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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ONU aponta que crianças respondem por 26% da mão de obra no início das cadeias produtivas na América Latina

Um novo relatório da ONU aponta uma contribuição significativa do trabalho infantil e do tráfico de pessoas nos patamares iniciais das cadeias produtivas, em atividades extrativistas e de agricultura, fazendo com que a visibilidade, diligência e identificação de tais atividades seja desafiadora. A América Latina lidera a estimativa de trabalho infantil neste setor, com 26%.

O relatório “Fim do trabalho infantil, trabalho forçado e tráfico humano nas cadeias produtivas” foi produzido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Organização Internacional para Migração (OIM) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

O documento fornece, pela primeira vez, estimativas de trabalho infantil associadas ao setor em várias regiões: 26% na América Latina e Caribe; 12% no sul e centro da Ásia e outros 12% na África Subsaariana, além de 9% no Norte da África e Ásia Ocidental.

ONU

Menino trabalha no Nepal


Um novo relatório da ONU aponta uma contribuição significativa do trabalho infantil e do tráfico de pessoas nos patamares iniciais das cadeias produtivas, em atividades extrativistas e de agricultura, fazendo com que a visibilidade, diligência e identificação de tais atividades seja desafiadora. A América Latina lidera a estimativa de trabalho infantil neste setor, com 26%.

O relatório “Fim do trabalho infantil, trabalho forçado e tráfico humano nas cadeias produtivas” foi produzido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Organização Internacional para Migração (OIM) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O documento fornece, pela primeira vez, estimativas de trabalho infantil associadas ao setor em várias regiões: 26% na América Latina e Caribe; 12% no sul e centro da Ásia e outros 12% na África Subsaariana, além de 9% no Norte da África e Ásia Ocidental.

“Bens e serviços que compramos são compostos de materiais de vários países ao redor do mundo e são processados, montados, embalados, transportados e consumidos através de fronteiras e mercados”, lembrou o diretor-geral da OIT, Guy Ryder. “Este relatório mostra a necessidade urgente de uma ação efetiva para enfrentar as violações dos direitos trabalhistas fundamentais que estão ocorrendo nas cadeias produtivas ”, alertou.

O relatório mostra diversas áreas onde governos e empresas podem fazer mais. Ele aponta o papel crítico dos estados em enfrentar as lacunas de legislação, cumprimento e acesso à justiça (que cria espaço para violações) e em estabelecer estruturas para uma conduta empresarial responsável. O documento também examina como governos podem dar o exemplo ao integrar as considerações de cuidado necessário nas suas próprias atividades, como compradores de bens e serviços, donos de empreendimentos e provedores de crédito e empréstimos.

Ao falar no Fórum da Paz de Paris, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, disse que os resultados, baseados na metodologia que a Organização tem aplicado em vários contextos e ambientes econômicos, reforça a necessidade de governos aumentarem e fortalecerem suas iniciativas para garantir que as empresas respeitem os direitos humanos em suas operações e em todas as cadeias produtivas.

O relatório também descreve uma ampla abordagem preventiva focada nas causas do problema, incluindo privação familiar e infantil, particularmente nos segmentos terceirizados das cadeias produtivas que operam na economia informal, onde o risco é maior.

“Estes resultados deixam claro que os esforços contra o tráfico de pessoas no setor serão inadequados se não se estenderem acima dos fornecedores imediatos para incluir atores engajados nas atividades extrativistas e de agricultura, e servindo como insumo para outras indústrias”, afirmou o diretor geral da OIM, António Vitorino.

Para as empresas, o documento reforça a necessidade de um método compreensivo, em toda cadeia produtiva, com o rigor necessário, envolvendo análise, prevenção e mitigação de impactos negativos de direitos humanos, assim como canais legítimos para resolução de casos em que empresas tenham provocado ou contribuído para impactos adversos.

