Mostrando postagens com marcador abelhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador abelhas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Experimento comprova que manejo adequado reduz significativamente a exposição de abelhas a inseticida

Desenvolvidos para matar insetos que prejudicam plantações, os inseticidas naturalmente afetam as abelhas, animais invertebrados extremamente importantes para a polinização de culturas agrícolas e espécies silvestres de plantas. O uso de moléculas menos tóxicas e que se degradam rapidamente, aliado a um gerenciamento da aplicação dos produtos, porém, podem minimizar os danos às colônias de abelhas e, consequentemente, às plantações e à biodiversidade.



Todas as colmeias, tanto da área que recebeu o inseticida quanto da área-controle, possuíam uma rainha com a mesma idade. Na foto, os pesquisadores verificam a presença da rainha (foto: acervo dos pesquisadores)

É o que mostra um estudo publicado na revista Science of the Total Environment por pesquisadores de Portugal e do Brasil, estes últimos apoiados pela FAPESP.

“Os efeitos adversos dos inseticidas são bastante conhecidos nas abelhas e há vários estudos laboratoriais evidenciando isso. Queríamos entender como essa ação se dava em condições de campo, mais realistas, e conseguimos fazer um gerenciamento utilizando diferentes técnicas, de maneira que a aplicação do inseticida afetasse minimamente esses polinizadores”, conta Caio Domingues, que realizou o trabalho como parte do doutorado no Centro de Estudos de Insetos Sociais da Universidade Estadual Paulista (CEIS-Unesp), em Rio Claro, com bolsa da FAPESP.

Segundo Osmar Malaspina, professor do CEIS-Unesp que participou do estudo, as abelhas têm um papel essencial na polinização, inclusive de culturas agrícolas importantes no Brasil, como soja, laranja e café.

“As pesquisas do nosso grupo nos últimos 20 anos mostram como os inseticidas podem ser prejudiciais às abelhas, o que contribuiu para que os próprios fabricantes, junto com os produtores, passassem a buscar formas de reduzir esse impacto”, explica o pesquisador, que coordena o projeto “Interações abelha-agricultura: perspectivas para a utilização sustentável”, apoiado no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP.

O experimento descrito no estudo foi realizado no distrito de Castelo Branco, em Portugal, durante estágio realizado por Domingues na Universidade de Coimbra. O grupo analisou colmeias da espécie Apis mellifera iberiensis.

Foram selecionadas duas áreas similares, de 25 quilômetros quadrados, com alta densidade de plantações de eucalipto (Eucalyptus globulus) e separadas 15 quilômetros uma da outra. No centro de cada uma foi instalado um apiário com cinco colônias cada e, adicionalmente, uma colônia de observação, ou “sentinela”.

Experimento

A aplicação de inseticida foi realizada no final de maio, com alta infestação da principal praga da cultura, o gorgulho-do-eucalipto (Gonipterus platensis). Os pesquisadores verificaram ainda que no período não havia uma grande disponibilidade de recursos, como pólen e néctar, em toda a paisagem e principalmente no local da pulverização do inseticida. Por isso, sabe-se que as abelhas não estavam saindo muito das colmeias para coletar.

“Além disso, as recomendações para uso do produto e as condições ambientais ideais foram seguidas, como temperatura e velocidade do vento adequadas, além de ausência de chuvas até 24 horas depois da aplicação”, diz Domingues, que atualmente é pesquisador na Universidade de Maribor, na Eslovênia.

As análises em busca de resíduos foram realizadas no primeiro dia após a aplicação do agrotóxico e novamente 16 dias depois. Foram analisadas as próprias abelhas, o mel e o pão de abelha, produto proveniente do processamento do pólen com mel e secreções glandulares produzidas pelos insetos.

Na área que não recebeu inseticida, não foram detectados resíduos de acetamiprida nas colônias. E na outra, onde foi aplicado o produto, a maioria das amostras não tinha quantidades detectáveis. As concentrações detectadas, por sua vez, estavam 52 vezes abaixo dos chamados níveis subletais, aqueles que não causam mortalidade imediata.

Além dessas medições, os pesquisadores pesavam todos os quadros das colônias para monitorar o desenvolvimento de adultos e crias ao longo do período de estudo. Analisando fotos dos quadros de crias e recursos das colônias com uso de inteligência artificial, um software identificava e classificava o conteúdo das células nos favos, como larvas, ovos, pólen, néctar, mel e outros.

Bandejas instaladas na frente de cada colônia eram utilizadas para calcular a mortalidade durante o monitoramento, bem como para observar possíveis eventos incomuns de mortalidade.

“Não houve diferenças significativas entre as colônias nas duas áreas. Isso não quer dizer que os resíduos de acetamiprida não chegaram até as abelhas, contudo, as concentrações foram baixas e o risco foi considerado irrisório, baseado em estudos já publicados. Com outros inseticidas, já foi registrada no Estado de São Paulo a morte de colônias inteiras”, afirma Domingues.

Os pesquisadores calcularam, ainda, o deslocamento das abelhas, por meio de uma metodologia que indica a distância que percorreram analisando a dança que realizam no interior da colmeia. Por esses cálculos, apenas uma pequena porcentagem (4%) das danças decodificadas indicou que os insetos permaneceram forrageando num raio de até 500 metros da colônia, onde o inseticida foi aplicado. A maioria (42,57%) chegou a distâncias de 1.500 até 2.000 metros, fora do raio de ação do produto.

Como ressalva, os pesquisadores explicam que esse é um caso específico e que para cada cultura é preciso conhecer o ciclo de vida da praga para poder fazer o gerenciamento da aplicação, assim como entender a distribuição espacial e temporal dos recursos utilizados na paisagem. Dessa forma é possível reduzir o risco de exposição das abelhas.

“No Brasil, isso pode ser adaptado para as culturas mais importantes a um custo mais acessível, usando ‘colmeias sentinelas’ equipadas com balanças automáticas, por exemplo, e determinando as espécies vegetais mais relevantes usadas pelas abelhas por meio de análises do pólen e do mel”, exemplifica Domingues.

“O uso desses métodos poderia ser potencializado com uma regulação mais forte dos agrotóxicos usados no Brasil. Infelizmente, no ano passado houve a liberação de uma enorme quantidade de produtos que podem ser prejudiciais às abelhas, quando já existem outros menos tóxicos e de absorção mais rápida e mesmo produtos biológicos”, lamenta o pesquisador.

O artigo Monitoring the effects of field exposure of acetamiprid to honey bee colonies in Eucalyptus monoculture plantations pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0048969722041274.






Autor: André Julião 
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 26/10/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/experimento-comprova-que-manejo-adequado-reduz-significativamente-a-exposicao-de-abelhas-a-inseticida/39896/

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Projeto integrará informações dos bancos de dados de coleções zoológicas e herbário da Uenf



Uma das coleções zoológicas da Uenf possui mais de 15.000 exemplares de insetos, a maioria abelhas (Fotos: Uenf)


Por mais difícil que pareça, abelhas e morcegos têm uma característica importante em comum. São prestadores de serviços ecossistêmicos. Ambos exercem um papel ecológico fundamental na transferência do pólen entre flores, a polinização. É exatamente essa interação entre animais e plantas que motiva pesquisadores a realizarem projetos em taxonomia, ecologia e evolução de plantas e animais, utilizando material preservado nas coleções. A professora Maria Cristina Gaglianone foi uma dos três docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) contemplados no edital do Programa Apoio à Conservação da Biodiversidade: Coleções Biológicas do Estado do Rio de Janeiro – 2020 da FAPERJ. Ela coordena o projeto “Integrando coleções Zoológicas e Botânicas da Uenf sob a perspectiva de serviços ecossistêmicos”.

Doutora em Entomologia, Maria Cristina diz que as coleções zoológicas e botânicas da Uenf reúnem atualmente mais de 15.000 exemplares de insetos, sendo a maioria abelhas; e a coleção de mamíferos guarda 420 exemplares, a maioria da ordem Chiroptera (morcegos). Já o herbário possui atualmente 12.000 exsicatas. “Todo este material é proveniente principalmente de áreas de restinga, florestas, afloramento rochoso, áreas urbanas e agrícolas da região Norte-Noroeste do Estado do Rio de Janeiro”, esclarece a bióloga. De acordo com ela, as coleções alvo deste projeto estão organizadas de maneira adequada, porém, não integrada. Isso significa que os acervos estão registrados em bancos de dados separados e sem integração entre eles e o projeto pretende iniciar essa integração.

Segundo a bióloga, a manutenção do material das coleções é constante e necessita de investimento e recursos humanos para a sua preservação em condições ideais para estudos, por atuais e futuros pesquisadores. Por isso, o apoio da FAPERJ irá ajudar a manter as coleções em perfeito estado, além de viabilizar sua organização de forma que as informações possam ser rapidamente obtidas, de maneira mais integrada, e disponibilizadas em sistemas nacionais de coleções biológicas, como o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SIBBR - http://www.sibbr.gov.br). Ela esclarece que os recursos serão utilizados para a compra e conserto de equipamentos e materiais de consumo que servem à organização e manutenção dos acervos e para bolsas de apoio técnico para graduados que possam auxiliar na organização das informações associadas às coleções.


Apesar da má reputação dos morcegos, as espécies frugívoras, além de polinizadoras, dispersam sementes e controlam insetos


Atual assessora da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação e Coordenadora Institucional do Programa de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica da Uenf, Maria Cristina está certa de que o projeto, uma fonte de material para pesquisas e para formação de estudantes de graduação e pós-graduação, ampliará as possibilidades de pesquisadores e estudantes realizarem projetos utilizando este material preservado nas coleções. Para ela, o projeto é importante para apoiar a manutenção e ampliação destas coleções e dar maior visibilidade das coleções dentro e fora da UENF.

