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segunda-feira, 27 de março de 2023

Cidades em Movimento apresenta debate sobre a água enquanto direito humano (28/3)

O canal Cidades em Movimento, da Coordenação de Cooperação Social da Presidência Fiocruz (CCSP), apresenta amanhã (28) o encontro “O Direito Humano à Água é Para Todos?”, a partir das 15 horas. O debate faz parte da comemoração do Dia Mundial da Água, celebrado no dia 22 de março e é organizado pela Rede de Vigilância Popular em Saneamento e Saúde, com apoio do projeto de Promoção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis em Centros Urbanos (PTSSCU/CCSP), e será transmitido ao vivo a partir das 15h.

A Rede opera com o entendimento da água como bem fundamental para a vida do planeta, sendo a sua conservação necessária e urgente; com acesso de qualidade para todos, sobretudo para as populações vulnerabilizadas, e garantia de uma gestão democrática dos recursos hídricos e dos sistemas de saneamento. O encontro apresentará ações da sociedade civil do Rio de Janeiro que apontam caminhos para um horizonte saudável no cuidado e governança das águas.

O evento conta com a participação de Adriana Sotero, bióloga, pesquisadora titular do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental (Ensp/Fiocruz); Victória Alves, geógrafa, coordenadora do projeto CocôZap (DataLabe); Rejany Ferreira, geógrafa, membro do Observatório da Bacia Hidrográfica do Cabal do Cunha e da Cooperação Social da Fiocruz; e Gisele Moura, cientista ambiental, co-coordenadora na Rede Favela Sustentável.

A Rede de Vigilância Popular em Saneamento e Saúde foi criada em 2022, após intenso processo de resistência social à concessão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) à iniciativa privada, ocorrida em 2021. Ao longo deste processo, diferentes organizações da sociedade civil, instituições, movimentos sociais, coletivos, entidades acadêmicas, partidárias e apartidárias mobilizaram-se contra a mercantilização da água e do saneamento e pelo seu reconhecimento como um Direito Humano e Bem Comum.

Os objetivos da Rede são:

● Apresentar à sociedade informações de que a concessão à iniciativa privada não garantirá a universalização do serviço de saneamento, disputando a narrativa de que são as empresas privadas que solucionarão os problemas;

● Desenvolver processos de formação política que conectem saberes acadêmicos e populares e contribuam para agenda de reconstrução democrática do país;

● Desenvolver práticas inovadoras na área de participação e controle social;

● Conectar diferentes sujeitos coletivos que sofrem violações de direitos nos territórios e cidades, buscando alternativas para enfrentá-los;

● Incidir sobre as corporações privadas do setor de saneamento atuantes no Rio de Janeiro.

● Garantir acesso ao sistema de justiça para parcela da população que vem tendo o Direito Humano à água violado;

● Fazer incidência política sobre o legislativo e o executivo para implementação de políticas de adaptação e mitigação climática.

Debate “O Direito Humano à Água é Para Todos?”

Realização: Rede de Vigilância Popular em Saneamento e Saúde
Apoio: Projeto de Promoção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis em Centros Urbanos da Coordenação de Cooperação Social da Fiocruz
Data: 28/03
Horário: 15h
Link para transmissão







Autor: Cooperação Social da Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 27/03/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/cidades-em-movimento-apresenta-debate-sobre-agua-enquanto-direito-humano-28/3

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Em 2019 quase 38% da população tinha alguma dificuldade de acesso à água

Em 2019 quase 38% da população tinha alguma dificuldade de acesso à água

Quase 38% da população do país tinha alguma vulnerabilidade de acesso à água, o que poderia dificultar a higienização das mãos e de objetos em 2019, período anterior à pandemia de Covid-19.
Resumo
Apenas 62,2% da população consumia água oriunda de rede geral de distribuição, com abastecimento diário e tinha estrutura de armazenamento.
3,4% viviam em domicílios que não estavam ligados à rede geral de água nem tinham canalização. No Norte do país esse percentual era ainda maior, 10,7%.
9,8% da população residia em domicílios com seis ou mais moradores. A proporção de pretos e pardos que viviam nessa situação era quase o dobro da população branca.
22,0% dos brasileiros que viviam na pobreza moravam em domicílio com seis ou mais pessoas.
Antes da pandemia, 19,7% das pessoas residiam em domicílios com mais de dois moradores por dormitório, o que pode dificultar o isolamento em caso de infecção.
8,1% da população que vivia na pobreza não tinha banheiro em casa.

Quase 38% da população do país tinha alguma vulnerabilidade de acesso à água, o que poderia dificultar a higienização das mãos e de objetos em 2019, período anterior à pandemia de Covid-19.

Enquanto 22,4% moravam em domicílios sem abastecimento diário ou estrutura de armazenamento de água, 11,9% eram abastecidos por outra forma que não a rede geral. Além disso, 3,4% dos domicílios não estavam ligados à rede geral de água nem contavam com canalização.

Os dados são dos Indicadores Sociais de Moradia no Contexto da Pré-Pandemia de Covid-19, divulgados, hoje (23), pelo IBGE. O estudo aprofunda a análise das condições de vida da população brasileira, com foco em características dos domicílios: abastecimento de água; adensamento domiciliar; existência de banheiro e rendimento domiciliar. Os indicadores foram gerados a partir da PNAD Contínua 2019 e estão disponíveis no hotsite covid19.ibge.gov.br.

“No contexto atual, no qual autoridades de saúde apontam a importância do distanciamento social e da lavagem das mãos com água e sabão para o combate à pandemia, o IBGE considera fundamental disponibilizar informações que auxiliem a superação da crise e a proteção da população frente ao grave quadro de saúde pública global”, explica o analista do estudo, Bruno Mandelli Perez.

Essas dificuldades de higienização eram ainda maiores entre as grandes regiões do país. No Norte, 10,7% da população brasileira residia em domicílios sem canalização interna de água e abastecidos principalmente de outra forma, que não a rede geral de distribuição de água. No Nordeste, essa proporção era de 7,9%. Ambos os valores estavam acima da média nacional (3,4%). Entre as unidades da federação, o maior valor foi verificado no Pará, com 13,8%.



O percentual de pessoas pretas ou pardas (4,8%) que viviam em domicílios que não tinham na rede geral a sua principal forma de abastecimento de água e não contavam com canalização interna nos domicílios era bem maior do que a população de brancos (1,6%).

A análise revela, ainda, que 10,4% das pessoas que residiam nas áreas urbanas do Brasil viviam em domicílios que, mesmo abastecidos principalmente pela rede geral de água, tinham frequência de abastecimento inferior à diária. Já nas áreas rurais, 18,8% das pessoas moravam em domicílios que não tinham na rede geral a sua principal forma de abastecimento de água e não contavam com canalização interna nos domicílios.

“Esses dados tornam ainda mais evidente a desigualdade no abastecimento de água nos domicílios brasileiros. Somente 62,2% da população dispunha de água oriunda de rede geral de distribuição, com abastecimento diário e com estrutura de armazenamento em seu domicílio, e, portanto, tinha melhores condições de cumprir as recomendações de higienização”, explica Perez.

Um em cada dez brasileiros vivia em domicílio com seis pessoas ou mais

Outra preocupação das autoridades sanitárias para controle da disseminação do vírus é o número de pessoas por domicílio (adensamento domiciliar) e a possibilidade de isolamento na residência no caso de infecção de algum morador. Sobre isso, os dados do IBGE mostram que, em 2019, 27,0% da população brasileira vivia em domicílios com três pessoas. Já 9,8% da população brasileira residia em domicílios com seis ou mais moradores.

O estado do Amapá (32,5%), assim como a região metropolitana de Macapá (32,4%) e a capital, Macapá (32,0%), apresentaram a maior proporção de pessoas vivendo em domicílios com seis pessoas ou mais, em 2019.



Esse indicador também está correlacionado a cor ou raça e a renda dos moradores. A proporção de domicílios com seis ou mais moradores era 12,3% entre a população preta ou parda e 6,5% na população branca. Entre a população que vivia na pobreza, com menos de US$ 5,50 por dia ou R$ 436 per capita por mês – medida adotada pelo Banco Mundial para identificar a pobreza em países em desenvolvimento como Brasil –, 22,0% residiam em domicílios com seis ou mais pessoas.

19,7% da população morava em domicílios com dois moradores por dormitório

Antes da pandemia, 19,7% das pessoas viviam em domicílios com mais de dois moradores por dormitório. Na região Norte, esse percentual era ainda maior (35,4%), com destaque para o estado de Roraima (46,5%). No outro extremo, estava Santa Catarina, onde 10,5% da população morava em domicílios com mais de dois moradores por dormitório.

“Isso mostra a dificuldade de alguns brasileiros de praticarem o isolamento social no domicílio caso algum morador apresente algum sintoma”, comenta Perez.

8,1% da população que vivia na pobreza morava em domicílios sem banheiro


Além das dificuldades de acesso à água e o excessivo número de moradores por cômodo, algumas famílias brasileiras ainda viviam em domicílios sem banheiro. Isso foi verificado em 2,6% da população. No Norte do país, 11,0% dos moradores não tinham banheiro em casa.

Entre a população que vivia na pobreza, mais da metade (57,2%) residia em domicílios com mais de três moradores por banheiro. Já 8,1% em domicílios sem o cômodo usado para higienização pessoal.

Dados contra o coronavírus

Desde abril do ano passado, o IBGE disponibiliza dados de pesquisas próprias ou em parceria com outras instituições para a construção de cenários e no monitoramento das políticas públicas voltadas ao combate da pandemia causada pela Covid-19 no país. Esse é mais um estudo com esse propósito. Outros podem ser consultados no hotsite covid19.ibge.gov.br.

Fonte: IBGE

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/06/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: IBGE
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/23/em-2019-quase-38-da-populacao-tinha-alguma-dificuldade-de-acesso-a-agua/

sexta-feira, 20 de março de 2020

Dia da água: 75 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a saneamento, artigo de Elias Oliveira


Presente em uma extensa massa no planeta e fonte de vida para a humanidade, a água é considerada símbolo de riqueza, um recurso importante para o mundo. Não por acaso, um dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU é o de assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e o saneamento para todos. Com o objetivo de colocar em discussão a importância de preservação deste recurso, o dia 22 de março é reconhecido como o Dia Internacional da Água.

A falta de saneamento básico pode comprometer na educação e crescimento da população. De acordo com um estudo do Instituto Millenium, no Brasil, a Frequência Escolar Proporcional – síntese de quatro indicadores que medem se os alunos cursam a série compatível com sua idade, está fortemente correlacionada com o acesso a saneamento básico, água encanada e energia elétrica.

O estudo revela também que cerca de 85% dos municípios brasileiros são atendidos por serviços de tratamento de água, esgoto e coleta de lixo, mas isso deixa ainda 75 milhões de pessoas desprovidas destes serviços básicos. E esta é uma das várias facetas de uma realidade que pode ser transformada através dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um apelo universal da Organização das Nações Unidas à ação para acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar que todas as pessoas tenham paz e prosperidade.

Focado em Água Potável e Saneamento, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU número 6 visa assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos. Quando olhamos para o cenário brasileiro, dados do Instituto Trata Brasil revelam que, atualmente, apenas 41,5% dos municípios possui o Plano Municipal de Saneamento Básico, regulamentado ou não. Apesar de ainda longe do ideal, os pontos monitorados pelo levantamento, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos, drenagem e manejo de águas pluviais vêm apresentando notável crescimento de atendimento nos últimos anos.

Mesmo avançando em distribuição de água potável, ainda se perde muito neste processo no Brasil. Ao distribuir água para garantir consumo, os sistemas sofrem perdas de 38,45% – um cenário muito preocupante. A Região Norte é a que mais perde neste processo: 55,53%.

