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quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Varíola dos macacos: por que doença se espalha pelo mundo após ser endêmica por décadas na África



CRÉDITO,REUTERS
Legenda da foto,

Amostra de pele infectada com o vírus monkeypox


O vírus monkeypox, causador da doença conhecida popularmente como varíola dos macacos, é estudado há décadas e já foi detectado em pelo menos onze países africanos desde os anos 1970. Mas por que ele começou a se espalhar por outras partes do mundo justamente agora?


Até o momento, não existem respostas certeiras para essa pergunta. Mas os cientistas listam ao menos cinco hipóteses que ajudariam a entender porque a doença virou uma emergência de saúde pública internacional.


Entre os fatores levantados por especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, estão o descaso com doenças negligenciadas, o aumento da mobilidade de pessoas com o fim das restrições relacionadas à covid, a falta de imunidade da população contra os vírus dessa família, um padrão de transmissão e uma mistura de todos esses fatores.

'Sinais eram claros'


A virologista Clarissa Damaso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dedicou os últimos 35 anos de carreira a estudar os orthopoxvirus, uma família de agentes infecciosos da qual fazem parte o monkeypox e o causador da varíola humana, entre outros.


Ela também é assessora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e integra comitês sobre a pesquisa e as políticas públicas relacionadas a esses agentes infecciosos.


De acordo com a avaliação da cientista, era questão de tempo para que o espalhamento do monkeypox acontecesse.


"Uma hora ou outra uma situação dessas ia estourar. A questão é que não damos atenção aos indícios que vêm dos países menos desenvolvidos", analisa.


"E os sinais eram claros: o número de casos vinha aumentando pouco a pouco. Primeiro, por meio do contato do ser humano com animais infectados em áreas silvestres. Depois, nas regiões próximas das cidades maiores."


"Para completar, cada vez mais pessoas vão trabalhar ou passear nas áreas onde esse vírus é endêmico", completa.


"Vale lembrar que essa doença nunca desapareceu do radar, e já tivemos outros surtos menores, de poucos casos, registrados fora da África em anos recentes", concorda a infectologista Mirian Dal Ben, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.


Todo esse processo significa que o contato das pessoas com o monkeypox foi se tornando cada vez mais comum — até os casos começarem a ser "exportados" para outros continentes com mais frequência e gerarem as cadeias de transmissão observadas nos últimos três meses.

Hora errada

Damaso acrescenta um segundo fator que ajuda a entender a crise sanitária atual: ela se desenrola num momento em que a maioria das restrições relacionadas à pandemia de covid-19 foram completamente abandonadas pelos países.


"O surto de monkeypox acontece na hora errada, num período logo após a crise da covid, em que as pessoas se sentiram mais livres, foram se divertir e se aglomeraram", contextualiza a virologista.


Pelo que foi divulgado por autoridades no final de maio, a primeira leva de casos de monkeypox parece estar relacionada a festas que ocorreram na Espanha e na Bélgica.


Possivelmente, uma ou várias pessoas que participaram desses eventos estavam infectadas, tiveram contato com muita gente e passaram o vírus adiante.


Isso, por sua vez, criou cadeias de transmissão do patógeno na comunidade que, num cenário de aumento de viagens internacionais e encontros presenciais pós-covid, rapidamente se disseminou por cidades, países e continentes.



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Cientistas ainda não sabem responder com exatidão porque a monkeypox começou a se espalhar pelo mundo justamente agora


Mas isso ainda não responde completamente porque essa doença se espalhou justamente agora — e não em outros momentos do passado, quando deslocamentos, aglomerações e festas também aconteciam.


"Por que o monkeypox demorou tanto para afetar outros lugares? Isso ainda é um mistério para nós", admite o médico Alexandre Naime Barbosa, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.


Um vírus modificado?


Uma das primeiras hipóteses que ajudariam a explicar o surto atual seria alguma nova mutação do monkeypox, que o tornaria mais transmissível entre as pessoas, por exemplo.


O cenário, porém, é considerado muito improvável pelos especialistas. Este patógeno possui DNA como código genético, o que significa que ele é muito mais estável e carrega mecanismos internos para reparar erros genômicos — ao contrário do que acontece com o coronavírus, que é constituído de RNA e apresenta mutações numa frequência bem maior.


O sequenciamento genético de amostras colhidas de pacientes nas últimas semanas também ajuda a enfraquecer por ora essa teoria: o vírus em circulação agora não parece apresentar alterações significativas no genoma quando comparado a versões do patógeno analisadas em anos anteriores.


Damaso explica que o subtipo do monkeypox que está atuando em vários países tem uma menor letalidade e, apesar de não ter sofrido grandes mutações no código genético, pode ter adquirido uma espécie de "padrão de passagem".


Vale lembrar aqui que a principal forma de transmissão acontece por meio do contato direto e prolongado com as feridas características dessa doença — outras possibilidades de infecção são as gotículas de saliva (que podem carregar o vírus) e o compartilhamento de objetos de uso pessoal (como toalhas, roupas de cama, pratos, copos e talheres).

"Até o momento, a maioria dos casos está acontecendo em homens que fazem sexo com outros homens, e eles comumente apresentam lesões na região genital", descreve.


"O contato com essas feridas costuma ser mais intenso durante a relação sexual. A partir daí, o vírus é transmitido para um outro indivíduo, que também tende a manifestar os sintomas na região genital", complementa.


Ou seja: o padrão de passagem acontece por conta do contato próximo com as lesões, que no surto atual surgem com mais frequência na região genital. Assim, a pessoa infectada também desenvolve lesões nessa parte do corpo — e pode perpetuar o ciclo ao ter um contato mais íntimo com outros indivíduos.


Mas isso, claro, não descarta a relevância das outras formas de transmissão desse agente infeccioso que vão além da relação sexual, como o compartilhamento de objetos e as gotículas de saliva. Prova disso são os casos recentemente confirmados em crianças.

Proteção desatualizada?


A segunda hipótese que justificaria o espalhamento do monkeypox agora tem a ver com o despreparo das nossas células de defesa para lidar com essa família de vírus.


Isso porque os orthopoxvirus têm uma característica peculiar: se você já teve contato com um deles, fica relativamente bem protegido de ser infectado pelos outros. Trata-se de uma espécie de "imunidade cruzada".

E é justamente aí que entra a vacinação contra a varíola, uma doença causada pelo smallpox (também um orthopoxvirus) que foi completamente erradicada do planeta.


A aplicação das doses foi suspensa no mundo inteiro a partir do final dos anos 1970 — afinal, esse vírus deixou de circular entre nós e não representava mais uma ameaça.



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Legenda da foto,

Os integrantes da família orthopoxvirus oferecerem uma espécie de 'imunidade cruzada'


Alguns estudos revelam que as pessoas que foram vacinadas contra a varíola lá atrás, há mais de 40 anos, possuem alguma proteção contra o monkeypox.


O mesmo não acontece com a faixa etária mais jovem, que não recebeu esse imunizante na infância.


Não à toa, a grande maioria dos casos registrados nas últimas semanas acometeu justamente indivíduos que ainda não alcançaram a quarta década de vida.


Num artigo publicado no periódico Nature, a epidemiologista Raina MacIntyre, da Universidade New South Wales, na Austrália, explica que "a cada ano desde a erradicação do smallpox, a população com pouca ou nenhuma imunidade contra esse grupo de vírus [os orthopoxvirus] só aumentou".


Pode ser, portanto, que o número de indivíduos vulneráveis a esses agentes infecciosos se tornou suficientemente alto para que um surto de proporções internacionais se tornasse possível.

Ação em cascata


Por fim, não é exagero pensar que todos esses fatores, juntos com uma boa dose de acaso, possam ter contribuído para que o monkeypox se tornasse um problema global.