Maria Cristina explica que o processo de polinização é uma consequência da visita das abelhas e morcegos às flores para coletar recursos que servem à sua alimentação e da sua prole ou ainda na construção de ninhos ou outros comportamentos, no caso das abelhas (além do néctar e pólen, abelhas utilizam resinas, óleos e aromas florais). Segundo a professora, muitas espécies vegetais dependem destes polinizadores e não produzem frutos e sementes na sua ausência. Espécies frugívoras de morcegos têm ainda outro tipo de interação mutualística com a flora, através da dispersão de sementes. “Após consumir os frutos, as sementes excretadas podem germinar, contribuindo para o estabelecimento de novas plantas em diversos locais. Indiretamente, espécies de morcegos insetívoros podem também beneficiar as plantas, pois se alimentam de insetos herbívoros que agem negativamente nas suas populações”, esclarece. Tais processos são considerados serviços ecossistêmicos porque também beneficiam as pessoas, já que além de auxiliarem na produção de alimentos também ajudam na manutenção da biodiversidade.


Com recursos da FAPERJ, Maria Cristina iniciará a integração das coleções de animais e plantas


Apesar da má reputação dos morcegos na maioria das sociedades, em algumas, como a chinesa, por exemplo, eles são símbolos associados à boa sorte. “A representação negativa de morcegos no folclore decorre em grande parte da falta de conhecimento, já que grande parte da sua atividade acontece à noite ou longe dos olhos da maioria das pessoas”, explica o professor Leandro Rabello Monteiro, pesquisador participante do projeto e especialista em morcegos. Ele também atribui a imagem negativa dos morcegos junto à população devido à associação de sua imagem à de vampiros em livros e filmes de horror. Ele esclarece que os morcegos que se alimentam de sangue são apenas três espécies entre mais de 1400 que se alimentam de frutos, insetos e néctar. “Os serviços ecológicos prestados por estas espécies trazem benefícios diretos para o homem, como na polinização, na dispersão de sementes e no controle de populações de insetos indesejáveis”, diz Leandro.

Maria Cristina acha fundamental a ampliação e divulgação de informações sobre a diversidade de espécies e dos serviços prestados por elas para fomentar uma mudança de atitude relativa aos morcegos e às abelhas; muitas pessoas conhecem uma única espécie de abelha, que produz o mel mais consumido e que pode provocar acidentes graves pelas ferroadas. Mas, apenas no Brasil, existem mais de 1.500 espécies de abelhas, incluindo as sem ferrão. Além disso, a maioria das abelhas (cerca de 75% de todas as espécies) não tem comportamento social e constrói ninhos no solo; isso é totalmente desconhecido da maioria das pessoas.

“As coleções são uma ferramenta importante para essa conscientização. Junto com as coleções de pesquisa, pretendemos fortalecer nossas coleções didáticas, que têm o papel de mostrar a nossa biodiversidade aos alunos nas escolas e ao público em geral. Os exemplares das coleções têm um papel central nas ações de popularização da ciência, que está relacionado como um dos objetivos do nosso projeto”, conclui.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Agrotóxico mais encontrado em frutas e verduras no Brasil é fatal para abelhas



Sem abelhas, produção de lavouras fica prejudicada; estudo da Anvisa analisou que mais da metade das 4 mil amostras de 14 alimentos vegetais no país contém agrotóxico

Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil



Um agrotóxico fatal para as abelhas foi o mais encontrado em um levantamento do governo que analisa o resíduo de pesticidas em frutas e verduras vendidas em todo país. O resultado da nova edição do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, foi divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na semana passada e mostrou também que em 51% dos testes realizados foi encontrado alguma quantidade de resíduo de agrotóxico nos alimentos.

Na pesquisa, que testou 4.616 amostras de 14 alimentos, o ingrediente ativo Imidacloprido foi o mais encontrado. Ele é um neonicotinoides, um inseticida derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta e, por isso, é fatal para os polinizadores.

Uma reportagem da Agência Pública e Repórter Brasil revelou em março deste ano que mais de 500 milhões de abelhas morreram em três meses em quatro estados brasileiros. Uma das principais causas das mortes foi justamente o contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides, que atingem o sistema nervoso central das abelhas – afetando a capacidade de aprendizagem e memória, fazendo com que muitas delas percam a capacidade de encontrar o caminho de volta para a colmeia.

Ter um agrotóxico fatal para abelhas como o mais encontrado em alimentos é um alerta também para a saúde humana.

Primeiro porque ele acaba sendo consumido pelas pessoas. “Esse tipo de produto que se espalha por toda a planta é muito perigoso, pois lavar o alimento ou descascá-lo não é suficiente para retirar os resíduos de agrotóxico, que já circulam dentro da planta”, explica engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Outro problema desse tipo de agrotóxico ser o mais detectado no PARA é que, ao matar abelhas, se prejudica também a produção das lavouras. Isso porque elas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas, promovendo a reprodução de diversas espécies. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização das abelhas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

No PARA, o Imidacloprido foi encontrado em 713 amostras, ou cerca de 15% de todos os alimentos testados. Oito produtos agrotóxicos à base de Imidacloprido foram autorizados pelo governo de Jair Bolsonaro neste ano, com registros de comercialização indo para as multinacionais estrangeiras Sulphur Mills, Albaugh Agro (dois registros), Helm, Nufarm, Tide e Tradecorp, e para a nacional AllierBrasil.

Na edição anterior do PARA, com análises feitas entre 2013 e 2015, o Imidacloprido havia sido apenas o quinto ingrediente ativo mais encontrado nas amostras. Segundo a Anvisa, não é possível comparar os resultados porque a metodologia de pesquisa mudou — alimentos e períodos de análise agora são diferentes.
Resultados não são positivos

A pedido da Agência Pública e da Repórter Brasil, especialistas de organizações que estudam o tema dos agrotóxicos analisaram o relatório, disponibilizado no site da Anvisa, e afirmaram que os resultados são alarmantes, ao contrário do que fez parecer o tom otimista da divulgação oficial do relatório.

Para Melgarejo, da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), o relatório acende um alerta. “O número de 23% dos produtos apresentarem agrotóxico acima do permitido é assustador. E os 27% com veneno abaixo do limite não traz tranquilidade”, diz. “Nas definições de limites aceitáveis, é tido como base uma pessoa adulta de 50 quilos. Mas estamos alimentando crianças e bebês com esses mesmos alimentos. Estar abaixo do limite considerado seguro para um adulto de 50 quilos não significa dizer que é seguro para um bebê ou criança.”

Representantes da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida também criticaram o posicionamento da Anvisa em relação ao relatório, qualificado como “roupa bonita para um conteúdo altamente tóxico”. Em nota, a organização diz que apesar do aspecto técnico da publicação, o release divulgado no site da Anvisa é “extremamente otimista”. Segundo eles, o tom é “de uma peça de propaganda política para um relatório que, lido atentamente, traz grandes preocupações para a sociedade.”

A organização completa dizendo que “em um contexto de uso crescente de agrotóxicos ano a ano, e também de aumento sistemático das intoxicações por agrotóxicos, é lamentável ver a Agência que deveria garantir a segurança alimentar da população minimizando resultados gravíssimos sobre as condições da comida servida ao povo brasileiro”.

Para a organização não governamental Greenpeace, a comunicação dos resultados foi “maquiada”. “Os problemas continuam os mesmos, mas a forma otimista que eles divulgaram faz parecer que melhorou, e isso, infelizmente, foi replicado por muitos veículos de imprensa. Ainda temos mais de 50% dos alimentos com alguma quantidade de agrotóxicos. E os 27% com agrotóxicos abaixo do limite são questionáveis, pois esses limites são muito frágeis quando falamos de várias alimentação completas durante o dia, com mistura de alimentos e substâncias, que tem um efeito diferente de um produto isolado”, explica Marina Lacôrte, especialista em Agricultura e Alimentação do Greenpeace.

Criado em 2001, o PARA testou nesta versão 14 produtos da dieta da população brasileira — abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga, pimentão, tomate e uva. As amostras foram recolhidas em estabelecimentos de 77 municípios, entre agosto de 2017 a junho de 2018, ou seja, antes do início do governo de Jair Bolsonaro, no qual 467 produtos agrotóxicos foram liberados em menos de um ano, um recorde histórico.

Do total de amostras analisadas (4.616), em 2.254 (49%) não foram detectados resíduos, 1.290 (28%) apresentaram resíduos com concentrações iguais ou inferiores ao Limite Máximo de Resíduos (LMR), estabelecido pela Anvisa. E em 1.072 amostras (23%) foram identificados resíduos acima do permitido, incluindo até mesmo agrotóxicos proibidos de serem comercializados no Brasil.

Em 0,89% — quase um em cada 100 casos —, foi identificado potencialidade para causar riscos agudos à saúde, com efeitos como enjoo, vômito, dor de cabeça e febre nas 24 horas seguintes ao consumo do alimento.

A visão do governo, por meio da Anvisa, é a de que o resultado do relatório é positivo. “Temos situações pontuais de riscos, mas que não geram nenhum risco a saúde da população. Os dados mostram a segurança dos alimentos que a gente consome hoje”, garantiu Bruno Rios, diretor adjunto da Anvisa, em coletiva após a divulgação dos dados.
Análise não identifica todos agrotóxicos permitidos no Brasil

As coletas analisadas no PARA foram feitas pelas vigilâncias sanitárias e encaminhadas para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens): Instituto Octávio Magalhães (IOM/FUNED/MG), Laboratório Central de Goiás (Lacen/GO) e Instituto Adolfo Lutz (IAL/SP); e para um laboratório privado contratado por processo licitatório.

