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quarta-feira, 11 de maio de 2022

Anvisa aprova novo teste de Covid-19 que utiliza biotecnologia inovadora

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a utilização de um novo reagente para teste Real-Time PCR, que permite a obtenção do material genético do novo coronavírus por um processo exclusivo, eliminando etapas anteriores de extração e possibilitando que seja realizado direto da amostra.

Trata-se do Kit artus ® SARS-CoV-2 Prep & Amp, método que utiliza uma tecnologia de preparação de amostras à base de líquido, o que simplifica e aumenta o rendimento dos testes de Covid-19.

O kit foi registrado para uso em mercados que aceitam a rotulagem CE-IVD. Além disso, a QIAGEN, multinacional alemã, fez um pedido às autoridades de saúde dos Estados Unidos para uma autorização de uso de emergência do produto.

Diferenciais do produto

Segundo o seu fabricante, o novo kit diagnóstico identifica a presença ou ausência de Covid-19 em amostras de swab nasofaríngeo e saliva através da detecção do material genético viral, gerando economia de tempo, materiais e custos.

“Esse novo kit diagnóstico pode permitir uma maior economia de tempo, materiais e custos, aumentando a capacidade de processamento de exames. Ao diminuir o TAT (turn around time) do exame, os resultados podem ser disponibilizados ao médico assistente em menos de uma hora, permitindo uma rápida tomada de conduta médica, gerando assim um impacto direto em questões como o isolamento social, investigação de contactantes, retorno ao trabalho, necessidade de novos exames complementares e tratamentos”, afirmou o médico patologista clínico Pedro Serrão Morales, colunista da PEBMED, em entrevista ao Portal de Notícias da PEBMED.

Testagem sindrômica

Outra tecnologia que veio para facilitar o trabalho dos profissionais de saúde é a testagem sindrômica, que identifica até 22 patógenos respiratórios de interesse clínico, utilizando a tecnologia QI Astat-Dx.

Como diversas doenças respiratórias apresentam um conjunto de sinais e sintomas semelhantes (inclusive coinfecções), caracterizadas genericamente por uma “síndrome gripal”, é difícil distingui-las clinicamente, prejudicando, assim, um diagnóstico e um tratamento específico. Esse novo teste pode ajudar muito os médicos neste sentido.

Outro benefício da tecnologia é o diagnóstico de algumas infecções que, geralmente, não são detectadas devido à falta de testes de rotina disponíveis nos hospitais.

“Dessa forma, esse tipo de testagem pode auxiliar na identificação precisa do agente causador da infecção respiratória, direcionando o médico assistente para uma conduta médica mais específica e adequada”, destacou o médico patologista clínico.

Setor da indústria diagnóstica

Sem dúvida, o setor da indústria diagnóstica passou (e superou) por grandes desafios durante a pandemia de Covid-19 e, certamente, conseguiu um lugar de destaque e protagonismo nesta história. Além disso, obviamente, há o desafio de desenvolver exames específicos para o diagnóstico da infecção.

“Tivemos que lidar com uma enorme escassez, à nível global, de insumos para a realização dos exames. Entretanto, é importante destacar que, em tempo recorde, o setor desenvolveu e aperfeiçoou metodologias e kits diagnósticos para ensaios moleculares, de antígeno e sorológicos, exames estes indispensáveis para auxiliar o adequado controle da pandemia e à formulação de políticas públicas de saúde”, ressaltou Pedro Morales.

Na opinião do vice-presidente da QIAGEN, na América Latina, Paulo Gropp, ao eliminar as incertezas do diagnóstico, “essas ferramentas são capazes de fornecer as diretrizes para a conduta médica mais adequada, com o uso dos medicamentos corretos e uma abordagem mais responsável em termos de administração e resistência aos antibióticos”.




Autor: Úrsula Neves
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 11/05/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/anvisa-aprova-novo-teste-de-covid-19-que-utiliza-biotecnologia-inovadora/

terça-feira, 15 de março de 2022

Covid-19 e o uso de máscaras: onde estamos?

Com o avanço da vacinação e a diminuição do número de casos de covid-19 no país, algumas regiões iniciaram o processo de relaxamentos das medidas não farmacológicas de prevenção. Entre essas medidas, está o uso de máscaras faciais em lugares fechados. Contudo, pergunta-se se já é o momento para isso?

Uso de máscaras e proteção contra covid-19

Antes das vacinas, o uso de máscaras foi uma das principais estratégias para controlar a transmissão do SARS-CoV-2, especialmente em espaços fechados. Diversos estudos apontam para benefício na redução da incidência de novos casos associado ao uso de máscaras.


Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no The British Medical Journal avaliou a eficácia individual de medidas de saúde pública na incidência de covid-19. Após exclusão dos trabalhos que não se enquadravam nos critérios de inclusão, 72 artigos foram incluídos, dos quais 35 avaliaram individualmente medidas como lavagem das mãos, uso de máscaras e distanciamento social. A maioria dos estudos foi conduzida na Ásia e nos Estados Unidos, mas também Europa, Oriente Médio, África, América do Sul e Austrália.

Em relação ao uso de máscaras, 6 estudos com um total de 2.627 pessoas com covid-19 e 389.228 participantes foram incluídos na análise sobre o efeito na incidência da doença. Os resultados combinados mostraram uma redução de 53% na incidência de covid-19 (RR = 0,47; IC 95% = 0,29 – 0,75). Outros estudos indicam redução não só na incidência da doença, mas também na transmissão de SARS-CoV-2 e na mortalidade por covid-19.

Um dos estudos com dados de 200 países mostrou uma mortalidade 45,7% menor nos com uso mandatório de máscara, enquanto outro estudo conduzido nos EUA mostrou uma redução de 29% na transmissão de covid-19 nos estados em que máscaras eram obrigatórias. Da mesma forma, um estudo de Hong Kong indicou uma incidência cumulativa significativamente menor do que em países selecionados em que o uso de máscara não era obrigatório. Entretanto, esses estudos foram considerados com risco moderado de viés.

Outra revisão sistemática sobre o assunto foi publicada no American Journal of Infection Control e incluiu 6 artigos, todos caso-controle, conduzidos na China, EUA, Tailândia e Blangadesh e compreendendo dados de 1.233 participantes. Nesse estudo, o risco de contrair covid-19 após uso de máscara foi significativamente menor, com OR = 0,38 (IC 95% = 0,21 – 0,69).

Além da transmissão por gotículas, o SARS-CoV-2 pode ser transmitido por aerossóis em situações cotidianas como tosse e espirros. Uma revisão sistemática com meta-análise – essa publicada no European Journal of Medical Research – incluiu 4 artigos com 7.688 participantes. Todos mostraram redução no risco de infecção por SARS-CoV-2 com o uso de máscaras. O risco relativo combinado na meta-análise foi de 0,12 (IC 95% = 0,06 – 0,27), o que se mostrou estatisticamente significativo (p < 0,001).

Uso de máscaras no contexto de vacinação

Uma das questões atuais é de que forma a amplitude da cobertura vacinal afeta o papel do uso de máscaras faciais. Um artigo recente publicado na The Lancet usou modelos matemáticos para estimar o impacto do uso de máscaras em ambientes fechados em cenários com diferentes níveis de cobertura vacinal contra covid-19.

Os autores simularam – por meio de simulação de Monte Carlo – o que aconteceria nos EUA com o uso de máscaras na mesma proporção de março a julho de 2020 comparado com um cenário sem uso de máscaras em diferentes níveis de vacinação (70 – 90% da população). Parâmetros considerados, além das diferentes coberturas vacinais, incluíram data em que o alvo de vacinação foi alcançado, data em que a população deixou de usar máscaras, eficácia das vacinas para prevenir infecção (30 – 90%), imunidade natural após infecção (64 – 95%), características das máscaras (eficácia, custo e frequência de troca) e porcentagem de pessoas que praticam autoisolamento quando infectados.

Em todos os cenários testados, o modelo matemático mostrou que, manter o uso de máscara até 2 a 10 semanas após atingir o alvo de vacinação mostrou-se custo-efetivo. Quanto menor a cobertura vacinal, maior a importância do uso de máscaras na economia em custos sociais, redução de admissões hospitalares e mortes. As estimativas, para cada alvo de vacinação, seriam as seguintes:

90% de cobertura vacinal: redução de $13,3 bilhões em custos sociais, 6,29 milhões de casos, 136.700 admissões hospitalares e tratamentos e 16.000 mortes

80% de cobertura vacinal: redução de $16,7 bilhões em custos sociais, 7,66 milhões de casos, 174.900 admissões hospitalares e tratamentos e 20.500 mortes

70% de cobertura vacinal: redução de $20,6 bilhões em custos sociais, 8,3 milhões de casos, 193.500 admissões hospitalares e tratamentos e 22.700 mortes

Outras simulações indicam que, quanto maior o tempo para alcançar o alvo vacinal, maior é o impacto do uso de máscaras. Por exemplo, se o alvo de 80% de cobertura vacinal na população dos EUA fosse alcançado em maio de 2022, manter o uso de máscaras até que esse alvo fosse atingido evitaria 7,66 milhões de casos de covid-19. Se o mesmo alvo fosse alcançado 2 meses depois, em julho, a estimativa passa a ser de 8,57 milhões de casos.

O surgimento de novas variantes, mais transmissíveis, também afeta a importância do uso de máscaras. Para um número básico de reprodução (R0) de 5, que corresponderia à variante Delta, manter máscaras faciais resultaria na economia de $ 20,6 bilhões em custos sociais. Já para um R0 = 10, que corresponderia à variante Omicron, continuar com máscaras resultaria em menos $ 49,5 bilhões em custos sociais. Com um R0 = 2,5, que corresponderia à cepa selvagem original, a estimativa do número de casos evitados seria de 581.350 e o uso de máscaras deixaria de ser custo-efetivo.

Outras variáveis que afetaram o impacto da manutenção do uso de máscaras por 2 semanas após o alcance do alvo de vacinação foram a eficácia da vacina (alterada pela presença de novas variantes e diminuição de imunidade com o tempo), a otimização da eficácia das máscaras e o custo do uso de máscara por pessoa. Quanto menor a eficácia da vacina ou maior a eficácia das máscaras, maior o impacto de seu uso. Ao mesmo tempo, o aumento no custo por pessoa reduz a custo-efetividade da manutenção da proteção. Entretanto, segundo os resultados das simulações, a prática só deixaria de ser custo-efetiva se o custo ultrapassasse $ 1,39/pessoa/dia. Para efeitos de comparação, o custo do uso de máscaras de março a julho de 2020 teria sido de $ 0,32/pessoa/dia.