Portanto tão importante quanto trazer à tona esta discussão, é necessário reforçar que cada um de nós, tem sua responsabilidade perante este cenário e pode assumir um compromisso com os ODS para mudar este cenário. Para saber mais sobre os ODSs e a Agenda 2030, acesse: https://nacoesunidas.org/pos2015/

Neste Dia Mundial da Água, assuma seu papel para mudar este jogo no Brasil e no Mundo.

Elias Oliveira, gestor institucional da unidade de negócio Sabará Químicos e Ingredientes, membro da Comissão de Estudo de Produtos Químicos para Saneamento Básico, Água e Esgoto da ABNT, entre outros.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/03/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 20/03/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/03/20/dia-da-agua-75-milhoes-de-brasileiros-ainda-nao-tem-acesso-a-saneamento-artigo-de-elias-oliveira/

O desafio mundial de proteger a Água, por Rodrigo Berté e André M. Pelanda




A ONU (Organização das Nações Unidas) declarou em 1993, o dia 22 de março como o Dia Mundial da Água, a partir das recomendações da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

A água é fonte de vida e essencial para a sobrevivência das espécies, inclusive do homem. O nosso organismo possui mais de 70% de água, suprindo as necessidades básicas e de saúde de qualquer indivíduo. O Brasil é privilegiado quanto aos recursos hídricos, visto que é megadiverso — assim, 25% da biodiversidade do planeta está no nosso país, incluindo a água doce.

Quando falamos em escassez de água, pode até soar estranho se observarmos o cenário nacional da grande quantidade de chuvas. Como exemplo, temos as ocorrências no Sudeste e os desastres causados pelo mau ordenamento urbano e territorial dos municípios, julgando a chuva como o maior fator de risco na urbanização.

É um desafio para os gestores públicos criar mecanismos de proteção dos mananciais de água e, em especial, a proteção dos rios, como fonte de abastecimento no meio urbano e nos grandes centros. As políticas públicas de saneamento devem ir mais além do que debates, movimentos etc. Deve-se enfrentar e coibir as formas irregulares de moradias, em especial, da destinação de resíduos domésticos lançados em algum rio ou mar.

Por isso, fazer referência ao dia 22 como Dia Mundial da Água é algo de tamanha importância. Necessitamos de água de boa qualidade e em grande quantidade. Em alguns países há disputa pela água, o que ainda não ocorre aqui no Brasil. Devemos seguir os bons exemplos e “plantar água”, ou seja, proteger as nascentes, plantar árvores no entorno, nas margens dos rios e, cada vez mais, deixar claro para a sociedade a importância da água para as atuais e futuras gerações.

Nesta importante data e nas demais, vamos evitar o desperdício e fazer uma reflexão profunda sobre o tema junto aos nossos filhos, família, alunos, escolas e comunidade em geral.

Rodrigo Berté, diretor da Escola Superior de Saúde, Biociências, Meio Ambiente e Humanidades do Centro Universitário Internacional Uninter; e André M. Pelanda, professor dos cursos da área ambiental da instituição.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/03/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 20/03/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/03/20/o-desafio-mundial-de-proteger-a-agua-por-rodrigo-berte-e-andre-m-pelanda/

terça-feira, 30 de abril de 2019

Má qualidade da água, o direito do consumidor e as responsabilidades do Estado e das concessionárias, artigo de Ruslan Stuchi

Nas últimas duas semanas, a água fornecida pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para alguns dos municípios do Grande ABC, especificamente nas cidades de São Bernardo do Campo, Diadema e Santo André, tem chegado às torneiras com tonalidade amarelada. Em alguns casos, a água tem espessura barrenta e com odor forte. Situação que tem atingido outras regiões do Estado.

De acordo com a concessionária, o problema foi causado pelo excesso de chuvas ocorridas nos meses de fevereiro e março deste ano, que além das diversas inundações em todo o grande ABC, foi responsável ainda pelo extravasamento da barragem Rio Grande, que faz parte da Represa Billings e de onde sai a água usada na região do ABC.

Os munícipes têm utilizado as redes sociais e relatado com frequência problemas vinculados à qualidade da água, como o fato das roupas saírem amareladas, por exemplo, manchadas e com mau cheiro após a lavagem. A água que sai das torneiras de suas cozinhas, tanques e até mesmo de seus chuveiros tem se apresentado simplesmente inutilizável.

Mas a questão é: de quem é a responsabilidade de tais acontecimentos e a quem é possível imputar essa responsabilidade?

É importante lembrar que o serviço público é um negócio altamente lucrativo. Porém, o que deve ser alvo de cuidado por parte do Estado não é o lucro da prestadora de serviços, mas a qualidade da prestação do serviço para a população e a continuidade do fornecimento satisfatório da água.

Faz parte do âmbito jurídico a discussão sobre a responsabilidade do Estado e a da própria concessionária de serviços públicos sendo, no presente caso, a Sabesp.

A Constituição Federal de 1988 em seu artigo 37, parágrafo 6º, aborda a responsabilidade das pessoas jurídicas de Direito Público e de Direito Privado que prestam serviços públicos diante dos danos que seus agentes possam causar, sendo tal responsabilidade de caráter objetivo.

A legislação brasileira é adepta à figura da concessionária ou permissionária de serviços públicos que, em síntese, são pessoas jurídicas que exercem as atividades de competência do Estado e tem estendidas para si a responsabilidade estatal prevista na Constituição Federal.

Essa delegação de serviços é regulamentada através da Lei nº 8.987/1995, onde se determina que as concessionárias ou permissionárias de serviços públicos prestam serviços por sua conta e risco sendo que, nos casos de danos a terceiros, devem sim assumir a responsabilidade objetiva de repará-los. Em tese, o Estado deve responder de forma subsidiária aos eventuais danos causados pelas concessionárias ou permissionárias de serviços públicos.

A concessionária deve responder individualmente pelos seus atos e, desse modo, reparar os danos ou lesões causadas a terceiros, uma vez que a atividade cedida é desempenhada livremente e sob a sua responsabilidade. O que ocorre é que, em determinados casos, mesmo a concessão integral dos serviços não é e não deve ser suficiente para afastar a responsabilidade solidária do Estado para responder pelos possíveis danos, o que deve ser considerado no atual problema relacionado à qualidade da água fornecida pela Sabesp.

O Município que firma convênio para serviços de água e esgoto com uma empresa é fiador da regularidade da prestação destes serviços e não pode evitar a sua responsabilidade por eventuais danos causados. São nos casos em que a concessionária não possui condições financeiras de arcar com a reparação devida em que o Estado pode responder de forma subsidiária. Desse modo, o poder público assume assim a obrigação de indenizar ou reparar o dano.

As empresas que firmam contratos para a execução de serviços públicos, como fornecimento de água oferecido pela Sabesp, são responsabilizadas pelos possíveis danos na mesma proporção do poder público e é reconhecida a obrigação de reparação em relação aquele que causa danos a terceiros por conta dos perigos inerentes à sua atividade. É o que é conhecido no meio jurídico como a “teoria do risco do negócio”.

Para que a Sabesp seja juridicamente responsabilizada é necessário que passe por processo administrativo perante a Agência Nacional de Águas (ANA) ou figure como parte requerida em processo que pode contar a questão da indenização civil, assim como responsabilidade criminal diante da venda de um produto de qualidade extremamente duvidosa.

É possível que as concessionárias ou permissionárias de serviços públicos percam até às outorgas que permitem que prestem o serviço público. Isso ocorrerá se for constatada, por exemplo, a má gestão da Sabesp durante processo administrativo.

No caso das vítimas buscarem compensações no Judiciário pelos problemas com o fornecimento de água, os consumidores afetados pelos problemas possuem o benefício da inversão do ônus da prova. Cabe à concessionária de serviço público comprovar que os danos aos consumidores não foram ocasionados por sua culpa e responsabilidade. Geralmente, nos processos na Justiça, as provas cabem a quem entra com o pedido judicial.

A responsabilidade verificada nos processos se refere à má qualidade da água fornecida e aos prejuízos sofridos por cada particular, ou seja, cada consumidor lesado deve pleitear a sua própria indenização.

É justo que as vítimas de problemas como o que tem ocorrido na região do ABC consigam compensações junto ao Judiciário. A exposição à água suja pode trazer riscos de contrair doenças tais como hepatite A, leptospirose, tétano e micose. É preciso ficar atento aos sintomas e evitar o consumo da água suja que vem sendo fornecida, devendo os atingidos por esta crise, por hora, optarem pela compra de água potável até o reestabelecimento da devida prestação de serviços.

Há jurisprudência favorável para receber a compensação. O Tribunal de Justiça no Estado de São Paulo (TJ-SP) já decidiu em casos semelhantes o ressarcimento de danos materiais e morais a um consumidor que ingeriu água contaminada. Desse modo, uma vez constatada a ocorrência do fornecimento de água imprópria ao consumo, é inegável o direito do consumidor de serviços públicos pleitear junto ao Poder Judiciário indenização por danos morais e materiais, caso a ocorrência de tais fatos cause prejuízos à sua saúde.

Quando a água chega com má qualidade às residências e estabelecimentos, cabe ao Judiciário limpar essa história e verificar quem vai compensar uma má prestação de serviço que é um problema sério e que não deveria ter ocorrido.

* Ruslan Stuchi é especialista em Direito do Consumidor e sócio do escritório Stuchi Advogados.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/04/2019

Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 30/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/30/ma-qualidade-da-agua-o-direito-do-consumidor-e-as-responsabilidades-do-estado-e-das-concessionarias-artigo-de-ruslan-stuchi/

sexta-feira, 22 de março de 2019

A água nos quatro cantos do Brasil




Hoje, dia 22 de março, é comemorado o Dia Mundial da Água. Do leste ao oeste do Brasil, da caatinga à Amazônia. A água é fundamental para o homem, a natureza e a vida. O país detém cerca de 12% de toda água superficial do planeta e talvez seja este fato que torna o Brasil uma potência capaz de integrar conservação da biodiversidade e desenvolvimento sócio econômico.

No Dia Mundial da Água, três especialistas, com trabalhos focados em três biomas distintos, destacam a importância deste recurso nas diferentes realidades brasileiras.

Por Mariana Pupo

A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro e um dos mais ameaçados do país, é uma região com um índice pluviométrico menor do que outras regiões do país. De todas as regiões semiáridas do mundo é a mais populosa, com cerca de 27 milhões de pessoas, necessitando de água diariamente e somado a isso, os efeitos do aquecimento global tem acentuado cada vez mais a escassez hídrica na região. A Associação Caatinga, ONG focada em promover a conservação e a valorização do bioma, atua desde 1998, no Ceará, e empregamos esse objetivo em variadas ações de projetos. Para Daniel Fernandes, coordenador geral da Associação Caatinga, a proteção das florestas deve ser o princípio básico para conservação dos biomas

brasileiros, assegurando a disponibilidade hídrica e diminuição dos efeitos do aquecimento global. “É o caminho que precisamos seguir para termos uma ambiente ecologicamente equilibrado e segurança hídrica para as presentes e futuras gerações”, destacou.

Em seus 20 anos de atuação, a instituição construiu aproximadamente 180 cisternas de placas em 24 comunidades, nove sistemas Bioágua, que consiste no reaproveitamento da água para irrigação destinada à produção de alimentos, em oito comunidades e deverá produzir mais cinco ainda em 2019. Com eles, as famílias poderão aumentar a produção de alimentos e oferta de água, já que aproximadamente 300 litros serão reusados diariamente. Todas estas ações têm forte aderência com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e com a Década de Recuperação dos Ecossistemas (2021/2030) estabelecidos pela ONU. Para Fernandes, são essas iniciativas que permitem a transformação da comunidade com desenvolvimento local sustentável. “É de suma importância a implementação, de forma célere, de ações que busquem mitigar os efeitos do aquecimento global e promovam condições de adaptação à semiaridez, como, por exemplo, tecnologias sociais de saneamento, armazenamento e reuso de água,” ressalta.

