Enquanto as políticas de manejo florestal promulgadas no Brasil em meados dos anos 2000 diminuíram a taxa de destruição de habitat, a aplicação mais relaxada dessas políticas que coincidiram com uma mudança de governo em 2019 aparentemente começou a reverter a tendência, escrevem os autores. Com incêndios afetando 1.640 a 4.000 milhas quadradas de floresta, 2019 se destaca como um dos anos mais extremos para impactos na biodiversidade desde 2009, quando as regulamentações que limitam o desmatamento foram aplicadas.

“Mostramos como a política teve uma influência direta e enorme no ritmo em que a biodiversidade em toda a Amazônia foi afetada”, disse o autor sênior do estudo Brian Enquist , professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva do UArizona . Ele acrescentou que as descobertas são especialmente críticas à luz do fato de que em nenhum momento a Amazônia conseguiu uma pausa desses impactos crescentes, o que teria permitido alguma recuperação.

“Mesmo com políticas em vigor, que você pode pensar como um freio que diminui a taxa de desmatamento, é como um carro que segue em frente, apenas em uma velocidade mais lenta”, disse Enquist. “Mas em 2019, é como se o pé tivesse soltado o freio, fazendo com que ele acelerasse novamente.”

“Avaliações com base em sensoriamento remoto de áreas queimadas e desmatadas foram feitas antes, mas não temos um registro detalhado do impacto que elas têm sobre a diversidade de espécies da região”, disse Xiao Feng, o primeiro autor do estudo, que conduziu a maior parte do trabalho enquanto ele era um pesquisador de pós-doutorado no UArizona e agora é professor assistente na Florida State University. “Esta tem sido uma grande coleção de dados e um esforço informático sem precedentes associado aos dados de biodiversidade, e que nos permitiu tornar essas interconexões visíveis”.

Conhecida principalmente por suas densas florestas tropicais, a bacia amazônica mantém cerca de 40% das florestas tropicais remanescentes do mundo. É de importância global como provedor de serviços ecossistêmicos, como remoção e armazenamento de carbono da atmosfera, e desempenha um papel vital na regulação do clima da Terra. A área também é um enorme reservatório da biodiversidade do planeta, fornecendo habitats para uma em cada 10 das espécies conhecidas do planeta. Estima-se que, na Amazônia, 1.000 espécies de árvores podem povoar uma área menor que meia milha quadrada.

“Isso é importante à luz do fato de que a biodiversidade anda de mãos dadas com o funcionamento do ecossistema”, disse Enquist, acrescentando que as espécies com as menores extensões tendem a sofrer mais. “As espécies podem se tornar virtualmente extintas mesmo antes de perderem toda a sua extensão de habitat.”

“O fogo não faz parte do ciclo natural da floresta tropical”, disse o coautor do estudo Crystal NH McMichael, da Universidade de Amsterdã. “As espécies nativas não têm as adaptações que lhes permitiriam lidar com isso, ao contrário das comunidades florestais em áreas temperadas. Queimas repetidas podem causar mudanças massivas na composição das espécies e prováveis consequências devastadoras para todo o ecossistema.”

Desde 1960, a Amazônia perdeu cerca de 20% de sua cobertura florestal devido ao desmatamento e incêndios. Embora os incêndios e o desmatamento muitas vezes andem de mãos dadas, nem sempre foi esse o caso, disse Enquist. Como as mudanças climáticas trazem condições de seca mais frequentes e severas para a região, e o fogo é frequentemente usado para limpar grandes áreas de floresta tropical para a indústria agrícola, o desmatamento tem efeitos colaterais, aumentando as chances de incêndios florestais. Prevê-se que a perda de floresta chegue a 21% a 40% até 2050, e essa perda de habitat terá grandes impactos sobre a biodiversidade da região, de acordo com os autores.

“O que é desagradável sobre o fogo naquela região é que, uma vez que começa a invadir áreas que não foram queimadas, degrada-as irremediavelmente e as torna mais suscetíveis a queimadas no futuro”, disse ele.

“Uma vez que a maioria dos incêndios na Amazônia são causados intencionalmente por pessoas, evitá-los está em grande parte sob nosso controle”, disse o coautor do estudo, Patrick Roehrdanz, gerente sênior de mudança climática e biodiversidade da Conservation International. “Uma forma é renovar o compromisso com políticas antidesflorestamento fortes no Brasil, combinadas com incentivos para uma economia florestal, e replicá-los em outros países amazônicos.”

As políticas para proteger a biodiversidade amazônica devem incluir o reconhecimento formal das terras indígenas, que são mais de um terço da região amazônica, escrevem os autores, apontando para pesquisas anteriores que mostram que as terras possuídas, usadas ou ocupadas por povos indígenas têm menos declínio de espécies, menos poluição e recursos naturais mais bem administrados.

Os autores dizem que seu estudo ressalta os perigos de continuar a aplicação de políticas frouxa. À medida que os incêndios invadem o coração da bacia amazônica, onde a biodiversidade é maior, seus impactos terão efeitos mais terríveis, mesmo que a taxa de queimadas permaneça inalterada.

“Temos que lembrar que levou décadas para reduzir o desmatamento na Amazônia, mas pode levar apenas alguns anos para destruir os pilares da política de conservação da conservação”, disse o coautor Paulo Brando, professor assistente do Departamento de Ciência do Sistema Terrestre do Universidade da Califórnia em Irvine. “A recente reversão nas tendências de desmatamento e incêndios, e seus impactos na biodiversidade da Amazônia, deve ser uma grande causa de preocupação”.

A pesquisa foi viabilizada por fundos de investimento estratégicos alocados pelo Arizona Institutes for Resilience at UArizona e pelo grupo Bridging Biodiversity and Conservation Science da universidade . Suporte adicional veio do programa Harnessing the Data Revolution da National Science Foundation . Os dados e cálculos foram fornecidos por meio da Rede de Informação e Ecologia Botânica , que é apoiada pelo CyVerse , a plataforma de gerenciamento de dados da NSF liderada pelo UArizona.

Referência:

How deregulation, drought and increasing fire impact Amazonian biodiversity, Nature (2021). DOI: 10.1038/s41586-021-03876-7

Henrique Cortez *, tradução e edição.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/09/2021





Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 02/09/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/09/02/estudo-mostra-impactos-do-desmatamento-e-queimadas-na-biodiversidade-da-amazonia/

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Países amazônicos possuem grandes diferenças de recuperação florestal e desmatamento


Países amazônicos possuem grandes diferenças de recuperação florestal e desmatamento
As regiões amazônicas que sofreram o mais extenso desmatamento e têm o maior potencial para recuperação florestal em grande escala atualmente apresentam os níveis mais baixos de recuperação

Bangor University*

A restauração florestal em grande escala na Amazônia é uma importante “solução baseada na natureza” para a mudança climática, um dos principais focos da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática COP26, organizada no Reino Unido em novembro.

Recuperação florestal, o processo de nova floresta que cresce em terras que já havia sido desmatadas em seguida, abandonada desde a agricultura, pode rapidamente capturar grandes quantidades de gás CO estufa – 2 da atmosfera.

É a chave para o sucesso das políticas globais de mudança climática que visam reduzir as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, e como uma forma de alcançar emissões “zero líquido”.

No entanto, um novo estudo de uma equipe internacional de pesquisadores do Reino Unido e do Brasil revela que as regiões com maior potencial para recuperação florestal em grande escala – aquelas que sofreram o maior desmatamento – apresentam atualmente os menores níveis de recuperação.

Essas paisagens amazônicas altamente desmatadas também não mostram nenhum sinal de recuperação, mesmo 20 anos após o desmatamento da floresta.

O estudo, publicado na Environmental Research Letters , mostra que menos de 10% das emissões de carbono do desmatamento na Amazônia foram compensadas pelo crescimento de novas florestas.

Também há uma grande diferença nessa compensação de carbono entre os nove países amazônicos. O Brasil, que contém mais da metade da floresta amazônica, é responsável pela maior parte do desmatamento e suas emissões de CO2 associadas . Apenas um de seus estados (Pará) registrou mais desmatamento do que os outros 8 países amazônicos juntos.

No entanto, o Brasil também está ficando para trás na recuperação florestal, com apenas 25% das terras anteriormente desmatadas ocupadas por novas florestas e apenas 9% das emissões de CO2 do desmatamento sendo compensadas.

O Equador, por outro lado, está liderando o caminho com quase 60% de suas terras desmatadas em recuperação. Na Guiana, onde as florestas em recuperação são mais antigas e recapturaram mais CO2 , quase um quarto das emissões do desmatamento foram compensadas.

