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segunda-feira, 18 de março de 2019

O centro da economia global está voltando para a Ásia, artigo de José Eustáquio Diniz Alves





A Ásia foi o centro econômico do mundo durantes milênios, em função, especialmente, do peso dos Impérios Persa, Hindu e Chinês. A Índia e a China são os dois países mais populosos do mundo há milênios e desenvolveram grandes civilizações que deram importantes contribuições para o avanço intelectual, espiritual e material da humanidade.

No passado, o centro econômico do mundo ficava na Ásia Central, ao norte da Índia e a oeste da China, refletindo os avanços civilizacionais desfrutados no Oriente Médio e Extremo Oriente. Até 1820, a Ásia respondia por dois terços da riqueza mundial, mas foi superada rapidamente pelo Ocidente graças à Colonização da América e à Revolução Industrial e Energética que garantiu a riqueza e o poderio da Europa e dos Estados Unidos.

Em 1900, o centro econômico havia mudado para o norte da Europa, que deu um salto muito à frente do resto do mundo durante o século XIX. Na primeira metade do século XX até 1950, o centro mudou para o Atlântico Norte, refletindo a ascensão econômica e populacional dos Estados Unidos, como mostra o relatório “Urban world: Cities and the rise of the consuming class”, do McKinsey Global Institute (Junho de 2012).

Mas o relatório também mostra que a tendência de Ocidentalização do mundo deu um “cavalo de pau” em meados do século passado, voltou a se direcionar para o norte da Europa e agora essa tendência está se direcionando para o Oriente, em uma velocidade impressionante. O que levou séculos para se deslocar para o oeste, desde as Grandes Navegações iniciadas por Cristóvão Colombo em 1492, agora faz o caminho de volta para o leste em questão de décadas.

A McKinsey calculou onde o centro econômico ponderando o PIB nacional pelo centro geográfico de gravidade de cada país. O relatório liga a grande mudança na economia global à tendência de urbanização, observando que as economias em rápido crescimento sempre têm cidades em rápido desenvolvimento. Até 2025, prevê o relatório, dois terços do crescimento econômico mundial virão de um grupo de 600 cidades, sendo 440 delas em países em desenvolvimento. Por exemplo, o crescimento urbano da China está ocorrendo 10 vezes mais rápido do que a urbanização no Reino Unido, o primeiro país a se industrializar. A China está criando megacidades (população de 10 milhões ou mais) a uma taxa de uma por ano.

De acordo com o relatório da McKinsey, o centro de gravidade econômico vem mudando para leste na última década a uma taxa de 140 km por ano e, em 2025, terá retornado a um lugar na Ásia central, ao norte de onde foi no ano 1.000 DC. “Não é uma hipérbole dizer que estamos observando a mudança mais significativa no centro de gravidade econômico da Terra na história”, conclui o relatório.
O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra como mudou a correlação de forças entre as economias dos principais países ocidentais, da Ásia emergente e da Chíndia (China + Índia). A queda dos países ocidentais foi grande e a ascensão dos países orientais foi surpreendente. A linha azul mostra a participação no PIB global dos EUA mais o Canadá e mais a União Europeia (com 28 Estados-membros: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Chipre, República Checa, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Polônia, Portugal, Romênia, Reino Unido e Suécia), enquanto a linha laranja mostra a participação da Ásia Emergente (30 países: Bangladesh, Butão, Brunei, Camboja, China, Fiji, Índia, Indonésia, Kiribati, Laos, Malásia, Maldivas, Ilhas Marshall, Micronésia, Mongólia, Mianmar, Nauru, Nepal, Palau, Papua-Nova Guiné, Filipinas, Samoa, Ilhas Salomão, Sri Lanka, Tailândia, Timor-Leste, Tonga, Tuvalu, Vanuatu e Vietnã).






Os 30 países ocidentais tinham uma participação no PIB global de 53,8% em 1980, caíram para 32,8% em 2018 e devem ficar com 29,9% em 20123. Já os 30 países da Ásia Emergente tinham uma participação no PIB global de somente 8,9% em 1980, passaram para 33,2% em 2018 (ultrapassando os 30 países ocidentais) e devem ficar com 37,7% em 2023.

