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segunda-feira, 27 de março de 2023

Biodiversidade, Geodiversidade e Segurança Hídrica no embate entre Ecologia e Economia


Biodiversidade, Geodiversidade e Segurança Hídrica no embate entre Ecologia e Economia
BIODIVERSIDADE, GEODIVERSIDADE E SEGURANÇA HÍDRICA NO EMBATE ENTRE ECOLOGIA E ECONOMIA: educação, vulnerabilidades socioambientais e inviabilidades conservacionistas na sobreposição de unidades de conservação e mineração no Quadrilátero Ferrífero – MG

Vagner Luciano Coelho de Lima Andrade (1)

INTRODUÇÃO

Um flanco da Serra das Farofas, distrito de Nossa Senhora da Paz, em São Joaquim de Bicas (MG) guarda múltiplos cenários e situações. Brumadinho mostrou ao mundo em 2019 do que a mineração é capaz. Quem vista atualmente o renomado Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico do Inhotim, localizado entre o Rio Paraopeba e a serra das Farofas, em Brumadinho não imagina que ele é parcialmente fruto da recuperação ambiental de antigas jazidas minerárias.

Este espaço de reconhecimento internacional, é exemplo de que arte e ecologia dialogam continuamente na construção de novos marcos e ideias societários. A Serra das Farofas, inserida aos fundos de Inhotim, na divisa com São Joaquim de Bicas, por sua vez, apresenta os mesmos cenários degradantes do passado. Várias jazidas de minério de ferro estão em operação descaracterizam, continuamente as paisagens naturais e culturais adjacentes.

Assim, compreendendo o patrimônio geológico, enquanto elemento chave de preservação da paisagem natural, este trabalho busca apresentar os cenários históricos e as perspectivas educativas na região do Quadrilátero Ferrífero (Leste, Norte, Oeste e Sul), construindo novas discussões interdisciplinares em Ecologia, Geografia e História, através dos quais diferentes paisagens e patrimônios possam ser apropriados pedagogicamente com vistas à reflexões sobre o modelo socioeconômico vigente, seus riscos, impactos e passivos no âmbito da comunidades mineradas. Novas formas econômicas pautadas na educação e no turismo fomentam a conservação dos atributos geológicos para sua didatização no âmbito de formação dos discentes da educação básica. Preservar o patrimônio geológico e promover sua apropriação didático pedagógica e premissa de um futuro mais equânime, que rompa com cenários como aqueles deixados pela mineradora Vale em Bento Rodrigues (2015) e Córrego do Feijão (2019).

No entorno da capital mineira, há áreas paisagísticas de exponencial valor para a coletividade por agregarem acervos naturais e culturais, com destaque para os serviços ecossistêmicos indispensáveis à manutenção da qualidade de vida das urbes componentes da Grande BH.

Assim, o presente trabalho apresenta um estudo sobre a Serras da região de Nascentes do Rios Pará, Paraopeba, Velhas e Doce (Quadrilátero Ferrífero), esboçando as ameaças em seu entorno, destacando aspectos importantes para conservação da geodiversidade local e destacando seu potencial pedagógico através do geoturismo com contextos interdisciplinares que permitem visitas escolares e abordagens integradas em Ecologia, Geografia e História.

LESTE DO QUADRILÁTERO FERRÍFERO – MG: sobreposição de unidades de conservação e mineração

A região localizada ao leste do território histórico, geológico e geomorfológico do Quadrilátero Ferrífero encontra-se diretamente associada à formação da sociedade mineira em sua essência. As duas primeiras capitais estaduais, Mariana e Ouro Preto atestam as permanências e rupturas do Brasil Colonial com receptáculos significativos associados à apropriação da paisagem geológica para fins socioeconômicos.

Da mineração aurífera dos tempos pretéritos à ampliação da égide minerária, o Quadrilátero Ferrífero se materializa no tempo e no espaço como cenário de exploração comercial de minério de ferro e manganês, trazendo significativos impactos e riscos ás comunidades locais. Assim, a partir dos recortes espaciais da Reserva Particular do Patrimônio Natural Serra do Caraça que associada à criação do Parque Nacional da Serra do Gandarela criado pela União em 2014, formam um grande corredor biológico e cultural destacam-se perpectivas educativas desta área. O parque nacional foi uma conquista após intenso processo de mobilização social da Mineiridade, e sua consolidação busca-se evidenciar novos cenários educacionais na porção leste, com vistas a dinamizar e potencializar a visitação turística com fins pedagógicos.

Utilizando-se das paisagens do parque nacional, o estudo do meio com discentes da educação básica pretende apresentar avanços e retrocessos do parque e enfatizar seu potencial didático pedagógico fomentando o turismo geológico e a ditatizações de elementos teóricos que integrem o ensino de Ecologia, Geografia e História, oportunizando novas formas de aprendizagem para além da tradicional sala de aula.

NORTE DO QUADRILÁTERO FERRÍFERO – MG: vulnerabilidades socioambientais e inviabilidades conservacionistas

As discussões em educação na contemporaneidade versam sobre a integração entre diferentes conteúdos visando uma formação crítica dos discentes. Neste contexto, educar é promover a apropriação dos diferentes meios para se pensar e refletir a realidade com vistas à emancipação dos sujeitos e suas participações como atores da história. Antagonicamente, na prática, a educação centra-se em conteúdos práticos ligados diretamente a linguagem e matemática desprezando contextos expressivos de outras disciplinas, como Ecologia, Geografia e História. Neste contexto, empreende-se a leitura, interpretação de paisagens culturais e/ou naturais com vistas à percepção dos diferentes conflitos que se materializam no tempo e no espaço. Destaca-se a serra da Piedade, entre os municípios de Caeté e Sabará como recorte pedagógico de suma importância para propiciar estudos do meio nos quais se percebam a riqueza da mesma e sua apropriação como cenário cultural religioso, e também turístico. A serra apresenta recortes espaciais no quais se percebem elementos de biodiversidade, de geodiversidade e de sociodiversidade, nos quais é possível verificar permanências e rupturas na paisagem e quais processos os consolidaram ou ocasionaram. A paisagem materializa conflitos latentes que podem ser visualizados, evidenciados, problematizados visando reflexões significativas no processo de ensino/aprendizagem. Outro aspecto se refere à inserção de minerações e de eventuais práticas socioeconômicas e/ou culturais e seus riscos/impactos com vistas a pensar a conduta humana, explicitando a historicidade do meio, enriquecendo os diálogos entre diferentes componentes teóricos da formação curricular na educação básica.

OESTE DO QUADRILÁTERO FERRÍFERO – MG: biodiversidade, geodiversidade e segurança hídrica

Neste contexto destaca-se a Área de Preservação Especial do Rio Manso, responsável por preservar remanescentes naturais indispensáveis à captação de água da COPASA no vetor oeste metropolitano. Matas e nascentes encontram-se em considerável estado de conservação ambiental num cenário cercado por mineração e práticas agrícolas degradantes. Assim esta tipologia de unidade de conservação agrega múltiplos valores às paisagens cultural (sociodiversidade), ecológica (biodiversidade) e geológica (geodiversidade). O destaque local fica com o Distrito de Sousa, onde as comunidades remanescentes de quilombos mantêm vivas as tradições camponesas como a Festa do Rosário, realizada anualmente em Agosto, na capelinha do bairro do Pequi. No contexto de história geológica e de história ambiental, estudos recentes enfatizam a importância de preservação da paisagem geológica como elemento preponderante na manutenção e salvaguarda de mananciais públicos. Basta reforçar que todas as áreas de captação de águas para abastecimento público em Belo Horizonte e região são retiradas de áreas inseridas no Quadrilátero Ferrífero.

SUL DO QUADRILÁTERO FERRÍFERO – MG: o embate entre Ecologia e Economia

Nas respectivas serras, localizadas entre os municípios localizados na porção sul da Grande BH, numa região pressionada fortemente pela ampliação de condomínios fechados e mineradoras, existe um conjunto paisagístico e ecológico de inestimável valor para a Mineiridade. Trata-se de um espaço com potencialidades interdisciplinares para o estudo do meio, num contexto de articulação entre Ecologia, Geografia e História. As serras encontram-se ameaçadas por uma série de riscos e degradações socioambientais, que colocam em risco em patrimônio cultural e natural, sendo necessárias ações imediatas para criação de um corredor ecológico e cultural na região consolidando-a como espaço de educação, turismo e conservação da paisagem. Ao se elencar a serras como marco histórico-cultural significativo da Grande BH (MG) protege-se efetivamente singulares recortes espaciais, evocando medidas protetivas emergenciais com vistas à salvaguarda do patrimônio ecológico e histórico desta área tão importante para a biodiversidade, para a geodiversidade e para a sociodiversidade.

A Serra da Moeda é um importante recorte espacial localizado à oeste do território do Quadrilátero Ferrífero e caracteriza-se pela diversidade de cenários e paisagens que vocacionam múltiplas atividades na área do turismo. A área insere-se no imaginário coletivo mineiro em face das histórias de cunhagem clandestina de moedas de ouro em tempos de Brasil colônia. Por outro lado, a região caracteriza-se pela exploração intensiva de minério de ferro trazendo impactos expressivos sobre a biodiversidade e à geodiversidade local. Neste contexto presente, o trabalho de campo, objetiva pedagogicamente apresentar as paisagens da Serra da Moeda, nos municípios de Congonhas, Belo Vale, Itabirito e Moeda, destacando os impasses na geoconservação da paisagem local com vistas à sua apropriação como elemento didático-pedagógico. Preservar a serra é emergencialmente necessário, motivando as comunidades locais a perceberem a serra como um ícone de referência na paisagem corriqueira, enfatizando sua preservação. O turismo ecológico, geológico e sobretudo escolar, é dádiva a promover novos elos de sustentabilidade envolvendo a população e protagonizando diferentes meios de proteção do significativo patrimônio cultural e natural resguardando-o de possíveis impactos minerários e de outras matrizes econômicas insustentáveis. O estudo do meio com alunos da educação ambienta pode se centrar na área da MONA Serra da Moeda, monumento natural criado pelo governo estadual para proteger paisagens e patrimônios da serra. A discussão junto às comunidades locais, acerca de sua transformação em parque estadual e consecutiva ampliação da área oficial de conservação se mostram perspectivas viáveis num futuro próximo.