Charlotte Smith, uma pesquisadora PhD na Lancaster University e principal autora do estudo, disse: “A pesquisa na Amazônia geralmente se concentra no Brasil porque ele contém a maior parte da floresta. Mas existem outros oito países amazônicos. Entender como a recuperação florestal difere entre os países pode nos ajudar a entender quais políticas dos países estão ajudando a manter o sumidouro de carbono florestal e quais não estão. ”

Ela acrescentou: “Os dados de satélites são cruciais para monitorar o desmatamento em áreas tão grandes como a Amazônia e são a base para monitorar o sucesso dos países em atingir suas metas internacionalmente acordadas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Este novo estudo é a primeira comparação de perda e recuperação florestal entre países da Amazônia. Usamos imagens de satélite de alta resolução para mapear seu desmatamento, recuperação e estoques de carbono de 1986 a 2017. ”

John Healey, Professor de Ciências Florestais da Bangor University e coautor do estudo, comentou: “Os resultados do estudo destacam três desafios principais para o futuro das florestas amazônicas, a necessidade de: (1) incentivar a floresta em grande escala restauração em regiões altamente desmatadas, (2) proteger novas florestas sem colocar em desvantagem os pequenos proprietários que dependem da terra desmatada para a agricultura, e (3) evitar mais desmatamento. ”

Ele enfatizou que: “Enfrentar todos esses desafios com sucesso é essencial para garantir que a Amazônia alcance seu potencial de mitigação das mudanças climáticas”.

Os pesquisadores preveem que, à medida que dados mais precisos se tornam disponíveis sobre a quantidade de perda e recuperação florestal, de escalas nacionais a locais, isso permitirá um melhor direcionamento das intervenções para proteger e restaurar as florestas amazônicas remanescentes.

Os autores do artigo são Charlotte Smith (Lancaster University, UK), John Healey (Bangor University, UK), Erika Berenguer (Oxford University, UK), Paul Young (Lancaster University, UK), Ben Taylor (Lancaster University, UK), Fernando Elias (Embrapa Amazônia Oriental, Brasil), Fernando Del Bon Espírito-Santo (Universidade de Leicester, Reino Unido) e Jos Barlow (Universidade de Lancaster, Reino Unido).


Referência

Old-growth forest loss and secondary forest recovery across Amazonian countries
Charlotte C Smith, John R Healey, Erika Berenguer, Paul J Young, Ben Taylor, Fernando Elias, Fernando Espírito-Santo and Jos Barlow
Published 4 August 2021 • © 2021 The Author(s). Published by IOP Publishing Ltd
Environmental Research Letters, Volume 16, Number 8
https://doi.org/10.1088/1748-9326/ac1701

Henrique Cortez *, tradução e edição.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/08/2021





Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 04/08/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/08/04/paises-amazonicos-possuem-grandes-diferencas-de-recuperacao-florestal-e-desmatamento/

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Desmatamento pela mineração ilegal na Amazônia aumenta em 90% no período de 2017 a 2020


O aumento do garimpo ilegal já causou grandes impactos nas florestas, por meio da degradação florestal, da poluição dos rios e dos ecossistemas aquáticos Foto: Welington Pedro de Oliveira/Fotos Públicas
Desmatamento pela mineração ilegal na Amazônia aumenta em 90% no período de 2017 a 2020
Crescimento causado por atividade clandestina foi observado entre os anos de 2017 e 2020 e, segundo Juliana Siqueira, impacta rios, vida subaquáticas e também a saúde das populações ribeirinha e indígena

Jornal da USP no Ar 1ª edição / Rádio USP

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Escola Politécnica da USP concluiu que houve um crescimento de mais de 90% no desmatamento em áreas de mineração ilegal no período de 2017 a 2020, passando de 52 km² para 101 km² de áreas desmatadas. A tendência de crescimento não foi observada na mesma proporção nos projetos de mineração oficialmente autorizados.

“A grande questão que apontamos no estudo é a gravidade desse avanço para o meio ambiente”, diz a engenheira ambiental Juliana Siqueira, uma das autoras do artigo, ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição. O aumento documentado, segundo ela, já causou grandes impactos nas florestas, por meio da degradação florestal, da poluição dos rios e dos ecossistemas aquáticos e também na saúde da população ribeirinha e das comunidades indígenas que têm suas terras ocupadas por garimpeiros.

“Esses impactos, dada a proximidade desses garimpos, se dão de forma acumulativa”, explica Juliana. A atuação dos garimpeiros se concentra em regiões específicas e fixas, muitas vezes próximas a bacias hidrográficas. “Temos um avanço das atividades frente à simplificação das legislações ambientais. Então, o que reforçamos é a necessidade justamente de revisitar essa tendência que estamos presenciando para o fortalecimento.”

No estudo, os pesquisadores trazem a ideia da certificação para rastreabilidade do ouro lavrado em atividades ilegais. Ou seja, rastrear a fonte e coibir que esse metal de origem ilegal seja comercializado. “Certamente eles [os certificados] são o que nós temos de mais importante de alternativa para rastrear a origem desse ouro que é comercializado, para coibir a comercialização desse ouro ilegal”, afirma a engenheira, destacando que ainda são necessários estudos científicos e práticos que precisam ser feitos para aplicar a certificação.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/07/2021

 

Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 09/07/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/07/09/desmatamento-pela-mineracao-ilegal-na-amazonia-aumenta-em-90-no-periodo-de-2017-a-2020/

terça-feira, 8 de junho de 2021

Desmatamento escurece o mar e afeta o segundo maior recife do mundo


Foto: Pxhere / University of Southampton


Desmatamento escurece o mar e afeta o segundo maior recife do mundo
Converter as florestas tropicais da América Central em terras agrícolas está mudando a cor e a composição do material natural que corre para os rios próximos, tornando menos provável que se decomponha antes de chegar ao oceano, mostrou um novo estudo conduzido por Southampton.

O fluxo de material orgânico dissolvido, como o solo, da terra para os oceanos desempenha um papel importante nos ciclos globais de carbono e nutrientes. Mudar a forma como a terra é usada pode alterar o tipo e a quantidade de material transportado, com implicações generalizadas para os ecossistemas.

Neste último estudo, uma equipe de pesquisa internacional decidiu aprender mais sobre os efeitos do desmatamento no ambiente costeiro, estudando o material que fluía para os rios de vários locais em uma floresta tropical da América Central, rastreando seu progresso no mar ao largo da costa de Belize, lar da segunda maior barreira de corais do mundo.

Stacey Felgate, estudante de doutorado na University of Southampton e no National Oceanography Center, conduziu o estudo trabalhando com parceiros em Belize. Stacey disse: “Como muitos países da região, Belize está experimentando uma taxa rápida de desmatamento devido à crescente necessidade de terras agrícolas e urbanas, enquanto a economia também depende da pesca e do turismo na costa. Apesar disso, tem havido muito pouca pesquisa sobre o impacto que a mudança no uso da terra em um ritmo tão rápido está tendo sobre os ecossistemas costeiros da região. ”

Os resultados da pesquisa, publicados na revista JGR Biogeosciences , mostraram que significativamente mais material colorido está entrando nos rios de terras usadas para agricultura, em comparação com os locais de floresta natural.

À medida que o material continuava sua jornada ao longo do rio, a equipe percebeu que ele se acumulava, sugerindo que não era acessível aos micro-organismos que decompõem a matéria natural e a convertem em dióxido de carbono.

Quando o material chega à costa, o seu caráter colorido significa que absorve luz e pode escurecer o mar, podendo afetar a vida marinha como as ervas marinhas e os corais que precisam de luz para crescer. Os pesquisadores, portanto, identificaram pesquisas adicionais sobre esse possível impacto como uma próxima etapa vital para entender quais etapas são necessárias para proteger os ecossistemas costeiros do desmatamento.

Stacey acrescentou: “O potencial das atividades humanas em terra para impactar negativamente o meio ambiente costeiro não é exclusivo de Belize, e por isso nossas descobertas são relevantes de forma mais ampla, particularmente para as nações costeiras em desenvolvimento onde o desmatamento está em andamento, mas não há planos de conservação integrados entre o que está acontecendo na terra e o que está acontecendo nos oceanos. ”

Este estudo é parte de um projeto mais amplo liderado pela Dra. Claire Evans do Centro Nacional de Oceanografia. O trabalho foi financiado pelo Programa de Economias Marinhas da Commonwealth, que visa possibilitar economias marinhas seguras e sustentáveis em todos os Estados em desenvolvimento de pequenas ilhas da Commonwealth.

Outros parceiros no estudo incluíram a Universidade de Belize, o Instituto e Autoridade de Gerenciamento da Zona Costeira (Belize) e o Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido.

Stacey Felgate discute as descobertas de seu estudo e por que proteger nossos oceanos é importante no filme da Universidade de Southampton, para o Dia Mundial dos Oceanos, ‘Below the Surface’ – assista no link incorporado acima.


Referência:

Felgate, S. L., Barry, C. D. G., Mayor, D. J., Sanders, R., Carrias, A., Young, A., et al. (2021). Conversion of forest to agriculture increases colored dissolved organic matter in a subtropical catchment and adjacent coastal environment. Journal of Geophysical Research: Biogeosciences, 126, e2021JG006295. https://doi.org/10.1029/2021JG006295


Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de original da University of Southampton

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/06/2021




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 08/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/08/desmatamento-escurece-o-mar-e-afeta-o-segundo-maior-recife-do-mundo/

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Novo recorde em alertas de desmatamento na Amazônia mostra que crime ditará taxa de desmate


Foto de Arquivo
Novo recorde em alertas de desmatamento na Amazônia mostra que crime ditará taxa de desmate
Com Ibama desmontado, ICMBio ameaçado de extinção e ministro correndo da polícia, dados do Inpe mostram pior maio da série.

