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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

XVIII Fórum de Meio Ambiente 2022


XVIII Fórum de Meio Ambiente 2022

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Autor: hoteisrio
Fonte: hoteisrio
Sítio Online da Publicação: hoteisrio
Data: 30/11/2022
Publicação Original: https://hoteisrio.com.br/lp/

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Rebaixamento do lençol freático: uma gravíssima realidade a ser definitivamente enfrentada




Rebaixamento do lençol freático: uma gravíssima realidade a ser definitivamente enfrentada, artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos

Todos os indicadores apontam para a urgente necessidade de adoção rígida de planos de gestão para a abertura e para a exploração de poços profundos em todo o território nacional

Não é de hoje que o fenômeno é conhecido e suas graves consequências são medidas e aquilatadas em suas variáveis econômica, social e geológica.

Nas áreas rurais o principal fator de rebaixamento do lençol está na total falta de controle da exploração de poços profundos para a irrigação de lavouras. Como exemplo, o sertão baiano da região de Irecê, tradicional produtora de feijão e cebola enfrenta crises agrícolas com o severo rebaixamento de seus níveis freáticos. Esse rebaixamento é decorrente da generalizada sobreexploração de seu aquífero cárstico. Mas Irecê é apenas um exemplo didático de um fenômeno hoje generalizado nas regiões agrícolas que se utilizam da água subterrânea. O motivo é sobejamente conhecido: total descontrole dos regimes de exploração dos aquíferos subterrâneos.

Nas áreas urbanas, seja pelo aumento do escoamento superficial promovido pela impermeabilização das áreas de recarga, seja também pela sobreexploração de poços profundos, expediente hoje largamente utilizado por vários empreendimentos como, indústrias, galpões logísticos, hotéis, motéis, médios e grandes edifícios, hospitais, condomínios, shoppings, etc., observa-se a mesma tendência de rebaixamento do lençol freático.

Especialmente nas áreas urbanas agrega-se ao problema geral de perda de reservas hídricas a potencialização de graves fenômenos de ordem geológico-geotécnica advindos da alteração do comportamento geotécnico de solos e de abatimentos de terrenos promovidos por desequilíbrios hidráulicos em regiões cársticas, como é o caso dos municípios de Cajamar – SP, Sete Lagoas – MG, Almirante Tamandaré PR, Bocaiúva do Sul – PR, Colombo – PR, Vazante – MG, Teresina – PI, Lapão – BA, e várias outras localidades.

O diagnóstico é sempre o mesmo: ausência de planos e regras de gestão e monitoramento da exploração dos poços profundos executados. Na cidade de São Paulo há regiões em que o lençol freático já observa rebaixamentos de cerca de 4 metros, o que em termos de perda de reservas hídricas implica em graves consequências, especialmente tendo em conta que a fonte subterrânea já compõe cerca de 10% do total do abastecimento hídrico da metrópole paulista. Mais grave se torna o fenômeno em municípios que tem na água subterrânea sua principal fonte de recursos hídricos para o abastecimento da população.

Enfim, todos os indicadores apontam para a urgente necessidade de adoção rígida de planos de gestão para a abertura e para a exploração de poços profundos em todo o território nacional. Esse já antigo alerta técnico deve finalmente sair de nossos limitados textos congressuais e acadêmicos para se tornar uma exigência política a ser colocada às autoridades competentes.

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)

Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia

Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para Elaboração e Uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”

Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente

Colaborador e Articulista do EcoDebate


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/04/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 29/04/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/04/29/rebaixamento-do-lencol-freatico-uma-gravissima-realidade-a-ser-definitivamente-enfrentada/

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Dia da Terra: 5 jovens explicam por que decidiram lutar pelo meio ambiente



CRÉDITO,TOMMY TRENCHARD/ GREENPEACE
Legenda da foto,

Shaama Sandooyea realizou a primeira 'greve' subaquática do mundo em março


Este é um grande ano para se falar sobre o meio ambiente.


O dia 22 de abril marca o Dia da Terra e o início da Cúpula dos Líderes sobre o clima — um evento virtual de dois dias convocado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, com uma lista de convidados que inclui 40 líderes mundiais. O evento contará também com participação do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.


Mas é a tão esperada conferência COP26 das Nações Unidas (ONU), em novembro, que provavelmente terá o maior impacto, estabelecendo novas metas de longo prazo para enfrentar a crise.


Na expectativa desses eventos importantes sobre clima, cinco jovens manifestantes explicaram para a BBC por que o ativismo é importante para elas, o que elas fazem para promover mudanças no mundo e suas esperanças para o futuro.

'Eu tive que agir'


Shaama Sandooyea realizou o primeiro protesto subaquático do mundo em março, como parte de sua luta para proteger um dos maiores prados de ervas marinhas do mundo.


Segurando um cartaz que dizia "Greve dos Jovens pelo Clima", a jovem de 24 anos mergulhou no Oceano Índico no banco de Saya de Malha, a 735 km da costa de Seicheles.


"Esta área tem uma rica biodiversidade, mas agora está passando pelas mudanças da crise climática", diz Shaama, que é cientista marinho. "Descobrimos que os corais estão crescendo muito perto das ervas marinhas [que] não se adaptariam ao aumento das temperaturas."


A erva marinha é um dos maiores coletores de carbono em alto mar. É um ambiente natural capaz de absorver muito mais dióxido de carbono da atmosfera do que a mesma quantidade da floresta amazônica. Os cientistas dizem que é crucial proteger essas áreas se quisermos evitar um aquecimento perigoso acima de 1,5°C.



CRÉDITO,TOMMY TRENCHARD
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Shaama tem trabalhado com o Greenpeace para aumentar a conscientização sobre sua causa


Milhares de espécies marinhas, incluindo tartarugas verdes, golfinhos e peixes-coelho ameaçados de extinção, dependem das ervas marinhas para se alimentar e também para seu habitat.


Shaama, que é de Maurícia, pesquisou a área com uma equipe de cientistas e ambientalistas em um navio do Greenpeace. Ela diz que ficou maravilhada com o que viu no fundo do mar — "como um prado na água".



CRÉDITO,GREENPEACE
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Prados de ervas marinhas no banco de Saya de Malha ajudam o oceano a absorver carbono


O objetivo de seu protesto era exortar os líderes globais a "se comprometerem com uma rede de santuários oceânicos protegendo pelo menos 30% de nossos oceanos".


"Se os peixes estão migrando para outro lugar por causa do aumento da temperatura do mar, isso afetará diretamente a biodiversidade em Saya de Malha", diz Shaama, enfatizando a importância da existência de oceanos saudáveis "não apenas para o nosso clima, mas para os bilhões de pessoas no hemisfério sul que dependem deles".


Maurícia compartilha jurisdição sobre o fundo do mar circundante com as Seicheles. Mas, embora a distância dos campos de ervas marinhas a centenas de quilômetros da costa tenha fornecido alguma proteção até agora, Shaama teme que isso possa mudar se os oceanos ficarem mais ocupados, destacando a pesca ilegal como outra preocupação.


O tráfego marítimo global quadruplicou entre 1992 e 2012, com o Oceano Índico registrando um dos maiores aumentos, de acordo com um estudo de 2014 publicado no periódico Geophysical Research Letters.



CRÉDITO,GREENPEACE
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Os corais estão crescendo muito perto das ervas marinhas, diz Shaama


"Estou realmente esperançosa de que esta [greve] trará mudanças radicais para proteger Saya de Malha", disse Shaama. "Estamos sentindo as mudanças. Precisamos resolver isso agora."


Shaama não está apenas conclamando os governos regionais, mas também as pessoas que vivem na área, a proteger seu meio ambiente.


"Muito em breve os líderes mundiais estarão tendo uma reunião sobre um tratado global da ONU [COP26]. Esse tratado é capaz de proteger o alto mar (...) ao empregar os recursos para monitorar e garantir que não haja pesca ilegal", diz.


"Agora é responsabilidade de todos proteger Saya de Malha. Precisamos que todos se unam e exijam ação."