A Amazônia, tão conhecida pela sua floresta, tem um outro lado. A bacia do Amazonas drena em torno de 40% do território da América do Sul e no Brasil esse percentual ultrapassa os 60% do território nacional. Se considerado o fluxo de água que circula pela atmosfera em forma de vapor e ainda abastece outras bacias ao Sul, temos por aí uma dimensão do quanto é importante é a conservação da região, não só para o Brasil. Em termos de vazão total do Amazonas, há uma estimativa que gira em torno de 230.000 metros cúbicos por segundo, é o maior fluxo hidrográfico de água doce do planeta. Atuando desde 2013 na Amazônia, a WCS Brasil promove a Iniciativa Águas Amazônicas (IAA), que tem a proposta de mostrar o “lado b” da floresta. A IAA, até o momento, gerou uma base de informações sobre águas, paisagens aquáticas, biodiversidade e pesca na Amazônia e propôs uma nova classificação da Bacia amazônica levando em consideração não só as calhas de rios, mas também suas planícies de inundação. Atualmente, está buscando construir propostas voltadas ao manejo integrado de bacias hidrográficas e gerando subsídios para ações de manejo e conservação que levem em consideração o aumento da proteção das águas e paisagens aquáticas na Amazônia.

Para Carlos Durigan, diretor executivo da WCS Brasil, a importância da água na Amazônia ultrapassa as fronteiras territoriais. “Além da importância da disponibilidade do recurso em si para as mais de 25 milhões de pessoas que vivem na região, é preciso considerar também a manutenção para os serviços ecossistêmicos associados a esse enorme volume de água em escala regional e global. É a manutenção da maior biodiversidade do planeta!”, reforça.

Na região Sudeste, a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) busca entender a importância da água, considerando sua disponibilidade, qualidade e variabilidade, bem como aspectos relacionados ao uso e gestão deste recurso nas diferentes regiões do país. “É ponto crítico para assegurar o desenvolvimento sustentável no país. Para isso, buscamos integrar diversas ferramentas para entender de que maneira a água contribuirá para o crescimento social, econômico e ambiental do Brasil, mantendo as atividades produtivas nos diferentes biomas, assegurando seu uso sustentável e garantindo a conservação deste recurso chave para o país”, afirma Walfredo Schindler, Diretor superintendente da FBDS.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/03/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/03/22/a-agua-nos-quatro-cantos-do-brasil/

Extração de água subterrânea está prejudicando cada vez mais as florestas de várzea na Europa

Florestas de várzea na Europa sob ameaça – Pesquisadores da Universidade de Friburgo alertam sobre os efeitos da seca no verão e da competição por águas subterrâneas

Institute of Forest Sciences
University of Freiburg*


Uma floresta de várzea dominada por carvalhos. Foto: Albert Reif


Uma equipe do Instituto de Ciências Florestais da Universidade de Freiburg mostra que a extração de água subterrânea para a indústria e para as residências está prejudicando cada vez mais as florestas de várzea na Europa, devido à crescente intensidade e duração dos períodos de seca no verão. Os cientistas publicaram seus resultados na revista Frontiers in Forests and Global Change.

Florestas de várzea dominadas por carvalhos estão entre as mais ameaçadas na Europa. Através da conversão para terras aráveis e pastagens, bem como assentamentos, eles perderam a maior parte de sua distribuição original. A regulação do rio e a drenagem também mudaram o equilíbrio hidrológico natural. A introdução de pragas e doenças dizima as espécies de árvores nativas, como o olmo e a cinza. Ao mesmo tempo, essas florestas desempenham um papel importante no controle de inundações e proteção da biodiversidade.

A raiz do estudo da equipe de Freiburg foi a observação de que a vitalidade de árvores antigas nas florestas de carvalhos do vale do Reno diminuíra significativamente, e sua mortalidade parecia ter aumentado acentuadamente.

Ecologista florestal Prof. Dr. Jürgen Bauhus, do grupo de trabalho, em seguida, investigou se essas tendências também poderia ser discernida a partir dos padrões de crescimento das árvores e se eles estavam ligados com a extração generalizada das águas subterrâneas para a indústria e as famílias. O bombeamento de água pode reduzir o nível do lençol freático a ponto de que nem mesmo os carvalhos de raízes profundas possam alcançá-lo.

Assim, os cientistas florestais estudaram os anéis anuais de crescimento de árvores jovens e velhas em locais com e sem notável extração de água subterrânea, em três florestas de carvalho inglês no vale do Reno, entre o Freiburg Mooswald e o Hessisches Ried perto de Lampertheim.

A análise das conexões estatísticas entre a largura dos anéis de crescimento e os dados climáticos mostra que o crescimento anual dos carvalhos é afetado negativamente pela seca no verão. Em locais com a diminuição das águas subterrâneas, a sensibilidade do crescimento do carvalho às secas do verão aumentou acentuadamente desde o início da extração de água subterrânea, que começou há 49 anos ou antes nos diferentes locais de estudo.

Em contraste, a sensibilidade do crescimento anual do anel permaneceu relativamente estável ao longo do tempo em carvalhos em locais sem extração de água subterrânea. Georgios Skiadaresis , estudante de doutorado e principal autor do estudo, diz: “Os carvalhos com contato com a água subterrânea podem se recuperar melhor em fases de condições climáticas favoráveis, como pode ser observado pelo maior crescimento anual do anel. Mas é muito menos o caso dos carvalhos sem contato com as águas subterrâneas. ”A hipótese dos pesquisadores de que os carvalhos são menos afetados pela diminuição das águas subterrâneas, porque seu sistema radicular pode ser mais adaptável do que o dos velhos carvalhos, não foi confirmada.

Os resultados do estudo mostram claramente que a extração de água subterrânea abaixo das florestas de várzea vai piorar os efeitos negativos das mudanças climáticas. Os autores indicam que estratégias adaptativas em outros setores, como a irrigação pela agricultura, não devem ocorrer às custas da saúde dessas florestas. Eles recomendam reduzir, em vez de aumentar a extração de água subterrânea das florestas de várzea, para manter a vitalidade das árvores nesses ecossistemas a longo prazo.

Referência:

Skiadaresis G, Schwarz J A, Bauhus J (2019): Groundwater extraction in floodplain forests reduces radial growth and increases summer drought sensitivity of pedunculate oak trees (Quercus robur L.). In: Frontiers In Forests And Global Change 2:5. doi: 10.3389/ffgc.2019.0000 https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/ffgc.2019.00005/full


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2019




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/03/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/03/22/extracao-de-agua-subterranea-esta-prejudicando-cada-vez-mais-as-florestas-de-varzea-na-europa/

Água: ninguém fica para trás, por Luciano Zanella e Wolney Castilho

Um recurso tão presente na vida cotidiana que, muitas vezes, só notamos sua importância quando falta: é assim que muitos de nós tratamos a água potável.





O tema selecionado pela ONU para reflexão no 22 de março, Dia Internacional da Água – Water for all: living no one behind (‘Água para todos: não deixando ninguém para trás’, em tradução livre) – nos lembra algo interessante: o ato quase mágico da água surgindo de uma torneira, ao qual estamos acostumados, não é uma realidade para considerável parte da população mundial.

Se a falta de água potável parece um fato muito distante, basta relembrar o ocorrido em diversas regiões do estado de São Paulo num passado recente, em 2014 e 2015, quando um período prolongado de estiagem levou o abastecimento de muitas cidades a níveis críticos de escassez. Nessa época, para muitos de nós, o simples ato de lavar roupas ou tomar um banho tornou-se um desafio diário.

Situação muito comum em outras áreas do país. Dados do Plano Nacional do Saneamento de 2013 mostram que no Brasil, em 2010, apenas 60% da população contava com abastecimento adequado. Do restante, 64 milhões (33,9%) de brasileiros contavam com abastecimento precário e cerca de 13 milhões (6,8%) de pessoas, sequer com isso.

O caso mais emblemático em território nacional é o do semiárido, que enfrenta períodos de estiagem frequentes e problemas referentes à qualidade das águas nas fontes, muitas delas inadequadas ao consumo humano. Mas há outras regiões em que o acesso à água potável também não é fácil: muitas das comunidades ribeirinhas da região amazônica, povoados construídos praticamente sobre os grandes rios e igarapés, não tem acesso a ela. Nesse caso, o fator limitante não é a falta do recurso, mas a qualidade da água disponível, muitas vezes imprópria para consumo devido a contaminantes.

E não é só em regiões distantes que isso acontece. Nas zonas rurais de muitos municípios ou até em alguns nichos específicas dentro de áreas urbanas, inclusive na região Sudeste, por uma série de motivos diferentes, muitas vezes o acesso à água é precário, limitado ou inexistente.

Uma vez que não existe solução que possa ser aplicada de modo amplo e indiscriminado, é preciso analisar cada situação. Soluções simples, implementadas com os cuidados técnicos necessários, muitas vezes podem ser as mais adequadas. O aproveitamento de águas de chuva, como forma de permitir o abastecimento mais seguro em locais onde o acesso à água potável é problemático, é um exemplo. Intensamente adotado na região semiárida brasileira, também foi uma das soluções complementares de abastecimento mais utilizadas durante o período de escassez hídrica pela qual a região Sudeste passou entre 2013 e 2015.

Por outro lado, soluções mais complexas exigem o manejo integrado de águas urbanas, abordando todo o seu ciclo e estabelecendo alternativas para que as águas sejam utilizadas de forma eficiente. Desenvolvimento, avaliação e uso de equipamentos sanitários economizadores, estruturação de programas de uso eficiente de água e acompanhamento de consumo, uso de fontes alternativas como forma de abastecimento complementar e até mesmo o manejo das águas de drenagem urbana, além do correto tratamento dos esgotos gerados para evitar a contaminação de mananciais, podem fazer parte de programas mais complexos para locais onde existe o abastecimento de água potável, mas a disponibilidade hídrica torna-se crítica para guarnecer a população existente. É o caso de um bom número de regiões metropolitanas brasileiras.

Não deixar ninguém para trás significa garantir a disponibilidade e o manejo sustentável da água para todos, como estabelece o Objetivo 6 do Desenvolvimento Sustentável da agenda 2030 da ONU, da qual o Brasil é um dos países signatários. Significa olhar para esses locais e buscar alternativas efetivas para garantir o acesso à água, sempre empregando tecnologias adequadas.

Por Luciano Zanella e Wolney Castilho
Pesquisadores do Laboratório de Instalações Prediais e Saneamento do IPT


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2019




Autor: Luciano Zanella e Wolney Castilho
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/03/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/03/22/agua-ninguem-fica-para-tras-por-luciano-zanella-e-wolney-castilho/

Sem gestão eficiente da água no Brasil, ela será cada vez mais escassa, artigo de Marcelo Buzaglo Dantas

A água é um bem inesgotável?





Apesar de, durante muitos anos, ter sido considerada um recurso natural infinito, há algumas décadas, o mundo compreendeu que o mau uso da água pode, sim, ocasionar a sua escassez. Por essa razão, inclusive, a Organização das Nações Unidas instituiu o dia 22 de março como o Dia Mundial da Água. O intuito foi alertar a população sobre a necessidade de refletir sobre a importância da preservação da água para a sobrevivência dos ecossistemas e sobre as medidas práticas a serem adotadas.

No campo jurídico, aproveitamos esta oportunidade para debater o que houve de progresso nos últimos anos em termos de políticas públicas de gestão da água, em especial após o Brasil sediar, pela primeira vez, o Fórum Mundial da Água no ano passado. Entre os diversos produtos do referido Fórum, merece destaque o compromisso do governo federal de adotar políticas e planos nacionais de gestão integrada de recursos hídricos a fim de garantir o direito constitucional de acesso à água.

No entanto, se fizermos um balanço deste último ano, nota-se que, embora haja uma quantidade significativa de projetos de lei sobre a correta gestão da água, pouco se evoluiu efetivamente em termos práticos – em especial no que se refere ao desenvolvimento de estratégias potenciais como educação, transferência de tecnologia, incentivos econômicos, mercados, dentre outros.