As estimativas foram feitas ao combinar dados do total estimado de crianças em situação de trabalho infantil com informações sobre fluxos de mercado e cadeias de valores entre países e fronteiras. O mesmo exercício foi feito com o tráfico de pessoas.

“O trabalho infantil é uma séria violação dos direitos humanos, que tem consequências negativas para toda a vida do desenvolvimento físico, mental e social das crianças. O relatório mostra pressões múltiplas, incluindo pobreza, violência e discriminação, que aumentam a vulnerabilidade da criança para o trabalho infantil. Nossos parceiros estão pedindo um enfoque holístico para enfrentar as origens do trabalho infantil, dando acesso a educação de qualidade e fortalecendo os sistemas de proteção às crianças”, afirmou a diretora executiva do UNICEF, Henrietta Fore.

O estudo foi elaborado em resposta a um pedido dos ministros de Trabalho e Emprego do G20 para levantar as violações de direitos trabalhistas nas cadeias produtivas e fornece uma perspectiva interagencial única nas causas destas violações de direitos humanos e prioridades para que governos, empresas e parceiros da sociedade possam combate-los.

O relatório Alliance 8.7 foi lançado como parte dos esforços para acelerar ações para o alcance da meta 8.7 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que pede que os governos acabem com o trabalho infantil até 2025 e coloquem em prática medidas efetivas para terminar com o trabalho forçado, a escravidão moderna e o tráfico de pessoas até 2030.

Acesse aqui o relatório completo, em inglês.


Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/11/2019




Autor: ONU BrasilONU Brasil
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 21/11/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/11/21/onu-aponta-que-criancas-respondem-por-26-da-mao-de-obra-no-inicio-das-cadeias-produtivas-na-america-latina/

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

UFRJ e FAPERJ realizam workshop sobre a criação do AIR Center



Na mesa de abertura, a partir da esq.: José Carlos Pinto, Vieiralves de Castro, Manuel Heitor e Roberto Leher (Foto: Beatriz Correa)

Um workshop realizado no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nesta terça e quarta-feira, 20 e 21 de fevereiro, colocou em debate novos conhecimentos sobre mudanças climáticas e questões relacionadas ao oceano Atlântico. Organizado pela UFRJ e pela FAPERJ, o evento Rio 2018 Atlantic Interactions representou um primeiro passo para a instalação de um polo do Atlantic International Research Center (AIR Center) no estado do Rio de Janeiro. A iniciativa promove o monitoramento do oceano, conectando tecnologias de águas profundas a tecnologias espaciais por meio de uma cooperação global entre América Latina, Europa, África e Estados Unidos.


Na cerimônia de abertura, na terça, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, Manuel Frederico Tojal de Valsassina Heitor, fez uma apresentação sobre os principais pontos do programa. Estavam presentes Paulo Ferrão, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal (FCT); Roberto Leher, reitor da UFRJ; José Carlos Pinto, diretor do Parque Tecnológico da UFRJ; Ricardo Vieiralves de Castro, presidente da FAPERJ, Augusto C. Raupp, subsecretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro; Andrei Polejack, coordenador geral de Oceanos, Antártida e Geociências do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC); entre outros participantes.


À ocasião, o presidente da FCT de Portugal, Paulo Ferrão, e o presidente da FAPERJ, Ricardo Vieiralves de Castro, assinaram um memorando para o financiamento de recursos humanos no Rio de Janeiro e em Portugal para a realização de um intercâmbio de pesquisadores nos dois países. De acordo com Vieiralves, o documento é fundamental para confirmar o interesse do Rio de Janeiro em receber o AIR Center e promover uma troca de conhecimentos entre pesquisadores. “A partir de agora, iremos começar a atuar para atingir, pouco a pouco, os objetivos do AIR Center. De início, pretendemos montar uma rede de pesquisadores, com financiamento da FAPERJ e um mínimo de burocracia possível. Esperamos que o primeiro edital com esse objetivo esteja pronto, no máximo, em três meses para começarmos a colaborar com essa iniciativa global. Esse é um trabalho de longo prazo e extrema importância e temos, no nosso estado, um amplo número de cientistas gabaritados que vêm pesquisando mares e oceanos há muito tempo”, disse o presidente da FAPERJ.