Por Solange A. Barreira

Os alertas de desmatamento na Amazônia em apenas 28 dias de maio atingiram a marca de 1.180 km2, um aumento de 41% em relação ao mesmo mês de 2020. É a maior área de alertas desde o início da série do sistema Deter-B, do Inpe, em 2016, e a primeira vez que o número ultrapassa 1.000 km2 para esse mês.

O dado é preocupante, porque o mês de maio marca o início da estação seca, quando a devastação se intensifica, em grande parte da região amazônica. A permanecer a tendência nos próximos dois meses, a taxa oficial de desmatamento de 2021 (medida de agosto a julho) poderá terminar com uma inédita quarta alta consecutiva. O comportamento da curva dependerá exclusivamente de quem hoje dá as cartas na região: o crime ambiental.

O regime Bolsonaro se dedica há dois anos e meio a desmontar as políticas de controle de desmatamento, enterrando o único plano que conseguiu reduzir a destruição, o PPCDAm (Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia). A fiscalização do Ibama foi manietada; como mostraram neste ano documentos produzidos pelos próprios agentes, a gestão do antiministro Ricardo Salles virtualmente parou as operações do órgão — cuja cúpula acaba de ser afastada por suspeita de operar para madeireiros.

O Instituto Chico Mendes, que fiscaliza as unidades de conservação federais, está ameaçado de extinção. A fracassada Operação Verde Brasil 2, do general Hamilton Mourão, saiu de cena em abril e não deixou nada no lugar. O plano de Salles de criar uma espécie de milícia na floresta usando homens da Força Nacional foi interrompido pelo fato prosaico de que o ministro, com dois inquéritos contra si no STF, dedica seu tempo hoje a fugir da polícia.

No acumulado desde agosto, vem caindo rápido a diferença entre a área recorde de alertas do ano passado e a deste ano: em janeiro o desmatamento em 2021 era 21% menor que em 2020. Agora a diferença é de 8%, e ainda pode cair mais.

Nesse quadro de ausência completa do governo federal, os R$ 270 milhões que o Congresso conseguiu na semana passada para a fiscalização dificilmente produzirão resultado. “O grande problema da fiscalização e do combate ao desmatamento não é apenas falta de dinheiro; o que falta é governo”, afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

O combate ao desmatamento está quase exclusivamente nas mãos dos Estados. O problema é que alguns governadores parecem estar do lado dos desmatadores. Em Rondônia, o Coronel Marcos Rocha (PSL), aliado de Jair Bolsonaro, deu em maio um presente aos grileiros ao reduzir duas unidades de conservação no Estado.

“O desmatamento neste ano será o que os madeireiros ilegais, garimpeiros criminosos e grileiros quiserem que seja. E, neste momento, eles não têm nenhum motivo para se controlar, já que o próprio governo federal, que deveria coibir a ilegalidade, os incentiva com atos e discursos”, conclui Astrini.

* Sobre o Observatório do Clima: rede formada em 2002, composta por 68 organizações não governamentais e movimentos sociais. http://oc.eco.br.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/06/2021



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 04/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/04/novo-recorde-em-alertas-de-desmatamento-na-amazonia-mostra-que-crime-ditara-taxa-de-desmate/

terça-feira, 2 de junho de 2020

MPF instaura mais de mil ações por desmatamento ilegal na Amazônia

Em atuação coordenada pela Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (4CCR), o Ministério Público Federal (MPF) instaurou, somente no mês de maio, 1.023 ações civis públicas contra 2.262 réus em razão de desmatamentos ilegais na Amazônia. A iniciativa faz parte da 3ª fase do Projeto Amazônia Protege, que mapeou polígonos de 60 hectares ou mais desmatados entre agosto de 2017 e dezembro de 2019. Ao todo, as ações cobram mais de R$ 3,7 bilhões de indenização pelos danos causados, além da reparação de 231.456 hectares de floresta degradados. Os números foram divulgados nesta segunda-feira (1º).

Baseadas em laudos periciais produzidos a partir da análise de imagens de satélite e do cruzamento das informações com bancos de dados públicos, as ações foram propostas em sete estados da Amazônia Legal: Acre, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima. O monitoramento apontou total de 321 mil hectares de floresta devastados ilegalmente no biênio 2017/2019. O estado mais afetado no período foi Mato Grosso, com 95,4 mil hectares de área desmatada, sendo que 63,6 mil já são alvo de ação civil pública. Até agora, o MPF ajuizou 242 ações no estado, mas outras podem ser propostas futuramente.

Em relação ao número de polígonos com área igual ou superior a 60 hectares desmatados ilegalmente entre julho de 2017 e dezembro de 2019, o estado do Pará foi o campeão, com 373 registros. O corte raso de vegetação nativa no estado atingiu 87,9 mil hectares, sendo que 68,7 mil já são alvo das 310 ações ajuizadas até o momento. No Amazonas, foram mapeados 284 polígonos de desmatamento, o que corresponde a cerca de 81 mil hectares. Até agora, foram propostas 215 ações no estado, referentes a 61,5 mil hectares da área destruída. O levantamento do MPF apontou ainda que, entre os polígonos de desmatamento ilegal identificados pelo projeto, 64 estão dentro de Unidades de Conservação (UCs) federais e 41 dentro de Terras Indígenas (Tis).

Vigilância constante – Este é o terceiro ano em que o MPF atua de forma articulada por meio do Projeto Amazônia Protege, lançado em novembro de 2017. Na primeira etapa, foram instauradas 1.125 ações referentes a desmatamentos realizados entre agosto de 2015 e julho de 2016. Na segunda, foram 1.414 ações por supressão ilegal de floresta no período de agosto de 2016 a julho de 2017. Somando esses números às ações ajuizadas este ano, são mais de 3,5 mil processos contra o desmatamento ilegal na Amazônia.

Para o coordenador da Câmara de Meio Ambiente do MPF, Nívio de Freitas, ao promover a responsabilização civil dos infratores, o projeto Amazônia Protege contribui para reduzir a sensação de impunidade em relação a práticas que atentam contra o meio ambiente. “O MPF permanecerá vigilante e firme em relação ao compromisso constitucional de zelar pela preservação do meio ambiente para a presente e futuras gerações”, frisou o subprocurador-geral da República.

Nas ações, o MPF pede indenizações relativas aos danos materiais e morais difusos derivados da remoção da cobertura vegetal e a recomposição da área degradada. Requer, ainda, a reversão dos valores da condenação para Ibama e ICMBio, para fortalecer a fiscalização; e autorização judicial para apreensão, retirada ou destruição, pelos órgãos de fiscalização competentes, de bens móveis ou imóveis presentes na área que estejam impedindo a regeneração da floresta.

Equipe – O projeto contou com a participação de 25 procuradores da República: Álvaro Manzano, Ana Carolina Haliuc, Bernardo Meyer Machado, Bruno Domingos, Daniel Azeredo, Daniel Azevedo Lôbo, Erich Masson, Everton Araújo, Felipe Giardini, Gabriel Dalla Favera, Gisele Cunha, Humberto de Aguiar Junior, Igor Spindola, Igor Lima Goettenauer, Julio Cesar de Almeida, Leandro Musa de Almeida, Milton Tiago Araújo, Rafael Rocha, Raphael Bevilaqua, Reginaldo Pereira da Trindade, Ricardo Negrini, Robert Rigobert Lucht, Tatiana Ribeiro, Thais Araújo Franco e Valdir Monteiro.

Saiba mais sobre o projeto

Resultados da 3ª fase do projeto até agora:




Fonte: Procuradoria-Geral da República

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/06/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 02/06/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/06/02/mpf-instaura-mais-de-mil-acoes-por-desmatamento-ilegal-na-amazonia/

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Índices de ameaça e pressão de desmatamento em áreas protegidas na Amazônia aumentam 39% em um ano, mostra ImazonÍndices de ameaça e pressão de desmatamento em áreas protegidas na Amazônia aumentam 39% em um ano, mostra Imazon

Relatório anual feito pelo Imazon mostra as áreas de proteção da Amazônia que mais sofrem ameaça e pressão de desmatamento. Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, está entre no topo do ranking

Por Stefânia Costa

De agosto de 2018 a julho deste ano, o Sistema de Alerta de Desmatamento do Imazon detectou um total de 5.054 km² de desmatamento na Amazônia Legal. Um novo estudo divulgado pelo instituto, que cruza esses dados do SAD para medir o nível de ameaça e pressão por desmatamento em Áreas Protegidas (APs), aponta um aumento de 39% nesses índices, em comparação calendário do desmatamento anterior, de agosto de 2017 a julho de 2018. O calendário é determinado pelo período de chuvas na Amazônia.

Os dados são do relatório anual de ameaça e pressão em Áreas Protegidas do Imazon. O estudo revela ainda que, no comparativo com o ano passado, as mesmas APs continuam no ranking das que mais sofrem ameaça e pressão. A Resex Chico Mendes (AC), por exemplo, se manteve no topo como a AP mais ameaçada de desmatamento. A APA Triunfo do Xingu (PA) também seguiu como a área que mais foi pressionada.