O aumento na proporção de indivíduos sintomáticos isolados reduziria a importância do uso de máscaras na prevenção de novos casos. Contudo, mesmo se 100% das pessoas infectadas sintomáticas permanecessem isoladas, manter o uso de máscaras ainda seria capaz de evitar $ 359,7 milhões em custos sociais, 1,62 milhões de casos e 3.950 mortes, considerando um R0 = 5, 50% de eficácia da vacina e 70% de cobertura vacinal. A estratégia só deixaria de ser custo-efetiva em um cenário de 90% de cobertura vacinal até janeiro de 2022 ou de eficácia de no mínimo 70% da vacina ou se o custo do uso de máscaras ultrapassar $ 0,50/pessoa/dia.





Autor: Isabel Cristina Melo Mendes
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 15/03/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/covid-19-e-o-uso-de-mascaras-onde-estamos/

segunda-feira, 7 de março de 2022

Uma epidemia antrozoológica: a disseminação descontrolada de SARS-CoV-2 entre cervos

A pandemia de Covid-19 em seres humanos, associada ao coronavírus SARS-CoV-2, tem sido responsável por mais de 5 milhões de mortes em todo o mundo desde novembro de 2019, e segue desafiando a ciência. A origem zoonótica do vírus não está ainda esclarecida, especialmente devido ao desconhecimento, até o momento, das espécies de hospedeiros e potenciais reservatórios virais.

SARS-CoV-2 entre cervos

A infecção natural por SARS-CoV-2, a partir do contato com seres humanos infectados, em outros animais já foram descritos em animais domésticos como gatos, cães e furões, e em animais selvagens sob cuidados humanos como tigres, lontras, visões e gorilas. O rastreio para a detecção de receptores para a enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2) em diferentes espécies têm sugerido que cetáceos, roedores, morcegos, primatas e várias espécies de cervos estão sob alto risco de infecção por esse vírus. As infecções experimentais em laboratórios também verificaram outras categorias de animais suscetíveis à infecção por SARS-CoV-2 e a possibilidade de transmissão interespécies e intraespécies, assim como a transmissão vertical. Em julho de 2021, por exemplo, anticorpos anti-SARS-CoV-2 já tinham sido descritos entre 152 cervos de vida livre (soroprevalência de 40%) nas regiões de Michigan, Pennsylvania, Illinois e Nova Iorque nos Estados Unidos da América (EUA).


Em fevereiro de 2022, Hale e colaboradores publicaram um artigo no jornal científico Nature com os detalhes que descrevem uma pandemia antrozoológica de SARS-CoV-2 em 129 (de um total de 360, 35,8%) cervos da espécie Odocoileus virginianus distribuídos em 9 localidades no nordeste de Ohio, no período de janeiro a março de 2021. O diagnóstico foi obtido a partir de secreção nasal por swab e detecção pelo método de reação de polimerização em cadeia em tempo real com transcrição reversa (real-time RT-PCR). Foi realizado também o estudo de sequenciamento genômico de 14 amostras de SARS-CoV-2 e verificou-se também o isolamento de vírus viáveis infectantes. Foram detectadas três linhagens de SARS-CoV-2 distribuídas entre cervos em 6 localidades no nordeste de Ohio: B.1.2, B.1.582 e B.1.596. Os vírus da linhagem B.1.2., dominantes em seres humanos residentes na região naquele período, foram encontrados em cervos de 4 regiões estudadas. Verificou-se também provável e subsequente transmissão horizontal das partículas virais interespécie com evolução para a observação de mutações do tipo substituição em proteínas da espícula e na região ORF1 que eram incomuns entre as variantes isoladas de seres humanos até aquele momento.


Conclusão

Tais achados reforçam a  hipótese de ocorrência de epidemias concomitantes entre diferentes hospedeiros, as que favorecem novas vias evolutivas que podem contribuir para o surgimento de outras variantes e tipos virais. Entre cervos, observou-se que tais animais apresentam alta incidência de infecções e sugere a alta capacidade adaptativa de SARS-CoV-2 para a infecção em diversos hospedeiros. Adicionalmente, a descrição de detecção de partículas virais viáveis de SARS-CoV-2 em fezes de humanos e no esgoto, sugere que a exposição ambiental também pode favorecer a adaptabilidade evolutiva do coronavírus em diferentes tipos de hospedeiros na natureza. Considerando que há aproximadamente 30 milhões de cervos distribuídos em ambientes rurais, urbanos e suburbanos nos EUA, essas observações reforçam a necessidade de estabelecimento de programas de monitoramento e vigilância dos vírus circulantes entre cervos, outros hospedeiros selvagens e no ambiente nos diversos continentes.




Autor: Rafael Duarte
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 07/03/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/uma-epidemia-antrozoologica-a-disseminacao-descontrolada-de-sars-cov-2-entre-cervos/

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Atualizações epidemiológicas da Covid-19: a nova variante Ômicron do Sars-CoV-2

A Organização Mundial de Saúde fez declarações sobre o surgimento da variante Ômicron, emitindo um alerta sobre a nova variante do Sars-CoV-2, identificada pela primeira vez na África do Sul.

Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a variante Ômicron já foi detectada em todos os continentes: EUA, Austrália, Brasil, Canadá, Hong Kong, Israel, Japão, Nigéria, Noruega, Suécia, Reino Unido. Entretanto, o maior número de infecções confirmadas concentra-se na África do Sul.

No Brasil, segundo as Secretarias de Saúde Estaduais, foram confirmados 6 casos da variante Ômicron em brasileiros que fizeram desembarques internacionais.


Ouça também: Check-up Semanal: variante Ômicron, programa para combate do Aedes Aegypti, inibidor de P2Y12 no infarto e mais!



Onde surgiu?

Em 26 de novembro, um grupo de cientistas que avalia e monitora regularmente a evolução do Sars-CoV-2, foi convocado para estudar uma nova variante denominada B.1.1.529 do Sars-CoV-2. Esta variante foi notificada pela primeira vez em 24 de novembro de 2021 pela África do Sul, com três picos de casos notificados, tendo o primeiro confirmado por amostra coletada em 9 de novembro de 2021, denominada variante Ômicron pela Organização Mundial de Saúde.

Quais informações temos?

Segundo o grupo consultivo técnico sobre a evolução do vírus Sars-CoV-2 (WHO), as primeiras informações sobre esta variante falam sobre seu elevado potencial para mutações, e o risco aumentado de reinfecção quando comparada às outras variantes classificadas como preocupantes.

Baseado nas primeiras evidências científicas, a variante Ômicron traz diversas mudanças prejudiciais na epidemiologia da Covid-19, e por isso pesquisadores sugeriram que fosse classificada também como uma variante preocupante.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, as variantes de preocupação (VOC), além de atenderem os critérios das variantes de interesse, estão associadas a uma ou mais alterações seguintes:

Aumento da transmissibilidade ou mudança prejudicial na epidemiologia da Covid-19; ou

Aumento da virulência ou variação da apresentação clínica da doença; ou

Diminuição da eficácia das medidas sociais e de saúde pública ou dos diagnósticos, vacinas e tratamentos disponíveis.

Em relação à transmissibilidade da variante Ômicron, ainda não está claro se é mais transmissível quando comparada à variante Delta, por exemplo. O número de casos confirmados no Sul da África tem aumentado, no entanto, ainda precisam de novos estudos para determinar se o aumento se deve à variante Ômicron ou a outros fatores.

Saiba mais: Avaliação ergoespirométrica em pacientes pós-Covid-19 com dispneia inexplicada

Quanto aos achados sobre a gravidade da doença, ainda é desconhecido o quadro clínico da infecção pela variante Ômicron e se os sintomas associados são diferentes dos sintomas das outras variantes.

O teste RT-PCR permanece o teste padrão ouro para diagnosticar a infecção pelas diversas variantes do novo coronavírus, incluindo a Ômicron, assim como os tratamentos farmacológicos existentes para Covid-19.

As vacinas desenvolvidas e autorizadas até o momento, possuem eficácia para prevenção dos desfechos clínicos graves, incluindo morte e hospitalizações pela Covid-19.

Segundo a Organização Mundial de Saúde não há informações sobre caso de morte pela variante Ômicron.

O que fazer?

É necessário que todos os países continuem implementando as medidas de prevenção comprovadas para diminuir a circulação do vírus, além de aumentar a vigilância e a capacidade de resposta através de recursos de saúde pública para enfrentar as chances de aumento dos casos por Covid-19.

A vacinação continua sendo eficaz e primordial para combater os casos graves e morte por Covid-19, inclusive para variante Delta, que é responsável por 99% das infecções.

Os órgãos sanitários precisam trabalhar cada vez mais para reduzir as desigualdades entre os países em relação ao acesso dos recursos de saúde nesta pandemia.

Diversos países, assim como a África do Sul, apresentam dificuldades no acesso as vacinas, testes diagnósticos, tratamentos, o que pode influenciar diretamente no aumento de casos e mortes pela Covid-19 à nível global.

Desta forma, cabe aos órgãos públicos garantirem, no mínimo, a distribuição equitativa da vacina para administração em todos os grupos etários vulneráveis da população.

Conclusão

Pesquisadores do grupo consultivo técnico sobre a evolução do vírus Sars-CoV-2 (WHO) e instituições científicas dos diversos países estão realizando investigações para compreender melhor os aspectos desta nova variante e assim que possível relatar novas conclusões.

Ainda há poucas evidências científicas para comprovar a gravidade e o impacto epidemiológico, ao passo que ainda é primordial a continuidade das medidas de proteção como uso da máscara, higiene das mãos, distanciamento social, evitar aglomerações e aumento da imunização da população.




Autor: Brenda Almeida
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 10/12/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/atualizacoes-epidemiologicas-da-covid-19-a-nova-variante-omicron-do-sars-cov-2/

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Ômicron: a nova variante de preocupação do SARS-CoV-2

Enquanto a vacinação avança no Brasil e o número de casos mantém uma tendência de queda, outros países vivem um recrudescimento da epidemia. A descoberta de uma nova variante, entretanto, preocupa as autoridades sanitárias mundiais.

Batizada de Ômicron, a variante B.1.1.529 foi detectada inicialmente na África do Sul em 24 de novembro de 2021. Dois dias depois, a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou-a como variante de preocupação (VOC – do inglês variant of concern). Entenda o que se sabe até o momento sobre ela.
Variantes de interesse e variantes de preocupação

Mutações virais são um fenômeno natural e frequente, favorecido pela replicação viral. Embora muitas dessas mutações sejam não funcionais e podem ser deletérias para o vírus, algumas mudanças em estruturas chave podem determinar aumento de transmissibilidade, virulência ou escape vacinal.

Diante da característica mutagênica do SARS-CoV-2, a OMS passou a classificar, de acordo com características específicas, algumas variantes como variantes de interesse (VOI) e outras como variantes de preocupação (VOC).



Sendo assim, as VOIs:

Possuem alterações genéticas que têm previsão ou conhecidamente afetam características do vírus como transmissibilidade, gravidade da doença, escape imune, escape diagnóstico ou terapêutico; E
Foram identificadas como causa de transmissão comunitária significativa ou de múltiplos clusters em vários países com aumento de prevalência relativa juntamente com aumento no número de casos ao longo do tempo ou outros impactos epidemiológicos aparentes que sugerem um risco emergente para a saúde pública global.