'Eu falo sobre a destruição que vejo'


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Bhagya Abeyratne disse que lutaria para salvar seu ambiente com seu "último suspiro"


Bhagya Abeyratne ganhou as manchetes no Sri Lanka quando revelou na versão do país do programa Show do Milhão que acredita que o ecossistema da reserva florestal de Sinharaja está sob ameaça de desmatamento e projetos de construção.


A residente de Rakwana, de 19 anos, um vilarejo adjacente à reserva florestal, que é Patrimônio Mundial da UNESCO, fez a crítica quando participava do programa de TV. Defensores e ativistas ambientais desde então vêm aplaudindo suas ações.


Mas as autoridades governamentais a acusaram de falar mentiras. A polícia e funcionários do departamento florestal visitaram sua casa e a questionaram. O ministro encarregado em proteger a vida selvagem disse que Bhagya citava fatos incorretos, segundo a imprensa local. Apesar disso, ela não se intimidou.


"Falo da destruição ambiental que vejo com meus próprios olhos, todas as manhãs e todas as noites", disse ela à BBC. "Se essa tendência no país continuar, os desertos se espalharão por todo o país".



CRÉDITO,HANDOUT
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Bhagya foi comparado na imprensa do Sri Lanka com a ativista Greta Thunberg


Negando as acusações em uma recente reunião pública, o presidente Gotabhaya Rajapaksa insistiu que é necessário haver um equilíbrio entre proteger o meio ambiente e permitir que os agricultores cultivem suas safras.


Ele disse que instruiu as autoridades regionais a tomarem medidas imediatas caso detectem algum desmatamento.


"O governo não permite que ninguém corte árvores ou destrua o meio ambiente", acrescentou. "A oposição tem espalhado falsidades."


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A reserva florestal Sinharaja é um patrimônio da Unesco


Bhagya, que se tornou uma estrela nas redes sociais e muitas vezes aparece na imprensa do Sri Lanka, onde foi comparada a Greta Thunberg, diz que continuará a fazer campanha e proteger as "árvores e animais que me fornecem ar para respirar".


Ela está pedindo a todos os jovens do Sri Lanka que relatem qualquer coisa que virem que destrua o meio ambiente em suas áreas. Do contrário, avisa, "amanhã não haverá país para nós".

'Vai muito além de ursos polares e calotas polares'



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Katie Hodjetts se interessou pelo ativismo climático quando estava na universidade


Katie Hodjetts tinha 18 anos quando percebeu que a crise climática não era apenas algo que acontece longe de sua casa em Bristol, no Reino Unido.


"Quando eu era adolescente, a imagem do urso polar nas calotas polares derretendo me fazia pensar que isso não tinha nada a ver comigo ou com meu estilo de vida", diz ela.


Isso mudou quando ela foi para a universidade e estudou uma cadeira chamada Política das Mudanças Climáticas.


"Foi então que percebi que a crise climática ia muito além dos ursos polares: era uma história de política, injustiça e capitalismo", diz ela.


Katie juntou-se ao grupo UK Youth Climate Coalition e coordenou sua campanha anti-fraturamento em 2018, que envolveu o bloqueio de um local de fraturamento hidráulico por três dias.


No ano seguinte, ela se tornou uma das primeiras organizadoras do movimento Clima Bristol Youth Strike 4, mobilizando milhares de jovens para protestar contra a expansão do aeroporto da cidade e falando para multidões de até 30 mil pessoas ao lado de Greta Thunberg.



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Kate dirige um projeto com jovens ativistas que falam sobre ansiedade ecológica e organização climática sustentável


Em 2020, ela fundou o Projeto Resiliência, que oferece cursos no Reino Unido explorando temas como ansiedade ecológica, burnout e organização climática sustentável. No final deste ano, ela estará trabalhando com outros grupos de jovens antes, durante e depois da COP26.


"Pela minha experiência nos últimos cinco anos de trabalho com jovens, percebi que a saúde mental está sofrendo e não existe nenhuma iniciativa dos jovens para ajudar outros jovens", explica Katie, que tem 25 anos.


"É por isso que comecei o Projeto Resiliência. É um programa para capacitar os jovens em suas próprias ações (...) para orientá-los a percorrer seus próprios caminhos de resiliência."


Katie diz que "conviver com a culpa e o fardo de viver um estilo de vida de carbono zero" é difícil para as gerações mais jovens, então ela se concentra mais em tentar promover uma mudança sistêmica do que uma mudança de comportamento individual.


"Meu foco é desenvolver a capacidade dos jovens de exigir que os governos ajam agora. Trata-se de reformular o que é a 'vida boa' para pessoas como eu nos países ocidentais."


"Quero comunicar a eles que você pode viver uma vida plena e abundante, mas ainda com baixas emissões de carbono. Por exemplo, você pode não acreditar em mim, mas um feriado na Escócia pode ser tão mágico quanto um feriado nas Bahamas."

'Foi horrível para a saúde deles'



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Sophia Kianni espera educar as pessoas em todo o mundo sobre o impacto das mudanças climáticas


Sophia Kianni aprendeu sobre mudanças climáticas na sexta série, mas foi durante uma viagem a Teerã, quando tinha 12 anos, que a jovem, que tem dupla cidadania do Irã e dos EUA, percebeu o quão grave era a crise. Uma noite, ela olhou para o céu e não conseguiu ver nenhuma estrela devido à poluição do ar.


"A poluição lá era terrível, mas percebi que meus parentes não entendiam nada sobre isso."


"Eles disseram que Teerã era uma cidade importante, e que a qualidade do ar era assim por causa da indústria. Eles eram muito indiferentes, aceitando tudo sem perceber como isso é horrível para sua saúde."


De acordo com o site Carbon Brief, o Irã foi o oitavo maior emissor de gases de efeito estufa em 2015. Em novembro de 2019, todas as escolas em Teerã foram fechadas devido à poluição do ar.


Mas um estudo recente no jornal Acta Medica Iranica afirma que quase 95% de estudantes universitários no Irã não sabem explicar corretamente os efeitos das emissões de gases do efeito estufa.



CRÉDITO,ATTA KENARE/AFP VIA GETTY IMAGES
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O sol se põe sobre a capital iraniana, Teerã, enquanto altos níveis de poluição do ar cobrem a cidade em 13 de janeiro de 2021


Sophia formou o Climate Cardinals para educar as pessoas em todo o mundo sobre o impacto da mudança climática. Em vez de distribuir informações em inglês, ela percebeu a necessidade de serem produzidos materiais nos idiomas locais.


"A ONU fornece material apenas em seis idiomas, então eu queria expandir esse alcance", disse Sophia. "Com mais de 8 mil voluntários trabalhando em mais de 40 países, traduzimos material [em mais de] 100 idiomas."


A iniciativa começou explicando os conceitos básicos de mudança climática e gases de efeito estufa, mas desde então começou a traduzir documentos e relatórios emitidos pela ONU.


Como resultado, Sophia foi escolhida como membro do Grupo de Aconselhamento Juvenil do Secretário-Geral da ONU sobre Mudanças Climáticas. Ela representa os Estados Unidos e o Oriente Médio e está entre os membros mais jovens.



CRÉDITO,HANDOUT
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Sophia foi escolhida como membro do Grupo de Aconselhamento Juvenil do Secretário-Geral da ONU sobre Mudanças Climáticas


"Meu objetivo é aumentar a alfabetização climática no mundo, quero que as pessoas entendam o que é a mudança climática, para que possam pressionar os governantes eleitos a agirem sobre a legislação climática."


"Isso inclui participar de manifestações, fazer doações para campanhas de candidatos que apoiam a legislação climática e, acima de tudo, votar em candidatos que afirmam que as mudanças climáticas são reais e que vão fazer algo a respeito disso."

'Os líderes mundiais não estão fazendo o suficiente'



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Sarah Goody está incentivando os jovens de todo o mundo a participarem da conversa sobre o clima


Sarah Goody tinha 12 anos quando uma aula de ciências sobre as mudanças climáticas teve um grande impacto em sua vida.


"Naquele dia percebi como é importante proteger o clima", diz ela. A turma então passou um mês estudando as mudanças climáticas e seu impacto na vida selvagem, na natureza e na raça humana.


