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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Agrotóxico mais encontrado em frutas e verduras no Brasil é fatal para abelhas



Sem abelhas, produção de lavouras fica prejudicada; estudo da Anvisa analisou que mais da metade das 4 mil amostras de 14 alimentos vegetais no país contém agrotóxico

Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil



Um agrotóxico fatal para as abelhas foi o mais encontrado em um levantamento do governo que analisa o resíduo de pesticidas em frutas e verduras vendidas em todo país. O resultado da nova edição do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, foi divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na semana passada e mostrou também que em 51% dos testes realizados foi encontrado alguma quantidade de resíduo de agrotóxico nos alimentos.

Na pesquisa, que testou 4.616 amostras de 14 alimentos, o ingrediente ativo Imidacloprido foi o mais encontrado. Ele é um neonicotinoides, um inseticida derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta e, por isso, é fatal para os polinizadores.

Uma reportagem da Agência Pública e Repórter Brasil revelou em março deste ano que mais de 500 milhões de abelhas morreram em três meses em quatro estados brasileiros. Uma das principais causas das mortes foi justamente o contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides, que atingem o sistema nervoso central das abelhas – afetando a capacidade de aprendizagem e memória, fazendo com que muitas delas percam a capacidade de encontrar o caminho de volta para a colmeia.

Ter um agrotóxico fatal para abelhas como o mais encontrado em alimentos é um alerta também para a saúde humana.

Primeiro porque ele acaba sendo consumido pelas pessoas. “Esse tipo de produto que se espalha por toda a planta é muito perigoso, pois lavar o alimento ou descascá-lo não é suficiente para retirar os resíduos de agrotóxico, que já circulam dentro da planta”, explica engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Outro problema desse tipo de agrotóxico ser o mais detectado no PARA é que, ao matar abelhas, se prejudica também a produção das lavouras. Isso porque elas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas, promovendo a reprodução de diversas espécies. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização das abelhas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

No PARA, o Imidacloprido foi encontrado em 713 amostras, ou cerca de 15% de todos os alimentos testados. Oito produtos agrotóxicos à base de Imidacloprido foram autorizados pelo governo de Jair Bolsonaro neste ano, com registros de comercialização indo para as multinacionais estrangeiras Sulphur Mills, Albaugh Agro (dois registros), Helm, Nufarm, Tide e Tradecorp, e para a nacional AllierBrasil.

Na edição anterior do PARA, com análises feitas entre 2013 e 2015, o Imidacloprido havia sido apenas o quinto ingrediente ativo mais encontrado nas amostras. Segundo a Anvisa, não é possível comparar os resultados porque a metodologia de pesquisa mudou — alimentos e períodos de análise agora são diferentes.
Resultados não são positivos

A pedido da Agência Pública e da Repórter Brasil, especialistas de organizações que estudam o tema dos agrotóxicos analisaram o relatório, disponibilizado no site da Anvisa, e afirmaram que os resultados são alarmantes, ao contrário do que fez parecer o tom otimista da divulgação oficial do relatório.

Para Melgarejo, da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), o relatório acende um alerta. “O número de 23% dos produtos apresentarem agrotóxico acima do permitido é assustador. E os 27% com veneno abaixo do limite não traz tranquilidade”, diz. “Nas definições de limites aceitáveis, é tido como base uma pessoa adulta de 50 quilos. Mas estamos alimentando crianças e bebês com esses mesmos alimentos. Estar abaixo do limite considerado seguro para um adulto de 50 quilos não significa dizer que é seguro para um bebê ou criança.”

Representantes da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida também criticaram o posicionamento da Anvisa em relação ao relatório, qualificado como “roupa bonita para um conteúdo altamente tóxico”. Em nota, a organização diz que apesar do aspecto técnico da publicação, o release divulgado no site da Anvisa é “extremamente otimista”. Segundo eles, o tom é “de uma peça de propaganda política para um relatório que, lido atentamente, traz grandes preocupações para a sociedade.”

