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sexta-feira, 20 de março de 2020

Dia da água: 75 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a saneamento, artigo de Elias Oliveira


Presente em uma extensa massa no planeta e fonte de vida para a humanidade, a água é considerada símbolo de riqueza, um recurso importante para o mundo. Não por acaso, um dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU é o de assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e o saneamento para todos. Com o objetivo de colocar em discussão a importância de preservação deste recurso, o dia 22 de março é reconhecido como o Dia Internacional da Água.

A falta de saneamento básico pode comprometer na educação e crescimento da população. De acordo com um estudo do Instituto Millenium, no Brasil, a Frequência Escolar Proporcional – síntese de quatro indicadores que medem se os alunos cursam a série compatível com sua idade, está fortemente correlacionada com o acesso a saneamento básico, água encanada e energia elétrica.

O estudo revela também que cerca de 85% dos municípios brasileiros são atendidos por serviços de tratamento de água, esgoto e coleta de lixo, mas isso deixa ainda 75 milhões de pessoas desprovidas destes serviços básicos. E esta é uma das várias facetas de uma realidade que pode ser transformada através dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um apelo universal da Organização das Nações Unidas à ação para acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar que todas as pessoas tenham paz e prosperidade.

Focado em Água Potável e Saneamento, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU número 6 visa assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos. Quando olhamos para o cenário brasileiro, dados do Instituto Trata Brasil revelam que, atualmente, apenas 41,5% dos municípios possui o Plano Municipal de Saneamento Básico, regulamentado ou não. Apesar de ainda longe do ideal, os pontos monitorados pelo levantamento, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos, drenagem e manejo de águas pluviais vêm apresentando notável crescimento de atendimento nos últimos anos.

Mesmo avançando em distribuição de água potável, ainda se perde muito neste processo no Brasil. Ao distribuir água para garantir consumo, os sistemas sofrem perdas de 38,45% – um cenário muito preocupante. A Região Norte é a que mais perde neste processo: 55,53%.

Portanto tão importante quanto trazer à tona esta discussão, é necessário reforçar que cada um de nós, tem sua responsabilidade perante este cenário e pode assumir um compromisso com os ODS para mudar este cenário. Para saber mais sobre os ODSs e a Agenda 2030, acesse: https://nacoesunidas.org/pos2015/

Neste Dia Mundial da Água, assuma seu papel para mudar este jogo no Brasil e no Mundo.

Elias Oliveira, gestor institucional da unidade de negócio Sabará Químicos e Ingredientes, membro da Comissão de Estudo de Produtos Químicos para Saneamento Básico, Água e Esgoto da ABNT, entre outros.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/03/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 20/03/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/03/20/dia-da-agua-75-milhoes-de-brasileiros-ainda-nao-tem-acesso-a-saneamento-artigo-de-elias-oliveira/

terça-feira, 22 de maio de 2018

Saneamento Nada Básico: Baía de Guanabara vive um conflito silencioso em meio à poluição


Baía de Guanabara, patrimônio da humanidade e receptora de 18 mil litros de esgoto por segundo. Foto: AF Rodrigues


Baía de Guanabara: Patrimônio da Humanidade e cartão-postal do Rio de Janeiro. Ali, no noroeste do seu espelho d’água, em um pequeno afluente conhecido como rio Roncador, uma fileira de canos longos sai das casinhas de tijolo vermelho que beiram a margem.

O pescador Alaildo Malafaia pede para a sua vizinha ligar a torneira da cozinha. Do lado de fora, ele assiste à água fazer o percurso de sempre. Levando a sujeira das louças empilhadas dentro da pia, entra pelo ralo da cozinha e sai do lado de fora, por um cano grosso de cimento que direciona os dejetos direto para o rio.

O rio Roncador, que deságua na baía de Guanabara, está localizado no município de Magé, no Rio de Janeiro. Hoje, não existe tratamento de esgoto em todo o município.

Mas o Roncador não é o único que direciona a poluição para dentro da baía de Guanabara; são 18 mil litros de esgoto não tratado por segundo.

Segundo dados levantados pela engenheira Eloísa Torres, 76% do esgoto do estado do Rio de Janeiro é despejado in natura; apenas 24% dos dejetos que chegam ali recebem tratamento.

“A gente vê em pleno século 21 pessoas lavando louça em um rio onde cai esgoto in natura. A gente se sente sem força nenhuma, a gente fala, reclama, mas ninguém atende”, diz Alaildo.

