sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Pesquisas contribuem para preservação de toninhas na Baía da Ilha Grande

Menor golfinho encontrado no Brasil, a toninha nem sempre é avistada com facilidade. Pequeno cetáceo é o mais ameaçado de extinção do Atlântico Sul Ocidental. Pesquisadores mostraram que espécie é encontrada na Baía da Ilha Grande, local antes considerado um hiato da ocorrência do animal (Fotos: Divulgação Maqua/Uerj)

Compreender como as espécies da fauna ocorrem, seus hábitos, os locais de maior concentração e os principais riscos aos quais estão expostas é fundamental para sua conservação. Sobretudo para aqueles animais que estão na lista dos mais ameaçados. Pesquisadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores, da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Maqua/Uerj), publicaram, nos últimos meses, estudos que trazem novas contribuições para conservação das toninhas (Pontoporia blainvillei) – o menor golfinho encontrado no Brasil –, considerada o pequeno cetáceo mais ameaçado de extinção do Atlântico Sul Ocidental. Dia Internacional das Toninhas, em 1º de outubro, marca o esforço pela sua conservação.

Os pesquisadores do Maqua, criado em 1992, vêm acompanhando o comportamento das toninhas há pelo menos oito anos. Um detalhado estudo liderado pelo professor Alexandre de Freitas Azevedo, realizado entre janeiro de 2018 e outubro de 2025, trouxe dados importantes sobre a ocorrência desse odontoceto – cetáceo que possui dentes – na Baía da Ilha Grande, na Costa Verde, local até então considerado um hiato da presença da espécie, que é encontrada na faixa costeira que se estende da região central da Argentina até o litoral do Espírito Santo. O trabalho deu origem a um artigo, com informações inéditas, publicado em maio de 2026 na revista Marine Mammal Science. Leia aqui.

Um dos aspectos mais relevantes apontados pelo estudo é a presença das toninhas na Baía da Ilha Grande durante o ano todo, o que significa que elas não estão apenas de passagem. “O trabalho também mostra uma ampla distribuição da espécie pela região e a identificação de áreas preferenciais próximo a ilhas e a áreas de lajes. Elas permaneciam nos mesmos pontos e foram detectadas pela manhã e à noite”, informou Azevedo, que é professor do Programa de Pós-graduação em Oceanografia da Uerj e coordena o Maqua/Uerj ao lado do professor José Lailson Brito Junior.
A oceanógrafa Lis Bittencourt (primeira à direita) e outros membros do Maqua/Uerj em trabalho de campo. Estudo desenvolvido pela pesquisadora levantou informações inéditas sobre padrões de cliques de ecolocalização emitidos pelas toninhas. Sinais podem ser forma de comunicação


Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores do laboratório vêm fazendo estudos contínuos sobre comportamento e bioacústica dos cetáceos. Os resultados foram obtidos a partir de uma metodologia que combinou saídas de campo com monitoramento acústico passivo ou PAM (da sigla em Inglês de Passive Acoustic Monitoring). Isso é feito com a colocação de hidrofones e gravadores em diferentes pontos para ouvir e registrar os sons do ambiente aquático.

“Ao longo desses últimos anos, realizamos um grande esforço para entender a presença, naquela região, dessa espécie considerada criticamente em perigo. Foram deixados gravadores autônomos em pontos diferentes, por pelo menos 24 horas em cada um deles, para captar a presença das toninhas, que estão sempre vocalizando. Ainda não sabemos o número de indivíduos, mas temos conhecimento de que estão presentes em uma grande área”, explicou Azevedo, oceanógrafo com doutorado em Ecologia pela Uerj e pesquisador apoiado pelo programa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ. O monitoramento vai continuar.

Um outro trabalho científico realizado pela equipe do Maqua/Uerj trouxe informações inéditas sobre os cliques de ecolocalização emitidos pelas toninhas encontradas na Baía da Ilha Grande. O estudo, que descreveu as características desses sinais sonoros produzidos pelo cetáceo, fez parte do trabalho de pós-doutorado da pesquisadora Lis Bittencourt Vilas Boas, sob supervisão de Azevedo.

Uma das descobertas de maior relevância do estudo foi a identificação de diferentes tipos de emissão destes sinais acústicos com a produção de cliques padronizados. “Conseguimos identificar dez tipos diferentes de padrões, o que demonstra que os sinais estavam sendo repetidos. Essas informações indicam que a toninha pode utilizar padrões de cliques para se comunicar”, explica Lis, que é doutora em Oceanografia pelo Programa de Pós-graduação em Oceanografia da Uerj e pesquisadora apoiada pelo edital Pós-doutorado Nota 10 da FAPERJ. O trabalho foi publicado na revista Frontiers In Marine Science. Leia aqui.
Alexandre Azevedo e Lis Bittencourt: estudos liderados pelos pesquisadores do Maqua/Uerj trouxeram importantes contribuições sobre ocorrência e comunicação das toninhas (Fotos: Acervos Pessoais)


Lis explica que o registro dos cliques envolveu gravação presencial, feita durante trabalhos de campo, e autônoma, com a utilização de hidrofones deixados no mar para registrar os sinais. Segundo ela, o avanço da tecnologia de gravação contribuiu para o trabalho. “Em 2016, só conseguíamos gravar frequências até 100 khz. Hoje, contamos com hidrofones de alta frequência, que alcançam até 250 khz. A nossa capacidade de diferenciar os sinais está diretamente ligada à capacidade de monitoramento”, explica.

As gravações são avaliadas em laboratório com o auxílio de programas de análise, que geram espectrogramas de áudio, gráficos mostrando a frequência e o tempo de som. “Compreender o comportamento acústico é essencial para melhorar a nossa capacidade de monitoramento da toninha. Isso, certamente, vai contribuir para direcionar da melhor forma possível o trabalho para a preservação da espécie”, afirma a pesquisadora.

Vivendo em uma faixa próxima à costa, o pequeno golfinho, também conhecido no meio científico como franciscana, fica bastante vulnerável aos impactos das atividades humanas. Os principais riscos que ameaçam as toninhas são a captura acidental em redes de pesca; a ingestão de lixo marinho, e a ação da poluição química e da sonora, causada pelas embarcações.

Para conscientizar a sociedade sobre o risco de extinção da espécie, classificada como criticamente ameaçada, foi instituído, em 2019, o Dia Internacional da Toninha, comemorado em 1º de outubro. A proposta é chamar a atenção para a urgência de medidas de proteção.

Para divulgar informações sobre o cetáceo, o Maqua/Uerj mantém o Museu Virtual das Toninhas (https://museudastoninhas.com.br/ ). A iniciativa foi tema de uma videorreportagem do canal de Divulgação Científica da FAPERJ no YouTube. Confira o videodocumentário aqui.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 01/10/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1121.7.6

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