Já as VOCs atendem aos critérios de VOI e, a partir de uma avaliação comparativa, demonstraram estar associadas a pelo menos uma das seguintes mudanças de forma significativa para a saúde pública global:
Aumento de transmissibilidade ou alteração em epidemiologia considerada prejudicial;
Aumento de virulência ou mudança na apresentação clínica da doença;
Redução na efetividade de medidas sociais ou de saúde pública ou dos métodos diagnósticos, da terapia ou de vacinas.

Alterações genéticas da variante Ômicron

Umas das características que mais chama a atenção em relação à nova variante é a quantidade de alterações genéticas detectadas em seu sequenciamento, muitas delas em regiões da proteína S.

Enquanto algumas mutações já foram encontradas em outras VOCs, outras podem estar associadas a vantagens adaptativas modestas em relação ao vírus original e outras ainda até o momento com função desconhecida. Também foram detectadas mutações em outras regiões do SARS-CoV-2, como em genes associados a proteínas de nucleocapsídeo, que podem estar associados a aumento na transmissibilidade e que estão presentes em todas as VOCs detectadas até o presente.

Além disso, algumas alterações podem estar associadas à evasão da imunidade inata e à resistência a anticorpos neutralizantes.
Ômicron como VOC

Segundo a OMS, evidências preliminares sugerem um risco maior de reinfecção com a nova variante em relação a outras VOCs. Ao mesmo tempo, o número de casos pela B.1.1.529 parece estar aumentando em quase todas as províncias da África do Sul.

Os testes diagnósticos continuam a detectar a variante, mas 1 dos 3 genes alvos dos testes de PCR mais comumente utilizados não é detectado. Usando essa característica como indicativo de infecção pela Ômicron, a detecção da nova variante está acontecendo a taxas mais rápidas do que visto previamente, o que sugere uma vantagem evolutiva.

Essas alterações vistas na epidemiologia de infecções pelo SARS-CoV-2 levaram à classificação da Ômicron como VOC pela OMS. A organização solicita que os países aumentem o processo de vigilância e esforços para fazer sequenciamento das variantes circulantes, assim como procedam ao compartilhamento das informações.
O que se sabe até agora?

Até o momento, não há evidências que confirmem que a nova variante esteja associada a maior transmissibilidade ou a maior gravidade de doença. O risco de reinfecção parece ser maior, mas os dados ainda são limitados. Estudos já estão em andamento para avaliar possíveis impactos na eficácia de vacinas, testes diagnósticos e terapias.

Ômicron no mundo

Ao todo, mais de 10 países já identificaram casos de infecção pela nova variante em sua população. Com isso, a Ômicron está presente em todos os continentes, com casos na África, do Sul, Botsuana, Canadá, Israel, Hong Kong, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Itália, Reino Unido, República Tcheca e Austrália.

Ômicron no Brasil

No Brasil, a Secretaria de Vigilância em Saúde, por meio da Rede CIEVS, emitiu uma comunicação de risco em relação a nova variante. Até o momento, nenhum caso de infecção pela variante B.1.1.529 foi detectado no país.

Como resposta à identificação da Ômicron, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prevê recomendações de medidas excepcionais e temporárias para entrada no Brasil direcionadas a estrangeiros. O fechamento das fronteiras aéreas para seis países da África já foi anunciado para iniciar a partir do dia 29 de novembro.






Autor: Isabel Cristina Melo Mendes
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 29/11/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/omicron-a-nova-variante-de-preocupacao-do-sars-cov-2/

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Vacinas COVID-19: onde estamos e desafios pela frente

 
Vacinas fraudulentas

As tentativas de obter essas vacinas a qualquer custo estão quase espelhando a desconfiança das vacinas. A compra ilegal de vacinas chinesas, e provavelmente vacinas falsas chinesas, está começando a ser anunciada em alguns sites da Internet. Certamente, a possibilidade de os habitantes da cidade de Jiaxing, no leste da China, envolvidos em obras essenciais, comprarem a vacina CoronaVax da Sinovac Biotech, que ainda está em ensaio de Fase III, não favorece o controle desse perigoso comércio (fig. 1).

Vamos para:

Diversas plataformas de vacinas

O drama da pandemia levou muitos cientistas ao redor do mundo a desenvolver possíveis vacinas alternativas de COVID-19. Assim, além do grande número de projetos oficiais alistados pela OMS, vários laboratórios universitários e pequenas empresas de biotecnologia estão estudando vacinas novas. Esse esforço intelectual e tecnológico inteligente fornece uma miríade de projetos diversos, alguns dos quais poderiam se tornar importantes se os projetos pioneiros conferissem proteção apenas parcial ou funcionassem mal em certos grupos da população. Custos altos e outras barreiras podem tornar algumas das vacinas pioneiras inadequadas para implantação em larga escala em países de baixa renda. Por exemplo, vacinas baseadas em bacteriófagos que infectam micróbios do nariz e da garganta e os fazem produzir a proteína Spike, ou outras vacinas que podem ser administradas por insuflação nasal ou pela boca parecem ser alternativas estimulantes. Seria realmente uma grande conquista desenvolver uma vacina que pudesse induzir uma imunidade eficaz nas superfícies mucosas: pudesse impedir a infecção viral e a disseminação do vírus através de gotículas respiratórias.

O sucesso e a aprovação das primeiras vacinas COVID-19 não devem prejudicar o entusiasmo e a possibilidade prática de planejar novos estudos que levem ao desenvolvimento e produção de vacinas de segunda e terceira geração, bem como ao desenho de diferentes tipos de ensaios clínicos. Na verdade, a erradicação da COVID-19 será um longo e tortuoso caminho que não terminará quando tivermos a primeira vacina disponível.

Vamos para:

Conclusões

No momento em que estamos concluindo este briefing, as vacinas COVID-19 estão a caminho. Atualmente, dados recentes dos ensaios de Fase III estão permitindo o registro de vacinas. Logo depois, poucas vacinas baseadas em diferentes tecnologias serão obrigatórias ou disponibilizadas para grupos selecionados da população da China, Rússia, Estados Unidos e Europa.

Assim, o cenário da pandemia está assumindo características completamente diferentes. Saberemos se as vacinas para controlar eficazmente a propagação do vírus SARS-CoV-2 continuam a ser um objetivo distante ou se já estão aqui. Neste último caso, a próxima questão candente será a disponibilidade da vacina e sua distribuição eqüitativa em todas as áreas do mundo. As políticas nacionais predatórias que visam assegurar que as primeiras doses da vacina sejam disponibilizadas à população de seu país vão se chocar com as tentativas de muitas organizações internacionais de estabelecer uma distribuição mais justa em todos os países do mundo. Este nobre esforço é fortemente contrastado pelo significado político que a vacina COVID-19 está assumindo. O líder político ou o país que produz a primeira vacina salvífica pode explorá-la para afirmar sua capacidade de proteger seus cidadãos e também os habitantes de países amigos. A vacina, portanto, pode se tornar uma medida inadequada de poder. Quantas sementes de doença, desespero e morte dificultarão o acesso à vacina semear entre as pessoas da terra? Cinicamente, poderia ser apenas a corrida predatória implacável para pegar as primeiras doses da vacina que poderia produzir uma distribuição justa de vacinas excedentes para as nações menos ricas em um tempo relativamente curto.

Finalmente, é nosso princípio que, a longo prazo, mais de uma vacina será necessária para garantir acesso global equitativo, proteção de diversos indivíduos e imunidade contra variantes virais.

Vamos para:

Reconhecimentos

Agradecemos ao Prof. Giuseppina Barsacchi pela leitura crítica do manuscrito. Alberto Mantovani agradece o apoio da empresa de moda Dolce & Gabbana.




Autor: Guido Forni, Alberto Mantovani
Fonte: Autor correspondente e em nome da Comissão COVID-19 da Accademia Nazionale dei Lincei, Roma
Sítio Online da Publicação: ncbi
Data: 28/02/2021
Publicação Original: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7818063/

O olho na Covid-19: partículas de SARS-CoV-2 na retina de pacientes infectados

O olho é afetado pela infecção por Covid-19 e os achados na retina foram atribuídos a alterações microvasculares e imunológicas secundárias. A presença de partículas de SARS-CoV-2 na retina de pacientes mortos por Covid-19 foi sugerida através de PCR e métodos imunológicos que detectam suas principais proteínas. Um estudo foi publicado na JAMA Ophthalmology em julho de 2021 com o objetivo de detectar a presença de partículas virais em pacientes que morrem de Covid-19 através de microscopia fluorescente de tecidos imunocorados para S1 e proteínas do nucleocapsídeo e microscopia eletrônica de transmissão. O estudo foi realizado na Universidade Federal de São Paulo em junho e junho de 2020.



Metodologia

Foram avaliados 3 olhos de 3 diferentes pacientes. Todos eles foram internados em CTI, submetidos a ventilação mecânica e tiveram envolvimento pulmonar grave associado a Covid-19, com mais de 50% de acometimento pulmonar e estavam recebendo heparina, antibióticos e corticoides. O paciente 1 era um homem de 70 anos, hipertenso, diabético e com enfisema pulmonar. Ficou 30 dias internado. Ambos os olhos não tinham achados relevantes no segmento anterior. Foi impossível obter acuidade visual e níveis de pressão intraocular durante a internação. O olho direito tinha hemorragia vítrea e o olho esquerdo apresentava hemorragia subretiniana temporal com aumento da tortuosidade vascular. O paciente 2 era uma mulher em torno de 70 anos, hipertensa, diabética e dislipidêmica e que faleceu uma semana após o diagnóstico. O paciente 3 era um homem de mais ou menos 60 anos, hipertenso, com insuficiência renal crônica em diálise e abuso de álcool. O diagnóstico de Covid-19 foi 2 meses antes. Os pacientes 2 e 3 não tiveram avaliação oftalmológica antes da morte. Partículas que variam de 60 a 70 nm foram vistas na região perinuclear das células da camada nuclear interna, especialmente em estruturas reticulares de dupla membrana derivadas de alterações no retículo endoplasmático induzidas pelo SARS-CoV-2. Foram também visualizadas em células endoteliais capilares presentes na camada nuclear interna. Granularidade eletrodensa dentro da partícula também foi observada. Na camada nuclear externa partículas virais numerosas foram encontradas nas regiões perinucleares e citoplasmáticas.

Uma das formas clássicas de determinar a presença de vírus dentro da célula é a abordagem imunocitoquímica usando anticorpos específicos que reconhecem 2 proteínas essenciais da partícula viral: a proteína S, exposta na superfície do vírus e a proteína do nucleocapsídeo, dentro do vírus. Usando essa abordagem o estudo identificou a presença de proteína do nucleocapsídeo na camada de células ganglionares e região perinuclear. A marcação com anticorpos que reconhecem a proteína S1 e N também foi observada na camada nuclear interna na região perinuclear. Também foi observada através do tecido sensorial da retina, camada de células ganglionares, camada plexiforme interna, camada nuclear interna, camada plexiforme externa e camada nuclear externa, além do epitélio pigmentar da retina e coroide.