A região ao sul do Quadrilátero Ferrífero abriga cenários de expansão da égide urbano-industrial para além do polo de Congonhas numa área atualmente denominada de Alto Paraopeba. A mineração tem se ampliado para cidades como Jeceaba e Desterro de Entre Rios, destruindo cenários em várias serras, em especial a Serra do Coelho. Assim faz-se necessários discutir a ampliação ideológica e mercadológica da mineração contemporânea com vistas a apresentar novas perspectivas societárias que promovam desenvolvimento econômico, equidade social e preservação ambiental. A Serra do Ouro Branco, é uma porção significativa de mosaicos e panoramas que agregam relevante patrimônio ecológico e geológico preservados como parque estadual. Sua apropriação turística e pedagógica é força matriz motivadora de novas formas de apropriação sustentável das paisagens e patrimônios associados à história da mineração e à história ecológica e geológica do planeta, disponibilizando cenários e recortes com fins educativos que potencializem a preservação da biodiversidade, da geodiversidade e da sociodiversidade, com vistas à geoconservação e ao geoturismo. Conservação o patrimônio geológico com vistas à cíclica visitação do mesmo por turistas e estudantes é marco civilizatório a romper com a degradante aliança socioeconômica e sociocultural da Mineiridade para com a mineração, trazendo novas modalidades de desenvolvimento local.

Vagner Luciano Coelho de Lima Andrade


PARA SABER MAIS

http://recursomineralmg.codemge.com.br/substancias-minerais/ferro/


1 Educador e Mobilizador da Rede Ação Ambiental. Bacharel-licenciado em Geografia e Análise Ambiental (UNI-BH), Licenciado em História (UNICESUMAR) e especialista na área de Educação, Patrimônio e Paisagem Cultural (Filosofia da Arte e Educação, Metodologia de Ensino de História, Museografia e Patrimônio Cultural, Políticas Públicas Municipais). Licenciado em Ciências Biológicas (FIAR), Tecnólogo em Gestão Ambiental (UNICESUMAR) e especialista na área de Educação, Patrimônio e Paisagem Natural (Administração escolar, Orientação e Supervisão, Ecologia e Monitoramento Ambiental, Gestão e Educação Ambiental, Metodologia de Ensino de Ciências Biológicas). CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/3803389467894439

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394






Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 27/03/2023
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2023/03/27/biodiversidade-geodiversidade-e-seguranca-hidrica-no-embate-entre-ecologia-e-economia/

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Pesquisa na Uerj mostra que o desmatamento afeta a integridade ecológica dos rios e ameaça a biodiversidade

Estudo conduzido por equipe de pesquisadores na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) considera não só as consequências do desmatamento sobre a qualidade física ou química da água de rios e córregos, como também analisam o efeito das mudanças na cobertura florestal sobre as respostas funcionais de riachos tropicais, o que ameaça a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos.

A pesquisa foi conduzida na bacia hidrográfica Guapi-Macacu, que abrange uma área de 1.260 km² nos municípios fluminenses de Cachoeiras de Macacu, Guapimirim e Itaboraí. Sua contribuição corresponde a quase um terço do total da água que chega à baía de Guanabara. Devido a região ser considerada fundamental para a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, é protegida por uma rede de unidades de conservação que integram o Mosaico do Corredor Central Fluminense.

Orientada pelo professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Uerj Timothy Peter Moulton, a equipe, composta por Vinicius Neres-Lima, Andrea Franco Oliveira e Fausto Machado Silva, publicou o artigo “Desenvolvimento, padronização e aplicação de um modelo de fluxo de múltiplos nutrientes em teias tróficas de ecossistemas aquáticos”, na Science of the Total Environment, revista internacional multidisciplinar do Grupo Elsevier para publicação de pesquisas inovadoras, baseadas em hipóteses de alto impacto sobre o ambiente total.


A ferramenta de isótopos estáveis pode detectar os efeitos do desmatamento antes de ocorrer a perda de espécies, explica Neres-Lima

O pesquisador ressalta que o desmatamento é um processo global significativo e é a principal ameaça à biodiversidade de água doce, mesmo quando comparado a outras ameaças decorrentes das mudanças climáticas. A diminuição da cobertura florestal pode afetar, por exemplo, a conectividade ecológica entre os ambientes terrestre e aquático, devido às modificações nos ciclos de nitrogênio e carbono; a produção primária, devido ao aumento da incidência de luz solar e às mudanças nas quantidades e qualidades dos aportes de nutrientes terrestres carreados para os rios; bem como o fluxo de energia entre predadores e presas. Assim, o desmatamento pode impactar os ecossistemas de rios a partir das fontes alimentares primárias, mas esse impacto pode se propagar para os demais níveis tróficos, como insetos, camarões, girinos e peixes.

Os resultados da pesquisa mostraram que os valores isotópicos de nitrogênio (δ15N) da maioria dos componentes aquáticos, os valores isotópicos de carbono (δ13C) de material particulado e peixes onívoros, e as razões C:N de material particulado e algas variam significativamente com a cobertura florestal, indicando o papel da vegetação terrestre na regulação da biogeoquímica dos córregos. As análises de isótopos estáveis desses dois elementos indicaram satisfatoriamente as mudanças nas conexões terrestre-aquáticas em relação aos ciclos de N e C, mostrando assim o papel das algas e do material particulado na influência da fauna do riacho através das transferências na teia trófica. “A ferramenta de isótopos estáveis pode ser promissora para a detecção de efeitos de desmatamento e outros distúrbios antrópicos antes mesmo de ocorrer a perda de espécies”, conclui Neres-Lima.







Autor: Paula Guatimosim
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 07/04/2022
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=77.7.3

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Crises de clima e biodiversidade devem ser tratadas como uma só




Crises de clima e biodiversidade devem ser tratadas como uma só

“A montanha-russa deste verão de temperaturas extremas, secura, enchentes e incêndios florestais tem sido ruim, mas provavelmente muito melhor do que o que podemos ver no futuro”

O recente relatório do IPCC confirma que o aquecimento global está ficando cada vez mais rápido. O impacto ocorre em tempo real enquanto observamos aldeias inundadas e florestas queimadas. Enquanto isso, a crise oculta da perda de biodiversidade continua com a perda de florestas para o desmatamento, agravada pelos incêndios.

À medida que as crises de clima e biodiversidade se potencializam, a nova análise da EASAC [“Key Messages from European Science Academies for UNFCCC COP26 and CBD COP12”] adiciona os dados mais recentes para informar a Cúpula do Clima da ONU em Glasgow e a Cúpula da Biodiversidade na China neste outono, com foco em 16 áreas que requerem ação urgente para proteger a humanidade do pior .

O resumo da análise dos dez anos de pesquisa científica da EASAC cobrindo meio ambiente, energia e biociências é colocado contra o cenário assustador de um aumento inexorável na temperatura e umidade que se expande em algumas áreas a níveis onde é difícil ou impossível para os humanos ou para as plantações e gado que eles precisa sobreviver. Adicionando ciência muito recente para ter sido incluída no Relatório do IPCC, as Academias de Ciências da Europa exortam os governos a tratarem as Crises Climáticas e de Biodiversidade como uma só, e igualmente urgente.
Crises de clima e biodiversidade devem ser tratadas como uma só

“A montanha-russa deste verão de temperaturas extremas, secura, enchentes e incêndios florestais tem sido ruim, mas provavelmente muito melhor do que o que podemos ver no futuro”, explica o Prof. Michael Norton, Diretor do Programa Ambiental da EASAC. “A perda de biodiversidade e as perigosas Mudanças Climáticas potencializam-se mutuamente em suas consequências desastrosas. É um círculo vicioso que não só leva a condições meteorológicas extremas, mas também ao colapso dos sistemas alimentares e ao aumento dos riscos de patógenos perigosos, zoonoses e outros impactos na saúde. ”

A análise ilustra as múltiplas interações de crises: a substituição das florestas tropicais pela agricultura reduz a biodiversidade ao mesmo tempo que libera o carbono armazenado, reduzindo a absorção de carbono na terra e aumentando as emissões de outros gases de efeito estufa (GEE). O aquecimento das temperaturas e as mudanças associadas à precipitação reduzem a produtividade agrícola, bem como deslocam as espécies para fora de sua área habitável, em alguns casos levando-as à extinção. O aquecimento e a acidificação dos oceanos, juntamente com a circulação enfraquecida, reduzem a capacidade dos oceanos de absorver e remover o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, ao mesmo tempo em que muda ou degrada os ecossistemas.
Saia da estrada para nossa própria destruição

Mas os cientistas também veem oportunidades: conservar, gerenciar e restaurar ecossistemas, por exemplo, pode mitigar as mudanças climáticas e permitir a adaptação aos seus impactos, ao mesmo tempo que melhora a biodiversidade. “Esses desafios têm soluções, mas até agora as Convenções sobre Mudança Climática e sobre Biodiversidade, separadamente, não tiveram vontade política para implementá-los, ou os formuladores de políticas tomaram caminhos fáceis sem considerar adequadamente as consequências”, diz Norton “O exemplo clássico é a falha em avaliar adequadamente os impactos climáticos da queima de árvores para eletricidade antes de alocar bilhões em subsídios. As duas reuniões no outono precisam mapear uma saída da estrada atual que leva à nossa própria destruição. ”

Com base no trabalho anterior da EASAC, a análise inclui uma lista de 16 campos de ação em que os governos já deveriam ter feito mais. Eles abrangem mudanças climáticas, o papel da energia de biomassa, emissões de gases de efeito estufa de diferentes matérias-primas de petróleo, políticas para reduzir as emissões em transportes, edifícios e infraestrutura e as interações entre as mudanças climáticas e a saúde humana.
Contar com o sistema baseado no PIB não vai funcionar