"Foi a primeira vez que comecei a entender o quão grande era o problema do aquecimento global e comecei a fazer conexões entre minhas experiências de vida e os desastres climáticos. Comecei a assistir documentários, lendo e fazendo minhas próprias pesquisas."


Aos 14 anos, ela fundou a Climate Now, uma organização internacional liderada por jovens com foco na educação e capacitação de jovens para que realizem ações climáticas. A entidade tem 30 jovens voluntários de todo o mundo e já fez apresentações para 10 mil alunos.


No ano passado, Sarah foi uma das ganhadoras do Prêmio Princesa Diana, que reconhece jovens por ações humanitárias. A organização a descreveu como "fortemente comprometida com o movimento climático liderado por jovens" e creditando-a por inspirar "milhares a entender melhor a crise climática, ajudando-os a agir e começar a criar um futuro melhor".



CRÉDITO,HANDOUT


A adolescente, que sofre de depressão clínica e é asmática, mora em São Francisco, onde os incêndios florestais do ano passado contribuíram para níveis perigosos de qualidade do ar. Ela preside o Comitê de Ação Climática de Corte Madera da cidade e teve seu trabalho sobre mudança climática publicado na revista Teen Vogue.


Ela faz campanha por meio de seminários e eventos.


"Acho que os líderes mundiais não estão fazendo o suficiente. Em primeiro lugar, [eles] precisam declarar uma emergência climática", diz Sarah. "Em segundo lugar, [eles] precisam se unir e colocar em ação um plano para reduzir drasticamente as emissões globais de carbono. As conversas sobre a mudança climática precisam ser sustentadas além da COP26."


Ela diz que todos podem contribuir para reduzir sua pegada ambiental ao compreender como as ações pessoais contribuem.


"É difícil prever o futuro, mas veremos mais jovens se juntarem a nós, trazendo urgência à situação. Esperançosamente, juntos, seremos capazes de reduzir a pegada ambiental."


Reportagem adicional de Shirly Upul Kumara, da BBC Sinhala




Autor: Saroj Pathirana
Fonte: Serviço Mundial da BBC
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 22/04/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56843299

segunda-feira, 27 de julho de 2020

SARS-CoV-2 e o meio ambiente: impactos positivos e negativos



Em fevereiro de 2020, o mundo parou por causa do novo coronavírus SARS-CoV-2 e da doença que ele provoca, a COVID-19, que até o fechamento desta matéria já havia ceifado a vida de mais de 72 mil pessoas no Brasil. O vírus chegou em onda e foi tomando a Terra de assalto.

Três Conselheiros do CRBio-02 – Cristina Nassar, Christiane Leal Corrêa e Anderson Mendes Augusto – se unem para abordar a inter-relação do SARS-CoV-2 com o meio ambiente.

Integrantes da Organização Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da Organização Mundial de Saúde (OMS), dizem que o pico da epidemia no Brasil deve acontecer em agosto, quando o país talvez registre mais de 80 mil mortes. Para conter a letalidade da doença, em praticamente todos os países do mundo, foi promovido o afastamento social, com objetivo de diminuir a disseminação do vírus.

A suspensão de grande parte das atividades humanas reduziu significativamente os níveis de poluição do ar. Imagens de satélites demonstraram uma queda considerável nos níveis de dióxido de nitrogênio (NO2) e das emissões de dióxido de carbono (CO2). Só na China as emissões caíram cerca de 25%, de acordo com o site Carbon Brief.

Mas tais mudanças são apenas temporárias, circunstanciais, como diz a Conselheira do CRBio-02, Cristina Nassar (12.653/02-D), coordenadora do Programa de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Quando tudo isso passar – e vai passar – a produção irá voltar com força total, em uma tentativa de recuperação econômica. Não me espantaria que, pontualmente, a poluição se elevasse a níveis maiores que os de antes da pandemia”, afirma.

A Bióloga ressalta que, se estamos falando de redução da produção humana, os impactos positivos não se restringem apenas à diminuição da poluição atmosférica. “Imagine que, com menos pessoas ativas, ocorre uma diminuição do desmatamento, da caça e pesca predatórias, do uso de agrotóxicos, da poluição de corpos d’água, etc. Mas é assim que queremos melhorar nosso meio ambiente? Acredito fortemente que não! Menos atividade humana, significa menos produção de alimentos, fármacos, tecnologia, inovação e tantas outras coisas que necessitamos”.

“Por outro lado – continua a Bióloga Cristina -, pessoas inescrupulosas podem ver esse momento de distanciamento social como uma oportunidade de burlar a fiscalização e causar danos irreparáveis ao meio ambiente, como temos visto os noticiários sobre queimadas em unidades de conservação e invasão de terras indígenas”.

Para Cristina, a espécie humana tem um impacto no planeta, bom ou ruim, que nenhuma outra tem. “Nós possuímos a capacidade de atuar nos mais remotos cantos da Terra. No entanto, apesar de muitas vezes vermos o ambiente como algo a ser explorado por nós, em detrimento de outras espécies, os humanos são mais um elo na teia trófica que integra os organismos vivos que interagem em nosso mundo. Como muitos dizem: ‘Nós precisamos do planeta, mas ele não precisa de nós'”.

Cristina acha surpreendente como o planeta poderia dar conta da ausência do ser humano, obviamente, com grandes mudanças: “Sem o homem, em poucos dias não haverá energia. Quem irá operar as hidroelétricas, termoelétricas e as usinas nucleares? Essas plantas de geração de energia entrarão em colapso em dias. A partir daí, começarão alguns desastres… diferentes instalações industriais vão parar, explodir e vazar substâncias tóxicas. Estamos falando de anos? Não! Falamos de dias. Mas, entre 100 e 300 anos as represas, prédios e pontes vão ruir. Pode ser chocante imaginarmos que ícones de nossa sociedade, tais como grandes edificações e monumentos, irão corroer e desabar em poucos séculos. Sabe uma coisa que ainda estará lá em cerca de 5 séculos? As pirâmides e demais monumentos em pedra. E o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro? Apesar do monumento parecer ser uma estrutura sólida, ele não é. Logo a falta de manutenção e as intempéries (chuvas e raios) afetariam sua estrutura que começaria a ruir. Triste não?”.

Na verdade, o discurso da Bióloga Cristina nos leva a crer que assim que a pandemia diminuir seu ritmo, tudo voltará a ser como era antes. Pelo menos em termos de meio ambiente, não haverá um “novo normal”. Então, teríamos de dar tchau aos peixinhos dos canais de Veneza (Itália) e aos tucanos pendurados na rede elétrica de Belo Horizonte (Brasil).
Descarte de máscaras e luvas gera problema ambiental

Se retirar os seres humanos das ruas e dos seus locais de trabalho promoveu uma série de melhorias ao meio ambiente, colocá-los de volta, mas protegidos de uma segunda onda dessa pandemia, está preocupando ambientalistas e profissionais da área de saúde. Dentre os vários motivos está o descarte de milhares de máscaras respiratórias, o que vem acontecendo por conta da obrigatoriedade do uso em vários países do mundo, principalmente os mais afetados pela pandemia, como Brasil, Estados Unidos, países da Europa Meridional, China, Japão, entre outros.

É que esses bilhões de máscaras respiratórias, que estão sendo produzidas por diversos países para atender a uma população mundial de 7,7 bilhões de pessoas, serão usadas e descartadas. É aí que mora o perigo. Com o uso de EPIs pela população mundial, principalmente máscaras respiratórias e luvas (produzidas em TNT, algodão, látex, vinil e outros materiais), a preocupação fica voltada para o correto descarte desses produtos depois de utilizados.

De acordo com a Conselheira do CRBio-02, Christiane Leal Corrêa (29.635/02-D), professora adjunta do Departamento de Patologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e doutora em Fisiopatologia Clínica Experimental, as máscaras descartáveis e as luvas utilizadas para uso contra a contaminação do SARS CoV-2 estão se tornando um problema ambiental que pode ter consequências mundiais.