Do outro lado da baía, as casas nas margens do rio Iguaçu, no município de Duque de Caxias, também não têm o seu esgoto tratado. Os moradores são testemunhas das consequências desse arranjo insalubre. A rede de esgoto improvisada por eles entope toda vez que a maré sobe ou cai um temporal e devolve todos os dejetos para dentro das casas. Com ela, voltam ratos e baratas, que trazem o risco de doenças como leptospirose.

“Vem pelo esgoto, enche o banheiro sai no ralo do banheiro, o boxe vai enchendo”, explica a moradora e agente de saúde comunitária Ana Lúcia Alves de Souza. “A gente tem um problema muito sério de animais. É muito rato, barata. Passa por dentro da rede de esgoto e vai pra dentro das casas”, diz.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a falta de saneamento é uma das principais causas da mortalidade infantil. O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP) adverte que, no Brasil, a falta de saneamento faz proliferar o vírus da zika.

De quem é a culpa?

Foram 22 anos de investimentos e mais de R$ 3 bilhões gastos em programas de grande porte que tinham como objetivo despoluir a baía de Guanabara.

Criado em 1993, o primeiro foi o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), conduzido pelo governo estadual. Contou com empréstimos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica), que somaram na época R$ 2,5 bilhões.

No entanto, segundo um relatório do Artigo 19, ONG que atua na área de transparência e liberdade de expressão, o PDBG deixou uma dívida de R$ 1,19 bilhão.

O projeto foi assinado em 1994 pelo então governador Leonel Brizola (PDT). O próprio governador ficou responsável por coordenar o Grupo Executivo da Despoluição da Baía de Guanabara (Gedeg), que serviria de ponte direta com as fontes financiadoras. Segundo o livro Baía de Guanabara, descaso e resistência, de Emanuel Alencar, o projeto já começou com o pé errado. Embora os contratos tenham sido assinados, as obras só começaram um ano depois, já na gestão de Marcello Alencar (PSDB), que governou o Rio até dezembro de 1998.

O PDBG deixou para trás sérios problemas estruturais. Grandes estações de tratamento de esgoto foram construídas com o dinheiro do programa, mas hoje todas funcionam abaixo da capacidade.

A razão? As obras dos troncos coletores, que levariam o esgoto domiciliar até as estações, nunca foram concluídas. Durante os 12 anos de duração do programa, apenas 56,87% dos troncos previstos foram feitos de fato.

“Essas obras têm uma série de problemas”, diz a geógrafa Ana Lúcia Britto, doutora em planejamento urbano que trabalha na área de saneamento desde 1997. “Você contrata uma obra com uma empresa, a empresa terceiriza, aquela terceiriza para outra e você tem uma dificuldade muito grande de controle dessa obra.”

Ana Lúcia responsabiliza o governo fluminense pela falta dos troncos coletores. Segundo ela, as estações de tratamento de esgoto foram financiadas com capital estrangeiro, mas era o governo do estado, em parceria com os governos municipais, que construiria a rede coletora. Os recursos seriam aportados pelo Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam). “Foi uma opção do programa deixar as redes de coleta por conta da contrapartida do governo do estado. Na realidade, você tem estação de tratamento de esgoto e não tem rede de coleta”, diz.

O PDBG está sendo investigado agora no Ministério Público Federal (MPF). O órgão informou que o objetivo do inquérito civil em andamento é apurar possíveis irregularidades referentes à implementação do programa e investigar especialmente a construção das redes de esgoto – ou a falta dela. O MPF requisitou informações sobre o caso à Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), que opera as estações de tratamento. A Cedae pediu prorrogação do prazo para resposta e tem até o fim de maio.

A promessa da Olimpíada

Em 2011, quando a Olimpíada do Rio já era uma realidade no horizonte, um novo programa de despoluição, batizado de Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara (PSAM), recebeu mais um voto de confiança do BID e R$1,1 bilhão para resolver os problemas herdados pelo programa anterior. O financiamento foi aprovado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), hoje preso pela Operação Lava Jato. O ex-governador prometeu repetidas vezes que este seria o maior legados dos jogos: reduzir em 80% a poluição da baía até 2016.

A promessa não foi cumprida.

Embora o programa não tenha sido oficialmente descontinuado até hoje, ele caminha a passos lentos, e as obras que eram previstas para 2018 não foram finalizadas – entre elas, as obras do Sistema de Esgotamento Sanitário de Alcântara, em São Gonçalo, e a obra da Estação de Tratamento de Esgoto de Pavuna.