Questões sistêmicas, como as barreiras às mudanças transformadoras necessárias para enfrentar a Crise do Clima e da Biodiversidade, também são abordadas. “Contar com o sistema atual para entregar as reduções necessárias não vai funcionar”, diz Norton. “O sistema econômico baseado no PIB, no qual os combustíveis fósseis, alimentos e interesses agrícolas estão elevando os níveis de CO2, desmatamento, desmatamento e pesca excessiva, não é mais adequado se os níveis atmosféricos de gases de efeito estufa devem ser reduzidos em um curto espaço de tempo. período possível. ” Os cientistas deixam claro que os governos precisam apertar o botão de reset. Se a humanidade deseja deter as mudanças climáticas e preservar a biodiversidade de que necessita para sua sobrevivência, deve mudar o sistema econômico para um que recompense e incentive escolhas e comportamentos sustentáveis.
Concentre-se nos pontos de inflexão que desviam a atenção da seriedade das tendências lineares subjacentes

Desde a Cúpula do Clima de Paris em 2015, tem havido muito foco nos pontos de inflexão. Mas, de acordo com a EASAC, tendências catastroficamente perturbadoras também estão ocorrendo como mudanças graduais incrementais. “O foco nos pontos de inflexão cria uma imagem de pontos de retransmissão até os quais as mudanças climáticas podem ser vistas como ‘seguras’. No entanto, não apenas os diferentes pontos de inflexão interagem entre si e aumentam os perigos, mas as tendências lineares subjacentes, como temperatura e umidade, são sérias por si mesmas ”, explica Norton.
Oportunidade para uma ação coordenada, ousada e transformadora

“Como pais e avós, estamos tão apavorados quanto todos os outros com o que vemos por vir. Mas, como cientistas, sabemos que existem maneiras de mitigar o pior e se adaptar. Mas apenas se os governos na Europa e em todo o mundo assumirem a responsabilidade e mostrarem liderança agora ”, disse Lars Walloe, Presidente do Programa Ambiental da EASAC.

Com as agendas políticas intimamente relacionadas da Cúpula do Clima e da Cúpula da Biodiversidade, os negociadores têm a oportunidade de tomar ações coordenadas, ousadas e transformadoras para entregar uma estrutura nova, mais integrada e coerente para lidar com a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas em conjunto. A urgência é tanta que ambos precisam trabalhar juntos agora, tirar proveito das muitas sinergias potenciais entre as mudanças climáticas e as políticas de biodiversidade – como a restauração massiva de ecossistemas – e mudar o curso da humanidade em direção a um futuro sustentável.

EASAC Commentary “Key Messages from European Science Academies for UNFCCC COP26 and CBD COP12”: https://easac.eu/publications/details/key-messages-from-european-science-academies-for-unfccc-cop26-and-cbd-cop15/

References:

EASAC (2013) Trends in extreme weather events in Europe: implications for national and European Union adaptation strategies

EASAC (2015) Ecosystem services, agriculture and neonicotinoids

EASAC (2016) Greenhouse gas footprints of different oil feedstocks

EASAC (2017a) Multi-functionality and sustainability in the European Union’s forests

EASAC (2017b) Valuing dedicated storage in electricity grids

EASAC (2017c) Opportunities and challenges for research on food and nutrition security and agriculture in Europe

EASAC (2018a) Commentary on forest bioenergy and carbon neutrality

EASAC (2018b) Negative emission technologies: what role in meeting Paris Agreement targets?

EASAC (2018c) Opportunities for soil sustainability in Europe

EASAC (2018d) Extreme weather events in Europe. Preparing for climate change adaptation

EASAC (2019a) Forest bioenergy, carbon capture and storage, and carbon dioxide removal: an update

EASAC (2019b) Decarbonisation of Transport: options and challenges

EASAC (2019c) The imperative of climate action to protect human health in Europe

EASAC (2020a) Hydrogen and synthetic fuels

EASAC (2020b) Towards a sustainable future: transformative change and post-COVID-19 priorities

EASAC (2020c) How can science help to guide the European Union’s green recovery after COVID-19?
EASAC (2021a) Decarbonisation of buildings: for climate, health and jobs

EASAC (2021b) Policy briefs to the Scientific Group of the UN Food Systems Summit 2021

EASAC (2021c) A sea of change: Europe’s future in the Atlantic realm

EASAC and FEAM (2021) Decarbonisation of the health sector

Do European Academies’ Science Advisory Council (EASAC), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/08/2021





Autor: European Academies’ Science Advisory Council (EASAC)
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 25/08/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/08/25/crises-de-clima-e-biodiversidade-devem-ser-tratadas-como-uma-so/

Tentativa de abertura da Estrada do Colono ameaça biodiversidade e mais de 1.600 espécies de animais



Tentativa de abertura da Estrada do Colono ameaça biodiversidade e mais de 1.600 espécies de animais
Publicação alerta sobre os impactos se a Estrada do Colono for aberta e como a pressão política está influenciando na aprovação do projeto de lei; animais serão os mais atingidos com a degradação ambiental

A revista britânica Nature, uma das publicações mais respeitadas do mundo, publicou no último dia 17 de agosto, um artigo sobre os impactos da abertura da Estrada do Colono, localizada dentro do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. Com a chamada “Brazilian road proposal threatens famed biodiversity hotspot (Proposta de rodovia brasileira ameaça famoso ponto de biodiversidade – título traduzido), o artigo é assinado pela jornalista Meghie Rodrigues e analisa o Projeto de Lei no. 984/2019.

No artigo, a jornalista descreve que, caso o projeto de lei seja aprovado, será construída uma rodovia na Estrada do Colono, que hoje conta com vegetação nativa (visto de cima, não existe mais a estrada antiga) e conecta cidades ao norte e ao sul, em um trecho de 18 quilômetros, entre os municípios de Serranópolis do Iguaçu e Capanema. A matéria também aborda como a abertura irá impactar diretamente na biodiversidade do parque, que abriga mais de 1.600 espécies de animais, incluindo ameaçados em extinção, como as onças e as antas e diversas espécies de pássaros, além de projetos de pesquisas e ecossistemas preciosos.

A Nature ainda destaca a luta dos ambientalistas e pesquisadores contra a abertura, sob o argumento que trará, além da poluição do ar, do solo, da água e até do som para o parque, também caçadores ilegais, que podem ameaçar os animais, incluindo o tráfico de onças e outros animais silvestres. A jornalista Meghie Rodrigues ouviu fontes locais como Ivan Baptiston, chefe do Parque Nacional do Iguaçu entre 2015 e 2020; Carmel Croukamp Davies, diretora do Parque das Aves; Carlos Araújo, ativista ambiental argentino; e pesquisadores como o biólogo Victor Prasniewski, que fez um estudo sobre o impacto de uma estrada em meio à floresta (poluição do ar, solo, água e sonora), para a reprodução de animais que vivem no entorno.


“O fechamento da estrada é questão que transita em julgado pela justiça brasileira,ou seja, aos olhos da Lei, ela não pode ser reaberta. O PL não passa de manobra política, que não interessa a ninguém, além de meia dúzia de políticos, do ponto de vista ambiental é uma catástrofe e economicamente não traria nenhum benefício a região. Ao contrário, causaria vergonha internacional, afastando os turistas estrangeiros e fazendo o Parque perder o título de Patrimônio Natural da Humanidade. Quem defende o país, não pode deixar isso acontecer”, afirma Angela Kuczach, diretora executiva da rede Pró-UC (Pró Unidade de Conservação da Natureza).


Projeto de Lei teria interesses pessoais para a abertura


A reportagem da Nature também traz que o projeto de lei é patrocinado por Nelsi Coguetto Maria, integrante da Câmara dos Deputados, e argumenta que a mídia local noticiou que sua família potencialmente tem a ganhar com a Estrada do Colono, pois dois de seus filhos são sócios em empresas de construção que poderiam pavimentar a estrada. Um dos argumentos é que o restabelecimento da rodovia seria uma “solução para um problema logístico do Paraná”.


“O escritório de Coguetto Maria não respondeu às perguntas da Nature sobre isso ou sobre as preocupações dos pesquisadores sobre a estrada. Quando a Câmara dos Deputados aprovou a aceleração do projeto de lei, ele argumentou que o Brasil de hoje é ‘responsável’, tem ‘competência e capacidade para construir uma estrada ecologicamente correta’, ressaltando que a estrada existia como um caminho para caminhadas antes mesmo de o parque ser criado”, alerta o texto da Nature. Estudos históricos, no entanto, refutam essa teoria.


Se aprovada, A Lei irá enfraquecer ainda mais a legislação ambiental brasileira


Um ponto importante que o artigo da Nature aborda é o posicionamento do governo brasileiro, que sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro, enfraqueceu a proteção das florestas do país em favor dos setores de mineração, extração de madeira e pecuária. Se o projeto de lei for aprovado, irá enfraquecer ainda mais a legislação ambiental brasileira, além de abrir caminhos para a criação de estradas e rodovias em outros parques e unidades de conversação no país.


Se o projeto for aprovado vira uma lei, que estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação, é o que questiona Neucir Szinwelski, professor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná. “O que acontecer no Parque Nacional do Iguaçu poderá sim acontecer em outras unidades de conservação. Não há no projeto de lei qual limitação a isso e, portanto, a abertura de estradas será baseada apenas na demanda e nos interesses econômicos, pois em termos legais tais procedimentos estão regulamentados. Cabe ressaltar que o projeto foi aprovado com regime de urgência, sem que discussões fossem feitas nas câmaras especiais. Ainda, o que é dito pelo autor do projeto é que após a aprovação é que será discutido o modelo de implantação. Não faz sentido isso. Como podem pensar em aprovar uma lei que não se sabe o que vai estar contido dentro dela”.


Abertura de Estrada do Colono não irá impulsionar o ecoturismo


Sobre os argumentos para a abertura, a matéria da Nature foi enfática ao afirmar que não faz sentido que a rodovia irá potencializar o turismo no Paraná. Para Hélio Secco, Secretário Geral da Rede Brasileira de Especialista em Ecologia de Transportes e Pesquisador colaborador do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto de lei não tem a intenção de atrair o ecoturismo, sendo que o mesmo já é atraído pelos pontos tradicionais do Parque. Para ele, ainda existe o risco de atropelamento da fauna, uma vez que a estrada será para encurtar distâncias e o volume de veículos pode ser uma ameaça para as espécies locais.