Conclusão

Fica claro que após a infecção inicial respiratória, o vírus pode se espalhar por todo o corpo, atingindo diferentes tecidos e órgãos. Não é claro ainda se as alterações retinianas são secundárias à presença do vírus ou às alterações secundárias imunológicas e microvasculares. Um estudo demonstrou a detecção por PCR e outros estudos recentes mostraram a expressão de enzima conversora de angiotensina 2 em estruturas oculares. O novo estudo demonstrando o achado de partículas virais com morfologia similar ao observado em meios de cultura experimentais infectados com o vírus está de acordo com os estudos anteriores, apesar da limitação do pequeno número de casos. Esses achados podem ajudar a elucidar os mecanismos fisiopatológicos do vírus e entender melhor as sequelas da doença.

Autor(a):

Juliana Rosa


Pós graduação Lato Sensu em Córnea pela UNIFESP ⦁ Especialização em lentes de contato e refração pela UNIFESP ⦁ Residência médica em Oftalmologia pela UERJ ⦁ Graduação em Medicina pela UFRJ ⦁ Contato via Instagram: @julianarosaoftalmologia


Referências bibliográficas:
Araujo-Silva CA, Marcos AAA, Marinho PM, et al. Presumed SARS-CoV-2 Viral Particles in the Human Retina of Patients With COVID-19. JAMA Ophthalmol. Published online July 29, 2021. doi:10.1001/jamaophthalmol.2021.2795





Autor: Juliana Rosa
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 30/08/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/o-olho-na-covid-19-particulas-de-sars-cov-2-na-retina-de-pacientes-infectados/

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O que sabemos sobre a variante Delta do SARS-CoV-2 em crianças?

A disseminação massiva e rápida da pandemia de Covid-19 levou ao surgimento de muitas variantes, resultando em diversidade genética. Atualmente, existem quatro variantes de preocupação (VP) reconhecidas globalmente. Entre elas, a variante Delta já se espalhou para mais de 132 países, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS): é uma variante mais transmissível, tornando-se a cepa dominante do vírus SARS-CoV-2 em todo o mundo.

Ao longo da pandemia, a Covid-19 se manifestou, na população pediátrica, como uma doença de curso mais leve na maioria dos casos, o que ainda tem sido descrito na literatura. Todavia, com a chegada da variante Delta, o risco para as crianças está aumentando, segundo dados do órgão americano CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Nos Estados Unidos, aproximadamente 1.800 crianças foram hospitalizadas com Covid-19 na primeira semana de agosto, um aumento de 500% na taxa de hospitalizações de crianças com Covid-19 desde o início de julho de 2021.




Proteção pela vacina

No mundo todo, com o surgimento da variante Delta e outras VP, as pessoas que não foram vacinadas correrão maior risco, especialmente crianças com idade inferior a 12 anos, que não podem ainda ser vacinadas, e adolescentes que estão em processo de vacinação. No Canadá, por exemplo, um estudo recente sugere que as crianças com teste positivo para Covid-19 durante a onda Delta podem ter duas vezes mais probabilidade de serem hospitalizadas do que quando as variantes anteriores estavam dominando a transmissão. Infelizmente, esses dados falam a favor de que crianças mais novas têm apresentado quadros clínicos mais graves da doença. Ainda no Canadá, considerando os indivíduos vacinados, a efetividade contra hospitalização ou óbito para a variante Delta, depois de uma dose das vacinas AstraZeneca®, Pfizer® ou Moderna®, foi de 88%, 68% e 96%, respectivamente, mesmo com a circulação das quatro VP. Em nota conjunta, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) descrevem que esses resultados reforçam evidências prévias que demonstraram que a proteção da resposta induzida pelas vacinas se mantém alta para os desfechos graves, como internação hospitalar e morte.

A variante Delta está se apresentando de forma um pouco diferente em crianças e adolescentes. As manifestações clínicas incluem sintomas de vias aéreas superiores, como congestão nasal, e menos proeminência de perda do paladar e do olfato, pelo menos inicialmente. Além disso, sintomas semelhantes que foram aparentes durante a pandemia continuam a ocorrer em crianças e adolescentes, como febre e fadiga. Dessa forma, qualquer criança que apresente sintomas consistentes com infecção do trato respiratório superior deve ser avaliada para Covid-19. Além disso, crianças sintomáticas devem ficar em casa e não frequentar a escola e/ou a creche.

Conclusão

Portanto, todos os esforços devem ser implementados para estimular a vacinação e fornecer acesso às vacinas. O uso de máscaras e a manutenção do distanciamento social ainda devem ser estimulados, devido ao possível aumento iminente de casos secundários às novas variantes.


No Brasil, segundo o presidente do Departamento Científico de Imunizações da SBP, Dr. Renato Kfouri, ainda não existem indícios de que seja preciso disparar o alerta em relação à variante Delta do SARS-CoV-2 em adultos ou crianças.

Autor(a):



Roberta Esteves Vieira de Castro


Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação.


Referências bibliográficas:
Liang Q, et al. Vaccination remains the first choice to control the spread of delta and other variants of severe acute respiratory coronavirus virus 2 (SARS-CoV-2). Infect Control Hosp Epidemiol. 2021
World Health Organization. COVID-19 Virtual Press conference transcript – 30 July 2021. 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/m/item/covid-19-virtual-press-conference-transcript—30-july-2021. Acesso em: 18/08/2021
Goodman B. US Pediatric Hospitals in Peril as Delta Hits Children. 2021. Disponível em: https://www.medscape.com/viewarticle/956690?src=wnl_edit_tpal&uac=137967BJ&impID=3575547&faf=1. Acesso em: 17/08/2021
Versalovic J. The Delta variant: What parents need to know as children head back to school. 2021. Disponível em: https://www.texaschildrens.org/blog/delta-variant-what-parents-need-know-children-head-back-school. Acesso em: 17/08/2021
Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Imunizações. Intervalo entre as doses das vacinas COVID-19: AstraZeneca/Oxford e Pfizer. 2021. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23126d-NTC_-_Intervalo_doses_vacinas_COVID_AstraZeneca-Pfizer.pdf. Acesso em: 17/08/2021
Metropoles. Brasil LM. Variante Delta é mais perigosa para crianças? O que se sabe até aqui. 2021. Disponível em: https://www.metropoles.com/saude/variante-delta-e-mais-perigosa-para-criancas-o-que-se-sabe-ate-aqui





Autor: Roberta Esteves Vieira de Castro
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 19/08/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/o-que-sabemos-sobre-a-variante-delta-do-sars-cov-2-em-criancas/

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Entenda a relação entre a COVID-19 e a presença de tromboses


Entenda a relação entre a COVID-19 e a presença de tromboses
Trombose: o perigo silencioso de mãos dadas à COVID-19 – Especialista explica qual a relação entre as duas doenças e o que fazer para se prevenir

Com o avanço da pandemia, cerca de um ano e meio após o surgimento dos primeiros casos, já é de amplo conhecimento que o SARS-CoV-2 é causador de problemas agudos no sistema respiratório. No entanto, o que pouco se discute é o grande número de casos envolvendo coágulos de sangue em pacientes infectados pela COVID-19. Estima-se que de 5% a 10% dos pacientes internados em enfermaria tenham apresentado algum evento trombótico durante o tratamento de coronavírus, podendo chegar a 30% para pacientes internados em UTI – taxas muito altas se comparadas ao período pré-pandemia. A trombose é uma obstrução causada por coágulos de sangue em veias e artérias, podendo resultar em quadros graves, como Acidente Vascular Cerebral (AVC), Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) e embolia pulmonar – podendo levar, em casos extremos, à parada cardíaca.

A infecção causada pela COVID-19 não afeta somente os pulmões, mas também pode lesar a camada interna da parede dos vasos sanguíneos. “Essa camada, chamada de endotélio, é parte responsável por não permitir que o sangue coagule, então se o vírus danifica essa camada, a deixa mais propensa à formação de trombo”, explica Dr. Marcelo Melzer Teruchkin, cirurgião vascular do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) e da Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia (SBTH). “A trombose é causada pelo que chamamos de Tríade de Virchow, que envolve a estase, a hipercoagulabilidade e o dano vascular. O vírus gera lesão no vaso e ativa a cascata inflamatória, que são questões relacionadas à coagulação. Isso acaba levando algumas pessoa a ficarem prostradas e acamadas, como é o caso de pacientes com necessidade de suplementação de oxigênio, com pouca mobilidade e gerando a estase”.

A trombose pode atingir qualquer paciente diagnosticado com COVID-19, inclusive casos leves, domiciliares e que não apresentaram síndrome respiratória. “Logo nos primeiros casos, na China, os médicos perceberam a elevação de um elemento identificado no sangue, que está relacionado à trombose: o D-dímero”, comenta o cirurgião. Quando temos um trombo, nosso organismo tenta desfazê-lo e, nesse processo, libera substâncias no sangue que acabam funcionando como marcadores. Um desses marcadores é o D-dímero. “No início da pandemia, logo que os colegas identificavam essa elevação do D-dímero, solicitavam a avaliação vascular. Parecia certo exagero, pois muitos pacientes não apresentavam nenhuma manifestação clínica de trombose, mas quando fazíamos avaliação com ultrassom (ecodoppler) em muitos desses casos achávamos um trombo. Assim, percebemos que não se tratava de uma situação comum”.

A relação entre a COVID-19 e a presença de tromboses gerou, no meio médico, discussões, não somente acerca das consequências da infecção, mas também sobre qual seria o tratamento mais adequado, já que o paciente infectado além de apresentar risco aumentado de trombose, também tem risco de sangramento. “Até o momento, um paciente com diagnóstico de infecção pelo coronavírus que necessita internação e não tem diagnóstico de trombose vai receber uma dose menor de anticoagulante, preventiva, chamada de dose profilática. Agora se ele tem diagnóstico confirmado de trombose durante o tratamento, vai receber a dose de anticoagulante terapêutica, que é aproximadamente o dobro da dose de prevenção”, afirma Teruchkin, que completa que, a cada mês, novos estudos são lançados e novos paradigmas quebrados.
As vacinas causam trombose?

Logo que as vacinas começaram a ser utilizadas em escala populacional, na Europa e na América do Norte, no início de 2021, foram relatados alguns casos de tromboses graves em vasos cerebrais e viscerais, associados à redução do nível de plaquetas, após a vacinação com os imunizantes AstraZeneca e Janssen, o que gerou muita polêmica acerca da sua segurança.