Mas o governo do Estado não é o único responsável. Quase todos os municípios no entorno da baía de Guanabara, com exceção de Niterói, delegam a gestão do saneamento no Rio de Janeiro para a Cedae, a companhia estadual de saneamento. “A Cedae tem uma dívida muito grande com a população, ela tem um problema de descontinuidade de obras seríssimo”, diz Ana Lúcia. “Eu acho que tem uma má gestão da companhia. E junto tem uma desresponsabilização dos municípios que não assumem o seu papel de titular de serviço.”

A empresa de tratamento de esgoto que não trata

Hoje a Cedae gerencia a operação de 15 estações de tratamento no entorno da baía de Guanabara, mas juntas elas tratam apenas 34% do planejado.

“A Cedae sempre foi uma empresa ineficiente. Nunca investiu em saneamento. Tudo que foi investido nessas estações e nessas redes foi com recurso do Fecam, não com recursos próprios da Cedae”, diz o deputado estadual Carlos Minc (PSB), ex-ministro e ex-secretário estadual do Meio Ambiente

Uma das obras mais emblemáticas é a do coletor-tronco Cidade Nova. O investimento inicial foi de R$ 81 milhões. Em julho de 2014, um comunicado do governo do estado afirmava que só com a conclusão dessa obra “a baía de Guanabara deixaria de receber 216 milhões de litros de esgoto in natura por dia, o equivalente a 90 piscinas olímpicas”. Faltavam dois anos para os Jogos Olímpicos do Rio, por isso a parábola esportiva.

Em nota enviada à Pública, a Cedae informou que a obra, cuja conclusão estava prevista para dezembro de 2018, não será entregue – e se desresponsabilizou pela quebra de mais essa promessa.

Segundo a nota, a ampliação da estação de tratamento de Alegria “foi declarada deserta por falta de empresas interessadas em participar do certame licitatório”. A empresa acrescenta ainda que “devido à crise financeira do Estado” não foi possível captar recursos públicos para terminar a obra e que “no presente momento, está sendo estudada pela CEDAE nova fonte de recursos, de origem do Governo Federal”.

Esse jogo de empurra e a insistência em colocar a culpa na crise financeira é uma das principais razões pelas quais a situação do saneamento no Rio permanece na inércia.

Para Carlos Minc, faltou também uma articulação maior entre os diversos responsáveis pela implementação dos programas de despoluição da baía.

“A gente não conseguiu fazer uma autoridade única da baía. Os países que conseguiram resolver problemas de baías poluídas criaram uma autoridade que envolvesse as indústrias, as prefeituras, o governo, os empresários, o governo federal também. Isso aqui foi uma guerra”, diz.

Segundo o ex-ministro, “nós tínhamos uma empresa [a Cedae] que não funcionava direito, os municípios que não trabalhavam em conjunto, não havia uma autoridade de bacia única e não havia parcerias público-privadas, que são necessárias, porque a gente está falando de recursos muito grandes para cobrir 50 anos de falta de saneamento”.

Injustiça ambiental

A obra inacabada do tronco coletor Cidade Nova fazia parte de um projeto de ampliação da estação de Alegria, que fica no Caju, bairro da zona portuária da capital. Recebendo o esgoto de 785 mil pessoas, Alegria é uma das maiores estações de tratamento do Brasil.

O projeto de ampliação previa a construção do Faria-Timbó, uma rede de troncos coletores que aumentaria a coleta para as favelas da Maré, Alemão, Manguinhos e Jacaré.

Enquanto as obras do Faria-Timbó permanecem inacabadas, a estação de Alegria coleta os esgotos de São Cristóvão, do centro da cidade e da Tijuca, áreas frequentadas pela classe média carioca – onde os troncos coletores, sim, foram construídos. Pesquisadores acreditam que existiu um recorte social na decisão.

“As principais veias que recolhem exatamente das favelas, aquelas áreas com maior vulnerabilidade socioambiental, não foram executadas”, diz Alexandre Pessoa, engenheiro especialista em saneamento e pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz. “A tubulação para exatamente quando chega na favela. Nós entendemos isso como um problema de justiça ambiental.”

Quem sente na pele as consequências é a população de baixa renda. Hoje, em cinco dos dez municípios localizados no entorno, menos de 4% da população tem o seu esgoto tratado.

O pescador Alaildo Malafaia sente o descaso duplamente: como morador e como usuário da baía. “Eu sou nascido e criado na beira do rio e tive a felicidade de ver esse rio com água transparente, com água de cachoeira. Hoje ele já não é mais assim”, diz.

“Mas a gente poderia voltar a ver o fundo do rio”, acredita. Vendo a falta de interesse do poder público, Alaildo Malafaia decidiu se envolver com projetos de conservação ambiental.

