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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A contaminação do meio ambiente por agrotóxicos e a mortandade das abelhas no RS

A contaminação do meio ambiente e a mortandade das abelhas no RS. Entrevista especial com José Renato de Oliveira Barcelos

Registro dos apicultores mostra a morte das abelhas | Foto: Arquivo pessoal

IHU

“Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira”, resume José Renato de Oliveira Barcelos, especialista em direito ambiental, ao comentar os discursos de apicultores e agricultores que divergem sobre as implicações do uso de agrotóxico nas lavouras gaúchas.

“A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso”, explica. Apesar da disputa, frisa, no estado do Rio Grande do Sul, onde foram registrados novos casos de mortandade de abelhas em janeiro deste ano, “as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja”.

De acordo com Barcelos, nos últimos anos os pesquisadores têm reunido mais evidências de que as abelhas estão sendo contaminadas pelos agrotóxicos e que a mortandade registrada nos últimos anos está relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. “Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido – Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte das abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade”, informa.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Barcelos ressalta também que o Brasil vive um “impasse no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos” e que o “tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente”. A mortandade registrada no estado, diz, “é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada”. A solução desse problema, pondera, “está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. (…) No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida”.

José Renato de Oliveira Barcelos é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rios dos Sinos – UNISINOS, especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É membro fundador da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD-Núcleo/RS, da Associação Brasileira de Agroecologia – ABA, do Conselho Superior da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN e do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos – FGCIA.
Confira a entrevista.


Morte das abelhas no RS é registrada pelos apicultores
Foto: Arquivo Pessoal

IHU On-Line – Nos últimos anos, pesquisadores têm alertado para o desaparecimento das abelhas no RS. No entanto, neste ano, noticiou-se a mortandade desses animais em algumas regiões do estado, como em Alegrete, na fronteira oeste, e em São José das Missões, na região norte. O que explica esses dois fenômenos? Há uma correlação entre eles?

José Renato de Oliveira Barcelos – Acredito que essa correlação existe e está cada vez mais evidente. Há muitos anos nos EUA começou um fenômeno chamado “colapso das colmeias”: as colmeias desapareciam e ninguém sabia explicar por que isso acontecia. Embora várias teses tenham surgido para explicar o fenômeno, não se especificou ainda claramente o que ocasionava esse colapso e com qual periodicidade ele acontecia.

No Brasil ainda não se verificou esse fenômeno de colapso das colmeias, mas se verifica uma mortandade de abelhas acima do normal. A morte de abelhas pode ocorrer por vários fatores: por causa de parasitas, de doenças, de fatores ambientais e, inclusive, por conta da contaminação por agrotóxicos.

O que está acontecendo no Brasil e no mundo é algo que aponta na direção de uma mortandade extraordinária e fora de qualquer tipo de parâmetro natural. Ou seja, há um fator que explica esse fenômeno e nós sustentamos que é o uso dos agrotóxicos que está causando essa mortandade. Não se pode deixar de considerar que há uma correlação entre esses fenômenos no estado inteiro.

IHU On-Line – Notícias da imprensa informam que colmeias em áreas próximas ao plantio de soja estão desaparecendo. O senhor tem informações sobre se é mais frequente o desaparecimento ou a mortandade de abelhas em regiões onde há lavouras de monocultivos?

José Renato de Oliveira Barcelos – O que chegou ao nosso conhecimento é que as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja. No entanto acreditamos que pela difusão dos agrotóxicos e pelo modelo de agricultura que se pratica hoje, aliado ao agronegócio, onde há agrotóxico há mortandade.

IHU On-Line – Em quais regiões do estado havia mais presença de abelhas anos atrás e hoje se constata uma diminuição da presença desses animais?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há um relatório da Câmara Setorial do RS que identificou as cinco regiões mais afetadas do estado. É interessante acompanhar essas ocorrências com o perfil geográfico da plantação de soja, o que é mais uma evidência de que esses fatores estão ligados.

Nos últimos meses, nove municípios registraram aumento da mortandade de abelhas, entre eles, Alegrete, Bagé, Caçapava do Sul, Frederico Westphalen, Santana do Livramento, Santiago, São José das Missões e Ijuí. Somente no município de Santiago foram perdidas 200 colmeias e alguns apicultores falam na perda de mil colmeias, com um prejuízo de quase um milhão de reais.

Vídeo gravado por produtor de São José das Missões mostra a morte das abelhas:


IHU On-Line – Como tem se dado a discussão entre aqueles que defendem o uso de agrotóxicos e aqueles que denunciam que a mortandade das abelhas no estado tem ocorrido por conta do uso dessas substâncias?