Ameaça – Ameaça é a medida do risco iminente de ocorrer desmatamento no interior de uma área protegida. O Imazon utiliza uma distância de 10 km para indicar a zona de vizinhança de uma AP, onde a ocorrência de desmatamento indica ameaça. As áreas de proteção mais ameaçadas foram a Resex Chico Mendes (AC) e o Parna Mapinguari (AM/RO). Essas áreas estavam na lista das APs mais ameaçadas no ano passado e continuam este ano. Além dessas, outras 5 Áreas Protegidas se mantiveram no ranking das que mais sofrem ameaça por desmatamento.

Pressão – Pressão ocorre quando o desmatamento se manifesta já no interior da área protegida, o que pode levar à perdas ambientais e até mesmo redução ou redefinição de limites da Área Protegida. A APA Triunfo do Xingu (PA) e a Resex Chico Mendes (AC) foram as mais pressionadas. A Resex Chico Mendes (AC), que aparece entre as líderes no ranking de APs ameaçadas, também aparece na lista das áreas mais pressionadas. Ainda na lista das 10 áreas que mais sofrem pressão por desmatamento, 7 estão localizadas no estado do Pará.

Terras Indígenas – O Imazon também monitorou as Terras Indígenas (TI) mais ameaçadas e pressionadas. Entre agosto de 2018 a julho de 2019, as TI Malacacheta (RR) e Manoá/Pium (RR) foram as que mais mais sofreram pressão por desmatamento. A TI Malacacheta que aparecia em segundo lugar ranking das terras indígenas mais pressionadas no ano anterior, agora aparece no topo da lista. O ranking mostra ainda que, das 10 TI mais pressionadas, 5 ficam no estado de Roraima, 3 no Pará, 1 no Mato Grosso e 1 no Amazonas.

Já no ranking das terras indígenas mais ameaçadas, 6 estão no Pará, 2 em Rondônia 1 em Roraima, 1 no Amazonas e 1 no Mato Grosso. A TI Uru-Eu-Wau-Wau (RO) e a TI Trincheira/Bacajá (PA) estão no topo dessa lista das mais ameaçadas. As TI Uru-Eu-Wau-Wau (RO), Trincheira/Bacajá (PA) e Parakanã (PA), assim como no ano anterior, permanecem entre as 3 terras indígenas mais ameaçadas.

Índices de ameaça e pressão de desmatamento em áreas protegidas na Amazônia






in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/11/2019





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 11/11/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/11/11/indices-de-ameaca-e-pressao-de-desmatamento-em-areas-protegidas-na-amazonia-aumentam-39-em-um-ano-mostra-imazon/

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Desmatamento e degradação aumentam na Amazônia em setembro deste ano, aponta monitoramento do Imazon

Desmatamento teve um crescimento de 80% e a degradação aumentou 787% na Amazônia Legal, em comparação a setembro de 2018. Pará lidera o ranking dos estados que mais desmataram

Por Stefânia Costa





De acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Imazon, em setembro deste ano, a Amazônia perdeu 802 km² de floresta. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), sistema de monitoramento liderado por pesquisadores brasileiros. Esses dados mostram aumento de 80% em relação a setembro de 2018, quando foram detectados 444 km². O estado onde mais ocorreu desmatamento foi o Pará (53%), seguido de Rondônia (13%), Amazonas (11%), Acre (11%), Mato Grosso (10%) e Roraima (2%).

A degradação na Amazônia Legal também aumentou. Em setembro deste ano, 1.233 km² de floresta foram degradados, um valor 787% maior que setembro do ano passado, quando a área degradada foi de 139 km². O estado líder na degradação foi o Mato Grosso (55%), em seguida vem Pará (33%), Rondônia (6%), Acre (3%) e Amazonas (3%).
Desmatamento e degradação

O Imazon classifica desmatamento como o processo de realização do corte raso, que é a remoção completa da vegetação florestal. Na maioria das vezes, essa floresta é convertida em áreas de pasto. Já a degradação é caracterizada pela extração das árvores, normalmente para fins de comercialização da madeira. Outros exemplos de degradação são os incêndios florestais, que podem ser causados por queimadas controladas em áreas privadas para limpeza de pasto, por exemplo, mas que acabam atingindo a floresta e se alastrando.
Ranking do desmatamento

O município de Pacajá, localizado no sudeste do Pará, que não aparecia na lista dos municípios que mais desmatam, em setembro registrou a maior área de floresta desmatada: 45 km². São Félix do Xingu e Altamira, também no Pará, vem em seguida. Os dois municípios se mantiveram nas primeiras posições do ranking, em segundo e terceiro lugar respectivamente.

Do total do desmatamento, 14% foi registrado em Unidades de Conservação. As mais desmatadas foram Reserva Extrativista Chico Mendes (AC), Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu (PA) e Reserva Extrativista Jaci Paraná (RO). As Terras Indígenas também foram alvo do desmatamento. As que mais perderam área florestal foram Apyterewa, Cachoeira Seca do Iriri e Ituna/Itatá, todas no Pará.

SAD – O Sistema de Alerta de Desmatamento é uma ferramenta de monitoramento, baseada em imagens de satélites, desenvolvida pelo Imazon para reportar mensalmente o ritmo do desmatamento e da degradação florestal da Amazônia. Operando desde 2008, atualmente o SAD utiliza os satélites Landsat 7 (sensor ETM+), Landsat 8 (OLI), Sentinel 1A e 1B, e Sentinel 2A e 2b (MSI) com os quais é possível detectar desmatamentos a partir de 1 hectare mesmo sob condição de nuvens.

Imazon – O Imazon é um instituto nacional de pesquisa, sem fins lucrativos, composto por pesquisadores brasileiros, fundado em Belém há 29 anos. Através do sofisticado Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), a organização realiza, há mais de uma década, o trabalho de monitoramento e divulgação de dados sobre o desmatamento e degradação da Amazônia Legal, fornecendo mensalmente alertas independentes e transparentes para orientar mudanças de comportamento que resultem em reduções significativas da destruição das florestas em prol de um desenvolvimento sustentável.

Acesse o boletim completo aqui.

Entenda mais sobre o SAD aqui.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/11/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 05/11/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/11/06/desmatamento-e-degradacao-aumentam-na-amazonia-em-setembro-deste-ano-aponta-monitoramento-do-imazon/

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Desmatamento e caça ameaçam o macaco-barrigudo, um dos maiores primatas da Amazônia

Macaco-barrigudo, primata da Amazônia, pode perder até 59% de habitat nos próximos 40 anos, aponta estudo

Júlia de Freitas, Instituto Mamirauá

De cabeça arredondada e pelagem escura, o macaco-barrigudo (Lagothrix cana), um dos maiores primatas da Amazônia, corre o risco de perder cerca de 59% de seu habitat até 2050 caso sigam altos os níveis de desmatamento, problema que, seguido da caça, mais ameaça a espécie.

Primata é considerado ‘vulnerável’ pela UICN (Foto: Anamélia Jesus)

A pesquisa que identificou esses dados demonstra que, já em 2002, 23% de seu habitat havia sido perdido. A espécie é classificada como “em perigo” pela lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) desde 2008. Distribuído nas florestas do Peru, Brasil e Bolívia, o macaco-barrigudo tem apenas 39% da área de distribuição protegida por unidades de conservação e terras indígenas demarcadas, constataram os pesquisadores.

Publicado pelo Imazon, o Boletim do Desmatamento (SAD) detectou altos índices de desmatamento na Amazônia Legal nos últimos meses. De agosto de 2018 a abril de 2019, foram perdidos 216.900 hectares de floresta.

A situação atinge também as áreas protegidas. De acordo com dados do Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), ferramenta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fiscaliza ações de desmatamento, apenas nas duas primeiras quinzenas de maio desse ano foram 6.880 hectares de floresta preservada na Região Amazônica desmatados.

Nesse cenário, o estudo prevê uma perda de habitat para o barrigudo que pode variar de 39% a 59%.

Os parâmetros utilizados para essas previsões foram as taxas de desmatamento, implementações previstas de novas rodovias e o baixo cumprimento de leis que exigem reservas florestais em terras privadas.

Para manter a população da espécie, defendem os pesquisadores, é necessário o fortalecimento e multiplicações de ações como a aplicação de reservas florestais, monitoradas através de um sistema de satélite, zoneamento agroecológico da terra e expansão do Programa de Áreas Protegidas da Região Amazônica.

Espécies similares melhoram estudos de previsão de ocorrência

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Para realizar as previsões, os pesquisadores utilizaram dados anteriormente publicados de uma outra espécie de primata amazônico que é similar ao barrigudo, o macaco-aranha (Ateles chamek), também conhecido como coatá-de-cara-preta, e espécie com maior número de dados científicos sobre distribuição e hábitos.

“Depois de testarmos a diferença entre as variáveis ambientais que determinam a ocorrência dessas espécies, vimos que os requerimentos são muito similares e percebemos que podíamos usar a presença do macaco-aranha para prever a ocorrência do macaco-barrigudo, cuja quantidade de localizações com presença confirmadas era bem menor”, explica Anamélia Jesus, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Biologia e Conservação de Primatas do Instituto Mamirauá, e uma das autoras do estudo.