Segundo o relatório, em cada amostra foram pesquisados até 270 ingredientes ativos, número bastante inferior aos 499 permitidos para serem comercializados no Brasil após avaliação da Anvisa, Ministério da Agricultura e Ibama. Foram detectados resíduos de 122 ingredientes ativos diferentes nas 4.616 amostras analisadas, o que resultou no total de 8.270 detecções de agrotóxicos — em muitos casos foram identificados mais de um tipo de pesticida em um só alimento, mas a Anvisa não especifica quais em seu relatório.

Depois do Imidacloprido, citado no início da reportagem, os ingredientes ativos mais encontrados foram os fungicidas Tebuconazol (570) e o Carbendazim (526) — este último proibido na União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Japão por causar problemas mutagênicos e de toxicidade reprodutiva. Em 2012, os EUA proibiram a importação do suco de laranja brasileiro devido à presença deste fungicida nos produtos.

Entre os 40 ingredientes ativos mais encontrados há o Carbofurano, um produto proibido no Brasil, identificado 52 vezes na atual pesquisa — na edição 2013-2015, o Carbofurano aparecia entre os 30 ingredientes ativos mais encontrados.

Em outubro de 2017, dois meses após o começo das análises, a Anvisa desautorizou a comercialização de agrotóxicos à base de Carbofurano justamente pela persistência de seus resíduos nos alimentos, além de malefícios à saúde humana. Ele também é classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como altamente tóxico do ponto de vista agudo — a que causaria intoxicação nas 24 horas seguidas ao consumo.

De acordo com a Anvisa, a presença de agrotóxicos não autorizados nas análises tem como um dos motivos os poucos registros para culturas consideradas de baixo retorno econômico. Por isso, muitos produtores acabam utilizando agrotóxicos autorizados para uma cultura específica – soja, por exemplo, em outras culturas, caso da uva.
Laranja, goiaba e uva: os três mais com agrotóxicos

Entre os alimentos testados, a laranja foi a que mais apresentou resíduos de agrotóxicos. De 382 análises, apenas 157 não apresentaram vestígios de pesticidas, 173 apresentaram resíduos em concentrações iguais ou inferiores ao permitido pela lei e em 52 casos os níveis de agrotóxico encontrados estavam acima do permitido.

Foram encontrados 47 agrotóxicos diferentes nas laranjas vendidas em supermercados brasileiros, que incluiu até mesmo resíduos de Carbofurano, proibido no Brasil. O mais encontrado na fruta foi o Imidacloprido. Na laranja também foi encontrado a maior exposição para risco agudo. Depois da laranja, a goiaba e a uva foram os alimentos que mais apresentaram riscos agudos.


– No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana, 60% dependem da polinização das abelhas –
Nova metodologia é criticada

Até 2012, os resultados do PARA eram lançados anualmente. Desde então, optou-se por divulgar o relatório compilado de três anos. O último foi divulgado em 2016, com dados de 2013 a 2015. Não houve coletas em 2016, por conta de uma reestruturação no projeto, que só voltou à ativa no segundo semestre de 2017.

Na edição anterior, onde foram analisadas 12.051 amostras em três anos, o percentual de alimentos com agrotóxicos acima do permitido pela lei era de 19,7%, menos do que o atual.

Além disso, até 2015, o PARA trabalhava com uma lista de 25 alimentos a serem analisados, que representavam 70% da cesta de alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira, segundo dados brutos da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2008-2009, que traça o perfil de orçamento doméstico e condição de vida da população brasileira. Agora, a partir da reestruturação, o número de alimentos foi ampliado para 36, mas nem todos os alimentos escolhidos serão analisados anualmente, pois as análises vão variar dentro de cada triênio. Nesta edição, por exemplo, apenas 14 foram analisados, e alimentos como o feijão e a batata ficaram de fora, mas devem entrar nas próximas edições.

A rotatividade é criticada por especialistas da área. “Produtos muito importantes, que estão no prato do brasileiro, não aparecem no resultado. O trigo que vai no pãozinho do dia a dia, o feijão que é um ingrediente tradicional no prato brasileiro. Não é uma boa ideia a Anvisa fracionar as análises para períodos específicos, quando a população consome esses produtos durante todo o ano”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo.

Marina Lacôrte, do Greenpeace, também criticou o baixo número de alimentos apresentados. “Esses dados têm que ser avaliados todo o ano, pois há safras todos os anos. Eles argumentam que essas alterações ocorrem por questões financeiras, mas esse é um investimento necessário que o governo deve fazer: a saúde da população. Se o problema é financeiro então que se retire a isenção de impostos para os agrotóxicos, e utilizem esses impostos para bancar programas como esse”, diz.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/12/2019



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 18/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/18/agrotoxico-mais-encontrado-em-frutas-e-verduras-no-brasil-e-fatal-para-abelhas/

segunda-feira, 11 de março de 2019

Apicultores brasileiros encontram meio bilhão de abelhas mortas em três meses

Albert Einstein previu no século passado que, se as abelhas desaparecessem da superfície da Terra, o homem teria apenas mais quatro anos de vida. A morte em grande escala desse animal, interpretada como apocalíptica na época, é hoje um alerta real. Desde o começo do século, casos de morte e sumiço de abelhas são registrados nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, estudiosos destacam episódios alarmantes a partir de 2005.

Agora, o fenômeno parece chegar ao ápice. Nos últimos três meses, mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores apenas em quatro estados brasileiros, segundo levantamento da Agência Pública e Repórter Brasil. Foram 400 milhões no Rio Grande do Sul, 7 milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso do Sul, segundo estimativas de Associações de apicultura, secretarias de Agricultura e pesquisas realizadas por universidades.



O principal causador, afirmam especialistas e pesquisas laboratoriais analisadas pela reportagem, é o contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década. Esses ingredientes ativos são inseticidas, fatais para insetos, como é o caso da abelha, e quando aplicados por pulverização aérea se espalham pelo ambiente.

As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas do planeta. Voando de flor em flor, elas polinizam e promovem a reprodução de diversas espécies de plantas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e produção animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização deste inseto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

Em Cruz Alta, município de 60 mil habitantes no Rio Grande do Sul, mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro. Cerca de 100 milhões de abelhas apareceram mortas, segundo a Apicultores de Cruz Alta (Apicruz). “Apareceram uns venenos muito bravos. Eles colocam de avião de manhã e à tarde as abelhas já começam a aparecer mortas”, relata o apicultor Salvador Gonçalves, presidente da Apicruz.


Cerca de 100 milhões de abelhas foram encontradas mortas em Cruz Alta apenas no último trimestre

Por receio de contaminação, apicultores jogam fora todo o mel produzido pelos insetos
No Brasil, há mais de 300 espécies de abelhas nativas — entre elas Melipona scutellaris, Melipona quadrifasciata, Melipona fasciculata, Melipona rufiventris, Nannotrigona testaceicornis, Tetragonisca angustula. Em todo país, contando com as estrangeiras, há cerca de 1,6 mil espécies do inseto, segundo relatório do Ibama.

Cada espécie é mais propícia para polinização de determinadas culturas. Por exemplo, a Mamangaba, conhecida popularmente como abelhão, é a principal responsável pela polinização de maracujá. “O que aconteceria se esse inseto fosse extinto? Ou deixaríamos de consumir essas frutas, ou elas ficariam caríssimas, porque o trabalho de polinização para produzi-la teria que ser feito manualmente pelo ser humano”, explica Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa e doutora em Ecologia de Insetos.

A estudiosa conta que até em lavouras que não são dependentes da ação direta dos polinizadores, a presença de abelhas aumenta a safra. “Na de soja, por exemplo, é identificado um aumento em 18% da produção. É importante destacar também o efeito em cadeia. As plantas precisam das abelhas para formar suas sementes e frutos, que são alimento de diversas aves, que por sua vez são a dieta alimentar de outros animais. A morte de abelhas afeta toda a cadeia alimentar”.

Agrotóxicos inimigos das abelhas
Os principais inimigos das abelhas são os agrotóxicos neonicotinoides, uma classe de inseticidas derivados da nicotina, como por exemplo o Clotianidina, Imidacloprid e o Tiametoxam. A diferença para outros venenos é que ele tem a capacidade de se espalhar por todas as partes da planta. Por isso, costuma ser colocado na semente, e tudo acaba com vestígios: flores, ramos, raízes e até no néctar e pólen. Eles são usados em diversas culturas como de algodão, milho, soja, arroz e batata.

Além dos neonicotinoides, há casos de mortandade relacionados também ao uso de agrotóxicos à base de Fipronil, inseticida que age nas células nervosas dos insetos e, além de utilizado contra pragas em culturas como maçã, soja e girassol, é usado até mesmo em coleiras antipulgas de animais domésticos. Muitas vezes esse veneno é aplicado em pulverização aérea, o que o expõe diretamente às abelhas. Segundo pesquisa produzida pela Embrapa em 2004, 19% do agrotóxico manejado através do método de pulverização aérea é dispersado para áreas fora da região de aplicação.

Dentro da colmeia as abelhas vivem em sociedades organizadas, com papéis claros. Elas se dividem em castas — rainha, operárias e zangões. A primeira delas é a única fêmea fértil, é quem coloca os ovos —cerca de 2,5 mil por dia. Os zangões são os machos e têm como papel fecundar a rainha. Já as operárias são as fêmeas responsáveis por praticamente tudo dentro da colmeia: limpeza, coleta de néctar e pólen, alimentação das larvas (abelhas não adultas), elaboração do mel e defesa do lar. A depender do tamanho da caixa e das condições climáticas, uma única colmeia pode abrigar até 100 mil abelhas.

A morte dos polinizadores por contato com os agrotóxicos pode ocorrer de vários modos. O mais comum é quando a operária sai para a polinização. Muitas acabam morrendo na hora, outras ficam desorientadas e infectadas. A partir daquele momento elas tentam voltar a colmeia, mas muitas não resistem ao caminho. As que conseguem voltar acabam infectando toda colmeia — o enxame acaba morto em pouco mais de um dia.