Embora o governo anterior tenha iniciado o processo de revisão e atualização do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) e de seu marco legal por meio da Medida Provisória n. 868/2018, os projetos de lei que preveem incentivos econômicos e subsídios para adoção de tecnologias mais sustentáveis no que tange à gestão da água não saíram do papel. Projetos de Lei como o PL n. 495/2017, que regulamenta a criação de um “mercado de água”, e os PLs n. 5733/2009; 182/2015; 377/2015; e outros, que regulamentam incentivos à adoção de práticas mais sustentáveis, não evoluíram no Legislativo.

Ora, não dá para discutir uma gestão eficiente da água se não pensarmos na aplicação de políticas públicas integradas, articuladas e intersetoriais. Vide, por exemplo, o Projeto Oásis, desenvolvido há 12 anos pela Fundação Grupo Boticário. Trata-se de um instrumento de política pública econômica, o Pagamento por Serviços Ambientais, que promove a valorização dos ambientes naturais por meio de mecanismos de incentivo financeiro a proprietários que se comprometam com a conservação das áreas naturais e a adoção de práticas conservacionistas de uso do solo.

Outro exemplo é o adotado em Tóquio, que não apenas investiu em tecnologias limpas, como inseriu a temática de educação ambiental nas escolas do município desde a década de 1970, criando, inclusive, programas de capacitação técnica. Nota-se, portanto, que, apesar das discussões terem avançado, a gestão eficiente da água ainda depende de políticas públicas regionais e setoriais de amplo descortino político e que não apenas punam, mas que também incentivem a adoção de técnicas de preservação ambiental.

Sem incentivos econômicos e educação ambiental, não há como se discutir melhorias na gestão eficiente da água no Brasil.

Marcelo Buzaglo Dantas é advogado, pós-doutor em Direito Ambiental, Transnacionalidade e Sustentabilidade pela UNIVALI/SC, professor visitante da Universidad de Alicante (ES) e da Delaware Law School (EUA) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2019





Autor: Marcelo Buzaglo Dantas
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/03/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/03/22/sem-gestao-eficiente-da-agua-no-brasil-ela-sera-cada-vez-mais-escassa-artigo-de-marcelo-buzaglo-dantas/

A Água é um negócio ou um direito? artigo de Marcus Nakagawa



Temos muitas razões para lembrar da importância do Dia Mundial da Água, instituído pela ONU em 22 de março de 1992. Algumas delas, como a quantidade de água potável no planeta ou a porcentagem de água do corpo do ser humano, são dados que acabamos aprendendo na escola, porém, muitas vezes esquecemos ou não ligamos. Mas quando falta água ou quando é demasiado o montante, vide as enchentes desta época no sudeste do país, vira tema de jornais, noticiários e redes sociais. E o mais interessante é que, rapidamente, todos viram especialistas sobre o tema e defendem ou atacam.

Um dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, estabelecido em 2015, como um “sonho” comum dos seres humanos deste planeta, é o ODS número 6, que é sobre “Água Potável e Saneamento”. Neste ODS 6 (https://nacoesunidas.org/pos2015/ods6) o objetivo é assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e saneamento para todos. E quebra em mais metas, como até 2030 alcançar o acesso universal e equitativo a água potável e segura para todos. E tem uma meta muito instigante, que é apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais para melhorar a gestão da água e saneamento. São seis metas neste objetivo e dois subtópicos.

Porém, com toda esta clareza, muitos especialistas na área hídrica batalhando para mostrar a importância deste bem essencial aos seres humanos, congressos, discussões, por que ainda, segundo a página da ONU (https://nacoesunidas.org/acao/agua/), milhões de toneladas de esgoto tratado inadequadamente e resíduos agrícolas e industriais são despejados nas águas de todo o mundo?

Grandes empresas acabam não gerenciando os seus riscos ambientais e poluindo rios e mares com os seus produtos ou subprodutos do seu processo produtivo como vemos no Brasil e no mundo. Dois terços da população mundial em 2017 vivem em áreas que passam pela escassez de água pelo menos um mês por ano. Relatórios sobre estes dados são feitos anualmente como o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos (World Water Development Report – WWDR) (http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/natural-sciences/environment/wwdr/). Então, o problema não é a falta de pesquisas, dados ou alertas de especialistas e estudiosos.

Temos inclusive uma lei no Brasil, segundo a página do Ministério do Meio Ambiente (MMA) (http://www.mma.gov.br/agua.html), desde janeiro de 1997, conhecida como Lei das Águas que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH). Ela coloca que a água é considerada um bem de domínio público e um recurso natural limitado, dotado de valor econômico. Esta gestão da água deve proporcionar os seus vários usos de forma descentralizada e participativa. E tem que contar com a participação do Poder Público, dos usuários e da comunidade. E se tiver uma situação de escassez o uso prioritário é para o consumo humano e para a dessedentação de animais. E o segundo artigo da Lei é mais bacana: “Assegurar a disponibilidade de água de qualidade às gerações presentes e futuras, promover uma utilização racional e integrada dos recursos hídricos e a prevenção e defesa contra eventos hidrológicos (chuvas, secas e enchentes), sejam eles naturais, sejam decorrentes do mau uso dos recursos naturais”.

Pois é, estamos assegurados, mas para que isso aconteça temos que estar cientes e cobrar dos governantes, ou seja, educar as pessoas para este conhecimento. Um conhecimento essencial para a nossa sobrevivência, lembrando mais uma vez que a água é uma das bases da nossa vida.

As empresas sabem disso muito bem, principalmente, para que seus negócios continuem, tenham perenidade e se sustentem. As empresas de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, por exemplo, dependem da água como o seu insumo principal. A agricultura e a pecuária dependem deste recurso para trabalhar e produzir. A mineração, as montadoras, os megacomputadores dos bancos e muitas outras empresas dependem da energia que vem da água das hidrelétricas, nossa maior matriz. Ou seja, a água é essencial na nossa cadeia produtiva e no PIB do país. Tenho um grande amigo professor que sempre dizia que, na verdade, não exportamos grãos, cana, carne, minério de ferro ou qualquer outro insumo para os outros países. Na verdade, exportamos água em forma de carne, grãos, minério de ferro, etc. Os nossos principais negócios dependem diretamente ou indiretamente da água.

A água é um dos pilares da economia brasileira e só continuaremos tendo esta abundância se cuidarmos das nossas fontes, não poluirmos e tudo o que geralmente se aprende na escola (de novo). Mas precisamos sair do conceito e das leis escritas e passarmos para a ação, cobrança e fiscalização. E isso é trabalho do governo, da sociedade e das empresas. Se não fizermos isso urgente não conseguiremos “assegurar a disponibilidade de água de qualidade às gerações presentes e futuras”.

Comemore, estude, engaje mais pessoas e ajude a garantir o nosso futuro!

*Marcus Nakagawa é professor da ESPM; coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS); idealizador e diretor da Abraps; e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida. Autor dos livros: 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo e Marketing para Ambientes Disruptivos. www.marcusnakagawa.com,www.blogmarcusnakagawa.com

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2019




Autor: Vanessa Thees
Fonte: PebMed
Sítio Online da Publicação: PebMed
Data: 21/03/2019

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Programa Produtor de Água ajuda a recuperar a Bacia Hidrográfica do Pipiripau, uma das mais problemáticas do DF

Produtor de Água no Cerrado – Conciliar a atividade agropecuária com boas práticas de preservação e produção de água é uma das estratégias que tem contribuído para fazer a água brotar de novo da terra, nutrir o solo e correr para o rio.

A ação tem sido empreendida pelo programa Produtor de Água para recuperar a Bacia Hidrográfica do Pipiripau, que já foi considerada uma das bacias mais problemáticas do Distrito Federal.

Localizada a cerca de 50 quilômetros do centro de Brasília, a Bacia do Pipiripau sempre foi marcada pelo conflito por recursos hídricos. A área tem pequenas, médias e grandes propriedades rurais que demandam muita água para irrigação. Os córregos desta bacia abastecem a população das cidades-satélites de Planaltina e Sobradinho, que juntas tem cerca de 300 mil habitantes, e alimentam as bacias hidrográficas de São Bartolomeu e do Paraná, que abrangem outros seis estados do país, entre eles, São Paulo.

“A Bacia do Pipiripau foi muito desmatada. Têm assentamentos que chegaram lá e era tudo braquiária [capim], pasto de gramínea exótica e eles estão agora fazendo sistemas de plantios agroflorestais, agroecológicos e isso contribui pra que o sistema volte a ter maior capacidade de infiltração da água, contribuindo para a bacia ficar mais saudável”, disse Isabel Figueiredo, coordenadora do programa Cerrado e Caatinga do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), que integra a Rede Cerrado.

Segundo Devanir Santos, coordenador de Projetos Indutores da Agência Nacional de Águas (ANA), além do impacto da intensa atividade agropecuária, a mudança no fluxo de chuvas também reduziu a capacidade de infiltração do solo na região, o que levou à redução da vazão dos rios da bacia.

“Antigamente, tinha chuva de longa duração e pouca intensidade por 15, 20 dias. Hoje, têm pancadas num curto espaço de tempo e isso dificulta ainda mais a infiltração de água no solo. O resultado é que acaba que você não tem uma boa alimentação do lençol freático, que é fundamental para você ter água no período da seca”, explica Santos.
Pagamentos ambientais

Por meio da compensação financeira, o programa Produtor de Água financia os produtores que cedem suas terras para proteção de córregos, nascentes e matas ciliares e adotam práticas que melhoram a infiltração da água na terra. Entre as medidas adotadas, está a implantação das chamadas tecnologias mecânicas, como readequação das estradas rurais que dão acesso às propriedades, por meio da formação de desvios laterais ou bacias de contenção de água, como as pequenas barragens.

Nas propriedades também são feitos os terraços, que se parecem com lombadas para diminuir a velocidade das enxurradas e o impacto erosivo da água no solo em áreas de declive. “Além das obras mecânicas, temos plantio em área de preservação permanente, cercamento em área de nascente e rios e a conservação de área já plantada há muitos anos. Então, o produtor pode receber pela área já conservada, pela área que ele plantou agora ou pela área onde fez as práticas mecânicas”, explica Rossini Sena, especialista em recursos hídricos da ANA.

O valor pago a cada produtor varia de R$ 100 a R$ 300 por mês. A fórmula para calcular o pagamento ambiental ao produtor leva em consideração as medidas ambientais que ele implanta na propriedade.

“Quanto mais a atividade for benéfica para o meio ambiente, mais o produtor ganha”, completou Rossini.
Resultados

Devanir Santos relata que há sete anos a situação ficou insustentável na região, chegando ao ponto em que não era possível manter a irrigação e o abastecimento urbano ao mesmo tempo. Houve momentos em que foi necessário negociar com os produtores a redução da área plantada para garantir o abastecimento para consumo humano, que é protegido por lei.


“Foi quando nós começamos o projeto lá. De um lado, nós atuamos melhorando a capacidade de infiltração, incentivando os produtores a mudar a forma de ocupar o solo, reflorestando algumas áreas essenciais, principalmente as zonas de recarga, as margens de rio e implementando as práticas mecânicas de conservação do solo. Do outro lado, nós também buscamos formas de reduzir a utilização de água na irrigação”, explicou.

Santos lembra que a Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) tinha autorização para tirar 400 litros por segundo da bacia para atender ao consumo humano, mas na crise não conseguia tirar nem 250 litros devido à queda de vazão nos rios e ao aumento da demanda por irrigação. Hoje, a companhia tira em torno de 300 a 350 litros, o que é considerado suficiente para o abastecimento de Sobradinho e Planaltina.

O coordenador relata ainda que foram criados reservatórios para captar água específica para irrigação. Há também a expectativa de reservar mais água com a implementação da última etapa do projeto, que consiste no revestimento do canal Santos Dumont, principal adutora da região.

