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quarta-feira, 11 de julho de 2018

A idade do leite



Ossos e dentes encontrados em sítios arqueológicos podem guardar informações importantes sobre os indivíduos a que pertenceram, como traços anatômicos, idade aproximada e presença de doenças. A reconstituição dos hábitos alimentares, ainda que de forma parcial, também é possível por meio da análise da concentração de diferentes isótopos estáveis de dois elementos químicos que se preservam no esqueleto humano: carbono e nitrogênio. Um trio de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) usou essa abordagem para analisar fragmentos de 60 indivíduos, adultos e crianças, que viveram, entre 3.100 e 1.500 anos atrás, na área hoje ocupada pelo sambaqui Jabuticabeira II, sítio arqueológico localizado no município litorâneo de Laguna, cerca de 100 quilômetros ao sul de Florianópolis, em Santa Catarina. O trabalho reuniu evidências de como deve ter sido o padrão de amamentação adotado pelas mulheres da população de pescadores-coletores que habitou a região.

Segundo o estudo, publicado em 10 de maio no Journal of Archaeological Science: Reports, os recém-nascidos alimentavam-se exclusivamente de leite materno até por volta dos 6 meses de idade, quando outros tipos de comida, ricos em proteínas ou carboidratos, começavam a ser introduzidos progressivamente em sua dieta. O desmame total ocorria entre o segundo e o terceiro ano da criança, em média aos 2,3 anos de idade. “Não constatamos diferenças significativas no tempo de amamentação e no perfil da dieta após o desmame em função do sexo dos bebês”, comenta o bioarqueólogo peruano Luis Pezo-Lanfranco, do Instituto de Biociências (IB) da USP, principal autor do trabalho. “Mas esse tópico ainda precisa ser estudado em detalhe.” Aparentemente, os sambaquieiros de Jabuticabeira II não privilegiavam os meninos na hora de repartir a comida, prática às vezes verificada em algumas culturas.


Ossos da costela de crianças, foram usados para reconstituir a dieta do antigo povo do sambaquiImagem: Léo Ramos Chaves

A partir da quantidade de carbono e de nitrogênio extraídos da proteína colágeno e do mineral apatita, ambos encontrados em ossos e dentes, as técnicas usadas no trabalho permitem inferir o peso dos principais grupos de alimentos – proteínas animais, gorduras e carboidratos – na dieta consumida por uma pessoa em diferentes fases da vida. “Com elas, simulamos um estudo longitudinal na antiga população de Jabuticabeira II e determinamos a idade em que as crianças eram exclusivamente amamentadas, quando passaram a receber alimentação complementar e foram totalmente desmamadas”, comenta a bioarqueóloga Sabine Eggers, professora licenciada do IB e atualmente curadora do Museu de História Natural de Viena, outra autora do estudo. “Também comparamos a dieta das crianças com a dos adultos.” No total, o estudo analisou 106 segmentos de dentes ou ossos (quase sempre costelas), de 39 adultos e de 21 jovens de até 18 anos, entre os quais seis bebês. Da amostra, 20 eram homens, 13 mulheres e 27 de sexo indeterminado.

Dentes e ossos são estruturas valiosas para inferir por quanto tempo um recém-nascido recebeu leite materno, além de outros aspectos da dieta. A estrutura de dentes sadios conserva os elementos químicos armazenados no momento de sua formação. Diferentes segmentos de um mesmo dente se originam em idades distintas do desenvolvimento humano. O primeiro molar permanente, por exemplo, começa a formar sua coroa aproximadamente entre os 6 meses de idade e 2 anos e meio e conserva, como uma cápsula de tempo, elementos da dieta consumida pelo indivíduo quando bebê. Como esse dente se conserva por décadas, é possível comparar suas diferentes partes em busca de registros de mudanças alimentares ao longo do tempo. Já as costelas guardam a assinatura química dos ingredientes que entraram no cardápio dos últimos seis meses da vida de um indivíduo.


Controlar o tempo de amamentação era uma forma de os povos antigos modular seu crescimento demográfico

Além de fornecer informação sobre práticas alimentares e culturais, o tempo de lactação é uma ferramenta para estimar a taxa de crescimento de grupos pré-históricos. Como mulheres que amamentam têm menos chance de engravidar, dar o peito para os bebês é uma forma natural de controlar a natalidade. Populações sedentárias, que têm mais recursos em sua área de moradia e geralmente praticam agricultura, tendem a desmamar os filhos mais cedo, entre o primeiro e o segundo ano de idade. Seu crescimento demográfico é mais acelerado. Nas culturas nômades, sem local fixo de moradia, as populações costumam ser menores. Há menos alimentos à disposição e a fase de lactação pode se prolongar até os 3 anos de idade como forma de espaçar os nascimentos.