José Renato de Oliveira Barcelos – O problema é tão grave que ainda não há um consenso na sociedade sobre essa questão que, na nossa avaliação, pode ser um prenúncio de uma catástrofe ambiental. A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso. Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira.

Do ponto de vista científico, há um consenso de que as abelhas são indicadores de qualidade ambiental e esse é um ponto importantíssimo. A mortandade das abelhas é um problema complexo e está diretamente relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. Portanto, a discussão tem que partir de um pressuposto importante de que a abelha é um inseto essencial do ponto de vista da polinização e dos serviços ambientais que ela presta, como o de regulador da biodiversidade. Além disso, há que se considerar que as abelhas são fundamentais na produção da cadeia do mel, que é um produto importante para a economia do RS. Mas há indicativos de que o mel já está contaminado.

O tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente. A mortandade é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada. A solução desse problema está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. Nós entendemos que esse modelo de agricultura que usa o agronegócio está destruindo o planeta. No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida.

Praticamente todos aqueles que são favoráveis aos agrotóxicos dizem que o problema não é o produto em si, mas sim a sua aplicação, a falta de cuidado ao colocar o produto, praticamente transferindo a responsabilidade quase que unicamente para o agricultor. Mas sabemos que não é esse o problema; o problema é exatamente que esses sistemas são incompatíveis, e não há compatibilidade possível entre insetos de controle biológico e inseticidas. Então, precisamos nos dar conta de que o que está em discussão é o modelo de agricultura que se pratica.

Por isso acreditamos que a agroecologia é não somente a alternativa para esse problema, como asalvação do planeta do ponto de vista ambiental. A agroecologia propõe um sistema diferente do da economia em grande escala, um modelo no qual é possível questionar o modo de produção de alimentos em larga escala e discutir a questão de fundo, que é a salvação do planeta.

IHU On-Line – No modelo agroecológico é possível dispensar o uso de agrotóxicos, ou seria preciso usar algum tipo de controle biológico?

José Renato de Oliveira Barcelos – Não sou a pessoa mais adequada para falar sobre o tema, porque não sou especialista na área. Mas o conhecimento que tenho me permite dizer algumas coisas. Primeiro, temos que compreender que estamos numa fase de transição e que o uso desses produtos está inviabilizando o nosso planeta. Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido – Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte de abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade. Com isso quero dizer que existem elementos científicos e pesquisas apontando que o veneno é um dos elementos centrais na problemática da mortandade das abelhas e é para ele que temos que nos voltar.

A tendência, com as mudanças legislativas aprovadas recentemente, inclusive com o pacote do veneno que vai entrar em vigor, tende a agravar ainda mais essa situação, porque fragilizará o Ibama, que é um órgão federal importante na fiscalização, no controle e na avaliação de riscos dos agrotóxicos. Esse trabalho que é feito pelo Ibama possivelmente será realizado pelo Ministério da Agricultura, que não está preparado para fazer esse tipo de análise. Assim, vai aumentar o problema da contaminação, e aumentando a contaminação, aumenta-se também a mortandade das abelhas.

Precisamos, então, de um período de transição para uma nova realidade na qual os processos ecológicos essenciais sejam respeitados, que é o que a Constituição assegura. A responsabilidade disso é do Estado e da sociedade, mas para isso precisamos avançar, dar um passo à frente na concepção de que a responsabilidade pela configuração do planeta é nossa. Temos que parar de tratar a natureza como um objeto e passar a concebê-la como algo que gera ativos. Isso também passa pela discussão sobre a importância das sementes como unidades geradoras de vida, de comunidades biológicas. É evidente que precisamos de alternativas econômicas para suportar o desenvolvimento, mas é perfeitamente possível produzir alimentos sem utilizar agrotóxicos, e isso já está comprovado. Um exemplo é o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

É evidente que ao afirmar que é possível produzir sem nenhuma gota de veneno, estou indo de encontro a uma série de interesses que questionam esse tipo de modelo. Há pouco tempo houve uma suspensão do uso do glifosato através de uma liminar da Vara Federal de Brasília, que causou um problema no país inteiro. Os produtores de soja se organizaram, a liminar foi derrubada e o uso do glifosato passou a ser autorizado para comercialização. Mas diante da denúncia de contaminação, de problemas de câncer e endócrinos e do problema com as abelhas, é preciso adotar o princípio da precaução como um fator importante para examinar, a partir dele, as relações desse tipo de produto com a natureza. A sociedade e as organizações ambientalistas estão se organizando e os pesquisadores também estão comprometidos com isso, porque queremos chegar à raiz do problema.