“Inundaram o mercado com um equipamento de proteção individual de baixo custo, leve, de aspecto inofensivo, mas que agora está gerando reflexos na natureza. Muitos desses materiais são feitos de polipropileno e podem levar anos para serem degradados. O uso mensal estimado de 129 bilhões de máscaras e 65 bilhões de luvas em todo o mundo, está resultando em contaminação ambiental generalizada (PRATA et al., 2020)”.

“Assim – diz Christiane Corrêa -, as máscaras descartáveis (uso único) que chegam ao meio ambiente por meio de lixões, descarte em aterros, lixo em espaços públicos, água doce, oceanos, podem estar contribuindo para o surgimento de uma nova fonte de fibras microplásticas, que podem degradar, fragmentar ou decompor-se em pequenos tamanhos e pedaços de partículas com menos de 5mm, conhecidas como microplásticos em condições ambientais. O tempo que a natureza precisa para absorver os materiais dessas máscaras respiratórias e luvas pode ser bastante variado. Alguns trabalhos falam em 450 anos”.

“As máscaras descartáveis são produzidas a partir de polímeros como polipropileno, poliuretano, poliacrilonitrila, poliestireno, policarbonato, polietileno ou poliéster. Com o aumento da produção e do consumo de máscaras em todo o mundo estamos diante de um novo desafio ambiental, aumentando o vasto desperdício de plástico e partículas de plástico no meio ambiente”, informa a Bióloga.

Dessa forma, o descarte incorreto de máscaras e luvas utilizadas para proteção contra o SARS-CoV-2, no lixo público ou doméstico, está se tornando um problema. E Christiane Corrêa orienta:

“Para a higienização após o uso, deve-se deixar as máscaras respiratórias de molho na água sanitária ou hipoclorito por 10 minutos, assim como as luvas. Esse procedimento visa inativar o vírus, antes de expor o material ao contato com outros indivíduos. Assim sendo, é de fundamental importância descontaminar todo o material descartável antes de ser embalado para descarte. Para o descarte, deve-se embalar máscaras e luvas usadas em sacos impermeáveis e resistentes e identificar de forma clara e de fácil visualização, fechando por mais de 24 horas. Com isso, esses resíduos poderão ser conduzidos para uma unidade de tratamento e destinação final”.

A preocupação com a embalagem e identificação tem como objetivo minimizar os prejuízos coletivos, incluindo os do meio ambiente terrestre e marinho. Christiane informa ainda que a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou legislação pertinente RDC Anvisa 306 de 2004 e a Resolução Conama 358 de 2005, que define como os resíduos de serviços de saúde (RSS) devem ser tratados. “Essa legislação pode ser um ótimo orientador para o correto descarte das máscaras respiratórias e das luvas utilizadas para proteção do SARS CoV-2”, finaliza Christiane Leal.
Ainda pensam que o culpado é o morcego

Perguntamos ao Conselheiro do CRBio-02, Anderson Mendes Augusto (24.653/02-D), como seria possível evitar que novos vírus, até mais letais que o SARS-CoV-2, surjam ameaçando a humanidade? Ele foi categórico:

“É inevitável, enquanto houver o desmatamento de áreas naturais e a caça de animais silvestres, isso pode acontecer, pois tais fatos aumentam o convívio do homem e dos animais de produção e domésticos com animais infectados naturalmente com vírus ainda desconhecidos, ampliando a probabilidade de transmissão. É em função dessa proximidade, que novos vírus ‘saltam’ da vida selvagem para os seres humanos”, finaliza Anderson.

Biólogo, tendo passado 28 anos na Fundação RIOZOO e RioZOO/SA e mestre em Gestão Ambiental, ele diz que a família do novo coronavírus, o SARS-CoV-2, infecta mamíferos e aves: “Em geral podem causar problemas respiratórios e entéricos, porém, podem afetar outros sistemas”.

Anderson informa que os vírus desta família infectam naturalmente diversas famílias de quirópteros (morcegos) localizadas na Ásia, África e Américas. E, tem-se a hipótese, que estes vírus e morcegos coevoluem há milhares de anos:

“Existe um tripé, onde uma terceira espécie propicia o ‘salto’ do vírus para os humanos. Esse tripé é formado pelos quirópteros e uma outra espécie que pode ser doméstica, de criação ou silvestre, que por sua proximidade com seres humanos facilita a infecção pelo vírus”, informa Anderson.

Tais saltos geralmente ocorrem nas bordas das florestas, onde o desmatamento coloca as pessoas em contato com os habitats naturais dos animais, em zonas rurais nas quais ações antrópicas (caça, desmatamento) aproximam o homem das espécies naturalmente infectadas, podendo haver a transferência para animais domésticos ou de produção e destes para o homem.

Anderson ressalta que “Dengue, febre amarela e zika são exemplos de doenças que nos acometem há séculos e por terem os mosquitos como seus transmissores são de difícil erradicação, mas passíveis de controle. Outros exemplos que têm como hospedeiros os quirópteros são a raiva e o ebola, ambas com alta letalidade. Esses são somente alguns exemplos mais conhecidos”.

“Mais da metade do desmatamento tropical do mundo é impulsionado por quatro commodities: carne bovina, soja, óleo de palma e produtos de madeira. Eles substituem florestas tropicais maduras e com biodiversidade por monoculturas e pastagens. Como a floresta é degradada aos poucos, os animais que ainda vivem em fragmentos isolados da vegetação natural lutam para existir. Quando os assentamentos humanos invadem essas florestas, o contato humano-vida selvagem pode aumentar e novos animais oportunistas também podem migrar”. *

* Trecho de um artigo escrito a seis mãos por Amy Y. Vittor, professora assistente de Medicina da Universidade da Flórida (EUA); Gabriel Zorello Laporta, professor de Biologia e Doenças Infecciosas da Faculdade de Medicina do ABC (Brasil), Maria Anice Mureb Sallum, professora de Epidemiologia da Universidade de São Paulo (Brasil).

Do CRBio-02, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/07/2020


Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 27/07/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/07/27/sars-cov-2-e-o-meio-ambiente-impactos-positivos-e-negativos/

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O gigante projeto de mineração chegou à exaustão e está colocando em colapso as condições de vida de toda a população, artigo de Gilvander Moreira

Mineração causa colapso das condições de vida. Basta!

Por Gilvander Moreira1




O gigante projeto de mineração em Minas Gerais, no Pará e em outros estados do Brasil, chegou à exaustão e está colocando em colapso as condições de vida de toda a população, da mãe terra, da irmã água e os biomas. Se as classes trabalhadora e camponesa, e todas as pessoas de boa vontade do campo e da cidade não acordarem, se não se organizarem e partirem para lutas coletivas e massivas que joguem ‘areia na engrenagem de morte da grande mineração’, ocorrerão cada vez mais tragédias e maiores do que as que aconteceram e continuam a partir de Bento Rodrigues, em Mariana, e de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Temos que honrar as centenas de pessoas assassinadas pela Vale e pelo Estado e também os Rios Doce e Paraopeba e respeitá-los. A mãe terra, a irmã água, a flora e a fauna e a classe trabalhadora empurrada para aceitar trabalhar como terceirizados, em situação análoga à de escravidão, estão gritando: BASTA DE MINERAÇÃO! CHEGA! EXIGIMOS RISCO ZERO! Exceto os cúmplices ou mentores da máquina de guerra que se tornou a mineração em grande escala, todos estão indignados até o último fio de cabelo. Basta de sacrificar no altar do deus mercado/capital tantas vidas humanas e de toda a biodiversidade. Mineração em grande escala com os processos de superexploração se tornou algo satânico, diabólico e idolátrico, pois semeia devastação que se multiplica em uma progressão geométrica.