Casos cada vez mais agudos
Não existem números oficiais de mortes de abelhas no país, segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Porém, associações de apicultores e órgãos ligados à secretarias estaduais de Agricultura fazem levantamentos próprios.

Entre dezembro do ano passado e fevereiro de 2019, pelo menos 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas apenas nos estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, segundo apurou a reportagem. Mas o número pode ser muito maior, já que é impossível contabilizar as mortes de abelhas silvestres – aquelas que não são criadas por apicultores.

A maioria dos casos recentes ocorreu no Rio Grande do Sul, onde, segundo a Câmara Setorial de Apicultura da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do estado, foram 400 milhões de baixas desde dezembro do ano passado. O estado é o maior produtor apícola do país, com mais de 400 mil colmeias, de acordo com a Emater. A produção de mel supera 6 mil toneladas por safra, cerca de 15% do total brasileiro.

Arquivo Pessoal
Salvador Gonçalves cria abelhas há 34 anos e é presidente da Apicruz
A Secretaria recebeu comunicados de óbitos em 10 municípios: Jaguari, Sant’Ana do Livramento, Alegrete, Santiago, Livramento, Bagé, Mata, Cruz Alta, Boa Vista do Cadeado, Santa Margarida. Isso significou mais de 1% das criações de abelhas dizimadas. “O estado tem cerca de 463 mil colmeias. Dessas, cerca de 5 mil foram completamente perdidas. O prejuízo está em torno de 150 toneladas de mel”, conta Aldo Machado dos Santos, coordenador da Câmara Setorial de Apicultura gaúcha.

Por meio de notícias da imprensa, investigações do Ministério Público e estudos científicos, a reportagem identificou casos de mortandade de abelhas em pelo menos dez estados brasileiros desde 2005: Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

O engenheiro agrônomo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Aroni Sattler é especialista em sanidade das abelhas e trabalha na área desde 1973. Segundo ele, casos de mortes de enxames se tornaram mais recorrentes na última década. “Devido ao meu trabalho, sempre recebi amostras de abelhas para análises, e vim percebendo que cada vez mais não havia sinais de doenças nos insetos que explicassem mortandades tão agudas”, explica.

No ano passado, ele foi procurado pelo Bioensaios, um laboratório privado, para orientar um trabalho sobre coleta de amostras em casos de mortandade. Foram analisados 30 casos de grandes baixas em enxames no Rio Grande do Sul. Os resultados mostram que cerca de 80% ingeriram ou tiveram contato com Fipronil antes de sucumbir. “Pelos sinais clínicos e pelo histórico apresentado pelos apicultores, percebemos que os agricultores da região misturavam o Fipronil no tanque junto com dessecantes desde o preparo do solo, passando pela fase vegetativa do cultivo e depois na hora da colheita. Se trata de um inseticida, e as abelhas são um tipo de inseto, por isso o ingrediente é bastante tóxico para elas”, detalha.

O especialista aponta que, mesmo naquelas que não apresentaram vestígio dos agrotóxicos, pode ter ocorrido contato. “Nos outros 20% é notado que a coleta das amostras não foi feita adequadamente, ou foi feita em um período muito longo após a mortandade, o que dificulta a identificação dos tóxicos”.


Quem é o culpado?
Desde que começou a fazer análises de abelhas mortas, o engenheiro agrônomo Aroni Sattler emitiu 30 laudos para apicultores do Rio Grande do Sul que comprovam o contato dos insetos com pesticidas. A partir daí eles podem levar os casos à Justiça e buscar ressarcimento. O especialista alerta para um risco ainda maior, o das abelhas nativas silvestres, pois não há como enumerar quantas estão morrendo e nem denunciar quem aplicou o veneno. “O impacto do uso desses agrotóxicos atinge um raio de 3 a 5 quilômetros das lavouras. Tudo no entorno desaparece”, afirma.

Aroni Sattler destaca também que muitas vezes os desastres ocorrem por falta de informação. “Há casos de mortandade que acontecem porque os agricultores utilizam o agrotóxico de modo errado, ou até mesmo, por falta de conhecimento, eles acham que a abelha prejudica a lavoura e passam veneno”.

O coordenador da Câmara Setorial de Apicultura do Rio Grande do Sul, Aldo Machado, afirma que há necessidade de um trabalho de conscientização: “Precisamos de agrônomos nos campos, acompanhando essas aplicações, vendo se está sendo feito conforme a bula”.


Apicultores dizem que crise começou no final do ano passado com uso desenfreado de agrotóxicos. Cerca de 100 milhões de abelhas morreram na cidade, um quinto do total de abelhas mortas no país

Multinacional é condenada por morte de trabalhador por agrotóxicos
Em decisão inédita, viúva ganhou processo contra empresa norte-americana. Há dez anos, seu marido foi contaminado em fazenda da Del Monte no Ceará. Ela ainda não recebeu a indenização

Sobre realizar as denúncias, ele explica que o canal indicado são as defensorias agrícolas ligadas às secretarias estaduais ou municipais. Além disso, é aconselhável informar a Polícia Militar Ambiental e fazer um boletim de ocorrência na Polícia Civil. “O apicultor tem que vencer o medo e denunciar. Há dois anos, após um grande surto de casos no Rio Grande do Sul, fizemos um levantamento e só existiam dois registros de denúncia. Sabíamos que estava ocorrendo mais, mas sem denúncia não se torna oficial para o Governo”. Só em Cruz Alta, segundo a Associação dos Apicultores de Cruz Alta (Apicruz), 810 colmeias foram totalmente perdidas entre 2015 e 2016 – cerca de 50 milhões de abelhas. Porém, no último trimestre a Apicruz estima que o número de abelhas mortas ultrapasse 100 milhões no município.

Mas, mesmo em casos onde há um laudo que prove a relação das mortes com agrotóxicos, é difícil conseguir identificar um culpado, afirma Aldo Machado. “Em Cruz Alta, por exemplo, há diversos produtores de soja. Existe a dificuldade de provar quem colocou esse princípio ativo na lavoura. Em muitos casos, diversos produtores utilizam o agrotóxico, aí fica difícil encontrar um culpado para cada caso específico”, pontua.

De acordo com a Lei Federal 7.802/89, a Lei dos Agrotóxicos, quem deve fazer a fiscalização do uso são os órgãos estaduais. Portanto, todo problema decorrente do uso desses químicos deve ser informado às secretarias de Meio ambiente ou de Agricultura dos estados.

Há base legal para considerar a morte de abelha como crime ambiental. De acordo com o artigo 56 da Lei de Crimes Ambientais é crime “Produzir, processar, embalar, importar, exportar, comercializar, fornecer, transportar, armazenar, guardar, ter em depósito ou usar produto ou substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos seus regulamentos”.

Porém, segundo o Ibama, há grande dificuldade para comprovar que a mortalidade se deu pelo uso em desacordo com as instruções autorizadas no registro. “Quando isso fica comprovado – uso onde não devia, na quantidade que não devia, na época que não devia, usando equipamento que não devia e causando a mortalidade – aí se enquadra no artigo e se trata de crime ambiental”, informa o Instituto, através da assessoria de imprensa.

Milhões de mortes também em São Paulo – e por agrotóxicos
Testes laboratoriais apontaram o contato com agrotóxico como causador da morte de abelhas também no estado de São Paulo, onde a produção de mel chega a 3,7 mil toneladas por safra – cerca de 10% do total nacional. Entre 2014 e 2017, uma pesquisa com a participação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) realizou um mapeamento sobre os fatores que contribuem para a perda de enxames. Em 78 cidades, os pesquisadores contabilizaram 107 produtores que sofreram com perdas de colmeias. Em três anos eles relataram que cerca de 255 milhões de abelhas morreram.

O professor e pesquisador da Unesp Rio Claro Osmar Malaspina, um dos responsáveis pelo trabalho, diz que os casos em São Paulo vêm acontecendo desde 2005. “Eles se acentuam a partir de 2012, e até aquele momento os apicultores não sabiam como, mas todas as abelhas passavam a morrer do nada e em menos de 24 horas. A grande suspeita era de agrotóxicos, mas até aquele momento não tínhamos uma análise para provar isso”.

O projeto começou em 2013 com patrocínio de empresas produtoras de agrotóxicos. Batizado de Colmeia Viva, o projeto recebeu um telefone 0800 para denúncias. Quando uma abelha morria, o apicultor ligava e fazia a queixa. “Após a análise, entregamos um laudo para cada criador, que era público. E ele poderia usá-lo para entrar com ação na Justiça”, explica.

O relatório do mapeamento foi lançado no ano passado com conclusões voltadas para a criação de um plano de ação nacional para boas práticas de aplicações de agrotóxicos. O objetivo é manter uma relação produtiva entre a agricultura e a apicultura, sem que nenhuma das duas áreas saia enfraquecida.

A iniciativa contou com 222 atendimentos voltados a apicultores, das quais 107 originaram visitas ao campo. Em 88 ocorreram coletas de abelhas para análise focada na relação com a aplicação de agrotóxicos. Em 59 casos – cerca de 67% – o resultado foi positivo para resíduos de pesticidas. Em 27 casos, a hipótese é que a aplicação de tóxico tenha sido feita fora da lavoura onde a colmeia fica, e em 21 casos a suspeita é de uso incorreto dentro da própria residência (11 destes foram causados por produtos à base de neonicotinoides e 10 à base de Fipronil).

O grupo também fez um trabalho educativo com agricultores, ensinando modos de aplicação de pesticidas que diminuam o impacto em abelhas. “Nos últimos meses estamos percebendo uma queda nas ocorrências de mortandade, mas ainda temos que esperar mais alguns anos para fazer um novo estudo que confirme isso e nos mostre os motivos”, explica. Nos últimos dois meses as baixas em colmeias foram reduzidas para cerca de 25.