A organização completa dizendo que “em um contexto de uso crescente de agrotóxicos ano a ano, e também de aumento sistemático das intoxicações por agrotóxicos, é lamentável ver a Agência que deveria garantir a segurança alimentar da população minimizando resultados gravíssimos sobre as condições da comida servida ao povo brasileiro”.

Para a organização não governamental Greenpeace, a comunicação dos resultados foi “maquiada”. “Os problemas continuam os mesmos, mas a forma otimista que eles divulgaram faz parecer que melhorou, e isso, infelizmente, foi replicado por muitos veículos de imprensa. Ainda temos mais de 50% dos alimentos com alguma quantidade de agrotóxicos. E os 27% com agrotóxicos abaixo do limite são questionáveis, pois esses limites são muito frágeis quando falamos de várias alimentação completas durante o dia, com mistura de alimentos e substâncias, que tem um efeito diferente de um produto isolado”, explica Marina Lacôrte, especialista em Agricultura e Alimentação do Greenpeace.

Criado em 2001, o PARA testou nesta versão 14 produtos da dieta da população brasileira — abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga, pimentão, tomate e uva. As amostras foram recolhidas em estabelecimentos de 77 municípios, entre agosto de 2017 a junho de 2018, ou seja, antes do início do governo de Jair Bolsonaro, no qual 467 produtos agrotóxicos foram liberados em menos de um ano, um recorde histórico.

Do total de amostras analisadas (4.616), em 2.254 (49%) não foram detectados resíduos, 1.290 (28%) apresentaram resíduos com concentrações iguais ou inferiores ao Limite Máximo de Resíduos (LMR), estabelecido pela Anvisa. E em 1.072 amostras (23%) foram identificados resíduos acima do permitido, incluindo até mesmo agrotóxicos proibidos de serem comercializados no Brasil.

Em 0,89% — quase um em cada 100 casos —, foi identificado potencialidade para causar riscos agudos à saúde, com efeitos como enjoo, vômito, dor de cabeça e febre nas 24 horas seguintes ao consumo do alimento.

A visão do governo, por meio da Anvisa, é a de que o resultado do relatório é positivo. “Temos situações pontuais de riscos, mas que não geram nenhum risco a saúde da população. Os dados mostram a segurança dos alimentos que a gente consome hoje”, garantiu Bruno Rios, diretor adjunto da Anvisa, em coletiva após a divulgação dos dados.
Análise não identifica todos agrotóxicos permitidos no Brasil

As coletas analisadas no PARA foram feitas pelas vigilâncias sanitárias e encaminhadas para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens): Instituto Octávio Magalhães (IOM/FUNED/MG), Laboratório Central de Goiás (Lacen/GO) e Instituto Adolfo Lutz (IAL/SP); e para um laboratório privado contratado por processo licitatório.

Segundo o relatório, em cada amostra foram pesquisados até 270 ingredientes ativos, número bastante inferior aos 499 permitidos para serem comercializados no Brasil após avaliação da Anvisa, Ministério da Agricultura e Ibama. Foram detectados resíduos de 122 ingredientes ativos diferentes nas 4.616 amostras analisadas, o que resultou no total de 8.270 detecções de agrotóxicos — em muitos casos foram identificados mais de um tipo de pesticida em um só alimento, mas a Anvisa não especifica quais em seu relatório.

Depois do Imidacloprido, citado no início da reportagem, os ingredientes ativos mais encontrados foram os fungicidas Tebuconazol (570) e o Carbendazim (526) — este último proibido na União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Japão por causar problemas mutagênicos e de toxicidade reprodutiva. Em 2012, os EUA proibiram a importação do suco de laranja brasileiro devido à presença deste fungicida nos produtos.

Entre os 40 ingredientes ativos mais encontrados há o Carbofurano, um produto proibido no Brasil, identificado 52 vezes na atual pesquisa — na edição 2013-2015, o Carbofurano aparecia entre os 30 ingredientes ativos mais encontrados.

Em outubro de 2017, dois meses após o começo das análises, a Anvisa desautorizou a comercialização de agrotóxicos à base de Carbofurano justamente pela persistência de seus resíduos nos alimentos, além de malefícios à saúde humana. Ele também é classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como altamente tóxico do ponto de vista agudo — a que causaria intoxicação nas 24 horas seguidas ao consumo.