2016 o MST registrou a mortandade de abelhas no RS, na região da Campanha. À época o produtor João Camargo registrou a perda de todas as colmeias em três horas (Foto: MST)


IHU On-Line – Juridicamente, que disputas têm ocorrido no Brasil por causa do uso de agrotóxicos?

José Renato de Oliveira Barcelos – A lei federal de agrotóxicos nasceu no RS, no movimento ambientalista gaúcho dos anos 1970, junto com o Lutzenberger. Houve uma discussão importante à época, que construiu uma regulação para conter os impactos da ação dos agrotóxicos. Hoje temos vários fóruns nacionais contra o uso de agrotóxicos e uma campanha permanente para conscientizar a sociedade sobre o uso de agrotóxicos, porque desde 2008 o Brasil é o país que mais consome esses produtos no mundo: são consumidos mais de nove litros de veneno por habitante/ano. Alguns pesquisadores sustentam que se trata quase de uma nova onda colonial, porque esses produtos são produzidos por empresas europeias e americanas e aplicados no terceiro mundo, enquanto nos países de origem esses produtos são proibidos.

Vivemos um impasse no país hoje no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos. Mas o uso de agrotóxico está ligado ao uso de sementes transgênicas que, por sua vez, está ligado ao modelo de agricultura que mencionei antes, que é um modelo excludente e que termina com a biodiversidade, mas que é colocado hoje como o modelo hegemônico, embora não seja sustentável. Diante desse problema, o pacote do veneno está sendo objeto de alteração no Congresso Nacional, que propõe desregulações e flexibilização da lei ambiental e federal dos agrotóxicos. Entre as propostas de mudanças, destaca-se a de substituir o termo agrotóxico por pesticida.

Os grandes conglomerados que produzem e comercializam agrotóxicos estão enfrentando bastante resistência em relação aos seus produtos, e faz parte da estratégia política deles flexibilizar as legislações na América Latina, na África, na Índia, para que se introduzam nesses países produtos que são banidos nos países de origem.

Ocorreu recentemente um encontro em Goiás, no qual especialistas discutiram os problemas ambientais na bacia hidrográfica do Rio da Prata, na Argentina, que está recebendo toda a poluição da agroquímica que vem do Norte do Brasil, do Peru e da Venezuela.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há uns dois anos um grupo de pesquisadores independentes do qual eu faço parte começou a discutir o problema da contaminação. E, como todos nós somos ligados a movimentos sociais e a movimentos da sociedade civil, criamos uma articulação chamada “Articulação para a Preservação da Integridade dos Seres e da Biodiversidade”, que se propõe a abordar o problema da contaminação nesse viés que mencionei anteriormente, para chegar à raiz do problema e enfrentar aquelas questões mais espinhosas, sobretudo para dar ao apicultor informações mais seguras e apresentar alternativas para o enfrentamento desse problema.

No mês de março vamos lançar essa articulação para poder pensar de uma forma crítica e estratégica. Uma das medidas que estamos preparando é uma integração judicial, ou seja, queremos judicializar esse problema e chamar o Ministério Público para que ele também ajude nessas questões ambientais.

(EcoDebate, 11/02/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 11/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/11/a-contaminacao-do-meio-ambiente-por-agrotoxicos-e-a-mortandade-das-abelhas-no-rs/

segunda-feira, 5 de março de 2018

Pesquisa investiga os riscos de contaminação em reservatórios de água



Longos períodos de estiagem favorecem a proliferação de cianobactérias (Fotos: Divulgação/ UFRJ)


Na palavra dos pesquisadores, a situação é preocupante, e ainda agravada pelo histórico de escassez de água na região Nordeste. Segundo o resultado de um estudo recente, constatou-se que a água dos cinco principais açudes que abastecem a população do município de Campina Grande e seus entornos, na Paraíba, é imprópria para o consumo humano. De acordo com as análises feitas – metagenômica, toxicologia, dosagem de toxinas e metais pesados –, essas águas contêm níveis consideráveis de cianobactérias, que, por sua vez, produzem quantidade de cianotoxinas acima do tolerável ao organismo humano.

A pesquisa, que foi apresentada ao Ministério da Saúde e está sendo publicada esta semana no jornal científico Frontiers in Microbiology (https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmicb.2018.00176/full), reuniu cientistas do Instituto Butantan, do Instituto de Pesquisas de Campina Grande (Ipesq), do Instituto de Biologia (IB) e do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) – já parceiros no estudo da associação entre o vírus zika e a microcefalia.