Reavaliação de agrotóxicos
Em decorrência dos casos de mortandade de abelhas, o Ibama deu início em 2012 à reavaliação de diversos ingredientes químicos usados em plantações. O primeiro está sendo o neonicotinoides Imidacloprid, o mais usado do grupo. Empresas declararam ao Ibama a comercialização de 1.934 toneladas de Imidacloprido só em 2010. Simultaneamente, o Instituto está reavaliando também os neonicotinoides Clotianidina e o Tiametoxam, e ao fim dos três processos iniciará os testes com o Fipronil.

Em 19 de julho de 2012 o Ibama chegou a proibir a pulverização aérea do ingrediente ativo Imidacloprid. O órgão determinou também que todos os produtos deveriam conter nas embalagens o seguinte aviso: “Este produto é tóxico para abelhas. A aplicação aérea NÃO É PERMITIDA. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades”. Porém, o Ministério da Agricultura alegou que a aplicação aérea do Imidacloprid era imprescindível para determinadas culturas. Com isso, três meses depois, ficou autorizada a pulverização para culturas de arroz, cana-de-açúcar, soja, trigo e algodão.

Tendo em vista que os agrotóxicos mais nocivos às abelhas estão sendo reavaliados, passando agora pela Avaliação de Risco, o Ibama criou em 2015 um Grupo Técnico de Trabalho para discutir os procedimentos a serem adotados para proteger especificamente as abelhas. O grupo se reúne bimestralmente e conta com 13 participantes vindos do setor acadêmico, da Embrapa, da Indústria e também do Ministério do Meio Ambiente. Sua missão é propor uma avaliação obrigatória de risco de agrotóxicos para abelhas. Porém, não há previsão de quando isso ocorrerá.

Ministério Público Federal cobra respostas
Há procedimentos em curso sobre a morte de abelhas em cinco procuradorias estaduais, no Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, segundo a Procuradoria-Geral da República. A Agência Pública teve acesso a documentos relativos a dois desses casos.

LIDAS
O media training do general Mourão
Como o vice-presidente abandonou o linguajar e os modos rudes da caserna para conquistar a opinião pública e se tornar o “Mozão” dos jornalistas

Maria do Rosário: “Não quero ser vista como a pessoa agredida por Bolsonaro, prefiro ser a mulher que o derrotou”
Em entrevista exclusiva à Pública, a deputada fala sobre sua recente vitória no STF contra o presidente Jair Bolsonaro; comenta o que considera o desmonte da pasta de Direitos Humanos e contextualiza o que é ser mulher no Congresso atual

No Rio Grande do Sul, há uma ação civil pública tramitando na 9ª Vara Federal de Porto Alegre. A ação foi ajuizada em outubro de 2017 contra o Ibama, para obrigar a autarquia a concluir no prazo de seis meses o processo de reavaliação da substância Imidacloprid.

Porém, o Ibama afirma que terá dificuldade de concluir o processo administrativo nesse prazo. Segundo um memorando, o órgão está construindo diversos protocolos de testes, por se tratar de avaliações ainda inéditas no país. A equipe que realiza as reavaliações é composta por apenas cinco analistas ambientais: três biólogos, um químico e um zootecnista. Confira a publicação na íntegra aqui.

Em Mato Grosso do Sul, a Associação de Produtores de Mel de Dourados entrou com uma representação protocolada em março de 2018 pedindo investigação do MPF/MS. Na justificativa, a associação afirma que os apicultores estão perdendo sua renda e produção por causa das mortes de abelhas “pelo uso indiscriminado e abusivo de agrotóxico nas lavouras de cana de açúcar, soja, milho, arroz e outras culturas agrícolas”.

A representação deu origem a uma Notícia de Fato, uma demanda encaminhada aos órgãos para investigação, e agora o MPF de Mato Grosso do Sul avalia se vai instaurar ou não um procedimento próprio.

Leis para reduzir pesticidas e salvar as abelhas

20 de maio é o Dia Mundial das Abelhas, data criada para lembrar a importância desses insetos para a produção de alimentos em escala global. Elas não são as únicas agentes polinizadoras — pássaros, morcegos, esquilos, besouros e diversos outros contribuem para a reprodução das plantas – mas o grande número e espécies de abelhas as colocam no papel principal.

Para defendê-las, a FAO/ONU, em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), elaborou o Código Internacional de Conduta para o Manejo de Pesticidas. A organização destaca, entretanto, que sem a diminuição do uso de agrotóxicos as abelhas continuarão em risco. “Não podemos continuar nos concentrando em aumentar a produção e a produtividade com base no uso generalizado de pesticidas e produtos químicos que ameaçam os cultivos e os polinizadores”, alertou o diretor-geral da agência da ONU, José Graziano da Silva.

A passos lentos, alguns países vão adotando leis para salvar os zangões, rainhas e operárias. O Fipronil já é proibido em toda a União Europeia há mais de uma década. Em 2004, ele foi banido da França após ações que denunciavam o impacto do veneno — naquele ano, cerca de 40% dos insetos criados nos apiários franceses foram encontrados mortos. Os neonicotinoides entraram em discussão logo depois. Em 2013 tiveram os registros congelados por dois anos, e em 2018 veio o banimento permanente.

Até os Estados Unidos caminham na mesma direção. Em 2013, um relatório do Departamento de Agricultura americano (USDA) mostrou que quase um terço das abelhas de colônias do país morreram durante o inverno de 2012/2013. No ano seguinte, o então presidente americano Barack Obama proibiu o uso de neonicotinoides em áreas de vida selvagem.


Autor: Pedro Grigori
Fonte: Agência Pública/Repórter Brasil
Sítio Online da Publicação: Apublica.org
Data: 07/03/2019
Publicação Original: https://apublica.org/2019/03/apicultores-brasileiros-encontram-meio-bilhao-de-abelhas-mortas-em-tres-meses/?utm_source=Republicadores&utm_campaign=0321cdd77a-EMAIL_CAMPAIGN_2019_03_07_05_06&utm_medium=email&utm_term=0_069298921c-0321cdd77a-288598857

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A contaminação do meio ambiente por agrotóxicos e a mortandade das abelhas no RS

A contaminação do meio ambiente e a mortandade das abelhas no RS. Entrevista especial com José Renato de Oliveira Barcelos

Registro dos apicultores mostra a morte das abelhas | Foto: Arquivo pessoal

IHU

“Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira”, resume José Renato de Oliveira Barcelos, especialista em direito ambiental, ao comentar os discursos de apicultores e agricultores que divergem sobre as implicações do uso de agrotóxico nas lavouras gaúchas.

“A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso”, explica. Apesar da disputa, frisa, no estado do Rio Grande do Sul, onde foram registrados novos casos de mortandade de abelhas em janeiro deste ano, “as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja”.

De acordo com Barcelos, nos últimos anos os pesquisadores têm reunido mais evidências de que as abelhas estão sendo contaminadas pelos agrotóxicos e que a mortandade registrada nos últimos anos está relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. “Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido – Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte das abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade”, informa.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Barcelos ressalta também que o Brasil vive um “impasse no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos” e que o “tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente”. A mortandade registrada no estado, diz, “é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada”. A solução desse problema, pondera, “está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. (…) No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida”.

José Renato de Oliveira Barcelos é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rios dos Sinos – UNISINOS, especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É membro fundador da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD-Núcleo/RS, da Associação Brasileira de Agroecologia – ABA, do Conselho Superior da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN e do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos – FGCIA.
Confira a entrevista.


Morte das abelhas no RS é registrada pelos apicultores
Foto: Arquivo Pessoal

IHU On-Line – Nos últimos anos, pesquisadores têm alertado para o desaparecimento das abelhas no RS. No entanto, neste ano, noticiou-se a mortandade desses animais em algumas regiões do estado, como em Alegrete, na fronteira oeste, e em São José das Missões, na região norte. O que explica esses dois fenômenos? Há uma correlação entre eles?

José Renato de Oliveira Barcelos – Acredito que essa correlação existe e está cada vez mais evidente. Há muitos anos nos EUA começou um fenômeno chamado “colapso das colmeias”: as colmeias desapareciam e ninguém sabia explicar por que isso acontecia. Embora várias teses tenham surgido para explicar o fenômeno, não se especificou ainda claramente o que ocasionava esse colapso e com qual periodicidade ele acontecia.

No Brasil ainda não se verificou esse fenômeno de colapso das colmeias, mas se verifica uma mortandade de abelhas acima do normal. A morte de abelhas pode ocorrer por vários fatores: por causa de parasitas, de doenças, de fatores ambientais e, inclusive, por conta da contaminação por agrotóxicos.

O que está acontecendo no Brasil e no mundo é algo que aponta na direção de uma mortandade extraordinária e fora de qualquer tipo de parâmetro natural. Ou seja, há um fator que explica esse fenômeno e nós sustentamos que é o uso dos agrotóxicos que está causando essa mortandade. Não se pode deixar de considerar que há uma correlação entre esses fenômenos no estado inteiro.

IHU On-Line – Notícias da imprensa informam que colmeias em áreas próximas ao plantio de soja estão desaparecendo. O senhor tem informações sobre se é mais frequente o desaparecimento ou a mortandade de abelhas em regiões onde há lavouras de monocultivos?

José Renato de Oliveira Barcelos – O que chegou ao nosso conhecimento é que as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja. No entanto acreditamos que pela difusão dos agrotóxicos e pelo modelo de agricultura que se pratica hoje, aliado ao agronegócio, onde há agrotóxico há mortandade.