Mesmo sem a finalização da adutora, Devanir destaca que as ações do programa têm surtido efeitos sobre a disponibilidade hídrica no Pipiripau. No período mais crítico de racionamento de água que atingiu o DF ano passado, a Bacia do Pipiripau não teve problemas de desabastecimento, ao contrário das bacias do Descoberto e de Santa Maria, que abastecem outras áreas do DF e viram o nível da água reduzir drasticamente levando ao racionamento do consumo por mais de um ano.

“Hoje, a situação dos produtores está bem melhor, eles estão irrigando uma área quase que plena e a gente está conseguindo uma convivência boa entre os dois setores [irrigação e abastecimento urbano], mesmo sem fazer uma coisa essencial que é o revestimento do canal”, comenta.

Os estudos para adequação do canal já foram feitos, mas o projeto aguarda aporte de recursos para implantação da obra. É necessário investimento da ordem de R$ 10 milhões para recuperar o canal, que pode reduzir em praticamente pela metade o desperdício de água na região.

“Para você ter uma ideia, a gente tira hoje 350 litros pra abastecer uma área que precisa só de 150. A gente perde 200 litros por segundo ao longo desse canal. Se a gente fizer uma adutora, eu já libero quase 200 litros por segundo para o abastecimento humano, sem prejuízo nenhum para os produtores que vão conseguir irrigar sua área toda”, afirma Santos.
Participação

A produtora Bernadete Brandão participa do projeto desde o início, em 2012, e recebe por ano pouco mais de R$ 2 mil pelos serviços ambientais que implantou em sua propriedade. Ela conta que quando entrou no programa um de seus objetivos era manter a tradição da família de preservar a água nas terras.

“A gente vem de uma criação em que meus pais ensinaram muito sobre a água. A gente tinha uma fazenda em Padre Bernardo que tinha água que corria. Eles venderam essa área e a pessoa que comprou desmatou tudo. Minha mãe ficou muito sentida, porque aquela água secou”, lembra.



Produtores no Piripipau conseguiram retomar produção na região após projeto de recuperação da bacia local – José Cruz/Agência Brasil


A propriedade de Bernadete tem entre 5 e 6 hectares, dos quais 3,7 já foram recuperados. Na área, são plantadas hortaliças, frutas, tomate, pimentão, entre outros produtos. Ela também cria gado de corte e carneiros.

Para evitar desperdício da água, Bernadete usa o sistema de gotejamento direto na raiz das plantas para fazer a irrigação. Em dias muito quentes e secos, ela também usa vaporizador e umidificador e deixa a aspersão de água somente para situações específicas.

Logo na entrada de sua chácara, é possível ver os terraços feitos pelo projeto para conter a descida brusca da água da chuva. Sem as lombadas, a enxurrada desceria de uma vez para o rio, provocando danos no solo e assoreamento do afluente que corta sua propriedade.

“Já tem que fazer uma manutenção nessas curvas de nível. Mas, eu acho que melhorou muito, porque como ali em cima tem plantio de soja e milho, e a terra está muito nua, quando chove a terra vem vindo e assoreando, carregando tudo. Aí com a curva de nível a água diminui o fluxo”, diz.

Ao redor das fontes de água em sua propriedade, Bernadete colocou uma cerca para evitar a entrada do gado e plantou na área algumas mudas de árvores. No entanto, a produtora lamenta que algumas mudas ainda não tenham se desenvolvido por causa de outro problema recorrente no Pipiripau: os incêndios, geralmente provocados pela queima de roça e de lixo. “Bombeiro já até cansou de vir aqui”.

Bernadete relata também que as chuvas tem sido cada vez mais escassas e as nascentes que costumavam jorrar água mesmo nos períodos de seca agora estão apenas úmidas. “Eu percebo que a água tem sumido bastante, a cisterna que enchia com dez minutos, já não está enchendo tão rápido”, conta.
Expansão

Apesar dos desafios, o projeto tem conseguido a adesão de boa parte dos produtores da Bacia do Pipiripau. Atualmente, entre as 540 propriedades situadas na Bacia, o programa tem 170 contratos firmados com produtores, 130 deles já estão recebendo pelos serviços ambientais. Em cinco anos, foram plantadas cerca de 300 mil mudas de árvores em uma extensão aproximada de 1,5 mil hectares.

Além da Agência Nacional de Águas, o programa tem apoio de outras 18 instituições parceiras, como organizações da sociedade civil, órgãos ambientais, universidade, entre outros. “Estamos defendendo que se invista em projetos de recuperação e restauração dos mananciais. Plantar florestas é fundamental para estar se preparando para as crises que vão vir cada vez mais fortes, porque no contexto de cenários de mudanças climáticas, períodos secos vão ser mais secos, e quando tiver chuva, vai ter mais chuva”, alertou Ricardo Novaes, especialista em Recursos Hídricos do WWF-Brasil, uma das organizações que coordenam o projeto.

O programa também atua em outros 60 pontos do país. A experiência mais antiga está na cidade de Extrema, no Sul de Minas, que em 10 anos promoveu o plantio de 1,3 milhão de mudas.

Um Acordo de Cooperação Técnica já foi firmado para instalar o programa na Bacia do Descoberto, que abastece a maior parte do Distrito Federal. A área da bacia foi devastada pela forte especulação fundiária e enfrenta o desafio de manter os reservatórios que abastecem a capital.



Por Débora Brito, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2018




Autor: Débora Brito, da Agência Brasil
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 26/10/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/10/26/programa-produtor-de-agua-ajuda-a-recuperar-a-bacia-hidrografica-do-pipiripau-uma-das-mais-problematicas-do-df/

A água no Brasil e o mito da abundância

Garantir o acesso à água de qualidade a todos os brasileiros é um dos principais desafios para os próximos gestores do país.

ABr

Culturalmente tratado como um bem infinito, a água é um dos recursos naturais que mais tem dado sinais de que não subsistirá por muito tempo às intervenções humanas no meio ambiente e às mudanças do clima.

Em várias regiões do país, já são sentidos diferentes impactos, como escassez, desaparecimento de nascentes e rios, aumento da poluição da água. Os especialistas alertam que os problemas podem se agravar se não forem tomadas medidas urgentes e se a sociedade não mudar sua percepção e comportamento em relação aos recursos naturais.

O Brasil tem 12 regiões hidrográficas que passam por diferentes desafios para manter sua disponibilidade e qualidade hídrica. Mapeamento do Ministério do Meio Ambiente mostra que, nas bacias que abrangem a Região Norte, o impacto vem principalmente da expansão da geração de energia hidrelétrica. Na Região Centro-Oeste, é a expansão da fronteira agrícola que mais desafia a conservação dos recursos hídricos. As regiões Sul e Nordeste enfrentam déficit hídrico e a Região Sudeste apresenta também o problema da poluição hídrica.

Em nível global, o desafio é conter o aumento da temperatura do clima, fator que gera ondas de calor e extremos de seca que afetam a disponibilidade de água. O relatório especial do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas, das Nações Unidas, divulgado recentemente, mostra que, se a temperatura global subir acima de 1,5°C, em todo o mundo mais de 350 milhões de pessoas ficarão expostas até 2050 a períodos severos de seca.
Brasil: o mito da abundância

“As gerações mais antigas foram criadas com o mito do país riquíssimo em água, que água seria um problema crônico, histórico, só no Nordeste, no semiárido. Obviamente, desde 2013, na primeira crise que a gente teve, o apagão, que na verdade foi um “secão”, porque não foi resultado só de uma questão elétrica, ficou claro que o Sudeste e o Centro-Oeste têm problemas concretos, intensificados nos últimos dois anos, de disponibilidade de água”, destacou Ricardo Novaes, especialista em Recursos Hídricos do WWF-Brasil.

O pesquisador explica que a crise resulta também da falta de adequada gestão do uso da água, sobretudo em períodos de estiagem – tendência que deve se manter tendo em vista o baixo índice de precipitação registrado no início desta primavera.

“Temos indicativos de que há um risco de, no próximo verão, ou talvez no outro ano, termos novamente um quadro muito complicado em São Paulo, talvez em todo o Sudeste. Os reservatórios estão com níveis abaixo do que estavam há dois anos, antes da crise de 2014 e 15”, afirmou.

Depois da grave crise hídrica de 2015 que afetou a população de São Paulo, os moradores do Distrito Federal (DF) também passaram pelo primeiro racionamento nos últimos 30 anos devido à falta de água nas principais bacias que abastecem a região. Por mais de um ano, os moradores da capital do país tiveram que se adaptar a um rodízio de dias sem água devido ao esgotamento dos reservatórios das principais bacias que abastecem a cidade.

Na área rural, o governo do DF decretou estado de emergência agrícola. Na época, foi estimado um prejuízo de R$ 116 milhões com a redução de 70% na produção de milho, segundo estudo da Secretaria do Meio Ambiente do DF.
Berço de águas escassas

Os especialistas apontam que uma das principais causas para a crise hídrica é o uso inadequado do solo. No Centro-Oeste, por exemplo, estão concentradas as nascentes de rios importantes do país, devido a sua localização no Planalto Central. Conhecida como berço das águas, a região tem vegetação de Cerrado, bioma que ocupa mais de 20% do território e atualmente é um dos principais pontos de expansão da agropecuária, atividade que usa cerca de 70% da água consumida no país.

Como consequência do avanço da fronteira agrícola, o Cerrado já tem praticamente metade de sua área totalmente devastada. Os efeitos da ausência da vegetação nativa para proteger o solo já são percebidos principalmente na diminuição da vazão dos rios e na escassez de água para abastecimento urbano.



Os especialistas apontam que uma das principais causas para a crise hídrica é o uso inadequado do solo – Arquivo/Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


Segundo a coordenadora do programa Cerrado e Caatinga do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Isabel Figueiredo, que integra a Rede Cerrado, o desmatamento acelerado está impactando tanto a frequência de chuvas, que vem diminuindo nos últimos cinco anos na região, quanto na capacidade do solo de absorver e armazenar a água no subsolo e devolvê-la para os rios.

“A mudança do uso da terra tem alterado demais o ciclo da água e faz com que a gente tenha menos água nos rios, os rios muito assoreados e menor disponibilidade de chuva. Então, o ciclo da água está num pequeno colapso”, afirmou Isabel.

Projeções do Painel Brasileiro de Mudança Climática (PBMC) apontam que nas próximas três décadas o bioma do Cerrado poderá ter aumento de 1°C na temperatura superficial com diminuição percentual entre 10% a 20% da chuva.

“A contribuição do Cerrado para as bacias hidrográficas importantes do Brasil, como São Francisco, Tocantins, por exemplo, vai diminuir muito, se esse processo de desmatamento continuar nesse nível”, completou.

A especialista lembra ainda que o desmatamento do Cerrado não afeta somente as comunidades locais, que já relatam dificuldades para plantar, mas também outras regiões. “Os biomas e ecossistemas brasileiros estão todos interligados. O desmatamento do Cerrado afeta a chuva que cai em São Paulo, o desmatamento na Amazônia afeta a chuva que cai aqui no Cerrado”, explica.
Outros desafios

O desafio de garantir o funcionamento do ciclo hidrológico natural também tem impacto na manutenção dos aquíferos subterrâneos. Os pesquisadores lamentam que o assunto não tenha destaque no debate público e na agenda eleitoral e alertam que, para evitar a próxima crise, é necessário criar um modelo de gestão das águas subterrâneas.

Outro problema que leva à escassez de água é a estrutura precária de saneamento. Considerando as metas estabelecidas pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Nações Unidas, do qual o Brasil é signatário, uma das principais preocupações com relação à água é garantir a universalização do saneamento.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), mais de 35 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água tratada no Brasil e o sistema de abastecimento de água potável gera 37% de perdas, em média. A falta de tratamento do esgoto compromete mais de 110 mil quilômetros dos rios brasileiros que recebem os dejetos.