No entanto, Dr. Marcelo explica que esses são casos bastante raros. No início dos relatos, a trombose induzida por vacina era tratada com heparina, uma medicação anticoagulante de uso consagrado, mas que, especialmente nesses casos, resultava em uma reação imunológica que piorava o quadro do paciente. “Hoje, passados alguns meses, já sabemos qual a melhor forma de tratar essa trombose atípica relacionada à vacina. Se usa a imunoglobulina, uma substância para diminuir a resposta imunológica, e anticoagulantes não relacionados à heparina”, completa.

Contudo, ele ressalta: “O risco de ocorrer uma trombose grave por COVID é muito maior que o risco de uma trombose rara pela vacina. A vacina, salvo raras exceções, sempre vai ser benéfica. É a melhor solução para a retomada de uma vida normal!”.

Prevenção

Apesar do cenário, existem pequenas e simples ações que podem contribuir para que o paciente se previna de desenvolver uma trombose em meio a um caso de coronavírus. Pacientes em síndrome gripal (casos leves) devem se manter bem hidratados e, mesmo em isolamento, buscar se movimentar e evitar a restrição ao leito. Aqueles que já passaram para síndrome inflamatória com baixa oxigenação (casos mais graves), devem agir somente sob recomendação médica, com medicação profilática para trombose. “O paciente deve evitar, a todo custo, a automedicação, porque, caso ele tenha algum risco aumentado de sangramento, o uso de anticoagulantes por conta própria pode ser extremamente arriscado”, explica o médico.

Os sintomas da trombose podem variar de acordo com o local atingido. Trombose nas veias das pernas podem ocasionar inchaço, dor e mudança de coloração. Para as artérias dos membros inferiores, dor, ausência de pulso, palidez, resfriamento e formigamento do membro. Trombos no sistema pulmonar causarão falta de ar, dor torácica e tosse. Na circulação dos rins, o paciente pode sofrer de insuficiência renal. Além disso, coração e cérebro podem ser atingidos. “O trombo pode se formar em vaso único, como em vários sítios. É muito relativo e tem correlação com a gravidade da doença”, relata o especialista.

À medida que o processo infeccioso e inflamatório vai se resolvendo, o risco de trombose vai, progressivamente, diminuindo – um processo que pode durar alguns meses até se normalizar. “É vital que todo o paciente que se recupera da COVID marque um checkup clínico. Pelo menos cardiológico, pulmonar e vascular. Ele vai ter orientações para que os seus riscos de complicações sejam amplamente reduzidos”, finaliza.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/08/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 03/08/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/08/03/entenda-a-relacao-entre-a-covid-19-e-a-presenca-de-tromboses/

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Pesquisa desvenda ultraestrutura do Sars-Cov-2 e sua capacidade regeneração



Pesquisadores liderados pela coordenadora do Laboratório de Biofísica e Nanossistemas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a física Luciana Magalhaes Rebelo Alencar, em parceria com a equipe do coordenador do Laboratório de Nanorradiofármacos do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o doutor em Biotecnologia Ralph Santos-Oliveira, desvendaram mais duas facetas do Sars-Cov-2. Utilizando técnicas avançadas de microscopia, em especial a microscopia de força atômica, realizaram uma análise nanomecânica e nanoestrutural do vírus da Covid-19.

Dentre os novos achados dessa parceria foi verificado que o vírus SARS-CoV-2, mesmo após ter suas camadas protetoras rompidas quando submetido a estresse mecânico, consegue em um tempo recorde se reestruturar, assumindo uma forma robusta e intacta novamente. Esse processo de self-assembly (automontagem) demonstra a resistência viral a processos químicos, físicos e mecânicos, e constitui um dado a ser considerado. “Essa descoberta pode facilitar o entendimento das relações biológicas, celulares e moleculares, do vírus com o hospedeiro e seu sistema imunológico, assim como auxiliar na descoberta de medicamentos eficazes contra a doença”, explica Santos-Oliveira.

O estudo determinou ainda o número de camadas que constituem o vírus, assim como a resistência de cada uma dessas camadas. Santos-Oliveira esclarece que na representação esquemática de diagrama, a proteína spike parece ser uma estrutura grande e projetada para fora. “Mas quando se analisa o vírus, a distância da spike para a primeira camada proteica, a membrana protetora que antepõe o capsídeo, é bem menor, equivalente a dois nanômetros, ou seja, dois bilionésimos de metro, e por isso a spike quase se confunde com a membrana viral.”


A imagem mostra o vírus SARS-CoV-2 se reorganizando – self-assembly – após o estresse mecânico

Os pesquisadores descobriram que as proteínas de superfície - em particular a spike -funcionam como uma camada protetora que pode ser rompida. “Por mais que não tenha a continuidade de uma membrana, ela funciona como se fosse uma membrana, conferindo ao vírus uma resistência mecânica”, explica Santos-Oliveira, que conta com apoio da FAPERJ para seus estudos por meio do programa Cientista do Nosso Estado (CNE) e o Programa de Redes em Nanotecnologia em Saúde (Rede NanoSaúde). Segundo ele, a descoberta é importante para o desenvolvimento de novos medicamentos, métodos mais eficazes de descontaminação e para entender como ocorre a relação dessa estrutura viral com o sistema imune do hospedeiro.

O experimento submeteu o vírus ao estresse mecânico realizado por microscópio de força atômica e verificou que não só o rompimento da estrutura viral carece de uma energia elevada, como em segundos o vírus é capaz de se autorregenerar. Ou seja, mesmo após sofrer sucessivos estresses mecânicos o Sars-Cov-2 consegue se recuperar, refazendo sua estrutura externa e continuando de forma ativa e possivelmente infectante. Outro dado inovador foi a determinação da taxa com a qual o vírus se reestrutura e se recupera do estresse mecânico. De acordo com os pesquisadores, esse dado tem valor fundamental para o manuseio e os estudos de desinfecção de superfícies, visto que muitos dos métodos se baseiam no rompimento da estrutural viral considerando sua incapacidade de regeneração após o procedimento. “Provavelmente, após testes as desinfecções tenham que ser mais profundas e eficazes, com onda ultravioleta mais forte, principalmente em hospitais”, avalia o pesquisador.


Ralph Santos-Oliveira e Luciana Alencar: para os pesquisadores, nova descoberta irá auxiliar em estudos futuros sobre o vírus

“O Sars-Cov-2 nada mais é do que um grande sistema nanoparticulado, no qual há uma membrana recobrindo o núcleo, que não deixa de ser um sistema coloidal, preenchido com o RNA e por fora decorado com as proteínas”, detalha Santos-Oliveira, reforçando a teoria de que as proteínas de membrana funcionam como uma grande barreira protetora do vírus. Mas para as equipes envolvidas na pesquisa, a descoberta mais importante foi a capacidade do vírus se auto reorganizar, se regenerar em fração de segundos após o rompimento das membranas. “Esse dado, possivelmente, explique a dificuldade de se estabelecer um tratamento eficaz para a Covid-19, porque talvez as drogas precisem atuar em várias partes da superfície do vírus para que o rompimento da barreira protetora seja mais absoluto”, acredita o pesquisador. Para ele, a descoberta também pode esclarecer o porquê da grande quantidade de mutações sofridas pelos vírus em curto espaço de tempo e o aparecimento de cepas cada vez mais resistentes.

Para os pesquisadores, essa nova descoberta, em comunhão com os demais dados já descritos na literatura, poderão auxiliar estudiosos da doença no mundo inteiro a entenderem melhor o Sars-Cov-2, assim como desenvolver estratégias eficientes tanto para o tratamento como para as técnicas de desinfecção. Santos-Oliveira faz questão de destacar a importância da FAPERJ nos avanços das pesquisas na área de nanotecnologia, por meio da Rede de Nanosaúde, na qual ocupa a função de vice coordenador. “A FAPERJ tem sido, nos últimos anos, um dos braços fortes de apoio à pesquisa no Estado do Rio de Janeiro. É o dinheiro público trazendo resultados para a sociedade. Sem o apoio da fundação, com seus diversos programas de fomento à pesquisa, não teríamos conseguido atingir o grau de excelência que alcançamos em nosso laboratório”, destaca o pesquisador.





Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 08/07/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4259.2.8

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Ação direta do SARS-CoV-2 em vários órgãos pode causar reação imune exagerada em crianças




Micrografia de cérebro de criança com a SIM-P associada à COVID-19 e com encefalopatia: detecção de antígeno do nucleocapsídeo do SARS-CoV-2 em células endoteliais de vasos sanguíneos cerebrais (marcação do citoplasma celular em vermelho) pela reação de imuno-histoquímica (imagem: acervo dos pesquisadores)

Além de sintomas comuns, como febre, tosse e desconforto respiratório, algumas crianças têm apresentado uma forma atípica de COVID-19, chamada Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P). Caracterizada por febre persistente e inflamação em diversos órgãos, como o coração, o intestino e, em menor grau, os pulmões, a SIM-P começou a ser relatada e relacionada a casos graves e óbitos de crianças pela doença em vários países, incluindo o Brasil, desde o início da pandemia.

Ao realizar a maior série de autópsias feita até o momento em crianças e adolescentes que morreram em decorrência da COVID-19, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e do Instituto Adolfo Lutz constataram que a alta capacidade do SARS-CoV-2 de invadir e causar lesões nos tecidos de vários órgãos é um dos fatores que induzem a SIM-P, desencadeando uma diversidade de manifestações clínicas que incluem, além de febre persistente, dores abdominais, insuficiência cardíaca e convulsões.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram publicados em artigo na revista EClinicalMedicine, do grupo Lancet.

“A ação direta do vírus nos tecidos de diversos órgãos é um dos motivos pelos quais as crianças com essa síndrome apresentam uma resposta inflamatória exagerada e alterada à infecção”, diz à Agência FAPESP Marisa Dolhnikoff, professora da FM-USP e coordenadora do projeto.

Os pesquisadores realizaram a autópsia de cinco crianças que faleceram em decorrência da COVID-19 em São Paulo, sendo um menino e quatro meninas, com idade entre 7 meses e 15 anos.

Duas crianças tinham doenças graves antes da infecção pelo SARS-CoV-2 – uma tinha câncer e outra uma síndrome genética congênita – e as outras três eram previamente saudáveis e desenvolveram a SIM-P com manifestações clínicas distintas. Uma delas apresentou inflamação cardíaca (miocardite), outra inflamação intestinal (colite) e a terceira encefalopatia aguda, que desencadeou convulsões.

As autópsias foram feitas por meio de um método minimamente invasivo, em que amostras de tecidos de todos os órgãos são coletadas por punção, guiadas por imagens geradas por um aparelho de ultrassom portátil.

A presença do SARS-CoV-2 nos tecidos foi determinada por reação em cadeia da polimerase por transcrição reversa (RT-PCR, o mesmo teste usado no diagnóstico da COVID-19) e por imuno-histoquímica, método em que são usados anticorpos capazes de detectar duas proteínas do vírus: a N, do nucleocapsídeo, e a S2, dos “espinhos” (spikes) da superfície viral.

