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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Queimadas na Amazônia intensificam


Área degradada sendo queimada em polígono de desmatamento recente, identificado pelo Deter 2020 e 2021 e Prodes 2019 e 2020, em Porto Velho, Rondônia. Foto: Greenpeace Brasil
Queimadas na Amazônia intensificam
A alta dos focos de calor registrada confirma o 3° pior mês de agosto dos últimos 11 anos e comprova que a prioridade do governo atual nunca foi proteger o meio ambiente

Dados divulgados hoje pelo sistema de monitoramento do INPE mostram que, neste mês de agosto, o fogo na Amazônia registrou o número alarmante de 28.060 focos de calor. É o terceiro maior índice para o mês desde 2010, perdendo apenas para 2019 e 2020, sendo que todos esses anos foram marcados pelo governo Bolsonaro e sua política antiambiental. A alta segue, mesmo com o Decreto nº 10.735 em vigor desde 29 de junho, que proíbe o uso do fogo, portanto todas as queimadas registradas em agosto são ilegais.

“Desde 2019, a quantidade de focos de calor registrada em agosto tem atingido patamares absurdos. É como se o governo tivesse criado um “padrão Bolsonaro” de destruição, onde os focos de calor e desmatamento são bem superiores em comparação ao período anterior à gestão de Bolsonaro. Tamanha destruição é resultado de uma visão retrógrada de desenvolvimento que não conversa ou beneficia a maioria dos brasileiros, além de seguir na direção contrária dos esforços para conter a emergência climática”, declara Cristiane Mazzetti, Gestora Ambiental do Greenpeace.

O estado do Amazonas, pela primeira vez no mês de agosto desde ao menos o ano 2000, concentrou o maior número de focos, foram 8.588, 30% do total, seguido do Pará (28%) e de Rondônia (15%). Os números refletem a preocupante escalada do desmatamento na região do sul do Amazonas, que já vinha sendo identificada pelos sistemas de monitoramento.

“Estamos vivendo uma crise na saúde e uma crise climática, ambas agravadas com os recordes de queimadas e desmatamento. Mas ao invés de combater o crime ambiental e garantir o bem-estar dos mais impactados pelos incêndios florestais, o governo federal opta pelo enfraquecimento deliberado das políticas de proteção ambiental, enquanto o Congresso Nacional discute projetos que ameaçam as terras indígenas e que vão estimular mais grilagem, desmatamento e queimadas – PL 2633, PL 490 e outros – expondo ainda mais a saúde do povo brasileiro e contribuindo para novas crises hídricas que deixam a conta de luz dos brasileiros cada vez mais cara”, completa Cristiane.

A ameaça às nossas florestas e seus povos vêm de todos os lados, a tese do Marco Temporal, que propõe que povos indígenas só teriam direito ao território a partir de ocupação física deste no dia de promulgação da Constituição Federal, está em discussão essa semana no STF. O julgamento do caso será decisivo para o futuro dos povos e terras indígenas de todo o país, e portanto, a tese do Marco Temporal precisa ser rejeitada. A demarcação e proteção de territórios indígenas são fundamentais na proteção da Amazônia e no combate às mudanças climáticas.

Fonte: Greenpeace Brasil

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/09/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: Greenpeace Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 02/09/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/09/02/queimadas-na-amazonia-intensificam/

Estudo mostra impactos do desmatamento e queimadas na biodiversidade da Amazônia


Anel de fogo: a fumaça sobe pelo sub-bosque de uma floresta na região amazônica. As plantas e os animais da floresta tropical evoluíram em grande parte sem o fogo, por isso carecem das adaptações necessárias para lidar com ele. Foto: Paulo Brando


Estudo mostra impactos do desmatamento e queimadas na biodiversidade da Amazônia

À medida que os incêndios invadem o coração da bacia amazônica, onde a biodiversidade é maior, seus impactos terão efeitos mais terríveis

A combinação de um extenso mapeamento de espécies com registros de sensoriamento remoto de desmatamento e fogo revela que a biodiversidade da Amazônia é extraordinariamente vulnerável a mudanças no manejo florestal e na aplicação de políticas.