Hoje, ele dedica a sua vida à restauração de manguezais dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim. Localizada no noroeste da baía de Guanabara, abarca 60 km2 do último reduto de manguezal do estado.

“Eu trabalhei dentro do manguezal a vida toda catando caranguejo e tinha uma visão que era um monte de lama e mosquito. E hoje eu sei que 60% da vida marinha depende do manguezal para sobreviver”, diz. “Pescador artesanal desenvolvendo metodologia é coisa que a gente se sente muito orgulhoso.”

Em uma luta constante pela baía onde cresceram, Malafaia e outros colegas parecem enfrentar sozinhos os estragos causados pela ineficácia do poder público. “O pescador é o símbolo da baía, porque, quando os europeus chegaram, os índios já pescavam. Hoje pescador é símbolo de resistência, que não era pra ser. Eu e pescadores mais antigos preferimos que nossos filhos não virassem pescador porque é uma luta desigual: o pescador contra a poluição.”

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/05/2018



Autor: Mariana Simões e Gabriele Roza
Fonte: Agência Pública
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 22/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/22/saneamento-nada-basico-baia-de-guanabara-vive-um-conflito-silencioso-em-meio-a-poluicao/

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

#Saneamentoambiental – 2018: lixões e aterros controlados, uma realidade ainda gritante no Brasil, artigo de Sucena Shkrada Resk



O lixão da Estrutural, DF, foi desativado no dia 20 de jan de 2018.



O Ano era 2010, e a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) trouxe a esperança de que a gestão pública brasileira, de uma forma geral, iria se redimir dos sucessivos erros no quesito infraestrutura, ao longo de décadas. Mas do papel à realidade, chegamos em 2018, e constatamos que existe uma cultura de inoperância resistente que fragiliza a efetivação dessas mudanças em boa parte dos municípios. A prova está na permanência de cerca de 3 mil lixões ou aterros controlados espalhados pelo território nacional em 3.331 municípios, que recebem cerca de 30 milhões de toneladas de resíduos urbanos anualmente (41,6%). Os dados de projeção fazem parte do documento Panorama de Resíduos Sólidos 2016, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe). Chorume, gases tóxicos e trabalhadores em condições insalubres compõem este cenário obsoleto ainda em vigor.

O maior número de lixões se encontra respectivamente nas regiões Nordeste, seguida da Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Já os aterros controlados, principalmente no Sudeste, no Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), no Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos – 2015, divulgado pelo Ministério das Cidades. O prazo oficial para encerramento dos lixões era 2014 e foi postergado, no Congresso, pelo Senado, para acontecer de forma escalonada até 2021…e encontra-se em tramitação na Câmara. Este é o quadro atual hoje.

Coberturas no país

Ao consultar especificamente os registros no SNIS, o levantamento expõe que existem 98,6% de cobertura de coleta domiciliar urbana e isso representa que 2,6 milhões de habitantes principalmente do Nordeste, Sudeste e Norte sem atendimento, além de 15 milhões na área rural. A estimativa de destinação a lixões e aterros controlados difere da projeção feita pela Abrelpe (metodologias de amostragem diferentes). Neste caso, o percentual exposto pelo SNIS é de 33,2% contra 41,6% (Panorama Abrelpe). Independente disso, o fato é que existe um problema de alta complexidade e sério a ser resolvido, que não pode ser colocado “embaixo do tapete”. O diagnóstico sobre os resíduos sólidos urbanos, do Governo Federal, tem o recorte de informações de 3.520 dos 5.570 municípios, que correspondem a 82,8% da população urbana (143 milhões de pessoas).

Passivo ambiental

Existe, entretanto, um passivo ambiental que praticamente é descartado nessas discussões, que são os lixões e aterros controlados que são “encerrados”, mas que devem ser fiscalizados e monitorados e passar por processo de mitigação (redução de danos) por tempo indeterminado, por causa de suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) e possíveis comprometimentos de lençóis freáticos. Este é o caso do recém-fechado “Estrutural”, no Distrito Federal, considerado o maior da América Latina e que figura entre os 50 maiores do mundo, que fica a 15 quilômetros do Palácio do Planalto. Junto com os lixões de Carpina (PE), Camacan (BA), Divinópolis (MG) e Jaú (SP), ainda em funcionamento, entre os maiores do país.

Mais um aspecto a ser considerado é o aumento gradativo da “exportação de lixo” de seu lugar de origem à destinação constatado nestes dados. Trocando em miúdos, são observados percursos cada vez mais distantes (inclusive a outros municípios) e que acarretam também o agravo da emissão de GEEs, entre outras.