A análise histopatológica revelou que as duas crianças com doença grave preexistente apresentaram um quadro de COVID-19 grave “clássica”, caracterizada por uma doença respiratória aguda em função de lesões extensas e severas causadas pelo SARS-CoV-2 nos alvéolos pulmonares. O vírus também foi identificado em outros órgãos.

Já nas três crianças previamente saudáveis predominaram lesões inflamatórias extrapulmonares, como miocardite no coração e colite – uma extensão inflamação intestinal.

O novo coronavírus foi detectado em células endoteliais e musculares do coração no paciente com miocardite, no tecido intestinal da criança com colite aguda e no tecido cerebral da que desenvolveu encefalopatia aguda.

“Vimos que o SARS-CoV-2 se disseminou pelos vasos sanguíneos, infectando vários tipos de células e tecidos dessas crianças. E as manifestações clínicas variaram de acordo com o órgão-alvo”, afirma Dolhnikoff.

“É importante que os pediatras atentem para essas possíveis manifestações clínicas diferentes de COVID-19 em crianças e adolescentes para que a infecção seja diagnosticada e a SIM-P tratada mais rapidamente”, aponta a pesquisadora.

A SIM-P pode ocorrer alguns dias ou semanas após a infecção pelo SARS-CoV-2 e, até então, se pensava que essa reação inflamatória exagerada acontecia independentemente de o vírus ainda estar presente no organismo, como resultado de uma reação imune.

As constatações feitas por meio do estudo, contudo, trazem evidências de que as manifestações da SIM-P são desencadeadas também pela ação direta do novo coronavírus nas células dos órgãos infectados.

“Não estamos dizendo que o que está descrito até agora sobre a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica está errado, mas acrescentamos a constatação de que a própria lesão causada nos tecidos pelo vírus está relacionada e, muito provavelmente, é um componente importante para a indução dessa resposta inflamatória exagerada em crianças”, ressalta Dolhnikoff.

Ainda não se sabe por que algumas crianças apresentam uma resposta inflamatória exacerbada à infecção pelo SARS-CoV-2 que caracteriza a SIM-P. Uma das hipóteses é que pode haver um componente genético ainda não elucidado.

Células endoteliais são alvos

Os pesquisadores observaram que um dos principais alvos do novo coronavírus são as células endoteliais, que revestem a parede interna dos vasos, incluindo desde as artérias de grande calibre até os capilares sanguíneos mais delgados.

“Uma das hipóteses é que, ao ser infectada, a célula endotelial dispara mediadores na corrente sanguínea que provocam uma cascata de inflamação que causa toda essa reação observada em crianças com a SIM-P, como febre persistente, colite, miocardite e encefalite”, explica Amaro Nunes Duarte Neto, infectologista e patologista da FM-USP e do Instituto Adolfo Lutz e um dos primeiros autores do estudo.

“Quem induz essa reação nas células é o próprio vírus, mas é o sistema imune que produz a resposta prejudicial ao paciente. Porém, não é uma reação autoimune, como ocorre nos casos de doenças como lúpus, psoríase e artrite inflamatória, em que também há lesão de vasos sanguíneos. No caso da síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica há o envolvimento direto do vírus”, sublinha Duarte-Neto.

Análises feitas por microscopia eletrônica pela professora da FM-USP Elia Caldini sustentam essas conclusões.

A técnica permite o reconhecimento direto da partícula viral, com aumento de mais de 50 mil vezes, sem a utilização de reações específicas. Dessa forma, foi possível descrever as alterações citoplasmáticas nas células associadas à presença do vírus

“Em busca de um método inequívoco de identificação, também empregamos, de maneira inédita, a técnica de imunomarcação do SARS-CoV-2 na microscopia eletrônica. Usamos partículas de ouro coloidal acopladas aos mesmos anticorpos específicos usados na microscopia de luz contra proteínas estruturais do SARS-CoV-2”, explica Caldini.

Os pesquisadores também detectaram, pela primeira vez em crianças, a formação de microtrombos, a exemplo do que já tinha sido observado e relatado em adultos.

“Os fenômenos relacionados à coagulação do sangue devem ser sempre considerados na COVID-19, uma vez que a microscopia eletrônica mostra que, em todos os órgãos estudados, há capilares sanguíneos obstruídos pelo acúmulo de hemácias, leucócitos, restos celulares e fibrina, com ruptura da parede endotelial”, aponta Caldini.

O artigo An autopsy study of the spectrum of severe COVID-19 in children: from SARS to different phenotypes of MIS-C (DOI: 10.1016/j.eclinm.2021.100850), de Amaro Nunes Duarte-Neto , Elia Garcia Caldini, Michele Soares Gomes-Gouvêa, Cristina Takami Kanamura, Renata Aparecida de Almeida Monteiro, Juliana Ferreira Ferranti, Andrea Maria Cordeiro Ventura, Fabina Aliotti Regalio, Maria Augusta Bento Cicaroni Gibelli, Werther Brunow de Carvalho, Gabriela Nunes Leal, João Renato Rebello Pinho, Artur Figueiredo Delgado, Magda Carneiro-Sampaio, Thais Mauad, Luiz Fernando Ferraz da Silva, Paulo Hilario Nascimento Saldiva e Marisa Dolhnikoff, pode ser lido na revista EClinicalMedicine em www.thelancet.com/journals/eclinm/article/PIIS2589-5370(21)00130-9/fulltext.




Autor: Elton Alisson
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 29/04/2021
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/acao-direta-do-sars-cov-2-em-varios-orgaos-pode-causar-reacao-imune-exagerada-em-criancas/35743/

Estudo mapeia genes do sistema imune envolvidos na resistência ao SARS-CoV-2




Thaís Oliveira de Andrade com o marido Eric Soares de Araújo, ambos de 44 anos e voluntários da pesquisa. Ele contraiu COVID-19 e precisou ser hospitalizado. Ela até agora tem se mostrado resistente ao SARS-CoV-2 (foto: acervo pessoal)


Em estudo divulgado na plataforma medRxiv, pesquisadores brasileiros deram os primeiros passos no sentido de entender por que algumas pessoas são naturalmente resistentes à infecção pelo novo coronavírus.

O trabalho se baseou na análise do material genético de 86 casais em que apenas um dos cônjuges foi infectado pelo SARS-CoV-2, embora ambos tenham sido expostos. Os resultados – que ainda estão em processo de revisão por pares – sugerem que determinadas variantes genéticas encontradas com maior frequência nos parceiros resistentes estariam associadas à ativação mais eficiente de células de defesa conhecidas como exterminadoras naturais ou NK (do inglês natural killers). Esse tipo de leucócito faz parte da resposta imune inata, a primeira barreira imunológica contra vírus e outros patógenos. Quando as NKs são acionadas corretamente, conseguem reconhecer e destruir células infectadas, impedindo que a doença se instale no organismo.

“Nossa hipótese é que as variantes genômicas mais frequentes nos parceiros suscetíveis levariam à produção de moléculas que inibem a ativação das células NK. Mas isso é algo que ainda precisa ser validado por meio de estudos funcionais”, explica Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP.

Após anunciar na imprensa que buscavam voluntários para o projeto, em meados de 2020, os cientistas do IB-USP foram contatados por aproximadamente mil casais com histórias parecidas e intrigantes. Um homem com mais de 70 anos, por exemplo, precisou ser hospitalizado para tratar complicações da COVID-19 enquanto sua esposa, na mesma faixa etária, e sua sogra, que tem 98 anos e mora na mesma casa, não apresentaram qualquer sinal de infecção. Outro caso curioso é o de um homem de cem anos que testou negativo para o vírus apesar de ter mantido o contato rotineiro com sua esposa, de 90 anos, que foi contaminada.

“Inicialmente achávamos que casos como esses eram raros e nos surpreendemos com a variedade de relatos. Selecionamos cem casais com características comparáveis – entre elas idade e ancestralidade genética – e coletamos amostras de sangue para uma análise mais detalhada”, conta Zatz à Agência FAPESP.

A identificação dos casais e a coleta de material dos voluntários foram conduzidas pelo bolsista de pós-doutorado da FAPESP Mateus Vidigal.

“O primeiro passo foi fazer um teste sorológico para excluir da amostra eventuais casos assintomáticos [pessoas que, na verdade, haviam sido infectadas, mas não apresentaram sintomas]. Após essa triagem, restaram 86 casais de fato sorodiscordantes, ou seja, em que apenas um cônjuge carregava no sangue anticorpos contra o novo coronavírus”, relata Vidigal.

Enquanto no grupo dos suscetíveis havia uma maioria de homens (53 contra 33), as mulheres predominavam entre os resistentes (57 contra 29). Vidigal destaca que a pesquisa foi conduzida antes do surgimento das novas cepas do SARS-CoV-2, consideradas mais transmissíveis. “Não temos certeza de que os achados seriam os mesmos em pessoas expostas à P.1., por exemplo”, pondera.

Herança complexa

De acordo com Zatz, o fato de a resistência ao SARS-CoV-2 ser uma característica relativamente comum na população – diferentemente do HIV, causador da Aids, por exemplo – fala a favor de uma herança genética complexa, na qual muitos genes estão envolvidos.

“Isso significa que, para achar algo significativo ao olhar o genoma como um todo, seria preciso ter uma amostra gigantesca, com mais de 20 mil voluntários. Decidimos então focar em dois grandes grupos de genes relacionados com a resposta imune: o complexo principal de histocompatibilidade [MHC, na sigla em inglês] e o complexo de receptores leucocitários [LRC]. São os genes do MHC que definem, no caso de um transplante, por exemplo, se dois indivíduos são compatíveis ou não”, explica a pesquisadora.

Mesmo com esse filtro a tarefa estava longe de ser trivial. Alguns dos genes que integram esses dois complexos chegam a ter mais de 7 mil formas alternativas, também chamadas de polimorfismos.

“Um exemplo de polimorfismo são os diferentes tipos sanguíneos. Existem quatro variantes genéticas dentro do sistema ABO: A, B, AB e O. No caso dos complexos MHC e LRC, alguns genes têm milhares de variantes”, conta a pesquisadora.

Para ajudar na empreitada, o grupo do IB-USP estabeleceu colaboração com Erick Castelli, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu. Recentemente, com apoio da FAPESP, o pesquisador desenvolveu métodos computacionais que facilitam o estudo dos complexos MHC e LRC.

“Imagine que você está tentando montar um quebra-cabeça [o genoma] com base em uma única referência, mas há várias peças muito parecidas e há milhares de possibilidades para uma mesma peça, com alterações muito sutis entre elas, tornando impossível saber onde cada uma se encaixa. O algoritmo se baseia em milhares de sequências já descritas para esses genes para decidir o local de cada peça, fazendo a montagem do genoma de forma muito mais detalhada. O método também permite inferir qual é a sequência de cada cromossomo e qual proteína seria produzida a partir de cada gene”, conta Castelli à Agência FAPESP.