A agência estima que, para regularizar a situação, seriam necessários pelo menos R$ 150 bilhões de investimentos em coleta e tratamento de esgotos até 2035.

“Um objetivo absolutamente fundamental, mas que vai exigir um nível de investimento, comprometimento de agentes públicos e desenvolvimento de tecnologias – e não estamos vendo energia sendo colocada pra atingir isso. E não adianta você investir em saneamento e ter de buscar água cada vez mais longe, por causa do desmatamento”, criticou Novaes.
Um problema de percepção

Doutor em ecologia e autor de vários livros sobre educação ambiental, Genebaldo Freire destaca que todos estes problemas só serão resolvidos quando os governos e sociedade mudarem sua percepção sobre a importância dos recursos naturais para a sobrevivência humana.

“Nós estamos vivendo uma falha de percepção e temos algumas evidências objetivas que comprovam isso: nós dependemos de água pra tudo e qual é o nosso comportamento? Desperdício, consumismo, poluição e desmatamento, e isso tudo numa pressa danada, com uma população que cresce em 75 milhões de pessoas a cada ano no mundo”, constata.

Segundo o professor, não há lugar seguro no planeta e, além da falta de percepção, há uma absoluta falta de governança na gestão da água. O escritor também critica a indiferença e incapacidade da classe política em lidar com o tema da educação ambiental.

“A história dos problemas ambientais passa por essa falha de percepção por várias razões: conveniência, ignorância ou apatia. Todo o processo de educação ambiental hoje tem de estar obrigatoriamente centrado na ampliação da percepção, senão não vai mudar coisa alguma”, avalia Freire.

O professor ressalta que vários colapsos já estão ocorrendo devido à grande pressão da população mundial de sete bilhões de pessoas sobre os sistemas naturais, que estão assumindo “configurações diferentes das que nós estamos acostumados para neutralizar nossas ações”.

Para evitar o agravamento da situação, é necessária uma evolução do ponto de visto ético e moral e não somente científico e tecnológico. “A mudança do clima é a maior falha de mercado da espécie humana, porque é algo em que a inteligência estratégica de sobrevivência do ser humano não funcionou e continua errando de forma insistente. E qual a consequência disso? E você ter o crescimento de conflitos que já estão estabelecidos, como disputa por água, energia e espaço, aumento de refugiados”, comenta.

Por Débora Brito – Repórter da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2018




Autor: Débora Brito
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 26/10/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/10/26/a-agua-no-brasil-e-o-mito-da-abundancia/

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Projeto sobre água e erosão no Cerrado vence o “Green Talents”


Projeto utiliza modelagem computacional para avaliar o Cerrado brasileiro – Imagem: Reprodução

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Jamil Alexandre Ayach Anache, pesquisador do Laboratório de Hidráulica Computacional (LHC), da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, foi um dos 25 selecionados na 10ª competição Green Talents, promovida pelo Ministério Federal da Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF). Participaram da competição 736 candidatos de mais de 100 países, de acordo com a Assessoria de Comunicação do Green Talents.

O projeto de Anache utiliza modelagem computacional para avaliar e estabelecer valores de referência do ciclo da água e da erosão do solo no Cerrado brasileiro (mata nativa, cana-de-açúcar, pastagem e solo exposto). O objetivo é identificar os serviços ambientais hidrológicos promovidos pelo Cerrado nativo e verificar como as variações no clima poderão afetar a disponibilidade hídrica e a conservação do solo nessas áreas.

Os projetos concorrentes foram avaliados por um júri formado por especialistas alemães. Os 25 selecionados participarão do Green Talents – International Forum for High Potentials in Sustainable Development, que se traduz em duas semanas de interação com especialistas de renomadas instituições e empresas de pesquisa, incluindo a Dresden University of Technology, Max Planck Institute for Biogeochemistry, Heinz-Glas GmbH & Co. KGaA, Energieavantgarde Anhalt, Helmholtz Centre for Environmental Research e Institute for Social-Ecological Research, em Frankfurt/Main. Ganham também acesso exclusivo à Rede Green Talents, composta de alunos de diversos países que atuam no segmento de desenvolvimento sustentável.

Os 25 ganhadores serão homenageados em cerimônia de premiação no dia 22 de outubro no BMBF, em Berlim. O evento será aberto pela ministra Anja Karliczek e contará com a presença de representantes das instituições participantes, membros do júri e da embaixada e outros convidados ilustres.

Da Agência Fapesp



Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 19/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-exatas-e-da-terra/projeto-sobre-agua-e-erosao-no-cerrado-vence-o-green-talents/

terça-feira, 15 de maio de 2018

Por que evitar beber água engarrafada? artigo de Flávio José Rocha


Foto: American Chemistry Council

Por que evitar beber água engarrafada?

Flávio José Rocha1

As exigências do mundo urbano fizeram com que o tratamento da água passasse a ser uma política pública de saúde. Governos foram obrigados a melhorar e expandir os serviços de saneamento no início do século XX porque a qualidade da água consumida pelas populações de algumas cidades estavam aquém do aceitável de acordo com as autoridades sanitárias da época. Grande parte deste processo deve-se ao avanço da Ciência que resultou na conclusão de que existia uma relação entre algumas doenças e o consumo de águas contaminadas. O tratamento da água buscava garantir a diminuição destas doenças transmitidas por bactérias para as populações consumidoras.

Mesmo com o avanço no tratamento da água, todos nós sabemos que nem sempre (mais frequente do que desejamos) a nossa água é bem tratada.2 Resta a muitas pessoas pagar por uma água que acreditam ser pura, a exemplo da água mineral engarrafada. A crença na pureza da água engarrafada alimenta a venda deste “produto” por empresas brasileiras e, nos últimos anos por multinacionais, gerando muito lucro com este comércio, embora o aumento exponencial do seu consumo contribua para o avanço da exploração desenfreada das suas fontes.

O hábito de beber água engarrafada popularizou-se muito recentemente em parte pelo medo de que a água que abastece as nossas casas esteja contaminada pela falta de um tratamento adequado e seja impura. Por estarem armazenadas no subsolo, há uma crença de que as águas minerais estão protegidas. Mas seria isso verdade com relação aos agrotóxicos que penetram nos lençóis freáticos, por exemplo?3 Entretanto, como bem mostra o vídeo A História da Água Engarrafada,4 os consumidores podem, em alguns casos, estar consumindo uma água não tão pura como imaginam. Em outros casos, a água engarrafada não é mineral e sim água adicionada de sais.5 Temos ainda as águas gaseificadas artificialmente, resultado de um processo industrial, diferente da água com gás natural.

Os brasileiros estão entre os dez maiores consumidores deste “produto” em mundo que engarrafa mais de 300 bilhões de litros de água por ano. É um negócio que movimenta muito dinheiro e é bastante lucrativo. Como não ser lucrativo um “produto” que já vem pronto para o consumo e basta ser embalado e transportado para o local da venda?

Mas não é em todo o mundo que o consumo de água engarrafada vem aumentando. Nos países nórdicos o consumo de água mineral caiu em parte porque foi constado que a qualidade da água da torneira é superior à engarrafada e estudos mostraram o desperdício de recursos naturais, entre outros, com o seu transporte da fonte até chegar aos consumidores (Pietila et al, 2013). Além disso, o descarte das garrafas plásticas utilizadas para o seu engarrafamento é uma verdadeira praga para os rios e os oceanos,6 sem contar que muitas das garrafas descartadas nos países do norte do globo vão parar nos lixões de países de outros continentes (Barlow, 2009). A cidade de Londres planeja instalar fontes de água pela cidade para evitar o consumo de água engarrafada e o descarte de plástico no meio ambiente. Apenas a questão dos plásticos que poluem o planeta já valeria como um bom motivo para consumir água engarrafada apenas quando não houvesse uma outra opção. Além dos motivos já elencados acima, muitas vezes um litro de água mineral custa mais do que um litro de gasolina. Motivações como essa fizeram surgir no Canadá o movimento Ban the Bottle para desencorajar o consumo de água engarrafa e no Brasil há um sítio eletrônico chamado Água na Jarra que incentiva o consumo de água tratada não engarrafada em eventos e restaurantes.7

Mercado que movimenta milhões no mundo, a água engarrafada entrou no rol de produtos muito rentáveis para grandes empresas. No caso brasileiro, este mercado é dominado ainda por muitas empresas locais, mas a tendência é que as grandes empresas comecem a abocanhá-lo. Mas por que o interesse das multinacionais pelas nossas águas minerais? Com o avanço do conhecimento científico sobre os malefícios dos refrigerantes e outras bebidas industrializadas, muitas pessoas voltaram-se para o consumo dos chás ou das águas minerais como uma opção mais saudável e isso afetou o faturamento das indústrias dos ramos de refrigerantes. O novo foco é a venda de água mineral e chás, já que a venda de seus produtos açucarados como os refrigerantes estão em queda em todo mundo dado a epidemia de obesidade.8 O passo mais lógico do ponto de vista mercadológico para as empresas do ramo das bebidas foi adentrar em um mercado em ascensão e é exatamente isso que elas estão fazendo.

A chegada das grandes empresas na exploração das fontes de água mineral também traz o medo do descompromisso com o meio ambiente. O caso mais famoso até agora no Brasil foi o das fontes das águas minerais de São Lourenço, em Minas Gerais, concedidas para exploração à Nestlé nos anos noventa. O conflito entre moradores daquele município mineiro e a multinacional suíça revelou que algo novo estava acontecendo no mercado das águas minerais nacionais. A Nestlé é acusada por moradores daquele município de causar dano ambiental porque algumas fontes secaram com a exploração exaustiva feita pela empresa, segundo alguns moradores da cidade.9

Mas não é apenas em São Lourenço que há conflitos envolvendo a exploração de água mineral em Minas Gerais. Organização sociais reclamam que o Governador do Estado, Fernando Pimentel, está tentando privatizar a CODEMIG –Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais – e as populações de algumas cidades do sul de Minasdenunciam que pode acontecer com as fontes de águas minerais daqueles municípios o mesmo que aconteceu em São Lourenço, já que a proposta do governador petista é repassar 49% das ações da CODEMIG para investidores privados e isso pode influenciar as decisões sobre concessões para a inciativa privada explorar as fontes de águas minerais daquelas localidades, fato já consumado em Caxambu e Cambuquira recentemente quando estas tiveram algumas de suas fontes concedidas por 15 anos (podendo ser renovadas por mais 15 anos) para empresas privadas. Araxá, Lambari e Contendas também estão na fila da CODEMIG para o mesmo processo. Vale destacar aqui o valor terapêutico dessas águas. Estas cidades são visitadas durante todo o ano por turistas que querem beber ou aproveitar os banhos receitados como terapias para a cura de várias doenças10.

O medo de muitos que se opõem a exploração das nossas águas minerais por grandes empresas é que se repita o que já aconteceu com tantas outras das nossas riquezas naturais como o Pau-Brasil e o ouro, para citar dois exemplos. Como de praxe, empresas vem, lucram, exploram a exaustão e vão embora. É um ciclo vicioso que não para e move a roda da fortuna parando sempre no mesmo lugar, e este nunca é o dos mais pobres. Algumas coisas que podemos fazer para começar a mudar esta situação é começar a denunciar a exploração desenfreadas das nossas águas minerais. Porém, o mais importante e urgente é parar de consumir água engarrafada, fazendo com que ela seja comprada apenas quando estritamente necessária. Muitas pessoas têm as suas garrafas permanentes que carregam com água filtrada quando estão na rua, no trabalho ou em eventos. Agindo assim estaremos protegendo as nossas águas e deixando uma herança que não tem preço para as gerações futuras.

Referências Bibliográficas

BARLOW, Maude. El convenio azul: la crisis del agua y la batalla futura por el direcho al agua. Santiago: Chile Sustentable. 2009.