Ou seja: embora ainda não exista um consenso sobre as causas da emergência de saúde pública, a baixa na imunidade, a volta das aglomerações, o padrão de transmissão e a negligência com o vírus ajudam a entender e montar esse quebra-cabeças complexo.


"Mas ainda precisamos entender melhor tudo o que está acontecendo", resume Dal Ben.


Se o cenário é considerado nebuloso, existe uma clareza maior sobre o que pode ser feito para diminuir a probabilidade de infecção com esse vírus.


O primeiro passo é evitar as situações de maior risco, ficar atento aos sintomas e buscar a avaliação médica se eles aparecerem.


"Qualquer lesão que comece com um edema ou uma pequena vermelhidão e evolua para uma placa, tenha líquido, forme ferida e crostas, pode ser monkeypox", descreve Barbosa, que também é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


Essas manifestações podem aparecer no ânus, nos genitais, no rosto e nas mãos.


"A lesão também pode ser acne, herpes, herpes-zóster ou uma série de outras coisas. Mas, na dúvida, é importante procurar atendimento médico e fazer um teste", complementa.



CRÉDITO,REUTERS
Legenda da foto,

Alguns exemplos de lesões sugestivas de monkeypox


Caso o exame confirme a presença desse agente infeccioso, os profissionais de saúde recomendam fazer isolamento e evitar o contato próximo com outras pessoas até que as feridas estejam completamente cicatrizadas (mesmo a casquinha delas ainda carrega vírus).


Ao limitar a interação e o compartilhamento de objetos de uso pessoal, o paciente diminui o risco de transmitir o monkeypox adiante e evita a criação de novas cadeias de contágio na comunidade.


Embora o perfil de infectados até agora tenha se concentrado em gays, bissexuais e homens que fazem sexo com outros homens, a tendência é que a doença afete cada vez mais pessoas de outros grupos — isso aliás, é a evolução natural e esperada para esse surto, de acordo com especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Ainda falando em prevenção, alguns países como Reino Unido, Espanha e Estados Unidos já iniciaram campanhas de vacinação contra o monkeypox, mas ainda não há previsão de quando as primeiras doses devem chegar ao Brasil.

Por ora, não está claro se a camisinha ajuda a proteger contra esse vírus — embora o uso de preservativos continue a ser primordial para impedir a transmissão de várias infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como HIV, sífilis, gonorreia e algumas hepatites.


Na maioria dos casos de monkeypox, o quadro evolui bem e o paciente está completamente recuperado em duas a quatro semanas.


As mortes por essa doença são consideradas raras pelas autoridades em saúde.

Segundo o portal Our World In Data, o mundo já registrou 23,2 mil casos de monkeypox. Desses, 1,3 mil foram diagnosticados no Brasil.

- Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62398486




Autor: André Biernath - @andre_biernath
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: bbc
Data: 03/08/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62398486

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

África e América do Sul: um passado de conexões continentais

Um novo olhar sobre a história da formação geológica dos continentes. É o que revela o estudo que descobriu um novo grupo de mamíferos, indicando que América do Sul e África estiveram unidas através de pontes terrestres, por muito mais tempo do que se imaginava, há cerca de 60 milhões de anos – bem após a separação desses dois continentes e a formação do Oceano Atlântico, que se deu há 120 milhões de anos. A pesquisa foi desenvolvida pelo professor e zoólogo Leonardo Avilla, chefe do Laboratório de Mastozoologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), que vem desenvolvendo projetos com suporte do programa Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ; e pela bióloga Dimila Mothé, pesquisadora de Pós-Doutorado em Biodiversidade e Biologia Evolutiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bolsista Nota 10 da Fundação. Os resultados do estudo foram publicados no artigo "Out of Africa: a new Afrotheria lineage rises from extinct South American mammals", na revista científica suíça Frontiers Ecology and Evolution, de livre acesso.

O ponto de partida para a formulação dessa hipótese científica foi o reconhecimento de um novo grupo de mamíferos ungulados nativos sul-americanos, o Sudamericungulata. A árvore filogenética desses animais, elaborada por meio da análise morfológica de dentes (pela semelhança entre as cúspides e cristas dentárias) e os crânios, apontou que os Sudamericungulata são mais próximos de mamíferos exclusivos da África do que daqueles provenientes das Américas. Os pesquisadores verificaram que seus parentes mais próximos foram os Hiracoides (integrantes do grupo Afrotheria, de origem africana). “Depois da separação progressiva dos continentes, surgiram os Hyraxes ou Hiracoides, na África, e os Sudamericaungulatas na América do Sul”, contextualizou Dimila.

O parentesco direto entre esses mamíferos sul-americanos e africanos sugere que havia conexões via pontes terrestres entre os dois continentes, mais duradouras do que se sabia. “Eu e o professor Leonardo Avilla investigamos, a partir da filogenia, as relações evolutivas desses grupos de mamíferos pré-históricos da América do Sul, comparando com grupos de mamíferos dos outros continentes e alguns grupos da própria América do Sul. Nesse caso, notamos uma relação evolutiva mais próxima com alguns grupos da África. Na ancestralidade deles, no início da era Cenozoica e final da Mesozoica, ou seja, de 70 a 50 milhões de anos atrás, eles tinham uma relação de parentesco muito próxima”, explicou Dimila. “Não há descendentes vivos dos Sudamericungulata e, talvez por isso, eles foram sub-representados nos estudos acadêmicos, que desconheciam a relação filogenética deles dentro dos mamíferos placentários”, completou.



Dimila Mothé e Leonardo Avilla com um fóssil de Proboscidea, mamífero do clado Afrotheria,
durante visita ao Museu de História Natural de El Salvador (Foto: Divulgação)


O estudo propõe, assim, uma alternativa à hipótese tradicional da origem de alguns grupos de mamíferos sul-americanos, conhecida como Dispersão Transatlântica, segundo a qual fragmentos de terra teriam se soltado da África, formando balsas naturais que flutuaram pelo Oceano Atlântico até chegar à América do Sul, trazendo consigo esses grupos de mamíferos, incluindo os Sudamericungulata. De acordo com Avilla, essa hipótese seria muito improvável. “A balsa deveria, necessariamente, conter uma quantidade muito grande de indivíduos de cada espécie de cada grupo de mamíferos, que permitissem uma variabilidade genética entre eles, para garantir a geração e o estabelecimento de descendentes viáveis no novo continente, sem o problema da consaguinidade”, afirmou Avilla.

Os resultados evolutivos do estudo indicam grande possibilidade de que existiram pontes terrestres e intermitentes, ligando os dois continentes, que permitiam a passagem dos animais e a sua posterior evolução e adaptação ecológica. “As pontes teriam sido intermitentes devido ao movimento dinâmico das placas tectônicas do assoalho do Oceano Atlântico, mas elas existiram por um bom período de tempo, suficiente para garantir a passagem de diversas espécies. O ancestral dos grupos africanos e sul-americanos viveu provavelmente nessas conexões terrestres, que quando se romperam deixaram parte dos animais em cada continente", explicou o zoólogo.

Avilla destacou que há muito tempo os cientistas não descreviam uma linhagem nova de mamíferos. “A partir dessa descrição conseguimos levantar essa hipótese das conexões terrestres, que vamos continuar pesquisando”, disse ele. “Existiam hipóteses anteriores na literatura de que todos os mamíferos da América do Sul seriam um grupo só, mas, nesse estudo, mostramos que houve histórias evolutivas diferentes, mesmo que os mamíferos da América do Sul tenham sido todos encontrados aqui”, acrescentou Dimila.

Os Sudamericaungulatas eram animais herbívoros, com diversas linhagens, e se extinguiram há cerca de 11 mil anos. Todos tinham cascos e eram mamíferos placentários, e nenhum possuía chifres. A última espécie a desaparecer foi o Toxodon, mamífero da Idade do Gelo. Em uma expedição, Charles Darwin encontrou fósseis deste animal na América do Sul e os enviou para a Inglaterra, onde foram descritos pelo naturalista Richard Owen. “Em geral, eles tinham médio ou pequeno porte. Há registros de alguns Sudamericaungulatas maiores, chegando a pesar uma tonelada. Essa variação de tamanho ocorreu de acordo com a seleção natural e a pressão seletiva do meio ambiente”, disse Dimila.