Além da previsão de perda de habitat, a pesquisa também resultou na atualização da distribuição geográfica do macaco-barrigudo, informação crucial para ações que visam a conservação da espécie. “Novos registros de ocorrência do macaco-barrigudo sugerem um aumento na sua extensão de ocorrência na porção norte de sua distribuição”, atestam os pesquisadores. No entanto, a pesquisa indicou que a espécie ocupa apenas 23% da extensão de ocorrência do macaco-aranha.

Os autores sugerem que futuros estudos precisam investigar os mecanismos que permitem a coexistência desses primatas para avaliar os impactos da competição entre eles para sua conservação. Isto porque as duas espécies são predominantemente frugívoras e utilizam dos mesmos recursos para sua sobrevivência.

O trabalho intitulado “Previsão de distribuição e perda de habitat para o macaco-barrigudo (Lagothrix cana) e sua sobreposição de nicho com o coatá-de-cara-preta (Ateles chamek)” é parte da tese de doutorado do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Thiago Cavalcante em coautoria com os pesquisadores da mesma instituição, Rafael Rabelo e Adrian Barnett, e os pesquisadores do Instituto Mamirauá Anamélia Jesus e João Valsecchi.

O trabalho será apresentado 16º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon), que acontece até o dia 5 de julho, na sede do Instituto Mamirauá, no município de Tefé, no Amazonas.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/07/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 10/07/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/07/10/desmatamento-e-caca-ameacam-o-macaco-barrigudo-um-dos-maiores-primatas-da-amazonia/

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Denúncia de desmatamento nos municípios de Buriti e Chapadinha, MA

Os municípios de Buriti, Mata Roma, Chapadinha e Afonso Cunha se localizam na bacia do Médio Rio Munim, rio que corta e abastece vários povoados e municípios do norte e centro-norte maranhense.

O rio Munim tem suas nascentes principais no município de Aldeias Altas, região dos Cocais, onde sofre impacto pela produção de cana-de-açúcar, e no município de Codó, onde sofre impactos pela criação de gado.

No final dos anos 90, a região do Médio Munim começa a receber fluxos de plantadores de soja entre eles a empresa SLC que compra irregularmente mais de 50 mil hectares de áreas de Chapada das mãos do ex prefeito de Buriti, Nenem Mourão. Esses mais de 50 mil hectares se encontram parte no município de Buriti e outra parte município de Mata Roma. A empresa SLC, assim como outros plantadores de soja, beneficiaram-se de apoio de grupos políticos locais e estaduais que pressionavam pela rápida liberação de licenças ambientais.

Em 2009, o Fórum Carajás denunciou a SLC por grilagem de terras e por irregularidades na obtenção de licenças ambientais. Em 2010, a empresa alegando questões financeiras vende a fazenda para um grupo desconhecido. Mais tarde se ficou sabendo que a fazenda foi apenas arrendada e um dos objetivos desse arrendamento seria plantar mudas de eucalipto que se destinariam para a fabrica de pellets da Suzano Papel e Celulose, planejada para a cidade de Chapadinha.

O projeto da Suzano não foi adiante e os plantios de eucalipto ficaram encalhados para objetivos mais lucrativos. Atualmente, os eucaliptos são cortados e vendidos para cerâmicas em vários pontos do estado do Maranhão o que não compensa financeiramente. A ultima noticia que se tem é que a SLC pediu as terras de volta e para que isso ocorra a empresa arrendatária precisa cortar todos os eucaliptos.

Nesse processo, os funcionários da empresa arrendatária cortam os eucaliptos e cortam também a mata nativa do Cerrado. Segundo informações de moradores da zona rural de Buriti, os funcionários desmataram mais de 300 hectares e a pretensão é alcançar 1500 hectares atingindo as cabeceiras do riacho Feio o principal tributário do rio Munim e de fundamental importância econômica ambiental para várias comunidades nos municípios de Buriti e Chapadinha.

Caso esse desmatamento e outros desmatamentos se concluam, as comunidades verão seus acessos à água e a biodiversidade se restringirem ainda mais com impactos no clima e no solo.

* Denúncia enviada por Mayron Régis, Colaborador do EcoDebate, Jornalista e Assessor do Fórum Carajás, atua no Programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba (Fórum Carajás, SMDH, CCN e FDBPM).



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/02/2019





Autor: Mayron Régis
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 18/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/18/denuncia-de-desmatamento-nos-municipios-de-buriti-e-chapadinha-ma/

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Cerrado é o bioma brasileiro com maior taxa de desmatamento, diz estudo

Cerrado – Região possui apenas 7,7% de seu território integrado às áreas públicas de proteção integral, enquanto 45% da superfície original é ocupada por pastagens e cultivos agrícolas






Conhecido como a “savana brasileira”, o Cerrado é o bioma que vem sendo mais impactado pelo desmatamento no País. Cerca de 10 mil km² são devastados na região por ano, o que corresponde a 1 milhão de campos de futebol – área equivalente a quase duas cidades de Brasília. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o Cerrado está sendo desmatado cinco vezes mais rápido que a Amazônia, bioma com o dobro de extensão. Entre os fatores que favorecem essa exploração está a vegetação de pequeno e médio portes do Cerrado, que pode ser retirada com maior facilidade.

A derrubada de vegetação nativa, a expansão rural e a baixa quantidade de áreas protegidas faz com que o Cerrado seja uma das principais fontes de emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) no Brasil: 7 bilhões de toneladas de gases nos últimos 30 anos. Atualmente, 45% da área original é ocupada por pastagens e cultivos agrícolas, enquanto apenas 7,7% do território possui áreas públicas com proteção integral para conservar habitats naturais. Dados do Ibama indicam que 900 multas por desmatamento na região foram aplicadas em 2018.

Na análise do gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti, as estratégias de conservação no bioma devem ser revistas para garantir menor impacto. “A exploração desordenada do Cerrado prejudica a regulação climática, a preservação da biodiversidade e o equilíbrio hidrológico, já que a região é berço das nascentes das principais bacias hidrográficas do País. É preciso conservar áreas naturais existentes, ecossistemas frágeis e espécies ameaçadas; fazer a restauração de regiões excessivamente degradadas e investir na criação de unidades de conversação, que atualmente são escassas neste território. Produção e conservação precisam ser aliadas para garantir que a biodiversidade seja preservada e serviços ecossistêmicos, como polinização e o fornecimento de água, sejam mantidos”, destaca o também coordenador do Observatório do Clima e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

O impacto do Cerrado foi uma das pautas discutidas durante as reuniões da 24ª Conferência das Partes (COP 24) das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada em dezembro de 2018, na Polônia. Participante do evento, Ferretti explica que a redução das emissões dos GEE é uma urgência que deve ser priorizada pelas esferas pública e privada. “É preciso amenizar as emissões provenientes da agropecuária e capturar carbono da atmosfera para mitigar as mudanças climáticas. No caso do Cerrado, governos, instituições privadas e a sociedade civil devem agir em conjunto para satisfazer todos os interesses. Desse modo, é importante desenvolver políticas públicas de conservação do Cerrado, reforçar os programas de monitoramento de desmatamento e promover incentivos para a agropecuária sustentável e de baixo carbono, visando um manejo equilibrado”, ressalta.

De acordo com o relatório produzido sobre o Cerrado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, há ainda cerca de 25 mil km² de áreas públicas sem categoria fundiária definida, que podem ser alvo de desmatamento irregular e grilagem de terras. Essa invasão pode ocorrer rapidamente, considerando a velocidade do desmatamento no Cerrado.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/01/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 30/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/30/cerrado-e-o-bioma-brasileiro-com-maior-taxa-de-desmatamento-diz-estudo/

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

INPE estima 7.900 km2 de desmatamento por corte raso na Amazônia em 2018, aumento de 13,72% em relação a 2017

A taxa estimada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), corresponde a 7.900 km2 de corte raso no período de agosto de 2017 a julho de 2018.

A estimativa do PRODES 2018 indica um aumento de 13,72% em relação a 2017, quando foram apurados 6.947 km2. Este valor é 71,6% menor que a taxa registrada em 2004, ano em que o Governo Federal lançou o Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), atualmente coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O mapeamento utiliza imagens do satélite Landsat ou similares, para registrar e quantificar as áreas desmatadas maiores que 6,25 hectares. O PRODES considera como desmatamento a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso, independentemente da futura utilização destas áreas.

Com o PRODES, o INPE realiza o mapeamento sistemático na Amazônia Legal e produz, desde 1988, as taxas anuais de desmatamento na região, que são usadas pelo governo brasileiro para avaliação e estabelecimento de políticas públicas relativas ao controle do desmatamento e ações voltadas a temática de REDD+. Os dados são importantes para toda a sociedade e embasam iniciativas bem-sucedidas como a Moratória da Soja e Termo de Ajuste de Conduta da cadeia produtiva de carne bovina.

A Tabela 1 mostra a distribuição do desmatamento para o ano de 2018 nos Estados que compõem a Amazônia Legal. A Tabela 2 mostra a comparação com as respectivas taxas consolidadas para o ano de 2016.

Tabela 1 – Distribuição do desmatamento por estado.


* Nesta estimativa não foram observados dados do estado do AP.