Pietila et al, Serviços descenbtralizados: a experiência nórdica. In HELLER, Leo; CASTRO, José Esteban (Orgs.) Política pública e gestão de saneamento. Belo Horizonte: Editora UFMG; editora Fiocruz. 2013. pp. 294-312.


1 Doutor em Ciências Sociais – PUC-SP.


2 A cidade de Nova Iorque fornece água aos seus habitantes que não passa por tratamento químico. O investimento financeiro é feito na proteção da água das nascentes e dos rios que abastece aquela cidade e não na compra de produtos para tratá-la. Veja interessante reportagem do Globo Rural em https://www.youtube.com/watch?v=paxGLzKjCyA.


3 Leia artigo A química por trás da água de torneira e da água mineral no link https://carollinasalle.jusbrasil.com.br/noticias/114536054/a-quimica-por-tras-da-agua-de-torneira-e-da-agua-mineral


4 O vídeo pode ser visto no Youtube no link https://www.youtube.com/watch?v=KeKWbkL1hF4.


5 Confira algumas diferenças entre a água mineral e a água adicionada de sais no linkhttp://www.abinam.com.br/sites/arquivos/downloads/folhetoaguamineralxadicionadapaisagem.pdf.


6 Em 2009 a cidade de Concord, nos Estados Unidos, proibiu a venda de água mineral em garrafas com menos de 1 litro como uma forma de desestimular o consumo de água mineral, movimento iniciado em uma cidade da Austrália. Outras cidades e universidades estão seguindo o mesmo exemplo em vários outros países. Leia reportagem sobre Concord em https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/cidade-proibe-venda-de-agua-em-garrafas-com-menos-de-um-litro-7193409.


7 Confira o blog do Ban the Bottle em https://www.banthebottle.net/ e o sítio eletrônico do Água na Garrafa emhttp://www.aguanajarra.com.br/.


8 O ótimo documentário Criança, a alma do negócio mostra quanto de açúcar é consumido nos refrigerantes. Veja em https://www.youtube.com/watch?v=ur9lIf4RaZ4


9 Leia matéria do portal Pública de 2014 sobre o conflito envolvendo a Nestlé e moradores de São Lourenço emhttps://apublica.org/2014/04/em-guerra-contra-a-nestle/.


10 Crenoterapia é o ramo da medicina que estuda o poder curativo das águas minerais.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/05/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 15/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/15/por-que-evitar-beber-agua-engarrafada-artigo-de-flavio-jose-rocha/

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O direito à água é o tema da edição de maio da revista Radis



A revista Radis de número 188, de maio de 2018, aborda o problema da água como um direito, não um privilégio. Para a matéria de capa, a repórter Liseane Morosini entrevistou (FMA), realizados em março, em Brasília. No primeiro, ribeirinhos, indígenas, pescadores, marisqueiros, quilombolas, ativistas, ambientalistas, acadêmicos, estudantes, do Brasil e de fora dele bradavam que a água é de todos, é um bem comum, não uma mercadoria. No outro, estavam o que eles identificavam como um grande balcão de negócios, no chamado fórum das corporações que discutia tecnologias e modelos que, na prática, visam reduzir direitos, controlar o acesso para capturar e comercializar a água no mundo. Juntos, lançaram uma carta em que denunciam as corporações que querem exercer o controle da água por meio da privatização, mercantilização e titularização, e alertam que essas empresas usam de estratégias que vão desde “violência direta até formas de captura corporativa de governos, parlamentos, judiciários, agências reguladoras e demais estruturas jurídico-institucionais para atuação em favor dos interesses do capital”.


Segundo os participantes, diz a Radis, o resultado é a invasão, apropriação e o controle político e econômico dos territórios, das nascentes, rios e reservatórios, para atender os interesses do agronegócio, hidronegócio, indústria extrativa, mineração, especulação imobiliária e geração de energia hidroelétrica. Denunciam, ainda, que o mercado de bebida deseja controlar os aquíferos e o abastecimento de água e esgotamento sanitário.

Durante o Fórum, segundo a reportagem, foi também lançado uma carta em que lideranças de povos originários e de populações e comunidades tradicionais denunciam as práticas indevidas que levam à contaminação, como os rejeitos tóxicos das atividades de mineração, o derramamento de esgotos não tratados, o desmatamento e a criação de gado impetradas por fazendeiros, empresários, poderes públicos e o capital. “Para nós, sem terra não há água, sem água não há semente, que é fonte da vida”, salientam os indígenas.

Presente ao 'Fama', Biko Rodrigues, da Coordenação Nacional de Quilombolas (Conaq), advoga que a disputa pela água caminha juntamente com a luta pela demarcação dos territórios tradicionais dos quilombolas. Ele denuncia, de acordo com a revista, que a apropriação dos recursos hídricos por parte dos fazendeiros impede que os quilombolas acessem esse recurso. “Precisamos que nossos territórios sejam regularizados para cuidar e preservar a água, para sermos guardiões da biodiversidade e de toda essa riqueza que temos no país”, afirmou à Radis. Números da Conaq indicam que mais de seis mil comunidades aguardam o reconhecimento das suas terras no Brasil, em um total de 16 milhões de pessoas.

Já o líder indígena Douglas Krenak contou à reportagem da revista que seu povo teve o curso da vida alterado pelo maior desastre ambiental do país: o rompimento da barragem de Fundão, operada pela Samarco, em novembro de 2015. Para Douglas, é um equívoco falar que houve um acidente. “Houve um crime. “Meu povo não pode mais exercer a vida cotidiana. Há dois anos que não comemos peixe, não batizamos nem realizamos nossos rituais sagrados. Fomos impedidos de viver”, declarou.

O aquífero de Alter do Chão, como é conhecido o Sistema Aquífero Grande Amazônia (Saga), é o maior reservatório de água potável do mundo. Esse lago gigante que fica no subsolo do Amazonas, Pará e Amapá é uma reserva estratégica para o país, e também está sendo ameaçado pela exploração e contaminação de suas águas. Luciana Cordeiro, professora de Direito da Universidade de Campinas (Unicamp), disse que a área é de grande interesse comercial e há riscos diretos que podem impactar na qualidade da água. “Alter do Chão pode se tornar uma área de interesse para a especulação imobiliária, com a construção de grandes resorts, e o estabelecimento de indústrias envasadoras, que visam exportar água para outros países. Isso é um perigo”, indicou.

Luciana contou à Radis que, num evento recente, um pesquisador sugeriu a transferência de indústrias paulistas para a região Norte, com o intuito de superar a crise de água que afeta o estado. “É um absurdo. Alter não pode receber indústrias poluentes. Esse aquífero tem formação rochosa e é bem poroso. Nós precisamos saber qual é essa vulnerabilidade antes de lotear toda essa região”.

O Cerrado é outro berço das águas que vem sendo sistematicamente agredido pela consolidação do agronegócio. Para fazer frente à devastação e mostrar a importância desse bioma, em 2016 foi lançada a 'Campanha em Defesa do Cerrado'. A coordenadora do Projeto de Articulação do Cerrado, Isolete Wichinieski, disse à Radis que o agronegócio e o capital suplantaram o direito dos povos e comunidades. “O Cerrado é colocado como o celeiro do mundo e facilita o processo de expansão do capital no campo. Parece que ali não tem gente. Precisamos mostrar que o Cerrado tem uma identidade, uma cultura, um jeito de produzir, um modo de vida diferente. E há uma forte relação dos povos tradicionais e comunidades com seu território. Eles é que são os guardiões desse bioma”, declarou, em conversa com a reportagem.

De acordo com Isolete, o Cerrado ocupa 36% do território brasileiro entre áreas de transição e contínuas. O avanço do agronegócio, diz, tem um impacto grande na gestão do território. “Junto com ele vem a grilagem das terras e a ação do governo, que não regulariza essas terras e tenta fazer uma regularização individual, diminuindo a força do coletivo”.

A Radis alerta que as diferentes visões sobre o uso e a gestão da água vêm acirrando os conflitos no campo. De acordo com a pesquisa Conflitos no Campo Brasil 2016, realizada pela CPT, o número de embates por água no país cresceu 150% entre 2011 e 2016, saltando de 69 para 172. Aumentou também o número de pessoas envolvidas nesses conflitos. Se, em 2007, foram 164 mil, nove anos depois, em 2016, esse total foi de 222 mil, um acréscimo de 35,8%. O relatório mostra que, entre 2002 e 2010, havia oscilação. De 2011 para cá, aumento. Eram 28 mil famílias envolvidas em 69 conflitos, nesse ano. O número em 2016 foi de 44 mil famílias, envolvidas em 172 conflitos. Segundo a CPT, a mineração responde por mais da metade dos problemas (51,7%) e as hidrelétricas, por 23,2%.

A Radis também entrevistou o italiano Renato Di Nicola, do European Water Movement e do Foro Italiano Movimento Acqua. Para ele, quem controla a água, também nos controla. Contrário à privatização, ele considera que por trás da luta pela água há uma disputa por visões de mundo. “Eles olham a água e veem dinheiro. E quando privatizam a água ou qualquer outro serviço, nos privam de decidir”. Um dos coordenadores do Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama), ele traz na bagagem a luta contra a privatização desse recurso na Itália, e é enfático ao defender a água como um instrumento democrático. Em entrevista à Radis, ele criticou o interesse financeiro de multinacionais e defendeu estratégias mais incisivas para enfrentar a mercantilização: “Temos que mudar a nossa linguagem. Um desastre ambiental é um crime ambiental. Quem leva à morte milhões de outros indivíduos que não têm acesso à agua, não se equivoca, é criminoso”.

Conheça a edição!


Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 04/05/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/o-direito-agua-e-o-tema-da-edicao-de-maio-da-revista-radis

quinta-feira, 22 de março de 2018

Mundo sem água e com guerras, artigo de Roberto Naime



Matéria de Eliana Ros, traduzida por Inês Castilhos e bastante divulgada, ocorre asseverar que em 2030, a população mundial deverá ser de uns 8,5 bilhões de pessoas e, se a humanidade continuar a viver do mesmo modo, o déficit de água doce do planeta chegará a 40%, diz informe das Nações Unidas sobre os recursos hídricos divulgado em Nova Deli.

Todo o nosso sistema vital e econômico gira em torno de um recurso natural limitado. Sua maximização e gestão de forma eficaz constitui o grande desafio do século XXI.

Cada vez que abrimos a torneira, acontece um pequeno milagre. Por trás deste gesto tão cotidiano há muito mais que um jorro de água em estado líquido. A água é o sistema sanguíneo deste planeta, um ciclo natural sobre o qual a atividade humana exerce enorme pressão.

Ocorre observar que “a quantidade de água doce na Terra hoje é praticamente a mesma que na época em que o imperador César conduzia o império romano. Mas nos últimos 2000 anos, a população pulou de 200 milhões para cerca de 7,2 bilhões, e a economia mundial cresceu ainda mais rapidamente.

A conjunção da demanda de alimentos, energia, bens de consumo e água para este grande empreendimento humano requereu um grande controle sobre a água”, resume Sandra Postel, diretora da organização norte-americana “Global Water Policy Project”.

“Há muito pouca água no planeta azul”, constata Elias Fereres, catedrático da Universidade de Córdoba que exerceu numerosos cargos relacionados com a agricultura e a ecologia. Fereres refere-se a que, embora 70% da superfície da Terra esteja coberta de água, somente cerca de 2% é água doce, além daquela fixada como gelo nas calotas polares e geleiras.

Sobre esse 2% não apenas repousa nossa principal fonte de vida, mas também o motor do mundo desenvolvido. “A água tem tanto valor que não tem preço, e a chave do seu uso está em obter o máximo aproveitamento sem aumentar as desigualdades econômicas, sociais e ambientais”, sustenta o professor.