A publicação do artigo só foi possível a partir do conhecimento adquirido por Avilla e Dimila em longos anos de dedicação à pesquisa. “A Dimila sempre estudou mamíferos de origem africana e que viveram aqui na América do Sul, e eu, os mamíferos da América do Sul. Estudo os Sudamericaungulata desde o início do meu Doutorado, em 2002, que defendi no Museu Nacional. Unimos nossos conhecimentos nesse projeto. Daí podemos ver um exemplo da importância dos investimentos em pesquisa a longo prazo, em todas as etapas da pós-graduação, para alcançarmos resultados científicos interessantes e impactantes”, disse Avilla, que coordena o projeto "Biogeorio: Biodiversidade e Aspectos Biogeográficos Transatlânticos da América do Sul e África durante o Cenozoico", contemplado pelo edital Apoio a Grupos Emergentes de Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro, da FAPERJ. “A Ciência se faz com publicações e observações das evidências e essa é nossa contribuição para o debate da filogenia dos mamíferos”, concluiu Dimila.





Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 30/09/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4326.2.0

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

África e América do Sul: um passado de conexões continentais

Um novo olhar sobre a história da formação geológica dos continentes. É o que revela o estudo que descobriu um novo grupo de mamíferos, indicando que América do Sul e África estiveram unidas através de pontes terrestres, por muito mais tempo do que se imaginava, há cerca de 60 milhões de anos – bem após a separação desses dois continentes e a formação do Oceano Atlântico, que se deu há 120 milhões de anos. A pesquisa foi desenvolvida pelo professor e zoólogo Leonardo Avilla, chefe do Laboratório de Mastozoologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), que vem desenvolvendo projetos com suporte do programa Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ; e pela bióloga Dimila Mothé, pesquisadora de Pós-Doutorado em Biodiversidade e Biologia Evolutiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bolsista Nota 10 da Fundação. Os resultados do estudo foram publicados no artigo "Out of Africa: a new Afrotheria lineage rises from extinct South American mammals", na revista científica suíça Frontiers Ecology and Evolution, de livre acesso.



O ponto de partida para a formulação dessa hipótese científica foi o reconhecimento de um novo grupo de mamíferos ungulados nativos sul-americanos, o Sudamericungulata. A árvore filogenética desses animais, elaborada por meio da análise morfológica de dentes (pela semelhança entre as cúspides e cristas dentárias) e os crânios, apontou que os Sudamericungulata são mais próximos de mamíferos exclusivos da África do que daqueles provenientes das Américas. Os pesquisadores verificaram que seus parentes mais próximos foram os Hiracoides (integrantes do grupo Afrotheria, de origem africana). “Depois da separação progressiva dos continentes, surgiram os Hyraxes ou Hiracoides, na África, e os Sudamericaungulatas na América do Sul”, contextualizou Dimila.

O parentesco direto entre esses mamíferos sul-americanos e africanos sugere que havia conexões via pontes terrestres entre os dois continentes, mais duradouras do que se sabia. “Eu e o professor Leonardo Avilla investigamos, a partir da filogenia, as relações evolutivas desses grupos de mamíferos pré-históricos da América do Sul, comparando com grupos de mamíferos dos outros continentes e alguns grupos da própria América do Sul. Nesse caso, notamos uma relação evolutiva mais próxima com alguns grupos da África. Na ancestralidade deles, no início da era Cenozoica e final da Mesozoica, ou seja, de 70 a 50 milhões de anos atrás, eles tinham uma relação de parentesco muito próxima”, explicou Dimila. “Não há descendentes vivos dos Sudamericungulata e, talvez por isso, eles foram sub-representados nos estudos acadêmicos, que desconheciam a relação filogenética deles dentro dos mamíferos placentários”, completou.


Dimila Mothé e Leonardo Avilla com um fóssil de Proboscidea, mamífero do clado Afrotheria,
durante visita ao Museu de História Natural de El Salvador (Foto: Divulgação)


O estudo propõe, assim, uma alternativa à hipótese tradicional da origem de alguns grupos de mamíferos sul-americanos, conhecida como Dispersão Transatlântica, segundo a qual fragmentos de terra teriam se soltado da África, formando balsas naturais que flutuaram pelo Oceano Atlântico até chegar à América do Sul, trazendo consigo esses grupos de mamíferos, incluindo os Sudamericungulata. De acordo com Avilla, essa hipótese seria muito improvável. “A balsa deveria, necessariamente, conter uma quantidade muito grande de indivíduos de cada espécie de cada grupo de mamíferos, que permitissem uma variabilidade genética entre eles, para garantir a geração e o estabelecimento de descendentes viáveis no novo continente, sem o problema da consaguinidade”, afirmou Avilla.

Os resultados evolutivos do estudo indicam grande possibilidade de que existiram pontes terrestres e intermitentes, ligando os dois continentes, que permitiam a passagem dos animais e a sua posterior evolução e adaptação ecológica. “As pontes teriam sido intermitentes devido ao movimento dinâmico das placas tectônicas do assoalho do Oceano Atlântico, mas elas existiram por um bom período de tempo, suficiente para garantir a passagem de diversas espécies. O ancestral dos grupos africanos e sul-americanos viveu provavelmente nessas conexões terrestres, que quando se romperam deixaram parte dos animais em cada continente", explicou o zoólogo.

Avilla destacou que há muito tempo os cientistas não descreviam uma linhagem nova de mamíferos. “A partir dessa descrição conseguimos levantar essa hipótese das conexões terrestres, que vamos continuar pesquisando”, disse ele. “Existiam hipóteses anteriores na literatura de que todos os mamíferos da América do Sul seriam um grupo só, mas, nesse estudo, mostramos que houve histórias evolutivas diferentes, mesmo que os mamíferos da América do Sul tenham sido todos encontrados aqui”, acrescentou Dimila.

Os Sudamericaungulatas eram animais herbívoros, com diversas linhagens, e se extinguiram há cerca de 11 mil anos. Todos tinham cascos e eram mamíferos placentários, e nenhum possuía chifres. A última espécie a desaparecer foi o Toxodon, mamífero da Idade do Gelo. Em uma expedição, Charles Darwin encontrou fósseis deste animal na América do Sul e os enviou para a Inglaterra, onde foram descritos pelo naturalista Richard Owen. “Em geral, eles tinham médio ou pequeno porte. Há registros de alguns Sudamericaungulatas maiores, chegando a pesar uma tonelada. Essa variação de tamanho ocorreu de acordo com a seleção natural e a pressão seletiva do meio ambiente”, disse Dimila.

A publicação do artigo só foi possível a partir do conhecimento adquirido por Avilla e Dimila em longos anos de dedicação à pesquisa. “A Dimila sempre estudou mamíferos de origem africana e que viveram aqui na América do Sul, e eu, os mamíferos da América do Sul. Estudo os Sudamericaungulata desde o início do meu Doutorado, em 2002, que defendi no Museu Nacional. Unimos nossos conhecimentos nesse projeto. Daí podemos ver um exemplo da importância dos investimentos em pesquisa a longo prazo, em todas as etapas da pós-graduação, para alcançarmos resultados científicos interessantes e impactantes”, disse Avilla, que coordena o projeto "Biogeorio: Biodiversidade e Aspectos Biogeográficos Transatlânticos da América do Sul e África durante o Cenozoico", contemplado pelo edital Apoio a Grupos Emergentes de Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro, da FAPERJ. “A Ciência se faz com publicações e observações das evidências e essa é nossa contribuição para o debate da filogenia dos mamíferos”, concluiu Dimila.






Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 30/09/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4326.2.0

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Os sete maiores países da África, artigo de José Eustáquio Diniz Alves





Os sete maiores países da África, em termos demográficos, no ano de 2018, eram Nigéria (196 milhões de habitantes), Etiópia (108 milhões), Egito (99 milhões), República Democrática do Congo (84 milhões), Tanzânia (59 milhões), África do Sul (57 milhões) e Quênia (51 milhões).

Mas como mostra o gráfico acima, com dados da projeção média da Divisão de População da ONU, esta ordem vai mudar nos próximos 40 anos. A Nigéria continuará sendo o país mais populoso da África e será o terceiro mais populoso do mundo até 2045, quando terá 371 milhões de habitantes. A Etiópia, com 179 milhões em 2045, continuará sendo o segundo país africano em termos populacionais. A República Democrática do Congo alcançará o terceiro lugar (177 milhões) em 2045, ultrapassando o Egito que deverá ficar com 146 milhões (quarto lugar). A Tanzânia com 123 milhões ficará em quinto lugar. O Quênia, com 88 milhões de habitantes em 2045 ficará em sexto lugar e a África do Sul, com 71 milhões, cairá para o sétimo lugar. Em 2015, os 7 países, em conjunto, tinham uma população de 607 milhões e devem saltar para 1,16 bilhão de habitantes em 2045.

Em termos econômicos, segundo dados do FMI, em poder de paridade de compra (ppp), o país que tinha o maior Produto Interno Bruto (PIB) do continente, em 1980, era a África do Sul (US$ 135 bilhões). Em segundo lugar vinha o Egito (US$ 91 bilhões). O FMI não tem dados para a Nigéria na década de 1980 (mas provavelmente ela estava em terceiro lugar). A RD Congo vinha em quarto lugar com US$ 20 bilhões. O Quênia (com US$ 16 bilhões) estava em quinto, a Tanzânia com 11 bilhões estava em sexto e a Etiópia com US$ 10,7 bilhões estava em sétimo lugar. Em 1990 esta ordem não tinha mudado.

Mas em 2020, o FMI aponta o Egito em primeiro lugar, com PIB de US$ 1,5 trilhão, a Nigéria em segundo (US$ 1,3 trilhão) e a África do Sul, com US$ 857 bilhões em terceiro lugar. Em quarto lugar, com PIB de US$ 271 bilhões, aparece a Etiópia (que em 1980 estava em sétimo lugar). A Etiópia é, ao longo dos anos 2000, o país com maior crescimento econômico do continente africano e pode ultrapassar a África do Sul nos próximos 20 anos. Em quinto lugar a Tanzânia (US$ 209 bilhões), em sexto o Quênia com PIB de US$ 206 bilhões e em sétimo a RD do Congo com somente US$ 82 bilhões. No conjunto, os sete maiores países da África terão um PIB de US$ 4,4 trilhões em 2020 (equivalente ao PIB da Indonésia).






O país com a maior renda per capita é a África do Sul, que manteve um nível acima de US$ 10 mil durante quase todo o período entre 1980 e 2020, mas teve uma renda praticamente estagnada e deve ser ultrapassada pelo Egito em 2020, com renda pouco acima de US$ 12 mil (o Brasil deve ter uma renda per capita de US$ 15 mil em 2020). Em terceiro lugar vem a Nigéria, com renda entre US$ 6 mil e US$ 5 mil na última década (mas com viés de baixa). Em quarto e quinto lugares aparecem o Quênia (US$ 3,5 mil) e a Tanzânia (US$ 3,4 mil), em 2020. Em sexto lugar está a Etiópia com renda per capita de US$ 2,4 mil, em 2020 (embora seja o país que apresenta o maior crescimento da renda per capita). Por último, aparece a República Democrática do Congo com somente US$ 741 mil, em 2020.

Em geral, os países com maiores taxas de crescimento demográfico são os que apresentam menor crescimento da renda per capita, com exceção da África do Sul, que apresenta as menores taxas de crescimento, tanto da população, quanto da economia. O melhor desempenho nas duas últimas décadas é da Etiópia, que é chamada a “China da África”. A República Democrática do Congo tem o pior desempenho e é claramente um país preso na armadilha da extrema pobreza. Quênia e Tanzânia também são países presos à armadilha da pobreza e a Nigéria é o país com o maior número absoluto de pessoas em situação de pobreza e de extrema pobreza.





Dos sete maiores países da África, nota-se uma tendência de alto crescimento demográfico (com exceção da África do Sul) e de baixo crescimento econômico (com exceção da Etiópia nas duas últimas décadas). A população destes sete países vai, praticamente, dobrar até 2045, trazendo sérios desafios para a redução da pobreza e para a conservação do meio ambiente. A África do Sul e o Egito lutam para atingir o estágio de renda média, enquanto os demais países lutam para sair da pobreza e a República Democrática do Congo luta para abandonar a situação de extrema pobreza.


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/04/2019




Autor: José Eustáquio Diniz Alves
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 05/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/05/os-sete-maiores-paises-da-africa-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O avesso da história: da África ao Brasil afrodescendente

“Até que os leões inventem suas histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” Não é por acaso que o provérbio africano já está logo na página de abertura do livro História da África e do BrasilAfrodescendente (Ed. Pallas, 407 p., 2017). Faz sentido. Para a autora, Ynaê Lopes dos Santos, professora adjunta do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDoc), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a frase ilustra o enfoque com que procurou contar a história nos dois lados do Atlântico. Como explica a autora, história é construção. “Portanto, ao se mostrar a possibilidade de outros olhares, também se abre a perspectiva de novos enfoques.”

No caso da África, dada a tradição de oralidade de suas diversas culturas, os historiadores daquele continente precisaram se valer de estudos arqueológicos, linguísticos e antropológicos para traçar uma produção historiográfica que não fosse eurocêntrica. Foi nessa produção mais recente que Ynaê concentrou suas pesquisas. “Adotei no livro uma abordagem paradidática, para possibilitar a leitura por um público mais amplo e também para estabelecer pontes entre a história africana e a do Brasil, já que para cá vieram milhões de escravizados daquele continente.”

O livro foi pensado a partir da obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas de Ensino Fundamental e contou com o apoio de um Auxílio Básico à Pesquisa (APQ 1), da FAPERJ. “Procurei diminuir o hiato entre o que se produz na Academia e o que era ensinado nos colégios. Afinal, o Brasil é um país cuja história foi construída por milhares de africanos e seus descendentes, homens e mulheres que durante muito tempo tiveram suas vidas e trajetórias pouco contadas ou totalmente silenciadas. Ampliar o conhecimento sobre esse passado é também uma forma de entendermos melhor o mundo e a nós mesmos. E tudo isso ajuda a construir a identidade de muitos estudantes – sobretudo os afrodescendentes – a partir de lastros históricos”, acrescenta Ynaê.


Os diversos tipos físicos dos diferentes povos africanos trazidos como escravos para o Brasil (Reprodução: Debret, Kingsley, Morel, Reclus e Rugendas)


Na época em que lecionava para alunos do Ensino Fundamental, Ynaê percebia a enorme confusão quando o assunto era a África. “A maioria vê como uma coisa só, e não como um continente com inúmeros países. Eles conhecem o Egito, mas têm dificuldade, por exemplo, em situá-lo no norte da África.” No livro, ela procura desfazer diversos desses mitos, com mapas e fotos. Para começar, ela enfatiza que nos mais de 30 milhões de km2 daquele continente – um território quase três vezes maior do que a Europa –, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), era possível contar, em 2015, mais de um bilhão de pessoas distribuídas por 55 países independentes.

Outro mito recorrente seria “uma maior facilidade” dos africanos em aceitar a escravidão já que muitas sociedades daquele continente a praticavam. Ela explica as enormes diferenças entre a escravidão moderna, como a que se deu não só no Brasil, mas em vários outros países das Américas até o século XIX, e a praticada nas sociedades africanas.