Mas dentro da Ásia Emergente (que reúne os países do Leste e do Sul da Ásia) o peso fundamental é da China e da Índia (Chíndia). O gráfico também mostra que a Chíndia tinha uma participação no PIB global de apenas 5,2% em 1980 (10 vezes menos que os 30 países ocidentais), mas passou para 26,4% em 2018 e deve chegar a 30,3% em 2023, ultrapassando os 30 países ocidentais que devem ficar com 29,9%.

Portanto, a China e a Índia – as duas grandes civilizações do passado – estão voltando a ter papel central na economia internacional. Como são países que somam quase 3 bilhões de habitantes e crescem muito em termos econômicos estão provocando a mudança do eixo econômico de gravidade para o centro da Ásia.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br


Referência:

Richard Dobbs et. al. Urban world: Cities and the rise of the consuming class, Report McKinsey Global Institute, June 2012
https://www.mckinsey.com/featured-insights/urbanization/urban-world-cities-and-the-rise-of-the-consuming-class



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/03/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 18/03/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/03/18/o-centro-da-economia-global-esta-voltando-para-a-asia-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Deixar faltar água e esgotamento sanitário é violação de direitos humanos. Entrevista com Léo Heller

Quando nos deparamos com falta d’água, estamos falando de violação de direitos humanos, orienta Léo Heller, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário. Com mandato outorgado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, Heller faz voluntariamente dois relatórios temáticos por ano, além de dois anuais sobre a situação de diferentes países.

Léo Heller. Foto: Fiocruz


Seu trabalho pode ser um marco importante na direção de soluções para problemas frequentes, entre eles, os de regulação e de acessibilidade financeira. “A rigor, cortar água de quem não pode pagar é violação dos direitos humanos.Então, os países signatários dos tratados e resoluções deveriam ter uma lei que claramente proibisse o corte nesses casos”, afirma ele.

Leia a seguir a entrevista dividida por tópicos, com o objetivo de facilitar a compreensão do tema sob a ótica dos direitos humanos.



Origem do saneamento como direito – “No arcabouço legal internacional, os direitos à água e ao esgotamento sanitário derivam do artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que trata do padrão mínimo adequado de vida. Posteriormente, várias convenções, como das crianças, das mulheres, das pessoas com deficiências, citaram explicitamente o direito à água, mas é em 2010 que a ONU aprova a resolução que define mais especificamente o direito humano à água e ao esgotamento sanitário. Já tinha havido uma tentativa antes, com voto contrário de vários países, inclusive do Brasil. Porém em 2010, o Brasil é um dos países que mais fortemente apoia a resolução, apresentada pelo governo da Bolívia, e aprovada com 123 votos favoráveis e 41 abstenções. O direito à água fala do uso prioritário para consumo humano. Se numa comunidade há uma empresa que está reduzindo a disponibilidade de água para consumo humano a um nível insuficiente, está havendo violação do direito”, afirma Heller.

Falta incluir na Constituição Federal – “Vários países já mudaram sua Constituição para incluir os direitos à água e ao esgotamento sanitário. O Brasil não fez isso. Existem propostas de emendas constitucionais (PECs), mas aparentemente a agenda do Congresso e do governo é outra. O Brasil está atrasado em relação a isso, mas o Judiciário brasileiro tem chamado o tema, fazendo prevalecer esses direitos”, disse.

Como avaliar à luz do direito humano – “De forma bem esquemática, o que se faz é associar duas dimensões distintas: o conteúdo normativo e os princípios dos direitos humanos. No caso da água, de acordo com o conteúdo normativo, cinco requisitos devem ser cumpridos:
Acessibilidade financeira: as pessoas não devem ter o acesso ao serviço negado por falta de capacidade financeira de pagamento;
Acessibilidade física: os serviços devem ser fornecidos de tal maneira que todos possam ter acesso, idosos, crianças, população rural, população em situação de rua, escolas, presídios etc.;
Disponibilidade: os governos têm a responsabilidade de prover de infraestrutura os serviços 24 horas por dia, próximo às residências e demais locais;
Aceitabilidade: as soluções precisam levar em conta os valores culturais e características das comunidades;
E qualidade.

Para o esgotamento sanitário, a esses elementos se agregam os requisitos da privacidade e da dignidade.