IHU On-Line – Em quais regiões do estado havia mais presença de abelhas anos atrás e hoje se constata uma diminuição da presença desses animais?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há um relatório da Câmara Setorial do RS que identificou as cinco regiões mais afetadas do estado. É interessante acompanhar essas ocorrências com o perfil geográfico da plantação de soja, o que é mais uma evidência de que esses fatores estão ligados.

Nos últimos meses, nove municípios registraram aumento da mortandade de abelhas, entre eles, Alegrete, Bagé, Caçapava do Sul, Frederico Westphalen, Santana do Livramento, Santiago, São José das Missões e Ijuí. Somente no município de Santiago foram perdidas 200 colmeias e alguns apicultores falam na perda de mil colmeias, com um prejuízo de quase um milhão de reais.

Vídeo gravado por produtor de São José das Missões mostra a morte das abelhas:


IHU On-Line – Como tem se dado a discussão entre aqueles que defendem o uso de agrotóxicos e aqueles que denunciam que a mortandade das abelhas no estado tem ocorrido por conta do uso dessas substâncias?

José Renato de Oliveira Barcelos – O problema é tão grave que ainda não há um consenso na sociedade sobre essa questão que, na nossa avaliação, pode ser um prenúncio de uma catástrofe ambiental. A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso. Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira.

Do ponto de vista científico, há um consenso de que as abelhas são indicadores de qualidade ambiental e esse é um ponto importantíssimo. A mortandade das abelhas é um problema complexo e está diretamente relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. Portanto, a discussão tem que partir de um pressuposto importante de que a abelha é um inseto essencial do ponto de vista da polinização e dos serviços ambientais que ela presta, como o de regulador da biodiversidade. Além disso, há que se considerar que as abelhas são fundamentais na produção da cadeia do mel, que é um produto importante para a economia do RS. Mas há indicativos de que o mel já está contaminado.

O tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente. A mortandade é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada. A solução desse problema está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. Nós entendemos que esse modelo de agricultura que usa o agronegócio está destruindo o planeta. No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida.

Praticamente todos aqueles que são favoráveis aos agrotóxicos dizem que o problema não é o produto em si, mas sim a sua aplicação, a falta de cuidado ao colocar o produto, praticamente transferindo a responsabilidade quase que unicamente para o agricultor. Mas sabemos que não é esse o problema; o problema é exatamente que esses sistemas são incompatíveis, e não há compatibilidade possível entre insetos de controle biológico e inseticidas. Então, precisamos nos dar conta de que o que está em discussão é o modelo de agricultura que se pratica.

Por isso acreditamos que a agroecologia é não somente a alternativa para esse problema, como asalvação do planeta do ponto de vista ambiental. A agroecologia propõe um sistema diferente do da economia em grande escala, um modelo no qual é possível questionar o modo de produção de alimentos em larga escala e discutir a questão de fundo, que é a salvação do planeta.

IHU On-Line – No modelo agroecológico é possível dispensar o uso de agrotóxicos, ou seria preciso usar algum tipo de controle biológico?

José Renato de Oliveira Barcelos – Não sou a pessoa mais adequada para falar sobre o tema, porque não sou especialista na área. Mas o conhecimento que tenho me permite dizer algumas coisas. Primeiro, temos que compreender que estamos numa fase de transição e que o uso desses produtos está inviabilizando o nosso planeta. Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido – Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte de abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade. Com isso quero dizer que existem elementos científicos e pesquisas apontando que o veneno é um dos elementos centrais na problemática da mortandade das abelhas e é para ele que temos que nos voltar.

A tendência, com as mudanças legislativas aprovadas recentemente, inclusive com o pacote do veneno que vai entrar em vigor, tende a agravar ainda mais essa situação, porque fragilizará o Ibama, que é um órgão federal importante na fiscalização, no controle e na avaliação de riscos dos agrotóxicos. Esse trabalho que é feito pelo Ibama possivelmente será realizado pelo Ministério da Agricultura, que não está preparado para fazer esse tipo de análise. Assim, vai aumentar o problema da contaminação, e aumentando a contaminação, aumenta-se também a mortandade das abelhas.

Precisamos, então, de um período de transição para uma nova realidade na qual os processos ecológicos essenciais sejam respeitados, que é o que a Constituição assegura. A responsabilidade disso é do Estado e da sociedade, mas para isso precisamos avançar, dar um passo à frente na concepção de que a responsabilidade pela configuração do planeta é nossa. Temos que parar de tratar a natureza como um objeto e passar a concebê-la como algo que gera ativos. Isso também passa pela discussão sobre a importância das sementes como unidades geradoras de vida, de comunidades biológicas. É evidente que precisamos de alternativas econômicas para suportar o desenvolvimento, mas é perfeitamente possível produzir alimentos sem utilizar agrotóxicos, e isso já está comprovado. Um exemplo é o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

É evidente que ao afirmar que é possível produzir sem nenhuma gota de veneno, estou indo de encontro a uma série de interesses que questionam esse tipo de modelo. Há pouco tempo houve uma suspensão do uso do glifosato através de uma liminar da Vara Federal de Brasília, que causou um problema no país inteiro. Os produtores de soja se organizaram, a liminar foi derrubada e o uso do glifosato passou a ser autorizado para comercialização. Mas diante da denúncia de contaminação, de problemas de câncer e endócrinos e do problema com as abelhas, é preciso adotar o princípio da precaução como um fator importante para examinar, a partir dele, as relações desse tipo de produto com a natureza. A sociedade e as organizações ambientalistas estão se organizando e os pesquisadores também estão comprometidos com isso, porque queremos chegar à raiz do problema.



2016 o MST registrou a mortandade de abelhas no RS, na região da Campanha. À época o produtor João Camargo registrou a perda de todas as colmeias em três horas (Foto: MST)


IHU On-Line – Juridicamente, que disputas têm ocorrido no Brasil por causa do uso de agrotóxicos?

José Renato de Oliveira Barcelos – A lei federal de agrotóxicos nasceu no RS, no movimento ambientalista gaúcho dos anos 1970, junto com o Lutzenberger. Houve uma discussão importante à época, que construiu uma regulação para conter os impactos da ação dos agrotóxicos. Hoje temos vários fóruns nacionais contra o uso de agrotóxicos e uma campanha permanente para conscientizar a sociedade sobre o uso de agrotóxicos, porque desde 2008 o Brasil é o país que mais consome esses produtos no mundo: são consumidos mais de nove litros de veneno por habitante/ano. Alguns pesquisadores sustentam que se trata quase de uma nova onda colonial, porque esses produtos são produzidos por empresas europeias e americanas e aplicados no terceiro mundo, enquanto nos países de origem esses produtos são proibidos.

Vivemos um impasse no país hoje no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos. Mas o uso de agrotóxico está ligado ao uso de sementes transgênicas que, por sua vez, está ligado ao modelo de agricultura que mencionei antes, que é um modelo excludente e que termina com a biodiversidade, mas que é colocado hoje como o modelo hegemônico, embora não seja sustentável. Diante desse problema, o pacote do veneno está sendo objeto de alteração no Congresso Nacional, que propõe desregulações e flexibilização da lei ambiental e federal dos agrotóxicos. Entre as propostas de mudanças, destaca-se a de substituir o termo agrotóxico por pesticida.

Os grandes conglomerados que produzem e comercializam agrotóxicos estão enfrentando bastante resistência em relação aos seus produtos, e faz parte da estratégia política deles flexibilizar as legislações na América Latina, na África, na Índia, para que se introduzam nesses países produtos que são banidos nos países de origem.

Ocorreu recentemente um encontro em Goiás, no qual especialistas discutiram os problemas ambientais na bacia hidrográfica do Rio da Prata, na Argentina, que está recebendo toda a poluição da agroquímica que vem do Norte do Brasil, do Peru e da Venezuela.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há uns dois anos um grupo de pesquisadores independentes do qual eu faço parte começou a discutir o problema da contaminação. E, como todos nós somos ligados a movimentos sociais e a movimentos da sociedade civil, criamos uma articulação chamada “Articulação para a Preservação da Integridade dos Seres e da Biodiversidade”, que se propõe a abordar o problema da contaminação nesse viés que mencionei anteriormente, para chegar à raiz do problema e enfrentar aquelas questões mais espinhosas, sobretudo para dar ao apicultor informações mais seguras e apresentar alternativas para o enfrentamento desse problema.

No mês de março vamos lançar essa articulação para poder pensar de uma forma crítica e estratégica. Uma das medidas que estamos preparando é uma integração judicial, ou seja, queremos judicializar esse problema e chamar o Ministério Público para que ele também ajude nessas questões ambientais.

(EcoDebate, 11/02/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 11/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/11/a-contaminacao-do-meio-ambiente-por-agrotoxicos-e-a-mortandade-das-abelhas-no-rs/

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Novo estudo relaciona as mudanças climáticas ao potencial declínio de abelhas

Um novo estudo da Northwestern University e do Chicago Botanic Garden descobriu que a mudança climática pode levar à extinção local de abelhas no Arizona e outros climas naturalmente quentes.


Osmia ribifloris

Em um experimento de campo de dois anos que alterou a temperatura dos ninhos de abelhas para simular um clima futuro mais quente, 35% das abelhas morreram no primeiro ano e 70% morreram no segundo ano. Isto é comparado a uma taxa de mortalidade de 1 a 2 por cento no grupo controle.

“As temperaturas projetadas parecem estar empurrando esta espécie contra seus limites fisiológicos”, disse Paul CaraDonna , da Northwestern , que liderou a pesquisa. “Esta é uma evidência de que poderemos ver a extinção local da variedade desta espécie (Osmia ribifloris), o que é bastante sério”.

Esta espécie de abelha (Osmia ribifloris) é nativa do oeste dos Estados Unidos e norte do México. Este tipo particular de abelha solitária constrói ninhos dentro de buracos e rachaduras em tocos de árvores mortas. Como um polinizador primário de arbustos manzanita na natureza, esta abelha pouco estudada pode ter um grande efeito em seu ecossistema.