Vieiralves também enfatizou a importância da ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento do estado. “O Rio de Janeiro vem passando por uma crise nos últimos dois anos e a principal lição que aprendemos é que o estado precisa diversificar suas atividades econômicas para se reerguer. Na minha opinião, a melhor forma de fazer com que essa diversificação aconteça é por meio do investimento em ciência, tecnologia e inovação”, complementou.


O diretor do Parque Tecnológico da UFRJ, José Carlos Pinto, destacou a tradição da universidade em pesquisa e tecnologia. “A enorme tradição da UFRJ em áreas como engenharia oceânica, engenharia civil e exploração de petróleo em alto mar fazem com que a universidade esteja vocacionada a interagir fortemente com o AIR Center. O Parque Tecnológico da UFRJ conta hoje com o centro de supercomputação da Coppe, o Laboratório de Tecnologia Oceânica (LabOceano) e ainda com a presença de diversas grandes empresas desenvolvendo tecnologias para exploração de petróleo em águas profundas. Estamos muito motivados a participar dessa iniciativa e de braços abertos para receber a instalação de um polo do AIR Center num futuro próximo”, informa José Carlos.



Paulo Ferrão (E), do FCT, e Ricardo Vieiralves: assinatura do memorando para a criação de um polo de pesquisa do AIR Center no Rio de Janeiro (Foto: Lécio Augusto Ramos)

Durante o evento, o ministro português Manuel Heitor destacou que desenvolvimento econômico, tecnológico e social só é possível através do conhecimento e da criação de uma agenda científica inclusiva. “Criar e transformar o oceano Atlântico num centro de desenvolvimento social e econômico só é possível com mais conhecimento. O desafio que estamos partilhando com o Brasil e países da América Latina, África, Europa, além de uma série de instituições norte-americanas, é desenvolver uma agenda que seja inclusiva e que consiga reunir instituições científicas, pesquisadores, empresas e governos”, explicou o ministro.


O evento também contou com a participação de pesquisadores, representantes da Universidade do Minho (Portugal), UFRJ, Carnegie Mellon University, Marinha do Brasil, Petrobras, laboratórios da Coppe/UFRJ e empresas residentes do Parque Tecnológico da UFRJ. Além da criação do AIR Centre Data Intelligent Network, foram debatidos temas como o desenvolvimento e a integração de tecnologias espaciais e oceânicas, a ciência dos dados, estratégias de novos negócios intensivos em conhecimento no contexto das interações atlânticas, políticas públicas e cooperação entre União Europeia e Brasil. No final, os participantes foram convidados a conhecer o Laboratório de Tecnologia Naval e Oceânica da Coppe, localizado no Parque Tecnológico da UFRJ.


Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data de Publicação: 22/02/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3526.2.6

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Médico que percorreu a América Latina coletando esses patógenos transmitidos por artrópodes fala sobre o desempenho do Brasil durante a epidemia de zika




Tesh: Não é realista esperar que alguma nova tecnologia leve à erradicação do Aedes aegypti e das doenças transmitidas por ele

ntecipar grandes ameaças virais à saúde pública é extremamente difícil, mesmo para alguém como o médico e virologista norte-americano Robert Tesh, que há mais de cinco décadas estuda a diversidade mundial dos arbovírus, os vírus transmitidos por insetos e outros artrópodes. “Sempre podem acontecer surpresas”, conta Tesh, que é professor emérito da Divisão Médica da Universidade do Texas (UTMB). “Quem é que pensaria no vírus zika como uma ameaça 20 anos atrás?”