“Na escravidão moderna, a produção econômica, com suas plantações de produtos para exportação, dependia do trabalho escravo para funcionar, enquanto na África, o escravo era consequência de guerras ou conflitos internos e sua atuação era auxiliar o dono na roça e nos trabalhos domésticos. Mas, principalmente, não há mercado, o escravo não era considerado uma mercadoria, como para os europeus que atuavam no tráfico negreiro”, esclarece. A resistência à escravização ainda no continente africano também foi intensa. Caçados por povos inimigos ou por europeus, habitantes de aldeias inteiras fugiam para o interior. É célebre o caso da rainha Nzinga, do reino de Ndongo, na África Centro-Ocidental, que lutou bravamente contra os portugueses e ficou conhecida como uma grande guerreira.

Os que acabavam capturados e vendidos aos europeus tinham pela frente a longa travessia do chamado Calunga Grande, o oceano Atlântico. A viagem, que podia levar de 25 dias a dois ou três meses, dependendo do porto de destino, era um tormento a mais. Além das crenças, para muitos desses povos, de que o mar era a separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, eles vinham acomodados nos porões, em espaços que muitas vezes tinham apenas um metro de altura, o que só lhes permitia ficar sentados, enfileirados, um entre as pernas do seguinte, com permissão para subir ao convés para tomar sol, durante um breve intervalo no dia. O resultado era que boa parte dessa carga humana morria pelo caminho.


Para Ynaê Santos, a luta contra a discriminação está longe de acabar (Fonte: Divulgação)


Uma vez no Brasil, esses africanos e seus descendentes tinham diante de si uma existência de trabalho, fosse nas plantações de cana-de-açúcar, na mineração, no plantio do algodão ou do café. Mas apesar das jornadas que variavam de 12 a 18 horas, alguns escravos aprenderam a negociar com seus senhores melhores condições de vida e mais espaços de autonomia, para, por exemplo, plantar sua própria roça e melhorar a alimentação. Com isso, às vezes eles conseguiam um pequeno excedente para vender e guardar o dinheiro obtido para no futuro comprar a sonhada alforria. “Essa acabou se tornando uma prática comum nos engenhos de açúcar e fazendas de café, já que também era um negócio vantajoso para os senhores. Tornava-se um incentivo para os escravos trabalharem com maior eficiência e diminuía a possibilidade de fuga, já que eles precisariam pensar duas vezes antes de abandonar suas pequenas plantações”, fala a autora.

Nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro, além do trabalho doméstico, os escravos eram alugados para realizar uma série variada de tarefas. Eram os escravos de ganho, que ofereciam seus serviços pelas ruas e pelo comércio em troca de pagamento, que em parte era entregue a seu senhor. Fosse na estiva, junto ao porto, trabalhando como ferreiros, reparando o calçamento das ruas, fazendo a limpeza urbana ou vendendo de galinhas a doces e angu, a população escrava na cidade era numerosa, o que costumava chamar a atenção de viajantes estrangeiros.

O fato é que entre os séculos XVI e XIX, a resistência à escravidão se manifestou de diversas formas, seja fazendo "corpo mole" nas plantações, danificando ferramentas e máquinas de trabalho, como as engrenagens de uma casa de engenho, por exemplo. Além do enorme prejuízo pelo conserto do equipamento, isso também significava vários dias de trabalho parado. Eram atitudes arriscadas e, portanto, raras, já que se descoberto, o castigo era violento, como forma de exemplo para os demais. As fugas também foram frequentes, fosse como forma de negociar melhores condições de trabalho ou mesmo para conseguir juntar-se aos mocambos ou quilombos e viver longe do cativeiro. Embora o Quilombo dos Palmares, na Capitania de Pernambuco, tenha se tornado o mais conhecido e um dos mais duradouros, a verdade é que os quilombos se multiplicaram por todo o império. No Rio de Janeiro, também ficou conhecido o Quilombo das Camélias, no que mais tarde seria conhecido como o bairro do Leblon.

“A assinatura da Lei Áurea, em 1888, apenas acabou com o cativeiro no Brasil, mas não propôs nem ofereceu alternativas para os milhares de ex-escravos que tinham obtido a liberdade”, afirma Ynaê. Da mesma forma, a proclamação da República, um ano mais tarde, também não significou qualquer mudança para os negros. “Na realidade, o novo projeto de Brasil defendido pelos republicanos entendia que a população negra era sinônimo de atraso. Para se tornar uma nação poderosa, era preciso que sua população fosse branca”, continua. Para isso, a ideia era branquear o país com levas de migrantes europeus, política que vigorou nos primeiros anos da República.

Mesmo enfrentando um enorme preconceito, alguns trabalhadores negros conseguiram se incluir no competitivo mercado de trabalho das principais cidades brasileiras, em fábricas ou em empregos informais. Alguns deles conseguiram se destacar, o que possibilitou a formação de algumas poucas famílias de classe média. Para discutir a discriminação e pensar alternativas para melhorar as condições de vida dos afro-brasileiros, trabalhadores e intelectuais negros criaram associações, grêmios, clubes e jornais. Em 1931, a Frente Negra Brasileira foi criada com o objetivo de integrar a população negra em pé de igualdade com o restante da sociedade. Rapidamente, a ela se associaram cerca de cem mil integrantes pelo País. Foi assim até 1938, quando a Frente Negra e todas as publicações da imprensa negra foram fechadas durante a ditadura Vargas.

A efervescência dos anos 1960 trouxe à tona os diferentes movimentos libertários, entre eles o Black Power americano, o reggae jamaicano e as lutas anticolonialistas na África. Os reflexos no Brasil se fizeram sentir nas décadas seguintes, com o surgimento de várias organizações de Movimento Negro pelo País, ao longo dos anos 1970 e 1980. “Embora seja inegável que inúmeras conquistas tenham sido alcançadas, como a configuração do racismo como crime inafiançável ou a lei de cotas para o ingresso de negros na universidade – também alvo de enorme polêmica –, essa luta ainda está longe de acabar”, conclui.



Autor: Vilma Homero
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data de Publicação: 27/04/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3557.2.0

terça-feira, 3 de abril de 2018

A enorme fenda que pode separar o Chifre da África do resto do continente



A estrada que liga as cidades quenianas de Narok e Nairobi foi atravessada pela fenda que se abriu no mês passado no sudoeste do país (Foto: Thomas Mukoya/Reuters)

Em Mai Mahiu, um pequeno vilarejo rural no sudoeste do Quênia, a 50 km da capital, Nairobi, ocorrem há algumas semanas chuvas intensas, inundações e tremores. Mas, em 18 de março, algo estranho aconteceu: a terra começou a se abrir.

"Minha mulher começou a gritar para os vizinhos, pedindo ajunda para tirar nossos pertences de casa", contou Eliud Njoroge à agência de notícias Reuters.

Desde então, a fenda no piso de cimento de sua casa não parou de crescer, fazendo com que a família de Njoroge e muitas outras fossem evacuadas.

"As fendas correm quase em linha reta, então, dá para projetar para onde vão. Se você vê uma vindo em sua direção, você sai dali correndo", disse o geólogo David Adede à Reuters.

A enorme fissura já tem quilômetros de comprimento e alguns metros de largura. Ela está ligada a uma falha tectônica conhecida como Vale do Rift, ou Vale da Grande Fenda, na África Ocidental.

Segundo os geólogos, esse é um sinal de que, daqui a dezenas de milhões de anos, a África pode ser separada em duas.



A fissura já levou a evacuações de zonas rurais no sudoeste do Quênia e seguirá se expandindo pelo continente (Foto: Thomas Mukoya/Reuters)


África sem o Chifre


Assim como ocorreu com a América do Sul, separada da África há 138 milhões de anos, os geólogos estimam que chegará um momento em que o Chifre da África também se desprenderá do continente.