“Polinizadores nativos são uma parte muito importante do que faz a natureza funcionar sem problemas”, disse CaraDonna, especialista em ecologia de polinização. “Estima-se que cerca de 90% de todas as plantas florescentes se beneficiam da polinização animal. Isso acaba em cerca de mais de 300.000 espécies de plantas em todo o mundo ”.

Para estudar como a mudança climática afeta as abelhas, a equipe de CaraDonna montou três tipos de ambientes de nidificação nas montanhas de Santa Catalina, no Arizona, onde as abelhas prosperam. A equipe manipulou as temperaturas dos ninhos pintando-as para simular climas passados, presentes e futuros. A equipe pintou um terço dos ninhos de preto para absorver mais calor radiante, simulando um futuro clima previsto para os anos de 2040 a 2099. Ao pintar outro terço com um tratamento reflexivo e refrescante, a equipe enviou o terceiro dos ninhos de volta. no tempo para um clima semelhante ao da década de 1950. Como controle, a equipe pintou os últimos terceiros ninhos com uma tinta transparente, deixando sua cor natural de madeira para um grupo de controle. O experimento incluiu 90 ninhos no total, cada um abrigando de 2 a 15 abelhas.

“É muito baixa tecnologia, mas funciona”, disse CaraDonna sobre o experimento. “O campo é tão remoto que algo mais de alta tecnologia com painéis solares ou uma fonte de energia estava fora de questão.”

CaraDonna fez o experimento duas vezes durante duas temporadas seguidas. As abelhas experimentaram os ambientes alterados desde o início do desenvolvimento das larvas até a metamorfose e a diapausa adulta, que é um termo para descrever a hibernação dos insetos. CaraDonna observou que as abelhas em ninhos simulando climas passados e atuais acordaram da diapausa e surgiram em fevereiro, o que é normal.

As abelhas que nidificam nas caixas mais quentes, entretanto, sofreram múltiplas mudanças perturbadoras. As taxas de mortalidade não só eram notavelmente altas, como também saíam da diapausa por um período de tempo muito mais longo. Enquanto as abelhas nesta área tipicamente emergem da diapausa ao longo de 10 a 15 dias, as abelhas no tratamento de aquecimento surgiram ao longo de 50 dias.

“Isso sugere que eles estão respondendo a um ambiente estressante”, disse CaraDonna. “Como os tempos de emergência são alterados, eles agora têm potencialmente menos recursos florais disponíveis para eles como população, e pode ser muito mais difícil encontrar parceiros”.

CaraDonna também notou que as abelhas nos ninhos mais quentes emergiram com corpos menores e gordura corporal mais baixa. Ele acha que isso ocorre porque as temperaturas mais quentes fazem com que o metabolismo das abelhas aumente durante a diapausa, de modo que elas queimam mais rapidamente as reservas de gordura, o que pode ser problemático por natureza quando elas emergem.

“Para os insetos, o tamanho é um grande negócio”, disse ele. “Maior geralmente é melhor. Significa que você tem maiores reservas de energia, o que significa que você pode resistir a mais tempestades. Como uma abelha, isso significa que você provavelmente é capaz de reproduzir mais, o que tem implicações para a estabilidade da população.”

CaraDonna acredita que essas abelhas poderiam subir mais as montanhas para climas mais frios no futuro, mas isso as levará para longe das plantas manzanita, que são sua principal fonte de alimento. Isso não teria apenas consequências para as abelhas, mas também para as plantas que dependem delas para a polinização.

“Esta abelha é provavelmente um dos melhores polinizadores para esta espécie de planta, por isso, se você tirar o polinizador, você pode tirar a planta a longo prazo”, disse ele. “Precisamos entender como a natureza funciona e ver como ela responde a importantes fontes de variação. Caso contrário, não temos a capacidade de mantê-la segura”.


Referência:
CaraDonna PJ, Cunningham JL, Iler AM.
Experimental warming in the field delays phenology and reduces body mass, fat content and survival: Implications for the persistence of a pollinator under climate change.
Funct Ecol. 2018;00:1–12
https://doi.org/10.1111/1365-2435.13151

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/07/2018



Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 02/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/02/novo-estudo-relaciona-as-mudancas-climaticas-ao-potencial-declinio-de-abelhas/

terça-feira, 5 de junho de 2018

Projeto com abelhas nativas pretende recompor espécies em extinção


Foto: Divulgação

No Brasil, existem mais de 300 espécies de abelhas nativas. Grandes responsáveis pela polinização das plantas, também contribuem para a agricultura e produção de alimentos. “Cerca de 75% da polinização nas áreas cultivadas é feita por abelhas. A qualidade dos frutos e das sementes depende, em grande parte, desses insetos”, explica o agrônomo e doutor em Gestão de Recursos Naturais pela Colorado State University, Carlos Hugo Rocha, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. Segundo ele, existem várias espécies de abelhas nativas em risco de extinção, principalmente as naturais de biomas com forte degradação, como a Mata Atlântica. “A destruição de habitats associado ao uso indiscriminado dos agrotóxicos contribuem para o desaparecimento de algumas espécies”, alerta.

Em Curitiba, um trabalho de conclusão do curso de Ciências Biológicas da Universidade Positivo (UP) pretende descobrir a qualidade das plantas polinizadas pelas abelhas nativas sem ferrão que vivem no Jardim de Mel do Parque Barigui e ajudar a recompor essas espécies. Orientados pela professora de Botânica Dayane May, os alunos Bernardo Domingues e Ana Letícia Lowen fizeram a coleta do pólen nas caixas das cinco espécies de abelhas nativas sem ferrão que ficam no local – jataí, manduri, mirim, mandaçaia e guaraipo.

“É importante ter esse conhecimento para promover o aumento da biodiversidade”, reforça Dayane, que no futuro, pretende estender a pesquisa. “Esse projeto ainda pode ser ampliado, já que temos outros alunos interessados no tema”, completa. Para o estudante Bernardo Domingues, que deve terminar seu artigo até o fim deste ano, a pesquisa das abelhas nativas possibilita agregar conhecimento a ações nas suas áreas de maior interesse. “A análise é bastante gratificante e nos ajuda a mostrar o valor das espécies nativas. Temos que proteger o que está perto de nós também”, diz.

Jardim de Mel

Embora já houvesse interesse na palinologia (estudo da estrutura do pólen), a implantação do Jardim de Mel em Curitiba foi um incentivo ao início das pesquisas, de acordo com a professora de Botânica da Universidade Positivo. Para ela, há algumas pesquisas na área, porém ainda são bastante escassas, por ser um estudo muito técnico e de metodologia específica. “A diminuição do número de abelhas nativas também é um fator complicador”, diz. Um contato com o Museu de História Natural do Capão da Imbuia, que conta com dois especialistas em entomologia e caixas de abelhas nativas sem ferrão, foi suficiente para garantir o apoio e o acesso às colmeias.

Retorno

Trazer de volta as abelhas polinizadoras das plantas nativas é objetivo do projeto implantado pela Prefeitura de Curitiba desde setembro do ano passado. A vitrine do Jardins de Mel fica no Parque Barigui e outras caixas de colmeias de abelhas nativas estão no Jardim das Sensações (Jardim Botânico), Casa de Acantonamento do Zoológico de Curitiba, Bosque Reinhard Maack (Hauer), Museu de História Natural do Capão da Imbuia e Parque Tingui.

Para a aluna Ana Letícia, os benefícios vão além da pesquisa. “Precisamos favorecer e disseminar a vegetação nativa, tão degradada pela ação do homem. Ficamos muito felizes por ter esse tipo de iniciativa em nossa cidade”, afirma. Um dos especialistas do Museu de História Natural do Capão da Imbuia e idealizador do projeto, Felipe Thiago de Jesus, avalia positivamente o interesse e a contribuição do Jardins de Mel para a pesquisa. “Ainda tem muito espaço para estudo no campo das abelhas nativas e nós estamos de portas abertas”, comemora.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/06/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 05/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/05/projeto-com-abelhas-nativas-pretende-recompor-especies-em-extincao/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

No interior das colônias, abelhas e formigas se reconhecem e se organizam por meio de compostos que recobrem seus corpos

Como os insetos sociais – abelhas, vespas, formigas e cupins – se reconhecem, organizam-se e dividem as tarefas na completa escuridão de suas colônias? Em 2003, ao planejar sua pesquisa de pós-doutorado na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), o biólogo Fábio Santos do Nascimento verificou que as análises genéticas e os estudos de comportamento não ofereciam uma resposta satisfatória para essa pergunta. Em busca de alternativas, ele começou a estudar um grupo de compostos químicos produzidos pelos insetos, os hidrocarbonetos cuticulares (HCCs), que chamavam a atenção também de grupos de pesquisa dos Estados Unidos e da Europa. Nascimento e o químico Norberto Peporine Lopes, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, logo observaram que os HCCs indicam se a abelha, vespa, formiga ou cupim é macho ou fêmea, operária ou rainha. Cada indivíduo, espécie e colônia apresenta sutis variações na composição dos HCCs que as diferenciam. Esses compostos se mostraram fundamentais também para a divisão de tarefas entre as castas e a coesão das colônias.



Ao liberar HCCs, as rainhas indicam que estão férteis e inibem o ímpeto de acasalamento das operárias, de acordo com um estudo do grupo da USP publicado em junho de 2017 na revista Nature Ecology & Evolution. “É a sinalização química induzida pelas rainhas que mantém as operárias dedicadas à limpeza e à guarda do ninho ou à busca de alimentos”, conta Nascimento, contratado em 2009 como professor da FFCLRP. As equipes de Ribeirão Preto verificaram também que as rainhas de abelhas Melipona scutellaris espalham HCCs sobre os compartimentos em que depositam seus ovos, sinalizando que as operárias não devem mexer ali.