De acordo com a Anvisa, a presença de agrotóxicos não autorizados nas análises tem como um dos motivos os poucos registros para culturas consideradas de baixo retorno econômico. Por isso, muitos produtores acabam utilizando agrotóxicos autorizados para uma cultura específica – soja, por exemplo, em outras culturas, caso da uva.
Laranja, goiaba e uva: os três mais com agrotóxicos

Entre os alimentos testados, a laranja foi a que mais apresentou resíduos de agrotóxicos. De 382 análises, apenas 157 não apresentaram vestígios de pesticidas, 173 apresentaram resíduos em concentrações iguais ou inferiores ao permitido pela lei e em 52 casos os níveis de agrotóxico encontrados estavam acima do permitido.

Foram encontrados 47 agrotóxicos diferentes nas laranjas vendidas em supermercados brasileiros, que incluiu até mesmo resíduos de Carbofurano, proibido no Brasil. O mais encontrado na fruta foi o Imidacloprido. Na laranja também foi encontrado a maior exposição para risco agudo. Depois da laranja, a goiaba e a uva foram os alimentos que mais apresentaram riscos agudos.


– No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana, 60% dependem da polinização das abelhas –
Nova metodologia é criticada

Até 2012, os resultados do PARA eram lançados anualmente. Desde então, optou-se por divulgar o relatório compilado de três anos. O último foi divulgado em 2016, com dados de 2013 a 2015. Não houve coletas em 2016, por conta de uma reestruturação no projeto, que só voltou à ativa no segundo semestre de 2017.

Na edição anterior, onde foram analisadas 12.051 amostras em três anos, o percentual de alimentos com agrotóxicos acima do permitido pela lei era de 19,7%, menos do que o atual.

Além disso, até 2015, o PARA trabalhava com uma lista de 25 alimentos a serem analisados, que representavam 70% da cesta de alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira, segundo dados brutos da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2008-2009, que traça o perfil de orçamento doméstico e condição de vida da população brasileira. Agora, a partir da reestruturação, o número de alimentos foi ampliado para 36, mas nem todos os alimentos escolhidos serão analisados anualmente, pois as análises vão variar dentro de cada triênio. Nesta edição, por exemplo, apenas 14 foram analisados, e alimentos como o feijão e a batata ficaram de fora, mas devem entrar nas próximas edições.

A rotatividade é criticada por especialistas da área. “Produtos muito importantes, que estão no prato do brasileiro, não aparecem no resultado. O trigo que vai no pãozinho do dia a dia, o feijão que é um ingrediente tradicional no prato brasileiro. Não é uma boa ideia a Anvisa fracionar as análises para períodos específicos, quando a população consome esses produtos durante todo o ano”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo.

Marina Lacôrte, do Greenpeace, também criticou o baixo número de alimentos apresentados. “Esses dados têm que ser avaliados todo o ano, pois há safras todos os anos. Eles argumentam que essas alterações ocorrem por questões financeiras, mas esse é um investimento necessário que o governo deve fazer: a saúde da população. Se o problema é financeiro então que se retire a isenção de impostos para os agrotóxicos, e utilizem esses impostos para bancar programas como esse”, diz.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/12/2019



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 18/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/18/agrotoxico-mais-encontrado-em-frutas-e-verduras-no-brasil-e-fatal-para-abelhas/

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O que o agrotóxico do agronegócio está matando, por Jacques Távora Alfonsin

“Já foram liberados pela atual administração pública da União 121 agrotóxicos, ou seja, até ali, um por dia. 28 deles classificados como ‘extremamente tóxicos’. Outros 30 produtos já se encontram na fila para registro. A notícia arrola um número significativo de empresas multinacionais e brasileiras que se habilitam à permissão de venda para esse tipo de veneno“, escreve Jacques Távora Alfonsin, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.

IHU





Eis o artigo.

Quanto mais sérias e preocupantes são as advertências das pesquisas e das iniciativas urgentes a serem tomadas em defesa do meio ambiente, em nível nacional e internacional, sobre os prejuízos que, no mundo todo, os agrotóxicos vêm causando às pessoas, à terra, à flora, à fauna, à natureza toda enfim, tanto maior é o esforço do novo (des)governo brasileiro em liberar as licenças para a sua utilização predadora.