“O avanço da população global e do crescimento econômico ocorrido nos anos cinquenta deve-se em grande parte à engenharia de água, com barragens para gerar reservatórios, canais para remoção e bombas para extração do subsolo. Desde 1950, o número de barragens passou de 5 mil a 50 mil. Construíram-se uma média de duas por dia durante meio século.

Na maior parte do mundo, a água já não circula seguindo fisicamente o processo natural, mas de acordo com a vontade do homem”, sublinha Postel. São dados constatáveis e perfeitamente conectados com a realidade. Não existe nenhuma motivação em fomentar postura alarmista ou catastrofista na opinião pública.

No século passado, essas infraestruturas permitiram cobrir as necessidades da agricultura, que consome 70% da água doce e a indústria que representa 20% O uso doméstico consome os 10% restantes, em grande parte do globo.

Mas o aumento da demanda, devido em grande medida ao desenvolvimento dos países emergentes, está rompendo um equilíbrio que já é muito precário. “Existe a previsão de que em 2030 o mundo terá de confrontar-se com um déficit de 40% de água em uma situação climática em que tudo continua igual”, alerta o último informe da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre recursos hídricos.

O autor Richard Connor, lamenta a “escassa importância” que os governos outorgam à água, espalhando a concepção de que se trata de um bem comum inesgotável. “É um serviço essencial para o crescimento, mas as pessoas não têm essa percepção. Ao invés disso, concebem a energia como fator econômico de primeira ordem e inclusive geopolítico, para a segurança de um país, razão pela qual recebe muito mais apoio. Relegar a água na ação política é um erro que se paga caro e compromete o desenvolvimento”, argumenta.

Os acontecimentos deram razão a aqueles cientistas que prenunciaram que “a água será para o século XXI o que o petróleo foi para o XX”. Se o petróleo é cobiçado a ponto de provocar conflitos bélicos, isso se deve a que suas reservas são finitas e não estão universalizadas. O mesmo sucede com a água doce, uma vez alcançado um volume de demanda superior a sua capacidade de regeneração, o que se define como estresse hídrico.

Alexandra Taithe, responsável pela Fundação para a Investigação Estratégica e especialista na interação entre água e energia, traça um panorama inquietante. “Nos países do Sul e do Leste do Mediterrâneo”, adverte, “os poderes públicos optaram por soluções consistentes para aumentar a água disponível. Esta política, que recorreu tanto à dessalinização da água do mar como à exploração dos aqüíferos ou transferências massivas, tem um custo energético muito elevado.”

Segundo seus cálculos, em 2025 a demanda de eletricidade para abastecimento de água destes países representará cerca de 20% do total do que precisam os estados. Hoje são estimados em 10%. A dessalinização, às vezes apresentada como uma panaceia para combater a escassez de água, é o sistema que mais energia devora. A Arábia Saudita, o país com maior capacidade de produção, gera 5,5 milhões de metros cúbicos por dia. Pois bem, para obter essa quantidade, consome o equivalente a 350 mil barris de petróleo diário.

Por sua vez, a fabricação de eletricidade e a extração de combustíveis fósseis precisam de grandes quantidades de água. Por exemplo, segundo Taithe, na França 60% do caudal dos rios destina-se ao processo de esfriamento das centrais térmicas e nucleares.

É preciso dizer que a França é o segundo país em produção de energia atômica do mundo e que esta água que em princípio não contaminada, é devolvida às bacias hidrográficas e aos lago com temperaturas superiores, o que favorece a proliferação de algas e reduz a população de peixes. No ciclo de água, tudo está inter-relacionado. Qualquer manipulação da ordem natural tem efeitos colaterais.

No fundo é isto que frequentemente se exprime como complexidade ecossistêmica e que não tem sido minimamente considerada no caso de transgênicos e agrotóxicos.

A extração de gás das camadas mais profundas por meio da fraturação hidráulica, o “fracking”, é problemática. Graças a essa tecnologia, os Estados Unidos alavancaram sua economia e mudaram o equilíbrio geopolítico, posto que já não dependem do petróleo árabe.

Mas, para perfurar cada um dos mais de 500 mil poços em atividade, muitos dos quais em zonas de estresse hídrico, precisam de 75 a 180 milhões de litros de água, misturada com uns 36 quilos de produtos químicos, alguns dos quais cancerígenos.

Sacrificamos a água e a saúde no altar da economia. Em escala mundial, os dados sobre o aumento da demanda são estonteantes. No horizonte de 2050, enquanto a demanda de água doce crescerá 55%, a de eletricidade avançará 70%. E isso, tendo em conta que o acesso não é universal.

Cerca de 800 milhões de pessoas vivem alijadas de fonte de água limpa e 1,3 bilhão carecem de conexão elétrica. Para Taithe, a crescente necessidade de energia para obter água supõe “um obstáculo de primeira ordem para o desenvolvimento de muitos países e um risco para sua segurança energética.”

Até que ponto a água pode levar a uma escalada bélica? Taithe recorda que para os povos esse recurso “é algo irracional” que historicamente tem originado tensões e continua sendo “centro de tensão diplomática”. A seu ver, os Estados têm mais interesse em cooperar, assinaram 250 tratados multinacionais, mas outros especialistas preveem que “as guerras do futuro serão por água”.

No fundo poderia se argumentar com vários exemplos que isto já ocorre. Mas não é este o cerne do tema em questão.

Para Connor, esse futuro já chegou. Ele sustenta que a grande seca na região da antiga Mesopotâmia entre 2006 e 2009, que provocou uma subida radical no preço do trigo, da farinha e do pão, teve um papel-chave na guerra da Síria. Como consequência da seca, 1,5 milhão de pessoas emigraram das zonas rurais para cidades já estavam submetidas a fortes pressões, quando começaram os protestos contra Bashar el Assad.

Connor observa a mesma relação de causa-efeito entre a seca, acompanhada de grandes incêndios, que assolou a Rússia em 2010 e as primaveras árabes. “A Rússia é o grande provedor de trigo dos países árabes, e como pode apenas exportar, o preço da farinha duplicou, o que gerou descontentamento social”, resume. Sem esse mal-estar, teriam as mobilizações pró-democracia recebido tanto apoio? Connor acredita que não.

Na margem sul do Mediterrâneo, os focos de tensão se multiplicam. A construção, na Etiópia, da grande barragem do Renascimento causou um confronto com o Egito, que se opõe à obra porque garante que afetará o fluxo do Nilo e agravará seus problemas de abastecimento.

Uruguai e Argentina tiveram séria contenda por questões de barragens e de empreendimentos agroflorestais. A história ambiental da civilização humana demonstra várias influências de efemérides que geram rupturas na trajetória evolucionista de várias espécies.

“Nos poucos lugares onde ainda se podem construir reservatórios, o impacto ecológico é demasiado negativo. É necessário pensar outras soluções”, opina Fereres. Na Índia e no nordeste da China os agricultores encontraram uma solução alternativa na extração de água do subsolo.

Uma atividade subvencionada que levou o progresso a muitas regiões, mas não sem consequências. A venda de bombas elétricas a diesel para extrair água disparou nos últimos anos, calculando-se que na China existam 20 milhões em funcionamento, e na Índia, 19 milhões, o que eleva o consumo de energia. Em algumas regiões, representa entre 35% e 45% do total.

Taithe relaciona esse fenômeno com “os gigantescos cortes de eletricidade que, em julho de 2012, deixaram sem energia 670 milhões de pessoas no nordeste da Índia”. Assinala que neste ano as monções foram menos chuvosas, e as autoridades cederam à pressão dos irrigantes para ampliar as cotas, para áreas onde a água se encontra armazenada em maiores profundidades.

De acordo com o relatório da ONU, 20% dos aquíferos da Terra estão sendo superexplorados. “Estamos consumindo hoje a água de amanhã”, previne Postel.

Ao aumento da população e à pressão que exercem os países emergentes sobre as reservas de água se adiciona ao aquecimento global do planeta. “Em períodos de grandes inundações os recursos hídricos parecem não ter fim, mas depois vêm grandes secas, e a escassez volta a ser o grande motivo de preocupação”.

Essa dicotomia está se acentuando na região mediterrânea. Essa é a mudança climática!, descreve Maitê Guardiola, engenheira geóloga especializada em aproveitamento da água com ampla experiência em projetos humanitários.

No Brasil, que possui a maior bacia hídrica do mundo, na Amazônia, a falta de água tem obrigada a racionar o fornecimento em São Paulo, cidade que ilustra o problema causado pelo crescimento descontrolado das periferias.

Segundo o informe da ONU, “o aumento das pessoas sem acesso à água e ao saneamento nas áreas urbanas está diretamente relacionado ao rápido crescimento dos bairros marginais nos países em vias de desenvolvimento. Essa população, que se aproximará de 900 milhões de pessoas em 2020, é mais vulnerável ao impacto dos fenômenos extremos”.

Cientistas do porte de Stephen Hawking apostam em “colonizar” outros planetas, ele afirma que dentro de cem anos a espécie humana enfrentará a extinção devido ao “envelhecimento de um mundo ameaçado pelo aumento de habitantes e limitação de recursos“. Os menos catastrofistas optam por racionalizar o consumo.

“Há água suficiente para satisfazer as crescentes necessidades do mundo, mas não sem mudar a forma de geri-la”, sustenta o informe da ONU, que entre outras medidas, reclama um marco legal universal para administrar este recurso de forma mais equitativa e respeitando os fluxos ecológicos.

Para Connor e Fereres, a chave está em poupar por meio de sistemas de irrigação inteligentes e culturas adequadas a cada região. Em sua opinião, para considerar soluções inovadoras, tais como a remoção de água do ar ou a obtenção de sementes que precisem apenas de rega, faltam “entre 20 e 30 anos de pesquisa”. Maitê Guardiola, por sua vez, enfatiza a reutilização de águas residuais tratadas. De acordo com essa especialista, se destinadas à irrigação, isso “significaria uma redução de 30% da água para a agricultura” na Espanha.

Fereres defende também uma “mudança de dieta”, com menos proteínas, exemplificando que um quilo de carne de porco representa um consumo de três quilos de grãos, como uma forma “de reduzir a demanda hídrica”. E promove uma atitude militante contra a água engarrafada. “A sociedade gasta muito dinheiro purificando a água para que chegue às casas de forma potável”.

O ator Matt Damon trata de sensibilizar a opinião pública com ações tipo derrubar um balde de água do vaso sanitário, enquanto se dirige à câmera e assevera, “para aqueles que tem restrições, é válido lembrar de que a água nos banheiros do ocidente é mais limpa do que aquela à qual tem acesso a maioria das pessoas nos países em desenvolvimento“. Por meio de sua Organização Não-governamental (ONG) “Water.org”, é uma das poucas celebridades a combater a crise da água e profundas desigualdades que acarreta.

“A água não é cara o suficiente. Purificar e canalizar tem um custo muito mais alto do que o que se paga na conta de consumo, por isso as pessoas não valorizam adequadamente”, censura Connor. Na Espanha, o consumo médio é de 142 litros por pessoa/dia, mas segundo Guardiola, se estima que são perdidas, cerca de 17,5% da água distribuída. Na Alemanha, esse percentual é de 5%. No Brasil, dados indicam que giram em torno de 38% em média, mas poderia ser um valor arredondado para 40% sem muito risco de ocorrer inverdades.

Se implementadas, não está claro que todas essas medidas compensariam o aumento da demanda. Um futuro sem água, no qual os humanos se vejam obrigados a abandonar a Terra, não está longe do que vislumbra o físico Stephan Hawking. “Devemos nos antecipar às ameaças e ter um plano”, insiste o famoso astrofísico. E por que não mudar, do planeta azul pelo planeta vermelho. Segundo um estudo da Universidade do Novo México, Marte poderia ter grandes reservas de água em seu interior.

Referências:

http://outraspalavras.net/

http://ideiaweb.org/?p=8110



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2018



Autor: Roberto Naime
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 22/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/22/mundo-sem-agua-e-com-guerras-artigo-de-roberto-naime/