Durante décadas, Tesh dirigiu o Centro de Referência Mundial para Vírus e Arbovírus Emergentes da Organização Mundial da Saúde, instalado na UTMB. Ali, estão armazenadas 7 mil amostras de vírus de todo o planeta, disponíveis para serem estudadas por pesquisadores em busca de pistas sobre as possíveis epidemias atuais e futuras e de caminhos para combatê-las. Ele próprio participou da coleta de muitos desses patógenos realizada em boa parte da América Latina. Hoje com 81 anos, Tesh já perdeu a conta de quantas vezes esteve no Brasil, onde passou temporadas como pesquisador visitante no Instituto Evandro Chagas, no Pará, e no Adolfo Lutz, em São Paulo.

Mais recentemente o virologista e seus colegas acompanharam o lento avanço do zika pela Ásia e pelas ilhas do Pacífico antes que chegasse ao Brasil e infectasse um número grande de pessoas. Para ele, a confusão e o pânico que acompanharam a epidemia não teriam sido muito diferentes se ela tivesse ocorrido nos Estados Unidos ou em outro país desenvolvido. Ainda segundo sua opinião, não é realista esperar que alguma nova tecnologia leve à erradicação do Aedes aegypti e das doenças transmitidas por ele, uma vez que tanto o vírus quanto o mosquito são versáteis e podem se adaptar às tentativas de interferência humana. “Em resumo, a luta vai ser longa”, afirma.

No início de junho, Tesh esteve em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, para participar da São Paulo School of Advanced Science in Arbovirology, realizada com apoio da FAPESP. Pouco antes de partir para uma viagem de passeio no Pantanal, ele conversou com Pesquisa FAPESP sobre a história e o futuro dos arbovírus nas Américas e no mundo.

Quanto sabemos e o que ainda falta conhecer sobre a diversidade dos arbovírus no Brasil e no mundo?
Quando falamos de arbovírus, estamos falando de vírus que são transmitidos por artrópodes que sugam sangue, como carrapatos, pernilongos ou mosquitos-palhas. De todos os arbovírus conhecidos, o maior número vem da América do Sul [região de origem de cerca de 150 das mais de 500 espécies conhecidas].

Superando os originários da África?
Sim, em parte provavelmente porque o trabalho mais intensivo de identificação foi feito na América do Sul.

O fato de se conhecer mais arbovírus da América do Sul, então, decorre de uma questão de amostragem?
Tem a ver com as regiões em que os laboratórios, em especial os financiados pela Fundação Rockefeller, foram procurar esses vírus. Pouquíssimos eram conhecidos antes dos anos 1930, como os causadores da febre amarela, da dengue e de uma ou duas das encefalites. A Fundação Rockefeller criou um programa voltado à procura de novos vírus, o que aumentou muito a descoberta de arbovírus. Mas há muito mais deles a serem descobertos. Estamos começando a entender que há um enorme número de vírus disseminados por mosquitos e outros vetores que são exclusivos de insetos e nunca chegam a vertebrados, embora possuam um parentesco muito próximo com os arbovírus.

Por que eles voltaram a parecer mais ameaçadores nas últimas décadas?
Os vírus têm se deslocado mais rapidamente com o aumento da mobilidade dos seres humanos. Hoje, pode-se entrar em um avião e, em menos de 24 horas, ir a Tóquio ou à China. Com essa capacidade de viajar tanto em tão pouco tempo, vírus como o zika e o chikungunya, que antes tinham uma distribuição restrita, espalharam-se rapidamente depois de chegar ao Novo Mundo. Outro exemplo é o do vírus do Oeste do Nilo, que chegou à América do Norte em 1999. Ele tinha sido isolado na África nos anos 1930 e também estava presente no Oriente Médio, mas, de repente, lá está ele no Novo Mundo.