“Eu não acredito que o projeto de lei será aprovado. Eu acho que com a pressão organizada pela sociedade civil, institutos de pesquisas e acadêmicos vêm demonstrando por diversos motivos o quão negativo seria esta abertura, que inclusive a própria mídia já vem repercutindo, o que acaba fazendo com que muitos parlamentares tomem uma decisão contrária e evitem se expor neste momento”, comenta o especialista.


Já na visão de Szinwelski, professor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná, o projeto sofrerá grande resistência tanto na Câmara quanto no Senado, isso porque há grande pressão do empresariado nacional e dos investidores internacionais para que o projeto seja retirado de pauta e rejeitado. “Enquanto o mundo está ligando suas atividades à conservação da biodiversidade, a proteção e ampliação de florestas, a reestruturação dos habitats naturais, o Brasil parece ir em sentido contrário, com um projeto de lei que modifica a estrutura do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), e faz isso começando pela maior e mais emblemática unidade de conservação: o Parque Nacional do Iguaçu. O projeto visa, literalmente, partir o parque em dois, e abre precedentes para que isso seja feito em qualquer unidade de conservação”, complementa.


Sobre a Estrada do Colono


O Parque Nacional do Iguaçu é conhecido pelas Cataratas do Iguaçu – uma das maiores do mundo. Fundado em 1939, o Parque contém a maior mancha remanescente de Mata Atlântica no sul do Brasil, rica em vegetais e animais e se estende na costa sudeste do Brasil até a Argentina e o Paraguai. Mas devido ao aceleramento do desmatamento causado pela urbanização e pelas atividades agrícolas e industriais no século XX, a floresta já perdeu 90% da sua cobertura arbórea. Em 1986, ocorreu o primeiro fechamento da Estrada do Colono, que também foi declarado Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas (UNESCO). No mesmo ano, o Ministério Público Federal abriu uma ação civil para fechar a Estrada e, no ano seguinte, uma juíza federal a fechou oficialmente. Em 1997 ocorreu uma reabertura ilegal e, em 2001, a Justiça Federal determinou o fechamento definitivo durante 2 anos. Moradores resistiram a entregar a área e a desocupação foi feita pelo Exército, Polícia Federal e o Ibama.


Com o fechamento, alguns moradores locais tentaram abrir a estrada, alegando dificuldades econômicas e a impossibilidade de viajar com eficiência para a área, mas o argumento econômico não se sustenta mais. “Os danos causados à altamente valorizada Mata Atlântica do parque superariam em muito os ganhos econômicos potenciais para as cidades vizinhas’, dizem eles. Além disso, as espécies protegidas pelo parque são insubstituíveis, acrescentam. O Parque Nacional do Iguaçu é o único local do mundo onde a população de onças está aumentando em vez de diminuir”, cita o texto da Nature.


“Os retrocessos ambientais serão muito severos e o Brasil já deu grandes demonstrações de que não sabe cuidar dos seus recursos naturais e que não sabe tomar decisões ambientais assertivas, ao contrário do que diz o autor do projeto de lei”, finaliza Szinwelski.


Para ler o artigo da Nature na íntegra, clique em https://www.nature.com/articles/d41586-021-02199-x.


Sobre a Rede Pró UC


A Rede Pró-Unidades de Conservação é uma organização não governamental advocacy que busca ampliar sua representatividade e impacto em prol da proteção dos ambientes naturais. A Rede foi fundada em 1998 e atua em todo o território nacional fortalecendo Unidades de Conservação da Natureza juntamente com outras instituições e colaboradores que atuam em defesa das UCs no Brasil. Mais informações, acesse em http://redeprouc.org.br/.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/08/2021







Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 25/08/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/08/25/tentativa-de-abertura-da-estrada-do-colono-ameaca-biodiversidade-e-mais-de-1-600-especies-de-animais/

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O bem-estar humano está relacionado à proteção da biodiversidade e ao clima



O bem-estar humano está relacionado à proteção da biodiversidade e ao clima
Proteger a biodiversidade, evitar mudanças climáticas perigosas e promover uma qualidade de vida aceitável e equitativa para todos são os desafios de três acordos globais

IHU

O artigo a seguir analisa o relatório conjunto IPBES-IPCC co-sponsored workshop report on biodiversity and climate change, da Plataforma Intergovernamental de Política Científica em Serviços Ecossistêmicos (IPBES) e do Painel Intergovernamental sobre Clima Mudança (IPCC), publicado no dia 10/06/2021. O documento foi elaborado pelos 50 maiores especialistas mundiais em biodiversidade e mudanças climáticas, como apontam os autores Danielly de Paiva Magalhães e Paulo M. Buss.

No relatório, destacam-se as conexões da biodiversidade e do clima no bem-estar humano, visando justificar por que as políticas climáticas e as políticas de biodiversidade devem ser consideradas em conjunto para enfrentar o desafio de alcançar uma boa qualidade de vida para todos. “O importante e inédito informe conjunto deixa claro que ignorar essas inter-relações e estabelecer metas e políticas separadas para cada crise (clima, biodiversidade e desenvolvimento sustentável), como vem sendo feito, não trará soluções adequadas para qualquer delas”, escrevem.

O artigo é de Danielly de Paiva, bióloga e doutora em Química Ambiental e Magalhães Paulo M. Buss, doutor em Ciências e diretor do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cris/Fiocruz), publicado por Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz – CCE, 01-07-2021.
Eis o artigo.

Proteger a biodiversidade, evitar mudanças climáticas perigosas e promover uma qualidade de vida aceitável e equitativa para todos são os desafios de três acordos globais: o Plano Estratégico para a Biodiversidade 2011-2020 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB)[1]; o Acordo de Paris para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC)[2]; e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS)[3], respectivamente. Embora cada uma dessas iniciativas tenha objetivos específicos, suas consequências e sucesso estão intimamente ligados – o fracasso em lidar conjuntamente com a dupla crise de mudança climática e declínio da biodiversidade pode comprometer a boa qualidade de vida das pessoas (IPBES, 2019).

A necessidade de considerar as inter-relações dessas três crises foi analisada no recém-lançado relatório conjunto da Plataforma Intergovernamental de Política Científica em Serviços Ecossistêmicos (IPBES) e do Painel Intergovernamental sobre Clima Mudança (IPCC), intitulado IPBES-IPCC co-sponsored workshop report on biodiversity and climate change[4], produzido pelos 50 maiores especialistas mundiais em biodiversidade e mudanças climáticas.

O relatório explora as conexões da biodiversidade e do clima para o bem-estar humano, visando justificar por que as políticas climáticas e as políticas de biodiversidade devem ser consideradas em conjunto para enfrentar o desafio de alcançar uma boa qualidade de vida para todos. O relatório reforça que a ação das atividades humanas, como alterações no uso da terra/mar e a combustão de combustíveis fósseis, são as principais causas diretas da perda de biodiversidade e mudanças climáticas, porque altera a superfície terrestre, a química atmosférica e dos oceanos. Como sabido, o constante aumento da concentração de gases de efeito estufa desde a revolução industrial não somente causa a elevação da temperatura média da Terra, mas também altera os regimes de chuva e aumenta a frequência de eventos climáticos extremos, como enchentes, furacões, tornados, ondas de calor e queimadas. Como exemplo, nos ambientes aquáticos, as altas temperaturas diminuem a concentração de oxigênio e promovem a acidificação do ambiente – essas alterações impactam negativamente a biodiversidade, devido às modificações nas condições ótimas de sobrevivência e perda de habitats. Reciprocamente, biodiversidade tem papel fundamental nos ciclos de carbono, nitrogênio e água, e sua perda exarceba os efeitos das mudanças climáticas e torna ainda mais difícil controlá-los.

Entre os esforços citados pelo relátorio para a preservação da biodiversidade e controle do aquecimento global estão: diminuiçao da queima de combustíveis fósseis e a substituição por energias renováveis, diminuição do desmatamento nos trópicos, conservação de ecossistemas ricos em carbono (ex: manguezais, turfeiras, savanas e pântanos), promoção de agricultura orgânica e silvicultura sustentáveis, e corte de subsídios às atividades económicas prejudiciais ao ambiente.

As mudanças climáticas e a perda de biodiversidade representam ameaças significativas à subsistência humana, afetando a segurança alimentar e a saúde pública. Esses impactos negativos são desproporcionalmente sentidos por populações marginalizadas socialmente, politicamente, geograficamente e/ou economicamente, e aquelas que dependem da exploração de recursos naturais.

Mas qual a relação da temperatura e da biodiversidade com a qualidade de vida humana? A sociedade humana depende dos serviços que a natureza oferece. Portanto, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade representam ameaças significativas à subsistência humana, afetando a segurança alimentar e a saúde pública. As mudanças climáticas também ameaçam os elementos básicos de que todos precisamos para uma boa saúde, como ar limpo, água potável, produção de alimentos e abrigo seguro, e minará décadas de progresso na saúde global. Esses impactos negativos são desproporcionalmente sentidos por populações marginalizadas socialmente, politicamente, geograficamente e/ou economicamente, e aquelas que dependem da exploração de recursos naturais.

A pandemia de Covid-19 nos trouxe evidências concretas sobre as inter-relações da biodiversidade e as mudanças climáticas na saúde humana. A degradação e alteração ambiental, juntamente com o crescimento do comércio de animais selvagens, aproximaram a vida selvagem de animais domésticos e seres humanos, como os morcegos que carregam vírus que podem cruzar as fronteiras das espécies[5]. A mudança climática gerou a perda de habitat que contribui para essa proximidade e também ampliou (por meio de enchentes, ondas de calor, incêndios florestais e insegurança alimentar) o sofrimento dos humanos durante a pandemia pela Covid-19[6].