De acordo com o site IHU notícias de 3 deste abril, baseado em informação do “De olho nos ruralistas”, já foram liberados pela atual administração pública da União 121 agrotóxicos, ou seja, até ali, um por dia. 28 deles classificados como “extremamente tóxicos”. Outros 30 produtos já se encontram na fila para registro. A notícia arrola um número significativo de empresas multinacionais e brasileiras que se habilitam à permissão de venda para esse tipo de veneno, não só para quem lida com ele, como a publicação revela: “O aumento progressivo no registro de pesticidas no Brasil vem acompanhado de impactos severos para a saúde pública. Entre 2007 e 2017, foram notificados cerca de 1.900 mortes relacionadas ao uso de agrotóxicos, além de 40 mil casos de intoxicação aguda.”

Da gravidade desses números e das providências imediatas que devem ser tomadas para a proteção e defesa de quantas/os sofrem os efeitos diretos e indiretos desse mal – que conta em seu favor com todo o poderoso agronegócio brasileiro, presente em todos os poderes do Estado, bancada ruralista e Ministério da Agricultura especialmente – dão sinal algumas iniciativas acadêmicas e populares que, felizmente, começam a se verificar no país.

Dia 28 de março passado, por exemplo um simpósio internacional foi realizado em Mata-RS, sobre a crescente mortandade de abelhas que se está verificando no mundo todo, por força do emprego de agrotóxicos sobre a terra. Promovido pela APISBio (Articulação Para a Preservação da Integridade dos Seres e da Biodiversidade) e pela APISMA (Associação dos Apicultores e Meliponicultures de Mata), contou com a participação com mais de duas dezenas de entidades e organizações parceiras, além de assessorias jurídicas como a do advogado José Renato de Oliveira Barcelos. O promotor de justiça Éder Fernan do Kegler também se fez presente.

Aquilo que toma por referência um simples “nicho ecológico” como a mortandade de abelhas, poderia ser desconsiderado por sua aparente fragilidade frente ao poderio econômico de sustentação dos venenos agrícolas. Esse pessimismo pode ser enfrentado pelas consequências político-jurídicas que já estão sendo tomadas como resultado do evento. Como publicou o “Sul 21”, em sua edição de 30 de março, dos debates entre conferencistas e participantes do Simpósio, algumas conclusões empoderam o combate contra agrotóxicos, pelo fato de já não restarem algumas dúvidas sobre o porque , onde, quando e como eles nascem, se desenvolvem e agridem o meio ambiente:

“A mortandade de abelhas já tem sido há tempos um alerta quanto a utilização indiscriminada de substâncias nocivas à vida nos cultivos agrícolas. {…} Os agrotóxicos utilizados nos monocultivos de grãos – em especial a soja – são apontados como responsáveis. O fato novo registrado agora é o resultado de laudos científicos que confirmam essa informação e já servem de amparo para uma representação coletiva apresentada junto ao Ministério Público Estadual (MPE/RS) pedindo a abertura de inquérito civil público e propondo ação civil pública e ação penal junto à toda cadeia de responsabilidade que envolve utilizadores, aplicadores, revendedores, distribuidores, importadores e fabricantes.”

Não há de faltar apoio jurídico qualificado ao Ministério Púbico do Estado, para levar adiante o ajuizamento dessas ações em defesa da vida da terra, e de toda a vida que dela depende. O jurista Carlos Frederico Marés, conhecido no Brasil por sua defesa corajosa das/os índias, da terra, do direito socioambiental, tem chamado a atenção, em mais de um dos seus estudos, para as disposições da Constituição Federal sobre a função social da terra, as condições obrigatórias que a/o proprietária/o desse bem deve cumprir, sob pena de seu uso ser julgado como prejudicial, inclusive ao meio-ambiente e, por isso, barrado e punido. Em 2003, o Instituto socioambiental publicou um dos seus trabalhos (“Direito agrário e meio ambiente”), na coletânea “Reforma agrária e meio ambiente”, onde ele adverte:

“Ninguém mais nega que a propriedade deve ter uma função social, mas alguns intransigentes defensores da propriedade absoluta dizem que seu cumprimento se dá com a tão só alta produtividade da terra, são os economistas que reduzem tudo a uma equação de mercado. {…} Esta corrente vê as áreas de proteção ambiental como inimigos da produção e subordinam o direito agrário e a função social da propriedade à produção, não importa do quê, desde que gere lucro, vantagem econômica imediata, não importa, tampouco, nem o futuro nem a felicidade humana.”