É possível dizer que subestimamos o zika quando apareceu no Brasil pela primeira vez? Era inevitável que se tornasse um problema tão grave?
Nós tínhamos interesse no zika porque é um arbovírus. Em 2010, isolei uma cepa obtida de uma criança do Camboja. Sabíamos que ele estava presente no Sudeste Asiático e na África, mas não havia muitos registros de casos em seres humanos, em parte, porque o zika causa sintomas muito parecidos com os da dengue e da febre chikungunya. Clinicamente é muito difícil diferenciar os sintomas provocados por um dos vírus dos causados pelos outros, e há casos assintomáticos. Eventualmente a infecção por zika era até diagnosticada, mas a maioria dos laboratórios não tentava identificar o vírus, até que ele chegou a algumas ilhas do Pacífico, como a Polinésia Francesa, e causou um surto enorme.

Incluindo casos de microcefalia, certo?
Sim, microcefalia e síndrome de Guillain-Barré [reação autoimune que pode afetar seriamente o sistema nervoso dos adultos]. Depois que o vírus se espalhou pelo Pacífico e chegou à ilha de Páscoa, pensei: “Bom, pode ser que chegue ao Chile”. Mas acabou aparecendo no Brasil, o que foi uma surpresa. Os especialistas estavam de olho nele, mas não esperavam que fosse provocar os efeitos que causou nem que se espalhasse por todo lado. Olhando a situação da perspectiva atual e considerando que o ciclo do zika é muito parecido com o da dengue e envolve o Aedes aegypti, talvez não seja surpreendente que ele tenha se espalhado tanto e originado um número tão grande de casos, uma vez que encontrou uma população virgem, na qual ninguém tinha sido infectado antes. Depois, aconteceu o que todos sabem. Do Brasil foi para a Colômbia, e de lá para o Caribe, a América Central e o México, com muitos casos em Porto Rico, Haiti, República Dominicana e Honduras e alguns casos na Flórida e em Cuba.

Como está a situação nessas regiões?
Em Porto Rico, os casos começaram a diminuir. Chega-se a um ponto no qual a proporção de pessoas imunizadas [por já terem tido a doença] é tão grande que ocorre o que se chama de imunidade de manada. Cada vírus é um caso, mas, depois que 50% das pessoas tiveram a infecção, fica mais difícil para o vírus circular, porque diminui o número de indivíduos suscetíveis. Durante a sua curta vida, o mosquito infectado precisa picar outra pessoa não imunizada para que o ciclo continue. De agora em diante, não acho que o zika vá desaparecer do Brasil ou das Américas, mas certamente haverá poucos casos.

Mesmo quando nascer uma nova geração de crianças que ainda não teve a doença?
Nesse ponto a infecção por zika deve se tornar como a por dengue. Há quatro sorotipos da dengue. Em certos anos, o vírus do sorotipo 1 ou 2 está em alta, as pessoas são infectadas e desenvolvem imunidade contra ele. Alguns anos depois, é a vez de os casos de dengue tipo 3 ou 4 aumentarem. O vírus nunca desaparece de vez, embora possa ir para outras áreas e depois ser reintroduzido em uma região em que já circulou.

As pessoas ainda estão tentando entender por que o zika causou efeitos tão graves durante a gestação.
Essa foi a grande surpresa. Há um vírus chamado akabane, que ocorre no Japão e na Austrália e causa malformações em ovelhas, semelhantes às que o zika provoca nos membros de crianças infectadas durante a gestação. Esse vírus também pode levar a abortos. Mas não conhecíamos outros arbovírus que se comportassem dessa maneira. O zika parece persistir por bastante tempo no feto. No caso de homens infectados, permanece por longos períodos nos testículos, algo parecido com o que verificaram no caso do ebola. Homens que contraíram o vírus continuaram capazes de infectar outras pessoas pela via sexual durante meses.

Melhorou a nossa capacidade de evitar esse tipo de epidemia ou de detê-la em sua fase inicial?
Se há um vírus novo, para o qual não há vacinas e há muitos transmissores, como o Aedes aegypti, é muito complicado fazer o controle.