O importante e inédito informe conjunto deixa claro que ignorar essas inter-relações e estabelecer metas e políticas separadas para cada crise (clima, biodiversidade e desenvolvimento sustentável), como vem sendo feito, não trará soluções adequadas para qualquer delas. As políticas que abordam simultaneamente as sinergias entre a mitigação da perda de biodiversidade e as mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que consideram seus impactos sociais, oferecem a oportunidade de maximizar os cobenefícios e ajudar a atender às aspirações de desenvolvimento de todos. A implementação de soluções bem-sucedidas e transformadoras tem implicações específicas para sua governança conjunta.

Há uma certa urgência para enfrentar esses desafios conjuntamente. Nenhuma das vinte metas de Aichi[7] acordadas para 2020 foram totalmente alcançadas pelos países signatários – apenas 23% estavam alinhadas com as metas do plano. O Acordo de Paris tem a ambição de manter até 2030 o aumento de até 2° C dos níveis pré-industriais, com objetivo de ficar o mais próximo de 1,5° C. No entanto, a temperatura global já aumentou 1,2° C. Outras projeções sugerem que alcançaremos temporariamente 1,5° C, em um dos próximos cinco anos[8] (WMO, 2021). Eventos catastróficos são esperados, se o aumento da temperatura for 1,5° C acima dos níveis pré-industriais, como perda de biodiversidade e perda e degradação de habitat.[9]

Os próximos passos nesses fascinantes e desafiadores espaços globais da questão ambiental são a COP 15 da Biodiversidade (Kunming, China, 11-24 de outubro de 2021) e a COP 26 sobre Mudança Climática (Glasgow, Escócia, 1-12 de novembro de 2021).

De acordo com o último Relatório de Lacuna das Emissões (em inglês Emissions Gap Report 2020), publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente[10], as atuais Contribuições Nacionalmente Determinadas (em inglês Nationally Determined Contributions – NDCs) permanecem seriamente inadequadas para atingir os objetivos climáticos do Acordo de Paris e levariam a um aumento de temperatura de 3,2° C (3,0 – 3,5 ° C) pelo final do século, com probabilidade de 66%. No melhor cenário, se todos as NDCs forem implementados e os países alcançarem suas emissões líquidas zero, as projeções até o final do século são estimadas em 2,5–2,6° C. Essas projeções já são bastante preocupantes para a questão ambiental e, na área da saúde, as estimativas são de que, entre 2030 e 2050, as mudanças climáticas deverão causar aproximadamente 250 mil mortes adicionais por ano, de desnutrição, malária, dengue (e outras doenças transmitidas por vetores), diarreia e estresse por calor[11]. Os custos diretos de danos à saúde (ou seja, excluindo os custos em setores determinantes da saúde, como agricultura, água e saneamento) são estimados em US$ 2 a 4 bilhões/ano, até 2030. No entanto, essas projeções não consideram os efeitos da perda da biodiversidade.

Os próximos passos nesses fascinantes e desafiadores espaços globais da questão ambiental são a COP 15 da Biodiversidade (Kunming, China, 11-24 de outubro de 2021) e a COP 26 sobre Mudança Climática (Glasgow, Escócia, 1-12 de novembro de 2021). A décima quinta reunião da Conferência das Partes (COP 15) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) vai revisar a implementação do Plano Estratégico da CDB para a Biodiversidade 2011-2020. Prevê-se também que será tomada a decisão final sobre a estrutura global de biodiversidade pós-2020[12], assim como decisões sobre tópicos relacionados, incluindo capacitação e mobilização de recursos. Já a COP 26[13], esperada com ansiedade pelos ativistas de todo o mundo, promete uma árdua batalha entre governos, empresas e sociedade civil sobre a ambição com que o mundo tratará de impedir a catástrofe ambiental.


Notas:

[1] Ver: https://www.cbd.int/decision/cop/?id=12268

[2] Ver: https://www.undp.org/content/dam/brazil/docs/ODS/undp-br-ods-ParisAgreement.pdf

[3] Ver: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs

[4] Ver: https://www.ipbes.net/sites/default/files/2021-06/2021_IPCC-IPBES_scientific_outcome_20210612.pdf

[5] Ver: https://findresearcher.sdu.dk:8443/ws/portalfiles/portal/169743119/a205025_web.pdf

[6] Ver: https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs13280-020-01447-0

[7] Buss, PM e Magalhães. DP. As estreitas relações entre a pandemia e a biodiversidade. Acesso: https://www.cee.fiocruz.br/?q=As-estreitas-relacoes-entre-a-pandemia-e-a-biodiversidade

[8] Ver: https://public.wmo.int/en/media/press-release/new-climate-predictions-increase-likelihood-of-temporarily-reaching-15-%C2%B0c-next-5

[9] Ver: https://www.ipcc.ch/sr15/

[10] Ver: https://www.unep.org/emissions-gap-report-2020

[11] Ver: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health

[12] Ver: https://www.cbd.int/article/zero-draft-update-august-2020

[13] Ver: https://2nsbq1gn1rl23zol93eyrccj-wpengine.netdna-ssl.com/wp-content/uploads/2021/06/COP26-Explained_.pdf

(EcoDebate, 08/07/2021) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 08/07/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/07/08/o-bem-estar-humano-esta-relacionado-a-protecao-da-biodiversidade-e-ao-clima/

segunda-feira, 15 de março de 2021

Proteger a biodiversidade é a melhor proteção contra as pandemias


Proteger a biodiversidade é a melhor proteção contra as pandemias

Para evitar o aumento das zoonoses, doenças que são transmitidas de animais para humanos como a Covid-19, devemos lutar contra a erosão da biodiversidade, as mudanças climáticas e a pobreza.

A reportagem é de Naïri Nahapétian, publicada por Alternatives Économiques, 10-03-2021. A tradução é de André Langer.

IHU

“Até a década de 1970, uma nova doença infecciosa surgia a cada quinze anos”, lembra a Organização Mundial da Saúde (OMS). “Hoje são cinco por ano”.

“Estamos entrando em uma era de confinamento crônico, onde sempre teremos uma máscara sobressalente em nossa bolsa?”, pergunta a jornalista investigativa e cineasta Marie-Monique Robin. Uma perspectiva angustiante que ela explora em seu último livro La fabrique des pandémies, La Découverte, 2021 (A fábrica das pandemias), que prenuncia um documentário em preparação com a atriz Juliette Binoche, para o qual lançou uma campanha de crowdfunding.

Como evitar a ocorrência de novas pandemias devastadoras? Preveni-las significa antes de mais nada perceber o risco, que é real. Entre as doenças infecciosas emergentes, 75% são, como a Covid-19, zoonoses, ou seja, doenças transmissíveis de animais para humanos, como a Aids, Nipah, Hendra, influenza H5N1, influenza H1N1, Sars, Mers, Ebola, febre do Vale do Rift, chikungunya, dengue, Zika…
A culpa é do crescimento populacional

Um dos principais fatores que contribuíram para o seu aumento desde o início dos anos 2000 é a modificação dos ecossistemas. Rodolphe Gozlan, diretor de pesquisas do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), explica isso pelo “forte crescimento da população mundial”. “Por causa da expansão das cidades, mas também para aumentar nossos recursos agroalimentares, estamos invadindo cada vez mais os territórios naturais e, em particular, as florestas e as florestas tropicais”, ressalta.

No entanto, lembra o cientista, os ecossistemas tropicais são “ricos em diversidade e apresentam equilíbrios frágeis entre diferentes animais e habitats”. Os vírus e outros patógenos estão presentes “furtivamente” por um efeito de “diluição”. “Quando um macaco ou um morcego carrega um vírus, ele não se transmite rapidamente em um contexto de alta diversidade genética, pois nem todas as espécies são bons reservatórios de patógenos”, observa. Mas se a diversidade de animais for reduzida, então podem surgir hospedeiros particularmente transmissores.

Ele cita o exemplo da esquistossomose, cujas larvas são transmitidas aos humanos por caramujos de água doce: “sua presença é reduzida onde a diversidade de caramujos é alta”. Pelo contrário, o desaparecimento de predadores (lobos, linces, coiotes, raposas e aves de rapina) leva à proliferação de camundongos de patas brancas que são portadores de carrapatos e, portanto, transmitem a Doença de Lyme.

Além disso, o desmatamento nos trópicos também cria rotas para a propagação de vírus que antes estavam em áreas de difícil acesso.
A criação intensiva e industrial aumenta os riscos

Ecologista da saúde no Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agropecuária para o Desenvolvimento (CIRAD), Serge Morand considera que o aumento do número de animais de criação também é um fator chave para o surgimento de zoonoses. Assim, lembra ele, passamos de 5 bilhões de frangos criados em 1960 para 25 bilhões hoje, sem contar as galinhas poedeiras.

Como aponta Rodolphe Gozlan, a criação intensiva em zonas tropicais contribui duplamente para o desmatamento, pois requer terras tanto para abrigar os animais quanto para cultivar os alimentos para alimentá-los, como a soja para o gado.

Além disso, ao selecionar linhagens com alto crescimento, há uma tendência de reduzir a diversidade genética para garantir a produção máxima. Se esses animais de fazenda entrarem em contato com hospedeiros selvagens portadores de vírus aos quais são suscetíveis, eles podem se tornar “bioincubadoras importantes”. Principalmente porque estão constantemente estressados pelas condições de vida, portanto imunodeficientes, e confinados muito próximos uns dos outros.

A pecuária industrial também está envolvida no surgimento de pandemias devido à especialização dos setores. “Nenhuma fazenda produz um animal de A a Z. Existem vários locais de produção com uma transição de animais”, observa a jornalista Lucile Leclair, autora de Pandémies, une production industrielle, Seuil, 2020 (Pandemias, uma produção industrial). Para o foie gras, um pato nasce em uma fazenda, é criado em outra e é alimentado à força em outro lugar, antes de ser abatido em outro local. “Isso promove a disseminação de vírus”, observa.
Biossegurança de dois gumes

“A concentração de animais na criação intensiva promove a troca de patógenos”, reconhece Jean-Luc Angot, presidente da Academia Veterinária da França. No entanto, acredita que estes sistemas fechados, construídos ou cercados, “facilitam a aplicação da ‘biossegurança’, que consiste em controlar as entradas e as saídas, a hidrometria e a ventilação, assim evitam qualquer contato com a fauna selvagem”.