Por Daniel Stolte*, University of Arizona

Um novo estudo, de coautoria com pesquisadores da Universidade do Arizona e publicado na edição de 1º de setembro da Nature, fornece a primeira avaliação quantitativa de como as políticas ambientais de desmatamento, junto com incêndios florestais e secas, impactaram a diversidade de plantas e animais na Amazônia.

Os pesquisadores usaram registros de mais de 14.500 espécies de plantas e vertebrados para criar mapas de biodiversidade da região amazônica. Sobrepor os mapas com observações históricas e atuais de incêndios florestais e desmatamento nas últimas duas décadas permitiu que a equipe quantificasse os impactos cumulativos sobre as espécies da região.

Eles descobriram que, desde 2001, entre 40.000 e 73.400 milhas quadradas da floresta amazônica foram impactadas por incêndios, afetando 95% de todas as espécies amazônicas e até 85% das espécies listadas como ameaçadas na região. Enquanto as políticas de manejo florestal promulgadas no Brasil em meados dos anos 2000 diminuíram a taxa de destruição de habitat, a aplicação mais relaxada dessas políticas que coincidiram com uma mudança de governo em 2019 aparentemente começou a reverter a tendência, escrevem os autores. Com incêndios afetando 1.640 a 4.000 milhas quadradas de floresta, 2019 se destaca como um dos anos mais extremos para impactos na biodiversidade desde 2009, quando as regulamentações que limitam o desmatamento foram aplicadas.

“Mostramos como a política teve uma influência direta e enorme no ritmo em que a biodiversidade em toda a Amazônia foi afetada”, disse o autor sênior do estudo Brian Enquist , professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva do UArizona . Ele acrescentou que as descobertas são especialmente críticas à luz do fato de que em nenhum momento a Amazônia conseguiu uma pausa desses impactos crescentes, o que teria permitido alguma recuperação.

“Mesmo com políticas em vigor, que você pode pensar como um freio que diminui a taxa de desmatamento, é como um carro que segue em frente, apenas em uma velocidade mais lenta”, disse Enquist. “Mas em 2019, é como se o pé tivesse soltado o freio, fazendo com que ele acelerasse novamente.”

“Avaliações com base em sensoriamento remoto de áreas queimadas e desmatadas foram feitas antes, mas não temos um registro detalhado do impacto que elas têm sobre a diversidade de espécies da região”, disse Xiao Feng, o primeiro autor do estudo, que conduziu a maior parte do trabalho enquanto ele era um pesquisador de pós-doutorado no UArizona e agora é professor assistente na Florida State University. “Esta tem sido uma grande coleção de dados e um esforço informático sem precedentes associado aos dados de biodiversidade, e que nos permitiu tornar essas interconexões visíveis”.

Conhecida principalmente por suas densas florestas tropicais, a bacia amazônica mantém cerca de 40% das florestas tropicais remanescentes do mundo. É de importância global como provedor de serviços ecossistêmicos, como remoção e armazenamento de carbono da atmosfera, e desempenha um papel vital na regulação do clima da Terra. A área também é um enorme reservatório da biodiversidade do planeta, fornecendo habitats para uma em cada 10 das espécies conhecidas do planeta. Estima-se que, na Amazônia, 1.000 espécies de árvores podem povoar uma área menor que meia milha quadrada.

“Isso é importante à luz do fato de que a biodiversidade anda de mãos dadas com o funcionamento do ecossistema”, disse Enquist, acrescentando que as espécies com as menores extensões tendem a sofrer mais. “As espécies podem se tornar virtualmente extintas mesmo antes de perderem toda a sua extensão de habitat.”

“O fogo não faz parte do ciclo natural da floresta tropical”, disse o coautor do estudo Crystal NH McMichael, da Universidade de Amsterdã. “As espécies nativas não têm as adaptações que lhes permitiriam lidar com isso, ao contrário das comunidades florestais em áreas temperadas. Queimas repetidas podem causar mudanças massivas na composição das espécies e prováveis consequências devastadoras para todo o ecossistema.”

Desde 1960, a Amazônia perdeu cerca de 20% de sua cobertura florestal devido ao desmatamento e incêndios. Embora os incêndios e o desmatamento muitas vezes andem de mãos dadas, nem sempre foi esse o caso, disse Enquist. Como as mudanças climáticas trazem condições de seca mais frequentes e severas para a região, e o fogo é frequentemente usado para limpar grandes áreas de floresta tropical para a indústria agrícola, o desmatamento tem efeitos colaterais, aumentando as chances de incêndios florestais. Prevê-se que a perda de floresta chegue a 21% a 40% até 2050, e essa perda de habitat terá grandes impactos sobre a biodiversidade da região, de acordo com os autores.