© ARQUIVO PESSOAL



O pesquisador, em seu antigo laboratório nos Estados Unidos

Ao menos em princípio, seria possível evitar esse tipo de epidemia?
É muito difícil controlar mosquitos. É algo que as pessoas têm tentado fazer desde que perceberam a ligação entre eles e essas doenças, mas não houve muito sucesso. Avançamos muito no caso da febre amarela, mas isso também teve a ver com o desenvolvimento de uma vacina. Conseguimos eliminar o Aedes aegypti do meio urbano por um tempo, mas não erradicamos a febre amarela silvestre, que envolve a infecção de macacos. Muita gente agora tenta novas técnicas para controlar mosquitos que não envolvem inseticidas. São estratégias como a infecção de mosquitos com bactérias do gênero Wolbachia ou a criação de mosquitos transgênicos. Sou cético em relação a essas abordagens. No caso dos transgênicos, são introduzidos nos machos genes, que tornam sua prole estéril. A geração seguinte vai morrer sem deixar descendentes, mas, depois, é preciso introduzir mais machos geneticamente modificados na população. Não é impossível que os vírus ou os mosquitos, por meio da seleção natural, encontrem maneiras de burlar essas estratégias, mais ou menos como a resistência a antibióticos emerge entre as bactérias. Em resumo, a luta vai ser longa.

Qual o vírus mais assustador que já enfrentou?
Não é um arbovírus. Estive envolvido no estudo da febre hemorrágica venezuelana, causada por um arenavírus, o guanarito, do mesmo grupo do vírus junin, que causa febre hemorrágica argentina, ou do machupo, presente na região de Beni, na Bolívia. No caso do vírus da febre hemorrágica venezuelana, um cientista daquele país o isolou e mandou amostras para mim. Também trabalhei por cinco anos na Venezuela, coletando roedores para entender o ciclo de vida do vírus. Esses vírus são muito perigosos, com uma taxa de mortalidade em torno de 25%. Ainda não há tratamentos disponíveis para a infecção que causam, embora já exista uma vacina para o junin que é usada na Argentina.

Como são transmitidos?
Por aerossol [gotículas suspensas no ar]. Certos roedores selvagens são o reservatório natural desses vírus e os carregam ao longo de toda a vida, algo parecido com o que ocorre com os hantavírus. Esses animais liberam o vírus no ambiente por meio da urina e da saliva. Não há transmissão de pessoa para pessoa, embora as equipes dos hospitais possam se contaminar com o sangue de pacientes infectados.

O Brasil tem feito a lição de casa no que diz respeito aos vírus emergentes e ao próprio zika?
O Brasil foi o primeiro país a ter uma epidemia de zika de grande magnitude. Se a mesma situação tivesse acontecido nos Estados Unidos e de forma tão explosiva quanto foi aqui, algumas das mesmas coisas teriam ocorrido. Talvez as coisas sejam um pouco mais organizadas nos Estados Unidos e seria um pouco mais fácil enfrentar o problema, mas é um tipo de emergência que causa muito pânico nas pessoas. Honestamente, não sei se conseguiríamos nos sair muito melhor que o Brasil.

Existe uma ligação entre o desaparecimento da febre amarela urbana no Brasil e o avanço da dengue? Os vírus estariam competindo entre si no organismo do mosquito, o que explicaria por que a febre amarela não volta com tudo?
Para começar, não costuma haver simultaneamente a infecção de mosquitos com dois vírus muito aparentados. Não é possível infectá-los com dengue tipo 1 e tipo 4 ao mesmo tempo, por exemplo, e não acho que seja possível com dengue e febre amarela. Já a coinfecção de chikungunya e dengue em um mesmo inseto pode ocorrer porque o primeiro é um alfavírus e o segundo é um flavivírus, que são bem diferentes. O desaparecimento da febre amarela urbana pode ser explicado como resultado de uma ação da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), que, depois da Segunda Guerra Mundial, decidiu tentar erradicar o Aedes aegypti das Américas. A Opas criou um programa que, após 20 anos de esforço, foi bem-sucedido. Quase toda a América do Sul e a América Central ficaram livres do mosquito. Na Venezuela, porém, optou-se por vacinar toda a população e deixar de lado a erradicação dos mosquitos, o que não foi bom para os demais países, já que os insetos conseguem atravessar fronteiras. No Caribe, a erradicação também não aconteceu. Os Estados Unidos tentaram por 10 anos e desistiram. Então, nos anos 1970, decidiram não dar mais dinheiro para o programa. Com o abandono do programa, o mosquito voltou a se espalhar país por país, e hoje a situação voltou a ser a de antes ou está até pior. Ao mesmo tempo, uma vacina foi desenvolvida e usada no Brasil com sucesso. A combinação entre o uso da vacina e a erradicação temporária dos mosquitos praticamente acabou com a febre amarela urbana no país. A dengue não desapareceu porque o Aedes aegypti voltou e não havia, e ainda não há, uma vacina antidengue disponível.