Não existem apenas riscos, já se matou demais. Ao ouvir quem está morrendo aos poucos, um pouco a cada dia, debaixo de lama tóxica de barragens de mineradoras, não nos resta dúvida: as grandes mineradoras, lideradas pela Vale, em conluio com o Estado, tocadas pela classe dominante, estão fazendo guerra contra o povo, contra a mãe terra, contra as nascentes, os rios, os lençóis freáticos, os biomas, os animais, a flora e a fauna. Júlio Grilo, superintendente do IBAMA2/MG, desde janeiro de 2018, alertou em várias reuniões da Câmara de Atividades Minerária do COPAM3: “Todas as barragens de mineração têm risco e podem se romper. Só não sabemos o dia e a hora.” Nos últimos 20 anos, dezenas de barragens de mineração já se romperam em Minas Gerais e em outros estados. Dia 17 de fevereiro de 2018, por exemplo, houve um vazamento de rejeitos do complexo da mineradora Hydro Alunorte, em Barcarena, PA. O Rio Murucupi e diversos igarapés foram contaminados, e muitas comunidades ribeirinhas e quilombolas tiveram o seu modo de vida profundamente violentado.

Com licença renovada pelo Governo de Minas Gerais em março de 2018 para mais dez anos de extração de ouro, as megabarragens de Santo Antônio e Eustáquio, com 7 quilômetros de diâmetro, da Mina Morro do Ouro – maior mina de ouro do mundo a céu aberto, da mineradora canadense Kinross, em Paracatu, se romperem, parte da cidade de Paracatu e inúmeras comunidades abaixo serão dizimadas, o Rio Paracatu e o Rio São Francisco receberão a punhalada de misericórdia. Priscila Sueli Rezende, em pesquisa de dissertação de mestrado na UFMG, em 2009, constatou que “as concentrações mais altas de arsênio foram observadas no Córrego Rico – abaixo das barragens da Kinross -, em Paracatu, correspondendo a uma concentração 190 vezes maior que a estipulada pela legislação ambiental”. Por isso, principalmente, há uma elevadíssima incidência de câncer na população de Paracatu e região. Se a grande barragem da mineradora Anglo Gold Ashanti, em Sabará, se romper, passará por cima do bairro Pompéu e de vários outros bairros, matará o Rio Sabará, o Rio das Velhas e o Rio São Francisco.

Otávio Freitas, de Nova Lima, coautor de Ação Popular contra a Mina Capão Xavier4, da VALE, alerta: “Risco maior pode estar na barragem de rejeito da antigamente chamada barragem de Tamanduá, hoje chamada de Capão da Serra, barragem em atividade e que recebe os rejeitos das minas de Tamanduá e Capitão do Mato, em Nova Lima. E/ou o risco pode ser também a barragem de Gorduras, da mina da Mutuca. Se essas barragens se romperem, a lama tóxica invadirá a bacia do córrego Macacos, que cai no Rio das Velhas e depois no Rio São Francisco”. Além de reintegrações de posse em propriedades que não cumprem função social, gerando o despejo de milhares de famílias de suas casas em ocupações do campo e urbanas, as grandes mineradoras, em uma gula sem fim, estão também despejando milhares de famílias de suas moradias. Ou seja, despeja-se pela falta de reforma agrária e de reforma urbana e, agora também, pela superexploração das mineradoras.

Belo Horizonte e região metropolitana não estão apenas em um quadrilátero ferrífero, mas em um quadrilátero aquífero. Aliás, a capital de Minas Gerais foi deslocada de Ouro Preto para Belo Horizonte principalmente em função dos seus mananciais, um importante aquífero situado nos arredores da Serra do Curral que conseguiria abastecer até 3 milhões de pessoas, mas a mineração e outras indústrias, como as de bebidas, ali instaladas, estão exaurindo tudo e colocando em colapso as condições objetivas de vida. Diante desse cenário, soluções moderadas apenas tentam domesticar a voracidade do ‘escorpião que só sabe ferir e matar’. Não basta trocar velhas tecnologias por novas tecnologias. Não basta proibir barragens a montante (acima) e continuar fazendo barragens a jusante (abaixo), dois métodos de barragens que oferecem sérios riscos de rompimento. Não basta criar territórios livres da mineração. Não basta “mudar o modelo de mineração”. Não basta fazer Termo de Ajuste de Conduta (TAC) e acordos que garantem apenas poucos direitos – “o mínimo legal”, mas que, na prática, abrem mão de direitos fundamentais. Não basta CPI da mineração e Projetos de Leis para abrandar a fúria das mineradoras. Privilegiar ações na institucionalidade também é um erro grave, pois, como efeito colateral, desmobiliza o povo para as grandes lutas necessárias. Todas as soluções moderadas deixam intacta a coluna mestra das grandes mineradoras que, como o dragão do Apocalipse, vão devastando tudo e deixando só “terra arrasada”.

Necessário lembrar da densa obra intitulada COLAPSO – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, do biogeógrafo e filósofo Jared Diamond, editada no Brasil em 2013, que já alertava sobre catástrofes, contaminação química e danos ambientais irreversíveis relacionados à mineração em todo o mundo. Na obra Colapso, Jared Diamond alerta: “Outros problemas ambientais causados pela mineração de metais compreendem poluição da água pelos próprios metais, produtos químicos de processamento, vazamentos de ácidos e sedimentos. Elementos metálicos e semelhantes ao metal no próprio minério – especialmente o cobre, cádmio, chumbo, mercúrio, zinco, arsênio, antimônio e selênio – são tóxicos e tendem a causar problemas ao acabarem em córregos e lençóis freáticos como resultado das operações de mineração. […] Muitos produtos químicos usados na mineração como cianeto, mercúrio, ácido sulfúrico, bem como o nitrato produzido pela dinamite, também são tóxicos. Mais recentemente foi descoberto que, ao serem expostos à água e ao ar através da mineração, os minerais contendo sulfeto vazam ácidos que causam séria poluição na água por si mesmo e pelos metais lixiviados por eles. Os sedimentos transportados para fora das minas pela água podem ser danosos à vida aquática cobrindo, por exemplo, as superfícies de desova dos peixes. Além desses tipos de poluição, o mero consumo de água de muitas minas é alto o bastante para ser significativo (DIAMOND, 2013, p. 541).”

O crime não é só da Vale, é também do Estado cúmplice. É crime também dos governos anteriores e atuais, do poder legislativo que, em Minas Gerais, cuspiu no rosto de todas as vítimas do crime tragédia da VALE/BHP/SAMARCO/ESTADO ao aprovar, em regime de urgência, um projeto indecente, flexibilizando ainda mais o licenciamento ambiental. Os Ministérios Públicos, estadual e federal, também estão deixando muito a desejar, pois optaram por fechar acordos questionáveis e promotores combativos foram retirados das funções de investigação. O poder judiciário também está sendo cúmplice quando decide atendendo a pedidos escusos das mineradoras, desrespeitando os princípios constitucionais, tais como os da dignidade da pessoa humana e da precaução, e violando o artigo 225 da Constituição que exige garantir um meio ambiental saudável. O judiciário se coloca ao lado dos opressores quando é lentíssimo para decidir quando os injustiçados batem à porta do tribunal, mas é veloz em decidir quando é para garantir privilégios e interesses do capital.

Enfim, a humanidade só terá futuro se todas as pessoas de boa vontade, do campo e da cidade, se comprometerem na luta pela construção de uma sociedade do Bem Viver, com estilo de vida simples e austero, e cerrar fileira nas lutas sociais e ambientais pela superação do capitalismo que, como uma máquina de moer e corroer vidas, segue causando cada vez mais devastação socioambiental por meio do agronegócio com uso indiscriminado de agrotóxicos, pelas monoculturas que sacrificam os biomas e pelos megaprojetos de mineração.

Referência

DIAMOND, Jared. COLAPSO – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro: Record, 2013. (Original: 2005)

Belo Horizonte, MG, 19 de fevereiro de 2019.

Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.

1 – Peregrinação ao lado do rio Paraopeba, morto, até o Velho Chico, em Minas Gerais. 30/1 a 02/2/2019

https://www.youtube.com/watch?v=4gfzDbURoVo

2 – Prefeito de Brumadinho, MG, defende minério-dependência e quer só abrandar. 1º/2/2019

https://www.youtube.com/watch?v=ILl90e5iEjg

3 – Crime da VALE e do Estado/Brumadinho/MG: Silêncio, não. Luta, sim, pela vida! -1º/2/2019

https://www.youtube.com/watch?v=0816NtJDMvY

4 – Estado de MG a serviço das mineradoras/Prof. Dr. Klemens/UFMG. Vídeo 1 – 26/1/2019.

https://www.youtube.com/watch?v=HSu2K-scOJM


1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III


2 Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.


