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quarta-feira, 24 de julho de 2019

População da Nigéria: bônus demográfico e armadilha da pobreza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A Nigéria é o país que vai apresentar o maior crescimento demográfico no século XXI e se tornará a 3ª nação mais populosa do Planeta, devendo ficar à frente dos Estados Unidos a partir de 2047 e atrás somente da Índia e da China. Segundo as estimativas e projeções da Divisão de População da ONU, a população nigeriana era de 37,9 milhões de habitantes em 1950 e deve chegar a 732 milhões em 2100, um crescimento de 19,4 vezes em 150 anos.

O gráfico abaixo, com dados da Divisão de População da ONU (revisão 2019), mostra que, além da população total, todos os grupos etários vão crescer, embora em ritmos diferentes. Ao contrário da maioria dos países que devem apresentar um pico populacional e depois um decrescimento em algum momento do atual século, a Nigéria vai manter o crescimento demográfico significativo até 2100. A população total vai crescer 19,4 vezes em 150 anos, o grupo 0-14 anos vai crescer 10,9 vezes, a PIA (15-64 anos) vai crescer 23,2 vezes entre 1950 e 2100, o grupo de idosos de 60 anos e mais vai crescer 56,3 vezes, o grupo de 65 anos e mais vai crescer 65,8 vezes e o grupo de idosos de 80 anos e mais vai crescer 140,7 vezes.







Nota-se que, a despeito do crescimento da população idosa em ritmo superior ao da população total e mesmo superior ao crescimento da PIA, as 3 categorias de idosos continuarão abaixo do montante da população jovem, de 0 a 14 anos. Isto quer dizer que o envelhecimento da população da Nigéria só ocorrerá no século XXII.

O alto crescimento da população gera uma estrutura etária rejuvenescida, com baixa proporção de pessoas em idade ativa e alta proporção da razão de dependência (RD). Entre 1950 e 1987, a percentagem da PIA (15-65 anos) em relação à população total da Nigéria caiu de 55,3% para 51,9% e a Razão de Dependência subiu de 80,9% para 92,8% (quase uma em duas pessoas estavam em idade considerada dependente). Mas a partir de 1988 a percentagem da PIA cresce e a RD diminui (com um pequeno rebote até 2013), o que significa que o bônus demográfico da Nigéria vai ser um dos mais longos do mundo e vai se prolongar durante todo o século XXI.







Porém, o bônus demográfico não é algo que pode ser aproveitado automaticamente. Ao contrário, uma estrutura etária favorável é essencial para o salto do desenvolvimento socioeconômico, mas nada adianta haver uma janela de oportunidade demográfica se a estrutura econômica e social não gera as condições para melhorar as condições de saúde, educação e, principalmente, pleno emprego e trabalho decente. Também é necessário haver sustentabilidade ambiental.

De fato, as condições demográficas, teoricamente, favoreceria o crescimento econômico. Todavia, não é o que vem acontecendo. Segundo dados do FMI (WEO, abril de 2019), a renda per capita da Nigéria (em poder de paridade de compra – ppp) era de US$ 3.139 em 1990, caiu para US$ 2.855 em 1999 e subiu nos anos 2000 até atingir o máximo de US$ 5.754 em 2014. A partir de 2015 a renda per capita da Nigéria iniciou uma trajetória de queda e deve alcançar US$ 5,279 em 2024, abaixo do valor da renda de 2011. Ou seja, a Nigéria completará 13 anos perdidos, com queda da renda per capita, a despeito das condições favoráveis da estrutura etária.

A participação do PIB da Nigéria no PIB global caiu na década de 1990 (de 0,67% para 0,55%) subiu até o pico de 0,95% em 2014 e deve ficar em 0,81% em 2024. Isto quer dizer que a população da Nigéria está crescendo mas ficando cada vez mais pobre em termos absolutos e em termos relativos.

A situação de estresse econômico e ambiental agrava a situação de pobreza do país. Em artigo do ano passado (Alves, 16/11/2018) busquei mostrar que a Nigéria está em uma armadilha do baixo crescimento econômico (em um quadro de alto crescimento demográfico) e está se transformado em uma fábrica de geração de pessoas pobres. A taxa de nigerianos vivendo em situação de extrema pobreza está em torno de 50% e também não tem perspectiva de melhora nos próximos anos.







Isto quer dizer que há cerca de 100 milhões de pessoas vivendo na extrema pobreza na Nigéria atualmente e este número pode ultrapassar 200 milhões até 2050. A cidade de Lagos, com cerca de 20 milhões de pessoas na região metropolitana, é uma das megacidades mais vulneráveis à elevação do nível do mar. Milhões de pessoas ficarão desalojadas pela invasão das águas salgadas.

As mudanças climáticas devem dificultar a luta para vencer a miséria. Não só a Nigéria, mas o mundo, terá dificuldade para cumprir o objetivo 1 (“Erradicação da Pobreza”) dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que pretende “Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares” até 2030.

A Combinação de crise econômica, crise ambiental e alto crescimento demográfico tende a fazer explodir a extrema pobreza, condenando milhões de pessoas ao sofrimento. Ao invés do bônus demográfico contribuir para o crescimento da renda e a redução da miséria, a “armadilha da pobreza” pode fazer a Nigéria perder a oportunidade de colher os frutos de uma estrutura etária favorável.