Tabela 2 – Comparação com as respectivas taxas consolidadas para o ano de 2017


Para gerar esta estimativa, o INPE analisou 93 imagens do satélite Landsat 8/OLI selecionadas considerando dois critérios: 1) cobrir regiões onde foram registrados aproximadamente 90% do desmatamento no período anterior (agosto/2016 a julho/2017) e 2) cobrir os 39 municípios prioritários para fiscalização referidos no Decreto Federal 6.321/2007 e atualizado em 2017 pela portaria no. 360 do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A Figura 1 apresenta a localização das cenas Landsat utilizadas.


Figura 1 – Localização das imagens analisadas para cálculo da estimativa 2018. As áreas em amarelo indicam as 93 cenas Landsat selecionadas para a estimativa do PRODES 2018 e em azul os municípios prioritários.

A apresentação da taxa consolidada do PRODES 2018, a ser gerada após a análise das demais cenas que cobrem a Amazônia Legal, está prevista para o primeiro semestre de 2019. O resultado consolidado poderá variar em ±10% do valor estimado. A Tabela 3 apresenta as variações encontradas entre as taxas estimadas e as consolidadas desde 2005.

Tabela 3 – Variações encontradas entre as taxas estimadas e consolidadas desde 2005.



A Figura 2 mostra a série histórica do PRODES para a Amazônia Legal, enquanto a Figura 3 mostra a variação relativa anual das taxas de desmatamento.


Figura 2 – Série histórica do PRODES para a Amazônia Legal. Desmatamento anual em km2 (a) média entre 1977 e 1988, (b) média entre 1993 e 1994, (c) estimativa 2018.


Figura 3 – Variação relativa anual das taxas do PRODES no período 2001 a 2018



Mais informações: www.obt.inpe.br/prodes

Do INPE, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/11/2018






Autor: INPE
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 26/11/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/11/26/inpe-estima-7-900-km2-de-desmatamento-por-corte-raso-na-amazonia-em-2018-aumento-de-1372-em-relacao-a-2017/

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Novo Boletim SAD/Imazon anuncia aumento de 84% no desmatamento da Amazônia Legal em setembro de 2018

Desmatamento da Amazônia Legal – Amazonas, Mato Grosso e Rondônia lideram o ranking

Imazon
Fonseca, A., Justino, M., Cardoso, D., Ribeiro, J., Salomão, R., Souza Jr., C., & Veríssimo, A. 2018. Boletim do desmatamento da Amazônia Legal (setembro de 2018) SAD (p. 1). Belém: Imazon.

Em setembro de 2018, o SAD detectou 444 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 84% em relação a setembro de 2017, quando o desmatamento somou 241 quilômetros quadrados. Em setembro de 2018, o desmatamento ocorreu no Amazonas (24%), Mato Grosso (23%), Rondônia (20%), Pará (19%), Acre (11%), Roraima (2%) e Amapá (1%).

As florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 138 quilômetros quadrados em setembro de 2018, apresentando uma redução de 96% em relação a setembro de 2017, quando a degradação florestal detectada totalizou 3.479 quilômetros quadrados. Em setembro de 2018 a degradação foi detectada nos estados do Mato Grosso (62%), Pará (22%), Roraima (6%), Rondônia (5%) e Amazonas (4%) e Acre (1%).

(Geografia do Desmatamento):

Em setembro de 2018, a maioria (58%) do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O restante do desmatamento foi registrado nos Assentamentos de Reforma Agrária (24%), Unidades de Conservação (14%) e Terras Indígenas (4%).





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Baixe aqui o infográfico

Do Imazon, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/10/2018




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 30/10/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/10/30/novo-boletim-sadimazon-anuncia-aumento-de-84-no-desmatamento-da-amazonia-legal-em-setembro-de-2018/

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Especialistas alertam que desmatamento e ocupação desordenada ameaçam conservação do Cerrado


Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

ABr

Com mais da metade de sua área degradada, o Cerrado ainda aguarda o título de Patrimônio Nacional pela Constituição Federal, como já obtido por outros ecossistemas do Brasil. Depois da Amazônia, o Cerrado é o maior bioma da América do Sul. Especialistas alertam para os danos irreversíveis que o intenso processo de degradação pode trazer não só para o bioma, mas também para a sociedade, ao pôr em risco a disponibilidade de água e a regulação do clima.

O Cerrado se estende por mais de 2 milhões de quilômetros quadrados (Km2) do território brasileiro, o que equivale a quase 24% do país. Contudo, a área com vegetação íntegra do bioma já foi reduzida a cerca de 20% de sua cobertura original.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mostra que em 15 anos o desmatamento no Cerrado foi mais intenso que na Amazônia. De 2000 a 2015, o Cerrado perdeu 236 mil quilômetros quadrados, enquanto a perda na Amazônia, bioma duas vezes maior, foi de 208 mil quilômetros quadrados. Só no ano de 2015, o volume desmatado do Cerrado correspondeu a mais da metade da área devastada da floresta amazônica.

“A gente vê a expansão do agronegócio de maneira desenfreada no Cerrado, como se isso fosse totalmente natural. Esse é um dos motivos de tentar chamar a atenção para essa situação do Cerrado, que é um bioma que está se esvaindo rapidamente, sendo convertido em pastagens e áreas agrícolas de uma maneira desordenada”, alerta a bióloga Nurit Bensusan, coordenadora adjunta do Programa de Políticas e Direitos do Instituto Socioambiental (ISA).

Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o Cerrado é o bioma mais afetado nas Américas pelas queimadas e pela produção de culturas como a soja e a cana-de-açúcar. O processo de expansão da fronteira agrícola, com a exploração predatória, como a produção de carvão vegetal e a pecuária, vem reduzindo gradativamente a extensão do bioma nas últimas décadas.
Patrimônio nacional

Para especialistas, o reconhecimento do Cerrado como Patrimônio Nacional é fundamental para a conservação do bioma. A Constituição de 1988 concedeu o título à Floresta Amazônica brasileira, Mata Atlântica, Serra do Mar, ao Pantanal Mato-Grossense e à Zona Costeira e estabelece que essas áreas e seus recursos naturais devem ser usados “dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente”.

Tramita desde 2003 no Congresso Nacional uma proposta de emenda à Constituição que pretende incluir o Cerrado e a Caatinga ente os biomas considerados patrimônio nacional. A PEC já foi aprovada no Senado e aguarda, desde 2010, apreciação do plenário da Câmara dos Deputados.

“Não faltam elementos para reconhecer a importância do Cerrado como um ambiente fundamental para garantir a qualidade de vida dos brasileiros, por outro lado, ele está sempre em desvantagem, as políticas de conservação do Cerrado não são implementadas ou faltam políticas”, avalia a bióloga Nurit.

“Ainda há um grande desconhecimento por parte da população brasileira do que é a realidade de ocupação do Cerrado e como este processo nos afeta. O reconhecimento como patrimônio nacional tem um peso importante para sua proteção, não é uma questão local. A conservação do Cerrado tem repercussões e benefícios para o Brasil inteiro”, completou a professora Mercedes, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB).
Fragmentos

As consequências da degradação poderão, no futuro, inviabilizar o próprio agronegócio. A mudança no ambiente alterou o regime de chuvas e de produção de alimentos no ecossistema que tem a maior produção agrícola e pecuária do país.

“Metade do Cerrado foi destruída, mas o que sobra dos outros 50% não são áreas inteiras, são áreas fragmentadas, pequenas ilhazinhas de cerrado. E as áreas fragmentadas não conservam aquela diversidade biológica, a mesma flora e fauna das áreas inteiras, mesmo que essa área esteja protegida por uma unidade de conservação”, explica a bióloga Nurit.

“Essas áreas muito fragmentadas não tem condições de sustentabilidade ou de continuar mantendo as funções ecológicas que geram serviços importantes para o ser humano, como a disponibilidade de água e regulação do clima”, completou a professora Mercedes.

As áreas desmatadas do Cerrado são responsáveis ainda pela elevada emissão de gases de efeito estufa. Segundo estudo recente do Observatório do Clima, em 2016, o desmatamento do Cerrado emitiu 248 milhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa, volume que corresponde a mais que o dobro da emissão da indústria e equivale a 11% de todo o carbono que o Brasil lançou no ar no mesmo ano.
Meta de redução

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a área desmatada no Cerrado entre 2013 e 2015 foi de quase 19 mil quilômetros quadrados, uma média atual de 9,4 mil quilômetros quadrados por ano. Antes de 2008, essa média era de 15,7 quilômetros quadrados. Segundo o Ministério das Cidades, que coordena o Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas Brasileiros, o resultado mostra redução de 37% no ritmo de desmatamento.

O ministério ressaltou que o percentual se aproxima da meta de redução em 40% do desmatamento do Cerrado estabelecida pela Política Nacional de Mudança do Clima até 2020. Mesmo com a redução, a pasta informou que “o governo continuará atuando até conter todo o desmatamento ilegal no bioma”.

Diferentemente da Amazônia, o monitoramento da degradação do Cerrado não é avaliado anualmente, mas, segundo o Ministério do Meio Ambiente, ainda este ano serão lançados os dados referentes a 2016 e 2017, e o Cerrado passará a contar com dados anuais. Também está em fase de testes o chamado Deter Cerrado, que fará monitoramento em tempo quase real do desmatamento, além de auxiliar nas ações de fiscalização.