Já entre os princípios estão o do direito à informação e à participação, além da igualdade e não discriminação, que é muito central. O padrão de fornecimento desses serviços no Brasil é discriminatório. Se fizermos qualquer distribuição de quem tem e de quem não tem acesso – ou quem tem melhor ou pior –, veremos sempre que quanto mais rico, melhor o serviço. Este é um padrão que tem se mantido no Brasil de forma muito acentuada.

Quando associamos o conteúdo normativo e os princípios, podemos analisar se está ou não havendo violação de direitos humanos. Um princípio muito interessante de analisar é o do cumprimento progressivo, ou seja, é esperado avanço gradativo. Quando há retrocesso, há violação”, explica.

Falha na regulação dos serviços – “O processo de regulação pode ser um instrumento importante para enquadrar esses serviços no marco dos direitos humanos. Entretanto, em um relatório que fiz sobre regulação, acabou ficando claro como essas agências são em geral orientadas pelos aspectos econômicose não incluem em seus ordenamentos os princípios dos direitos humanos: acessibilidade, participação etc”.

Acesso para os mais pobres e proibição de corte de água – “Outro relatório foi sobre acessibilidade financeira, um tema que me parece muito central, porque a grande preocupação dos reguladores e dos prestadores dos serviços é que seja economicamente sustentável. E eu concordo com essa preocupação, porque quando isso não ocorre, o resultado é o sistema se deteriorar, além de não haver expansão; e os pobres, em geral, são os que sofrem. Mas associado a isso precisa haver o cuidado com a acessibilidade financeira. Existem algumas experiências interessantes no mundo sobre mecanismos para garantir o acesso. Aqui no Brasil há tarifa social em alguns estados, porém muitas vezes são mal aplicadas, com abrangência pequena e baixa capacidade de detectar quem realmente precisa. Alguns países estabelecem um mínimo vital gratuito, como África do Sul e Colômbia; e outros possuem subsídios. Existem muitos modelos e não há constatação de qual deles consegue focalizar as pessoas que precisam. Às vezes a intenção é boa, mas o resultado acaba perpetuando a exclusão dos que não podem pagar.

Associado a esse princípio tem a proibição do corte. A rigor, cortar água de quem não pode pagar é violação dos direitos humanos, então os países signatários deveriam ter uma lei que claramente proibisse o corte nesses casos. Quando aplicamos a lente analítica dos direitos humanos, podemos ressignificar melhor a área de saneamento e, com isso, enxergar mais as violações.

Penalidade para violadores – A expressão violação dos direitos humanos tem pelo menos duas dimensões: jurídica – quem viola tem que ser juridicamente penalizado e obrigado a cessar a violação e reparar os danos; e política, que me parece mais importante. Falar em violação de direitos humanos tem uma força que constrange e pode ajudar nas lutas na direção de uma visão mais social. A ONU não é homogênea, é um reflexo da geopolítica mundial, no entanto, o Conselho de Direitos Humanos, tradicionalmente, tem posturas muito progressistas.

Existe uma dinâmica chamada de revisão periódica universal, na qual todos os países são avaliados a cada cinco anos, quando é feita uma radiografia do desempenho de cada um quanto ao cumprimento dos direitos humanos. O que pode resultar dessas reuniões, que são abertas, é constrangimento. É muito difícil a ONU obrigar um país a remediar uma violação. Mesmo assim, a pressão internacional pode ter seu papel. Nesse período de um ano e meio, houve várias declarações da ONU contra o governo brasileiro, como em relação à Samarco, à Zica, à PEC do Teto e aos direitos indígenas.



Retrocesso no Brasil – O Brasil fez um esforço enorme de elaborar o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), que garantiria uma visão de 20 anos, e está engavetado. O governo trocou essa agenda pela da privatização e redução dos investimentos. Se olharmos os países em situação mais bem resolvida, que são os desenvolvidos, veremos que eles garantiram isso com décadas sequenciais, quase um século, de investimentos públicos contínuos.

Privatização à luz do direito – A discussão não é simples. O direito à água não prescreve o tipo de gestor, nem diz que se privatizar, necessariamente haverá violação. Tenho alguma experiência em pesquisar privatização, mas não como relator da ONU, que me revelam diferentes preocupações nos processos de privatização, inclusive de violação dos direitos humanos. De fato, a tendência internacional hoje é muito mais no sentido de remunicipalizar, de reestatizar. Alguns países estão indo no caminho da privatização e são situações mais particulares, como a China, que está abrindo mais o capital, ou países europeus submetidos à troika, num processo com reestruturações e reforma fiscal.