Ele cita o exemplo da peste suína africana que recentemente assolou a Bélgica, transportada por javalis. “Graças a uma cerca construída em ambos os lados da fronteira, ela não se propagou para a França”, observa.

A biossegurança é, no entanto, “uma ilusão”, avalia Serge Morand, da Cirad. Segundo ele, promove a industrialização e a concentração dos animais, aumentando sua densidade. Ela leva, acrescenta, ao desaparecimento das raças locais.

É, acrescenta Lucile Leclair, “um remédio e um veneno”, já que ela incentiva a padronização da produção de animais. Obrigatória para as granjas de aves e suínos, em breve será estendida a todos os animais de criação, mesmo que a Confederação de Agricultores tenha conseguido em 2018 que uma versão “light” de biossegurança se aplique a granjas com menos de 3.200 aves.
A mudança climática nos enfraquece

Seria a ecologia o melhor remédio contra o surgimento de pandemias? A análise do efeito das mudanças climáticas também mostra isso. Por exemplo, o fato de que em algumas regiões as temperaturas mínimas noturnas estão subindo permite que os vírus se desloquem para novas zonas, diz Rodolphe Gozlan do IRD.

O aquecimento também pode ter efeitos indiretos através de inundações que deslocam roedores e vetores de agentes infecciosos. Por fim, acrescenta Serge Morand, isso cria novos nichos ambientais favoráveis aos mosquitos. O mosquito tigre, que gosta de altas temperaturas, instalou-se no norte do Mediterrâneo. Na África, a malária está ganhando novos terrenos.

Neste contexto, é ainda mais essencial prevenir a ocorrência de futuras pandemias, pois a vacinação tem os seus limites. As vacinas sob certas condições podem criar resistência “ao selecionar certas variantes”, observa Rodolphe Gozlan. “Devemos evitar essas corridas intermináveis de vacinas imperfeitas”, acrescenta Serge Morand.

“As vacinas são obviamente necessárias, comenta Marie-Monique Robin, mas não poderíamos imaginar que parte do dinheiro que damos às empresas farmacêuticas fosse destinado à luta contra o desmatamento e à luta contra a pobreza, que cria uma forte pressão demográfica?”.

Para Rodolphe Gozlan, é fundamental ajudar os países do Sul a se desenvolverem, o que terá reflexos demográficos. Marie-Monique Robin não vê outra saída: “Temos que rever nossa relação com a natureza e o modelo econômico dominante”.

(EcoDebate, 08/03/2021) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 15/03/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/03/15/proteger-a-biodiversidade-e-a-melhor-protecao-contra-as-pandemias/

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Projeto de Educação Digital Inclusiva oferecerá conteúdo inédito sobre biodiversidade

O agravamento da crise ecológica está diretamente relacionado a outras crises, sobretudo a da saúde humana, como demonstrou a pandemia da Covid-19. Além de estabelecer restrições ao movimento de pessoas e de gerar uma série de consequências sociais, econômicas e de saúde no Brasil e no mundo, a pandemia revelou a importância do conhecimento científico sobre os ecossistemas e a biodiversidade, colocando em evidência a necessidade da conservação dos ambientes naturais para o futuro da humanidade.

Com esta justificativa, a bióloga Luciana Alvarenga obteve apoio da FAPERJ para projeto na Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), contemplado no edital Educação Digital Inclusiva – Apoio Instituições Públicas de Educação Superior. Desde 1998 ela se dedica a pesquisas em biologia e a partir de 2000 passou a contar com apoio regular da FAPERJ, como bolsista de mestrado, com dissertação sobre as tradicionais paneleiras de barro de Goiabeiras, bairro de Vitória, capital do Espírito Santo, e no doutorado em Artes Visuais. O uso da imagem sempre esteve presente nas suas pesquisas, mas foi através da sua atuação na sala de aula como docente que percebeu a carência de material ilustrativo que apoie os cursos de Biologia, em especial para os estudantes que não se dedicam à pesquisa. Sua tese discorreu sobre a relação da natureza com as manifestações culturais da comunidade de Itaúnas, distrito do município de Conceição da Barra (ES), que na década de 1940 foi soterrada pela areia movida pelo vento.






A pesquisadora ressalta pesquisas que apontam que ¾ dos patógenos emergentes que infectam os seres humanos surgiram de animais que, em geral, vivem em habitats que sofreram processos de degradação ambiental, em especial decorrentes de desmatamento e uso inadequado dos recursos naturais. “A existência de ambientes naturais saudáveis é condição fundamental para a manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais para a qualidade de vida e a saúde humana”, garante a pesquisadora. Idealizadora da série “Parques do Brasil”, sobre essas Unidades de Conservação Federais, em seu novo projeto Luciana deverá apresentar ao final de 18 meses materiais e conteúdos inéditos no País, observados e filmados com equipamentos de alta resolução.






Ceratium sp, em amostra coletada na Baía da Guanabara. Este fitoplâncton é um bom indicador
biológico, responsável pela bioluminescência no mar (Foto: Paulo Iiboshi Hargreaves)


Um dos colaboradores do projeto é o Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, Paulo Salomon, coordenador do Laboratório de Biologia Marinha do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde serão produzidas imagens microscópicas inéditas no País. Luciana também está comemorando o salto de qualidade imagética, que será obtido com a aquisição de câmeras 4K. “Ecossistemas, por exemplo, é uma disciplina em que o uso da imagem em movimento pode propiciar melhores entendimentos sobre a dinâmica e as características de cada ambiente. A transição da vegetação da Caatinga para a Mata Atlântica, por exemplo, pode ser mais bem percebida quando observada do alto, com o uso de drone”, explica Luciana.

A equipe do projeto conta ainda com a colaboração da pesquisadora Lorelai Brilhante Kury, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, que irá cuidar do conteúdo sobre as pesquisas em história das ciências nos séculos XVIII e XIX, abordando em particular temas relacionados à história natural, natureza e medicina. Marcelo Lopes Rheingantz, da UFRJ, será responsável pelo conteúdo sobre Biologia da Conservação e fragmentação dos biomas, e mostrará o projeto de reintrodução de espécies nativas da Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro, entre elas o jabuti e os bugios. O projeto conta ainda com a participação dos biólogos Arthur Lima, do Laboratório de Biologia Marinha da UFRJ; Maron Galliez, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (campus Rio de Janeiro); e Jorge Luiz do Nascimento, do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio).


Dois exemplares de Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), no Parque Nacional das Emas (GO)


Essa proposta nasceu no âmbito do Convênio de Cooperação entre a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e o ICMBio. Seu principal objetivo é o desenvolvimento de produções audiovisuais inéditas e originais, de diferentes formatos, a fim de promover a popularização do conhecimento científico sobre a biodiversidade, enfatizando a relação do meio ambiente, a saúde e a qualidade de vida. “Tais estudos são fundamentais para o desenvolvimento da ciência e promoção do conhecimento científico, além de nortearem ações que garantam a manutenção dos ecossistemas e o equilíbrio ecológico e biogeoquímico, a manutenção de polinizadores para a agricultura, a variabilidade genética de espécies-chaves, a qualidade e a quantidade de recursos pesqueiros, além de um rico e inesgotável banco genético para o desenvolvimento da ciência, incluindo as ciências da saúde, entre outros serviços essenciais”, explica Luciana.

Segundo a pesquisadora, em tempos de pandemia, o uso da imagem em processos educativos se torna fundamental. O papel da produção audiovisual no contexto da educação e no acesso à informação por meios digitais e virtuais se torna essencial e novas práticas de ensino-aprendizagem são de extrema importância. “O recurso audiovisual é um excelente instrumento, tanto para o registro de dados pesquisáveis, quanto para a organização, interpretação e divulgação de conhecimentos científicos”, garante Luciana. Segundo ela, o projeto pretende estabelecer um processo contínuo de produção audiovisual destinado a fomentar e apoiar atividades de ensino-aprendizagem relacionadas à biodiversidade brasileira, em diferentes cursos de graduação e de pós-graduação.


Com o projeto, Luciana Alvarenga pretende suprir a carência de material ilustrativo que apoie os cursos de Biologia


A primeira etapa da proposta inclui a estruturação de um laboratório de produção e criação de conteúdos audiovisuais sobre a biodiversidade brasileira e a produção de uma série de vídeos apresentando conceitos, experimentos e metodologias sobre Ecossistemas terrestres e marinhos, Biologia da Conservação, Serviços Ecossistêmicos, Mudanças climáticas, História das Ciências, Saúde e Meio Ambiente, entre outras áreas correlatas. O projeto disponibilizará os conteúdos audiovisuais, visuais e de áudio em diferentes meios de comunicação como web, TV, rádio, aplicativos para celulares, entre outros. Dentre os produtos a serem entregues estão: uma sériede TV com seis episódios de meia hora de duração cada; 36 vídeos de cinco minutos; 50 vídeo-aulas, podcasts e mini ebooks. A série será exibida através da Rede Nacional de Comunicação Pública, os vídeos e todo o material produzido pelo projeto ficarão disponíveis no site Curta Biodiversidade (www.curtabiodiversidade.fiocruz.br). Através desse portal será realizado um processo contínuo de interação com pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação, desenvolvendo novas práticas digitais e inclusivas de ensino-aprendizagem. A série de TV será legendada em outros idiomas, visando a sua divulgação e exibição fora do País.







Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 25/02/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4169.2.7

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Biodiversidade: a peça mais importante para um futuro sustentável, artigo de Malu Nunes



Por sua capacidade de mover-se por todas as direções do tabuleiro, a rainha (também conhecida como dama) é considerada a peça mais importante do xadrez, capaz de determinar a vitória ou a derrota de um jogador. Quanto maior a aptidão de um indivíduo às mudanças de cenário, maiores suas chances de êxito. No planeta Terra, também podemos identificar um fator capaz de definir nosso sucesso enquanto espécie: fora do tabuleiro, a biodiversidade é a rainha.