Produzidos por glândulas subcutâneas, os HCCs formam a cera amarelada que reveste o esqueleto externo dos insetos. São substâncias formadas apenas por átomos de carbono e hidrogênio organizados em longas estruturas lineares com ligações simples ou duplas entre os carbonos. “A posição das ligações duplas entre os átomos de carbono varia segundo a espécie ou o gênero dos insetos”, diz Lopes. “E a variação nas estruturas dessas moléculas permite o reconhecimento de indivíduos da mesma colmeia e torna possível o dialeto entre eles.” Em 2003, quando começou a trabalhar com Nascimento, seus equipamentos de análise química caracterizavam hidrocarbonetos com até 40 carbonos, mas agora uma nova técnica de espectrometria de massa adotada em seu laboratório permite a identificação de compostos de cadeia ainda mais longa, com 60 carbonos, que também se mostraram diferentes entre machos e fêmeas e entre rainhas e operárias.

Contato revelador
Essa forma de comunicação depende do contato físico entre os insetos. Uma formiga, por exemplo, reconhecerá que outra formiga é da mesma espécie ou da mesma colônia tocando seu corpo – principalmente a cabeça – com as antenas, dotada de poros ou receptores próprios para a identificação dos HCCs. Por essa razão é que os mais de mil HCCs já identificados são chamados de feromônios superficiais ou de contato. Essa classificação os diferencia dos feromônios sexuais, liberados no ar pelas fêmeas aptas a procriar.

“Nas colmeias, os insetos sociais se comunicam principalmente através de sinais químicos”, informa Lopes. “Fora da colônia, a primeira forma de comunicação entre as espécies é a visual. Se um inseto da mesma espécie ou de outra tentar invadir o formigueiro, as formigas vão reconhecê-lo como inimigo e o atacarão de imediato.” Quando há luz, as vespas Polistes satan se reconhecem também por meio de sinais peculiares em suas faces, de acordo com um estudo conduzido pela bióloga Ivelize Tannure Nascimento, da USP de Ribeirão Preto, e publicado em 2008 na Proceedings of the Royal Society B.


© LÉO RAMOS CHAVES



A formiga Dinoponera australis reconhece, por meio de compostos químicos captados pela antena, se outra da mesma espécie é macho ou fêmea

Dois dias depois de saírem do ovo, as vespas já produzem o HCC característico da colônia, por causa do contato com os outros integrantes do grupo. A composição dessas substâncias pode mudar, em resposta, por exemplo, à variação na dieta. Sob a orientação de Nascimento, o biólogo Lohan Valadares dividiu uma colônia de saúvas em dois grupos e alimentou um com folhas e pétalas de rosa e outro com folhas de extremosa (Lagerstroemia sp.), árvore de flores rosa usada na arborização urbana. Depois, ele colocou as formigas de um grupo em outro. As que chegavam eram hostilizadas. As análises indicaram que o cheiro das formigas tinha mudado depois da alteração da dieta. “Como o perfil químico dos hidrocarbonetos cuticulares se alterou, as formigas que faziam parte de uma mesma colônia deixaram de se reconhecer”, comenta Nascimento.

A habilidade de produzir esses compostos deve ter surgido antes mesmo de os insetos começarem a viver em colônias, há cerca de 100 milhões de anos. Os biólogos Ricarda Kather e Stephen Martin, da Universidade de Salford-Manchester, Inglaterra, examinaram o perfil químico dos HCCs de 241 espécies de insetos, incluindo 164 de hábitos sociais, da ordem Hymenoptera — a maior desse grupo, com 130 mil espécies. Como detalhado em um estudo de 2015 na Journal of Chemical Ecology, espécies solitárias apresentaram um perfil de HCCs tão complexo quanto o das sociais.

Outro grupo da Inglaterra indicou que as antenas – ao menos as das formigas Iridomyrmex purpureus – não apenas recebiam, mas também transmitiam sinais químicos, desse modo ampliando a conclusão do psiquiatra e entomologista suíço Auguste-Henri Forel (1848-1931). No final do século XIX, Forel mostrou que as antenas funcionavam como órgãos capazes de captar sinais químicos ao remover as antenas de quatro espécies de formigas e observar que os insetos se desorientavam e amontoavam-se, independentemente da espécie.

Formigas desnorteadas
Sem HCCs, do mesmo modo, os insetos ficam desnorteados e a organização social se quebra. No laboratório de comportamento e evolução da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, a equipe do biólogo Daniel Kronauer desativou o gene orco, responsável pela produção de receptores dos HCCs, em formigas da espécie Ooceraea biroi, originária do Japão. Assim que saíam da fase larval e tornavam-se adultas, as formigas geneticamente alteradas mostravam de imediato um comportamento incomum para a espécie: não andavam mais em linha, mas se moviam sem direção, a esmo, como detalhado em um artigo de dezembro de 2016 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Os pesquisadores observaram também mudanças nas estruturas cerebrais das formigas, o que indicou que os insetos precisariam dos receptores de odor para o cérebro se desenvolver corretamente.

Os HCCs explicam comportamentos intrigantes dos insetos sociais – e não só o fato de viverem se tocando com as antenas. “Depois de se sujarem ou saírem da água, as formigas se limpam ou se enxugam com as pernas como forma de recuperar a camada de hidrocarbonetos que cobre seu corpo. De outro modo, os guardas da colônia não os reconheceriam e não os deixariam entrar”, exemplifica Nascimento. Outro mistério resolvido se refere ao fato de as abelhas operárias da espécie Melipona scutellarisdecapitarem as rainhas virgens com sete dias, quando poderiam atrair os machos interessados na cópula. Tocando o corpo – principalmente a cabeça – das rainhas virgens, as operárias percebem que o HCC delas é diferente do das rainhas fecundas. A percepção dessa diferença induz à matança, concluiu o biólogo Edmilson Souza, professor da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. Não haveria grandes danos à colmeia porque as rainhas das colônias de abelhas sem ferrão como a uruçu produzem com frequência ovos que originam rainhas.

Ao unirem biologia e química, esses estudos estão complementando os trabalhos sobre genética das abelhas, iniciados pelo geneticista paulista Warwick Kerr na década de 1950, e os de biologia do comportamento de insetos sociais, com a bióloga Vera Imperatriz Fonseca, a partir da década de 1970, e exigem uma visão multidisciplinar dos pesquisadores. “Aqui no laboratório”, conta Nascimento, “todo aluno e pesquisador, mesmo sendo biólogo, tem de ser um pouco químico, aprender a usar o cromatógrafo e a interpretar os resultados que produzirem”.


© RHAINER GUILLERMO FERREIRA / UFSCAR



Uma rede de canais, as traqueias…

As asas vivas de uma libélula

Encontrada no Cerrado e conhecida como morpho por sua semelhança com um gênero de borboletas predominantemente azuis, a libélula Zenithoptera lanei pode ter se tornado o primeiro caso de um inseto adulto com asas constituídas por tecido vivo – e não morto, como se pensava.

O biólogo Rhainer Guillermo Ferreira, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), identificou por meio de imagens de microscopia eletrônica uma rede de canais – as traqueias – em meio às membranas das asas de um azul intenso dessa espécie.


© ANA COTTA / WIKIMEDIA



…contribui para o azul das asas da Zenithoptera lanei

Como detalhado em um artigo publicado em setembro de 2017 na revista Biology Letters, as traqueias têm um diâmetro variando de 3 a 200 nanômetros e devem abastecer com oxigênio as células que produzem uma cera espessa que recobre as asas. Segundo Ferreira, a cera deve refletir a radiação ultravioleta, o que ao mesmo tempo acentua a cor azul das asas e protege o inseto do excesso de luz solar. “Uma das indicações de que as células das asas estão vivas é que o azul perde o brilho rapidamente depois que a libélula morre”, diz ele.

A rede de traqueias deve também contribuir para a sustentação das asas e para o controle da temperatura desses insetos. “Por enquanto, essa espécie é a única com esse tipo de estrutura”, afirma. “Examinamos outras 40 espécies de libélulas e não encontramos nada parecido.”

Projetos
1. Avaliação dos mecanismos exógenos e endógenos que influenciam a variabilidade dos hidrocarbonetos cuticulares em insetos sociais neotropicais (nº 15/25301-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Fábio Santos do Nascimento; Investimento R$ 191.870,92.
2. Metabolismo e distribuição de xenobióticos naturais e sintéticos: Da compreensão dos processos reacionais à geração de imagens teciduais (nº 14/50265-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Norberto Peporine Lopes; Investimento R$ 1.137.805,87.

Artigos científicos
KATHER, R. e MARTIN, S. J. Evolution of Cuticular Hydrocarbons in the Hymenoptera: a Meta-Analysis. Journal of Chemical Ecology. v. 41, n. 10, p. 871-883, 2015.
McKENZIE, S. K. et al. Transcriptomics and neuroanatomy of the clonal raider ant implicate an expanded clade of odorant receptors in chemical communication. PNAS. v. 113, n. 49, p. 14091-6, 2016.
NUNES, T. M. et al. Evolution of queen cuticular hydrocarbons and worker reproduction in stingless bees. Nature Ecology & Evolution. v. 1, 0185, 2017
TANNURE-NASCIMENTO, I.C. et al. The look of royalty: visual and odour signals of reproductive status in a paper wasp. Proceedings of the Royal Society B. v. 275, p. 2555-61, 2008.
GUILLERMO-FERREIRA, R. et al. The unusual tracheal system within the wing membrane of a dragonfly. Biology Letters. v. 13 (5), 20160960, 2017.




Autor: CARLOS FIORAVANTI | ED. 260 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: OUTUBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/10/25/a-linguagem-quimica-dos-insetos/?cat=ciencia