Dois anos atrás saiu uma publicação muito interessante, que fala de 180 experiências de remunicipalização recentes no mundo, países como França, Estados Unidos, Argentina, Bolívia, nações da Ásia. Alguns processos de privatização levam a retrocessos e a violações, como aumento do preço da água, recusa em expandir o sistema para populações mais pobres, baixa participação, informações opacas.


Da Casa Fluminense, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/01/2018




Autor: Casa Fluminense
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 29/01/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/01/29/deixar-faltar-agua-e-esgotamento-sanitario-e-violacao-de-direitos-humanos-entrevista-com-leo-heller/

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

América Latina e Caribe despejam 30% de seu lixo em locais inadequados

ONU


A geração diária de resíduos sólidos urbanos nos países da América Latina e do Caribe atingiu cerca de 540 mil toneladas, e a expectativa é de que, até 2050, o lixo gerado na região alcançará 671 mil toneladas por dia. É o que revelam dados apresentados pela ONU Meio Ambiente em evento realizado esta semana (21) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo.

De acordo com a agência das Nações Unidas, mais de 145 mil toneladas de lixo, ou cerca de 30% do total, são destinadas a locais inadequados diariamente na região.




Foto: Flickr/João Guilherme de Carvalho (Creative Commons)

A geração diária de resíduos sólidos urbanos nos países da América Latina e do Caribe atingiu cerca de 540 mil toneladas, e a expectativa é de que, até 2050, o lixo gerado na região alcançará 671 mil toneladas por dia. É o que revelam dados apresentados pela ONU Meio Ambiente em evento realizado esta semana (21) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo.

O levantamento, que faz parte do Atlas de Resíduos da América Latina, relatório da ONU Meio Ambiente que será lançado em breve, mostra que, em média, a cobertura da coleta na região da América Latina e Caribe supera 90%, mas pode variar de acordo com o país, e diminui sensivelmente nas periferias e áreas rurais.

De acordo com Jordi Pon, coordenador regional de resíduos e químicos da ONU Meio Ambiente e coordenador do estudo, “a região tem apresentado vários avanços na gestão de resíduos sólidos, porém, em relação à disposição final, ainda existe um déficit considerável, com mais de 145 mil toneladas de lixo, cerca de 30% do total, destinados para locais inadequados diariamente.

O tema da poluição, incluindo a causada pelos resíduos, faz parte de uma agenda mundial e é o principal tópico da Terceira Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, que acontecerá em Nairóbi, no Quênia, de 4 a 6 de dezembro. Como fórum decisório mundial de mais alto nível sobre questões ambientais, a assembleia reunirá governos, líderes empresariais, sociedade civil e outras partes interessadas em compartilhar ideias e se comprometer com ações contra a poluição.

Na ocasião, o novo relatório “Rumo a um planeta sem poluição“, do diretor-executivo da ONU Meio Ambiente, Erik Solheim, que traz um panorama atual de todos os continentes, permitirá examinar o que sabemos sobre a poluição e delinear elementos-chave de um quadro abrangente de ações para combatê-la.




Evento foi organizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo. Foto: ONU Meio Ambiente

“Os dados apresentados pela ONU Meio Ambiente mostram que, mesmo com algumas melhorias alcançadas nos últimos anos, cerca de 170 milhões de pessoas ainda estão expostas às consequências desse problema em decorrência dos graves impactos causados ao meio ambiente (solo, ar e água) e à saúde da população”, disse Carlos Silva Filho, diretor-presidente da ABRELPE e membro do Comitê Diretivo do Atlas de Resíduos.

Na apresentação dos dados, Jordi Pon também destacou que o relatório faz uma análise sobre a composição dos resíduos sólidos urbanos. A fração orgânica, por exemplo, representa mais da metade de todo resíduo descartado nas cidades latino-americanas, índice que varia bastante de acordo com a renda do país. “Enquanto em países de baixa renda, 75% do lixo descartado é proveniente de matéria orgânica, em países com renda mais elevada esse índice é de 36%”, comentou Pon.