Existe o risco de surgir alguma epidemia viral em breve que cause danos significativos?
Os especialistas sempre dizem que temos de nos preocupar com os vírus influenza, causadores da gripe. Atualmente há uma cepa de influenza na China que é bastante virulenta. Se houver uma pandemia de influenza como a que tivemos em 1918, milhões de pessoas podem morrer, em especial os idosos que sofrem de outros problemas respiratórios ou cardiovasculares.

Embora a gripe espanhola de 1918 tenha matado muita gente jovem.
Sim, e por isso foi especialmente ruim. Um vírus desse tipo, que pode ser transmitido facilmente de pessoa para pessoa, pode chegar a qualquer lugar do planeta. Outros vírus que as pessoas estão observando de perto são os causadores da síndrome respiratória do Oriente Médio, a Mers, e o vírus da síndrome respiratória severa aguda, a Sars. Mas sempre podem acontecer surpresas. Quem pensaria no zika como uma ameaça 20 anos atrás? As pessoas acham que podemos prever o que acontecerá nos próximos anos, mas sou cético a respeito disso.




Autor: REINALDO JOSÉ LOPES | ED. 257 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: JULHO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/07/18/robert-tesh-cacador-de-arbovirus/?cat=ciencia

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

América Latina e Caribe despejam 30% de seu lixo em locais inadequados

ONU


A geração diária de resíduos sólidos urbanos nos países da América Latina e do Caribe atingiu cerca de 540 mil toneladas, e a expectativa é de que, até 2050, o lixo gerado na região alcançará 671 mil toneladas por dia. É o que revelam dados apresentados pela ONU Meio Ambiente em evento realizado esta semana (21) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo.

De acordo com a agência das Nações Unidas, mais de 145 mil toneladas de lixo, ou cerca de 30% do total, são destinadas a locais inadequados diariamente na região.




Foto: Flickr/João Guilherme de Carvalho (Creative Commons)

A geração diária de resíduos sólidos urbanos nos países da América Latina e do Caribe atingiu cerca de 540 mil toneladas, e a expectativa é de que, até 2050, o lixo gerado na região alcançará 671 mil toneladas por dia. É o que revelam dados apresentados pela ONU Meio Ambiente em evento realizado esta semana (21) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo.

O levantamento, que faz parte do Atlas de Resíduos da América Latina, relatório da ONU Meio Ambiente que será lançado em breve, mostra que, em média, a cobertura da coleta na região da América Latina e Caribe supera 90%, mas pode variar de acordo com o país, e diminui sensivelmente nas periferias e áreas rurais.

De acordo com Jordi Pon, coordenador regional de resíduos e químicos da ONU Meio Ambiente e coordenador do estudo, “a região tem apresentado vários avanços na gestão de resíduos sólidos, porém, em relação à disposição final, ainda existe um déficit considerável, com mais de 145 mil toneladas de lixo, cerca de 30% do total, destinados para locais inadequados diariamente.