O Vale da Grande Fenda se estende por mais de 3 mil km, "desde o Golfo de Adén, no norte, até o Zimbábue, no sul, dividindo a placa africana em duas partes iguais", afirma a geóloga Lucía Pérez Díaz na revista científica The Conversation.

A pesquisadora do Grupo de Investigação de Falhas Dinâmicas da universidade Royal Holloway defende que "a atividade ao longo da parte oriental do Vale da Grande Fenda, que corre ao longo da Etiópia, Quênia e Tanzânia, tornou-se evidente quado a grande fissura apareceu repentinamente no sudoeste do Quênia".

Para Pérez Díaz, a fenda é única no planeta, porque permite observar as diferentes etapas de seu processo de fissura ao vivo.

A fratura mais interessante, escreve, começou na região de Afar, no norte da Etiópia, há cerca de 30 milhões de anos. Desde então, está se propagando rumo ao sul, na direção do Zimbábue, a uma média de 2,5 a 5 centímetros por ano.

Atualmente em Afar, a camada exterior sólida da Terra, chamada de litosfera, tem sido reduzida a ponto de a ruptura ser quase completa.

Quando a quebra estiver completa, detalha Pérez Díaz, um novo oceano começará a se formar e, "em um período de dezenas de milhões de anos, o leito marinho avançará ao longo de toda a fenda".

"O oceano inundará e, como resultado, o continente africano ficará menor, e haverá uma grande ilha no Oceano Índico composta por partes da Etiópia, Somália, incluindo o Chifre da África", afirma.


Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 02/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/a-enorme-fenda-que-pode-separar-o-chifre-da-africa-do-resto-do-continente.ghtml

sexta-feira, 2 de março de 2018

Por que um dos maiores lagos do mundo já perdeu 90% de sua água em 4 décadas




Antes de começar a secar, o lago Chade era como uma espécie de mar interno na África (Foto: Getty Images)

Tratava-se do sexto lago maior do mundo e, nas fotos de satélite, chamava a atenção a intensidade da cor azul que o identificava.

Essa é descrição feita por Mary Harper, editora da BBC África, do passado do hoje agonizante lago Chade, que até o início dos anos 70 era como um mar dentro do continente.

Hoje, o lago compartilhado por Níger, Nigéria, Chade e Camarões é como uma imensa colagem de grandes poças em meio a grandes extensões de terra.


"Os povoados e cidades que antes contornavam a margem agora estão separados por hectares de desertos", diz Harper.




Mapa mostra a mudança no lago Chade entre 1972 e 2001 (Foto: Unep)

A razão dessas mudanças geográficas é que o lago Chade perdeu entre 80% e 90% de sua superfície nas últimas quatro décadas.

A essa crise se soma a violência do grupo radical islâmico Boko Haram, que atinge os quatro países que rodeiam o lago.

Nesta semana, representantes dos governos de 12 países e organizações como o Banco Mundial estão reunidos na Conferência Internacional do Lago Chade (ICLC), em Abuja, na Nigéria, para discutir formas de salvá-lo.



Sem água e sem pesca



O lago era a principal fonte de água do Cinturão do Sahel, uma área de 5 mil km que corta toda a África, indo do oceano Atlântico ao mar Vermelho e que serve de transição entre o deserto do Saara e a savana africana.



Nos anos 60, o lago ocupava uma área de 25 mil km² e tinha 135 espécies de peixes, segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura). Mas, nos anos 80, sua superfície foi reduzida a 2,5 mil Km², 10% de seu tamanho original.


Mesmo que em 2013 as chuvas na região tenham registrado um aumento excepcional, sua superfície aumentou apenas 5 mil km², 20% do que já foi, segundo a ICLC.


Um estudo publicado na revista científica Environmental Research Letters em 2011 e entidades como a ONU assinalam que a perda de volume é superior a 90%.


Essa situação afeta cerca de 40 milhões de pessoas que dependem do lago para obter água potável, pescar e cultivar as terras a seu redor.


A seca, dizem os organizadores da ICLC, provocou a perda de pastagens e o início da migração para a savana da Guiné.


Mas quais são as causas dessa situação tão dramática?




Lago chegou a ter mais de 130 espécies de peixes; a pescaria é uma das únicas fontes de renda e de alimentação para muitos que vivem perto dele (Foto: Getty Images)



Uma pergunta, algumas respostas



Não há uma só causa para o desaparecimento do lago.


Ele está sumindo devido ao manejo insustentável da água para o consumo humano e animal e também pela mudança climática.


Um estudo publicado na Environmental Research Letters atribui o desastre à tendência do lago em se dividir em outros menores em certas épocas e à extração de água para a irrigação, o que impede que ele volte a encher totalmente novamente.



A construção de represas para projetos hidrelétricos nos rios que o alimentam também teve efeito devastador. Além disso, a população local diz que a quantidade de chuvas diminuiu muito desde os anos 1970.


Outra das razões da tragédia é uma má aplicação da legislação ambiental, segundo o Banco Mundial.


A Conferência do Chade acrescenta que "os mais de dois milhões de deslocados por causa da insurgência do Boko Haram, que estão reunidos nas margens, aumentam a pressão sobre o lago".


O extremismo e o deslocamento massivo de gente ali têm sido qualificados como a "crise mais ignorada do mundo". A ONU estima que quase 11 milhões de pessoas necessitem de ajuda humanitária por causa desse conflito.


Alertas




Lago Chade era a principal fonte de água do Cinturão do Sahel, uma área de extensão de 5 mil Km² (Foto: Getty Images)


Há pelo menos 15 anos as autoridades estão falando sobre a crise do lago Chade.


"É um fato que o lago está em perigo. É verdade que, se não fizermos nada a respeito, ele se transformará em história", disse em 2004 o então presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo.


A Unesco informou que apresentará na ICLC um projeto para "preservar os oásis que restaram e evitar que eles sequem" e para impulsionar atividades econômicas ali, como a produção de uma alga chamada spirulina.


As pessoas que moram ao redor do lago Chade esperam que não seja tarde demais.



Autor: BBC
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 02/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/por-que-um-dos-maiores-lagos-do-mundo-ja-perdeu-90-de-sua-agua-em-4-decadas.ghtml

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

UFRJ e FAPERJ realizam workshop sobre a criação do AIR Center



Na mesa de abertura, a partir da esq.: José Carlos Pinto, Vieiralves de Castro, Manuel Heitor e Roberto Leher (Foto: Beatriz Correa)

Um workshop realizado no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nesta terça e quarta-feira, 20 e 21 de fevereiro, colocou em debate novos conhecimentos sobre mudanças climáticas e questões relacionadas ao oceano Atlântico. Organizado pela UFRJ e pela FAPERJ, o evento Rio 2018 Atlantic Interactions representou um primeiro passo para a instalação de um polo do Atlantic International Research Center (AIR Center) no estado do Rio de Janeiro. A iniciativa promove o monitoramento do oceano, conectando tecnologias de águas profundas a tecnologias espaciais por meio de uma cooperação global entre América Latina, Europa, África e Estados Unidos.


Na cerimônia de abertura, na terça, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, Manuel Frederico Tojal de Valsassina Heitor, fez uma apresentação sobre os principais pontos do programa. Estavam presentes Paulo Ferrão, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal (FCT); Roberto Leher, reitor da UFRJ; José Carlos Pinto, diretor do Parque Tecnológico da UFRJ; Ricardo Vieiralves de Castro, presidente da FAPERJ, Augusto C. Raupp, subsecretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro; Andrei Polejack, coordenador geral de Oceanos, Antártida e Geociências do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC); entre outros participantes.