A análise do complexo MHC indicou que variantes de dois genes – conhecidos como MICA e MICB – parecem influenciar a resistência ao SARS-CoV-2. Segundo Castelli, a expressão desses genes normalmente aumenta quando as células estão sob algum tipo de estresse e isso leva à produção de moléculas que se ligam a receptores das NK, sinalizando que tem algo errado com aquela célula.

“No caso do MICA, o polimorfismo mais frequente nos indivíduos infectados aparentemente faz com que a proteína codificada por esse gene seja produzida em maior quantidade, possivelmente na forma solúvel, o que inibe a ativação das células NK. No caso do MICB, entre os suscetíveis, foi 2,5 vezes mais frequente uma variante associada à menor expressão do RNA mensageiro que codifica a proteína ativadora de NK. Os dois caminhos, portanto, levariam à menor ativação dessa barreira imunológica”, explica Castelli.

Segundo o pesquisador, no complexo LRC, foram identificadas variantes de interesse nos genes LILRB1 e LILRB2.

“Nos indivíduos infectados, foi cinco vezes mais frequente uma variante do LILRB1 que, pela nossa análise, levaria à maior expressão de receptores que inibem a ação das células NK”, conta Castelli.

As hipóteses referentes ao papel de cada polimorfismo na resistência ou suscetibilidade ao SARS-CoV-2 foram elaboradas em parceria com um grupo de pesquisadores do Instituto do Coração (InCor) liderados por Edécio Cunha Neto.

“De modo geral, os indivíduos suscetíveis teriam variantes genéticas que resultariam em uma resposta de células NK mais fraca, enquanto nos resistentes essa resposta seria mais robusta. Há diversos testes que podem ser feitos para comprovar essa hipótese. Um deles é incubar o SARS-CoV-2 com células do sangue periférico de indivíduos suscetíveis e resistentes e observar como varia em cada caso a ativação das células NK”, sugere Cunha Neto.

Ainda que os achados se confirmem, pondera o pesquisador do InCor, certamente há outros mecanismos da resposta imune inata atuando em paralelo para determinar a resistência ao vírus. “Um deles certamente é a capacidade das células de defesa de produzir rapidamente interferons [uma classe de proteínas fundamental para a resposta antiviral]”, avalia.

O artigo Immunogenetics of resistance to SARS-CoV-2 infection in discordant couples pode ser lido em www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.04.21.21255872v1. A pesquisa teve apoio da FAPESP por meio de seis projetos (13/08028-1, 14/50931-3, 19/19998-8, 20/09702-1, 13/17084-2 e 17/19223-0).





Autor: Karina Toledo
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 30/04/2021
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/estudo-mapeia-genes-do-sistema-imune-envolvidos-na-resistencia-ao-sars-cov-2/35752/

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Rede Genômica Fiocruz: referência mundial no sequenciamento do SARS-CoV-2

O gráfico mostra que no início da pandemia havia predomínio das linhagens B.1.28 e B.1.1.33. Agora, conforme atualização feita na primeira semana de abril, há predominância das linhagens P1 e P2 (Fonte: www.genomahcov.fiocruz.br)

A doutora em Microbiologia Marilda Siqueira coordena um dos 12 laboratórios considerados referência internacional em pesquisa do SARS-CoV-2, de acordo com classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS). À frente do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Marilda e sua equipe se dedicam ao sequenciamento genético das variantes do coronavírus. O seu laboratório, juntamente com a vice-presidência de pesquisa da Fiocruz, participou da criação da Rede Genômica Fiocruz (https://www.genomahcov.fiocruz.br). A Rede trabalha em estreita colaboração com o Ministério da Saúde e conta com a participação da maioria das unidades da Fiocruz em 11 estados e de instituições parceiras como o Instituto Adolpho Lutz, em São Paulo, e o Instituto Evandro Chagas, em Belém. Em um trabalho unificado e focado no mesmo objetivo, a cada dia agrega novas unidades a fim de contribuir para que o maior número de dados sobre genoma SARS-CoV-2 seja fornecido, no menor espaço de tempo possível, ao Ministério da Saúde.





Na corrida contra o tempo para controlar um vírus desconhecido, o Laboratório, considerado pelo Ministério da Saúde Centro de Referência Nacional em Vírus Respiratórios e referência em Covid-19 nas Américas para a Organização Mundial da Saúde (OMS), recebe amostras de Covid-19 de várias regiões do País. É ali, onde tradicionalmente são estudadas outras doenças virais, como Influenza, Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), Sarampo, Ebola e SARS-CoV-1, que desde o início da pandemia é estudado o comportamento do SARS-CoV-2, por meio da decodificação do genoma viral, a fim de preparar o País para o enfrentamento da pandemia, promover diagnósticos precisos e vacinas eficazes.

“Gostaria de aproveitar essa oportunidade para agradecer muito à FAPERJ e ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) pelo apoio, que tem sido decisivo para que as análises do coronavírus possam ser realizadas aqui no laboratório”, diz Marilda, referindo-se ao apoio do edital Ação Emergencial Projetos para Combater os Efeitos da Covid-19 para realizar suas pesquisas. Segundo ela, que é bolsista de Produtividade nível 1C do CNPq, a análise genômica é de fundamental importância para esclarecer o comportamento do coronavírus ao longo do tempo e conhecer em tempo real suas características e suas variantes. “Estamos isolando essas variantes em culturas celulares e compartilhando as linhagens identificadas através de MTA (Material TransferAgreement) com várias instituições de pesquisa do Brasil e do exterior que assinaram o Termo de Cooperação, inclusive com a Universidade de Oxford, cuja vacina a Fiocruz está produzindo no Brasil”, detalha.

Marilda: As linhagens identificadas são compartilhadas com várias instituições de pesquisa do Brasil e do exterior (Foto: Arquivo pessoal)


Graduada em Farmácia e Bioquímica e mestre em Biologia Parasitária, Marilda explica que a análise genômica do vírus é fundamental para nortear a produção de vacinas e esclarecer como os anticorpos gerados respondem a essas variantes. Ela destaca que o site da Rede Genômica da Fiocruz, uma contrapartida exigida pelo edital da FAPERJ, disponibiliza praticamente em tempo real, informações robustas e claras, ao público em geral e à imprensa, sobre a pesquisa com genoma. No portal, que em breve terá versão em inglês, são apresentados dados sobre as principais linhagens circulantes no País, sua frequência e distribuição por região e estados. Na seção “gráficos” é possível verificar que no início da pandemia havia predomínio das linhagens B.1.28 e B.1.1.33 e agora há predominância das linhagens P1 e P2. Integrante da plataforma internacional GISAID, que promove o compartilhamento de dados compilados de mais de um milhão de genomas produzidos em todo o mundo sobre influenza e o novo coronavírus, a Rede é um dos curadores dessa iniciativa na América do Sul na difusão de informações. “Nosso próximo passo é iniciar um projeto que irá escalonar significativamente nas próximas semanas e meses o número de amostras sequenciadas e analisadas”, garante Marilda.

No final do mês de março, pesquisadores da Rede Genômica Fiocruz identificaram uma importante alteração na estrutura da proteína Spike (S) do vírus SARS-CoV-2 em circulação no Brasil. Onze sequências genéticas apresentaram deleções na região inicial da proteína e em quatro ocorreu inserção de alguns aminoácidos. A proteína Spike é associada à capacidade de entrada do patógeno nas células humanas e é um dos principais alvos dos anticorpos neutralizantes produzidos pelo organismo para bloquear o vírus. Essa alteração permite que o vírus use uma espécie de capa de invisibilidade para que não seja reconhecido pelos anticorpos de quem já foi infectado ou vacinado.


Com o processo de vacinação lento, Paola lembra que cada um deve continuar a fazer a sua parte para frear a circulação do vírus (Foto: Josué Damascena/Fiocruz)


Mestre em Medicina Tropical e doutora em Biologia Molecular e Celular pelo IOC, Paola Resende explica que essa é uma estratégia comum e faz parte da biologia natural do vírus, que possui grande capacidade de sofrer mutações, principalmente quando ele está circulando em alta proporção na população. “A evolução do coronavírus tem sido convergente, ou seja, estão sendo encontradas mutações, bem como inserções e deleções de aminoácidos na proteína Spike, fazendo com que as alterações ocorram em diferentes linhagens”, esclarece Paola. Ela reforça a importância de se conhecer as linhagens que estão circulando para viabilizar o monitoramento de uma possível emergência de uma variante. Entre essas emergências, a bióloga destaca a capacidade do vírus de escapar da resposta imune da população, ser mais agressivo ou ter maior capacidade de transmissão, como vem ocorrendo com algumas variantes recentes em circulação, denominadas variantes de interesse e de preocupação.

Coordenadora da curadoria da plataforma genômica internacional GISAID no Brasil, Paola explica que, segundo a OMS, até o momento existem três variantes de preocupação: a P.1, detectada no estado do Amazonas; a B.1.1.7, detectada inicialmente no Reino Unido e já em circulação no Brasil; e a B.1.351, identificada na África do Sul e reportada em São Paulo, mas ainda com poucas informações epidemiológicas sobre uma transmissão sustentada no País. De acordo com ela, a Rede também vem detectando diversas variantes de interesse. Nas primeiras semanas de abril foram caracterizadas e classificadas duas novas linhagens, a N.9 e a N.10, como variantes de interesse, e a nomenclatura foi aceita pelo sistema internacional de classificação de linhagens.

“Assim que conseguimos identificar a variante no Maranhão, enviamos a amostra ao Ministério da Saúde e à Secretaria de Saúde do estado, que nos enviou mais amostras. Com elas, conseguimos identificar o cluster, isolar o vírus e estudar suas características fenotípicas, como, por exemplo, sua resposta a soros de pacientes já infectados. Estudos complementares estão sendo realizados para enfrentar essa variante no caso de predominância ou no caso dela escapar da vacina. Neste caso, a variante pode ser fornecida a um fabricante para o desenvolvimento de novas vacinas. “Acho que a variante de interesse que mais preocupa é a da N.10, que mostrou in silico que pode alterar bastante essa conformação e escapar mais. Seu potencial escape da resposta imune está bem acima do que as outras variantes. Mas os testes in vitro precisam ser realizados para comprovar esse achado computacional”, diz Paola. O ancestral da linhagem N.10 está circulando desde o início da pandemia é classificada como B.1.1.33. No entanto, ela se diferenciou ao longo do tempo, agregou mutações importantes e formou clusters de transmissão locais, como no Maranhão e em alguns outros estados. Essas duas variantes estão sendo monitoradas pela Rede muito de perto, aponta a pesquisadora.

Paola acha que, como a vacinação está caminhando a passos muito lentos, é necessário fazer o que está ao alcance de cada um para frear a circulação do vírus. “Não podemos deixar de enfatizar a importância de se lavar as mãos, usar álcool gel e máscara, sempre que possível ficar em casa e evitar aglomerações. Tudo que estamos cansados de saber, mas muitas pessoas já não estão mais fazendo isso. Nesse mesmo período do ano passado, a população estava com medo e tomando muito cuidado. Hoje, estamos enfrentando o pior momento da pandemia e as pessoas parecem mais relaxadas. Não consigo entender isso”, finaliza Paola.






Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 15/04/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4196.2.0

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Brasil vem sofrendo ‘apagão’ de dados genômicos do SARS-CoV-2 nos últimos meses, dizem pesquisadores




Somente 0,024% dos casos confirmados no país foram sequenciados, enquanto no Reino Unido esse índice chega a 5% e, na África do Sul, a 0,256%. Mais de 75% das sequências do país são originárias da região Sudeste e apenas 8% foram geradas após julho de 2020 (imagem: Wikimedia Commons)


Durante o ano de 2020, o Reino Unido liderou os esforços mundiais de vigilância genômica do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Das 323 mil sequências publicadas até 5 de janeiro de 2021 na plataforma Gisaid, na qual cientistas de diversos países compartilham informações sobre o patógeno em tempo real, 137 mil (42%) têm origem britânica. Graças a esse esforço, foi possível identificar com relativa rapidez a emergência da nova variante B.1.1.7, considerada entre 50% e 70% mais transmissível que a originária de Wuhan, na China.

Essa nova cepa foi detectada no Brasil pela primeira vez em 31 de dezembro, por pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e da rede de laboratórios Dasa, em amostras de dois pacientes com suspeita de COVID-19 atendidos em São Paulo. O trabalho de sequenciamento foi coordenado pela professora Ester Sabino.

Com essas duas novas sequências depositadas na plataforma Gisaid, o grupo de Sabino atinge a marca de 600 genomas completos sequenciados. O número representa cerca de 30% das 1.828 sequências publicadas por grupos brasileiros no site.

De acordo com a pesquisadora, tal feito só foi possível graças aos recursos humanos e materiais disponíveis no Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), projeto apoiado pela FAPESP e originalmente destinado ao estudo de doenças como dengue e zika.

Os pesquisadores do CADDE avaliam, no entanto, que a situação brasileira está muito aquém da ideal no que diz respeito à vigilância genômica do SARS-CoV-2.

“O Brasil sequenciou apenas 0,024% dos casos confirmados no país [a porcentagem foi calculada com base nos dados da Universidade Johns Hopkins], enquanto no Reino Unido esse índice chega a 5%”, comenta Darlan Cândido, integrante do CADDE que atualmente realiza doutorado na Universidade de Oxford (Inglaterra).

Embora tenha avançado mais do que alguns vizinhos sul-americanos, como Argentina (0,003%), Colômbia (0,013%) e Venezuela (0,010%), o Brasil está atrás de outros países emergentes, entre eles Índia (0,042%), México (0,096%) e África do Sul (0,256%) – esta última já depositou quase o dobro (2.882) de sequências na plataforma Gisaid, embora o Brasil tenha uma quantidade de casos confirmados cerca de sete vezes maior.

E, como ressalta Cândido, não se trata apenas de uma questão de quantidade. As informações brasileiras estão mal distribuídas tanto no tempo quanto no espaço. “Mais de 75% das sequências disponíveis hoje vêm da região Sudeste e isso limita muito o entendimento do que está acontecendo no restante do país. Além disso, a maior parte dos dados foi gerada no primeiro semestre de 2020. Somente 8% das sequências foram publicadas entre os meses de agosto e dezembro, tornando impossível saber, por exemplo, há quanto tempo a nova variante está circulando no país e o quão disseminada ela está”, diz.

Os pesquisadores do CADDE não sabem precisar a causa desse “apagão” ocorrido no segundo semestre do ano passado. Entre as hipóteses apontadas estão dificuldades na importação dos reagentes usados no sequenciamento genômico, o custo elevado dos insumos e equipamentos (agravado pela alta do dólar) e a falta de profissionais habilitados para esse tipo de trabalho fora da região Sudeste.

“No nosso caso, tivemos problemas para importar alguns insumos que estavam em falta no mercado nacional. Recebemos um lote de reagentes de má qualidade e tivemos de importar novamente. Além disso, estávamos finalizando projetos iniciados no primeiro semestre, um deles com o objetivo de entender a taxa de transmissão hospitalar", conta a doutoranda da Faculdade de Medicina (FM) da USP Ingra Claro.

O virologista Fernando Rosado Spilki, que coordena a Rede Corona-ômica – criada entre março e abril pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) para liderar os esforços de vigilância genômica no país –, admite que houve um atraso no último semestre, mas garante que um grande esforço está sendo realizado no momento para recuperar o tempo perdido.

“Boa parte das sequências publicadas no primeiro semestre foi feita com verbas de projetos sobre outros temas que já estavam vigentes e foram redirecionadas para pesquisas sobre o SARS-CoV-2. Apesar de as agências de fomento terem feito um grande esforço para liberar rapidamente mais recursos, existem entraves burocráticos que tornam esse processo demorado”, explica Spilki à Agência FAPESP.

Segundo o virologista, novas sequências já concluídas, ainda em processo de análise, devem ser publicadas nas plataformas internacionais muito em breve. “Após o sequenciamento há um grande trabalho de bioinformática a ser feito e isso requer uma infraestrutura computacional que não se constrói do dia para a noite. Estamos melhorando essa infraestrutura e investindo na compra de insumos. Pretendemos iniciar uma força-tarefa para sequenciar as amostras desse período que foi menos estudado [segundo semestre de 2020] e também para seguir acompanhando o que está acontecendo com o vírus agora”, diz Spilki.

A Rede Corona-ômica conta com recursos da Financiadora de Estudos e Projeto (Finep) e congrega entidades como o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC/RJ), o Instituto Adolfo Lutz (IAL/SP), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/RJ e PE), a Fundação Ezequiel Dias (Funed/MG), o Instituto Evandro Chagas (IEC/PA), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a USP.

Enquanto os novos dados não forem divulgados, continuam valendo as informações publicadas pela equipe do CADDE e colaboradores na Science, em julho de 2020 (versão final do artigo foi divulgada em setembro).

“Sabemos, por enquanto, que há 38 linhagens diferentes de SARS-CoV-2 circulantes no Brasil. Aparentemente, ainda predominam as três variantes de origem europeia que emergiram em São Paulo e Rio no mês de fevereiro de 2020. Mas, como há poucos dados publicados depois de julho, é possível que isso tenha mudado”, avalia Cândido.

Como o Brasil é um país de dimensões continentais, afirma Cândido, o que acontece na região Norte ou na região Sul não necessariamente é semelhante ao observado no Sudeste. “É fundamental entender a diversidade genética do vírus que está circulando no país. Só assim será possível detectar linhagens emergentes e descobrir se elas podem impactar a transmissão, o número de casos e a severidade da doença. Sem esse tipo de estudo ficamos no escuro”, alerta.

Novo padrão epidemiológico

De acordo com Sabino, já foram descritas cerca de 800 linhagens do novo coronavírus no mundo. A variante britânica B.1.1.7 – também chamada de VOC (variante de preocupação, na sigla em inglês) – é uma das poucas que apresentaram comportamento epidemiológico diferente da cepa originária de Wuhan, na China.

“No início, ela era muito pouco frequente e encontrada apenas no sudeste da Inglaterra. Mesmo com todas as medidas de controle, sua frequência foi aumentando e hoje já representa cerca de 60% dos novos casos diagnosticados em Londres. Quando fizeram a curva de crescimento, ficou claro que essa cepa tem uma taxa de transmissão maior que as outras”, conta a pesquisadora.

O grande número de mutações na região do genoma que codifica a proteína spike – usada pelo vírus para se ligar ao receptor da célula humana e viabilizar a infecção – tem sido apontado pelos cientistas como a causa do maior potencial de contágio da B.1.1.7 (leia mais em: agencia.fapesp.br/34932/).

O fato é que essas mutações já começam a afetar a sensibilidade dos testes diagnósticos, alerta José Eduardo Levi, pesquisador do IMT-USP, da rede de laboratórios Dasa e um dos responsáveis pela detecção da nova cepa no Brasil.

“Não dei muita bola quando li sobre a descoberta da B.1.1.7 em meados de dezembro. Porém, logo após o Natal, foi divulgado que a cepa era mais transmissível e que os portadores dessa variante apresentavam um resultado positivo, mas anômalo, em alguns testes do tipo RT-PCR. Quando li esse relato me dei conta de que o ensaio que estavam usando no Reino Unido era o mesmo que a gente tinha acabado de implantar na rede Dasa para testes de saliva”, conta Levi.

Como explica o pesquisador, trata-se de um exame do tipo RT-PCR que tem como alvos três genes, sendo um deles o que codifica a proteína spike [S]. Quando o paciente está infectado pela nova variante, o exame dá negativo para o gene S e positivo para os outros dois.

“Tive então a ideia de pedir para a equipe do Dasa analisar todos os testes de saliva que deram positivo – ainda não eram muitos – e selecionar os que apresentavam esse padrão anômalo. Encontramos duas amostras e tentei contato com os pacientes. Uma dessas pessoas contou que havia recebido parentes recém-chegados do Reino Unido. Tive então certeza de se tratar da nova variante, mesmo antes do sequenciamento”, diz.

Levi encaminhou as duas amostras para serem sequenciadas pelos pesquisadores do CADDE e do Lutz e a suspeita se confirmou.

“Sequenciamos o material usando uma tecnologia portátil e barata conhecida como MinION. Em seguida, comparamos o resultado com o genoma de referência [mapeado em 2019, na China] e com outras 127 sequências dessa variante B.1.1.7 disponíveis na plataforma Gisaid, o que permitiu a construção de árvores filogenéticas. Os dados indicam que as amostras correspondem a duas introduções independentes”, conta Flavia Sales, que cursa mestrado na FM-USP sob a orientação de Sabino.

Os pesquisadores ressaltam a importância de monitorar a evolução genômica do vírus para garantir a acurácia dos testes diagnósticos e a eficácia das vacinas.

“Ainda não sabemos se essa nova cepa vai manifestar no Brasil o mesmo comportamento observado no Reino Unido. Tampouco sabemos se as linhagens que estão aqui são mais ou menos transmissíveis. De qualquer modo, os laboratórios que usam esse tipo de kit para exame de RT-PCR [com foco no gene da proteína spike] devem reanalisar seus protocolos”, avalia Sabino.

Levi conta que o Dasa pretende modificar os reagentes usados nos testes de RT-PCR feitos com secreção intranasal (coletados com o cotonete do tipo swab) para que eles também possam detectar esse padrão anômalo nos portadores da nova variante. “Isso poderá ajudar a monitorar como a cepa B.1.1.7 está se disseminando no país”, afirma o pesquisador.




Autor: Karina Toledo |
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 12/01/21
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/brasil-vem-sofrendo-apagao-de-dados-genomicos-do-sars-cov-2-nos-ultimos-meses-dizem-pesquisadores/34968/