O governo federal aprovou, em dezembro de 2016, a 3ª fase do chamado PPCerrado, plano de prevenção e controle do desmatamento. O programa, que será implementado até 2020, prevê o ordenamento fundiário e territorial, monitoramento e controle, promoção de cadeias produtivas sustentáveis e instrumentos normativos e econômicos.

No âmbito da fiscalização, o Ministério do Meio Ambiente informou que nos últimos 5 anos foram instaurados cerca de 2,3 mil processos de infração contra a flora. Foram feitas ainda ações de prevenção e controle de incêndios florestais e foi implantado um sistema de monitoramento da cobertura vegetal e outro de alerta de detecção do desmatamento.

Sobre a captação de recursos, o ministério esclarece que em breve o Brasil poderá pleitear pagamento por resultados alcançados na redução do desmatamento no Cerrado, assim como já é feito para a Amazônia. O Fundo Amazônia dispõe de R$ 2,5 bilhões em pagamentos e já investiu cerca de R$ 1,7 bilhão em projetos de combate ao desmatamento.
Alta biodiversidade

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado abriga 5% da biodiversidade do mundo. É a savana com a maior diversidade de árvores e onde vivem 12 mil espécies de plantas nativas, além de mais de 2,5 mil espécies de animais, entre mamíferos, aves, peixes, anfíbios e répteis, e cerca de 67 mil espécies de invertebrados. No entanto, 20% das espécies nativas e endêmicas já não são encontradas nas áreas protegidas do Cerrado, onde pelo menos 137 espécies de animas estão ameaçadas de extinção.

O ecossistema tem cerca de 60 unidades de conservação, que protegem cerca de 8% da área total do bioma. Ele também é considerado o berço das águas, pois concentra as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul e a cabeceira de importantes rios, lagos e córregos responsáveis pela distribuição de água no Brasil.

Apesar do grande volume de água, alguns estados e o Distrito Federal estão enfrentando grave crise hídrica. “Se não tiver de fato uma política de conservação voltada para manutenção de recursos hídricos, a gente vai sofrer. Não se trata de inventar a roda, tem soluções que poderiam ser feitas a curto prazo e com efeitos positivos. Uma delas é evitar desperdício, pensar num uso mais sustentável da água na agricultura, em outro modelo de agronegócio que combine conservação e produção, além de usar menos agrotóxicos que poluem a água”, explica a especialista Bensusan.
Importância social

A vegetação do Cerrado está presente nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo, Distrito Federal, além de ocorrências no Amapá, Roraima e Amazonas. Na área de Cerrado, vive cerca de 40% da população brasileira e diferentes comunidades tradicionais, como indígenas, ribeirinhos, os chamados geraizeiros (do Cerrado do norte de Minas Gerais), quebradores de babaçu e quilombolas.

“Os povos do Cerrado são muito importantes, porque têm formas de vida tradicionais ligadas à natureza e que mantêm essa vegetação e essa fauna. À medida que os modos de vida dessas populações colapsam, a ameaça ao Cerrado duplica, porque essas pessoas têm que migrar para outras formas de uso da terra e dos recursos naturais que são mais predatórias, além da própria ameaça ao modo de vida dessas pessoas”, analisa a bióloga Bensusan.
Políticas de conservação

Um grupo de ativistas e pesquisadores socioambientais está elaborando um conjunto de recomendações de conservação do Cerrado para ser entregue aos candidatos à Presidência da República. As medidas serão definidas na próxima quarta-feira (7) em reunião prevista para listar os principais pontos abordados no Seminário Estratégia Nacional para o Cerrado, que ocorre nesta terça-feira na Câmara dos Deputados.

As medidas são reunidas em três eixos: conservação da vegetação e dos recursos hídricos, defesa dos direitos das comunidades e povos tradicionais e o desenvolvimento de um modelo de agronegócio sustentável. Entre as recomendações, estão a revisão das metas do Plano de Mitigação das Mudanças Climáticas e a criação de fundo de captação de recursos para o Cerrado.
Estudos

Os pesquisadores também estão trabalhando em conjunto com a Universidade de Brasília (UnB), que começou a desenvolver este ano um projeto de sensoreamento remoto para estabelecer conexões entre informações de segurança hídrica, energética e alimentar e as comunidades tradicionais que vivem no Cerrado.

O projeto vai consolidar na forma de mapas diferentes informações do bioma, por exemplo a variabilidade do clima nos últimos anos e as projeções futuras de mudanças climáticas com os possíveis impactos sobre a cadeia produtiva. Os primeiros resultados devem sair até o fim deste ano e serão levados pelos cientistas aos gestores públicos para basear as decisões sobre o tema.

“Hoje, a questão central do Cerrado é fazer uma boa gestão territorial que permita você ter o desenvolvimento da agricultura sem ocupar novos espaços e ao mesmo tempo garantir a segurança de fornecimento de água, alimentos e a utilização racional dos recursos energéticos nessa ocupação”, explica a professora Mercedes Bustamante, coordenadora do projeto.


Por Débora Brito, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/06/2018



Autor: Débora Brito
Fonte: Agência Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 06/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/06/especialistas-alertam-que-desmatamento-e-ocupacao-desordenada-ameacam-conservacao-do-cerrado/

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Desmatamento aumenta na Amazônia. Flona do Jamanxim é afetada

Boletim do desmatamento da Amazônia Legal (abril 2018) SAD

Em abril de 2018 o SAD detectou 217 km² de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 84% do desmatamento em realção a abril de 2017.

Os Estados do Mato Grosso e Amazonas foram o que mais desmataram no mês. O Pará tem um ponto de atenção com a retomada do desmatamento dentro da Flona do Jamanxim, com 18 km² de desmatamento detectados em abril de 2018

Em abril de 2018, o SAD detectou 217 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal. Neste boletim, a fração de desmatamento entre 1 e 10 hectares foi de 18% do total detectado (39 quilômetros quadrados). Considerando somente os alertas a partir de 10 hectares, houve aumento de 84% em relação a abril de 2017, quando o desmatamento somou 97 quilômetros quadrados. Em abril de 2018, o desmatamento ocorreu no Mato Grosso (50%), Amazonas (23%), Pará (19%), Roraima (5%) e Rondônia (3%).

As florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 8 quilômetros quadrados em abril de 2018, o mesmo valor detectado em abril de 2017. Em abril de 2018 a degradação foi detectada somente no Mato Grosso.


Saiba mais a seguir:



Baixe aqui o arquivo
http://imazon.org.br/PDFimazon/Portugues/transparencia_florestal/SAD%20abril%202018.pdf


Colaboração de Stefânia Costa, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2018


Autor: Stefânia Costa
Fonte: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/25/desmatamento-aumenta-na-amazonia-flona-do-jamanxim-e-afetada/

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Estudo mostra que desmatamento esquenta riachos e encolhe peixes na Amazônia

IPAM




O desmatamento está fazendo peixes encolherem em uma região da Amazônia. A conclusão é de um estudo recém-publicado, que mostrou como o aquecimento dos riachos provocado pela derrubada da mata e pela construção de barragens afetou a qualidade de habitat para os peixes, impactando na diminuição média de 36% do tamanho de algumas espécies.

De acordo com um dos autores do trabalho, o ecólogo Paulo Ilha, pesquisador associado do IPAM, a retirada da cobertura vegetal, seja para pastagem ou plantação de soja, facilita a erosão e o transporte de sedimentos para dentro dos rios, modifica características físico-químicas da água, a disponibilidade de alimento e abrigo para os animais aquáticos. A construção de barragens também contribui com essa alteração da paisagem para o aquecimento da água, que influencia diretamente a biodiversidade do local.

“Embora se saiba há muito tempo que em ambientes mais quentes o tamanho dos organismos costuma ser relativamente menor, e que o aquecimento ambiental pode provocar reduções, nenhum estudo havia testado a hipótese de que o aumento da temperatura da água em riachos provocado pela conversão de florestas em áreas agrícolas poderia reduzir o tamanho dos peixes.”

A pesquisa de campo foi realizada na Fazenda Tanguro, no Nordeste de Mato Grosso, local em que o Projeto Tanguro, liderado pelo IPAM, desenvolve desde 2004 pesquisas sobre a interação entre mudanças climáticas, floresta e agricultura. Os pesquisadores analisaram o tamanho dos peixes em pontos com diferentes usos da terra, foram em seis riachos, sendo três em áreas de florestas e três em áreas agrícolas.

O estudo envolveu 36 espécies presentes nas bacias dos rios Darro e Tanguro. As análises indicam que quatro das seis espécies mais presentes nos riachos diminuíram de tamanho corporal, entre 43% e 55%, nas áreas agrícolas.

Para confirmar a hipótese, o pesquisador realizou um experimento no laboratório da Universidade de São Paulo (USP), onde foram criados peixes de uma espécie nativa (Melanorivulus zygonectes) em temperaturas semelhantes às dos riachos agrícolas e de floresta.

“Os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos agrícolas perderam massa, diminuindo de tamanho, enquanto os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos de florestas cresceram”, afirma Ilha. A pesquisa não investigou os mecanismos fisiológicos que levam à diminuição do tamanho dos peixes, mas constatou que a temperatura da água é um fator preponderante.