Não por acaso, neste ano o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) elegeu o tema para as comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente. A data é fixada em 05 de junho, mas as celebrações se estendem pelo mundo durante todo o mês. A ideia é enfatizar que “somos completamente dependentes de ecossistemas saudáveis e vibrantes para nossa saúde, água, alimentos, medicamentos, roupas, combustível, abrigo e energia”.

Diante do contexto de mudanças climáticas e dos efeitos da pandemia da Covid-19, precisamos de um olhar mais atento para a nossa relação com todas as formas de vida. Já não passa despercebido o fato de que, ao combater a degradação e incentivar a conservação da natureza e de toda vida que nela habita, fortalece-se uma rede orgânica de cooperação. Sem esse esforço coletivo, muitas das tecnologias que hoje se conhece, não existiriam.

Ao pensarmos em atividades econômicas, é impossível ignorar o papel que a biodiversidade exerce sobre cada uma delas. O próprio agronegócio, por exemplo. Não é possível desenvolver uma indústria agropecuária sem a diversidade genética presente nos microrganismos que garantem a qualidade do solo e os nutrientes necessários para o crescimento das culturas e, na ponta final, a geração de alimentos.

Além disso, sem o importante trabalho de espécies polinizadoras, como abelhas, borboletas ou aves, as propriedades rurais produziriam menos e com menor qualidade. E o que dizer da pesquisa científica, da produção de medicamentos, que busca na natureza os princípios ativos das plantas? Quanto do setor turístico depende dos ambientes naturais e das diversas espécies que promovem o ciclo da vida?

A ciência tem um papel fundamental nessa integração entre economia e biodiversidade. Mesmo diante da riqueza da diversidade de vida na Terra, estima-se que, com todos os estudos e pesquisas realizados pela humanidade, 86% das espécies terrestres e 91% das que habitam os oceanos, continuam desconhecidas pelo homem.

E o que acontece quando perdemos o que ainda não conhecemos? Um relatório divulgado este ano pelo Fórum Econômico Mundial, colocou a perda da biodiversidade como o terceiro risco de maior impacto para o planeta nos próximos 10 anos. O mesmo documento estima que os bens e serviços produzidos pelos ecossistemas somem um total de US$33 trilhões/ano – praticamente o Produto Interno Bruto da China e dos Estados Unidos, combinados.

Com a maior diversidade biológica do mundo, e organizações que clamam por políticas de conservação, o Brasil poderia ser referência nessa empreitada. Todas as nações precisam compreender que proteger a biodiversidade é proteger as liberdades individuais e coletivas das pessoas, promovendo a geração de riquezas e a qualidade de vida para a população. Quanto maior a adesão dos governos na construção de políticas públicas que tenham a biodiversidade como peça importante, maiores as nossas chances de vitória.

* Malu Nunes é diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 29/06/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/06/29/biodiversidade-a-peca-mais-importante-para-um-futuro-sustentavel-artigo-de-malu-nunes/

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Efeito dominó da extinção de espécies também ameaça a biodiversidade

As dependências mútuas de muitas espécies de plantas e seus polinizadores significam que os efeitos negativos das mudanças climáticas são exacerbados.

Como mostram os pesquisadores da UZH, o número total de espécies ameaçadas de extinção é, portanto, consideravelmente maior do que o previsto em modelos anteriores.



Parte de uma rede gigante de dependências mútuas: as plantas precisam de insetos para dispersar seu pólen e, por sua vez, os insetos dependem das plantas para se alimentarem. (Imagem: istock.com/KenanOlgun)


A mudança climática global está ameaçando a biodiversidade. Para prever o destino das espécies, os ecologistas usam modelos climáticos que consideram espécies individuais isoladamente. Esse tipo de modelo, entretanto, ignora o fato de que as espécies fazem parte de uma rede gigante de dependências mútuas: por exemplo, as plantas precisam de insetos para dispersar seu pólen e, por sua vez, os insetos dependem das plantas para se alimentarem.


Sete redes de polinização na Europa investigadas


Esses tipos de interações mutuamente benéficas têm sido muito importantes na geração da diversidade da vida na Terra. Mas a interação também tem um efeito negativo quando a extinção de uma espécie faz com que outras espécies dependentes dela também morram, um efeito que é chamado de co-extinção. Biólogos evolucionistas da Universidade de Zurique, juntamente com ecologistas da Espanha, Grã-Bretanha e Chile, já quantificaram o impacto de uma mudança climática na biodiversidade quando essas dependências mútuas entre as espécies são levadas em conta. Para esse fim, a equipe de pesquisadores analisou as redes entre plantas com flores e seus insetos polinizadores em sete diferentes regiões da Europa.


Ameaça particular à biodiversidade nas regiões mediterrânicas


Os autores também observaram que o papel das co-extinções no aumento do número de espécies erradicadas poderia ser particularmente alto nas comunidades mediterrâneas. Como exemplo, em uma comunidade na Grécia, o número total de espécies de plantas com previsão de desaparecer localmente até 2080 pode ser tão alto quanto entre duas e três vezes a quantidade esperada quando se considera espécies isoladas.


Os pesquisadores apontam duas razões para isso: primeiro, as regiões do Mediterrâneo foram mais fortemente afetadas pela mudança climática do que a Europa central e do norte. Em segundo lugar, as regiões do sul da Europa abrigam espécies com faixas de distribuição mais estreitas, o que as torna mais suscetíveis à extinção do que aquelas amplamente distribuídas.


Referência:

Jordi Bascompte, María B. García, Raúl Ortega, Enrico L. Rezende, and Samuel Pironon. Mutualistic interactions reshuffle the effects of climate change on plants across the tree of life. Scientific Advances. 15 May 2019. DOI: 10.1126/sciadv.aav2539

https://advances.sciencemag.org/content/5/5/eaav2539

Fonte: University of Zurich, com tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2019






Autor: Henrique CortezHenrique Cortez
Fonte: University of Zurich
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 31/05/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/06/03/efeito-domino-da-extincao-de-especies-tambem-ameaca-a-biodiversidade/

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Biodiversidade do planeta avança em direção à crise de extinção – 1 milhão de espécies em risco

A diversidade de vida em nosso planeta está se deteriorando muito mais rapidamente do que se pensava anteriormente, com até 1 milhão de espécies ameaçadas de extinção, muitas das quais poderiam se perder “dentro de décadas”, conclui uma nova avaliação científica divulgada segunda-feira em Paris.

Aplicação de agrotóxicos. Foto: Shutterstock


Por Andrew Freedman*, Axios


Por que é importante: O relatório, da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), descobriu que fatores como mudança no uso da terra, sobrepesca, poluição, mudança climática e crescimento populacional estão levando a natureza à beira do abismo. Somente a “mudança transformacional” na maneira como a sociedade opera pode nos colocar de volta no caminho para atingir as metas globais de desenvolvimento sustentável, que quase todos os países da Terra se comprometeram a realizar, conclui o relatório.
Mostre menos


O quadro geral: as conclusões do IPBES chegam a ser o primeiro relatório global sobre o estado da natureza e visam fazer com que formuladores de políticas, ativistas e outros coloquem a perda de biodiversidade em uma posição mais alta na lista de prioridades globais.
A biodiversidade, que é a diversidade dentro das espécies, entre as espécies e os ecossistemas, está declinando no ritmo mais rápido da história humana, segundo o relatório.
Embora muitas das descobertas do relatório sejam sombrias, elas vêm com um pouco de esperança: ainda há tempo para evitar o futuro que ele projeta. Por exemplo, quase 100 grupos em todo o mundo estão trabalhando para designar 30% da superfície da Terra para proteção até 2030 e 50% até 2050, em um esforço para evitar a extinção de muitas espécies marinhas.

Pelos números:
8 milhões: Número total estimado de espécies de plantas e animais na Terra (inclui insetos).
Até 1 milhão: Número total de espécies ameaçadas de extinção.
Dezenas a centenas de vezes: “A medida em que a atual taxa global de extinção de espécies é maior em comparação com a média dos últimos 10 milhões de anos”. Esta taxa está acelerando, o relatório encontra.
40%: espécies de anfíbios ameaçadas de extinção.
25%: “Proporção média de espécies ameaçadas de extinção nos grupos terrestres, de água doce e vertebrados marinhos, invertebrados e plantas que foram estudadas com detalhes suficientes.”
145: Número de autores de relatórios de 50 países nos últimos 3 anos.
310: Contribuindo autores para o relatório.
15.000: fontes científicas, governamentais e indígenas que entraram neste relatório.
130: Governos membros do IPBES, incluindo os Estados Unidos.

O que eles estão dizendo?
“Estamos erodindo as próprias fundações de nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo”, disse Robert Watson, presidente da avaliação do IPBES, em um comunicado. “O relatório também nos diz que não é tarde demais para fazer a diferença, mas apenas se começarmos agora em todos os níveis, do local ao global”.
“A rede essencial e interconectada da vida na Terra está ficando menor e cada vez mais desgastada”, disse o co-presidente do estudo e biólogo Josef Settele, em um comunicado.

Detalhes: O relatório recomenda uma série de mudanças em grande escala na forma como administramos nossas terras e mares, e afirma que a mudança transformadora por si só pode colocar o mundo em um curso mais sustentável até 2050.

Segundo Watson, que trabalhou como consultor científico para os governos dos EUA e do Reino Unido e presidiu o painel climático da ONU, o relatório define mudança transformadora como: “Uma reorganização fundamental em todo o sistema entre fatores tecnológicos, econômicos e sociais, incluindo paradigmas”. , objetivos e valores “.

Seja esperto: este relatório provavelmente será descartado por alguns como apenas outro em uma longa linha de terríveis previsões ambientais. Mas seu pedido de mudança sistêmica, ao invés de avanços incrementais, provavelmente dará um impulso aos movimentos ativistas que agora ganham força em todo o mundo, particularmente em torno da mudança climática.

Um desses grupos, que é principalmente ativo na Europa, é apropriadamente chamado para essa tarefa: Rebelião da Extinção .