Este cenário descreve que o saneamento ambiental (que incorpora também coleta e tratamento de esgoto, drenagem…) continua a ser o entrave ao desenvolvimento efetivo do país. Veja também (#Saúdeambiental: até quando políticos não priorizarão solução para esgoto em agenda da gestão pública?). A implementação de Planos Municipais e Intermunicipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos ainda são ínfimos diante de um Brasil com 5.570 municípios. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos começou a ser revisado em 2017.

Investimento ou gasto?

Como as prefeituras, os governos estaduais e o governo federal incorporam no exercício da política pública, a coleta e a destinação adequada dos resíduos sólidos a aterros sanitários? Esta é uma questão que exige reflexão da sociedade na contribuição cidadão em um regime democrático.

Hoje o valor médio anual da despesa com manejo de resíduos sólidos no país é de R$ 117 por habitante e R$ 82 para municípios de 30 a 100 mil habitantes e R$ 207, nas duas principais metrópoles brasileiras, conforme informações do SNIS.

Iniciativas pontuais revelam algumas mobilizações da sociedade civil organizada para ter uma participação mais ativa, neste sentido, como a criação, em 2014, do Observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Outro movimento é a Aliança Resíduo Zero.

Externalidades prioritárias

O que está em questão são as externalidades desta agenda, que incorporam o “bem-estar” da população, o reflexo em atendimentos e internações no Sistema Único de Saúde, incluindo, inclusive, óbitos em decorrência de doenças associadas ao ciclo dos resíduos, como também, na contribuição para a contaminação de corpos hídricos, para as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) e os efeitos nas Mudanças Climáticas, entre outros componentes.

Ao mesmo tempo, reflete nossos hábitos de consumo e a responsabilidade sobre os mesmos. Quanto produzimos de resíduo? A média nacional de resíduos domiciliares é de 0,90 kg/hab/dia per capita, segundo dados do SNIS. A coleta seletiva no Brasil também é inexpressiva, sendo 22,5% dos municípios têm algum tipo de coleta, 40,6% não têm e o restante sequer apresenta algum tipo de informação a respeito. A cada 10 quilos, 470 gramas seguem para a coleta seletiva, o que é avaliado como um volume muito baixo.

Ao se analisar este conjunto de informações, nos defrontamos com uma questão de saúde pública e de justiça socioambiental. Os vetores – moscas, baratas, ratos, pulgas e mosquitos – associados ao que descartamos estão relacionados a diferentes doenças (cólera, dengue, diarreia, cheguelose, endoparasitose, febre tifoide, giardíase, leptospirose, parasitose, peste bubônica, tétano, tracoma). Neste contexto, também está o comprometimento do descarte inadequado de resíduos de serviço de saúde associados ao HIV, hepatites C e B, como também de componentes químicos potencialmente cancerígenos. O gás metano que poderia abastecer usinas de biogás, como meio de energia, também segue para a atmosfera, nestes locais inadequados de descarte.

Estima-se que o governo brasileiro gaste cerca de R$ 1,5 bi anualmente com doenças relacionadas à destinação incorreta de resíduos, segundo a International Solid Waste Association (ISWA).

Catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis ainda ficam à mercê deste sistema insalubre, expostos a substâncias tóxicas e resíduos orgânicos. Uma outra parcela consegue estabelecer a dignidade do trabalho, mas às custas de muito empenho e mobilizações com a formação de cooperativas, utilização de tecnologias sociais, como do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR).

Já a logística reversa é insuficiente na cobertura nos principais segmentos da economia. Alguns dos melhores resultados acontecem com o setor de latinhas de alumínio, PETs e pneus, entre outros segmentos, que têm estabelecido estratégias mais contínuas de desempenho. O setor empresarial tem um importante papel nesta cadeia. O investimento em usinas de compostagem (no caso do resíduo orgânico) é praticamente descartada, com o argumento de alto custo.

Tudo isso parece óbvio, mas porque não é assimilado e as soluções não são efetivadas na prática? O que há de errado no sistema político em vigor no país? O que se prioriza nos Planos Plurianuais de Ações (PPAs), nas Leis de Diretrizes Orçamentárias (LDOs) e Leis de Orçamentos Anuais (LOAs), nos orçamentos com gestão participativa? São perguntas que exigem uma participação mais ativa na condução das políticas públicas por parte de cada um de nós, como cidadãos, que somos responsáveis por nossos votos, nas urnas, aos gestores e legisladores, e gestão participativa.

* Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 26 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/02/2018

Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 01/02/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/02/01/saneamentoambiental-2018-lixoes-e-aterros-controlados-uma-realidade-ainda-gritante-no-brasil-artigo-de-sucena-shkrada-resk/