Estudos anteriores constataram que córregos com áreas desmatadas são de 3oC a 4°C mais quentes do que em áreas florestadas. A temperatura é um dos fatores mais importantes para a distribuição dos organismos, as interações e as funções ecológicas das comunidades.

“As conclusões do estudo podem ter implicações para a conservação de peixes em resposta ao aquecimento provocado por mudanças climáticas e no uso da terra”, diz Ilha. “Alterações no tamanho do corpo podem afetar praticamente todos os aspectos da biologia de um organismo, de sua fisiologia à história de vida, interações ecológicas, e funções ecossistêmicas, incluindo provisão de alimento e renda para seres humanos.”

Este estudo fez parte da tese de doutorado de Ilha, feita na USP sob orientação do ecólogo Luis Schiesari, e contou com a colaboração de Fernando Yanagawa, do professor Carlos A. Navas, e da pesquisadora KathiJo Jankowski.

O Projeto Tanguro é um esforço científico com o objetivo de conciliar a produção de alimentos e a integridade ambiental com as mudanças climáticas globais e locais. Ele é composto por um grupo interdisciplinar de pesquisadores, sob a coordenação do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e com a colaboração da AMAGGI, cuja Fazenda Tanguro, localizada em Querência (MT), serve como centro de experiências do projeto.

Do IPAM, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/2018


Autor: IPAM
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 18/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/18/estudo-mostra-que-desmatamento-esquenta-riachos-e-encolhe-peixes-na-amazonia/

segunda-feira, 12 de março de 2018

Estudo indica que, uma vez degradado, o Cerrado não se regenera naturalmente


Cerrado já perdeu 46% da cobertura nativa por causa do desmatamento.

Cerrado já perdeu 46% da cobertura nativa por causa do desmatamento. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


Segundo estudo, após a conversão em pastagens, áreas do bioma que não recebem o manejo apropriado exibem vegetação adensada, mas pobre em biodiversidade.

FAPESP


Alguns dos mais importantes rios do Brasil – Xingu, Tocantins, Araguaia, São Francisco, Parnaíba, Gurupi, Jequitinhonha, Paraná e Paraguai, entre outros – nascem no Cerrado. Trata-se da única savana do planeta dotada de rios perenes. A rápida conversão do Cerrado em pastagens e lavouras e o manejo inadequado das áreas preservadas colocam em risco esse formidável recurso natural, em um país com o terceiro maior potencial hidrelétrico tecnicamente aproveitável do mundo, e em que 77,2% da matriz elétrica é suprida pela hidroeletricidade.



Além disso, a destruição do Cerrado constitui uma perda inestimável em termos de biodiversidade, pois, na microescala, esse bioma, que pode apresentar 35 espécies diferentes de plantas por metro quadrado, é mais rico em flora e fauna do que a floresta tropical.


Sabe-se que o Cerrado tem um potencial de regeneração natural muito alto. Mas até que ponto vai sua resiliência?



A pesquisadora brasileira Gisela Durigan, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), coordena com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP um estudo realizado em áreas de antigas pastagens – originalmente pertencentes ao bioma do Cerrado, atualmente se encontram na condição de “reserva legal” e iniciaram uma regeneração natural.




Durigan explica que a regeneração natural do Cerrado se restringe às espécies arbóreas, o que significa dizer que o empobrecimento da vegetação decorrente da ação deletéria da agropecuária é definitivo – ao menos que o desenvolvimento de políticas ecológicas encontre meios de restabelecer as condições propícias para as abundantes espécies arbustivas.




“Uma vez eliminada, a vegetação rasteira ou de pequeno porte, que compõe o estrato herbáceo-arbustivo e que contém a maior parte das espécies endêmicas, não se regenera. Então, quando a pastagem é simplesmente abandonada, ela se transforma, depois de algum tempo, em um cerradão, que é uma formação caracterizada por vegetação muito adensada, com grande predomínio de árvores e pobre em biodiversidade”, afirmou Durigan.




O estudo, que teve resultados publicados no Journal of Applied Ecology, foi realizado no âmbito do doutorado de Mário Guilherme de Biagi Cava, com Bolsa da FAPESP e orientação de Durigan, e também apoiado por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido ao professor Milton Cezar Ribeiro e de uma Bolsa de Doutorado a Natashi Aparecida Lima Pilon.




A pesquisa abrangeu 29 áreas no Estado de São Paulo, onde foi feito o levantamento da vegetação, tanto das árvores quanto das plantas pequenas que compõem o estrato herbáceo-arbustivo e que constituem a maior riqueza da flora do Cerrado. Apesar de estarem localizadas em regiões diferentes, essas 29 áreas, com idades variando de quatro a 25 anos, puderam ser ordenadas em uma sequência cronológica no que se refere ao estágio de regeneração.




Substituição do estrato arbustivo por gramíneas




As árvores se recuperam por possuírem raízes muito profundas e terem evoluído, ao longo de milhões de anos, desenvolvendo a capacidade de rebrotar inúmeras vezes. “Não é possível eliminá-la nem aplicando herbicida”, disse Durigan. Porém, segundo ela, o estrato herbáceo-arbustivo, que é removido para a implantação das pastagens, não se recompõe, devido à invasão dos terrenos por gramíneas exóticas muito resistentes e agressivas: as braquiárias.




“Essas só desaparecem com o sombreamento, causado pelo adensamento das árvores. Mas, quando desaparecem as gramíneas exóticas, as plantas originais de pequeno porte, que foram completamente erradicadas pelos herbicidas, pelas roçadas e pela competição com as braquiárias e que não toleram a sombra, também não voltam mais”, continuou a pesquisadora.




Para fazer com que a área voltasse a abrigar um cerrado típico, seria necessário eliminar as gramíneas exóticas, com manejo por meio de fogo associado a herbicida, e, depois, reintroduzir as espécies nativas. Mas isso constitui uma operação difícil e cara, que, com os recursos atuais, não pode ser realizada em larga escala.




“Temos pesquisado diferentes técnicas para promover a recuperação. Com sementes, é necessária uma quantidade gigantesca, que não há nem de onde tirar. O que deu muito certo, em escala experimental, foi o transplante do estrato herbáceo-arbustivo: a camada superficial do solo, acompanhada das touceiras de capim e das pequenas plantas”, disse Durigan.




“O grande problema é que, no Estado de São Paulo, já não há mais áreas-fonte para isso. O que sobrou de Cerrado aberto está invadido por gramíneas exóticas. Então, quando se transplanta a camada superficial do solo, a braquiária vai junto. Isso acontece inclusive nas áreas protegidas”, acrescentou.




Floresta degradada




O estudo feito na Unesp permitiu fechar um diagnóstico e fazer predições. Espontaneamente, uma vez degradado, o cerrado típico não se recompõe totalmente. Para que uma área de pastagem volte a ser um cerrado típico, com riqueza de biodiversidade, com a flora característica, com habitats para fauna especializada em savana, é necessário manejo humano: não se pode deixar que o adensamento das árvores passe do limiar de 15 metros quadrados por hectare; é preciso erradicar o capim exótico; e deve-se reintroduzir o estrato herbáceo-arbustivo nativo.




Evoluindo espontaneamente, sem manejo, em 49 anos a vegetação arbórea nas antigas áreas de pastagem irá se transformar em cerradão. A cobertura esparsa de solo característica do cerradão é alcançada em quatro anos e a biodiversidade pobre do estrato herbáceo é obtida em 19 anos. “O processo é rápido, mas os resultados não são os que procuramos. O cerradão não se distingue de uma floresta degradada”, disse Durigan.




Dois anos depois do levantamento, já na segunda fase do doutorado de Cava, os pesquisadores vão voltar às mesmas áreas ao longo do primeiro trimestre de 2018, e medir tudo novamente, para obter a taxa precisa de aumento de cobertura, densidade e biodiversidade.




“Esses valores precisos nos permitirão saber com exatidão qual é o potencial de regeneração das diferentes áreas e quais são os fatores favoráveis. É o tipo de solo? É a distância a uma fonte de sementes? É a proximidade de recursos hídricos? Todos esses parâmetros serão considerados”, disse Durigan.




Conforme afirmou, o artigo publicado por seu grupo é muito inovador porque não há ninguém em outros países tratando de recuperação de savanas.




“Isto porque ainda não ocorreu na África nem na Austrália um processo similar ao que estamos vivendo aqui, de conversão da savana em pastagens extensivas e em grandes lavouras de soja, cana ou milho. Na África, as savanas estão bem degradadas, mas devido ao sobrepastoreio, à exploração de lenha e a outras ações cujos impactos são menos visíveis no curto prazo. No Brasil, estamos presenciando transformações que ocorrem de um dia para o outro”, comentou a pesquisadora.



Referência:



Cava MGB, Pilon NAL, Ribeiro MC, Durigan G. Abandoned pastures cannot spontaneously recover the attributes of old-growth savannas. J Appl Ecol. 2017;00:1–9.

https://doi.org/10.1111/1365-2664.13046



Da FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/03/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 12/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/12/estudo-indica-que-uma-vez-degradado-o-cerrado-nao-se-regenera-naturalmente/