À ocasião, o presidente da FCT de Portugal, Paulo Ferrão, e o presidente da FAPERJ, Ricardo Vieiralves de Castro, assinaram um memorando para o financiamento de recursos humanos no Rio de Janeiro e em Portugal para a realização de um intercâmbio de pesquisadores nos dois países. De acordo com Vieiralves, o documento é fundamental para confirmar o interesse do Rio de Janeiro em receber o AIR Center e promover uma troca de conhecimentos entre pesquisadores. “A partir de agora, iremos começar a atuar para atingir, pouco a pouco, os objetivos do AIR Center. De início, pretendemos montar uma rede de pesquisadores, com financiamento da FAPERJ e um mínimo de burocracia possível. Esperamos que o primeiro edital com esse objetivo esteja pronto, no máximo, em três meses para começarmos a colaborar com essa iniciativa global. Esse é um trabalho de longo prazo e extrema importância e temos, no nosso estado, um amplo número de cientistas gabaritados que vêm pesquisando mares e oceanos há muito tempo”, disse o presidente da FAPERJ.


Vieiralves também enfatizou a importância da ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento do estado. “O Rio de Janeiro vem passando por uma crise nos últimos dois anos e a principal lição que aprendemos é que o estado precisa diversificar suas atividades econômicas para se reerguer. Na minha opinião, a melhor forma de fazer com que essa diversificação aconteça é por meio do investimento em ciência, tecnologia e inovação”, complementou.


O diretor do Parque Tecnológico da UFRJ, José Carlos Pinto, destacou a tradição da universidade em pesquisa e tecnologia. “A enorme tradição da UFRJ em áreas como engenharia oceânica, engenharia civil e exploração de petróleo em alto mar fazem com que a universidade esteja vocacionada a interagir fortemente com o AIR Center. O Parque Tecnológico da UFRJ conta hoje com o centro de supercomputação da Coppe, o Laboratório de Tecnologia Oceânica (LabOceano) e ainda com a presença de diversas grandes empresas desenvolvendo tecnologias para exploração de petróleo em águas profundas. Estamos muito motivados a participar dessa iniciativa e de braços abertos para receber a instalação de um polo do AIR Center num futuro próximo”, informa José Carlos.



Paulo Ferrão (E), do FCT, e Ricardo Vieiralves: assinatura do memorando para a criação de um polo de pesquisa do AIR Center no Rio de Janeiro (Foto: Lécio Augusto Ramos)

Durante o evento, o ministro português Manuel Heitor destacou que desenvolvimento econômico, tecnológico e social só é possível através do conhecimento e da criação de uma agenda científica inclusiva. “Criar e transformar o oceano Atlântico num centro de desenvolvimento social e econômico só é possível com mais conhecimento. O desafio que estamos partilhando com o Brasil e países da América Latina, África, Europa, além de uma série de instituições norte-americanas, é desenvolver uma agenda que seja inclusiva e que consiga reunir instituições científicas, pesquisadores, empresas e governos”, explicou o ministro.


O evento também contou com a participação de pesquisadores, representantes da Universidade do Minho (Portugal), UFRJ, Carnegie Mellon University, Marinha do Brasil, Petrobras, laboratórios da Coppe/UFRJ e empresas residentes do Parque Tecnológico da UFRJ. Além da criação do AIR Centre Data Intelligent Network, foram debatidos temas como o desenvolvimento e a integração de tecnologias espaciais e oceânicas, a ciência dos dados, estratégias de novos negócios intensivos em conhecimento no contexto das interações atlânticas, políticas públicas e cooperação entre União Europeia e Brasil. No final, os participantes foram convidados a conhecer o Laboratório de Tecnologia Naval e Oceânica da Coppe, localizado no Parque Tecnológico da UFRJ.


Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data de Publicação: 22/02/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3526.2.6

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Rochas ricas em grafita sugerem que porções dos dois países e da África já estiveram unidas há quase 2 bilhões de anos


© DANIEL SCHWEN / WIKIMEDIA





Análises de grafitas como estas ajudam a reconstituir a formação e a fragmentação de supercontinentes

Em 2016, durante uma expedição ao norte da China, o geólogo Wilson Teixeira, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP), notou uma semelhança entre as rochas ricas em grafita da região de Jiao-Liao-Ji e as do município de Itapecerica, no estado de Minas Gerais. De volta ao Brasil, ele e outros quatro geólogos confirmaram sua conclusão. Os depósitos de grafita brasileira e a chinesa se formaram há cerca 2 bilhões de anos, durante o período geológico Proterozoico, quando surgiram organismos unicelulares mais evoluídos. Detalhadas em um artigo publicado em maio deste ano na revista Precambrian Research, a idade da grafita e as características das rochas em que ela está incrustrada levaram os pesquisadores a propor que a região de Itapecerica e a de Jiao-Liao-Ji, hoje separadas por quase 17 mil quilômetros de distância, já foram vizinhas naquele passado distante, quando integraram um dos mais antigos supercontinentes da Terra, o Colúmbia.

Os geólogos estimam que o ápice da formação do Colúmbia ocorreu entre 1,9 bilhão e 1,8 bilhão de anos atrás como resultado da colisão do que hoje são partes dos atuais continentes. O supercontinente teria existido até por volta de 1,4 bilhão de anos atrás, quando começou a se desfazer em consequência do movimento de placas tectônicas, os imensos blocos que compõem a camada rochosa mais externa do planeta.

No artigo da Precambrian Research, Teixeira e os geólogos Maria Helena Hollanda, da USP, Elson Paiva Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Elton Luis Dantas, da Universidade de Brasília (UnB), e Peng Peng, da Academia de Ciências da China, propõem que uma região que inclui parte dos estados de Minas Gerais e da Bahia, na América do Sul, e da região do Congo, no oeste da África, poderia estar soldada no passado remoto ao norte da China no interior do Colúmbia.

A principal evidência dessa união são as idades das rochas ricas em grafita e as condições geológicas em que foram geradas em Minas Gerais e na China. “Esse mineral se forma em condições de elevada temperatura e pressão e, por isso, sinaliza regiões onde ocorreram gigantescas colisões entre continentes pretéritos”, explica Teixeira. Segundo ele, o fato de a grafita brasileira e a chinesa terem idades semelhantes indica que se originaram de processos de colisão ocorridos ao mesmo tempo ou em tempos próximos. O Brasil detém 27% das reservas mundias de grafita e a China, 56%.



Segundo Teixeira, caso o que é hoje parte da América do Sul tenha há 1,9 bilhão de anos de fato se avizinhado da região que corresponde ao norte da China, é quase certo que ali também estivessem partes do que seria a África. Nas últimas décadas, acumularam-se evidências de que Minas Gerais e Bahia estiveram unidas no passado remoto ao continente africano, formando uma estrutura geologicamente estável chamada cráton do São Francisco-Congo.

“Muito se debate sobre a configuração do Colúmbia”, conta o geofísico Manoel D’Agrella, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Ele é especialista em paleomagnetismo, área da geofísica que estuda a intensidade e a orientação do campo magnético da Terra que permanecem registradas nas rochas – as informações magnéticas registradas nelas revelam sua localização no planeta no momento em que se formaram. Nos últimos anos, D’Agrella e sua equipe tentam estabelecer as posições sucessivas que a região norte da América do Sul, o chamado cráton Amazônico, teria ocupado ao longo da existência do Colúmbia, como detalhado em um artigo de 2016 na revista Brazilian Journal of Geology. Ele começou a analisar rochas de Minas Gerais para verificar se as características magnéticas correspondem às da posição sugerida por Teixeira e seu grupo para os crátons São Francisco-Congo e Norte Chinês no Colúmbia. Muitos modelos propostos para explicar a disposição de partes dos atuais continentes no Colúmbia não consideram a formação São Francisco-Congo justaposta ao norte da China, que, em muitos casos, aparece unido ao que corresponde à atual Austrália.