3 Conselho Estadual de Política Ambiental.


4 Gustavo Gazzinelli e Ricardo Santiago são os outros autores de uma Ação Popular contra a abertura da Mina Capão Xavier, em Nova Lima, em 2004.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 21/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/21/o-gigante-projeto-de-mineracao-chegou-a-exaustao-e-esta-colocando-em-colapso-as-condicoes-de-vida-de-toda-a-populacao-artigo-de-gilvander-moreira/

Agricultura familiar, saúde e meio ambiente, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime

MOREIRA (2013) destaca que na agricultura familiar há uma importância cada vez maior em se produzir hortaliças e frutas com padrões de qualidade e que sejam livres de resíduos de agrotóxicos, não comprometendo o ambiente agrícola.

O consumo de frutas e hortaliças tornou-se um consenso entre médicos e nutricionistas para uma dieta saudável e como uma alternativa, para a população brasileira e mundial.

A partir de junho de 2009, houve uma mudança de cenário para a agricultura familiar brasileira. Através da Lei nº 11947 foi instituído que, do total dos recursos financeiros repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Pelo menos “30% destinados às aquisições para o abastecimento da merenda escolar deverão ser endereçados àqueles fornecedores, no âmbito do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas”.

O mercado reservado exclusivamente para a agricultura familiar alcançou o volume de aproximadamente R$ 1 bilhão. Apesar de representar uma conquista, o mercado do PNAE impõe também um grande desafio para as organizações produtivas da agricultura familiar.

Nas regiões metropolitanas brasileiras esse desafio é ainda maior, devido ao elevado grau de urbanização, o número de agricultores familiares locais é significativamente menor.

Nestas regiões ocorre a condição particular de apesar de possuírem um mercado consumidor importante, não se conseguir gerar produção em quantidade suficiente por meio dos agricultores familiares.

Como os recursos repassados para a alimentação escolar pelo PNAE/FNDE/MEC são proporcionais ao número de alunos matriculados, parcela significativa desses recursos concentra-se nessas cidades, que possuem um grande número de habitantes.

As 100 maiores prefeituras (1,7% do total) recebem cerca de 30% dos recursos repassados aos municípios. Sendo assim, a Secretaria da Agricultura Familiar definiu a estratégia Nutre Brasil, que consiste em prestar apoio e promover a articulação entre os gestores públicos responsáveis pelas compras do PNAE, nos maiores municípios do país e nas organizações econômicas da agricultura familiar com maior capacidade de fornecimento.

Em São Paulo, estado que concentra 36 dos 100 maiores municípios do país em termos de repasse do FNDE, foi firmada a parceria com o Instituto Via Pública, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, escolhida por meio de chamada pública de projetos, trazendo a público as reflexões dos membros e parceiros do projeto Nutre São Paulo.

E contribuindo para o debate e desenvolvimento das políticas públicas dirigidas para a agricultura familiar, das quais se beneficiam pessoas do campo e da cidade.

Devido ao significativo volume de compras envolvido na alimentação dos alunos da rede pública paulista, o projeto Nutre SP objetivou os empreendimentos de agricultores familiares locais e regionais.

Houveram dificuldades de implementação, uma vez que o número de agricultores que se enquadram no perfil exigido pelo projeto ainda é pequeno quando comparado ao total de agricultores familiares existentes.

Fazer adequações no modo de produção agrícola e identificar melhores formas de promover a comercialização dos produtos são condições para o êxito da viabilidade da agricultura familiar no mercado da merenda escolar.

É percebido ainda que, em virtude da grande demanda de merenda escolar, as compras realizadas dentro de cada estado acabaram impactando fornecedores estabelecidos fora do território estadual, transformando-se, em vários casos, em uma questão nacional, e isso não foi previsto pelo Projeto Nutre Brasil.

O propósito era o de apoiar a aquisição de gêneros produzidos pela agricultura familiar dentro de uma área de abrangência delimitada. É de se lamentar que todos os procedimentos desenvolvidos, mesmo com muito boa abordagem acabem todos gerando suspeições, quando em condições normais provocariam elogios.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.



Referências:

BELIK, W. E SOUZA, R. (2009). “Algumas reflexões sobre os programas de alimentação escolar na América Latina”. Planejamento e políticas públicas Ipea nº 33 jul/dez.2009, p.103-122.

BRASIL. Lei da Agricultura Familiar (Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006).

BRASIL. Lei nº 11947, de 16 de junho de 2009.

CHALITA, M. A. N. & CARVALHO, Y. M. C. “Potencialidades do envolvimento social em torno da construção do selo de qualidade ambiental na região das cabeceiras do Tietê”. Textos para discussão. São Paulo. TD-IEA n.20/2010.

FAO – Irrigation and drainage paper 55, Rome, 1996. 101p.
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/agropecuaria/lspa/lspa_201304comentarios.pdf . Acesso em 19/05/2013.

SILIPRANDI, E. e BELIK, W., “A agricultura familiar e o atendimento à demanda institucional das grandes cidades”. In: Corá, M. A. J., Belik, W. (Orgs.). Análise da inclusão da agricultura familiar na alimentação escolar no estado de São Paulo. São Paulo: Instituto Via Pública, 2012. Disponível em: http://www.mda.gov.br/portal/saf/arquivos/view/alimenta-o-escolar/arquivos-2012/Publica%C3%A7%C3%A3oNutreS%C3%83OPAULO.pdf. Acesso em: 18/01/2012.

VEIGA, J. E., “Debates- Agricultura familiar e sustentabilidade”. Cadernos 396 de Ciência & Tecnologia, Brasília, v.13, nº 3, p.383-404, 1996.
www.agricultura.gov.br/arq…/Hortalicas/…/A_Politica_Nacional de Alimentação e Nutrição e as Iniciativas para aumentar o consumo de frutas e hortaliças no Brasil.pdf. Acesso em16/12/2011.

www.cati.sp.gov.br/projetolupa/index.php.{acesso em 16/01/2012}.

www.fao.org/fcit/fcit-home/en {acesso em 07/6/2013}

www.ceplac.gov.br/radar/artigos. Acesso em 08/06/2011.

MOREIRA, Magda Regina Santiago, Um olhar sobre a agricultura familiar, a saúde humana e o ambiente, Cienc. Cult. vol. 65 no. 3 São Paulo July 2013



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019









Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 21/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/21/agricultura-familiar-saude-e-meio-ambiente-parte-13-artigo-de-roberto-naime/

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A contaminação do meio ambiente por agrotóxicos e a mortandade das abelhas no RS

A contaminação do meio ambiente e a mortandade das abelhas no RS. Entrevista especial com José Renato de Oliveira Barcelos

Registro dos apicultores mostra a morte das abelhas | Foto: Arquivo pessoal

IHU

“Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira”, resume José Renato de Oliveira Barcelos, especialista em direito ambiental, ao comentar os discursos de apicultores e agricultores que divergem sobre as implicações do uso de agrotóxico nas lavouras gaúchas.

“A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso”, explica. Apesar da disputa, frisa, no estado do Rio Grande do Sul, onde foram registrados novos casos de mortandade de abelhas em janeiro deste ano, “as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja”.

De acordo com Barcelos, nos últimos anos os pesquisadores têm reunido mais evidências de que as abelhas estão sendo contaminadas pelos agrotóxicos e que a mortandade registrada nos últimos anos está relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. “Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido – Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte das abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade”, informa.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Barcelos ressalta também que o Brasil vive um “impasse no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos” e que o “tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente”. A mortandade registrada no estado, diz, “é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada”. A solução desse problema, pondera, “está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. (…) No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida”.

José Renato de Oliveira Barcelos é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rios dos Sinos – UNISINOS, especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É membro fundador da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD-Núcleo/RS, da Associação Brasileira de Agroecologia – ABA, do Conselho Superior da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN e do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos – FGCIA.
Confira a entrevista.