Nos laboratórios da Coppe e IB, na UFRJ, no Rio de Janeiro, os testes realizados nas amostras recolhidas nos cinco açudes – Araçagi, Boqueirão, Saulo Maia, Galante e Mazagão – revelaram que aproximadamente 10% das comunidades microbianas dessas águas correspondem a cianobactérias – incluindo grupos potencialmente tóxicos, como Microcystis e Cylindrospermopsis. As análises também indicaram a presença de níveis significativos de cianotoxinas nessas águas. “O estudo demonstrou que açudes submetidos a longos períodos de estiagem estão sujeitos à proliferação de microrganismos tóxicos. E essa água poluída representa uma séria ameaça à saúde humana”, afirma o pesquisador Fabiano Thompson, Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, e responsável pelo trabalho no Rio de Janeiro.


Na sequência acima, apenas as duas últimas imagens mostram peixes saudáveis


A situação descrita pelos pesquisadores é fácil de entender. Como explica Thompson, a ação humana – pela constante descarga de esgoto, efluentes industriais e chorume de fertilizantes agrícolas – leva à formação de uma maior concentração de matéria orgânica, especialmente nitrogênio e fósforo, em ambientes aquáticos, favorecendo o crescimento excessivo de plantas, que formam uma camada densa sobre a superfície da água, impedindo a penetração da luz e prejudicando a fotossíntese nas camadas inferiores. O resultado é um déficit de oxigênio, dificultando a vida de peixes e mamíferos aquáticos. Os que não conseguem sobreviver nesse meio cada vez mais insalubre, contribuem, por sua vez, para aumentar os níveis de matéria orgânica, agravando o círculo vicioso que acentua as más condições dessas águas. É o chamado processo de eutrofização.

“As análises mostram que os açudes que passam por esse processo – resultado tanto como consequência de fatores climáticos quanto pela poluição local – têm elevados níveis de fósforo e nitrogênio. Essa concentração de nutrientes pode fazer proliferar micro-organismos tóxicos presentes nos reservatórios, entre elas as cianobactérias, especialmente em longos períodos de seca”, explica Thompson, que ao lado da equipe se empenha em investigar os mecanismos envolvidos nesse processo e na produção de toxinas tóxicas.

“Na verdade, em nenhum dos cinco açudes, as águas se mostraram adequadas para uso humano ou animal, servindo apenas para navegação. As análises metagenômicas – que buscam extrair e fazer o sequenciamento de todo o material genético presente nas comunidades microbianas do ambiente – realizadas em nosso laboratório indicaram que, além de presentes em número maior do que o permitido em águas para uso humano, as cianobactérias encontradas nos açudes de Campina Grande também apresentavam os genes responsáveis pela produção de cianotoxinas”, constatou o pesquisador.

Para chegar a esses resultados, também foram feitas experiências com embriões do peixes-zebra no Instituto Butantan, que tem sede em São Paulo, como forma de testar a toxicidade das águas dos açudes. “Em Araçagi e no Boqueirão, houve índice de mortalidade de aproximadamente 62% dos embriões de peixes-zebra. No açude de Galante, houve má formação em mais de 60% dos peixes. E constatamos ainda que nenhuma das amostras colhidas nos cinco açudes apresentava condições para o uso humano.”

O problema é que esse tipo de contaminação por toxinas de cianobactérias exige técnicas avançadas de tratamento da água para consumo humano, como um sistema de filtragem por membranas, capaz de reter moléculas muito pequenas. "Mas isso também significa tecnologia cara e de implantação complicada, sobretudo para grandes cidades, como o Rio de Janeiro.“Acho que nem mesmo a cidade de São Paulo conta com uma estação de tratamento desse tipo”, diz Thompson.

O alerta dos pesquisadores é que o consumo de água contaminada por cianotoxinas pode levar a doenças crônicas e até mesmo à morte. Daí a importância de constante monitoramento dos reservatórios para evitar a ocorrência de episódios como o que ocorreu em Caruaru, em 1996, quando aparelhos de hemodiálise tratados com água contaminada deixaram um saldo de 60 mortes.

“Temos que pensar que mais de 800 milhões de pessoas no mundo inteiro não têm acesso a água tratada. No Brasil, o abastecimento ainda é um desafio em diversas regiões do País, sobretudo no Nordeste. A maioria das capitais do nosso país ainda não oferecem água potável tratada em condições adequadas para toda sua população", lamenta Thompson. E acrescenta: “Nesse quadro, o monitoramento constante dos reservatórios, integrando análises de metagenômica, biogeoquímica e toxicidade, pode ser uma ferramenta importante para garantir a qualidade do abastecimento."


Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 01/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3530.2.0

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Edulcorantes artificiais nas águas subterrâneas são indicadores da contaminação por sistemas sépticos

University of Waterloo*
A presença de adoçantes artificiais nas águas subterrâneas rurais mostra evidências de contaminação por águas residuais locais do sistema séptico, disseram pesquisadores da Universidade de Waterloo.


Mapa da área de estudo. A área sombreada verde engloba a área onde os poços domésticos foram amostrados. As amostras de infiltração de águas subterrâneas foram coletadas ao longo da porção destacada (roxa) do rio Nottawasaga. O mapa inserido mostra a localização da bacia hidrográfica do rio Nottawasaga, no sul de Ontário, no Canadá.


Mapa da área de estudo. 

A área sombreada verde engloba a área onde os poços domésticos foram amostrados. As amostras de infiltração de águas subterrâneas foram coletadas ao longo da porção destacada (roxa) do rio Nottawasaga. O mapa inserido mostra a localização da bacia hidrográfica do rio Nottawasaga, no sul de Ontário, no Canadá.



O estudo, publicado no Journal of Environmental Quality , descreve como os pesquisadores testaram poços de águas subterrâneas privadas e rurais na Bacia do rio Nottawasaga, para quatro adoçantes artificiais, como forma de detectar a água subterrânea impactada pelas águas residuais humanas sendo liberada por sistemas sépticos na área.

Os edulcorantes artificiais são os traçadores ideais das águas residuais humanas, à medida que saem do corpo humano essencialmente inalterados e não são completamente removidos pela maioria dos processos de tratamento de águas residuais. A água residual humana contém concentrações relativamente elevadas de edulcorantes artificiais.

“Embora os quatro edulcorantes artificiais que medimos sejam todos aprovados para consumo humano pela Health Canada, são os outros contaminantes sépticos que também podem estar presentes na água que podem representar um risco para a saúde”, diz John Spoelstra, primeiro autor do estudo e professor adjunto em ciências da terra e do meio ambiente em Waterloo. “Quanto às águas subterrâneas que entram em rios e lagos, o efeito de edulcorantes artificiais na maioria dos organismos aquáticos é desconhecido”.

Entre outros contaminantes, o efluente séptico pode conter bactérias como E. coli, vírus, produtos farmacêuticos, produtos de higiene pessoal e níveis elevados de nitrato e amônio.

Na realização do estudo, os pesquisadores descobriram que mais de 30 por cento das amostras analisadas ,a partir de 59 poços privados, mostram níveis detectáveis de, pelo menos, um dos quatro edulcorantes artificiais, indicando a presença de águas residuais humanas. As estimativas revelam que entre 3 e 13 por cento dos poços podem conter pelo menos 1 por cento de efluente séptico.

A equipe também testou a água subterrânea escorrendo para além do rio Nottawasaga e descobriu que 32 por cento de suas amostras foram testadas positivamente para edulcorantes. Mais uma vez, isso indica que algumas das águas subterrâneas que entram no rio Nottawasaga foram afetadas pelo efluente do sistema séptico.

Os sistemas de tanques sépticos são comumente usados em áreas rurais, onde casas não estão conectadas a um sistema de esgoto municipal. O sistema fornece tratamento primário removendo sólidos antes que o efluente seja descarregado para um campo de drenagem séptica onde ocorre um tratamento adicional.

Estudos anteriores do mesmo grupo revelaram a presença de adoçantes artificiais no rio Grand, bem como na água tratada proveniente do rio.

“Nós não ficamos realmente surpresos com os resultados mais recentes, dado o que encontramos em estudos anteriores”, disse Spoelstra, também cientista de pesquisa em meio ambiente e mudança climática no Canadá. “Os sistemas sépticos são projetados para descarregar o efluente para as águas subterrâneas como parte do processo de tratamento de águas residuais. Portanto, a contaminação das águas subterrâneas rasas é um problema comum quando se trata de sistemas sépticos”.


A bacia hidrográfica do rio Nottawasaga, no sul de Ontário, está localizada a oeste do lago Simcoe, a aproximadamente 50 km a norte de Toronto.




Referência:

Spoelstra, J., N. D. Senger, and S. L. Schiff. 2017. Artificial Sweeteners Reveal Septic System Effluent in Rural Groundwater. J. Environ. Qual. 0. doi:10.2134/jeq2017.06.0233
https://dl.sciencesocieties.org/publications/jeq/articles/0/0/jeq2017.06.0233



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/11/2017




Autora: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 09/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/09/edulcorantes-artificiais-nas-aguas-subterraneas-sao-indicadores-da-contaminacao-por-sistemas-septicos/