As informações apresentadas mostram ainda que é comum encontrar resíduos perigosos no lixo doméstico, como baterias, equipamentos elétricos e eletrônicos, remédios vencidos, entre outros. Já a fração restante é composta pelos chamados resíduos secos, como metais, papéis, papelão, plásticos, vidro e têxteis. De modo geral, as iniciativas de reciclagem atingem o índice de 20% em determinadas regiões da América Latina, em grande parte graças à contribuição do setor informal.

Pon também observa que praticamente todos os países da região contam com disposições e normas legais para serem cumpridas pelos geradores e manipuladores de resíduos, bem como penalidades por descumprimento, mas o quadro institucional é fraco. “Isso cria um vácuo de responsabilidades governamentais, com poucas ações de acompanhamento e monitoramento, resultando, entre outras coisas, em uma aplicação deficiente da lei tanto no setor público quanto no privado”, explicou o coordenador da ONU Meio Ambiente.

Outro tópico abordado pelo estudo diz respeito aos níveis de investimento público e privado em gestão de resíduos, apontando que os mesmos não são suficientes para financiar a infraestrutura necessária para mitigar as principais deficiências, como ampliação da cobertura de coleta, baixas taxas de reciclagem e disposição final inadequada.

“O estudo mostra que o financiamento é uma questão fundamental para a melhoria e sustentabilidade dos mecanismos de gestão de resíduos, especialmente na América Latina e no Caribe, onde os modelos financiados por recursos municipais prevalecem e, em muitos casos, os custos dos serviços não são recuperados em sua totalidade”, disse Carlos Silva Filho, concluindo que “ainda não há uma consciência clara do fato de que o custo econômico dos impactos negativos causados pela gestão inadequada dos resíduos (o custo da inação) é maior do que o custo de investimento em um sistema adequado”.

Os dados apresentados fazem parte de um projeto da ONU Meio Ambiente, originado a partir do lançamento do Altas Global de Gestão de Resíduos em 2016, e incluem relatórios sobre a situação dos resíduos sólidos na América Latina e Caribe, Ásia, Ásia Central, África, Regiões Montanhosas e Pequenas Ilhas-estado (SIDS).



Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/11/2017




Autora: ecodebate
Fonte: ONU
Sítio Online da Publicação: ecodebate
Data de Publicação: 24/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/24/america-latina-e-caribe-despejam-30-de-seu-lixo-em-locais-inadequados/

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

'2017 será um dos anos mais quentes da história', diz ONU

O ano de 2017 será um dos anos mais quentes já registrados, disse Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, braço das Nações Unidas para o clima. O anúncio foi feito na abertura da COP 23, a conferência da ONU para o clima que começou nesta segunda-feira (6) em Bonn, na Alemanha.




Esse ano, continuou Taalas, deve figurar entre os três anos mais quentes da história, desde que se começaram os registros, no século XIX. "Os últimos três anos estiveram entre os três primeiros lugares em termos de registros de temperatura. Isso faz parte de uma tendência de aquecimento de longo prazo ", disse.


"Tivemos um clima fora do comum, incluindo temperaturas superiores a 50ºC na Ásia, furacões recorde no Caribe e no Atlântico e uma seca implacável na África Oriental", disse.


O ano de 2017 será o ano mais quente sem a influência do El Niño. As temperaturas em 2016 e, até certo ponto, 2015, também foram muito altas, mas foram impulsionadas por um El Niño excepcionalmente forte, diz a ONU.


Segundo a OMM, a temperatura média global de janeiro a setembro de 2017 foi de aproximadamente 1,1 °C acima da era pré-industrial. A entidade diz ainda que, embora os dados globais sobre a emissão de CO2 esse ano só vão estar disponíveis até o final de 2018, informações em tempo real indicam que os níveis de CO2, metano e óxido nitroso continuaram a aumentar em 2017.


Já o nível médio global do mar (GMSL), um dos melhores indicadores de mudanças climáticas, tem se mantido relativamente estável em 2017, semelhante aos níveis alcançados no final de 2015, diz a ONU. Essa mesma estabilidade não tem sido registrada com a temperatura, no entanto: segundo a OMM, elas estão a caminho de estar entre as três maiores registradas.




Pressão para novo acordo



A entidade espera que o anúncio sirva de incentivo para que se acelerem as negociações sobre a redução dos níveis de emissões de gases na COP 23.