Morte das abelhas no RS é registrada pelos apicultores
Foto: Arquivo Pessoal

IHU On-Line – Nos últimos anos, pesquisadores têm alertado para o desaparecimento das abelhas no RS. No entanto, neste ano, noticiou-se a mortandade desses animais em algumas regiões do estado, como em Alegrete, na fronteira oeste, e em São José das Missões, na região norte. O que explica esses dois fenômenos? Há uma correlação entre eles?

José Renato de Oliveira Barcelos – Acredito que essa correlação existe e está cada vez mais evidente. Há muitos anos nos EUA começou um fenômeno chamado “colapso das colmeias”: as colmeias desapareciam e ninguém sabia explicar por que isso acontecia. Embora várias teses tenham surgido para explicar o fenômeno, não se especificou ainda claramente o que ocasionava esse colapso e com qual periodicidade ele acontecia.

No Brasil ainda não se verificou esse fenômeno de colapso das colmeias, mas se verifica uma mortandade de abelhas acima do normal. A morte de abelhas pode ocorrer por vários fatores: por causa de parasitas, de doenças, de fatores ambientais e, inclusive, por conta da contaminação por agrotóxicos.

O que está acontecendo no Brasil e no mundo é algo que aponta na direção de uma mortandade extraordinária e fora de qualquer tipo de parâmetro natural. Ou seja, há um fator que explica esse fenômeno e nós sustentamos que é o uso dos agrotóxicos que está causando essa mortandade. Não se pode deixar de considerar que há uma correlação entre esses fenômenos no estado inteiro.

IHU On-Line – Notícias da imprensa informam que colmeias em áreas próximas ao plantio de soja estão desaparecendo. O senhor tem informações sobre se é mais frequente o desaparecimento ou a mortandade de abelhas em regiões onde há lavouras de monocultivos?

José Renato de Oliveira Barcelos – O que chegou ao nosso conhecimento é que as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja. No entanto acreditamos que pela difusão dos agrotóxicos e pelo modelo de agricultura que se pratica hoje, aliado ao agronegócio, onde há agrotóxico há mortandade.

IHU On-Line – Em quais regiões do estado havia mais presença de abelhas anos atrás e hoje se constata uma diminuição da presença desses animais?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há um relatório da Câmara Setorial do RS que identificou as cinco regiões mais afetadas do estado. É interessante acompanhar essas ocorrências com o perfil geográfico da plantação de soja, o que é mais uma evidência de que esses fatores estão ligados.

Nos últimos meses, nove municípios registraram aumento da mortandade de abelhas, entre eles, Alegrete, Bagé, Caçapava do Sul, Frederico Westphalen, Santana do Livramento, Santiago, São José das Missões e Ijuí. Somente no município de Santiago foram perdidas 200 colmeias e alguns apicultores falam na perda de mil colmeias, com um prejuízo de quase um milhão de reais.

Vídeo gravado por produtor de São José das Missões mostra a morte das abelhas:


IHU On-Line – Como tem se dado a discussão entre aqueles que defendem o uso de agrotóxicos e aqueles que denunciam que a mortandade das abelhas no estado tem ocorrido por conta do uso dessas substâncias?

José Renato de Oliveira Barcelos – O problema é tão grave que ainda não há um consenso na sociedade sobre essa questão que, na nossa avaliação, pode ser um prenúncio de uma catástrofe ambiental. A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso. Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira.

Do ponto de vista científico, há um consenso de que as abelhas são indicadores de qualidade ambiental e esse é um ponto importantíssimo. A mortandade das abelhas é um problema complexo e está diretamente relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. Portanto, a discussão tem que partir de um pressuposto importante de que a abelha é um inseto essencial do ponto de vista da polinização e dos serviços ambientais que ela presta, como o de regulador da biodiversidade. Além disso, há que se considerar que as abelhas são fundamentais na produção da cadeia do mel, que é um produto importante para a economia do RS. Mas há indicativos de que o mel já está contaminado.

O tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente. A mortandade é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada. A solução desse problema está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. Nós entendemos que esse modelo de agricultura que usa o agronegócio está destruindo o planeta. No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida.

Praticamente todos aqueles que são favoráveis aos agrotóxicos dizem que o problema não é o produto em si, mas sim a sua aplicação, a falta de cuidado ao colocar o produto, praticamente transferindo a responsabilidade quase que unicamente para o agricultor. Mas sabemos que não é esse o problema; o problema é exatamente que esses sistemas são incompatíveis, e não há compatibilidade possível entre insetos de controle biológico e inseticidas. Então, precisamos nos dar conta de que o que está em discussão é o modelo de agricultura que se pratica.

Por isso acreditamos que a agroecologia é não somente a alternativa para esse problema, como asalvação do planeta do ponto de vista ambiental. A agroecologia propõe um sistema diferente do da economia em grande escala, um modelo no qual é possível questionar o modo de produção de alimentos em larga escala e discutir a questão de fundo, que é a salvação do planeta.

IHU On-Line – No modelo agroecológico é possível dispensar o uso de agrotóxicos, ou seria preciso usar algum tipo de controle biológico?

José Renato de Oliveira Barcelos – Não sou a pessoa mais adequada para falar sobre o tema, porque não sou especialista na área. Mas o conhecimento que tenho me permite dizer algumas coisas. Primeiro, temos que compreender que estamos numa fase de transição e que o uso desses produtos está inviabilizando o nosso planeta. Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido – Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte de abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade. Com isso quero dizer que existem elementos científicos e pesquisas apontando que o veneno é um dos elementos centrais na problemática da mortandade das abelhas e é para ele que temos que nos voltar.

A tendência, com as mudanças legislativas aprovadas recentemente, inclusive com o pacote do veneno que vai entrar em vigor, tende a agravar ainda mais essa situação, porque fragilizará o Ibama, que é um órgão federal importante na fiscalização, no controle e na avaliação de riscos dos agrotóxicos. Esse trabalho que é feito pelo Ibama possivelmente será realizado pelo Ministério da Agricultura, que não está preparado para fazer esse tipo de análise. Assim, vai aumentar o problema da contaminação, e aumentando a contaminação, aumenta-se também a mortandade das abelhas.

Precisamos, então, de um período de transição para uma nova realidade na qual os processos ecológicos essenciais sejam respeitados, que é o que a Constituição assegura. A responsabilidade disso é do Estado e da sociedade, mas para isso precisamos avançar, dar um passo à frente na concepção de que a responsabilidade pela configuração do planeta é nossa. Temos que parar de tratar a natureza como um objeto e passar a concebê-la como algo que gera ativos. Isso também passa pela discussão sobre a importância das sementes como unidades geradoras de vida, de comunidades biológicas. É evidente que precisamos de alternativas econômicas para suportar o desenvolvimento, mas é perfeitamente possível produzir alimentos sem utilizar agrotóxicos, e isso já está comprovado. Um exemplo é o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

É evidente que ao afirmar que é possível produzir sem nenhuma gota de veneno, estou indo de encontro a uma série de interesses que questionam esse tipo de modelo. Há pouco tempo houve uma suspensão do uso do glifosato através de uma liminar da Vara Federal de Brasília, que causou um problema no país inteiro. Os produtores de soja se organizaram, a liminar foi derrubada e o uso do glifosato passou a ser autorizado para comercialização. Mas diante da denúncia de contaminação, de problemas de câncer e endócrinos e do problema com as abelhas, é preciso adotar o princípio da precaução como um fator importante para examinar, a partir dele, as relações desse tipo de produto com a natureza. A sociedade e as organizações ambientalistas estão se organizando e os pesquisadores também estão comprometidos com isso, porque queremos chegar à raiz do problema.



2016 o MST registrou a mortandade de abelhas no RS, na região da Campanha. À época o produtor João Camargo registrou a perda de todas as colmeias em três horas (Foto: MST)


IHU On-Line – Juridicamente, que disputas têm ocorrido no Brasil por causa do uso de agrotóxicos?