O cenário populacional no sambaqui Jabuticabeira II não se encaixa nos modelos mais esquemáticos e pode ser interpretado como um caso intermediário ou de transição. O tempo médio de amamentação das crianças, superior aos dois anos, sinaliza um crescimento demográfico significativo, ainda que com uma intensidade menor do que a associada a grupos totalmente sedentários. “Os sambaquieiros de Laguna eram vistos como caçadores-coletores nômades, mas tinham muitos recursos marinhos à disposição e cultivavam algumas plantas”, pondera Paulo DeBlasis, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, que escavou Jabuticabeira II e outros sítios na região de Laguna e também é coautor do estudo sobre lactação. “Tinham uma economia estável e uma boa densidade populacional, como apontam vários estudos que fizemos, inclusive esse sobre o tempo de amamentação.”

Projeto
Adaptação e produção de alimentos em baixa escala: Evidências bioarqueológicas em populações pré-históricas litorâneas brasileiras (nº 15/05391-3); Modalidade Bolsa de Pós-Doutorado; Pesquisadora responsável Regina Célia Mingroni Netto (USP); Bolsista Luis Pezo-Lanfranco; Investimento R$ 182.802,89.

Artigo científico
PEZO-LANFRANCO, L. et al. Weaning process and subadult diets in a monumental Brazilian shellmound. Journal of Archaeological Science: Reports. 10 mai. 2018.




Autor: Revista Pesquisa FAPERJ
Fonte: Revista Pesquisa FAPERJ
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa FAPERJ
Data de Publicação: 10/07/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/06/18/a-idade-do-leite/

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O avesso da história: da África ao Brasil afrodescendente

“Até que os leões inventem suas histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” Não é por acaso que o provérbio africano já está logo na página de abertura do livro História da África e do BrasilAfrodescendente (Ed. Pallas, 407 p., 2017). Faz sentido. Para a autora, Ynaê Lopes dos Santos, professora adjunta do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDoc), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a frase ilustra o enfoque com que procurou contar a história nos dois lados do Atlântico. Como explica a autora, história é construção. “Portanto, ao se mostrar a possibilidade de outros olhares, também se abre a perspectiva de novos enfoques.”

No caso da África, dada a tradição de oralidade de suas diversas culturas, os historiadores daquele continente precisaram se valer de estudos arqueológicos, linguísticos e antropológicos para traçar uma produção historiográfica que não fosse eurocêntrica. Foi nessa produção mais recente que Ynaê concentrou suas pesquisas. “Adotei no livro uma abordagem paradidática, para possibilitar a leitura por um público mais amplo e também para estabelecer pontes entre a história africana e a do Brasil, já que para cá vieram milhões de escravizados daquele continente.”

O livro foi pensado a partir da obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas de Ensino Fundamental e contou com o apoio de um Auxílio Básico à Pesquisa (APQ 1), da FAPERJ. “Procurei diminuir o hiato entre o que se produz na Academia e o que era ensinado nos colégios. Afinal, o Brasil é um país cuja história foi construída por milhares de africanos e seus descendentes, homens e mulheres que durante muito tempo tiveram suas vidas e trajetórias pouco contadas ou totalmente silenciadas. Ampliar o conhecimento sobre esse passado é também uma forma de entendermos melhor o mundo e a nós mesmos. E tudo isso ajuda a construir a identidade de muitos estudantes – sobretudo os afrodescendentes – a partir de lastros históricos”, acrescenta Ynaê.


Os diversos tipos físicos dos diferentes povos africanos trazidos como escravos para o Brasil (Reprodução: Debret, Kingsley, Morel, Reclus e Rugendas)


Na época em que lecionava para alunos do Ensino Fundamental, Ynaê percebia a enorme confusão quando o assunto era a África. “A maioria vê como uma coisa só, e não como um continente com inúmeros países. Eles conhecem o Egito, mas têm dificuldade, por exemplo, em situá-lo no norte da África.” No livro, ela procura desfazer diversos desses mitos, com mapas e fotos. Para começar, ela enfatiza que nos mais de 30 milhões de km2 daquele continente – um território quase três vezes maior do que a Europa –, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), era possível contar, em 2015, mais de um bilhão de pessoas distribuídas por 55 países independentes.