José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382



Referência

ALVES, JED. Nigéria: colapso ambiental e fábrica de pobreza? Ecodebate, 16/11/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/11/16/nigeria-colapso-ambiental-e-fabrica-de-pobreza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/07/2019




Autor: José Eustáquio Diniz Alves
Fonte: Ecodebate
Sítio Online da Publicação: Ecodebate
Data: 24/07/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/07/24/populacao-da-nigeria-bonus-demografico-e-armadilha-da-pobreza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

sexta-feira, 2 de março de 2018

Por que um dos maiores lagos do mundo já perdeu 90% de sua água em 4 décadas




Antes de começar a secar, o lago Chade era como uma espécie de mar interno na África (Foto: Getty Images)

Tratava-se do sexto lago maior do mundo e, nas fotos de satélite, chamava a atenção a intensidade da cor azul que o identificava.

Essa é descrição feita por Mary Harper, editora da BBC África, do passado do hoje agonizante lago Chade, que até o início dos anos 70 era como um mar dentro do continente.

Hoje, o lago compartilhado por Níger, Nigéria, Chade e Camarões é como uma imensa colagem de grandes poças em meio a grandes extensões de terra.


"Os povoados e cidades que antes contornavam a margem agora estão separados por hectares de desertos", diz Harper.




Mapa mostra a mudança no lago Chade entre 1972 e 2001 (Foto: Unep)

A razão dessas mudanças geográficas é que o lago Chade perdeu entre 80% e 90% de sua superfície nas últimas quatro décadas.

A essa crise se soma a violência do grupo radical islâmico Boko Haram, que atinge os quatro países que rodeiam o lago.

Nesta semana, representantes dos governos de 12 países e organizações como o Banco Mundial estão reunidos na Conferência Internacional do Lago Chade (ICLC), em Abuja, na Nigéria, para discutir formas de salvá-lo.



Sem água e sem pesca



O lago era a principal fonte de água do Cinturão do Sahel, uma área de 5 mil km que corta toda a África, indo do oceano Atlântico ao mar Vermelho e que serve de transição entre o deserto do Saara e a savana africana.



Nos anos 60, o lago ocupava uma área de 25 mil km² e tinha 135 espécies de peixes, segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura). Mas, nos anos 80, sua superfície foi reduzida a 2,5 mil Km², 10% de seu tamanho original.


Mesmo que em 2013 as chuvas na região tenham registrado um aumento excepcional, sua superfície aumentou apenas 5 mil km², 20% do que já foi, segundo a ICLC.


Um estudo publicado na revista científica Environmental Research Letters em 2011 e entidades como a ONU assinalam que a perda de volume é superior a 90%.


Essa situação afeta cerca de 40 milhões de pessoas que dependem do lago para obter água potável, pescar e cultivar as terras a seu redor.


A seca, dizem os organizadores da ICLC, provocou a perda de pastagens e o início da migração para a savana da Guiné.


Mas quais são as causas dessa situação tão dramática?




Lago chegou a ter mais de 130 espécies de peixes; a pescaria é uma das únicas fontes de renda e de alimentação para muitos que vivem perto dele (Foto: Getty Images)



Uma pergunta, algumas respostas



Não há uma só causa para o desaparecimento do lago.


Ele está sumindo devido ao manejo insustentável da água para o consumo humano e animal e também pela mudança climática.


Um estudo publicado na Environmental Research Letters atribui o desastre à tendência do lago em se dividir em outros menores em certas épocas e à extração de água para a irrigação, o que impede que ele volte a encher totalmente novamente.



A construção de represas para projetos hidrelétricos nos rios que o alimentam também teve efeito devastador. Além disso, a população local diz que a quantidade de chuvas diminuiu muito desde os anos 1970.


Outra das razões da tragédia é uma má aplicação da legislação ambiental, segundo o Banco Mundial.


A Conferência do Chade acrescenta que "os mais de dois milhões de deslocados por causa da insurgência do Boko Haram, que estão reunidos nas margens, aumentam a pressão sobre o lago".


O extremismo e o deslocamento massivo de gente ali têm sido qualificados como a "crise mais ignorada do mundo". A ONU estima que quase 11 milhões de pessoas necessitem de ajuda humanitária por causa desse conflito.


Alertas




Lago Chade era a principal fonte de água do Cinturão do Sahel, uma área de extensão de 5 mil Km² (Foto: Getty Images)


Há pelo menos 15 anos as autoridades estão falando sobre a crise do lago Chade.


"É um fato que o lago está em perigo. É verdade que, se não fizermos nada a respeito, ele se transformará em história", disse em 2004 o então presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo.


A Unesco informou que apresentará na ICLC um projeto para "preservar os oásis que restaram e evitar que eles sequem" e para impulsionar atividades econômicas ali, como a produção de uma alga chamada spirulina.


As pessoas que moram ao redor do lago Chade esperam que não seja tarde demais.



Autor: BBC
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 02/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/por-que-um-dos-maiores-lagos-do-mundo-ja-perdeu-90-de-sua-agua-em-4-decadas.ghtml