José Renato de Oliveira Barcelos – A lei federal de agrotóxicos nasceu no RS, no movimento ambientalista gaúcho dos anos 1970, junto com o Lutzenberger. Houve uma discussão importante à época, que construiu uma regulação para conter os impactos da ação dos agrotóxicos. Hoje temos vários fóruns nacionais contra o uso de agrotóxicos e uma campanha permanente para conscientizar a sociedade sobre o uso de agrotóxicos, porque desde 2008 o Brasil é o país que mais consome esses produtos no mundo: são consumidos mais de nove litros de veneno por habitante/ano. Alguns pesquisadores sustentam que se trata quase de uma nova onda colonial, porque esses produtos são produzidos por empresas europeias e americanas e aplicados no terceiro mundo, enquanto nos países de origem esses produtos são proibidos.

Vivemos um impasse no país hoje no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos. Mas o uso de agrotóxico está ligado ao uso de sementes transgênicas que, por sua vez, está ligado ao modelo de agricultura que mencionei antes, que é um modelo excludente e que termina com a biodiversidade, mas que é colocado hoje como o modelo hegemônico, embora não seja sustentável. Diante desse problema, o pacote do veneno está sendo objeto de alteração no Congresso Nacional, que propõe desregulações e flexibilização da lei ambiental e federal dos agrotóxicos. Entre as propostas de mudanças, destaca-se a de substituir o termo agrotóxico por pesticida.

Os grandes conglomerados que produzem e comercializam agrotóxicos estão enfrentando bastante resistência em relação aos seus produtos, e faz parte da estratégia política deles flexibilizar as legislações na América Latina, na África, na Índia, para que se introduzam nesses países produtos que são banidos nos países de origem.

Ocorreu recentemente um encontro em Goiás, no qual especialistas discutiram os problemas ambientais na bacia hidrográfica do Rio da Prata, na Argentina, que está recebendo toda a poluição da agroquímica que vem do Norte do Brasil, do Peru e da Venezuela.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há uns dois anos um grupo de pesquisadores independentes do qual eu faço parte começou a discutir o problema da contaminação. E, como todos nós somos ligados a movimentos sociais e a movimentos da sociedade civil, criamos uma articulação chamada “Articulação para a Preservação da Integridade dos Seres e da Biodiversidade”, que se propõe a abordar o problema da contaminação nesse viés que mencionei anteriormente, para chegar à raiz do problema e enfrentar aquelas questões mais espinhosas, sobretudo para dar ao apicultor informações mais seguras e apresentar alternativas para o enfrentamento desse problema.

No mês de março vamos lançar essa articulação para poder pensar de uma forma crítica e estratégica. Uma das medidas que estamos preparando é uma integração judicial, ou seja, queremos judicializar esse problema e chamar o Ministério Público para que ele também ajude nessas questões ambientais.

(EcoDebate, 11/02/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 11/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/11/a-contaminacao-do-meio-ambiente-por-agrotoxicos-e-a-mortandade-das-abelhas-no-rs/

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Por que minha saúde tem a ver com meio ambiente? artigo de Flávia Damaceno

Cuidar da saúde também envolve cuidado com o ambiente


Parque Nacional da Tijuca e a cidade do Rio de Janeiro. Foto: EBC


A saúde humana é um tema amplo e complexo, que envolve diversos fatores como variáveis a se considerar acerca de sua qualidade ou deficiência. Quando se fala em casos de saúde pública global, uma série de questões se relacionam a ocorrência de determinada doença, desde condições ambientais propícias à transmissão, aspectos socioeconômicos e de saneamento, até hábitos culturais. Contudo, mesmo que saúde implique considerações em diversos campos do conhecimento, a predominância de foco sobre a espécie humana e as perspectivas de compreensão sobre o que é saúde a partir desse foco, são características comuns associadas a mais disseminada noção de saúde.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde é o estado completo de bem estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença. É importante que caiba a essa definição levar em conta não só a ausência de doenças, mas também a qualidade da condição em que um ser se encontra. Porém, considerar qualidade dos indivíduos inclui a necessidade de um olhar mais além, que observe e analise a saúde do ambiente a que esses indivíduos estão expostos. Ou seja, a ideia de saúde não deve ser associada exclusivamente sob a ótica de organismos, e sim expandir-se para as teias nas quais esses organismos estão inseridos. Tampouco, os organismos são necessariamente humanos, sendo todas as espécies existentes em um local componentes de um quadro saudável ou não.

Condições ambientais como o clima, podem influenciar ciclos de vida de patógenos e sua relação com seus hospedeiros, por exemplo. No meio silvestre, é aceitável esperar que em ambientes mais úmidos e quentes a transmissão de determinadas doenças seja acelerada, por favorecer a reprodução de muitos vírus, bactérias e protozoários. A distribuição e ocorrência de surtos de malária na África é um exemplo de menor incidência de transmissão da doença em regiões mais desérticas. No ambiente urbano, além da poluição, dinâmicas de temperatura e precipitação também podem corroborar para surtos de infecção como, para citar duas, a dengue e a febre amarela.

Em 2017, regiões de São Paulo passaram por surtos de febre amarela, a partir dos quais houveram campanhas de vacinação e um movimento de conscientização a respeito da proteção aos bugios. Também do grupo dos primatas como os humanos, os bugios são espécies reservatório para o arbovírus (família Flaviridae) da febre amarela. Isso implica pensar a conservação dos bugios e de seu habitat, evitando o desmatamento e não afetando a manutenção natural dos recursos cujos bugios usam para sobreviver, de modo a não gerar estresse para a espécie e impactos que possam afetar negativamente sua imunidade ao patógeno, tornando-os potencialmente mais vulneráveis.

Essa interação que pode propiciar maior incidência de infecção em primatas não humanos é um exemplo de como as alterações antrópicas no ambiente silvestre, como a fragmentação de habitats através da construção de rodovias, uso agrícola ou áreas residenciais e de centros urbanos favorece o contato entre humanos e doenças recorrentes no meio silvestre. O impacto sobre áreas florestais aumenta riscos de veiculação de zoonoses, além do comprometimento de recursos naturais e bens e serviços ecossistêmicos importantes à vida.

Esse e tantos outros casos de doenças infecciosas exemplificam como os processos naturais e a alteração antrópica desses processos se relacionam a cenários mais ou menos favoráveis a ocorrência de doenças e, por conseguinte, a saúde da vida local mais suscetível à infecção. Tendo em vista que mais de 50% dos patógenos que acometem humanos são zoonóticos, isto é, transmitidos por meio de outros animais, quando o número de casos de pessoas buscando atendimento e assistência a saúde aumenta, para quadros de doenças emergentes como a dengue, em certa medida é um reflexo de fatores que elevam a reprodução de patógenos ou a redução da imunidade de hospedeiros, entre outras relações, que acabam por atingir também a população humana.

A Vigilância Epizoótica, que investiga a ocorrência e distribuição de doenças em animais não humanos, identificou os bugios como espécies indicadoras da existência e transmissão do patógeno da febre amarela em uma determinada área, quando ocorrem mortes de indivíduos infectados e é possível reconhecer a causa associada à infecção, servindo-se desse mapeamento como uma ferramenta para identificar áreas de maior risco de transmissão para humanos. Nesse sentido, tem-se um passo inicial na direção de compreender a saúde ambiental, para além da saúde humana somente, apesar de ainda com o viés do fim último de prevenção da febre amarela em humanos.

Os avanços de investigações com essa natureza são extremamente importantes e tornam possíveis várias aplicações do conceito de saúde ambiental e de saúde única (“Onde Health”) para pensar o bem estar da população humana, e também do ambiente silvestre como um todo. A partir da concepção de um meio antrópico interagindo com ecossistemas naturais uma perspectiva abrangente pode desenhar o ambiente e a circulação das doenças de modo integrado, permitindo pensar estratégias para qualidade de vida e para conservação das espécies.

Por essa razão, as áreas protegidas e as unidades de conservação, assim como os parques urbanos, são elementos contribuintes positivos para, além de questões climáticas e de preservação da biodiversidade, a saúde de todos. Cuidar da saúde também envolve cuidado com o ambiente.

Flávia Damaceno
Graduanda em Ciências Ambientais
Unifesp Diadema

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/10/2018




Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 24/10/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/10/24/por-que-minha-saude-tem-a-ver-com-meio-ambiente-artigo-de-flavia-damaceno/