"Essas descobertas destacam os riscos crescentes para as pessoas, as economias e o próprio tecido da vida na Terra se não conseguimos seguir os objetivos e as ambições do Acordo de Paris ", diz Patricia Espinosa, secretária executiva da ONU sobre Mudanças Climáticas.




Patrícia salienta que uma das missões da COP será aumentar o nível de ambições para que novas metas sejam acordadas, para além do Acordo de Paris, acordado na COP 21, em 2015. Na ocasião, 195 países ratificaram o acordo para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. O objetivo é que o aumento da temperatura não chegue a 2ºC em 2030, com esforços para que não se ultrapasse 1,5°C.


O desafio agora, no entanto, é o estabelecimento de medidas concretas para chegar até as metas; por isso, um dos objetivos da COP será finalizar o "Livro de Regras", com maiores detalhamentos sobre como países podem orquestrar maiores comprometimentos para reduzir as emissões de gases.


Também o primeiro-ministro do arquipélago Fiji, Frank Bainimarama, país que preside a conferência, disse à Reuters que vai pressionar para que países se comprometam com metas mais ambiciosas para combater o aquecimento global.





Os efeitos do aquecimento




De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), pesquisas recentes mostram que o risco geral de doença ou morte relacionada ao calor subiu de forma constante desde 1980, com cerca de 30% da população mundial vivendo agora em condições climáticas que produzem ondas de calor extremas prolongadas.


Entre 2000 e 2016, o número de pessoas vulneráveis expostas a eventos de ondas de calor aumentou aproximadamente 125 milhões, diz a entidade.


Em 2016, 23,5 milhões de pessoas foram deslocadas durante desastres relacionados ao clima. Em consonância com os anos anteriores, a maioria desses deslocamentos internos foi associada a inundações ou tempestades e ocorreu na região da Ásia-Pacífico.


Na Somália, foram relatados mais de 760 mil deslocamentos internos, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Autora: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 06/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2017-sera-um-dos-anos-mais-quentes-da-historia-diz-onu.ghtml

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Nova cepa de vírus da gripe aviária tem potencial para pandemias, diz pesquisa

Cientistas demonstraram que uma nova cepa do vírus da gripe aviária, o H7N9, identificada pela primeira vez em 2013 na China, é capaz de se replicar eficientemente nos pulmões de animais e são transmitidos facilmente através de gotículas respiratórias emitidas durante um espirro, por exemplo.


Os achados, segundo os pesquisadores, também indicam que o H7N9 está mais próximo de adquirir adaptações para ser transmitido entre humanos e, por isso, têm potencial pandêmico. Também são necessárias poucas cópias do vírus para que as infecções ocorram. Os achados foram publicados na revista "Cell Host & Microbe" na quinta-feira (19). Desde a primeira identificaçao do vírus, em 2013, um total de 1562 casos foram confirmados. Cerca de 40% das pessoas confirmadas com a infecção do vírus H7N9 da Ásia morreram. A maioria das infecções humanas com vírus H7N9 ocorreram após a exposição a aves e a maioria dos pacientes apresentou doença respiratória grave, como pneumonia.
"Até agora, não foi documentada transmissão sustentada de vírus H7N9 ou H5N1 entre seres humanos. No entanto, uma maior adaptação desses vírus a humanos pode resultar em vírus transmissíveis com potencial pandêmico", diz Yoshihiro Kawaoka, principal autor do estudo e pesquisador da Universidade de Tóquio e Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Kawaoka e sua equipe avaliaram a capacidade de replicação, patogenicidade e transmissibilidade da cepa H7N9 isolada em casos fatais em humanos. Eles demonstraram que o vírus se replicou de forma eficiente em células humanas, de camundongos, de furões e de primatas não-humanos. Eles viram também que a quantidade necessária de vírus para iniciar as infecções é pequena, o que aumenta o seu poder de transmissão. "O fato de que os animais expostos a gotas respiratórias sucumbiram às infecções sugere um aumento substancial na patogenicidade dos vírus H7N9 em mamíferos", pontua o pesquisador. Kawaoka e sua equipe também avaliaram a eficácia de medicamentos anti-influenza. Eles descobriram que os medicamentos apresentaram eficácia limitada contra esses vírus nos modelos animais.