“O que é desagradável sobre o fogo naquela região é que, uma vez que começa a invadir áreas que não foram queimadas, degrada-as irremediavelmente e as torna mais suscetíveis a queimadas no futuro”, disse ele.

“Uma vez que a maioria dos incêndios na Amazônia são causados intencionalmente por pessoas, evitá-los está em grande parte sob nosso controle”, disse o coautor do estudo, Patrick Roehrdanz, gerente sênior de mudança climática e biodiversidade da Conservation International. “Uma forma é renovar o compromisso com políticas antidesflorestamento fortes no Brasil, combinadas com incentivos para uma economia florestal, e replicá-los em outros países amazônicos.”

As políticas para proteger a biodiversidade amazônica devem incluir o reconhecimento formal das terras indígenas, que são mais de um terço da região amazônica, escrevem os autores, apontando para pesquisas anteriores que mostram que as terras possuídas, usadas ou ocupadas por povos indígenas têm menos declínio de espécies, menos poluição e recursos naturais mais bem administrados.

Os autores dizem que seu estudo ressalta os perigos de continuar a aplicação de políticas frouxa. À medida que os incêndios invadem o coração da bacia amazônica, onde a biodiversidade é maior, seus impactos terão efeitos mais terríveis, mesmo que a taxa de queimadas permaneça inalterada.

“Temos que lembrar que levou décadas para reduzir o desmatamento na Amazônia, mas pode levar apenas alguns anos para destruir os pilares da política de conservação da conservação”, disse o coautor Paulo Brando, professor assistente do Departamento de Ciência do Sistema Terrestre do Universidade da Califórnia em Irvine. “A recente reversão nas tendências de desmatamento e incêndios, e seus impactos na biodiversidade da Amazônia, deve ser uma grande causa de preocupação”.

A pesquisa foi viabilizada por fundos de investimento estratégicos alocados pelo Arizona Institutes for Resilience at UArizona e pelo grupo Bridging Biodiversity and Conservation Science da universidade . Suporte adicional veio do programa Harnessing the Data Revolution da National Science Foundation . Os dados e cálculos foram fornecidos por meio da Rede de Informação e Ecologia Botânica , que é apoiada pelo CyVerse , a plataforma de gerenciamento de dados da NSF liderada pelo UArizona.

Referência:

How deregulation, drought and increasing fire impact Amazonian biodiversity, Nature (2021). DOI: 10.1038/s41586-021-03876-7

Henrique Cortez *, tradução e edição.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/09/2021





Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 02/09/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/09/02/estudo-mostra-impactos-do-desmatamento-e-queimadas-na-biodiversidade-da-amazonia/

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Dados do Inpe revelam que queimadas em áreas florestais e de lavoura aumentam 52% este ano

Desde o início do ano, foram registrados cerca de 216 mil focos de incêndios em áreas florestais e de lavoura em todo o país, de acordo com informação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Com isso, o número de focos de incêndio entre janeiro e junho deste ano já é 52% maior do que o registrado no mesmo período de 2017.

Os três estados com o maior número de queimadas são Roraima, Mato Grosso e Tocantins. Juntos, eles somam cerca de 55% dos focos de incêndio registrados em todo o Brasil neste período.


Os incêndios em áreas florestais e de lavoura já são 216 mil em todo o país (Jose Cruz/Agência Brasil)

Uma das causas do aumento no número de queimadas em áreas florestais e de lavoura pode ser o maior tempo de estiagem em 2018. Mas bombeiros e especialistas também chamam a atenção para o desmatamento e para a degradação ambiental como fatores responsáveis pela ampliação dos focos de incêndio.

Rodrigo Maciel, coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil de Roraima, líder em número de incêndios florestais este ano, afirma que o estado agora passa por um período de chuvas, mas as consequências das queimadas ainda podem ser percebidas, especialmente nas áreas florestais.