Se ninguém mais negava a função social, as políticas públicas agora implementadas pelo Poder Executivo da União mostram que este abre uma grande exceção àquilo que Marés dá como pacífico, e deixa a efetividade prática da função social da propriedade privada, como prevista na Constituição Federal e em muitas outras leis, a mercê do que o jurista aponta como a causa redutiva do seu comando à letra morta: lucro acima de tudo, vantagem econômica imediata, indiferente aos seus efeitos antissociais e ambientais.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul, todavia – essa é a esperança, não só das abelhas como de toda a terra e gente deste Estado – pode e deve exercer o seu poder de agir contra as mortes que o agronegócio agrotóxico está causando, com o explícito apoio da administração pública da República Federativa do Brasil, como a Constituição denomina o nosso país. Será que ele ainda pode ser chamado assim?

(EcoDebate, 15/04/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 15/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/15/o-que-o-agrotoxico-do-agronegocio-esta-matando-por-jacques-tavora-alfonsin/

quinta-feira, 22 de março de 2018

Restrição a agrotóxico usado no milho e na soja começa a valer nesta quinta




Herbicida é utilizado para o combate de ervas daninhas em diversas culturas, como em plantações de soja (Foto: Werneck Almada/ Divulgação Ibama)


A restrição ao agrotóxico Paraquate, usado no milho e na soja, começa nesta quinta-feira (22). Em estudos conduzidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a Fiocruz, a substância foi associada à doença de Parkinson em trabalhadores que entraram em contato com o produto.


Segundo a Anvisa, os indícios de que o agrotóxico pode levar à doença foram encontrados em agricultores -- e não há evidências de que os resíduos encontrados nos alimentos levem à condição.


A doença de Parkinson é uma condição neurológica degenerativa que leva ao tremor, rigidez, distúrbios na fala e problemas de equilíbrio.


Pelos estudos, a partir de quinta-feira (22), agricultores deverão assinar um termo de risco e de responsabilidade sobre o uso do produto e empresas deverão desenvolver folhetos em que enfatizem a toxicidade aguda do paraquate e associação à doença degenerativa.


Distribuidoras do composto também deverão promover cursos para orientar usuários sobre o melhor manejo do agrotóxico. Também foram proibidos a venda de galões menores que 5 litros.


O paraquate é utilizado na agricultura no Brasil para o combate de ervas daninhas em culturas como a do milho, algodão, soja, feijão e cana-de-açúcar.



Proibição e estudos



Em setembro de 2017, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) decidiu proibir a comercialização do paraquate em todo o território brasileiro. Essa proibição, no entanto, só será válida em três anos a partir da decisão.


Assim, as restrições que começam a partir de quinta fazem parte de uma transição para a proibição total.


A agência começou a analisar o produto em 2008. Segundo relatório do GGTOX, grupo de trabalho de toxicidade da Anvisa, o produto tem qualificação toxicológica I, considerado extremante tóxico.


De acordo com a análise das evidências científicas, o grupo considerou haver peso suficiente para comprovar o potencial do herbicida de induzir aberrações cromossômicas em células.



Ainda, em análise da Fiocruz em 2009, foram encontradas evidências suficientes na literatura científica relacionadas à intoxicação aguda e à capacidade do produto de desregular hormônios. Também o paraquate pode promover mutações celulares e afetar o sistema reprodutivo.




Autor: G1 Saúde
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data de Publicação: 21/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/restricao-a-agrotoxico-usado-no-milho-e-na-soja-comeca-a-valer-nesta-quinta.ghtml