Outro mito recorrente seria “uma maior facilidade” dos africanos em aceitar a escravidão já que muitas sociedades daquele continente a praticavam. Ela explica as enormes diferenças entre a escravidão moderna, como a que se deu não só no Brasil, mas em vários outros países das Américas até o século XIX, e a praticada nas sociedades africanas.

“Na escravidão moderna, a produção econômica, com suas plantações de produtos para exportação, dependia do trabalho escravo para funcionar, enquanto na África, o escravo era consequência de guerras ou conflitos internos e sua atuação era auxiliar o dono na roça e nos trabalhos domésticos. Mas, principalmente, não há mercado, o escravo não era considerado uma mercadoria, como para os europeus que atuavam no tráfico negreiro”, esclarece. A resistência à escravização ainda no continente africano também foi intensa. Caçados por povos inimigos ou por europeus, habitantes de aldeias inteiras fugiam para o interior. É célebre o caso da rainha Nzinga, do reino de Ndongo, na África Centro-Ocidental, que lutou bravamente contra os portugueses e ficou conhecida como uma grande guerreira.

Os que acabavam capturados e vendidos aos europeus tinham pela frente a longa travessia do chamado Calunga Grande, o oceano Atlântico. A viagem, que podia levar de 25 dias a dois ou três meses, dependendo do porto de destino, era um tormento a mais. Além das crenças, para muitos desses povos, de que o mar era a separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, eles vinham acomodados nos porões, em espaços que muitas vezes tinham apenas um metro de altura, o que só lhes permitia ficar sentados, enfileirados, um entre as pernas do seguinte, com permissão para subir ao convés para tomar sol, durante um breve intervalo no dia. O resultado era que boa parte dessa carga humana morria pelo caminho.


Para Ynaê Santos, a luta contra a discriminação está longe de acabar (Fonte: Divulgação)


Uma vez no Brasil, esses africanos e seus descendentes tinham diante de si uma existência de trabalho, fosse nas plantações de cana-de-açúcar, na mineração, no plantio do algodão ou do café. Mas apesar das jornadas que variavam de 12 a 18 horas, alguns escravos aprenderam a negociar com seus senhores melhores condições de vida e mais espaços de autonomia, para, por exemplo, plantar sua própria roça e melhorar a alimentação. Com isso, às vezes eles conseguiam um pequeno excedente para vender e guardar o dinheiro obtido para no futuro comprar a sonhada alforria. “Essa acabou se tornando uma prática comum nos engenhos de açúcar e fazendas de café, já que também era um negócio vantajoso para os senhores. Tornava-se um incentivo para os escravos trabalharem com maior eficiência e diminuía a possibilidade de fuga, já que eles precisariam pensar duas vezes antes de abandonar suas pequenas plantações”, fala a autora.

Nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro, além do trabalho doméstico, os escravos eram alugados para realizar uma série variada de tarefas. Eram os escravos de ganho, que ofereciam seus serviços pelas ruas e pelo comércio em troca de pagamento, que em parte era entregue a seu senhor. Fosse na estiva, junto ao porto, trabalhando como ferreiros, reparando o calçamento das ruas, fazendo a limpeza urbana ou vendendo de galinhas a doces e angu, a população escrava na cidade era numerosa, o que costumava chamar a atenção de viajantes estrangeiros.

O fato é que entre os séculos XVI e XIX, a resistência à escravidão se manifestou de diversas formas, seja fazendo "corpo mole" nas plantações, danificando ferramentas e máquinas de trabalho, como as engrenagens de uma casa de engenho, por exemplo. Além do enorme prejuízo pelo conserto do equipamento, isso também significava vários dias de trabalho parado. Eram atitudes arriscadas e, portanto, raras, já que se descoberto, o castigo era violento, como forma de exemplo para os demais. As fugas também foram frequentes, fosse como forma de negociar melhores condições de trabalho ou mesmo para conseguir juntar-se aos mocambos ou quilombos e viver longe do cativeiro. Embora o Quilombo dos Palmares, na Capitania de Pernambuco, tenha se tornado o mais conhecido e um dos mais duradouros, a verdade é que os quilombos se multiplicaram por todo o império. No Rio de Janeiro, também ficou conhecido o Quilombo das Camélias, no que mais tarde seria conhecido como o bairro do Leblon.