A existência do Colúmbia foi sugerida em 2002 pelos geólogos John Rogers, da Universidade da Carolina do Norte, no Estados Unidos, e Madhava Santosh, da Universidade de Geociências de Beijing, na China, e, com base em semelhanças entre as formações rochosas da Índia e da região do rio Colúmbia, no estado norte-americano de Washington. Com o rompimento do Colúmbia, seus fragmentos teriam se rearranjado por volta de 1,1 bilhão de anos, formando o supercontinente Rodínia, que depois também se fragmentou. Dos fragmentos de Rodínia originaram-se a Laurásia, formada pela América do Norte, Groelândia, Europa e o norte da Ásia, e o Gondwana, que reuniria América do Sul, África, Austrália, Índia, Antártida e Madagascar. Por causa da movimentação das placas tectônicas, que se afastam ou se aproximam umas das outras com velocidades da ordem de centímetros por ano, os geólogos esperam que nos próximos 250 milhões de anos um novo supercontinente deva surgir: a Amásia, resultado da aproximação da América do Norte com a Ásia.

Projetos
1. Evolução de terrenos arqueanos do Cráton São Francisco e Província Borborema: Implicações para processos geodinâmicos e paleoambientais globais (nº 12/15824-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Elson Paiva de Oliveira (Unicamp); Investimento R$ 3.696.059,08.
2. Caracterização tectônica dos greenstore belts rio das Mortes, Nazareno e Dores de Campo: Implicações para a evolução crustal do cinturão mineiro (nº 09/53818-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Wilson Teixeira (USP) Investimento R$ 357.590,53.

Artigos científicos
TEIXEIRA, W. et al. U-Pb geochronology of the 2.0 Ga Itapecerica graphite-rich supracrustal succession in the São Francisco Craton: Tectonic matches with the North China craton and paleogeographic inferences. Precambrian Research. v. 293, p. 91-111. mai 2017.
D’AGRELLA FILHO, M. et al. Paleomagnetism of the Amazon craton and its role in paleocontinents. Brazilian Journal of Geology. v. 46, n. 2, p. 275-99. 2016.




Autor: VICTÓRIA FLÓRIO | ED. 261 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: NOVEMBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/11/24/brasil-vizinho-da-china/?cat=ciencia

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

América Latina e Caribe despejam 30% de seu lixo em locais inadequados

ONU


A geração diária de resíduos sólidos urbanos nos países da América Latina e do Caribe atingiu cerca de 540 mil toneladas, e a expectativa é de que, até 2050, o lixo gerado na região alcançará 671 mil toneladas por dia. É o que revelam dados apresentados pela ONU Meio Ambiente em evento realizado esta semana (21) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo.

De acordo com a agência das Nações Unidas, mais de 145 mil toneladas de lixo, ou cerca de 30% do total, são destinadas a locais inadequados diariamente na região.




Foto: Flickr/João Guilherme de Carvalho (Creative Commons)

A geração diária de resíduos sólidos urbanos nos países da América Latina e do Caribe atingiu cerca de 540 mil toneladas, e a expectativa é de que, até 2050, o lixo gerado na região alcançará 671 mil toneladas por dia. É o que revelam dados apresentados pela ONU Meio Ambiente em evento realizado esta semana (21) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo.

O levantamento, que faz parte do Atlas de Resíduos da América Latina, relatório da ONU Meio Ambiente que será lançado em breve, mostra que, em média, a cobertura da coleta na região da América Latina e Caribe supera 90%, mas pode variar de acordo com o país, e diminui sensivelmente nas periferias e áreas rurais.

De acordo com Jordi Pon, coordenador regional de resíduos e químicos da ONU Meio Ambiente e coordenador do estudo, “a região tem apresentado vários avanços na gestão de resíduos sólidos, porém, em relação à disposição final, ainda existe um déficit considerável, com mais de 145 mil toneladas de lixo, cerca de 30% do total, destinados para locais inadequados diariamente.

O tema da poluição, incluindo a causada pelos resíduos, faz parte de uma agenda mundial e é o principal tópico da Terceira Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, que acontecerá em Nairóbi, no Quênia, de 4 a 6 de dezembro. Como fórum decisório mundial de mais alto nível sobre questões ambientais, a assembleia reunirá governos, líderes empresariais, sociedade civil e outras partes interessadas em compartilhar ideias e se comprometer com ações contra a poluição.

Na ocasião, o novo relatório “Rumo a um planeta sem poluição“, do diretor-executivo da ONU Meio Ambiente, Erik Solheim, que traz um panorama atual de todos os continentes, permitirá examinar o que sabemos sobre a poluição e delinear elementos-chave de um quadro abrangente de ações para combatê-la.




Evento foi organizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em São Paulo. Foto: ONU Meio Ambiente

“Os dados apresentados pela ONU Meio Ambiente mostram que, mesmo com algumas melhorias alcançadas nos últimos anos, cerca de 170 milhões de pessoas ainda estão expostas às consequências desse problema em decorrência dos graves impactos causados ao meio ambiente (solo, ar e água) e à saúde da população”, disse Carlos Silva Filho, diretor-presidente da ABRELPE e membro do Comitê Diretivo do Atlas de Resíduos.

Na apresentação dos dados, Jordi Pon também destacou que o relatório faz uma análise sobre a composição dos resíduos sólidos urbanos. A fração orgânica, por exemplo, representa mais da metade de todo resíduo descartado nas cidades latino-americanas, índice que varia bastante de acordo com a renda do país. “Enquanto em países de baixa renda, 75% do lixo descartado é proveniente de matéria orgânica, em países com renda mais elevada esse índice é de 36%”, comentou Pon.

As informações apresentadas mostram ainda que é comum encontrar resíduos perigosos no lixo doméstico, como baterias, equipamentos elétricos e eletrônicos, remédios vencidos, entre outros. Já a fração restante é composta pelos chamados resíduos secos, como metais, papéis, papelão, plásticos, vidro e têxteis. De modo geral, as iniciativas de reciclagem atingem o índice de 20% em determinadas regiões da América Latina, em grande parte graças à contribuição do setor informal.

Pon também observa que praticamente todos os países da região contam com disposições e normas legais para serem cumpridas pelos geradores e manipuladores de resíduos, bem como penalidades por descumprimento, mas o quadro institucional é fraco. “Isso cria um vácuo de responsabilidades governamentais, com poucas ações de acompanhamento e monitoramento, resultando, entre outras coisas, em uma aplicação deficiente da lei tanto no setor público quanto no privado”, explicou o coordenador da ONU Meio Ambiente.

Outro tópico abordado pelo estudo diz respeito aos níveis de investimento público e privado em gestão de resíduos, apontando que os mesmos não são suficientes para financiar a infraestrutura necessária para mitigar as principais deficiências, como ampliação da cobertura de coleta, baixas taxas de reciclagem e disposição final inadequada.

“O estudo mostra que o financiamento é uma questão fundamental para a melhoria e sustentabilidade dos mecanismos de gestão de resíduos, especialmente na América Latina e no Caribe, onde os modelos financiados por recursos municipais prevalecem e, em muitos casos, os custos dos serviços não são recuperados em sua totalidade”, disse Carlos Silva Filho, concluindo que “ainda não há uma consciência clara do fato de que o custo econômico dos impactos negativos causados pela gestão inadequada dos resíduos (o custo da inação) é maior do que o custo de investimento em um sistema adequado”.

Os dados apresentados fazem parte de um projeto da ONU Meio Ambiente, originado a partir do lançamento do Altas Global de Gestão de Resíduos em 2016, e incluem relatórios sobre a situação dos resíduos sólidos na América Latina e Caribe, Ásia, Ásia Central, África, Regiões Montanhosas e Pequenas Ilhas-estado (SIDS).



Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/11/2017




Autora: ecodebate
Fonte: ONU
Sítio Online da Publicação: ecodebate
Data de Publicação: 24/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/24/america-latina-e-caribe-despejam-30-de-seu-lixo-em-locais-inadequados/