“A vegetação florestal depois que você perde ela pela ação do fogo, demora alguns anos para se recuperar. A gente vê isso em algumas serras aqui próximo, que tem a vegetação de floresta densa e, por conta do fogo, parte dela que foi queimada destoa visualmente da parte que está conservada”, afirmou.

Para tirar Roraima do topo de lista dos focos de incêndio, o Corpo de Bombeiros faz agora uma campanha permanente de combate às queimadas. Já o Inpe investiga práticas que influenciam desmatamento na Amazônia. A Floresta Amazônica concentra mais da metade da biodiversidade da Terra, além de um terço das florestas tropicais do planeta.

Por Juliana Cézar Nunes, da Rádio Nacional, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/06/2018




Autor: Juliana Cézar Nunes
Fonte: Rádio Nacional
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 28/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/28/dados-do-inpe-revelam-que-queimadas-em-areas-florestais-e-de-lavoura-aumentam-52-este-ano/

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Estudos analisam as queimadas e seu impacto no clima e na saúde

O ano de 2004 ficou marcado pelos 270.295 focos de incêndio em todo o país – o ápice do número de queimadas no século 21. Na época, apenas no bioma Amazônia, que ocupa cerca de 40% do território nacional e onde estão os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, e também partes do Maranhão, Tocantins e Mato Grosso, foram 145.251 focos.



Em 2017, foram 275.120 focos de incêndio em todo o território nacional, conforme dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um aumento de 1,78%. O bioma Amazônia, no entanto, teve uma pequena redução, com 132.296 focos. Contudo, não há muito o que comemorar – segundo reportagem do jornal O Globo, “o fogo aumentou em áreas de floresta natural, onde não chegava antes”, afirma Alberto Setzer, responsável pelo monitoramento de queimadas do Inpe. Ao lado, os dados das queimadas no Brasil e no bioma Amazônia, fornecidos pelo Inpe.

Em Rondônia, onde está situado o sítio sentinela do Observatório Nacional de Clima e Saúde, os focos de fogo apresentam também um número elevado. No gráfico abaixo, é possível verificar o crescimento desses focos no período entre 2012 e 2017:



Porto Velho

O sítio sentinela está localizado na capital rondonense, em Porto Velho, uma das áreas mais afetadas por conta das queimadas na região amazônica. Ele é coordenado pela pesquisadora associada do Observatório, Sandra Hacon, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) e o pesquisador Christovam Barcellos, do Instituto de Comunicação e Informalão Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz).

Segundo a pesquisadora Hacon, desde o Programa de Integração Nacional, na década de 1970, o desmatamento na região amazônica começou a ocorrer com maior intensidade, com o processo de colonização e o incentivo de ocupação do território pelo governo federal. “Esse intenso processo de desmatamento dará lugar, mais tarde, a indústria madereira e a pecuária na região, que destrói de forma intensa e extensa o solo da Amazônia, com o desmatamento, que leva às queimadas”, explica. Mas, como as queimadas podem prejudicar à saúde da população da região? Hacon afirma que “há a emissão de material particulado, microscópico, que em sua composição tem vários compostos e elementos. Esse material particulado, principalmente, é que vai prejudicar a saúde da população da Amazônia”.

Ela chama a atenção sobre a alta taxa de desmatamento de Rondônia – cerca de 70% de seu território já havia sido desmatado para plantações e pastagens. Com isso, “aumentaram as taxas de doenças respiratórias, principalmente nos grupos vulneráveis – crianças e idosos – e pessoas com doenças pregressas, relacionadas tanto quanto às doenças respiratórias, quanto às doenças cardiovasculares”.

Em um estudo de 2013, intitulado Distribuição espaço-temporal das queimadas e internações por doenças respiratórias em menores de cinco anos de idade em Rondônia, 2001 a 2010, das pesquisadoras Poliany Rodrigues (Ensp/Fiocruz), Eliane Ignotti (Unemat e UFMT, ambas do Mato Grosso) e Sandra Hacon, chama a atenção de que “as áreas com maior número de focos de queimadas diferiram daquelas com as taxas mais elevadas de internações por doenças respiratórias. Isso pode demonstrar a importância do transporte deste material particulado em longas distâncias na Amazônia.