“A assinatura da Lei Áurea, em 1888, apenas acabou com o cativeiro no Brasil, mas não propôs nem ofereceu alternativas para os milhares de ex-escravos que tinham obtido a liberdade”, afirma Ynaê. Da mesma forma, a proclamação da República, um ano mais tarde, também não significou qualquer mudança para os negros. “Na realidade, o novo projeto de Brasil defendido pelos republicanos entendia que a população negra era sinônimo de atraso. Para se tornar uma nação poderosa, era preciso que sua população fosse branca”, continua. Para isso, a ideia era branquear o país com levas de migrantes europeus, política que vigorou nos primeiros anos da República.

Mesmo enfrentando um enorme preconceito, alguns trabalhadores negros conseguiram se incluir no competitivo mercado de trabalho das principais cidades brasileiras, em fábricas ou em empregos informais. Alguns deles conseguiram se destacar, o que possibilitou a formação de algumas poucas famílias de classe média. Para discutir a discriminação e pensar alternativas para melhorar as condições de vida dos afro-brasileiros, trabalhadores e intelectuais negros criaram associações, grêmios, clubes e jornais. Em 1931, a Frente Negra Brasileira foi criada com o objetivo de integrar a população negra em pé de igualdade com o restante da sociedade. Rapidamente, a ela se associaram cerca de cem mil integrantes pelo País. Foi assim até 1938, quando a Frente Negra e todas as publicações da imprensa negra foram fechadas durante a ditadura Vargas.

A efervescência dos anos 1960 trouxe à tona os diferentes movimentos libertários, entre eles o Black Power americano, o reggae jamaicano e as lutas anticolonialistas na África. Os reflexos no Brasil se fizeram sentir nas décadas seguintes, com o surgimento de várias organizações de Movimento Negro pelo País, ao longo dos anos 1970 e 1980. “Embora seja inegável que inúmeras conquistas tenham sido alcançadas, como a configuração do racismo como crime inafiançável ou a lei de cotas para o ingresso de negros na universidade – também alvo de enorme polêmica –, essa luta ainda está longe de acabar”, conclui.



Autor: Vilma Homero
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data de Publicação: 27/04/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3557.2.0

segunda-feira, 26 de março de 2018

Saúde pública como precursor de uma nova era para a população brasileira

Apresentamos a história da saúde pública como marco importante na saúde da população, tendo como objetivo principal caracterizar as mudanças ocorridas no decorrer da história da saúde pública brasileira com enfoque para década de 1980 e 1990. Avaliando como as transformações de cada período influenciaram a saúde da população em geral. O estudo tem como pressuposto a seguinte hipótese: as modificações ocorridas no decorrer da história da saúde pública trouxeram benefícios à população em geral, ou seja, todos têm acesso à saúde independente do lugar em que vive, sexo, idade, raça, etnia e situação sócio econômica.


Objetivo desses sanitaristas era pesquisar o contexto politico e cultural e as condições sanitárias do país, para estabelecer os moldes de sua atuação para os brasileiros e exigir que o Estado exercesse maior controle sobre as políticas sanitaristas nas regiões brasileiras. Dos movimentos organizados surge a Previdência Social no Brasil em 1923 ainda no século passado quando os movimentos trabalhistas urbanos criam as Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPS). Este decreto legislativo ficou conhecido como Lei Elói Chaves (Decreto 4.628, de 24 de janeiro de 1923) criando as Caps. Que conseqüentemente são transformados em Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPS), com forte peso dos sindicatos de trabalhadores e entidades patronais, em relação ao governo federal, na sua organização e gestão, inclusive, da assistência médico-hospitalar (JUNIOR; JUNIOR, 2006 MATOS; SANTOS, 2007). Tais institutos foram o IAPTEC (para trabalhadores em transporte e cargas), IAPC (para os comerciários), IAPI (industriários), IAPB (bancários), IAPM (marítimos e portuários) e IPASE (servidores públicos) (JUNIOR; JUNIOR, 2006). Só tinham direito aos benefícios, ou seja, a saúde os trabalhadores que contribuíam para a Previdência aqueles “com carteira assinada”.


Autor: Liliani Travezani Martins
Fonte: Revista SUSTINERE
Sítio Online da Publicação: Revista SUSTINERE
Data de Publicação: 01/09/2017
Publicação Original: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/sustinere/article/view/28282/23151

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A EDUCAÇÃO EM EXAME

Desde a primeira participação nos testes PISA até à última grande avaliação, Portugal passou da cauda da OCDE para resultados acima da média dos países da organização. Esta é a história de um sucesso, mas também do muito que ainda há a fazer.





Autora: Educação em Exame
Fonte: 
Educação em Exame
Sítio Online da Publicação: 
Educação em Exame
Data de Publicação: 26/10/2017
Publicação Original: https://educacaoemexame.pt/