O tema da poluição, incluindo a causada pelos resíduos, faz parte de uma agenda mundial e é o principal tópico da Terceira Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, que acontecerá em Nairóbi, no Quênia, de 4 a 6 de dezembro. Como fórum decisório mundial de mais alto nível sobre questões ambientais, a assembleia reunirá governos, líderes empresariais, sociedade civil e outras partes interessadas em compartilhar ideias e se comprometer com ações contra a poluição.

Na ocasião, o novo relatório “Rumo a um planeta sem poluição“, do diretor-executivo da ONU Meio Ambiente, Erik Solheim, que traz um panorama atual de todos os continentes, permitirá examinar o que sabemos sobre a poluição e delinear elementos-chave de um quadro abrangente de ações para combatê-la.




Evento foi organizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo. Foto: ONU Meio Ambiente

“Os dados apresentados pela ONU Meio Ambiente mostram que, mesmo com algumas melhorias alcançadas nos últimos anos, cerca de 170 milhões de pessoas ainda estão expostas às consequências desse problema em decorrência dos graves impactos causados ao meio ambiente (solo, ar e água) e à saúde da população”, disse Carlos Silva Filho, diretor-presidente da ABRELPE e membro do Comitê Diretivo do Atlas de Resíduos.

Na apresentação dos dados, Jordi Pon também destacou que o relatório faz uma análise sobre a composição dos resíduos sólidos urbanos. A fração orgânica, por exemplo, representa mais da metade de todo resíduo descartado nas cidades latino-americanas, índice que varia bastante de acordo com a renda do país. “Enquanto em países de baixa renda, 75% do lixo descartado é proveniente de matéria orgânica, em países com renda mais elevada esse índice é de 36%”, comentou Pon.

As informações apresentadas mostram ainda que é comum encontrar resíduos perigosos no lixo doméstico, como baterias, equipamentos elétricos e eletrônicos, remédios vencidos, entre outros. Já a fração restante é composta pelos chamados resíduos secos, como metais, papéis, papelão, plásticos, vidro e têxteis. De modo geral, as iniciativas de reciclagem atingem o índice de 20% em determinadas regiões da América Latina, em grande parte graças à contribuição do setor informal.

Pon também observa que praticamente todos os países da região contam com disposições e normas legais para serem cumpridas pelos geradores e manipuladores de resíduos, bem como penalidades por descumprimento, mas o quadro institucional é fraco. “Isso cria um vácuo de responsabilidades governamentais, com poucas ações de acompanhamento e monitoramento, resultando, entre outras coisas, em uma aplicação deficiente da lei tanto no setor público quanto no privado”, explicou o coordenador da ONU Meio Ambiente.

Outro tópico abordado pelo estudo diz respeito aos níveis de investimento público e privado em gestão de resíduos, apontando que os mesmos não são suficientes para financiar a infraestrutura necessária para mitigar as principais deficiências, como ampliação da cobertura de coleta, baixas taxas de reciclagem e disposição final inadequada.

“O estudo mostra que o financiamento é uma questão fundamental para a melhoria e sustentabilidade dos mecanismos de gestão de resíduos, especialmente na América Latina e no Caribe, onde os modelos financiados por recursos municipais prevalecem e, em muitos casos, os custos dos serviços não são recuperados em sua totalidade”, disse Carlos Silva Filho, concluindo que “ainda não há uma consciência clara do fato de que o custo econômico dos impactos negativos causados pela gestão inadequada dos resíduos (o custo da inação) é maior do que o custo de investimento em um sistema adequado”.

Os dados apresentados fazem parte de um projeto da ONU Meio Ambiente, originado a partir do lançamento do Altas Global de Gestão de Resíduos em 2016, e incluem relatórios sobre a situação dos resíduos sólidos na América Latina e Caribe, Ásia, Ásia Central, África, Regiões Montanhosas e Pequenas Ilhas-estado (SIDS).



Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/11/2017




Autora: ecodebate
Fonte: ONU
Sítio Online da Publicação: ecodebate
Data de Publicação: 24/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/24/america-latina-e-caribe-despejam-30-de-seu-lixo-em-locais-inadequados/