Supõe-se que a exposição aos poluentes provenientes das queimadas não necessariamente coincidiu com o local de ocorrência do foco de queimada, razão pela qual os focos de calor devem ser utilizados como indicadores indiretos de exposição”. Além disso, as pesquisadoras recomendam que haja um “monitoramento do material particulado proveniente das queimadas na microrregião de Porto Velho, apontada neste estudo como área crítica por apresentar a maior concentração de focos de queimadas da região. Também é relevante acompanhar os indicadores de saúde sobre os impactos à saúde humana provocados pelos poluentes gerados nas queimadas, com a implantação de áreas sentinelas pelos programas de vigilância à saúde na Amazônia”.

Para se ter uma ideia do problema, as queimadas acorrem mais intensamente entre os meses de julho e outubro, sendo que em setembro, há o ápice. Imagens do satélite Modis Terra Acqua, da Nasa, entre os dias 9 e 26 de setembro de 2017, mostram a situação da região:



O site do Icict/Fiocruz levantou alguns dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), do Datasus, sobre doenças respiratórias na região de 2012 até novembro de 2017. Como no estudo das pesquisadoras, chama a atenção o número de crianças de até quatro anos, com internações derivadas de doenças respiratórias:



Respiração comprometida

Outro estudo, este de 2015, orientado por Hacon, Poluição atmosférica e seus efeitos na saúde infantil: um estudo sobre biomarcadores de estresse oxidativo em crianças e adolescentes da Amazônia Brasileira, da doutora pela Ensp/Fiocruz Beatriz Fátima Alves de Oliveira, reafirma a preocupação dos pesquisadores com os efeitos das queimadas. Seu estudo, que avaliou crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, residentes na Amazônia Ocidental Brasileira, em especial a cidade de Porto Velho, teve como um de seus resultados o seguinte: “que a poluição do ar está associada com diversos mecanismos, tais como inflamação das vias aéreas, inflamação sistêmica e neuroinflamação, disfunção endotelial, coagulação, aterosclerose, alteração do sistema nervoso autônomo, danos de DNA e desbalanço redox”.

No trecho do vídeo Queimadas na Amazônia – uma ameaça ao ambiente e a saúde, do projeto homônimo da Ensp/Fiocruz, CNPq, Rede Clima, INCT para Mudanças Climáticas e Inova / Ensp (além de outros parceiros) (de 2012), é possível ter uma ideia dos efeitos da queimada na população, neste caso, de Rio Branco, no Acre:


Queimadas x câncer

Foram justamente os estudos do Sítio Sentinela de Porto Velho, na região, coordenados por Sandra Hacon, que ajudaram pesquisadores da USP, UFRN, Fiocruz e UFRJ, além da UFRO, que foi fundamental na logística do estudo, a demonstrarem os impactos das queimadas na floresta Amazônica e que podem ser lidos no artigo “Biomass burning in the Amazon region causes DNA damage and cell death in human lung cells”, que tem entre seus co-autores, o pesquisador do Instituto de Física da USP, Paulo Artaxo, considerado uma das maiores autoridades em análise do clima.

No estudo, os pesquisadores dão evidências de que “as partículas das queimadas ao entrarem nos pulmões aumentam a inflamação, o estresse oxidativo e causam danos genéticos nas células de pulmão humano. O dano no DNA pode ser tão grave que a célula perde a capacidade de sobreviver e morre. Ou esta célula perde o controle celular e começa a se reproduzir desordenadamente, evoluindo para câncer de pulmão”, conforme relatado pela principal autora do estudo, a pesquisadora da USP, Nilmara de Oliveira Alves. Os pesquisadores coletaram amostras do material emitido na atmosfera pelas queimadas na região próxima a Porto Velho, uma das áreas mais atingidas pelos incêndios na Amazônia.

O artigo traz evidências científicas sobre a associação entre queimadas e o risco de câncer. Considerando que as crianças o grupo mais vulnerável exposto às fumaças das queimadas, como explica a pesquisadora Nilmara Alves: “a população que está sendo exposta a esta fumaça apresenta um maior risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão e o agravamento de doenças pré-existentes como asma, bronquite e etc.”, alerta. Para ela, “sem dúvida, as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis. Em concordância, estudos recentes da OMS – a Organização Mundial da Saúde – comprovaram que 1,7 milhão de crianças, com menos de 5 anos, morrem no mundo anualmente devido a poluição ambiental e os poluentes atmosféricos são um dos grandes responsáveis”.