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/05/2019




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 06/05/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/05/06/biodiversidade-do-planeta-avanca-em-direcao-a-crise-de-extincao-1-milhao-de-especies-em-risco/

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Relatório da FAO alerta que desaparecimento da biodiversidade ameaça produção de alimentos

A expansão de atividades produtivas insustentáveis, como a agropecuária intensiva, é uma das causas do desaparecimento da biodiversidade no mundo, o que por sua vez poderá comprometer a produção de alimentos e o próprio desempenho do setor agrícola no futuro.

A conclusão é de relatório divulgado nesta sexta-feira (22) pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

ONU



Abelhas podem visitar cerca de 7 mil flores por dia. Foto: PEXELS

A expansão de atividades produtivas insustentáveis, como a agropecuária intensiva, é uma das causas do desaparecimento da biodiversidade no mundo, o que por sua vez poderá comprometer a produção de alimentos e o próprio desempenho do setor agrícola no futuro. A conclusão é de relatório divulgado na sexta-feira (22) pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A pesquisa é a primeira da agência da ONU que avalia de forma ampla a relação entre a variedade de organismos vivos no mundo e a produção de comida.

Com a análise, a FAO espera lançar luz sobre os perigos da má conservação da chamada biodiversidade para a alimentação e a agricultura — todas as espécies que apoiam os sistemas alimentares, incluindo plantas e animais, silvestres e domesticados, que fornecem alimento, ração, combustível, fibra e também serviços ecossistêmicos para o ser humano.

Com informações de 91 países, o relatório aponta para o uso de um número restrito de espécies no cultivo e produção diretos de alimentos — por exemplo, das cerca de 6 mil espécies de plantas cultivadas para alimentação, menos de 200 contribuem substancialmente para a produção global de alimentos e apenas nove respondem por 66% da produção agrícola total.

Já a produção mundial de gado é baseada em cerca de 40 espécies, com apenas algumas delas fornecendo a maior parte da carne, leite e ovos consumidos pelas pessoas. Das 7.745 raças de gado locais registradas globalmente, 26% estão em risco de extinção.

A expansão insustentável de práticas produtivas associadas a essas espécies agrava a dependência do ser humano de um conjunto restrito de plantas e animais para se alimentar, ao mesmo tempo em que gera passivos ambientais capazes tanto de esgotar os recursos naturais utilizados nessas cadeias de produção, como também de extinguir outras espécies.

Países relataram à FAO que 24% das cerca de 4 mil espécies de alimentos silvestres — principalmente plantas, peixes e mamíferos — estão tendo queda vertiginosa. Mas a proporção de alimentos silvestres em declínio deve ser provavelmente ainda maior, já que o estado de mais da metade das espécies de alimentos silvestres relatados é desconhecido.

A perda da biodiversidade para alimentos e agricultura, segundo informado pela maioria dos países, está associada a mudanças no uso e manejo da terra e da água, seguidas pela poluição, super-exploração e exploração excessiva, mudanças climáticas, crescimento populacional e urbanização.

Na Gâmbia, as perdas maciças de alimentos silvestres forçaram as comunidades a recorrer a alternativas, muitas vezes produzidas industrialmente, para complementar suas dietas. Já no Peru, as florestas amazônicas devem sofrer com a “savanização” associada às mudanças climáticas, com impactos negativos na oferta de alimentos silvestres.

A FAO lembra ainda que quase um terço das unidades populacionais de peixes do mundo são consideradas super-exploradas atualmente. Mais de metade delas já atingiram o seu limite sustentável.

O maior número de espécies de alimentos silvestres com população em declínio aparece nos países da América Latina e Caribe, acompanhados por nações da Ásia-Pacífico e da África. A FAO previne, porém, que poderia ser, no entanto, um resultado de espécies de alimentos silvestres sendo mais estudados e/ou relatados nesses países, do que em outros.
O que são serviços ecossistêmicos e biodiversidade associada?

A FAO também analisa o estado da biodiversidade associada, isto é, de espécies de seres vivos que não chegam à mesa do consumidor, mas que fornecem serviços essenciais para a alimentação e a agricultura — os chamados serviços ecossistêmicos. É o caso, por exemplo, dos polinizadores, que fazem parte do equilíbrio ecológico por trás da reprodução de espécies vegetais. Abelhas, borboletas, morcegos e pássaros selvagens são alguns exemplos de polinizadores.

O relatório lembra que, no Brasil, das 1.173 espécies da fauna classificadas como ameaçadas de extinção, 188 podem ser consideradas polinizadoras. Entre elas, estão 85 variedades de aves, 63 espécies de borboletas e maripostas, 29 de besouros, sete de morcegos e quatro de abelhas.

A pesquisa FAO cita estudo que mostrou que a espécie de abelha Melipona fasciculata, por exemplo, é uma eficiente polinizadora da berinjela. Já a M. quadrifasciata
anthidioides está associada a aumentos na produção de sementes e frutas nos cultivos de maçã, quando os pomares contam com a presença de colmeias.

A biodiversidade associada inclui ainda insetos, manguezais, corais, ervas marinhas, minhocas, fungos, bactérias e até vírus que mantêm os solos férteis, purificam a água e o ar, mantêm peixes e árvores saudáveis ​​e combatem pragas e doenças das colheitas e do gado. Outra pesquisa lembrada pela FAO sobre o Brasil aponta que o nucleopoliedrovírus é usado para controlar populações de lagartas em plantações de soja.

Entre as causas por trás da perda desse tipo de biodiversidade, estão principalmente as alterações e destruições dos habitats, mas também fatores como a caça e a super-exploração na África e mudanças no uso da terra e uma agricultura mais intensificada na Europa e Ásia Central. Na América Latina e Caribe, os perigos incluem pragas, doenças e espécies invasoras, além, também, da super-exploração dos recursos naturais.

“A biodiversidade é fundamental para proteger a segurança alimentar global, sustentar dietas saudáveis ​​e nutritivas, melhorar os meios de vida rurais e a resiliência das pessoas e das comunidades. Precisamos usar a biodiversidade de maneira sustentável, para melhor responder aos crescentes desafios das mudanças climáticas e produzir alimentos de uma maneira que não agrida nosso meio ambiente ”, defende o chefe da FAO, José Graziano da Silva.

“Menos biodiversidade significa que plantas e animais são mais vulneráveis ​​a pragas e a doenças. Com a dependência de cada vez menos espécies para se alimentar, a crescente perda de biodiversidade para alimentos e agricultura coloca a segurança alimentar e a nutrição em risco.”
Pauta da biodiversidade ganha espaço, mas lacunas persistem

O relatório aponta para um interesse crescente em práticas e abordagens favoráveis ​​à biodiversidade — 80% dos 91 países indicaram à FAO que usam uma ou mais abordagens que favorecem a manutenção da riqueza natural de espécies.

Entre essas estratégias, estão práticas de agricultura orgânica, manejo integrado de pragas, agricultura de conservação, gestão sustentável do solo e da floresta, combinação da agricultura com a silvicultura, práticas de diversificação na aquicultura, restauração de pescas e ecossistemas.

A FAO também vê um aumento global de esforços de conservação locais, como a instituição de áreas protegidas e políticas para a gestão de fazendas. Outras iniciativas elogiadas pela agência incluem a criação de bancos de genes, jardins zoológicos e botânicos.

Fazendeiros californianos, por exemplo, permitem que seus campos de arroz inundem no inverno em vez de queimá-los após o crescimento da estação. Isso proporciona 111 mil hectares de terras úmidas e espaço aberto para 230 espécies de aves, muitas delas em risco de extinção. Como resultado, muitas espécies começaram a aumentar em número. A quantidade de patos duplicou.

Mas a FAO afirma que os níveis de cobertura desses programas e de proteção da biodiversidade são muitas vezes inadequados.

Zonas florestais designadas primariamente com o objetivo de conservar a biodiversidade representam 13% da área de florestas do mundo — o equivalente a 524 milhões de hectares. As maiores zonas do tipo são encontradas nos Estados Unidos e Brasil. Desde 1990, essas regiões tiveram expansão de 150 milhões de hectares, mas o crescimento diminuiu no período 2010-2015. Nesse quinquênio, a África, Ásia e América do Sul relataram, cada uma, um aumento de cerca de 1 milhão de hectares em áreas designadas para a conservação da biodiversidade. Europa, Américas do Norte e Central e Oceania notificaram, juntas, um crescimento de 600 mil hectares.

A FAO ressalta ainda que 17% da cobertura florestal do mundo está localizada em áreas legalmente protegidas — o que equivale a 651 milhões de hectares. A América do Sul tem a maior proporção de florestas protegidas (34%) do planeta, principalmente por causa das contribuições do Brasil, onde 42% das florestas está localizada dentro de áreas protegidas.

De acordo com a agência da ONU, a maioria dos países implementou estruturas legais, políticas e instituições para o uso sustentável e a conservação da biodiversidade, mas estas são, muitas vezes, inadequadas ou insuficientes. Na avaliação do organismo, é necessário melhorar a colaboração entre os políticos, as organizações de produtores, os consumidores, o setor privado e as organizações da sociedade civil nos setores da alimentação, da agricultura e do meio ambiente.

A FAO também pede mais esforços para ampliar o conhecimento sobre o papel que a biodiversidade desempenha na produção de alimentos e na agricultura. Muitas lacunas de informação permanecem – particularmente para espécies associadas à biodiversidade. Muitas dessas espécies nunca foram identificadas e descritas, especialmente no caso dos invertebrados e microrganismos. Mais de 99% das bactérias e espécies protistas permanecem desconhecidas.

O relatório também destaca o papel que o público em geral pode desempenhar na redução das pressões sobre a biodiversidade. Os consumidores podem optar por produtos cultivados de forma sustentável, comprar em mercados agrícolas ou boicotar alimentos considerados insustentáveis. Em vários países, “cientistas cidadãos” já têm um papel importante no monitoramento da biodiversidade para os alimentos e a agricultura.

Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/02/2019



Autor: ONU Brasil
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 25/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/25/relatorio-da-fao-alerta-que-desaparecimento-da-biodiversidade-ameaca-producao-de-alimentos/