A pesquisadora da USP, que atualmente trabalha na França em colaboração com a Agência Internacional de Pesquisa ao Câncer, com ênfase nos estudos dos impactos ambientais, reitera o risco das queimadas para a população: “O que explica estes efeitos negativos é que nesta fumaça existem partículas muito finas que são capazes de chegar ao sistema respiratório, atingir os alvéolos pulmonares e ter contato com a corrente sanguínea, sendo prejudicial para a saúde. Além disso, muitos compostos carcinogênicos estão presentes nestas emissões e as pessoas, involuntariamente, inalam estes compostos tóxicos, contribuindo para os danos nas células pulmonares”.



Os efeitos na saúde da população na maioria das vezes não são imediatos, como afirma a pesquisadora Sandra Hacon. Segundo ela, “dependerá da carga de emissão, qual é a concentração do material particulado na atmosfera. Essas pessoas que aparecem doentes, que apresentam o impacto das queimadas e da poluição atmosférica, são pessoas que já tinham problemas de saúde, mais idosas ou são crianças”, explica. Para Hacon, Aqueles que já têm problemas respiratórios e não usam os medicamentos, apresentarão os efeitos mais rapidamente. Se eles têm problemas respiratórios e tomam medicação, possivelmente, eles vão apresentar mais tarde e, às vezes, nem apresentar”, afirma.

No vídeo abaixo, Paulo Artaxo fala sobre o trabalho que realiza e mostra o impacto das queimadas no meio ambiente e na saúde das pessoas. Suas palavras são reforçadas pelo atual diretor da Ensp/Fiocruz, Hermano de Castro, pneumologista:


Mudança necessária

A poluição não escolhe classe social, alerta Hacon, mas ela ressalta que populações mais vulneráveis acabam sendo as maiores vítimas da poluição ambiental: “porque se você tem uma infecção respiratória, uma doença infecciosa, como consequência de uma exposição à poluição atmosférica, esse quadro vai se agravar à medida que, não há ventilação nessa casa, que várias pessoas dormem num mesmo cômodo, que essa pessoa não tenha acesso ao serviço de saúde – não só porque mora longe, mas muitas vezes, por não ter recursos para chegar ao posto de saúde na capital, onde teria mais recursos para ela – e por conta das desigualdades sociais, que são – a cada dia – maiores”.

Christovam Barcellos concorda. Para ele, os dados e as análises sobre o que está ocorrendo em Porto Velho, só ressaltam a importância de se estudar o clima e sua relação com a saúde: “as pesquisas têm levantado diversas evidências de que o clima está mudando devido à ação humana na Terra. Alguns dos efeitos estão sendo já sentidos na área de saúde e existe uma mobilização crescente em torno deste tema. A mídia e a sociedade civil estão cada vez mais atentos a este problema, que é novo e ameaçador”. Mas, população e pesquisadores já estão alertas e começam a se mobilizar:



Ao finalizarmos a matéria, recebemos a informação que – segundo notícias publicadas na grande imprensa – na versão de um rascunho, enviado para comentários de revisores do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC/ONU), que aborda a estabilização do aquecimento global a 1,5ºC, “será preciso implementar um nível de transformação sem precedentes na área produtiva (industrial e agrícola), caso a humanidade se proponha a evitar as transformações radicais causadas pelas mudanças climáticas”. Fato que só reforça a necessidade de se ter instrumentos como o Observatório Nacional de Clma e Saúde, que permita compartilhar com a população, os gestores e outros pesquisadores informações que possam mudar essa realidade.

Esta é a segunda matéria da série Clima e Saúde, sobre as mudanças climáticas e seus efeitos na saúde do brasileiro, a partir dos estudos realizados pelo Observatório Nacional de Clima e Saúde, do Icict/Fiocruz. A próxima matéria abordará o sítio sentinela Transfronteiriço, entre a Guiana Francesa e o Brasil, que pesquisa as ocorrências de malária na região e seus impactos na população local da fronteira entre os dois países.

Leia mais sobre a série Clima e Saúde no site do Icict/Fiocruz.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/01/2018




Autor: Graça Portela
Fonte: Icict/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 18/01/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/01/18/estudos-analisam-as-queimadas-e-seu-impacto-no-clima-e-na-saude/